REVELAÇÃO

Ao entrar em seu apartamento, o telefone toca. Era Antonio Di Angelis.

____Olá, nenê! Liguei para saber se tinha chegado bem! Já está no apartamento?

Victória riu e agradeceu a preocupação, tranqüilizando-o.

____Sim, acabei de entrar ! Vim tranqüila, sem pressa e o trânsito estava bom!

____E a Louise, ela também desceu?

____Não sei dizer ao certo, mas se Júlia acordar ela certamente estará a caminho do hospital.

____Ah! Sim...Bem, quem sabe mais tarde também faça uma visita para a garota.

Desligou, com Vick intrigada pelo estranho telefonema. Conhecia seu pai e sabia que ele não era assim tão preocupado, ou pelo menos, nunca se mostrara.

A campainha tocou. Foi atender displicente, pensando ser o garoto que deveria entregar o leite que encomendou.

Abriu e deparou-se com o próprio Antonio Di Angelis, ainda com o celular na mão.

____Posso entrar? - pediu ele, embaraçado.

Victória que estava carregando Sir Lancelot pelo cangote para o banho, deixou-o escapar por entre os dedos, ao que ele, esperto, tratou logo de se ocultar pela casa.

____Claro que pode! - respondeu por fim, sentindo seu alarme interior disparar, chegando a perder a cor dos lábios.

Antonio entrou no pequeno e confortável apartamento da filha, aparentando um gigante entrando na toca de um coelho, dada sua elevada estatura e constituição robusta.

Seus olhos, de um verde muito claro, possuíam naquele dia o tom cinza de uma manhã chuvosa e Vick sabia muito bem o que isso significava. Seu pai era filho de italianos e como tal, muito passional, o que denunciava que algo muito intenso estava efervescendo em seu peito.

____Aconteceu alguma coisa? - perguntou a policial por fim, resolvida a enfrentar o que viesse imediatamente, sem delongas.

____Preciso saber o que está acontecendo entre você e Louise! Não me oculte nada! Não tenho qualquer tipo de preconceito a respeito, como já lhe disse antes! - perguntou, a um fôlego só.

A cabeça de Victória girou. Imaginara todo tipo de pergunta embaraçosa, mas aquela era exatamente o que para ela, passava do embaraçoso e entrava no campo do "inconfessável", principalmente porque invadia o foro íntimo, não só de si, mas o de Louise. E havia o
agravante de que, estava ali, na testa dele, escrito em garrafais a pergunta que calara:

_____Você andou transando com a mulher da minha vida?

Baixou a cabeça, tossindo baixinho, tentando ganhar tempo.

____O senhor ainda ama Louise? - perguntou cautelosamente.

____Não, absolutamente! Eu e a "Jour" não temos mais nada a não ser uma bela e antiga amizade. Minha preocupação é com você!

____Está mentindo! - pensou Victória.____Ele até a chama carinhosamente de "Jour" (dia) -
raciocinou, tentando ainda decifrar a razão da vinda dele até ali e seu objetivo.

____Preocupado comigo?

____Ora, Victória, não se faça de ingênua! Eu quero saber o quanto está se envolvendo com Louise!

Uma irritação intensa foi se formando no peito de Vick, pois não podia aceitar tanta invasão em sua vida particular e muito menos de seu pai, pois eles haviam reatado as relações há pouco e isso não lhe dava o direito de acuá-la como a uma menininha sem juízo, advogando
claramente em causa própria.

____Eu não tenho qualquer envolvimento com Louise do tipo "íntimo", além do profissional, se é o que quer saber.

Mas isso porque "ELA" não quer e não permite, pois pela minha vontade, a Bittencourt já estaria na minha cama há meses! - mentiu, respondendo por ímpeto e se arrependendo tardiamente pela sua falta de prudência.

Antonio sentou-se no sofá, como se tivesse sido atingido por um tiro de canhão, ficando quieto por longos minutos, para depois erguer o rosto para ela, aturdido.

____Desculpe-me, nenê! Eu sei que agi de forma invasiva e muito passional, mas é preciso que, para seu bem estar, você tire Louise da cabeça! Ela não é mulher para você! Aliás, a "Jour" não nasceu para ser mulher de ninguém! Você não sabe o terreno que está tentando
se aventurar!

____Bom, ninguém melhor para me contar, do que quem já se enveredou por ele antes! -respondeu Victória com voz embargada pela ansiedade e medo de descobrir algo muito terrível sobre a Bittencourt.

____O primeiro marido dela suicidou-se! O segundo, o pai de Julia, simplesmente enlouqueceu e está apodrecendo em algum sanatório no interior da França.

____O que ela fez com eles?

____Louise não é culpada de nada. Apenas é extremamente sedutora e incapaz de amar alguém, além de Julia. É preciso muita firmeza de caráter para se relacionar com ela e não ser totalmente controlado e envolvido ou mesmo, enlouquecer de paixão. É preciso ter a cabeça no lugar para não mergulhar no desespero quando ela por fim se cansar e descartar seus enamorados, como se faz com um relógio velho que não serve mais para marcar as horas.

A voz dele soava amargurada e neste momento, Vick pode sentir que tudo que ele descrevia
era exatamente como se sentia: ____um objeto descartado!

____Como o senhor mesmo disse: Ela é incapaz de amar alguém... e eu devo completar com as próprias palavras dela: "mulheres não são equipadas para me dar prazer".

Saiba que Louise Bittencourt nunca incentivou minhas pretensões amorosas. Muito pelo contrário: Ela
me rechaçou, feriu e magoou profundamente. Minha proximidade estreita com ela e ela comigo, se deve ao fato de termos enfrentado o perigo várias vezes juntas e vencido. De algum modo, ela me protege e eu a ela. É apenas isso! Devo confessar que a quero muito,
mas é um sentimento fadado a perecer pois não tem para onde expandir e minguará com o passar do tempo!.

Victória disse isso com o coração opresso e a voz embargada, o que fez com que seu pai a abraçasse:

____Minha nenê, afaste-se dela enquanto puder!

____Não! - disse Vick, abruptamente, livrando-se do abraço do pai.___Ninguém pode me impedir de tentar! Nem você! - completou desafiadora.

Antonio silenciou embaraçado, para depois sorrir melancolicamente.

____Uma autêntica "Di Angelis": Impetuosa e implacável! Você só herdou o aspecto físico de sua mãe. Posso me ver em você, do alto de toda minha personalidade de moço de vinte e poucos anos. Confiante e convicto de que o mundo estava a minha espera para ser desvendado e subjugado. Hoje, mudei muito meu modo de encarar a vida e espero que você, com o tempo e os reveses, aprenda como eu aprendi: Não há verdades absolutas nem um pote de ouro no fim do arco-íris.

Victória dirigiu-se para a porta e a abriu.

____Ainda assim, insisto em procurar seguir meu próprio caminho! - disse, com voz baixa, sem conseguir encarar o pai nos olhos.

____Tudo bem, nenê! Já descobri o que pretendia: Se Louise estaria interessada em você e como posso ver, para seu bem, ela não está. Nesse caso, posso respirar aliviado. Você não merece passar por isso! - disse ele, sorrindo, tímido e indo embora.

A Policial fechou a porta com dificuldade, como se esta pesasse algumas toneladas.

____Sacré Coeur! - articulou, enquanto decidia que o melhor era tomar um bom banho, um suco de maracujá e depois sair para espairecer a cabeça e pensar melhor. A visita do pai lhe deixou o coração pesado e escuro. Sentia um misto de revolta e dor.

____Porque com tanta mulher no mundo, eu acabo me envolvendo logo com a "Madame Scorpion"?.

Enxugou o corpo com raiva enquanto lágrimas lhe saltavam dos olhos ao lembrar de Louise lhe cantando mansinho ao ouvido, do cheiro inebriante do sexo dela, ou mesmo de sua pele alva e amplos olhos azuis que bem sabiam transbordar desejo e paixão.

O celular tocou e Victória tremeu, pensando que podia ser ela, dizendo que sentia saudade, mas a voz de Edgar lhe fez voltar à realidade crua.

____Estamos nos reunindo! Houve um ataque na noite passada, que é exatamente quando se comemora o Sabbah de Litha! Aguardamos você daqui há 15 minutos na sala de reunião, junto com os outros membros da equipe.


"ALIUD CECIDIT SECUS VIAM, ET CONCULCATUM EST"


Já em torno da grande mesa de reunião, a policial se acabrunhou em não ver Louise por ali, mas pensou que melhor seria assim, pois no estado de espírito emocionado em que se encontrava, seria difícil ocultar sua ânsia, saudade e desejo dos olhos dos colegas.

O líder, postou-se em seu lugar na mesa, iniciando a reunião.

____Exatamente na noite passada aconteceu um show de rock no nosso maior estádio de futebol . Então, alguns minutos depois da meia-noite, ocorreu um tumulto em algum lugar que desencadeou o pânico entre os jovens que assistiam o show. A multidão começou a se
mover, e vocês bem sabem o que isso pode resultar! - descreveu Edgar, muito sério.

____E qual seria a conexão desta ocorrência, com o ataque do "Legado de Nix"? Pensei que nossa valorosa colega já havia liquidado com o matador serial! - alfinetou a Ana Beatriz.

____A verdade é que há uma garota morta, por parada cardíaca que supostamente foi pisoteada no show de rock, como na parábola do semeador, além de ter tatuada no corpo, exatamente as inscrições em latim: " Aliud cecidit secus viam, et conculcatum est" (e a
semente foi lançada na terra e pisada pelos homens). - grunhiu Edgar com sua expressão de homem primata.

Todos silenciaram, sendo que ao fim, o chefe levantou-se e anunciou:

____Nossa titular os convidou para uma reunião em sua casa no sítio onde mora, ao cair da tarde e no caso, quem quiser, pode ir preparado para pernoitar. Existem quartos com beliches para acomodar a todos. Agora estão dispensados.

O grupo levantou-se e estava deixando a sala, quando Edgar emenda:

____ Ana Beatriz e Di Angelis. Louise está no gabinete e deseja vê-las imediatamente! Só está esperando-as para depois poder voltar ao hospital onde a filha está internada.

____Pensei que ela estivesse em férias! - disse Ana Beatriz, surpresa.

____Ainda está, mas veio à delegacia principalmente para conversar com vocês duas em particular.

As policiais se entreolharam, ansiosas.

