Lizandra
saíra para cuidar de umas compras para a casa. Insistiu até
que Vick prometesse que ficaria ainda para o almoço.
A
policial agora lia os relatórios da rotina de Marta, nos últimos
quarenta dias de sua vida.
Moça
simples de família abastada. O pai um geólogo e a mãe
uma pianista. Esta lhe faltara quando possuía apenas 6 anos.
O pai falecera há 1 ano em uma remota ilha na Grécia.
Deixara-lhe tudo e não havia parentes próximos conhecidos.
Haviam muitos empregados na casa. Pessoas que serviam a família,
desde o tempo da infância de Marta. A moça porém,
mostrara-se sovina e administrava o patrimônio com mão
de ferro.
Agia
como se ganhasse um salário mínimo por mês.
_____Ela
era estranha! Vestia umas roupas de velha e vivia gritando com a gente!
Relatou um menino que fazia parte de um bando de pivetes que invadiam
a propriedade em busca das frutas maduras no pomar.
_____Dona
Marta foi uma menina quieta e estudiosa. Depois que o pai morreu,
ficou mais fechada do que já era. Vivia andando de um lado
para o outro e conversando sozinha na biblioteca. Quase não
saía de lá. Parecia que estava procurando alguma coisa.
A
descrição da velha arrumadeira, se encaixava mais no
perfil que Vick fazia da jovem bibliotecária.
Mais
a frente a mocinha que auxiliava na cozinha, descrevia o que para
ela era uma espécie de "pobrema" de família:
_____A
patroa vivia achando que tinha doença por todo lado. Não
podia passar sem um pano seco e um vidro de desinfetante ou álcool
na mão pra limpar os corrimões, mesas e superfícies
que encontrava. Um dia a encontrei ajoelhada esfregando os encaixes
dos azulejos do banheiro com uma escova de dentes. Depois jogou um
balde de água sanitária. A faxineira limpava e ela tornava
a limpar. Acho que é problema de nascença! A mãe
também era meio "fraca"!
Victória
já estava enjoada de ler tanta comentário fútil
a respeito de uma pessoa que não existia mais.
Andou
pelo quarto e saiu para o corredor.
Foi
até o quarto de Lizandra, de onde tinha lembranças deliciosas
do tempo em que se amavam intensamente naquela grande e macia cama
de casal. Os meses que estiveram separadas lhe pareceram anos. Pensou
em quanto sentia falta da loura ao seu lado e queria lhe contar todos
seus segredos mas sabia que não podia expô-la a tanto
risco desnecessariamente.
Seu
celular tocou. Era a L.S.S.
_____Di
Angelis! O que você aprontou desta vez?
_____Como?
_____Viu
a manchete do jornal "Arauto da Notícia" desta manhã?
_____Ah!
O jornal!
A policial sentiu suas pernas bambearem e sentou-se.
_____O
que diz o jornal? - procurou perguntar, forjando um tom despreocupado.
_____Diz
que a famosa policial "Asa Negra" e sua equipe estão
em busca de um perigoso serial Killer, intitulado "O poeta do
Caos". Diz que você concordou em dar a notícia de
primeira mão para a repórter Mariana Moraes para mostrar
camaradagem entre a imprensa e a polícia!
_____Não
é verdade! - rosnou Victória e contou detalhadamente
para a delegada o que acontecera até então. Teve que
contar tudo, até o desastre que fora a tal noitada na boate,
há meses atrás, quando encontraram a moça morta
em um espinheiro. (vide "O Legado de Nix") .
Louise
ficou por um momento silenciosa. Depois informou que iria desligar
e que contataria mais tarde.
_____Estou
recebendo inúmeros telefonemas de delegados e autoridades ,
querendo saber sobre esta estória do "vazamento"
de informação. Vou dizer a verdade: Que você utilizou
uma estória falsa para encobrir pistas que a repórter
estava levantando e conseguir informações preciosas.
Assim, vou ter como justificar o fato de não lhe punir. Já
analisou o disquete?
_____Estou
fazendo isso agora!
