"Eu sou a aberração. A cada passo seu, avanço dois em sua direção"

Agnaldo abraçou sua colega, diante de seu gesto de desespero contido. A casa de dois pavimentos, construída no início do século XX, apesar do aspecto abandonado, ainda mantinha a beleza do estilo neo-clássico.

O nome da jovem bibliotecária, agora já sabiam. Marta Andrade.
Órfã, sem parentes conhecidos, os vizinhos raramente a viam entrar ou sair da propriedade. Um corretor de imóveis, entrevistado um dia antes, contou como a assediara meses a fio, procurando convencê-la a vender o prédio.

____Eu falei para a senhorita Marta que a casa era muito grande para uma pessoa tão solitária, além de que o imóvel precisaria passar por reformas e manutenção urgente. Existem trincas aqui e ali. Goteiras. Moça estranha esta. Ofereci uma boa quantia mas ela insistia que fora criada ali e ali permaneceria até o dia de sua morte.

Para Agnaldo e Victória, encontrar Marta não foi tarefa fácil. Demandara semanas de investigações exaustivas A policial agora chefiava, a mando da Delegada Chefe, uma equipe que escolhera a dedo.

Corriam contra o tempo. O serial killer a quem nomearam de "Legado de Nix" estava em algum lugar, certamente arquitetando minuciosamente como alcançaria sua próxima vítima e Victória estava decidida a capturá-lo antes que tornasse a matar.

Localizar a bibliotecária, era peça chave no início das investigações, pois fora ela quem descobrira a existência do assassino e boa parte de suas peculiaridades monstruosas e doentias.

Agora, Vick, sentada em uma cadeira Luiz XV de estofamento gasto pelo tempo, contemplava desolada aquele corpo franzino que oscilava suavemente, como um pêndulo macabro, preso em uma corda que por sua vez se encontrava amarrada no candelabro de cristal da biblioteca.

Agnaldo tirava suas conclusões enquanto observava detalhadamente o corpo.

_____A Infeliz se matou, e avaliando seu estado, isso deve ter acontecido no máximo 24 horas ou algumas horas a mais.

Victória ergueu o queixo furiosa com o sentimento de impotência e frustração que a dominava.

_____Será que se matou mesmo? Ou será que o "Legado de Nix" não lhe ofereceu uma "mãozinha"?

Agnaldo balançou a cabeça, não se convencendo da teoria da colega.

_____Tudo bem! Pode ser que eu esteja "viajando" em minhas teorias, mas só vou sossegar quando encontrar o tal bilhetinho de "adeus, vida cruel" que os suicidas sempre deixam. Eles "precisam" justificar à sociedade os motivos, por mais absurdos que sejam, que os levaram a optar pela auto-destruição.

_____Ok! Então vamos dar outra procurada cuidadosa enquanto a equipe da Polícia Técnica e os legistas não chegam. - concluiu o policial.

Passaram a escrutinar os móveis, o chão e todas as superfícies da sala, sem tocar em nada. Victória retirou a máquina fotográfica Polaroid de sua mochila de couro e fotografou vários detalhes do local.

Analisaria tudo cuidadosamente depois. Podia ser que algo lhes escapasse do crivo naquele momento tenso.

_____Olha o lugar interessante para uma bibliotecária dar "cabo" da vida. A própria biblioteca de sua casa. - observou um dos peritos que acabara de chegar.

Vick não achava nada interessante ali. Por mais que convivesse diariamente com a morte, não conseguia e não queria banalizá-la. A perda de uma vida, ia contra seus instintos de policial que era, antes, o de proteger. Depois atacar se necessário, aos predadores.

_____Acho que em outra "encarnação" eu devia ter sido um cachorro São Bernardo - brincara com o colega, certo dia.


Desceu as escadarias, sempre fotografando. Naquela manhã, ela e Agnaldo não precisaram arrombar a porta para entrar na casa. Encontraram a que dava acesso pelos fundos, apenas encostada.

Antes haviam chamado por Marta, por longos e tensos minutos. Decidiram por fim, entrar, já com a sinistra sensação de que alguma fatalidade havia ocorrido e na medida de que isso se comprovou, vários sentimentos intensos a invadiram, principalmente o de culpa.

Lembrou-se do dia em que a jovem a havia abordado na delegacia, oferecendo seu precioso dossiê e a policial não pôde atendê-la. Agora, tinha a sensação desagradável de que seria responsável por tudo que ocorresse daquele dia em diante e que de alguma forma poderia ter evitado.