Quando se dirigiam para o gabinete, Ana perguntou para Victória:

____O que você aprontou desta vez, Di Angelis?

____Eu já ia fazer a mesma pergunta a você! - respondeu a policial, olhando-a desafiadoramente.

No gabinete, encontraram Louise com a expressão fria e pétrea costumeira.

_____Sentem-se! - mandou, enquanto iniciava a explicar que o motivo daquela reunião inesperada era o de que Julia acordara e já fora elaborado retrato falado do agressor, sendo que a titular levaria a filha para sua casa naquela tarde.

_____Vou destacar você, agente Beatriz para organizar as buscas e comandar os investigadores nas ruas. Quero todo suspeito detido o mais breve possível e interrogado.

Hoje a noite, depois da reunião com "Os Neblinas", conversaremos mais sobre o assunto.

Ana Beatriz abriu um sorriso imenso e não conseguia disfarçar sua satisfação pessoal.

_____Tenho certeza que escolheu a policial certa! - disse, gaguejando emocionada.

Louise a dispensou e voltou-se para Vick, que não conseguia mais disfarçar sua ansiedade quanto àquela entrevista particular.

_____E quanto a você Di Angelis, eu a chamei para pedir que me acompanhe até o hospital para buscar a July e a levar para casa.

Ela já perguntou por você várias vezes e está em um
estado emocional muito fragilizado. Sinto que confia em você e talvez sua presença possa acalmá-la um pouco. Está recebendo calmantes, mas não gostaria que minha filha estivesse dopada 24 horas ao dia.

Victória, avaliou o pedido e sorriu:


_____é só isso?

_____Sim! Você aceita?

_____claro! Eu gostaria de poder ajudar em tudo que precisar a respeito da Julia.

O assunto estancou e elas olharam-se por longos minutos, silenciosas, até que Louise contornou sua mesa, aproximando-se suavemente da policial.

_____Senti saudades! - sussurrou, carinhosa.

Victória sentiu-se quase desfalecendo ante a proximidade do corpo esguio e perfumado dela, mas a voz de Antonio Di Angelis imergiu em sua mente, gritando:____o primeiro se matou! O outro enlouqueceu...afaste-se dela enquanto puder!

O silêncio denso e a falta de reação de Vick, fez Louise observar minuciosamente seu rosto,
como se quisesse ler-lhe os pensamentos.

_____O que tem, Di Angelis? - perguntou com a voz tensa.___Está me olhando como se eu fosse uma criatura sobrenatural que tivesse materializado à sua frente! Está pálida!

____Não é nada! Eu apenas estou um pouco cansada! Deve ser isso!

Louise tocou-lhe o rosto, ainda a olhando atentamente.

____Vi quando Antonio saiu da Nova Suíça, poucos minutos após você! Encontraram-se no caminho?

____Não, mas ele me procurou em meu apartamento!

A delegada enrijeceu todo o corpo, claramente furiosa.

____O que Antonio andou falando sobre mim?

____Algo sobre as seqüelas do amor que você deixa em quem se atreve a querê-la!

____E o que mais? Conte-me tudo! Tenho direito de saber.

Victória contou, pausadamente toda sua conversa com o pai, percebendo que Louise, a cada palavra, parecia distanciar-se e tornar a se fechar dentro de suas muralhas interiores intransponíveis.

Terminou, sentindo-se muito mal, pois somente naquele momento, percebeu o quanto seu diálogo com Antonio lhe havia ferido.

____Ele não mentiu! - exclamou a Bittencourt, com voz baixa e rouca, aproximando-se de Victória e a enlaçando.

____Mas ele não tinha esse direito! Comportou-se como um menino tolo e eu não admito que ninguém tente governar ou manipular minha vida particular! - a voz
dela agora, tremia de indignação e ia se tornando exaltada.
____É preciso que saiba, Di Angelis que seu pai certamente está realmente muito transtornado pois foi demitido há pouco mais de uma semana da multinacional onde
trabalhava e agora, tenta manter as aparências de empresário abonado e bem sucedido, dilapidando, para isso, tudo o que ainda tem e sustentando mulheres novas e bonitas com presentes caríssimos!

____O quê? - perguntou Vick, não acreditando no que ouvia.

____Antonio Di Angelis está desempregado e em franca destruição de tudo o que tem. É só.uma questão de tempo!- despejou Louise.

____Está insinuando que ele tentou me afastar para tornar a se aproximar de você para poder com isso ser sustentado?

____Não propriamente, mas já o ajudei em ocasiões anteriores, tanto com empréstimos de boa soma em dinheiro, quanto intercedendo junto ao alto empresariado para sua contratação nas melhores empresas!

____Eu não acredito! Você está sendo cruel! Meu pai pode ser namorador, passional e muito preocupado com o status social, mas é um homem competente e orgulhoso! Ele não pode estar quebrado! É um administrador excelente!

Louise passou a acariciar-lhe o rosto, descendo suas mãos lentamente para os o colo de Victória, introduzindo-as no decote de sua blusa e tocando-lhe os seios com desejo.

____Não me toque! Mesmo que tudo isso seja a pura verdade, ainda assim, você não tinha o direito de me contar. Não desse modo, pintando-o como um fracassado interesseiro, tentando retirar a filha da jogada e recuperar sua mina de ouro - disse a policial, afastando-se
da carícia de Louise, como se estivesse sendo queimada a fogo.

____Você não entende, Victória! Eu quero você! Quero passar muitas noites ao seu lado! Senti saudades e tremo de desejo! Será que não entende o quanto estou precisando que me toque, me faça um carinho ou ao menos diga que também sentiu saudades?

____Desculpe! Mas preciso saber se me chamou aqui no gabinete apenas para me convidar para buscar a Julia, pois preciso de uns minutos a sós em minha sala para pensar um pouco.

____Eu a chamei também para discutir sobre seu pedido de remoção para o Distrito Policial da Giuliana! Devo desconsiderá-lo?

____Não! Eu ainda mantenho o pedido! Mas agora gostaria que me dispensasse. Nos encontramos no hospital.

Louise caminhou até uma gaveta e apanhou um papel que Vick reconheceu como sendo seu pedido de transferência.

____indefiro seu pedido! - disse ela, enquanto lançava a folha no triturador.

____Não pode fazer isso! É abuso de autoridade! Mandei outra cópia a Secretaria de Segurança e a doutora Giuliana fará com que me transfiram.

A delegada apanhou Vick pelos ombros, com os olhos luzindo de fúria.

____Giuliana não fará nada, muito menos a SSP! Eu os impedirei, te asseguro!

A policial perdeu a cor, de tanta revolta com tudo o que lhe acontecia e não viu quando a empurrou violentamente e contra-atacou com as palavras:

____Se fizer isso, eu me exonero! Não poderia trabalhar por mais um dia aqui! Sou livre e não tenho dona!

____Exonerar-se? E como manterá seu apartamento, visto que será apenas questão de tempo para ter que vender o sítio que foi de sua mãe! Seu pai não poderá mais manter uma propriedade daquele porte e muito menos você, mesmo agora, com seu parco salário de policial!

Victória soluçou e lágrimas densas escorreram-lhe pela face, ao que Louise adiantou-se e agarrou-se forte ao corpo dela, beijando-lhe a face, as mãos, os ombros e as lágrimas.

____Me perdoe, cara mia! Eu, perdi o controle! Não queria te ferir! Eu apenas estou me sentindo acuada! Não esperava que fosse me rejeitar... eu preciso de você, Dian, eu preciso em quem confiar e posso cuidar de você! Não vou deixar que perca o sítio, eu lhe asseguro!
Confie em mim!

____E o que é preciso ser feito para que isso aconteça? - perguntou a policial, tremendo, entre soluços de seu choro que tentava represar na garganta.

____Quer que eu me venda? É meu corpo que quer? Porque logo eu, se você pode comprar a mulher ou o homem que bem desejar? ___Eu sei porque está agindo assim: eu sou a única culpada! Eu sou fácil. Muito fácil ! Só precisa contar uma historinha bonita, jogar charme, um pouco de sedução e pronto, é embrulhar e levar!

____você não está entendendo! - sussurrou Louise.

____Não, eu entendi muito bem e minha resposta à sua proposta é: Não! Eu não vou me vender. Quanto ao resto, isso eu penso depois! Agora me dá licença que preciso sair!
Dirigiu-se a porta e antes de abri-la voltou-se.

____E não se preocupe! Vou buscar Júlia no hospital! Devo isso a ela, mas é só por ela que farei! - disse enquanto tirava o anel de rubi do dedo e o jogava no chão.

____Tome seu anel da sorte! Só me trouxe problemas com a mulher que amo!

Saiu sem olhar para trás.

No hospital, enquanto aguardava no hall pela liberação da jovem Bittencourt, Victória recebeu um telefonema de Adriana.

____Di! Eu preciso conversar com você! Quero que entenda que o que aconteceu comigo e a Lizandra foi algo que ainda não posso entender, mas que de alguma forma, não foi um gesto leviano para te ferir. Não podia saber que você estava na casa. Não queríamos feri-la ou que
se sinta traída!

____Não fui traída, afinal, eu e Liz já não namoramos mais e eu não posso governar a vida dela! Não tenho esse direito.

____Não queremos que nos julgue precipitadamente! Precisamos conversar com você!

Victória entendeu pelo plural que Adriana utilizava, que ela e Liz ainda estavam juntas ou mesmo, próximas.

____Sim! Eu acredito que precisaremos conversar um dia, com mais calma. Eu a procurarei assim que me desembaraçar de alguns assuntos da delegacia..Despediram-se e desligaram o celular.

Louise reapareceu no corredor, abraçada a Julia, que caminhava lenta e com dificuldade.

Leandro as acompanhava com a cabeça baixa e muito silencioso. Os hematomas e ferimentos
naquele rosto juvenil e puro, fez o sangue de Victória entrar em ebulição e ela se aproximou
da garota, sem saber o que dizer e como agir.

Assustou-se quando Julia Bittencourt, se atirou em seus braços, soluçando com tanta dor que parecia que seu peito se partiria.

____Dian! Me leva para casa?

Vick sentiu o chão vacilar aos seus pés, mas resistiu ao impacto daquele encontro, com todas suas forças, abraçando-a e lhe sussurrando ao ouvido:

____Eu a levarei onde quiser, princesinha e de agora em diante, prometo que vou ajudar sua mãe a cuidar de você e nunca mais, enquanto eu for viva, ninguém vai machucá-la ou mesmo magoá-la! Eu prometo!

Choraram abraçadas e por fim, dirigiram-se para o veículo que as conduziria para a casa.

A tarde na deliciosa e imensa propriedade de Louise, passou mansa, com Julia adormecida em seu quarto, enquanto a delegada mantinha-se quieta velando-lhe o sono. No piso inferior, Leandro e Victória conversavam em voz baixa.

____minha irmã não tem se alimentado direito e mal consegue dormir! Hoje pela manhã, eu a vi chegar sorrindo do Chalé da Nova Suíça, mas ao entrar e se deparar com as coisas de July pela casa, seu rosto simplesmente mergulhou nas sombras da ira e ódio. Precisamos
cuidar para que ela não perca o controle e faça qualquer coisa que venha a piorar a situação...

____Estarei atenta! - disse Victória, que diante daquele drama familiar traumático, havia esquecido momentaneamente de seus problemas particulares. Aliás, depois que Julia a abraçou no hospital, sentiu-se como uma leoa desejosa de proteger a cria com a própria vida
e em sua cabeça, decidira a ficar ao lado da garota enquanto ela precisasse ou quisesse.

Continuaram a conversar, até que a policial lembrou-se dos sonhos que a atormentaram por várias noites e pediu ao Leandro:

____Posso ver o computador da July? Onde ele está?

____Na sala de estudos dela!

____Pode rastrear os e-mails e os sites onde ela andou navegando?

____Claro! Isso seria fácil para mim!

____Então vamos! - pediu a policial.

Passaram horas, analisando tudo que encontraram até que Vick, suspirou emocionada.

____Descobri a chave! O liame que faltava entre meus sonhos e os ataques do criminoso.

Imprima estas páginas. Precisamos mostrá-las ao grupo.


TOUCHÉ

Aos poucos, os membros da equipe dos Neblinas foram chegando e a reunião iniciou-se na ampla sala de estar.

Louise sentara-se muito quieta e com expressão distante, em sua berger próxima à lareira e Victória pediu licença para relatar tudo o que descobrira.

Ao longo de sua descrição, foi muitas vezes interrompida por Ana Beatriz ou outro colega, que não conseguira alcançar a profundidade e inteiro teor de sua teoria.

____é um absurdo! - disse a Beatriz, incrédula.

____continue, Agente! - pediu o Edgar, já com os olhos fechados e iniciando a hibernar.

Victória continuou a falar, extremamente excitada com o que revelava ao grupo e ao fim, concluiu:

____O próximo ataque será possivelmente no natal ou no ano-novo. Ele e seus seguidores misturam seus rituais profanos com o dos cristãos. Na verdade, o filho de Nix, criou sua própria religião, mesclando muitas outras e assim, como criminoso carismático que é, cria um
nexo a tudo que faz.

A sala ficou silenciosa e Louise agora, parecia distraída contemplando as labaredas que escapavam da lenha no interior da lareira.

____Resumindo: O filho de Nix, semeou suas vítimas nos quatros Sabbahs simbólicos da passagem das estações, sendo que nosso matador serial é Thanatus, um perigoso
manipulador de venenos letais e quem funciona como seu braço direito, é seu irmão gêmeo: Hipnos. Este último, é quem por intermédio da Internet, manipula as mentes das pessoas, ou vítimas em potencial, simulando um jogo de RPG (onde os internautas incorporam personagens místicos ou fantásticos em busca de cumprir missões, propostas pelo Mestre Supremo). O final do jogo, eles, extrairão as sementes sepultadas e as conduzirão para o
reino interior de Hades, que também é um servo de Nix e farão o ritual que representará, a colheita, onde uma virgem será sacrificada, representando Perséfone, para que Deméter, sua mãe, volte a trazer fertilidade à terra!

Edgar relatou tudo, ainda com os olhos fechados, ponteando cada palavra, para enfim abrir os olhos.

____Uma história extraordinária, devo dizer! - disse o doutor Willian Salomão, enxugando o suor que escorria de sua testa com seu lenço branco de algodão.

____E como conseguiu reunir tudo isso, Dian? No computador de July? - quis saber Leandro.

____O computador foi o link que faltava para tudo fazer sentido. Os meus sonhos, os símbolos, as representações.... tudo eram mensagens da minha mente sobre tudo que li, tanto no dossiê da Marta, quanto recolhi no material que o grupo reuniu. Há também flashs
de rostos que vi em meio aos tumultos, e que memorizei sem ter consciência disso. Rostos que se repetem...

____Uma coisa de doido! - grunhiu Ana Beatriz!

____Não! - disse Louise, parecendo despertar de seu torpor.____é algo digno de uma mente brilhante! Erramos em não termos seguido a intuição da agente Di Angelis desde o início, mas ainda há tempo de agir. Minha filha quase foi morta, mas o fato de deixar de ser virgem a tirou da mira do assassino que imolaria uma donzela em seu ritual final à deusa Deméter. A desgraça de July, acabou livrando-a da morte certa! Ainda podemos impedi-lo de assassinar uma jovem virgem em seu ritual macabro! É tempo de agir, e agora sabemos que no computador, Hipnos estava mandando mensagens subliminares para Julia, para induzi-la a encontrar o templo subterrâneo de Hades e assim agora saberemos onde encontrar o
"Legado de Nix" e seu grupo e eliminá-los...

Dizendo isso, a delegada começou a despejar as tarefas a cada membro do grupo:

____Mestre Takahishi, quero que acione seus homens para que verifiquem cada sepultura dos jovens assassinados pelo matador serial. É bem provável que neste exato momento, muitas delas já estejam vazias. Eles já devem ter extraído as "sementes" da terra.O agente Leandro se encarregará de decifrar as mensagens emitidas por Hipnos, mostrando exatamente o local onde ocorrerá a cerimônia final e o dia exato. Certamente terá algo a ver
com os desenhos e símbolos encontrados no computador de Julia. Quero também que rastreie todo homem branco, classe média, com mais de 23 anos e menos de 45 com
conhecimento excepcional sobre venenos ou produtos químicos, além de ser gêmeo. Pode começar pelas universidades.

O Agente Agnaldo trará tudo que puder sobre a mitologia, versos em latim, ritual pagão e de bruxarias. Doutor William Salomão escreverá o perfil do matador, tentando ao fim, encontrar-lhe alguma fobia, medo ou o que realmente lhe trará o sabor de triunfo final que
tanto persegue. A agente Ana Beatriz, por enquanto trabalhará na captura do maníaco que atacou minha filha e depois, juntamente com a agente Di Angelis, farão parte dos líderes do grupo de assalto que procurarão e deterão o assassino serial e todo seu grupo e seguidores.
Edgar e eu agora vamos nos reunir em particular , enquanto vocês, cabeças de núcleos
poderão sair a campo. Boa sorte e mantenham-nos informados sobre tudo que descobrirem.

A rapidez como o grupo se desfez foi impressionante, restando ao fim, Leandro dirigindo-se
para o computador de Julia com seu lap-top particular debaixo do braço, deixando Ana Beatriz e Victória, sentadas sozinhas na sala.

____Você tinha que roubar a cena! - disse a Bia.

____E você acha que a vida é um palco, onde só existe seu nariz arrogante! - respondeu Victória.

Tornaram a ficar quietas, aborrecidas, quando a governanta de Louise entra e convida-as para conhecerem o quarto onde dormiriam naquela noite.

____Era tudo o que eu pedi a Papai-noel! Dormir no mesmo quarto que você! - alfinetou Victória, baixinho para Ana Beatriz, enquanto seguiam a governanta pelo corredor de uma das amplas alas da casa.

____Fiquem a vontade e podem se alojar e tomar banho pois o jantar será servido daqui em meia-hora.! - informou a mulher que administrava a casa da delegada, voltando as costas e saindo do local.

Ana beatriz abriu sua mochila com seus pertences e preparou-se para tomar banho.

____cuidado ou posso agarrá-la a noite! - disse Vick, com um olhar malicioso para a colega, piscando-lhe o olho.

____Se relar a mão em mim, eu te espeto na minha faca de campanha!

____Você vai gostar, eu garanto, apesar de não ser uma mulher que faça meu tipo, pois é desengonçada, magra de espetar qualquer um com os ossos e fuma como uma Maria-fumaça. Beijar você deve dar a sensação de ter lambido um cinzeiro!

Ana Beatriz ficou vermelha e estava a ponto de partir para a agressão física contra Victória, quando a porta se abre e Louise entra, percebendo logo o denso clima entre as duas.

____Interrompi alguma coisa? - perguntou a delegada.

____Nada de importante! - respondeu a Beatriz, ainda vermelha de tanta ira contida.

____Estávamos tendo uma civilizada conversa, de mulher para mulher! - respondeu Victória, com um sorriso ligeiramente sarcástico nos lábios.

____Tudo bem! Apenas vim chamá-la porque Julia acordou e quer falar contigo. O quarto dela é o ultimo, no fim do piso superior. Quanto a você, Ana, podemos conversar aqui
mesmo sobre a investigação que iniciará amanhã, com os outros rapazes, para a captura do estuprador.

Vick saiu do quarto, deixando a delegada e a colega para trás. Chegou facilmente até onde Julia estava e ficou com ela, conversando sobre assuntos triviais e contando como se sentia e agia quando tinha a mesma idade da garota.

Ela reagia bem ao carinho e fazia inúmeras perguntas, sobre variados assuntos. Em certo momento adormeceu e Victória saiu mansamente do quarto.

Voltou para o aposento que dividiria com a Beatriz, distraída e ao aproximar-se da porta, ainda ouviu parte da conversa entre a delegada e a colega.

____Você não entende, querida! Eu sou capaz de oferecer minha vida para protegê-la e me transferi do nosso distrito inicial para ficar ao seu lado, como sempre fiquei nas missões que enfrentamos juntas. Eu era seu braço direito, a menina de seus olhos, como dizia meu pai! Nunca a decepcionei. Porque agora me deixa em segundo plano e me substituiu ao seu lado pela Di Angelis? O que fiz para merecer isso?

____Eu não a substituí, Ana Beatriz, mas apenas agi procurando adequar cada policial na área que melhor atua.

____Eu sou sua melhor policial, depois do Edgar, e se compararmos a capacidade operacional, eu suplanto o Meirelles. Victória Di Angelis está querendo seduzi-la. Ela é
anormal e transa com mulheres, posso garantir...

____E você pretende livrar-me de cair nos braços da Di Angelis?

____Não... eu, apenas quero que saiba que ela não é nada do que parece ser e a afaste de você e de Julia pois poderá ser uma má influência para o caráter de sua filha.

