"A
Arte de Perder
"A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo)
não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder
não chega a ser mistério por muito que pareça
(Escreve!) muito sério. "
(Elisabeth
Bishop)
Adriana
mudara-se agora para uma ampla casa em um condomínio fechado.
O local fora escolhido para ser a sede da família que seria
formada brevemente. Era mobiliado com requinte e bom gosto.
Vick
apertou a campainha suavemente. Ouviu os passos leves no interior
e desejou que fosse alguma empregada que viesse recebê-la, pois
repentinamente suas pernas pareceram se "desconectar" de
seu corpo ante a possibilidade de tornar a ver diante de si, aquele
rosto oval de aveludados olhos amendoados.
O
choque intenso, tornou-se em uma "tsunami", quando constatou
que estava diante de uma jovem mulher, grávida de sete meses,
ou mais.
A
expressão do rosto da policial, parecia declarar mais do que
um discurso, pois Adriana lhe tomou a mão e a conduziu até
o interior da ampla sala, fechando a porta atrás de si.
_____Bem!
Agora já se deparou com a surpresinha que eu tinha lhe prometido!
_____Surpresinha?
- exclamou Vick, lançando a mão direita teatralmente
no peito._____Ainda bem que meu coração é forte!
Adriana
riu suavemente. Parecia tentar avaliar a profundidade do abalo que
seu "estado interessante" causara na policial.
Victória
tratou de tentar encaminhar a conversa para um tom mais ameno, despreocupado.
Assim, planejava ganhar tempo para se recompor e assimilar a "novidade".
_____Quanto
tempo não nos víamos? Um ano ou mais?
_____Acho
que uns quinze meses!
_____é...
o tempo passa!
_____Pois
é, mas... Não precisa ficar aí em pé,
estática, como se tivesse encontrado o "monstro do Lago
Ness" em sua banheira! - atacou Adriana com um sorriso travesso.
_____é
que eu, eu... bem... eu , na verdade... na verdade... eu...
______Não
precisa se explicar. Quero apenas que me diga algo sinceramente: Eu
estou feia?
_____Na,
Não! Continua linda, como uma boneca de porcelana... só
a silhueta que está um pouco cheinha...
_____Rotunda!
Para ser bem clara e se continuar com esta expressão de susto
medonho, vou começar a pensar que você é do tipo
que tem "fobia" de mulher grávida!
_____Imagina!
Eu acho a mulher grávida a personificação do
milagre da vida!
Adriana pestanejou várias vezes, embaraçada.
_____Estou
impressionada! - disse enfim._____Ninguém antes havia classificado
a minha gravidez de forma tão tocante!
Vick
sentiu-se enrubescer e desejou tocar aquele ventre, mas não
ousava pedir. Adriana aproximou-se e apanhou-lhe as mãos nas
suas.
_____Acho
que ainda a conheço um pouco, Di!. Pode tocar meu ventre. Não
estará pecando contra minha família.
Silêncio
denso entre ambas, enquanto Vick timidamente tocava Adriana.
_____Já
sabe se será menino ou menina?
_____é
menina.
_____Já
escolheram o nome?
_____Estou
em dúvida.
_____Ah!
_____Pode
sentir ela chutando aqui? É a pontinha do calcanhar dela!
_____Sim!
Posso sentir!
O
rosto da policial iluminou-se.
_____Precisa
ver só quando ela decide me espetar com o cotovelo. Geralmente
é bem aqui que se aloja. Fica um pequeno e dolorido volume.
Aí eu massageio suavemente o local e converso com ela, até
que mude de posição.
_____Conversa
com ela?
_____sim!
Ela já pode ouvir nossas vozes. Está ouvindo, nenê?
Esta é a "famosa" tia Victória!
Adriana
acariciava o próprio ventre enquanto conversava com a bebê.
Vick ainda não se recuperara por completo do "susto"
e sentia-se acanhada, emocionada e ao mesmo tempo enciumada. "Sua"
bela mesticinha agora seria mamãe e temia que seus status perante
o coração dela decaísse mais um degrau.
Zangou-se
momentaneamente consigo. Como ainda podia ter a pretensão de
fazer parte do "podium" do afeto dela?
Sentiu
um desejo ardente de fugir dali. Sair correndo, mas não podia
dar o braço a torcer. O melhor, concluiu, era conduzir tudo
no bom humor e assim disfarçar a ebulição de
sentimentos controvertidos que digladiaram dentro de si.
Apanhou
as mãos de Adriana e as conduziu para seu próprio corpo.
Fez que esta lhe apertasse suavemente a parte rotunda inferior da
jaqueta de couro, onde o gato oculto e adormecido, despertou e moveu-se
assustado.
_____Sente?
Também estou grávida e o pai é Sir Lancelot...
pode ouvir o miado?
O gato saltou pelo decote de Vick e sumiu debaixo dos móveis
da sala.
_____Seu
"filho" acaba de nascer! - anunciou Adriana.
Capítulo
3: O POETA DO CAOS
Na cantina Del Vechio, Vick já estava irritada com o atraso
de Mariana. Esta chegou, enfim, caminhando com langor. O Rosto bem
maquiado, naquela espécie de beleza exótica de mulher
onde à primeira vista, só se avista, olhos e boca.
Alguma
coisa naquele "bocão" assinalava algo a Victória
que ela não conseguia definir.
O jantar transcorreu sem susto. Mariana habilmente, tentando se mostrar
inofensiva e preocupada com o sucesso das investigações
da polícia.
_____Precisam
prender este serial killer antes que mate novamente! - exclamou.
Vick
engasgou com seu gole de vinho.
_____De
onde tirou esta idéia? Serial killer?
_____Ora,
policial... não se iluda. Tive a oportunidade de conversar
com Marta. Lembra-se?
_____Pode
ser que ela tenha se enganado.
_____Mesmo?
Ao
fim do jantar, Mariana levantou-se apressada e convidou.
____Segundo
turno do nosso assunto, lá na redação do jornal.
Preciso preparar uma matéria para o caderno matutino e ficaremos
mais a vontade para conversar sobre um assunto tão importante.
Victória
já estava argumentando que preferia que conversassem em outro
local, quando Mariana lhe acena com uma irresistível possibilidade.
_____Lá,
posso lhe mostrar os "arquivos". Arquivos de mais de trinta
dias de intenso trabalho de " campo". Se colaborar e fizermos
um acordo, poderá obter cópias. Interessa?
NA
REDAÇÃO DO JORNAL
Acomodaram-se em torno da moderna mesa de vidro na luxuosa sala da
repórter. Cada detalhe do local, demonstrava o elevado status
e poder de Mariana junto ao jornal.
Cruzou
as pernas. A saia lhe fugiu coxas acima.
______Vamos
ao trabalho! - disse enquanto acionava um minúsculo e moderno
notebook sobre a mesa._____aqui tem relatórios detalhados da
rotina de Marta. Entrevistas com jardineiros, carteiros, vizinha fofoqueira,
entre outros. Até das crianças que costumeiramente invadiam
o jardim para brincar de esconde-esconde ou roubar alguma fruta, e
olha que estes peraltas tinham coisas curiosas e no mínimo
interessantes a relatar.
Vick
arqueou levemente as sobrancelhas, tentando ocultar seu interesse
crescente.
____Veja
por si mesma! - ofereceu Mariana, empurrando o aparelho com sua tela
de cristal para o lado da policial.____E existem fotos. Fotos de certas
pessoas que entravam soturnamente na casa em horários bem curiosos.
Victória
inclinou o corpo para a frente, com os olhos cravados na tela. Mariana
percebendo que a fisgara, fechou o notebook.
____E
então? - perguntou com um leve sorriso nos lábios carnudos.
____E
então que talvez possamos conversar sobre o assunto, com mais
profundidade. - argumentou Vick.____O que quer saber?
Mariana
sacou, de não se sabe onde, um pequeno gravador.
____A
regra do jogo é: eu pergunto e você responde, ok? Muito
simples!
____é
criminoso e antiético para uma policial, revelar informações
colhidas em uma investigação!
____Ninguém
saberá de nada, além de nós duas. Preciso do
material. Já escrevi dois livros sobre violência urbana
e neuroses da sociedade moderna.
____Li
as obras. Um bom trabalho. - elogiou Vick.
Mariana
sorriu ainda mais, mostrando belos e alvos dentes.
____Já
sabia que era uma policial diferente dos outros que costumeiramente
encontramos. É bonita, culta e de uma coragem invejável.
Por isso a escolhi.
____Me
escolheu apenas, pelo serial killer!
____Ah!
Sim, o "nosso" serial killer.
Pretendo
escrever sobre estas complexas criaturas, frutos da sociedade moderna.
____Existem
seriais killers desde tempos remotos! - retrucou Vick.
____Mas
não como os nossos "garotos"... estes estão
se aprimorando, evoluindo, refinando!
Victória
não apreciou o olhar de paixão e tamanho entusiasmo
diante da possibilidade da existência de um assassino frio e
cruel solto pela cidade.
____Então?
Prometo silêncio e todo material que dispomos no arquivo.
____E
o que você lucra com isso afinal? - perguntou a policial.
____a
princípio, nada. Mas, depois que o prender, quero entrevistá-lo.
Precisa prometer que o pegarão vivo!
____Meu
trabalho é cumprir a lei e trancafiar criminosos. Não
faço parte de grupos de extermínios!
A Policial estava sendo sincera. Sabia que era seu dever capturar
" O Legado de Nix" vivo, mesmo diante do desejo íntimo
de "eliminar" tais aberrações da sociedade.
____Trato
feito! - Exclamou Mariana .
____Então
cumpra sua parte. Dê-me os arquivos...
____Ainda
não! Preciso saber se nosso assassino vale a pena a permuta,
afinal, não quero ter em mãos mais um caso de um criminoso
comum, matando aleatoriamente por taras ou dinheiro, entende?
Vick
parou para pensar rapidamente.Não podia revelar para a repórter
o que descobriram até então. Isso nem lhe passara pela
mente. Seria trair sua equipe, a corporação, além
de por em risco a segurança das pessoas que pretendia proteger.
Sabia que precisava correr contra o tempo pois o assassino tornaria
a matar se não fosse impedido.
Decidiu tentar ludibriar a repórter. Afinal esta já
a estava chantageando e manipulando, quando estabelecera tais condições
para poder colaborar com a polícia.
____Ok,
pergunte o que quiser!
Mariana
ligou o gravador e o estendeu mais próximo da policial.
____O
que "aciona" nosso matador?
____Pessoas
com comportamentos, peculiaridades físicas semelhantes as que
de certa forma o molestaram na infância ou adolescência,
tanto sexualmente quanto moralmente!
Vick
organizava em sua mente, rapidamente, uma espécie de supra-sumo
de tudo que lera sobre seriais killers até então. Precisava
forjar um personagem "verossímil" para que a astuta
Mariana mordesse a isca.
____Problemas
familiares?
____Sim!
Talvez uma mãe bêbada e um pai que o molestou sexualmente!
Nosso psicólogo já levantou seu provável perfil
psicológico.
____E
como vocês o designam na polícia?
____"O
Poeta do Caos"
____Porquê?
____Por
que os assassinos seriais matam seguindo uma espécie de ritual.
"o poeta do caos" estabelece contato com as pessoas através
de poesias e versos que escreve em pequenas estrofes. Encerra sua
obra, matando a presa em um ritual, onde por fim, lhe escreve uma
frase em latim pelo corpo, em letras góticas.
Mariana
inclinou-se mais para frente. Vick sentiu que a parte verdadeira sobre
a inscrição em latim, gerou o efeito esperado.
Emprestava um teor de verdade ao seu relato. Certamente Marta já
havia descrito algo semelhante para a repórter.
____e
ele "transa" com as vítimas?
____Sim!
Mas não deixa vestígios de saliva ou esperma. Utiliza-se
de "petrechos" artificiais. Possivelmente sofre de impotência.
Por isso matará mais e mais. É a única forma
que encontra para se saciar. Delicia-se com o sofrimento de suas vítimas.
A dor que causa é o veículo que encontra para aplacar
sua aflição e lhe acarretar prazer e alívio momentâneo.
Mariana
cravou os olhos escuros em Vick e sorriu satisfeita. Era uma morena
quase mulata, que tinha o jeito sensual e felino que lembrava uma
pantera negra.
____Onde
escolhe as vítimas?
____Em
locais de grande aglomeração de pessoas, tais como shows,
boates, shoppings...
____Ok!
Basta por hoje!
____Se
está satisfeita, agora é sua hora de honrar com nosso
trato. Dê-me os arquivos!
____Infelizmente
só estou autorizada a ceder, digamos que 10% dele, como sinal
de nossa boa fé e para estimulá-la a trabalhar com mais
empenho. Tudo o que me relatou, já havíamos descoberto.
É lamentável que duas pessoas tão ocupadas como
nós, tenhamos perdido tanto tempo aqui, nesta nossa conversa,
mas sei como compensar a ti e a mim. Você leva parte dos arquivos
que lhe entregarei; trabalha para capturar nosso homem e me mantém
a par de todo progresso que tiver, passo a passo. Quero o "furo"
de primeira mão e a partir de hoje, celebraremos o início
de uma saudável parceria entre a polícia e imprensa.
Todos lucrarão eu te asseguro.
Se me trouxer alguma informação nova sobre "O poeta
do Caos" amanhã, ou de qualquer assassino de atitudes
especiais que encontrarem, posso entregar outra parte do arquivo ou
oferecer mais. Meu chefe me autorizou a liberar a "grana"
que precisar para incentivá-la a trabalhar conosco.
Mariana
levantou-se triunfante e deu a entrevista por encerrada, surpreendendo
Victória que não estava preparada para aquela trapaça
no jogo. Percebera tardiamente que a repórter nunca tivera
a intenção de entregar-lhe seus preciosos arquivos,
além de mentir e alegar falta de interesse no matador serial.
Estava tudo claro: Eles queriam transformá-la em uma informante
valiosa dentro da polícia. Assim teriam acesso privilegiado
a informações sigilosas e até mais. A forma de
prender Vick ao grupo, além do oferecimento de dinheiro, era
a ameaça velada de publicar tudo que ela lhe contara e assim,
acarretar a ruína da policial na corporação.
Casos como estes, de policiais que deixavam vazar informação,
ou aceitavam suborno, podiam acarretar afastamento e demissão
da carreira, além de um processo penal.
A
indignação de Victória transparecia claramente
em seu rosto. Sua ira crescia mais e mais ao constatar que perdera
o jogo. Levantou-se e preparou-se para sair do gabinete antes que
perdesse o controle sobre si.
____Espere!
Mariana
a apanhou pelo braço.
____Acho
que você não entendeu sua situação, mas
eu não gostaria que pensasse que sou uma jornalista fria e
calculista. Estou fazendo isso também para te ajudar. Pegaremos
o "Poeta do Caos" e outros criminosos. Você, com nossa
ajuda, ficará mais famosa do que já é e ainda
receberá uma justa compensação pelo seu trabalho.
Não pode recusar uma proposta desta! É a chance de uma
vida. Muitos colegas seus não hesitariam nem uma fração
de segundo para aceitar.
Victória
moveu-se em direção da porta. Sentia que estava ficando
mais difícil se controlar.
____Se
sair por esta porta! Farei publicar amanhã toda esta historinha
do serial killer. Sua chefe, a L.S.S. apreciará muito saber
que a imprensa teve acesso a informações privilegiadas
e conhece até a alcunha que a polícia aplicou no indivíduo
alvo: "Poeta do Caos".
Devo admitir que vocês são muito criativos. Gostei !
Vick
parou de andar e Mariana, ainda com sua mão prendendo o pulso
esquerdo da policial, atacou:
____E
tem mais! Percebi que em momento algum se lembrou de mim! E eu que
acreditei no boato de que você tinha memória fotográfica.
Estou desapontada. Como pode se esquecer dos deliciosos lábios
que te serviram, certa noite em uma certa boate?
A
policial se virou com os olhos muito abertos. Aquela tarde lhe estava
saindo extraordinariamente recheada de surpresas desagradáveis.
____O
quê?
____Imagine
a manchete: Policial lésbica, oferece entrevista esclarecedora
para a imprensa sobre serial killer solto na cidade!
Esperou
um momento para avaliar o impacto que seu ataque causou.
____
e não se faça de tola ! Fui até aquela boate
monitorar seus passos. Imaginei que a famosa Asa Negra estivesse no
local para uma investigação séria e qual foi
minha surpresa ao constatar que apenas estava experimentando o "sabor"
das garotas?
_____Aproximei-me para avaliar de perto e acabei sendo encostada na
parede e beijada intensa e furiosamente. Devo admitir que seus lábios
são deliciosos, apesar que sou 100% hetero! _____Anda! Colabore!
Quem sabe poderemos ser mais "amigas" algum dia.
Mariana
disse isso, enquanto encostava seus fartos seios nos de Victória.
Tudo
então ocorreu muito rápido. Uma pancada rápida
com o punho na fronte e a jornalista desabou ao chão semi-desacordada.
Vick examinou-a apressadamente e viu que já estava se recuperando,
porém gemia, tonta pelo ataque forte e inesperado.
_____Você
deslocou meu queixo! Sua vadia! Vai pagar caro por isso.
Vick,
apressou-se a inserir um disquete que estava sobre a mesa no notebook
e a copiar o arquivo. Depois pensou em como sairia do local. A porta
estava trancada e as chaves certamente estavam em algum lugar fora
de sua vista. Não havia mais tempo. Mariana tentava em vão
levantar-se e a ameaçava, principalmente de alegar que ela
a agredira e roubara.
A
policial saiu pela janela. Estavam no oitavo andar do edifício.
_____Ai
meu santo protetor das policiais imprudentes! Valei-me!.
Caminhou
cuidadosamente sobre o estreito parapeito. Uma rajada forte de vento
a fez balançar. Colou-se a parede como pode e agora ouvia o
retumbar de seu coração ecoando para seus ouvidos, aparentemente
transmitidos pela superfície de concreto.
_____Ê
jeito cruel de se "fazer a digestão" depois de uma
bela comida italiana. Ninguém merece! O que me falta acontecer?
Capítulo 4: A FUGA
As luzes da cidade contra a escuridão noturna, emprestavam
um aspecto de certa beleza ao cenário, excetuando ao fato de
que Vick tinha os pés e o corpo balançando sobre o vazio.
Contava
os passos e os mudava até que virou cuidadosamente o ângulo
da parede. Uma pomba macho pousou habilidosamente na sua frente, estufou
o peito cinza chumbo e passou a arrulhar desafiador.
_____Sai
da frente! Ô penoso! - ameaçou Victória, tentando
empurrá-lo com o pé.
A ave saltou e bateu as asas, pousando no pé de Victória
e passou a bicar suas boots.
_____Que
atrevimento! O Bicho parece saber que não estamos na praça
central e que eu mal consigo me mover, sem ter que ficar me equilibrando
com o corpo colado nesta parede velha e fuliginosa.
_____Volte!
Sua maluca! O prédio é antigo!
Era a Mariana gritando, janelas atrás. A policial sabia que
ela tinha razão. O prédio, estilo Arte Noveau, possuía
ornamentos que davam a ilusão de estarem sólidos mas
que o tempo se encarregara de deixá-los frouxos, só
esperando que um escalador de paredes, incauto, se apoiasse neles
para despencar.
_____E
aí a manchete do dia será: Policial Vândala, destrói
fachada de prédio centenário, ao despencar do oitavo
andar!
Encontrou
uma tubulação externa aparentemente nova e apanhou-a
para descer dois andares. No sexto andar, haviam vários escritórios
comerciais e consultórios.
Talvez
pudesse escapulir por alguns deles sem se deparar com o pessoal de
Mariana pelos corredores. No primeiro, deparou-se com os olhos arregalados
de um menino de 6 anos que se encontrava perto da janela.
_____Mamãe!
Tem uma moça andando pelo lado de fora da janela! Acho que
é amiga do Peter Pan!
______Ora!
Gabriel, fecha esta janela! Pode se resfriar!
A
mãe fecha a janela estrondosamente, sem olhar para fora e arrasta
o garoto para fora da sala.
Vick
passa cuidadosamente, tentando alcançar outra janela aberta.
______Um
, dois e três! Muda o passo. Não olha para baixo !.-
comandava a si mesma.
_____Prometo
que se sair dessa, nunca mais agarro "todas" em boate gay.
Uma ou outra talvez, mas só. Ah! antes vou perguntar a profissão
da lady.
Desatou
a rir.
______Estou
frita! Estou ferrada! - cantarolava, enquanto mudava o passo.
Pensou se não teria sido melhor ter dado outros beijões
na Mariana e distraí-la para ter conseguido o cobiçado
arquivo? E se talvez se entregasse a ela agora? Afinal, de nada lhe
valeria o disquete se caísse dali. Porém seu orgulho
gritou forte: _____Não dê o braço a torcer para
a chantagista manipuladora! Você escapa dessa!
O
celular tocou. Encostou-se no abrigo momentâneo que uma janela
trancada lhe oferecia.
______Oi?
______Di
Angelis! É a Lizandra!
O corpo de Vick estremeceu.
_____O
que está fazendo? Tenho algo que gostaria de lhe mostrar! Algo
que poderá se interessar muito!
_____Hum!
Mesmo?
_____Podemos
nos encontrar?
_____Bem!
No momento estou aqui em um curso intensivo para cabritas monteses
policiais, sem corda ou mosquetão!
_____O
quê?
_____Sabe
como é! A vida moderna é muito monótona e é
preciso de um pouco de adrenalina.
_____Está
metida em outra encrenca?
_____Pra
dizer a verdade, sim, e por conta de umas rebarbas deixadas por uma
noite de beijos intensos em uma boate... lembra?
_____Como
poderia me esquecer?
Um
breve silêncio, muito pesado entre ambas. Liz finalmente o rompeu.
_____Diz
onde está que vou até aí te buscar!
_____Ok!
Vick
informou o endereço e pediu a Lizandra que a esperasse na calçada
do edifício. Omitiu o detalhe que no momento se encontrava
dependurada nos beirais do sexto andar. Não precisava assustá-la
ainda mais.
Desligou. Viu uma janela aberta a alguns passos. Uma janela pequena
tipo escotilha, mas isso não seria problema para a policial.
_____é
lá que vou entrar. Não posso me arriscar mais. O vento
está ficando forte nessa banda.
Entrou
pela janela, cuidadosamente, metendo os braços, a cabeça
os ombros e depois o resto do corpo. Tocou o chão com as mãos
e lançou as pernas para trás em uma ágil cambalhota.
A sala estava vazia. Na verdade uma saleta cheia de armários
de aço.
_____Segundo
ato: encontrar a saída...
Abriu a porta da sala e entrou correndo em outra. Esta cheia de homens
de meia idade, muito sérios e de ternos em torno de uma grande
mesa de reunião...
_____Boa
noite! - disse cerimoniosamente.
Os homens não se moveram e amarraram mais as carrancas.
Vick
viu seu reflexo em um grande espelho colocado a um canto da elegante
sala. Estava com o rosto roupas e mãos cheias de fuligem.
_____Atenção
senhores ! Tem fogo no prédio. Saiam calmamente pelas escadarias.
Não usem o elevador!
A
policial nem imaginou de onde lhe ocorreu tal idéia, mas pela
reação que causou, viu que dera certo. Os homens saíram
apressados pelos corredores, qual boiada estourada, sem dizer qualquer
palavra para a visitante inesperada.
____E
nem me agradecem! - exclamou Vick que aproveitou para descer a primeira
escadaria que encontrou. Aos poucos teve que disputar espaço
com outros que também desciam rapidamente. O boato tinha se
espalhado. Já na saída do prédio, encontrou uma
multidão aglomerada. Alguns eram pessoas que esvaziaram o edifício.
Outros se acotovelavam pois ouviram falar que uma "maluca suicida"
estava se equilibrando e cantando pelas marquises do oitavo andar.
Avistou
a cabeça loura de Lizandra, entre as pessoas, no mesmo instante
em que se deparava com uma Mariana, zangadíssima que atravessava
o hall de entrada, tentando alcançá-la. Estava acompanhada
por três homens jovens, muito fortes, vestidos de terno.
Tratou
de escapulir do local. Abriu caminho pelas pessoas, acotovelando e
pisando em seus pés até onde estava a doutora Lizandra.
_____Tire-me
daqui rápido! - pediu.
Capítulo
5: O BILHETE DO SUICÍDA
Victória
não teve outra opção, a não ser contar
tudo que se passara entre ela e Mariana Moraes no escritório
da jornalista.
A
médica então a convenceu que o melhor seria pernoitar
em sua casa, onde poderia se utilizar do computador e reorganizar
as idéias.
_____É
noite de sexta-feira! Relaxe e descanse!
Preparou
um delicioso leite achocolatado para Victória e assim que ela
saiu do banho, envolta na toalha, encontrou a mesa de canto do quarto
de hóspedes, arranjada com uma leve e deliciosa refeição,
além da caneca de leite que fumegava . Vick estava faminta.
Havia passado por uma grande descarga de adrenalina e isso, primeiro
a deixava a mil, depois, quando aos poucos relaxava, lhe entorpecia
os braços, as pernas e o raciocínio.
_____Coma
este sanduíche de chapa. Acabei de fazer do jeito que você
gosta.
Victória
estava embaraçada diante de sua fome e do fato de não
conseguir articular palavra ou levantar os olhos da refeição
até que terminasse e engolisse o último farelo do pão.
Depois, sentindo-se muito melhor, ergueu os olhos e se deparou com
aquelas intensas luzes verdes que fulguravam do olhar de Lizandra.
_____Quando
foi que te perdi, meu amor? - perguntou ela, com os olhos cheios de
desejo e dor.
Vick
levantou-se, na tentativa de se esquivar daquela pergunta, da qual
tanto fugira nos últimos meses.
_____Desculpe-me,
mas vim aqui porque precisava de um abrigo para uma noite e porque
você disse que tinha algo para me mostrar! Corri risco de vida
hoje para conseguir um famigerado disquete que ainda não analisei,
amanhã vai sair uma manchete nos jornais que minha intuição
diz que vai ser no mínimo bombástica e provavelmente
minha vida pode estar prestes a virar de pernas para o ar...
_____Tudo
bem! Se ainda não quer conversar sobre "nós",
eu respeito e vou esperar o momento em que estiver pronta.
Victória
lembrou-se do mês, depois que romperam definitivamente o namoro,
em que Liz foi para o Sul, passar as férias com os pais e demais
parentes. Nos primeiros dias, sentiu tanta saudade que teve uma crise
de labirintite. Depois, a mágoa e as lembranças de tudo
que aconteceu na "Favela do Adeus" foram deixando-a gradativamente
amarga.
Imaginava
aqueles lábios cheios, os cabelos loiros de tons dourados e
os olhos verdes esmeraldas... tudo em "posse" dos desejos
inconfessáveis de Duarte.
Levantou-se
e foi até o computador a um canto. Sentou-se e dedicou-se a
dar uma espiada no conteúdo do disquete. Liz aproximou-se silenciosa
e passou a aplicar-lhe uma massagem nos ombros. Estavam muito tensos.
Vick
tentou se concentrar na primeira linha do relatório recém
aberto, quando sente contra sua nuca, um dos seios de Lizandra. Arrepiou-se.
Uma reação involuntária que ainda tentou ocultar
mas os braços dela agora lhe enlaçavam o pescoço
e deixavam as mãos escaparem para seus seios.
_____Por
favor, Liz... preciso trabalhar! O Sabbah de Verão não
está muito longe e preciso encontrar o matador antes que ele
alcance sua vítima! Não temos feito progressos.
_____Precisa
descansar também! Eu sou a médica aqui. Sei o que precisa
no momento!
Victória
lembrou-se que para a doutora, havia um maníaco que envenenara
uma moça com cianeto e depois a lançara de um prédio,
mas nada sabia sobre o serial killer ou dos eventos dos sabbahs. Era
melhor assim.
Deixá-la fora das investigações seria a providência
melhor a ser tomada para evitar que sua vida também corresse
riscos.
Neste
instante ela lhe beijava demoradamente os ombros e a nuca.
_____Liz!
Não!
Victória
ainda tentou balbuciar mais algumas palavras, mas o beijo intenso
e ardente de Lizandra a calou.
A médica atirou-se na cama e livrou-se da própria roupa
ficando nua, olhando para Vick através dos densos cílios
que contornavam seus olhos semi-serrados. Como a policial não
esboçasse reação alguma, pois se encontrava como
se petrificada, Liz passou a se tocar e a gemer. Vick aproximou-se,
ainda hesitante, como se hipnotizada, até que as longas pernas
da outra a alcançaram e enlaçaram-na pela cintura, puxando-a
para si. Depois, prendeu-a em seus braços.
_____Você
não quer? Quem matou sua sede nestes meses?
_____Ora!
Não estive com ninguém! - respondeu Victória
constrangida pelo crescente calor que nascia de entre suas pernas
e escalava-lhe o corpo.
_____Não
esteve nem com Adriana?
____Quem
lhe contou? Agnaldo?
____Sim!
Mas não o culpe! Apenas perguntei a ele onde você estava!
____Ah!
Entendo!
____Transou
com Adriana?
____Que
idéia! Fui apenas a um almoço em família! O noivo
dela é um cara alto astral e até divertido. Um casal
bonito! Tive até uma surpresa! Uma bela surpresa!
Omitiu
sobre a gravidez da terapeuta.
A
médica a olhou intensamente como se avaliando a veracidade
de suas palavras. Por fim, puxou-a mais para perto de si , cravando-lhe
as unhas nas costas, o que a fez se contorceu de dor.
____Não
me diga mais nada! - mandou.
____O
que está fazendo?
____Deixando
um recado para a "outra"!
____Não
faz sentido ter ciúmes! Eu e você não namoramos
mais! Não sou sua mulher!
Lizandra
deu um sorriso meio tímido, meio amargo e depois, tomada de
súbita fúria, prendeu os lábios no seio de Vick
e passou a sugá-los.
Esta
perdeu o fôlego e passou a segurar aquele belo rosto de cabelos
sedosos entre as mãos.
____Não
faz isso! Minha loira! Você me magoou demais! Você me
traiu!
Balbuciava
e suplicava baixinho para que a outra parasse as carícias que
a estavam enlouquecendo. Enfim, entregou-se, conduzindo suavemente
a amante até seu sexo.
Quando esta encaixou seus lábios sedentos neles, Vick sentiu-se
desfalecer. Só então descobriu o quanto estava precisando
de ser tocada, sugada, acariciada, por Liz.
____Não,
não! - ainda sussurrou em desespero, segundo antes de ser invadida
por um orgasmo avassalador. Por fim, desfaleceu.
Acordou com um pequeno e radioso filete de luz, escapando pelas cortinas
e dançando-lhe no colo. Consultou o relógio. Cinco horas
da manhã.
Lizandra
estava nua e adormecida abraçada ao seu corpo. Uma visão
deliciosa e ao mesmo tempo comovente. Lembrou-se do disquete e dos
eventos do dia anterior. Pensou que o mundo podia desabar lá
fora que ela não se importaria.
Seu
coração batia forte e feliz. Os eventos entre Duarte
e Liz, agora pareciam cenas distantes de um sonho ruim.
Finalmente levantaram-se e tomaram um longo e sensual banho juntas
. Nada diziam como se temessem quebrar o encanto do momento.
Cearam
tranqüilamente e Liz lhe emprestou um par de roupas limpas. Depois
se sentou em seu colo, com um sorriso luminoso. Vick já enveredava
seus longos dedos por baixo da camiseta de Lizandra, alcançando-lhe
e acariciando a base de seus seios, quando a médica lhe mostra
um envelope pardo.
____Meu
presente para você! Sei que o quer!
____O
que é?
____Uma
foto ampliada, com alta resolução do "Bilhete de
Adeus" de Marta. Tem também uma cópia do Laudo
da perícia. Isso só lhe chegaria nas mãos, com
sorte, até metade da semana que vem! Consegui me apossar dele
ontem. Imaginei que você iria querer ver de primeira mão
o material.
A
policial exclamou surpresa!
_____ahhhh! Maravilha!
_____E
então? Sua mulher merece um beijo?