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Capítulo 2: Atos são pássaros engaiolados, sentimentos são pássaros em vôo.

Vick desceu as escadarias no exato momento em que as equipes médicas e de peritos chegaram no local. Lizandra entrou no ambiente com seus passos elegantes e Victória sentiu suas faces queimarem. Tentou disfarçar como pode. A médica passou em sua roupa branca impecável. Nas mãos aquela valise, onde se pode encontrar tudo, de bisturi a batom. Seu perfume atingiu a policial em cheio e esta se sentia irritada diante de sua situação de tamanho embaraço. Encarou os dois médicos assistentes de Liz com olhar nada amigável. Eram homens jovens e cheios de vitalidade. Possivelmente cheios de hormônios também. Sentia um desconforto indescritível e incompreensível para si. Estivera evitando a médica desde o evento traumático da "favela do Adeus", quando Eduardo, seu ex colega e um traidor sem escrúpulos quase lhe dera cabo da vida. Louise fora o anjo que a retirara das garras da morte certa. Desde aquele dia, desenvolvera uma espécie de fobia de quase-morte e passara a ter pesadelos e Lizandra infelizmente lhe aparecia com freqüência entre os protagonistas destes.
A primeira reação da médica foi insistir em procurar por Vick, tentando falar-lhe, explicar-se, mas era evitada constantemente até que se afastou e apenas se tratavam como colegas cordiais.

_____Onde está o corpo? - perguntou a médica.

_____Na biblioteca! - respondeu Victória, desejosa de desembaraçar-se o mais rápido possível.

_____então, rapazes, vamos ao trabalho, chamou Lizandra e continuou a galgar a escadaria enquanto Vick alcançava a porta de saída da residência, rapidamente. Saiu e sentou-se nas escadarias que davam acesso a porta principal, à sombra do belo frontão sustentado por duas colunas. A sensação de estar sufocando aos poucos desaparecia. Piscou várias vezes diante da luminosidade daquela manhã deliciosa. Repentinamente, um gato branco com malhas cinzas escapa da porta entreaberta. Vinha de algum lugar do interior do imóvel. Tinha a aparência assustada mas ao passar pela estranha, cheirou-a e passou a alisar-se em suas pernas.

_____Vem cá bichano... você tem dono? - viu a coleira vermelha com um pequeno guizo dourado. No interior o endereço da casa, um nome: Luddy e após, as iniciais: M.C.A.

Não foi difícil para a policial chegar à conclusão sobre o que significavam as inicias. Marta Correia Aguiar.

_____Então você é o felino da casa, é? - conversava suavemente com o gato, afagando-lhe o pêlo macio e bem cuidado. O animal cheirou-lhe o rosto e pousou as duas patas na face de Vick. Estava faminto.

____Vou levá-lo para casa. Conhecerá sir Lancelot. Não tem ninguém que cuide de você agora, não é?

Uma folha seca da árvore próxima crepitou.

____Conversando com um gato, policial?

A voz da repórter do jornal "Arauto da Notícia" ecoou no dia, como se em uma estória de faz-de-conta.

____O que a solidão não faz? Estava pedindo este felino em namoro!

Apesar da resposta aparentemente espirituosa, o olhar de Vick demonstrava claramente para a repórter que sua presença não era bem-vinda.

____Ora! Não precisa se aborrecer, investigadora! Estou apenas tentando trabalhar, como você!

____Não como eu! Você está apenas em busca de uma carne morta, como as aves de rapinas. Tudo em nome da notícia, do "furo" da semana!

____Não seja preconceituosa e agressiva. Como já disse: estou apenas trabalhando...

____Tudo bem, mas lamento informar que não posso ajudá-la em nada e estamos interditando a casa até que as equipes terminem o trabalho e retirem o "corpo".

____O "corpo"? - os olhos castanhos escuros da repórter brilharam.

____Sim! Mas... verá que é infelizmente é mais uma ocorrência trivial. O jornal está cheio. Procure outra notícia para sua capa...

____Que tal você? Está me devendo uma entrevista e um almoço, lembra?

____Como poderia esquecer? Porém...

____Porém?

____Lamento desapontá-la mas o almoço está fora de questão! Hoje de manhã o horóscopo me informou que vou ser abduzida ao meio-dia e sei que você, como moça gentil que é, não desejaria que eu perdesse um evento importante como este em minha vida!

Marta Moraes, a jornalista, empertigou-se toda. Naquela fração de segundo Vick raciocinou: ___ou ela ataca ou recua.

O rosto da morena abriu-se em um sedutor sorriso e a policial concluiu para si que "tímidos" jamais poderiam seguir a carreira de jornalista ou repórter. Era preciso ser despojado de qualquer vergonha e inibição para se forjar um profissional eficiente e ali na sua frente havia um belo exemplar de um deles.

_____Seu humor continua irresistível, mas não estou aqui porque senti "cheiro de policial ranzinza" no ar. Estou farejando mais e talvez tenha em meu bolso, algo que possa lhe interessar.

Victória tentava avaliar se estava diante de um blefe ou de algo novo, quando Agnaldo apareceu pela porta, vermelho e a informou de uma fôlego só.

_____Encontraram o "bilhete"! Está bem danificado, mas a parte legível não deixa dúvidas de eu se trata de uma melosa despedida da vida.
A policial levantou-se e acomodou suavemente o gato que tinha ao colo, dentro de sua jaqueta de couro. Não tinha mais nada a fazer ali no momento.

_____como pode ver! Apenas uma ocorrência trivial. - reafirmou para a jornalista enquanto preparava-se para sair. Agnaldo retornou para o interior da casa.
Os outros policiais componentes da equipe da Polícia Técnica chegaram apressados e aproveitando a oportunidade, Vick montou em sua moto e tornava a acariciar o felino que estava entre sua jaqueta e sua blusa.

_____Tenha calma! Eu vou cuidar de você!

O animal aninhou-se no interior de seu recente abrigo, como um filhote se abriga na bolsa da mamãe canguru.

Marta Moraes não se deu por vencida.

_____Eu sempre soube onde a bibliotecária morava! Minha equipe acompanhava a rotina dela há um mês! - disparou.

Vick levantou a cabeça, visivelmente interessada.

_____E então? Um jantar na Cantina "Del Vechio" amanhã as 19 horas?

_____19: 30! - retrucou a policial, ainda com expressão desconfiada.

_____Apareça e não se arrependerá! - afirmou a repórter, com outro sorriso amplo.
Saiu caminhando no passo gracioso e cuidadoso de mulher acostumada a saltos altos e saias justas. A cada passo, um gingar suave de quadris que no conjunto todo, formava um sutil e espontâneo rebolar. Algo sensual e nada vulgar. Vick sabia que eram ínfimas sutilezas que delineavam o fim de um e o início de outro. Um movimento em falso e a sedutora tornar-se-ia em uma "coquete de ponta de esquina".
Agnaldo reapareceu informando.

____a Chefe fez contato pelo rádio. Queria um relatório detalhado do que aconteceu na casa. Perguntou de você. Disse que tratava de algo "nebuloso" no andar de baixo. Ela vai ligar novamente e é bom você andar com seu HT na cintura. Esqueceu o seu novamente por aí.

Disse enquanto entregava à parceira o rádio.

_____ainda não me acostumei a usar permanentemente este aparelho intrometido! - desculpou-se Vick. _____acredita que até no meu "sagrado" momento de banho, a L.S.S. ousa ligar?

_____Acredito! Parece que não dorme, que não se alimenta ou faz sexo como todo simples mortal...

Riram juntos.

_____Precisamos nos acostumar! Trabalhamos para o "grande irmão" que não tolera levar "bolada nas costas". É centralizadora, você bem sabe!

_____E como sei! Mas... ao menos ela nos deixa trabalhar.

_____é... pelo menos isso!

Resmungaram uma coisa aqui e ali até a conversa minguar. Depois Vick acionou o motor da motocicleta.

_____Vou andando. Tenho almoço marcado com Adriana e família.

_____a Adriana? A terapeuta nissei?

_____Ela mesmo!

_____Mas já faz ano e meses que vocês não se vêem, além de alguns telefonemas...

_____é verdade, mas anteontem ela fez o convite para o almoço em família e aceitei. Afinal, ela sempre foi uma boa amiga.

_____Já se imaginou encontrando a ex e o noivo dela?

_____Já, e não se preocupe. Já me programei. Correrá tudo nos trilhos, te garanto. O noivo dela deve ser um cara legal, afinal, ele a tem feito feliz. É o que ela me diz.

_____Se é o que diz... então está ok. - conclui Agnaldo, avaliando a amiga que se afastava. Pensou que seria bom que um dia pudesse conversar com o ex-namorado com a mesma tranqüilidade. Virou-se e procurou se concentrar no rascunho de um relatório.

 

 
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