____Basta! Já chega. Não precisa me dizer o que fazer ou não. Quero que cuide da missão que te encarreguei e sei que a fará da melhor maneira . É só. Com a Di Angelis, entendo-me eu.

____Mas, Louise... eu, eu...não quero e não mereço que me trate assim! Eu a amo! Amo! Entende?

Disse isso, enquanto abraçava a delegada e tentava em vão, beijar-lhe os lábios, sendo prontamente afastada.

____Não vou considerar este seu gesto absurdo. Sei que está confusa. E principalmente pelo fato de que a conheço desde que era uma menininha no colo de seu pai. Isso a leva a acreditar que sente o que acaba de me revelar, sendo que na verdade tudo não passa de profunda admiração por mim, que nutres há muito tempo. Todos temos nossos heróis e heroínas. Ajuda a formar o caráter, mas depois de certo período, é preciso superar esta fase.
Vamos esquecer este assunto pois quero que vá, tome um banho, para depois, praticarmos juntas um pouco de esgrima! Faz tempo que não me bato com um adversário à altura.

Ana Beatriz assentiu com a cabeça, obediente e aparentemente deu-se por vencida.

Victória voltou pelo corredor, silenciosa e depois passou a andar, fazendo ruído contra o piso de madeira, anunciando sua suposta aproximação. Quando entrou no quarto, a colega já havia ido ao banho e Louise encarou a recém-chegada com um olhar frio e ininteligível.

____Ela dormiu? - perguntou.

____Sim! Finalmente os calmantes fizeram algum efeito.

____O que conversaram?

____sobre tudo, menos sobre o que lhe aconteceu!

____menos mal! - finalizou a delegada e saiu logo em seguida.

O jantar foi tranqüilo, com todos à mesa, exceto Julia que fez suas refeições no quarto. Edgar conversava e gesticulava, entusiasmado. Estava recebendo a cada minuto, uma chamada dos policiais que trabalhavam a campo e as descobertas estavam sendo surpreendentes e
confirmavam, ponto a ponto a teoria de Victória.

____As covas das pessoas, assassinadas nos Sabbah de Mabon, Yule, Ostara e finalmente o de Litha, foram violadas.

____mal o corpo da última vítima esfriou, ele já as desenterrou? - quis saber Leandro.

____Um claro sinal que atacará em breve e todos sabemos quando! Cabe a você agora, descobrir o local. Já estou contatando uma grande quantidade de policiais de vários distritos da cidade e de outros municípios vizinhos. Deverá ser a operação dificílima e arriscada e não quero que tenhamos nenhuma baixa em nosso pessoal - respondeu Louise, muito séria.

Terminada a refeição, Louise e Ana Beatriz foram se vestir para esgrimirem, enquanto Victória acompanhava Leandro em suas pesquisas digitais. Edgar saiu para caminhar pela
propriedade, enquanto atendia seu HT, recebendo informações e repassando ordens.

Ao fim de muita pesquisa, o rapaz abriu um amplo sorriso e mostrou para Victória o fruto de seu trabalho:

_____Está aqui! Será na passagem do dia 24 para 25 de dezembro, nos subterrâneos abaixo da grande Cathedral da Santa Sé em São Paulo! Só pode ser isso!

_____Parabéns, Leandro! Você é um gênio! - felicitou-o Victória entusiasmada.

O rapaz sorriu e depois bocejou.

_____Estou com muito sono! Vou ver se durmo um pouco. Não tenho conseguido fechar os olhos, desde que a July desapareceu.

_____Vá dormir, você merece! - disse a colega, recolhendo o material impresso que Leandro produzira.____Se não se importar, quero mostrar ainda hoje sua descoberta para nossa chefe!

_____Claro que não me importo! - afirmou o rapaz, despedindo-se e saindo da sala de estudos.

Victória desceu as escadarias e perguntou à governanta, onde ficava o ginásio onde Louise e Ana Beatriz estavam. A mulher a informou o lado da propriedade onde deveria caminhar.

Ao se aproximar, ouviu o arquejo das duas, e não deixou de se assustar, pensando que finalmente a Ana Beatriz tinha conseguido seduzir a delegada. Espiou pelo grande janelão e pode vê-las, vestidas com macacões acolchoados, lutando ferozmente.
Era um espetáculo magnífico de ser assistido, pois aparentavam dois beija-flores, digladiando-se com seus
longos bicos.

Ouviu quando Edgar postou-se ao seu lado, silencioso, também assistindo ao combate.

____A Ana Beatriz, ainda é a única que consegue dar trabalho para nossa titular na esgrima, mas espere mais um pouco e verás, uma seqüência de golpes extraordinários e os " touchés" que Louise lhe aplicará...

As duas combatentes, perceberam que estavam sendo assistidas e por uma fração de segundo, a titular olhou para Victória, com um olhar luminoso. Neste instante, Ana Beatriz atacou e tocou-a com seu florete.

____Touché!

Louise naquele momento, voltou toda sua atenção, força e habilidade contra sua oponente, castigando-a duramente, não lhe dando qualquer chance de reação, tocando-a com o florete várias vezes, até que esta se rendesse, fatigada.

Edgar aplaudiu, sendo seguido por Victória.

____Bravo!

Ana Beatriz, fez o cumprimento ritual para a delegada e saiu, dizendo que no momento precisava era de um banho demorado e cama.

Edgar afastou-se com a agente, atendendo novamente seu rádio.

Louise guardou seu florete de treinamento e aproximou-se de Victória com um sorriso suave nos lábios.

____Apreciou o combate? - perguntou, timidamente.

____Um espetáculo sensacional! Nunca pensei que havia tanta beleza neste esporte! Em certo momento, parecia um " Pax de Deux" do balé...

A delegada deixou seu florete a um canto e convidou:

____Existe um lugar na propriedade que penso que vai gostar. É bem depois do orquidário e costuma ser o local onde posso tomar banho tranqüilamente sem ser incomodada. Venha, quero mostrá-lo a você.

Ao se aproximarem, Victória percebeu que era uma espécie de réplica de um delicioso "banho
romano" com colunas sustentando e contornando uma área coberta, em formato sextavado, com piso de mármore e ao centro, em formato também sextavado, com escadarias de pedra e água cristalina e fumegante, um típico banho romano. Pelas paredes que isolavam o local
da área verde, haviam inúmeros mosaicos no estilo da Roma antiga. A água jorrava, corrente, porém estava quente e deliciosa.

____Venha comigo! Aqui tem roupões de seda que poderá usar depois do banho!

Victória não teve como negar estar ali, sozinha em companhia de Louise, pois esta, retirou rapidamente sua roupa úmida de suor e ficando somente com as pequenas peças íntimas, entrou na água, suspirando de prazer.

____Entre! - convidou.

____Vick despiu-se e também ficou apenas com calcinha e sutiã, entrando na deliciosa piscina, sentando-se em um degrau e fechando os olhos, apreciando muito o bem estar e relaxamento que a água quente lhe fazia nos músculos tensos.

Em poucos minutos, sentiu a aproximação de Louise que sentou-lhe no colo, enlaçando-a pelo pescoço com os braços macios.

____Hoje, na sala, quando você descrevia sua teoria, meu desejo foi de despi-la ali mesmo e fazer amor contigo no grande tapete, em frente de todos...

____Ainda bem que você não usa drogas! - riu, Victória, tentando disfarçar seu coração disparado e excitação crescente.

Louise levantou-se e retirou seu sutiã e calcinha, encostando seus seios no rosto da policial que não resistiu à provocação e os apanhou nos lábios, sugando-os sedenta.
A Delegada segurava-lhe a cabeça, gemendo e a incentivando, mais e mais.

Depois, libertou-se dos braços de Victória, sentando-se na borda da piscina e ao deitar-se, abriu as pernas, langorosamente, com um olhar de puro desejo.

____Venha meu amor e bebe o meu leite de fêmea!

Di Angelis sentiu-se desfalecer de tanto desejo, postando-se entre as pernas dela e tomando-a completamente com seus lábios. Agora sabia o quanto desejara, tornar a fazer amor com Louise.

Ela gozou, como o fazem os felinos, gemendo, arranhando e contorcendo-se de tanto prazer.

Depois, cessou e descansou com o rosto sereno e olhos fechados.

Quando tornou a acordar, enlaçou o pescoço de Victória e olhando-a profundamente nos olhos, retirou sua língua rosada e lambeu-lhe os lábios. A policial entendeu aquele gesto, e aprisionou a língua de Louise, e passou a devorar-lhe os lábios tão desejados, mordiscando-os, sorvendo-os e invadindo-os com sua língua voraz.

Entrou em um êxtase imediato, gemendo de loucura, chegando a ferir-lhe a fina pele encarnada dos lábios, não conseguindo mais livrar-se daqueles beijos. Enfim, ela afastou o rosto, sorrindo e gemendo.

_____Quero Amá-la novamente! - pediu quase ronronando, enquanto lançava-se com agilidade sobre o corpo de Victória, beijando-a com loucura e urgência.

Enfim, quando os corpos exaustos se enlaçaram para o merecido descanso, Louise, deitou-se nas costas de Di Angelis, aplicando-lhe uma deliciosa massagem e convidando.

_____Vamos ao meu quarto e poderemos repousar!

_____Ana Beatriz dará pela minha falta!

_____Não se preocupe. Amanhã direi que dormiu próxima de Julia, o que não será nenhuma mentira.


MARTE E VÊNUS


No delicioso e confortável quarto, Louise colocou uma suave música e deixou o ambiente à meia luz.

____Quero possuí-la de forma diferente, agora!

Victória assustou-se ao vê-la retirar de uma gaveta aquele instrumento fálico já conhecido e vesti-lo com uma camisinha.

____Esquece! - articulou, com os olhos apreensivos, afastando-se do avanço do corpo de sua amante.

____Venha, meu amor! Eu a terei como sempre deveria tê-la possuído na nossa primeira vez. Farei com todo carinho. Confie em mim!

Disse, enquanto se enveredava entre as pernas longas de Victória e a apanhava pela cintura, avançando. Penetrou-a lentamente, beijando-lhe os seios e sussurrando-lhe palavras apaixonadas.
Quando enfim alcançou o fundo do sexo de sua amante, Louise esperou por um breve minuto, ainda acariciando-lhe e beijando-a nos lábios, e ainda invadindo-lhe a boca
com a língua atrevida, passou a movimentar seus quadris em um delicioso vai e vem.

____Quero sentir que será inteiramente minha mulher! - disse, com lágrimas rolando pelos seus olhos, e beijando Victória com tanta paixão e desejo, que a policial moveu suas pernas, prendendo-a pelos quadris e puxando-a mais para dentro de si.

____Faça-me sua mulher! - gemeu Vick.

Quando enfim, Louise saciou seu desejo, desceu seu rosto e passou a sugar Victória, fazendo-a enfim, inundar seus lábios com seu gozo.

A policial tremeu e apanhou Louise em seu colo, levando-a nos braços até a fonte de luz mais próxima, contemplando aquele rosto querido, sorrindo-lhe:

____você é tão linda e seus olhos são como duas safiras de brilho esplendoroso. A sua boca, ah, os seus lábios são semelhantes a buganvílias encarnadas...

____Está deliciosamente romântica, princesa e tem um "quê " de tristeza muito ao fundo dos seus olhos. Ainda não me perdoou pelo que disse sobre Antonio ?

____Não gostaria de relembrar aquele assunto difícil. Não até que finalmente tenhamos detido os filhos de "NIX". O que me dói o coração é uma espécie de mal pressentimento! Algo relacionado com o sonho! De alguma forma, temo que uma de nós pereça no confronto final.com o matador serial.

____E o que a fez ter tal pressentimento? Já desvendamos seus sonhos. Eram mensagens do seu inconsciente, que decifrara tudo que você havia lido e captado sem saber e os revelou em forma de sonho!

____Mas tem a parte em que você, eu e Julia, estávamos sendo sepultadas... e... exatamente na noite anterior ao acidente que vitimou minha mãe, sonhei que ela me fizera
um vestido lindo, mas que depois, o vestido, ela mesma o vestiu! O vestido era a morte, pois naquela tarde, eu sairia no carro com o motorista e certamente teria perecido. O carro estava com problemas no freio.

Aí ela discutiu com meu pai e saiu apressada com o veículo...

_____O restante eu já sei! Não precisa contar pois sei que lhe trás toda a dor da perda de sua mãe!

Ficaram em silêncio por alguns momentos, enquanto Louise refletia sobre o que Victória lhe contara.

____Pensa que a morte, havia escolhido a mim, mas depois cambiou para July? E no caso de minha filha não ser mais virgem, ela não mais a atingirá, podendo recair sobre você?

____é mais ou menos isso! Sabemos que Julia está fora de perigo, pelo menos quanto ao "Legado de Nix". Mas eu e você, iremos nos defrontar com ele e toda sua seita maligna...

____Bem! Então, por precaução, eu a tiro fora do caso...

____Não pode fazer isso comigo! Eu preciso ir, mesmo porque você irá e eu preciso estar ao seu lado. Nós fizemos uma aliança de proteção mútua, lembra-se?

____Sim! Como poderia esquecer o que me une a ti?- disse Louise, emocionada, apertando-a nos braços e beijando-a intensamente nos lábios.

Ficaram novamente silenciosas, imersas em pensamentos em ebulição, quando enfim, a delegada levantou-se e foi até um móvel e o abriu.

____quero antecipar meu presente de natal para você! Abra!- disse, depositando no colo de Victória uma caixa finamente embrulhada e com um laço dourado.

Vick sorriu tímida e abriu a caixa com grande expectativa. Encontrou ali, uma linda pistola austríaca.

____é linda! - disse, sorrindo e examinando seu presente.

Louise beijou-a feliz, pois percebera-lhe nos olhos o seu contentamento.

____imaginei que apreciarias! Mas ainda quero te dar mais um presente!

____Assim você acaba me acostumando mal, Louise Bittencourt!

A delegada apanhou dois pequenos recipientes de veludo. Abriu um que tinha um lindo anel em forma de estrela, com um rubi cintilante ao centro.

____é a estrela marte. Quero que o use em minha homenagem. - disse enquanto colocava o anel, cerimoniosamente no dedo anular de Vick. Retirou outro, semelhante, mas com uma.enorme pedra de safira ao centro.

____Quero que o coloque em mim, como prova de nossa aliança de proteção e fidelidade mútua! - pediu a delegada.

Victória, tomou aquela mão muito pequena e alva, colocando-lhe o anel cuidadosamente, beijando-a após.

Louise, tornou a acercar-se do seu corpo, mordendo-lhe os lábios e a conduzindo pela mão até a cama.

_____ainda preciso fazer amor com você até o dia amanhecer! Venha... eu sou sua! -
sussurrou enquanto deitava-se e se entregava completamente à Victória.


NOS SUBTERRÂNEOS DE HADES

>"E quindi uscimo a riveder le stele" (E dali saímos para rever as estrelas)
- Expressão que conta a forma como Dante Alighiere descreve a saída do Inferno (hades) no
última linha do Canto XXXIV - Divina Comédia.


A cada passo, a escuridão engolia o grupo.

A umidade despencava das galerias seculares, reboando no vácuo e incutindo nos policiais a impressão onírica de que realmente estavam se aventurando pelos portais do reino interior de Hades.

____Se der de cara com o Caronte, com aquela mão descarnada, pedindo uma moeda para nos levar além do Aqueronte (rio dos mortos), eu juro que saio daqui correndo como uma lebre! - sussurrou Agnaldo para Mestre Takahishi.

____Sua coragem me fascina! - atacou Ana Beatriz.

____Ao menos, não fui eu quem fugiu como uma ratazana da ilha da Marola Negra, porque recebeu uma dentada de um doberman na bota de couro...

____Eu fui ferida! - retrucou a moça.

____Decerto na coragem! Os ferimentos foram superficiais. Você se assustou com o sangramento!

Louise fez sinal para que silenciassem.

A Voz deles vibrava contra a rocha e em certo ponto da caminhada, não podiam mais vislumbrar um ao outro, além do facho de luz que cada um possuía preso no capacete e
abaixo de seus fuzis.

____Isso está me lembrando aquele filme... um tal de , sei lá, quê... "o resgate" , onde criaturas das profundezas, esquartejam um a um dos aventureiros, em uma escuridão
infernal! - ciciou Lauro, um policial que fazia parte do grupo que Mestre Takahishi comandava.

____E eu me lembrei daquele que tem um enorme crocodilo, ou jacaré do papo amarelo, que engolia a todos! - emendou Leandro, rindo baixinho.

____Olha que destas galerias, com esse aspecto de "fui inaugurada em 1800" , pode surgir até uma anaconda-rei! - informou Vick, chutando uns ratos que insistiam em ranger os dentes afiados para o grupo.____sai tampinha! Estamos na caça de uma ninhada de ratos bem maiores!

Continuaram as buscas, lenta e criteriosamente.

Ao todo ali, naquela galeria principal que se iniciava exatamente abaixo da Cathedral da Sé, estavam cerca de 40 policiais, comandados, por Louise, Edgar, Giuliana e outros cinco delegados, pertencentes a vários outros distritos policiais da grande São Paulo.

____é nesse ponto que devemos nos dividir! - mostrou Louise, consultando sua bússola ao tempo em que da grande galeria, construída no século XVIII, saiam outras passagens em pedra, ao todo em número de oito, representando cada uma, os quatro pontos cardeais
principais e os outros quatro intermediários.

____Formaremos oito grupos com cinco policiais cada. - determinou Edgar.

Louise, escolheu o ponto cardeal Leste e avançou, seguida por Victória, Agnaldo, Ana Beatriz e Leandro.

Estavam claramente em uma espécie de catacumbas, onde jaziam centenas de ossos dos religiosos da antiga Igreja Matriz de São Paulo (que existira exatamente onde atualmente se situa a Catedral da Sé) , no período do século XVIII e XIX.

Na escuridão, Victória, caminhando ao lado de Louise, tocava-lhe o braço, tentando sentir sua energia e fazendo-lhe sutilmente um carinho.

O grupo se vestia com roupas de operação, composta por macacões de Neoprene, coletes a prova de balas e com recurso para flutuar, além de capacetes, coturnos e centenas de pequenos dispositivos eletrônicos de comunicação e armas.

Di Angelis acompanhava a Bittencourt pela escuridão, recordando-se a cada passo, das palavras que ela lhe dissera na véspera, quando perguntara o que fariam daquela relação, a partir de então.

____Quando terminarmos a operação contra o "Legado de Nix" e seus comandados, então poderemos conversar! - respondera a Delegada, com o olhar distante e enigmático.

De volta ao esgoto, em certo momento, começaram a ouvir o ruído de grande quantidade de água.

____O rio subterrâneo, que para o "Legado de Nix" e sua seita, deve se chamar de Aqueronte, o rio dos Mortos. - informou Louise, enquanto sacava de seu aparelho de
comunicação e avisava aos outros grupos de seu achado.

____Com tantas vias para dar no "ninho da serpente", logo a nossa é a "quente"?, quis saber Agnaldo, desanimado.

____Devemos lembrar, que a nossa colega Di Angelis aqui, é a pé-frio do grupo, logo, eu não tinha dúvida alguma de que em oito possibilidades, a nossa seria a premiada. Lembre-me de jogar na loteca quando sairmos desta pocilga! - disse Ana Beatriz.

____Vamos esperar para que os grupos de reforços nos alcancem! - mandou Louise, temerosa pela segurança de sua equipe.

____Mas já está próximo da meia-noite e a virgem deverá ser oferecida a Hades! -argumentou Victória.

____Neste caso, não poderemos esperar mais. Melhor prosseguirmos rapidamente! - anuiu a
Delegada, adiantando-se pela escuridão.

Desembocaram em outra bifurcação, iluminada suavemente por enormes velas e puderam ver o rio, estreito mas caudaloso.

____Eles já passaram por aqui! - disse Leandro, com a voz entrecortada pela ansiedade.

De um lado, havia a continuação da galeria. Do outro, apenas o túnel por onde o rio corria.

____Vamos ter que nos dividir. Ana Beatriz e os rapazes continuarão pela galeria. Di Angelis e eu, tentaremos seguir o curso do rio. Mantenha-nos informadas de tudo que avistarem ou encontrarem.

Ana Beatriz aceitou, contrariada chefiar os rapazes, enquanto Louise e Victória, testavam a profundidade e a força dágua.

____Vamos inflar nossos coletes salva-vidas e avançar pela água! - determinou a delegada.

Entraram na água, deixando o corpo ser levado correnteza abaixo.

____segure em mim! Não podemos nos perder nesta escuridão!

Victória tomou o corpo de Louise nos braços, com força, beijando-lhe o rosto e os lábios enquanto flutuavam.

____minha princesa! Nós não estamos no túnel do amor! Estamos rumo ao inesperado e certamente prestes a enfrentar grande perigo! - sussurrou Louise, ralhando carinhosamente com Vick.

____Não importa! Eu preciso senti-la próxima de mim!

____Ainda com aquele mau pressentimento?

____infelizmente sim e hoje não me sinto tão segura, quanto daquela vez, em que estivemos juntas na Favela do Adeus. Sinto algo sinistro no ar, prestes a desabar!

____Considere que nós temos a nosso favor o elemento surpresa e isso é um trunfo que pode representar o ás na manga. Nem os jogadores profissionais se aventuram em uma jogada, sem estarem totalmente na vantagem e esse é o nosso caso. Sei que teme que o assassino seja alguém próximo, que possa perceber que descobrimos seus planos e nos armar uma armadilha. Leandro não conseguiu filtrar o indivíduo, da centena de nomes que.restou em sua lista no computador, porém, tomamos todas as medidas possíveis e concebíveis para a segurança do grupo. Não nos adiantaremos até todos estiverem a postos.
Lembre-se do risco zero.

____Eu sinceramente gostaria que você estivesse com a equipe da superfície! Sentiria-me imensamente aliviada!

____Sabe que sempre agi na equipe que sai à campo, Victória, e neste caso em especial, quero estar frente a frente com o "Legado de Nix" quando chegar a hora.

Neste instante, perceberam que o curso dágua dobrava-se em curva, e de um lado, uma espécie de passarela estava iluminada por velas recentemente acesas.

____Temos que seguir aquele caminho! - disse Louise, começando a nadar para a borda, com ajuda de Victória.

Conseguiram a custo pois a corrente forte insistia em arrastá-las consigo.

Caminharam alguns metros, quando receberam a chamada de Ana Beatriz informando que nada havia ao fim do túnel em que se enveredaram.

_____Retornem para a bifurcação e entrem no rio. Depois, ao encontrarem uma espécie de curva no curso dágua, saiam e sigam a passarela. Estaremos esperando. - determinou Louise.

No rádio, ouviam as vozes de todas as outras equipes conversando entre si. A Delegada recostou-se sobre a parede úmida, próxima de uma vela. Parecia ompenetrada em descobrir o melhor a fazer, pois o tempo se esvaía rapidamente. Sentiram uma corrente de ar
passando, e a chama das velas tremeluzindo.

_____existem saídas para a superfície por este local, mesmo que sejam espécies de chaminés. - concluiu a delegada.

_____Mas e este cheiro horrível? - perguntou Victória, tapando o nariz, ao sentir, sobressaindo-se de outros odores de esgoto, outro, muito forte e nauseabundo.

_____carne humana em decomposição! Não existe substância na natureza, composta de carne que possua o odor pútrido como o de um cadáver! - informou Louise.

____apanhe sua máscara e a coloque. Certamente estamos perto de nosso inimigo e não podemos correr
riscos de sermos envenenadas.

____Acha que a carne é a dos corpos que ele desenterrou?

____Não tenho a menor dúvida! - acentuou a delegada, sacando de seu rádio transmissor e convocando todas as equipes do subterrâneo para se reunirem a elas.

Victória, mergulhou na sua lembrança de lençóis perfumados e um corpo macio junto ao seu,
beijando-a e a olhando com uma expressão nova, de mulher em êxtase, saciada e nas portas
do Éden. Pode contemplar muito próximo a si, a intensidade daqueles olhos azuis turqueza, profundos como o mar do caribe e cintilantes como uma estrela, a Vênus.
Um pensamento lhe ocorreu, a frase: ____beijo nos lábios é para o amor! - que Louise lhe dissera em outras
vezes. Neste instante, imergiu de seus pensamentos e a tomou pela cintura, puxando-a para si com urgência e tornando a beijá-la ardorosamente.

Ela lhe correspondeu o beijo, também com intensidade, sorvendo os lábios de Vick, e vez ou outra, prendendo-os em seus dentes, suavemente, para depois invadi-los com a língua atrevida.

_____Beijo nos lábios é para o amor? Jour? - perguntou Victória, ofegante, enquanto ainda a apertava em seus braços.

_____O que está tentando afirmar com isso, Di Angelis? Como sabe sobre "Jour"? Era o nome como minha mãe me chamava! - revelou Louise, com a voz trêmula.

_____Antonio se referiu a você assim!

_____Ah! - exclamou a delegada.____Quando eu e Antonio Di Angelis nos conhecemos na Sociedade Hípica de São Paulo, eu tinha 13 anos e ele 26 e conseqüentemente, conheceu também meus pais, quando ainda eram vivos, além dos apelidos carinhosos que utilizávamos.

_____E naquela época vocês já namoravam?

_____Não! Eu vivia em uma escola para moças na França, estudando Ballet, nas férias, voltava ao Brasil em visita a minha família. Foi numa destas ocasiões que conheci seu pai. - explicou a Bittencourt, arfando e denunciando que estavam começando a se enveredar em algum assunto muito delicado.

Victória resolveu não se aventurar mais por ali, e continuou a tocá-la suavemente e feliz, pois mesmo que ela não tivesse lhe respondido a pergunta inicial, sua reação a respeito fora muito defensiva, o que talvez significasse que o fato de agora consentir que a beijasse nos
lábios, poderia ser indício de que algo especial poderia estar acontecendo, lenta e paulatinamente.

Em certo momento, Louise afastou-se bruscamente de seu corpo, pois ouviram passos e não demoraram a avistarem os pontos de luz da equipe de Ana Beatriz que se aproximava.

_____Faltam quinze minutos para a meia-noite! Qual são as ordens? - perguntou Beatriz a Louise, tão logo se encontraram na escuridão.

Victória sabia muito bem o que preocupava o grupo: o sacrifício da virgem que representaria Perséfone naquela noite.

_____Estamos próximos, vamos nos adiantar aos outros que devem demorar pelo menos meia-hora ou vinte minutos para nos alcançar! - mandou a delegada, voltando a caminhar pelo túnel, sendo seguida pelos seus comandados.

Não demoraram a avistarem uma espécie de par de sentinelas, vestidos em longas vestes negras, com capuz ocultando-lhes as fisionomias.

Estavam postadas ao lado de outra galeria, que se iniciava no espécie entroncamento onde se depararam ao saírem do túnel.

Louise, apagou seu farolete e fez sinal para o grupo esperar, enquanto gesticulou para Ana Beatriz acompanha-la.

As duas esgueiraram-se pelas paredes, com suas facas de campanha em mãos. Victória esperou com Agnaldo e Leandro, sabendo bem que elas subjugariam as sentinelas, rápido e silenciosamente.

Ouviram a exclamação de surpresa de Beatriz, quando em sua mão, despencou um crânio humano e descobriram que aquelas sentinelas nada mais eram do que esqueletos antigos, cobertos por túnicas de aparência nova.

Victória e os demais do grupo se adiantaram, não entendendo a princípio o alerta enraivecido
de Louise.

_____traição!
Naquele exato momento, vultos apareceram de todos os túneis e possuíam nas mãos, uma
espécie de zarabatana.

Di Angelis apenas sentiu, uma espécie de picada como de um inseto em seu pescoço e sua visão turvar e seus membros enrijecerem. Percebeu tardiamente que foram atacados com dardos com substância entorpecente. Desmaiou.


>"Anceps fortuna belli" - A sorte na guerra é incerta.


Victória, ao acordar, deparou-se com uma cena horrenda. Em um grande átrio de pedra, com teto altíssimo, a luz, muito forte, provinha de enormes spots, talvez alimentados com a energia dos trilhos do metrô que estaria metros acima. O local possuía vitrais sinistros, com
desenhos representando sacrifício humano para criaturas bestiais.

Esculpido na rocha onde pisavam, estava uma enorme rosa dos ventos, com o símbolo de Nix ao centro. Em cada ponto cardeal, um corpo semi-decomposto ajoelhado com uma vela nas mãos descarnadas. Por todo lado em que se olhasse, semi-imersos na escuridão, haviam vultos encapuzados, cobertos pelo manto negro. O foco de luz intensa estava direcionado para o centro da rosa dos ventos, onde havia uma espécie de altar de pedra, tendo ao seu lado, um pequeno baú de madeira esculpida.

A policial percebeu que suas mãos estavam presas pelas próprias algemas que trouxera e suas armas foram retiradas, incluindo o colete a prova de balas.

O restante do grupo também estava em igual situação e aos poucos recobravam os sentidos.

Os homens que os vigiavam, possuíam floretes nas mãos e em certo momento, outro grupo, avançou de uma das laterais, formando uma espécie de túnel com suas espadas, por onde, duas criaturas vestidas com manto e capuz vermelho encarnado, adiantaram-se majestosamente. Como cinturão de suas vestes, uma faixa dourada, com letras gregas bordadas.

_____Os gêmeos! Thanatus e Hipnos! - exclamou Agnaldo.

Os dois homens postaram-se ao centro, próximos do altar, enquanto os outros se postavam, com suas armas em riste, passando a entoar uma espécie de melodia profana em latim.

Rapidamente, outros encapuzados trouxeram uma moça adormecida, vestida totalmente de branco, mantendo-a sustentada em seus braços, ao lado do altar. Iniciou-se então o cerimonial que oferecia a virgem a Hades, o senhor das profundezas, sendo que em sua pele, começaram a ser tatuadas inscrições.

Enquanto isso, Hipnos passara a articular palavras em uma língua desconhecida, seguida pelos inúmeros encapuzados que ali estavam.

____é assim que ele controla sua corja! Ele os mantém presos a uma espécie de transe hipnótico. Amanhã, acordarão pensando que tiveram um pesadelo. - concluiu Leandro, em voz baixa para o grupo.

____Se isso for verdade, ainda temos uma chance de impedir que esse sacrifício insano continue e ganharmos tempo para as equipes de apoio nos encontrarem! - avisou Louise aos seus comandados.____Precisamos romper o transe! Vejam a mandala enorme, presa por um cabo frágil, que gira suspensa sobre todos? Este, além da voz do hipnotizador é o ponto onde ele os mantém sobre controle.

____Estou com as mãos presas às minhas costas, mas ainda posso saltar! - avisou Vick.

____Vou utilizar a parte superior do altar como plataforma e me lançar sobre a mandala. Tentarei prendê-la com minhas pernas e derrubá-la sob com o peso do meu corpo! Pode ser que rompa o transe!
____Se não der certo, eles a matarão com as espadas! - avisou Agnaldo, à beira do pânico.

____Entendam! Se o grupo debandar, ficarão apenas os irmãos insanos e algum maníaco sobressalente, aí então, poderemos, agir. - retrucou Victória, tentando convencer
Louise.___Além do mais, conto com vocês para me dar cobertura!

A delegada refletia sobre o plano de Vick, enquanto esta, pediu para a colega ao lado.

____Venha, Ana Beatriz e retire meu brinco com os dentes! Depois o coloque nas minhas mãos e vire sua algema para que eu as alcance e abra. Farei o mesmo com as mãos de
Louise.

Louise fez sinal para Ana obedecer e esta, isfarçadamente, arrancou um dos brincos de Victória, fazendo o que a colega determinou. Em poucos minutos suas mãos estavam livres, sendo que Louise aproximou-se e teve também a sua algema aberta.

Neste instante, Hipnos retirava do baú, uma adaga idêntica ao desenho que Victória encontrara quando de sua caçada ao Anjo Vingador.

_____Precisamos de mais tempo! - gemeu a delegada que apoderando-se da pequena gazua, passara a trabalhar a algema de Victória, porém esta, ao ouvir a ordem de Thanatus para que a virgem fosse conduzida ao altar, gritou:

_____Tem que ser agora! - lançando o corpo em mortais para a frente e ao saltar sobre o altar, girou o corpo no ar, prendendo suas pernas no enorme artefato, que rangeu, balançou, até que enfim, desabou em um estrondo que reboou pelos subterrâneos.

As pessoas encapuzadas, por breves instantes, mantiveram-se paralisadas, até que vozes se ergueram entre eles, sendo que ao fim, passaram a fugir por todos os lados, em pânico, como ratos em naufrágio.

_____Maldita! - urrou, Thanatus, apanhando um florete e aproximando-se do corpo desacordado da policial.

Louise, saltou , apanhando outro florete, postando-se em guarda, diante do assassino, já em posição de ataque.

_____renda-se! Não há saída! Temos uma legião de policiais se aproximando pelas galerias.- determinou.
Se antes do soar da meia-noite, o ritual caminhava rapidamente, agora o filho de Nix, passara a agir tranqüilamente, sem pressa, falando compassadamente.

_____Ah! A "Lenda dos olhos de Safira", defendendo como uma leoa a pantera abatida? Ela é importante para você. Posso ler no seu rosto. O que seria capaz de me oferecer pela vida dela?

O "Legado de Nix" aproximou-se de Victória, postando seu florete bem na altura de seu coração.

____Posso transpassá-la em apenas um movimento!

____O que quer? - perguntou a delegada com firmeza.

____Quero que mande seus homens de volta para a superfície ou a Di Angelis morrerá!

____Ele está blefando! Sabe que está encurralado - gritou Ana Beatriz, que por sua vez também se apoderou de uma espada e cercou Hipnos.

____Blefando? - riu Thanatus, movendo a lâmina para a face de Vick.____Um rosto tão belo e harmônico como uma escultura de Miguelangelo, mas que ficará totalmente desfigurado, antes que eu finalmente a liquide!

____Espere! - mandou Louise, procurando um rádio, que estava no chão e determinando que todos os outros grupos recuassem e esperassem novas ordens.

____Assim que se faz! - regozijou-se o assassino, enquanto Hipnos apanhava Vick nos braços.

____Vamos sair e ninguém se move ou ela morre! - avisou.

O que ele não contava, era que a policial, recobrando parcialmente a consciência e cravasse os dentes na base do pescoço do gêmeo que a carregava. Este gritou enfurecido pela dor e a lançou ao chão, apanhando seu florete e a atacando.

Louise avançou a tempo, impedindo-o de atingir Victória e passaram a digladiarem violentamente.

Leandro e Agnaldo tentavam abrir as algemas, um do outro, com grande dificuldade.

____Não acredito cara, que você, um gênio na informática, não consiga abrir um fecho de algema! - atacou Agnaldo, furioso.

____E o que me diz de você? Será que só sabe mitologia e latim? - contra atacou, Leandro.

Victória no chão, gemia e tentava levantar-se, mas sua cabeça girava e ela tornava a desabar.

Neste instante, Louise já se batia contra Hipnos e Ana Beatriz contra Thanatus. Os irmãos se mostraram exímios espadachins, sendo que ficava difícil deduzir quem teria mais técnica ou habilidade.

Em certo instante, Ana escorregou e Thanatus feriu-lhe o ombro oposto do braço que empunhava a espada. A policial gemeu e rolou ao chão, procurando escapar da saraivada de arremetidas que seu adversário lhe aplicava.

Louise, pelo seu lado, em um movimento de grande habilidade, arrebatou o florete das mãos de Hipnos, que percebendo a situação perigosa que se encontrava, fugiu rapidamente para as sombras, embrenhando-se nas galerias.

____Busque-o! - mandou Louise para Agnaldo e Leandro que acabaram de livrar-se das algemas.

Os dois rapazes, saíram correndo em busca do foragido, enquanto Thanatus, aproveitando-se do descuido de Louise, deixou Ana Beatriz de lado e atacou-a, quase a trespassando com a espada, sendo que a delegada livrou-se no ultimo momento, contra-atacando e fazendo-o
recuar.

____Víbora! Eu sou o melhor espadachim da América Latina! Nenhum homem até hoje conseguiu vencer-me! - rugiu o assassino.

Louise não se deixou intimidar e continuou a lutar, com rapidez e grande habilidade, sendo que aos poucos, ele, começara a demonstrar claros sinais de cansaço.

____Sua vaidade o traiu, Doutor Ângelo Miranda! - revelou a delegada, continuando a cercá-lo e a encurralá-lo com o florete.____Agora sei porque se antecipou aos nossos planos! Certamente percebeu a movimentação das equipes especiais, incluindo especialistas em
venenos, para a ação na véspera do natal e não foi difícil nos surpreender, obrigando-nos a assistir ao seu ritual macabro e ao fim, fugir vitorioso com seu grupo! Estava certo que nos subjugaria e humilharia, como fez em todos os outros crimes que não pudemos detê-lo!
Arriscou demais e os ventos mudam constantemente de direção!

Thanatus, ao ter sua identidade descoberta e percebendo claramente a superioridade de sua adversária no combate, apossou-se de Victória, recolocando a ponta do florete em seu peito.

____Agora que já conhece boa parte dos meus planos, devo informá-la que retornamos ao ponto inicial! Estou com sua valorosa policial como refém e a partir de agora dou as ordens!
Sairei com ela, mansamente e ninguém me impedirá! Qualquer movimento em falso e não hesitarei em matá-la!

Louise estacou, tentando organizar um plano de ataque, enquanto o assassino retirou de um frasco, uma substância leitosa e umedeceu a ponta de sua capa de tecido, pressionando-a contra o nariz e boca de Vick.

____Isto fará a musculatura de seu corpo contrair e paralisar mas não a matará! Se você e sua equipe não interferir mais em meus planos, a vida da Di Angelis será poupada! - disse, enquanto colocava a policial em seu ombro, iniciando a fuga.

Louise tentou acompanhá-lo de perto, porém , sem muito se aproximar, tentando em vão impedi-lo, até que os perdeu de vista na escuridão das inúmeras e gotejantes galerias.

____Maldito! - vociferou, enquanto apanhava seu rádio e determinava que todas as saídas conhecidas fossem bloqueadas, o que ela sabia ser tarefa que levaria muito tempo, porque aquele subterrâneo secular, era um fantástico labirinto.

Acudiu Ana Beatriz, que gemia, com um filete de sangue escapando-lhe do ombro, fazendo-lhe uma compressa para estancar o sangramento.

____Vou procurar por Thanatus! - avisou a Delegada. Fique e espere os outros grupos. Está ferida no ombro, mas felizmente atingiu apenas a musculatura do braço. Sentirá muita dor, mas sobreviverá.

Ajoelhou-se ao lado dela, tocando-a no rosto.

____Agora está tudo bem! Nós o detemos! Faça companhia a esta pobre garota que certamente está narcotizada, e aguarde Edgar e os demais chegarem. Você agiu com coragem e determinação. Eu a admiro ainda mais por isso! Seu pai ficará orgulhoso!

A Beatriz, não conteve as lágrimas, apanhando a mão de Louise.

____Prometa-me, Lou que voltará?

____É claro que voltarei! - disse a delegada, enquanto desaparecia rapidamente pelo túnel onde Thanatus se embrenhara, carregando Victória.

Sabia que o assassino não evoluíra muito pois tinha que arcar com o peso da policial e isso a incentivava a seguir mais rápido, com o florete em punho.

Encontrou-o e encurralou-o, exatamente quando alcançaram outro grande vão, onde havia ao centro, a boca sinistra de uma gigantesca cisterna de pedra que se ocultava muitos metros abaixo do piso, onde se acumulava a água de um lençol dágua subterrâneo.

Thanatus, colocou Victória com a cabeça pendendo para dentro do poço, mantendo-a apenas com uma mão, e rindo sarcasticamente para Louise, pois sabia que torturava a ambas.

____Enfim, eu e você, poderosa delegada. Não deveria ter se arriscado a vir me enfrentar sozinha.

____Não ouse deixá-la cair! - ameaçou a Bittencourt, aproximando-se mais com sua espada em punho.


____O que fará? A deixará afogar-se para me perseguir ou, tentará salvá-la? - desafiou Ângelo Miranda.____O que me intriga, foi como conseguiram descobrir as pistas de meus
planos e chegarem até a mim! Estava tudo perfeito até que esta destemida policial aqui começasse a se intrometer. O ritual desta noite, aplacaria minha fúria e traria fertilidade aos campos. Minhas sementes seriam lançadas ao fim, nesta cisterna, de onde suas essências sagradas se misturariam a toda água potável, rios abaixo. Demoramos tanto, eu e meu irmão, arquitetando cada passo. Vocês não conseguiram descobrir-me a identidade a tempo,
pois Hipnos alterou todos os dados conhecidos sobre nós nos computadores. Como não somos gêmeos idênticos, a Di Angelis jamais reconheceria minha face, nas boates ou outros lugares, onde meu irmão se dirigia para escolher e arrebatar nossas sementes...

_____Agora acabou! Entregue Victória e te asseguro que sua integridade física e a do seu irmão serão mantidas!

_____Porque se preocupa tanto? Delegada? Eu sacrifiquei apenas quatro viciadinhos em cocaína, dispostos a tudo por uma dose de graça! Ninguém até então percebera a real causa da morte! Quem se importa com mais algumas vítimas fatais de overdose entrando para a estatística? É uma geração condenada! O que fiz foi apenas utilizar-me de seus corpos, para consagrá-los! A finalidade da semente é germinar!.

_____Renda-se e providenciaremos tratamento psiquiátrico adequado para você! - tornou a argumentar a Delegada, enquanto se aproximava lentamente.

_____Nada poderá nos deter .Você se esquece que sou um semi-deus? No próximo Sabbah voltaremos a praticar nossa missão sagrada! Estamos predestinados a vencer! - gritou Ângelo, enquanto içava no ar, as pernas de Victória e a lançava no vão escuro, fugindo em seguida.

Louise correu para a borda da cisterna, retirando suas botas e tudo que lhe pesaria ao corpo, saltando na água.

O enorme lugar possuía a profundidade de quatro andares de um edifício e estava quase todo cheio com uma água turva e fétida.

A delegada procurou alcançar a superfície, em tempo de sentir o corpo de Vick ainda flutuando, apesar de estar imobilizada pela algema e mal conseguir mover seus membros.

_____Vou tirá-la daqui! - avisou Louise, servindo-se de outra parte do brinco da policial e abrindo-lhe as algemas.

_____Não consigo nadar! - arquejou Vick, já engasgando-se com alguns goles dágua.

A Bittencourt abriu seu próprio colete salva-vidas que ainda mantinha no corpo e prendeu-o a Di Angelis, acariciando-lhe o rosto aflito.

_____Agora flutuará!

_____Mas e você?

_____a água é minha segunda natureza! - brincou Louise, otimista.____Lembra do mar?

_____Lembro-me e devo confessar que tenho verdadeira fobia à água turva e profunda! - riu nervosamente a policial.

_____Cada um com sua fobia! - argumentou Louise, procurando ativar as pequenas luzes que haviam em seus capacetes, pois a escuridão do lugar estava lhe ameaçando causar um ataque de claustrofobia.

Não houve tempo para aumentar o otimismo, pois começaram a ouvir um estranho barulho, como o sibilar de uma enorme serpente aquática!

_____O que será isso? - perguntou Vick, ansiosa.

_____Parece que a água passou a escoar para algum lugar! - avisou Louise, apanhando a policial pelo cinturão.


Neste instante, um medonho redemoinho se formou, e elas entenderam que certamente Thanatus abrira alguma válvula que dava vazão 'a água da cisterna.

_____vamos ser sugadas! Respire fundo e não desista! Estarei junto com você! - mandou Louise, enquanto eram arrastadas para o fundo escuro e lançadas ao interior de galerias subterrâneas, como se estivessem em um colossal vaso sanitário que Ângelo acabara de acionar a descarga. Por minutos que pareceram eternos, chocaram-se violentamente pelo teto de pedra dos estreitos dutos, empurradas pela água em forte vazão, até que conseguiram se enroscar em uma bifurcação estreita, onde havia uma pequena bolsa de ar e poderiam respirar.

_____Ainda está paralisada? - perguntou Louise para Vick.

_____posso mover-me suavemente agora!

_____Isso é bom, pois precisamos tratar de sair desse lugar! Agora entendo bem a expressão "entrar pelo cano" !

Silenciaram pois sabiam bem que com todos aqueles dutos estreitos, submersos na água, o oxigênio daquela pequena bolsa de ar, se esgotaria em minutos e precisariam se arriscar a mergulhar em busca de outro local com mais ar, além de que, a saída dali, poderia estar a quilômetros de distância.

_____Edgar e seu grupo nos resgatarão! Só precisamos esperar e nos manter calmas! -sussurrou Louise, fechando os olhos para tentar se livrar do ataque de claustrofobia.

Victória moveu-se com dificuldade, abraçando-a e sussurrando-lhe ao ouvido.

____Quero que prometa que não maculará suas mãos com o sangue do cretino que molestou July!

____Eu prometo, minha querida, mas tente se acalmar. Já enfrentou situações piores, enfrentou o abismo e sobreviveu! - respondeu Louise, tocando-a suavemente.

____Sim, mas quero ainda que prometa que não vai deixar que meu corpo fique aqui nos subterrâneos! Quero que mande retirá-lo e o sepulte!

____Você vai escapar dessa! - gritou a delegada, tentando conter o pranto.

____Você não entende, caríssima! Eu sou filha do ar, não da água! Nunca me entendi bem com Netuno! - arquejou Victória, angustiada pelo oxigênio que estava se tornando rarefeito.

____Reaja! Eu ainda não desisti de você, Dian! Vamos nadar e tentar encontrar outra bolsa de ar até sermos resgatadas. Não pode se entregar agora! - soluçou Louise, enquanto tentava manter Vick consciente.

____Você é muito importante para mim! Depois que entrou em minha vida escura e solitária, tudo mudou e passei a ter prazer nas pequenas coisas e a apreciar todas as manhãs, quando a chamava em meu gabinete, com uma desculpa qualquer para vê-la sorrir ou falar!

Vick sorriu suavemente enquanto a tocava nos lábios.

____Beijo nos lábios é só para o amor ? Diga Louise o que sente realmente por mim!

____Eu, eu...não sei ao certo, mas quando sairmos daqui, conversaremos! - respondeu a delegada, arquejante, abraçando Victória e procurando manter a cabeça dela à tona.

Um estrondo, fez com que tudo ali vibrasse e a água voltasse a escoar furiosamente.

____Ouviu? É o Edgar! Devem estar dinamitando os dutos para nos livrar dessa ratoeira! Voltaremos a ser carregadas pelas águas e não devemos nos separar! - avisou Louise, antes que um bloco denso do líquido escuro arrebentasse violentamente sobre elas, arrastando-as
em uma velocidade impressionante.

A Delegada, lutava como podia para manter a cabeça fora dágua e não soltar o cinturão de Victória, porém, seus corpos eram lançados contra as paredes, ameaçando parti-las ao meio e em um destes abalroamentos, elas foram separadas, e a lanterna do capacete de Louise
queimou-se, fazendo-a mergulhar na mais completa escuridão.

Bracejou desesperada, tentando não se entregar ao pânico e toda vez que voltava 'a tona, chamava por Victória, mas não recebia resposta alguma, além do gutural ruído das águas escoando. Despencou em uma galeria imensa, e percebeu que finalmente haveria ar o suficiente e poderia enfim encontrar saída.

Nadou como pode, chamando por Vick, até que finalmente foi lançada em um rio semelhante a um inerte espelho negro.

Deixou seu corpo flutuar lentamente e ao retirar a cabeça dágua, pode ver emocionada o céu.
_____"E quindi uscimo a riveder le stele" (E dali saímos para rever as estrelas) - exclamou, lembrando-se do trecho da Divina Comédia.


> "Post nubila, Phoebus"
( Depois da tempestade, vem a bonança)

As buscas pelo corpo de Victória duraram mais de uma semana. Louise acompanhou boa parte da operação, pessoalmente, até que o estuprador de Júlia foi detido e a delegada voltou ao seu Distrito, deixando Edgar na liderança dos trabalhos de dragagem do rio.


>"Una hirundo non facit ver" - (Uma andorinha só não faz verão)

Lizandra voltou definitivamente do sul, mas depois do desaparecimento de Victória, abandonou o trabalho no IML, dedicando-se apenas a clinica geral.
Agnaldo acompanhou de perto toda a dor sofrida por Liz, inclusive o estado de depressão profunda em que a médica mergulhou. Adriana a tem auxiliado em sua recuperação e com o passar dos dias, se tornaram amigas, amantes e confidentes, porque o sofrimento e a saudade geram laços entre corações os amargurados.

O sítio e o apartamento de Victória está sendo mantido intacto, por ordens de Louise, que reatou seu relacionamento com Antonio di Angelis. Os caseiros estão cuidando para que nada falte a Sir Lancelot. Este ainda aguarda por sua dona, todas as tardes.


> "Allegatio sine probatione veluti campana sine pistillo est!"
(Alegação sem prova é como sino sem badalo).

O corpo de Thanatus foi encontrado no interior das galerias, com inúmeras perfurações a
bala. Os policiais Leandro e Agnaldo, suspeitos da execução, negaram tudo na sindicância policial e o caso foi arquivado, entendendo o corregedor que certamente o assassino Ângelo. Miranda, perecera em intenso tiroteio contra os policiais. O governador está tentando reabrir
o caso para investigar as circunstâncias da morte de seu sobrinho.

Quanto a Hipnos, este foi encontrado pela equipe de Giuliana e preso. Aguarda julgamento em uma cadeia de segurança máxima e recebe tratamento psiquiátrico.
Mariana Moraes está tentando permissão para escrever um livro a respeito da vida e crimes do psicopata e seu
irmão.


> "Tempus tempora temperat" - Tempo é remédio.

Descobriu-se que o molestador de Julia pertencia a uma família rica e o rapaz permaneceu preso apenas por um dia e uma noite, pois seus advogados conseguiram impetrar pedido de liberdade provisória para o réu confesso responder ao processo em liberdade, pois o mesmo
era primário e de bons antecedentes, além de ter residência fixa.

Edgar estranhou que Louise não reagiu contra a soltura do maníaco, porém, mais tarde soube que o estuprador fora "esquecido" por um "lapso", na ala dos presos por atentado violento ao pudor entre outras taras e adeptos da sodomia.

Pela manhã, ao ganhar a liberdade, o indivíduo teve que ser encaminhado diretamente para um hospital.

_____Está satisfeita agora? - inquiriu Edgar a Louise em seu gabinete.

A delegada, estava com a foto da equipe da sala 44 em suas mãos e contemplava embevecida o sorriso encantador de Victória.

Edgar percebendo que a titular não lhe dera ouvidos, repetiu sua pergunta, preocupado.

_____Está satisfeita, Louise?

_____Não ! mas prometi a "ela" que não mancharia minhas mãos com o sangue daquele animal!

_____E quanto a Julia?

_____Já está fazendo terapia com a doutora Adriana e no próximo semestre, pretendo enviá-la para continuar os estudos na Europa. Ela está precisando de novos ares e outras perspectivas na vida. Só o tempo poderá ajudá-la a curar sua ferida na alma.

_____O tempo realmente é o melhor remédio! - conclui Edgar. ____E para você? Será que o
tempo conseguirá estancar esta intensa dor que vejo oculta no fundo dos seus olhos?

Louise tocou o ombro de Edgar com carinho.

_____Ah tempo! O tempo rege a vida, e a vida é a arte do esquecimento.

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