_____É
bom que este disquete valha o esforço de ter que escalar um
prédio velho e ainda criado um alvoroço no centro da
cidade, além de comprar briga com uma jornalista inescrupulosa
e perigosa.
Desligou.
Victória
sentiu-se mais leve. Até então a Mariana Moraes pensou
que estava lhe arruinando a carreira com aquele "furo" e
na verdade a impressão que teve foi que a L.S.S. passou a respeitá-la
mais. Sentira pelo tom grave da voz e pela ausência de comandos
irritantes. Conversou com ela de igual para igual e isso era muito
positivo.
Voltou
ao computador.
O
depoimento de uma velha vizinha, denegria bem a imagem de moça
solteira e puritana de Marta.
_____É
uma vadia sem qualquer vergonha! Recebe homens em sua casa todas as
noites. O jardineiro diz que cava o jardim e encontra uns ossinhos
miúdos. Diz que acha que é de galinha, mas eu sei o
que é: Essa moça aborta suas crias e as enterra no fundo
do quintal. Uma criminosa. Imagine que foi criada nas melhores escolas?
O pai deve ter morrido de desgosto. Sabe que morreu de derrame cerebral?
Já
o jardineiro parecia ser um homem sóbrio e inimigo de fofocas
e boatos.
______Dona
Marta era uma boa patroa. Adorava flores e livros. Eu sou um homem
rústico mas admiro quem tem leitura. Dia desses ela recebeu
uns livros que encomendou.Uns cinco volumes de um tratado de "Psicologia",
coisa de cabeça, entende? Dona Martinha era inteligente como
ninguém. Já viu a biblioteca dela? Tá cheinha
e a todos ela já leu. Sei disso porque ela me contou. Disse
assim:
-Getúlio! todos estes livros, eu já os li.
Ela
tinha aversão a bibliotecas que ela chamava de "mortas".
Aquelas que a maioria das pessoas montam em casa a vida inteira, cheia
de livros que não eram lidos ou tampouco os lerão algum
dia. Ultimamente ela estava lendo o segundo livro do tratado que comprou.
Nunca deixaria uma leitura pelo meio. Nem se tivesse morrendo!
O
depoimento que o jardineiro deu para um dos "rapazes" de
Mariana, chamou a atenção de Vick, principalmente porque
não lhe parecera um comportamento de uma moça que estivesse
deprimida ou decidida a dar cabo da vida.
_____é,
mas talvez o suicídio tenha sido um gesto de impulso! - raciocinou
lembrando-se do relato de um colega que disse que a maioria dos que
cometiam suicídio, na fração de segundos após
seu ato, já se encontravam amargamente arrependidos.
Deixou
o computador do lado e resolveu avaliar melhor a foto do "bilhete
de adeus".
Fora
escrito em um pedaço retangular de papel pautado, mais ou menos
uma/quarta parte de uma folha formato carta e o lado esquerdo tinha
o alinhamento de papel destacado. Nos lados superior, inferior e direito,
percebia-se o trilho irregular e desfiado de uma folha que fora rasgada.
A letra era indubitavelmente a de Marta. Uma letra redonda e miúda,
traçada por caneta tinteiro. Podia afirmar com segurança
pois no dossiê que recebera, havia inúmeras folhas escritas
com a mesma caligrafia.
Como
chegara no limite do óbvio, passou a praticar um joguinho,
que se não desse resultado, pelo menos servia para relaxar.
Consistia
no seguinte: Elaborar perguntas.
Perguntas
muitas vezes de pouco ou nenhum valor. Passou a jogar.
_____onde
estaria o restante do papel descartado? Porque se dar ao trabalho
de rasgar a folha se podia dobrá-la? Porque havia alguns sutis
borrões e ondulações no papel?
Releu
o bilhete que consistia em dois breves parágrafos:
"Nada
mais faz sentido agora! A morte será o meu descanso".
_____Se
eu fosse ela, tão culta e inteligente como contam , deixaria
um verdadeiro rol de filosofias a respeito do "porque e razões
fundamentadas para abandonar o trem da vida".
Este
bilhete me parece "singelo" demais.
Avaliando
melhor, percebeu erros contra a "sagrada língua portuguesa".
________
nada mais
faz sentido
agora a
morte
será
o meu
descanso
________
____Dois
parágrafos iniciados com letra minúsculas e sem ponto
final. Muito estranho! Ela jamais cometeria tais erros.
Uma das coisas que mais me impressionou no dossiê que me deu,
foi a correção e cuidado com que Marta escrevia.
Diante
disso, Victória resolveu avaliar o laudo dos peritos para descobrir
o que causara a deformação no papel.
"Substância
química conhecida como água sanitária, espargida
por vários pontos do papel, causando a descoloração
em parte da tinta da caneta..."
"Papel vergê, creme com pautas em sépia, com suave
marca d'água com a numeração: 2002".
Vick
levantou-se da cadeira e deixou a casa. Deixou um recado breve para
Liz, dizendo que precisara sair e que procuraria voltar a tempo do
almoço.
Entrar
na casa de Marta naquele sábado não foi tarefa difícil.
O imóvel ainda estava interditado para os trabalhos da polícia.
Procurou
pela biblioteca o que queria. Não encontrou. Dirigiu-se ao
quarto que pertencera a Marta. Na mesa ao lado da cama, um "Tratado
sobre Psicopatias, Esquizofrenia e outros distúrbios de comportamento".
Abriu o livro. Estava com um marca página e havia grifos aqui
e ali.
Ainda
não encontrou o que queria. Decidiu ligar para a delegada,
informando suas suspeitas e talvez a mente brilhante de Louise lhe
desse alguma pista.
Tocou
em seu celular. Demorou para atender.
Ao
atender, estava com a voz ligeiramente ofegante e podia-se ouvir ao
fundo, uma voz masculina perguntando algo para a delegada.
Uma voz que lhe era familiar.
____O
que quer? Victória? Onde está?- Louise parecia mais
irritada do que o costumeiro.
Para
Vick, tudo soava estranho. A voz masculina com timbre conhecido, o
fato da delegada chamá-la pelo primeiro nome, coisa incomum
e ainda estar ofegante. Certamente interrompera-lhe alguma incursão
amorosa.
____Algo
sobre o bilhete de Marta, mas posso ligar mais tarde. Estou na biblioteca
da casa de Marta - informou insegura.
_____Encontrou
alguma pista no disquete?
_____Talvez...
mas ligo mais tarde ok?
Desligou
o celular abruptamente. Seu cérebro travado lhe acabara de
informar que a voz masculina era nada menos do que a voz de Antonio
Di Angelis. Por isso Louise a chamara pelo primeiro nome. Não
chamaria uma di Angelis, ao lado de outro di Angelis.
Atirou,
em um acesso de fúria, o aparelho celular contra a parede mais
próxima. O objeto ricocheteou e escapou para baixo da imensa
cama com dossel. Vick arrependeu-se em seguida de seu gesto e agachou-se
para procurá-lo. Apalpou cada centímetro do lugar até
que encontrou o aparelho ao lado de uma agenda de couro cru, muito
macio.
_____A
agenda!
Era
o que procurara em vão, até o momento.
Abriu-a
ansiosa, com o coração aos pulos. Encontrou uma espécie
de agenda/diário. Ali, haviam linhas e linhas traçadas
finamente na caneta tinteiro, descrevendo a dor da perda do pai. Ali
Marta arriscava um sentido filosófico para a morte. A do pai,
segundo ela, teria sido um alívio para uma pessoa que depois
de vários derrames se encontrava em um estado quase vegetativo.
Uma folha faltava na seqüência das páginas.
_____Só
pode ser isso! O bilhete saiu daqui!
A
folha foi arrancada e rasgada deixando somente uma parte onde poderia
ter o sentido das palavras alterados conforme a vontade de quem se
deu ao trabalho minucioso de forjar um bilhete de suicídio.
Sabe que é uma das primeiras coisas que a polícia procura
como indício.
Examinou
melhor o papel da agenda e comparou-o com a foto que Liz lhe dera.
Era, a olho nu, sem dúvida o mesmo papel. A folha escolhida
entre as anotações de Marta, cuidadosamente para darem
o sentido esperado, rasgadas e as letras que estavam a poucos milímetros
das outras e que seriam descartadas, foram apagadas com água
sanitária.
Preparava-se
para guardar seu "achado" na mochila, utilizando-se de uma
luva nas mãos quando a porta se abre e Louise entra na sala.
Tinha os cabelos molhados e a olhou reprovadoramente.
______O
que encontrou? Fale!
______A
guilhotina da revolução francesa está afiadíssima
hoje. - constatou Victória para si, sentindo uma irritação
crescente surgindo dentro de si.
Relatou à delegada toda sua descoberta. Estava orgulhosa de
si mesma.
Ao
fim, estendeu a Louise a agenda.
_____Pode
cheirar! Está com o cheiro característico da água
sanitária.
Louise
apanhou a agenda, cuidadosamente com a mão que acabara de enluvar
e a depositou em um saco plástico, lacrando-o logo em seguida.
_____Não
seja tola Di Angelis! Se realmente Marta foi liquidada pelo nosso
assassino do "cianeto", porque eu haveria de enfiar o nariz
em qualquer objeto que ele tenha manipulado? Seria um gesto imprudente
e de incrível ingenuidade! Coisa de amador!
Victória
sentiu suas faces esquentarem.
Acabara
de exibir seu achado maravilhoso e fora chamada de ingênua amadora,
além de estar claro, quase em néon, que Louise acabara
de sair dos braços de Antonio Di Angelis.
Uma vadia adúltera!.
Daí,
em um gesto de ira, apanhou uma pesada peça utilizada para
segurar livros e atirou-a contra o cristal bizotê de uma divisória
no canto oposto. O barulho foi medonho e a fez cair em si. A delegada
ergueu uma de suas finas e negras sobrancelhas e lhe cravou os olhos
azuis turquesa no rosto.
_____Acabou
a demolição do patrimônio alheio? - perguntou.
Victória
estava ofegante. Suas mãos tremiam ainda, mas não articulou
palavra.
_____Então,
sente-se, pois temos muito que conversar. - mandou Louise.
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OS
HOMENS DA NEBLINA
Louise sentou-se calmamente diante da policial e cruzou as pernas
com elegância, sem despregar-lhe seus olhos penetrantes e inteligentes.
____No
disquete, o que leu? Resume o que achar pertinente ou que tenha lhe
chamado atenção, mesmo que pareça algo sem importância.
Victória
respirou fundo, várias vezes, recuperando os poucos a calma
e resumiu tudo que lera nos arquivos. Sua memória poderosa
lhe permitia fornecer detalhes e minúcias.
____Os
homens! Quantos amantes? - inquiriu a Delegada.
____Quatro.
Um esportista radical, um estudante de Direito, um vendedor de carro
e finalmente um militar da reserva, viúvo. A equipe da Mariana
teve o trabalho de seguir os indivíduos e descobrir o endereço
e dados pessoais de cada um.
____ótimo,
então, primeiro passo: Quatro visitas a fazer. - concluiu a
delegada.
____Acha
que nosso homem é um deles?
____Acho
que é um avanço sutil no escuro em busca de uma luz
ínfima, porém, trata-se de um começo e nosso
tempo está se esgotando. Se o "Legado de Nix", se
deu ao trabalho de retirar Marta do caminho, a moça certamente
encontrou alguma pista "quente" ou estava em "vias
de". Confesso que no princípio de tudo, subestimei este
indivíduo. A primeira coisa que se pensa quando está
acostumada a tratar com personalidades desagregadas e deformadas todos
os dias, é que se tem pela frente, mais um maníaco.
Mesmo que seu modo criminoso seja inédito e bastante peculiar.
___E
agora ainda me aparece Mariana Moraes que por conta do tal disquete
com os arquivos, prometeu me destruir com sua influência na
mídia! - lamentou, Vick, com expressão preocupada.
___Um
obstáculo a mais a ser removido! - afirmou rispidamente a Delegada,
com o rosto muito sério e expressão de intensa frieza.
Abominava pessoas de comportamento hedonista e sem qualquer ética.
Levantou-se,
sacou seu HT e caminhando concentrada pela sala, despejou uma série
de ordens, a pelo menos uma dúzia de pessoas. Parecia convocar
uma reunião.
Parou finalmente em pé ao lado de Victória, guardou
o HT e acionou seu celular, discando rapidamente alguns números.
____E
então Almeida? - perguntou a alguém do outro lado da
linha.-O que tem a me dizer?
Escutou atentamente a resposta, com o cenho muito fechado.
____Tenho
certeza que tomou a decisão correta. Isso evita que eu seja
obrigada a mover um processo contra o seu jornal por publicação
de reportagem mentirosa envolvendo nossos policiais e que podem repercutir
desastrosamente na segurança pública. Quero ainda que
sua ex-funcionária publique uma nota de retratação
amanhã. Só assim se livrará de um processo na
justiça, entre outras coisas. Exijo que tudo que Mariana Moraes
escreveu como sendo declaração da agente Di Angelis,
seja desmentido.
Victória
não podia acreditar. Louise obrigara o Almeida Prado, poderoso
chefão da imprensa local a demitir Mariana Moraes e ainda fazê-la
se retratar, o que acabaria com anos de credibilidade da jornalista.
A
delegada deu por encerrada sua conversa ao celular, com algumas derradeiras
palavras secas.
____Entendo
que isso nunca mais se repetirá. Aguardo a publicação
nas manchetes de amanhã.
Terminou de falar, desligou e fez aquele gesto seu, bem peculiar que
era o de tocar suavemente o ponto de encontro do nariz com a testa
com o dedo indicador. Voltou finalmente o olhar penetrante para Di
Angelis.
O
meio sorriso de Louise, fez Vick ter plena consciência de como
aquela mulher era dura e sabia remover como ninguém, os obstáculos
à sua frente. Isso de certa forma a intimidava.
____Mariana
Moraes não será mais empecilho para nós, por
enquanto! - anunciou.-agora voltemos ao principal.____Presume ao menos
como o filho de "Nix" tentará "sacrificar"
sua próxima vítima?
____Não
faço a menor idéia. Talvez, seguindo a tal Parábola
do Semeador!
____Isso
mesmo e pelo que sabemos, a primeira vítima foi encontrada
em uma superfície rija -" A semente lançada na
pedra que secou-se e não germinou". Isto para representar
ao sacrifício do Sabbah de Yule - Depois, no Sabbah de Ostara,
a garota caiu nos espinho -"A semente sufocada pelos espinhos".
Então podemos deduzir que o próximo passo será
o Sabbah de Litha, quando a semente cairá no caminho e será
pisada pelos homens...
____Como
sabe? onde encontrou isso?
____Na
bíblia. Nunca leu?
____Não
esta parte! - sibilou Vick.
____Na
faculdade, já leu alguma obra do Padre Vieira?
____Acho
que sim, mas não me lembro...
____Consegue
lembrar de alguma colega atraente do curso?
Victória amuou, pois a crítica sutil atingiu em cheio
seu orgulho. Não gostava de insinuações a seu
respeito de que teria comportamento frívolo e superficial,
porém a contragosto teve que admitir que se lembrava de pelo
menos meia dúzia de colegas de curso, muito atraentes e cheirosas.
Como poderia ser diferente do alto de seus vinte e poucos anos?
A
delegada percebeu que a atingira.
____Bem!
Voltemos ao nosso assunto inicial que é mais proveitoso.
A
policial sentiu-se embaraçada, diante da delegada, mas ao mesmo
tempo, estava se envolvendo com aquele exercício de raciocínio
minucioso.
____Agora
temos algumas pessoas a entrevistar e um ritual a estudar para tentar
antecipar o passo do "nosso homem". Já acionei minha
equipe especial: Os Neblinas. Penso que só com o trabalho eficiente
e conjunto de vocês, poderemos evoluir a tempo de impedir outro
assassinato.
____os
neblinas? Então é verdade que possui uma equipe especial
e secreta?
____Sim,
e de agora em diante, fará parte dela. Você, Doutora
Lizandra e o agente Agnaldo serão os mais novos membros.
____Mas,
não me sinto capaz de chefiar uma equipe assim! Sei que deve
ter policial entre os "Neblinas" que são homens de
extensa carreira e especialidade, além de pessoas que jamais
se submeteriam a receber ordens de uma policial jovem e novata como
eu.
____Você
está certa. Não posso expor meus homens, nem você
a uma missão desastrosa. Não pela sua coragem e inteligência,
mas pela sua inexperiência e impulsividade. Por isso, aceito
que abdique da chefia da equipe da sala 44.
Apesar
de concluir acertadamente que a L.S.S. só estava esperando
uma oportunidade perfeita para destituí-la da chefia da equipe
da sala 44, Vick não pôde deixar de sentir um grande
alívio.Uma coisa era agir por sua conta e risco. Outra era
ter tanta gente com a vida atrelada a si, como sensíveis e
delicados fios, que a um movimento arriscado ou ordem imprudente sua,
poderiam perder-se.
____Vamos
ao meu gabinete no Distrito conversar com mais segurança.-
Mandou a chefe.
Na intimidade de seu gabinete, Louise sentou-se na sua confortável
cadeira "presidente".
____Escute!
O tempo urge e temos que nos antecipar a "ele". Quero que
conheça logo o restante da equipe. Formarão um grupo
eficiente. Tenho o prontuário secreto de cada um. Como pode
imaginar é uma espécie de "curriculum vitae"
resultante de uma minuciosa investigação social dos
indivíduos. Para se liderar, é preciso ter noção
de quem serão seus liderados e saber o que esperar ou não
deles. Aproveitar seu potencial e respeitar seus limites.
Levantou-se
e abriu um cofre, retirando várias pastas. Voltou a sentar-se
ao lado de Vick no sofá. Por mais que sentisse a seriedade
da sua reunião particular com a delegada, a proximidade desta
estava perturbando Victória e uns pensamentos intrusos lhe
invadiram a mente. ___que tipo de roupa de baixo usaria Louise? Que
perfume ela usa?
Concentrada
no assunto, a chefe organizou as pastas no colo e começou a
mostrá-las.
____este
aqui é o líder. O Primeiro homem abaixo de mim. Seu
nome: Edgar Meirelles.
____Nossa!
Como ele é feio! - exclamou a policial sem querer.
____É
um gênio- continuou Louise, ignorando Vick -____ cursou a melhor
Universidade da Inglaterra e se especializou no estudo de seriais
killers junto a polícia de Nova York. É formado em psiquiatria,
direito, sociologia e gerenciamento de crises. Possui outros diplomas
e especialidades.
____Caramba!
O cara é bom!
L.S.S.
lançou um olhar tipo - "não me interrompa com exclamações
pueris"- e continuou sua descrição.
____é
um policial no fim de brilhante carreira e carismático. O homem
certo para liderar a equipe especial que selecionei.
____ele
é bem "lombrosiano"...
Louise
suspirou impaciente, abrindo a boca várias vezes como se fosse
dizer algo, mudando de idéia em seguida.
____Quem
vê cara, não vê caráter! Este é um
exemplo clássico. Seria um líder perfeito se não
tivesse um defeito: é um sentimental incorrigível. Este
aspecto de poucos amigos e os pêlos que insistem em crescer
por todo seu corpo, lhe emprestam um ar de fera perigosa, o que é
muito conveniente, mas não verdadeiro. Vê a testa proeminente,
os olhos pequenos e ocultos e as faces vincadas? De perfil, parece
que tem o crânio do homem de Neandhertal. Impõe respeito,
tanto pela capacidade, quanto pelo aspecto, digamos...
____Horripilante!
- completou Victória, já recuperando seu humor despreocupado
e irreverente.
Louise
a olhou com um olhar ininteligível.
____Será
que agora ela me manda calar a boca? - pensou a policial.
____Vai
gostar dele.- insistiu - E não se iluda com seu constante hábito
de adormecer sentado. