DEVORADOR DE ALMAS - parte 2

 

 

"A Arte de Perder


"A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder
não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério. "

(Elisabeth Bishop)


Adriana mudara-se agora para uma ampla casa em um condomínio fechado. O local fora escolhido para ser a sede da família que seria formada brevemente. Era mobiliado com requinte e bom gosto.

Vick apertou a campainha suavemente. Ouviu os passos leves no interior e desejou que fosse alguma empregada que viesse recebê-la, pois repentinamente suas pernas pareceram se "desconectar" de seu corpo ante a possibilidade de tornar a ver diante de si, aquele rosto oval de aveludados olhos amendoados.

O choque intenso, tornou-se em uma "tsunami", quando constatou que estava diante de uma jovem mulher, grávida de sete meses, ou mais.

A expressão do rosto da policial, parecia declarar mais do que um discurso, pois Adriana lhe tomou a mão e a conduziu até o interior da ampla sala, fechando a porta atrás de si.

_____Bem! Agora já se deparou com a surpresinha que eu tinha lhe prometido!

_____Surpresinha? - exclamou Vick, lançando a mão direita teatralmente no peito._____Ainda bem que meu coração é forte!

Adriana riu suavemente. Parecia tentar avaliar a profundidade do abalo que seu "estado interessante" causara na policial.

Victória tratou de tentar encaminhar a conversa para um tom mais ameno, despreocupado. Assim, planejava ganhar tempo para se recompor e assimilar a "novidade".

_____Quanto tempo não nos víamos? Um ano ou mais?

_____Acho que uns quinze meses!

_____é... o tempo passa!

_____Pois é, mas... Não precisa ficar aí em pé, estática, como se tivesse encontrado o "monstro do Lago Ness" em sua banheira! - atacou Adriana com um sorriso travesso.

_____é que eu, eu... bem... eu , na verdade... na verdade... eu...

______Não precisa se explicar. Quero apenas que me diga algo sinceramente: Eu estou feia?

_____Na, Não! Continua linda, como uma boneca de porcelana... só a silhueta que está um pouco cheinha...

_____Rotunda! Para ser bem clara e se continuar com esta expressão de susto medonho, vou começar a pensar que você é do tipo que tem "fobia" de mulher grávida!

_____Imagina! Eu acho a mulher grávida a personificação do milagre da vida!
Adriana pestanejou várias vezes, embaraçada.

_____Estou impressionada! - disse enfim._____Ninguém antes havia classificado a minha gravidez de forma tão tocante!

Vick sentiu-se enrubescer e desejou tocar aquele ventre, mas não ousava pedir. Adriana aproximou-se e apanhou-lhe as mãos nas suas.

_____Acho que ainda a conheço um pouco, Di!. Pode tocar meu ventre. Não estará pecando contra minha família.

Silêncio denso entre ambas, enquanto Vick timidamente tocava Adriana.

_____Já sabe se será menino ou menina?

_____é menina.

_____Já escolheram o nome?

_____Estou em dúvida.

_____Ah!

_____Pode sentir ela chutando aqui? É a pontinha do calcanhar dela!

_____Sim! Posso sentir!

O rosto da policial iluminou-se.

_____Precisa ver só quando ela decide me espetar com o cotovelo. Geralmente é bem aqui que se aloja. Fica um pequeno e dolorido volume. Aí eu massageio suavemente o local e converso com ela, até que mude de posição.

_____Conversa com ela?

_____sim! Ela já pode ouvir nossas vozes. Está ouvindo, nenê? Esta é a "famosa" tia Victória!

Adriana acariciava o próprio ventre enquanto conversava com a bebê. Vick ainda não se recuperara por completo do "susto" e sentia-se acanhada, emocionada e ao mesmo tempo enciumada. "Sua" bela mesticinha agora seria mamãe e temia que seus status perante o coração dela decaísse mais um degrau.

Zangou-se momentaneamente consigo. Como ainda podia ter a pretensão de fazer parte do "podium" do afeto dela?

Sentiu um desejo ardente de fugir dali. Sair correndo, mas não podia dar o braço a torcer. O melhor, concluiu, era conduzir tudo no bom humor e assim disfarçar a ebulição de sentimentos controvertidos que digladiaram dentro de si.

Apanhou as mãos de Adriana e as conduziu para seu próprio corpo. Fez que esta lhe apertasse suavemente a parte rotunda inferior da jaqueta de couro, onde o gato oculto e adormecido, despertou e moveu-se assustado.

_____Sente? Também estou grávida e o pai é Sir Lancelot... pode ouvir o miado?
O gato saltou pelo decote de Vick e sumiu debaixo dos móveis da sala.

_____Seu "filho" acaba de nascer! - anunciou Adriana.

Capítulo 3: O POETA DO CAOS


Na cantina Del Vechio, Vick já estava irritada com o atraso de Mariana. Esta chegou, enfim, caminhando com langor. O Rosto bem maquiado, naquela espécie de beleza exótica de mulher onde à primeira vista, só se avista, olhos e boca.

Alguma coisa naquele "bocão" assinalava algo a Victória que ela não conseguia definir.
O jantar transcorreu sem susto. Mariana habilmente, tentando se mostrar inofensiva e preocupada com o sucesso das investigações da polícia.

_____Precisam prender este serial killer antes que mate novamente! - exclamou.

Vick engasgou com seu gole de vinho.

_____De onde tirou esta idéia? Serial killer?

_____Ora, policial... não se iluda. Tive a oportunidade de conversar com Marta. Lembra-se?

_____Pode ser que ela tenha se enganado.

_____Mesmo?

Ao fim do jantar, Mariana levantou-se apressada e convidou.

____Segundo turno do nosso assunto, lá na redação do jornal. Preciso preparar uma matéria para o caderno matutino e ficaremos mais a vontade para conversar sobre um assunto tão importante.

Victória já estava argumentando que preferia que conversassem em outro local, quando Mariana lhe acena com uma irresistível possibilidade.

_____Lá, posso lhe mostrar os "arquivos". Arquivos de mais de trinta dias de intenso trabalho de " campo". Se colaborar e fizermos um acordo, poderá obter cópias. Interessa?

NA REDAÇÃO DO JORNAL


Acomodaram-se em torno da moderna mesa de vidro na luxuosa sala da repórter. Cada detalhe do local, demonstrava o elevado status e poder de Mariana junto ao jornal.

Cruzou as pernas. A saia lhe fugiu coxas acima.

______Vamos ao trabalho! - disse enquanto acionava um minúsculo e moderno notebook sobre a mesa._____aqui tem relatórios detalhados da rotina de Marta. Entrevistas com jardineiros, carteiros, vizinha fofoqueira, entre outros. Até das crianças que costumeiramente invadiam o jardim para brincar de esconde-esconde ou roubar alguma fruta, e olha que estes peraltas tinham coisas curiosas e no mínimo interessantes a relatar.

Vick arqueou levemente as sobrancelhas, tentando ocultar seu interesse crescente.

____Veja por si mesma! - ofereceu Mariana, empurrando o aparelho com sua tela de cristal para o lado da policial.____E existem fotos. Fotos de certas pessoas que entravam soturnamente na casa em horários bem curiosos.

Victória inclinou o corpo para a frente, com os olhos cravados na tela. Mariana percebendo que a fisgara, fechou o notebook.

____E então? - perguntou com um leve sorriso nos lábios carnudos.

____E então que talvez possamos conversar sobre o assunto, com mais profundidade. - argumentou Vick.____O que quer saber?

Mariana sacou, de não se sabe onde, um pequeno gravador.

____A regra do jogo é: eu pergunto e você responde, ok? Muito simples!

____é criminoso e antiético para uma policial, revelar informações colhidas em uma investigação!

____Ninguém saberá de nada, além de nós duas. Preciso do material. Já escrevi dois livros sobre violência urbana e neuroses da sociedade moderna.

____Li as obras. Um bom trabalho. - elogiou Vick.

Mariana sorriu ainda mais, mostrando belos e alvos dentes.

____Já sabia que era uma policial diferente dos outros que costumeiramente encontramos. É bonita, culta e de uma coragem invejável. Por isso a escolhi.

____Me escolheu apenas, pelo serial killer!

____Ah! Sim, o "nosso" serial killer.

Pretendo escrever sobre estas complexas criaturas, frutos da sociedade moderna.

____Existem seriais killers desde tempos remotos! - retrucou Vick.

____Mas não como os nossos "garotos"... estes estão se aprimorando, evoluindo, refinando!

Victória não apreciou o olhar de paixão e tamanho entusiasmo diante da possibilidade da existência de um assassino frio e cruel solto pela cidade.

____Então? Prometo silêncio e todo material que dispomos no arquivo.

____E o que você lucra com isso afinal? - perguntou a policial.

____a princípio, nada. Mas, depois que o prender, quero entrevistá-lo. Precisa prometer que o pegarão vivo!

____Meu trabalho é cumprir a lei e trancafiar criminosos. Não faço parte de grupos de extermínios!
A Policial estava sendo sincera. Sabia que era seu dever capturar " O Legado de Nix" vivo, mesmo diante do desejo íntimo de "eliminar" tais aberrações da sociedade.

____Trato feito! - Exclamou Mariana .

____Então cumpra sua parte. Dê-me os arquivos...

____Ainda não! Preciso saber se nosso assassino vale a pena a permuta, afinal, não quero ter em mãos mais um caso de um criminoso comum, matando aleatoriamente por taras ou dinheiro, entende?

Vick parou para pensar rapidamente.Não podia revelar para a repórter o que descobriram até então. Isso nem lhe passara pela mente. Seria trair sua equipe, a corporação, além de por em risco a segurança das pessoas que pretendia proteger. Sabia que precisava correr contra o tempo pois o assassino tornaria a matar se não fosse impedido.
Decidiu tentar ludibriar a repórter. Afinal esta já a estava chantageando e manipulando, quando estabelecera tais condições para poder colaborar com a polícia.

____Ok, pergunte o que quiser!

Mariana ligou o gravador e o estendeu mais próximo da policial.

____O que "aciona" nosso matador?

____Pessoas com comportamentos, peculiaridades físicas semelhantes as que de certa forma o molestaram na infância ou adolescência, tanto sexualmente quanto moralmente!

Vick organizava em sua mente, rapidamente, uma espécie de supra-sumo de tudo que lera sobre seriais killers até então. Precisava forjar um personagem "verossímil" para que a astuta Mariana mordesse a isca.

____Problemas familiares?

____Sim! Talvez uma mãe bêbada e um pai que o molestou sexualmente! Nosso psicólogo já levantou seu provável perfil psicológico.

____E como vocês o designam na polícia?

____"O Poeta do Caos"

____Porquê?

____Por que os assassinos seriais matam seguindo uma espécie de ritual.
"o poeta do caos" estabelece contato com as pessoas através de poesias e versos que escreve em pequenas estrofes. Encerra sua obra, matando a presa em um ritual, onde por fim, lhe escreve uma frase em latim pelo corpo, em letras góticas.

Mariana inclinou-se mais para frente. Vick sentiu que a parte verdadeira sobre a inscrição em latim, gerou o efeito esperado.
Emprestava um teor de verdade ao seu relato. Certamente Marta já havia descrito algo semelhante para a repórter.

____e ele "transa" com as vítimas?

____Sim! Mas não deixa vestígios de saliva ou esperma. Utiliza-se de "petrechos" artificiais. Possivelmente sofre de impotência. Por isso matará mais e mais. É a única forma que encontra para se saciar. Delicia-se com o sofrimento de suas vítimas. A dor que causa é o veículo que encontra para aplacar sua aflição e lhe acarretar prazer e alívio momentâneo.

Mariana cravou os olhos escuros em Vick e sorriu satisfeita. Era uma morena quase mulata, que tinha o jeito sensual e felino que lembrava uma pantera negra.

____Onde escolhe as vítimas?

____Em locais de grande aglomeração de pessoas, tais como shows, boates, shoppings...

____Ok! Basta por hoje!

____Se está satisfeita, agora é sua hora de honrar com nosso trato. Dê-me os arquivos!

____Infelizmente só estou autorizada a ceder, digamos que 10% dele, como sinal de nossa boa fé e para estimulá-la a trabalhar com mais empenho. Tudo o que me relatou, já havíamos descoberto. É lamentável que duas pessoas tão ocupadas como nós, tenhamos perdido tanto tempo aqui, nesta nossa conversa, mas sei como compensar a ti e a mim. Você leva parte dos arquivos que lhe entregarei; trabalha para capturar nosso homem e me mantém a par de todo progresso que tiver, passo a passo. Quero o "furo" de primeira mão e a partir de hoje, celebraremos o início de uma saudável parceria entre a polícia e imprensa.
Todos lucrarão eu te asseguro.
Se me trouxer alguma informação nova sobre "O poeta do Caos" amanhã, ou de qualquer assassino de atitudes especiais que encontrarem, posso entregar outra parte do arquivo ou oferecer mais. Meu chefe me autorizou a liberar a "grana" que precisar para incentivá-la a trabalhar conosco.

Mariana levantou-se triunfante e deu a entrevista por encerrada, surpreendendo Victória que não estava preparada para aquela trapaça no jogo. Percebera tardiamente que a repórter nunca tivera a intenção de entregar-lhe seus preciosos arquivos, além de mentir e alegar falta de interesse no matador serial. Estava tudo claro: Eles queriam transformá-la em uma informante valiosa dentro da polícia. Assim teriam acesso privilegiado a informações sigilosas e até mais. A forma de prender Vick ao grupo, além do oferecimento de dinheiro, era a ameaça velada de publicar tudo que ela lhe contara e assim, acarretar a ruína da policial na corporação. Casos como estes, de policiais que deixavam vazar informação, ou aceitavam suborno, podiam acarretar afastamento e demissão da carreira, além de um processo penal.

A indignação de Victória transparecia claramente em seu rosto. Sua ira crescia mais e mais ao constatar que perdera o jogo. Levantou-se e preparou-se para sair do gabinete antes que perdesse o controle sobre si.

____Espere!

Mariana a apanhou pelo braço.

____Acho que você não entendeu sua situação, mas eu não gostaria que pensasse que sou uma jornalista fria e calculista. Estou fazendo isso também para te ajudar. Pegaremos o "Poeta do Caos" e outros criminosos. Você, com nossa ajuda, ficará mais famosa do que já é e ainda receberá uma justa compensação pelo seu trabalho. Não pode recusar uma proposta desta! É a chance de uma vida. Muitos colegas seus não hesitariam nem uma fração de segundo para aceitar.

Victória moveu-se em direção da porta. Sentia que estava ficando mais difícil se controlar.

____Se sair por esta porta! Farei publicar amanhã toda esta historinha do serial killer. Sua chefe, a L.S.S. apreciará muito saber que a imprensa teve acesso a informações privilegiadas e conhece até a alcunha que a polícia aplicou no indivíduo alvo: "Poeta do Caos".
Devo admitir que vocês são muito criativos. Gostei !

Vick parou de andar e Mariana, ainda com sua mão prendendo o pulso esquerdo da policial, atacou:

____E tem mais! Percebi que em momento algum se lembrou de mim! E eu que acreditei no boato de que você tinha memória fotográfica. Estou desapontada. Como pode se esquecer dos deliciosos lábios que te serviram, certa noite em uma certa boate?

A policial se virou com os olhos muito abertos. Aquela tarde lhe estava saindo extraordinariamente recheada de surpresas desagradáveis.

____O quê?

____Imagine a manchete: Policial lésbica, oferece entrevista esclarecedora para a imprensa sobre serial killer solto na cidade!

Esperou um momento para avaliar o impacto que seu ataque causou.

____ e não se faça de tola ! Fui até aquela boate monitorar seus passos. Imaginei que a famosa Asa Negra estivesse no local para uma investigação séria e qual foi minha surpresa ao constatar que apenas estava experimentando o "sabor" das garotas?
_____Aproximei-me para avaliar de perto e acabei sendo encostada na parede e beijada intensa e furiosamente. Devo admitir que seus lábios são deliciosos, apesar que sou 100% hetero! _____Anda! Colabore! Quem sabe poderemos ser mais "amigas" algum dia.

Mariana disse isso, enquanto encostava seus fartos seios nos de Victória.

Tudo então ocorreu muito rápido. Uma pancada rápida com o punho na fronte e a jornalista desabou ao chão semi-desacordada. Vick examinou-a apressadamente e viu que já estava se recuperando, porém gemia, tonta pelo ataque forte e inesperado.

_____Você deslocou meu queixo! Sua vadia! Vai pagar caro por isso.

Vick, apressou-se a inserir um disquete que estava sobre a mesa no notebook e a copiar o arquivo. Depois pensou em como sairia do local. A porta estava trancada e as chaves certamente estavam em algum lugar fora de sua vista. Não havia mais tempo. Mariana tentava em vão levantar-se e a ameaçava, principalmente de alegar que ela a agredira e roubara.

A policial saiu pela janela. Estavam no oitavo andar do edifício.

_____Ai meu santo protetor das policiais imprudentes! Valei-me!.

Caminhou cuidadosamente sobre o estreito parapeito. Uma rajada forte de vento a fez balançar. Colou-se a parede como pode e agora ouvia o retumbar de seu coração ecoando para seus ouvidos, aparentemente transmitidos pela superfície de concreto.

_____Ê jeito cruel de se "fazer a digestão" depois de uma bela comida italiana. Ninguém merece! O que me falta acontecer?


Capítulo 4: A FUGA


As luzes da cidade contra a escuridão noturna, emprestavam um aspecto de certa beleza ao cenário, excetuando ao fato de que Vick tinha os pés e o corpo balançando sobre o vazio.

Contava os passos e os mudava até que virou cuidadosamente o ângulo da parede. Uma pomba macho pousou habilidosamente na sua frente, estufou o peito cinza chumbo e passou a arrulhar desafiador.

_____Sai da frente! Ô penoso! - ameaçou Victória, tentando empurrá-lo com o pé.
A ave saltou e bateu as asas, pousando no pé de Victória e passou a bicar suas boots.

_____Que atrevimento! O Bicho parece saber que não estamos na praça central e que eu mal consigo me mover, sem ter que ficar me equilibrando com o corpo colado nesta parede velha e fuliginosa.

_____Volte! Sua maluca! O prédio é antigo!
Era a Mariana gritando, janelas atrás. A policial sabia que ela tinha razão. O prédio, estilo Arte Noveau, possuía ornamentos que davam a ilusão de estarem sólidos mas que o tempo se encarregara de deixá-los frouxos, só esperando que um escalador de paredes, incauto, se apoiasse neles para despencar.

_____E aí a manchete do dia será: Policial Vândala, destrói fachada de prédio centenário, ao despencar do oitavo andar!

Encontrou uma tubulação externa aparentemente nova e apanhou-a para descer dois andares. No sexto andar, haviam vários escritórios comerciais e consultórios.

Talvez pudesse escapulir por alguns deles sem se deparar com o pessoal de Mariana pelos corredores. No primeiro, deparou-se com os olhos arregalados de um menino de 6 anos que se encontrava perto da janela.

_____Mamãe! Tem uma moça andando pelo lado de fora da janela! Acho que é amiga do Peter Pan!

______Ora! Gabriel, fecha esta janela! Pode se resfriar!

A mãe fecha a janela estrondosamente, sem olhar para fora e arrasta o garoto para fora da sala.

Vick passa cuidadosamente, tentando alcançar outra janela aberta.

______Um , dois e três! Muda o passo. Não olha para baixo !.- comandava a si mesma.

_____Prometo que se sair dessa, nunca mais agarro "todas" em boate gay. Uma ou outra talvez, mas só. Ah! antes vou perguntar a profissão da lady.

Desatou a rir.

______Estou frita! Estou ferrada! - cantarolava, enquanto mudava o passo.
Pensou se não teria sido melhor ter dado outros beijões na Mariana e distraí-la para ter conseguido o cobiçado arquivo? E se talvez se entregasse a ela agora? Afinal, de nada lhe valeria o disquete se caísse dali. Porém seu orgulho gritou forte: _____Não dê o braço a torcer para a chantagista manipuladora! Você escapa dessa!

O celular tocou. Encostou-se no abrigo momentâneo que uma janela trancada lhe oferecia.

______Oi?

______Di Angelis! É a Lizandra!
O corpo de Vick estremeceu.

_____O que está fazendo? Tenho algo que gostaria de lhe mostrar! Algo que poderá se interessar muito!

_____Hum! Mesmo?

_____Podemos nos encontrar?

_____Bem! No momento estou aqui em um curso intensivo para cabritas monteses policiais, sem corda ou mosquetão!

_____O quê?

_____Sabe como é! A vida moderna é muito monótona e é preciso de um pouco de adrenalina.

_____Está metida em outra encrenca?

_____Pra dizer a verdade, sim, e por conta de umas rebarbas deixadas por uma noite de beijos intensos em uma boate... lembra?

_____Como poderia me esquecer?

Um breve silêncio, muito pesado entre ambas. Liz finalmente o rompeu.

_____Diz onde está que vou até aí te buscar!

_____Ok!

Vick informou o endereço e pediu a Lizandra que a esperasse na calçada do edifício. Omitiu o detalhe que no momento se encontrava dependurada nos beirais do sexto andar. Não precisava assustá-la ainda mais.
Desligou. Viu uma janela aberta a alguns passos. Uma janela pequena tipo escotilha, mas isso não seria problema para a policial.

_____é lá que vou entrar. Não posso me arriscar mais. O vento está ficando forte nessa banda.

Entrou pela janela, cuidadosamente, metendo os braços, a cabeça os ombros e depois o resto do corpo. Tocou o chão com as mãos e lançou as pernas para trás em uma ágil cambalhota. A sala estava vazia. Na verdade uma saleta cheia de armários de aço.

_____Segundo ato: encontrar a saída...
Abriu a porta da sala e entrou correndo em outra. Esta cheia de homens de meia idade, muito sérios e de ternos em torno de uma grande mesa de reunião...

_____Boa noite! - disse cerimoniosamente.
Os homens não se moveram e amarraram mais as carrancas.

Vick viu seu reflexo em um grande espelho colocado a um canto da elegante sala. Estava com o rosto roupas e mãos cheias de fuligem.

_____Atenção senhores ! Tem fogo no prédio. Saiam calmamente pelas escadarias. Não usem o elevador!

A policial nem imaginou de onde lhe ocorreu tal idéia, mas pela reação que causou, viu que dera certo. Os homens saíram apressados pelos corredores, qual boiada estourada, sem dizer qualquer palavra para a visitante inesperada.

____E nem me agradecem! - exclamou Vick que aproveitou para descer a primeira escadaria que encontrou. Aos poucos teve que disputar espaço com outros que também desciam rapidamente. O boato tinha se espalhado. Já na saída do prédio, encontrou uma multidão aglomerada. Alguns eram pessoas que esvaziaram o edifício. Outros se acotovelavam pois ouviram falar que uma "maluca suicida" estava se equilibrando e cantando pelas marquises do oitavo andar.

Avistou a cabeça loura de Lizandra, entre as pessoas, no mesmo instante em que se deparava com uma Mariana, zangadíssima que atravessava o hall de entrada, tentando alcançá-la. Estava acompanhada por três homens jovens, muito fortes, vestidos de terno.

Tratou de escapulir do local. Abriu caminho pelas pessoas, acotovelando e pisando em seus pés até onde estava a doutora Lizandra.

_____Tire-me daqui rápido! - pediu.

Capítulo 5: O BILHETE DO SUICÍDA

Victória não teve outra opção, a não ser contar tudo que se passara entre ela e Mariana Moraes no escritório da jornalista.

A médica então a convenceu que o melhor seria pernoitar em sua casa, onde poderia se utilizar do computador e reorganizar as idéias.

_____É noite de sexta-feira! Relaxe e descanse!

Preparou um delicioso leite achocolatado para Victória e assim que ela saiu do banho, envolta na toalha, encontrou a mesa de canto do quarto de hóspedes, arranjada com uma leve e deliciosa refeição, além da caneca de leite que fumegava . Vick estava faminta. Havia passado por uma grande descarga de adrenalina e isso, primeiro a deixava a mil, depois, quando aos poucos relaxava, lhe entorpecia os braços, as pernas e o raciocínio.

_____Coma este sanduíche de chapa. Acabei de fazer do jeito que você gosta.

Victória estava embaraçada diante de sua fome e do fato de não conseguir articular palavra ou levantar os olhos da refeição até que terminasse e engolisse o último farelo do pão. Depois, sentindo-se muito melhor, ergueu os olhos e se deparou com aquelas intensas luzes verdes que fulguravam do olhar de Lizandra.

_____Quando foi que te perdi, meu amor? - perguntou ela, com os olhos cheios de desejo e dor.

Vick levantou-se, na tentativa de se esquivar daquela pergunta, da qual tanto fugira nos últimos meses.

_____Desculpe-me, mas vim aqui porque precisava de um abrigo para uma noite e porque você disse que tinha algo para me mostrar! Corri risco de vida hoje para conseguir um famigerado disquete que ainda não analisei, amanhã vai sair uma manchete nos jornais que minha intuição diz que vai ser no mínimo bombástica e provavelmente minha vida pode estar prestes a virar de pernas para o ar...

_____Tudo bem! Se ainda não quer conversar sobre "nós", eu respeito e vou esperar o momento em que estiver pronta.

Victória lembrou-se do mês, depois que romperam definitivamente o namoro, em que Liz foi para o Sul, passar as férias com os pais e demais parentes. Nos primeiros dias, sentiu tanta saudade que teve uma crise de labirintite. Depois, a mágoa e as lembranças de tudo que aconteceu na "Favela do Adeus" foram deixando-a gradativamente amarga.

Imaginava aqueles lábios cheios, os cabelos loiros de tons dourados e os olhos verdes esmeraldas... tudo em "posse" dos desejos inconfessáveis de Duarte.

Levantou-se e foi até o computador a um canto. Sentou-se e dedicou-se a dar uma espiada no conteúdo do disquete. Liz aproximou-se silenciosa e passou a aplicar-lhe uma massagem nos ombros. Estavam muito tensos.

Vick tentou se concentrar na primeira linha do relatório recém aberto, quando sente contra sua nuca, um dos seios de Lizandra. Arrepiou-se. Uma reação involuntária que ainda tentou ocultar mas os braços dela agora lhe enlaçavam o pescoço e deixavam as mãos escaparem para seus seios.

_____Por favor, Liz... preciso trabalhar! O Sabbah de Verão não está muito longe e preciso encontrar o matador antes que ele alcance sua vítima! Não temos feito progressos.

_____Precisa descansar também! Eu sou a médica aqui. Sei o que precisa no momento!

Victória lembrou-se que para a doutora, havia um maníaco que envenenara uma moça com cianeto e depois a lançara de um prédio, mas nada sabia sobre o serial killer ou dos eventos dos sabbahs. Era melhor assim.
Deixá-la fora das investigações seria a providência melhor a ser tomada para evitar que sua vida também corresse riscos.

Neste instante ela lhe beijava demoradamente os ombros e a nuca.

_____Liz! Não!

Victória ainda tentou balbuciar mais algumas palavras, mas o beijo intenso e ardente de Lizandra a calou.
A médica atirou-se na cama e livrou-se da própria roupa ficando nua, olhando para Vick através dos densos cílios que contornavam seus olhos semi-serrados. Como a policial não esboçasse reação alguma, pois se encontrava como se petrificada, Liz passou a se tocar e a gemer. Vick aproximou-se, ainda hesitante, como se hipnotizada, até que as longas pernas da outra a alcançaram e enlaçaram-na pela cintura, puxando-a para si. Depois, prendeu-a em seus braços.

_____Você não quer? Quem matou sua sede nestes meses?

_____Ora! Não estive com ninguém! - respondeu Victória constrangida pelo crescente calor que nascia de entre suas pernas e escalava-lhe o corpo.

_____Não esteve nem com Adriana?

____Quem lhe contou? Agnaldo?

____Sim! Mas não o culpe! Apenas perguntei a ele onde você estava!

____Ah! Entendo!

____Transou com Adriana?

____Que idéia! Fui apenas a um almoço em família! O noivo dela é um cara alto astral e até divertido. Um casal bonito! Tive até uma surpresa! Uma bela surpresa!

Omitiu sobre a gravidez da terapeuta.

A médica a olhou intensamente como se avaliando a veracidade de suas palavras. Por fim, puxou-a mais para perto de si , cravando-lhe as unhas nas costas, o que a fez se contorceu de dor.

____Não me diga mais nada! - mandou.

____O que está fazendo?

____Deixando um recado para a "outra"!

____Não faz sentido ter ciúmes! Eu e você não namoramos mais! Não sou sua mulher!

Lizandra deu um sorriso meio tímido, meio amargo e depois, tomada de súbita fúria, prendeu os lábios no seio de Vick e passou a sugá-los.

Esta perdeu o fôlego e passou a segurar aquele belo rosto de cabelos sedosos entre as mãos.

____Não faz isso! Minha loira! Você me magoou demais! Você me traiu!

Balbuciava e suplicava baixinho para que a outra parasse as carícias que a estavam enlouquecendo. Enfim, entregou-se, conduzindo suavemente a amante até seu sexo.
Quando esta encaixou seus lábios sedentos neles, Vick sentiu-se desfalecer. Só então descobriu o quanto estava precisando de ser tocada, sugada, acariciada, por Liz.

____Não, não! - ainda sussurrou em desespero, segundo antes de ser invadida por um orgasmo avassalador. Por fim, desfaleceu.


Acordou com um pequeno e radioso filete de luz, escapando pelas cortinas e dançando-lhe no colo. Consultou o relógio. Cinco horas da manhã.

Lizandra estava nua e adormecida abraçada ao seu corpo. Uma visão deliciosa e ao mesmo tempo comovente. Lembrou-se do disquete e dos eventos do dia anterior. Pensou que o mundo podia desabar lá fora que ela não se importaria.

Seu coração batia forte e feliz. Os eventos entre Duarte e Liz, agora pareciam cenas distantes de um sonho ruim.


Finalmente levantaram-se e tomaram um longo e sensual banho juntas . Nada diziam como se temessem quebrar o encanto do momento.

Cearam tranqüilamente e Liz lhe emprestou um par de roupas limpas. Depois se sentou em seu colo, com um sorriso luminoso. Vick já enveredava seus longos dedos por baixo da camiseta de Lizandra, alcançando-lhe e acariciando a base de seus seios, quando a médica lhe mostra um envelope pardo.

____Meu presente para você! Sei que o quer!

____O que é?

____Uma foto ampliada, com alta resolução do "Bilhete de Adeus" de Marta. Tem também uma cópia do Laudo da perícia. Isso só lhe chegaria nas mãos, com sorte, até metade da semana que vem! Consegui me apossar dele ontem. Imaginei que você iria querer ver de primeira mão o material.

A policial exclamou surpresa!


_____ahhhh! Maravilha!

_____E então? Sua mulher merece um beijo?

 

 
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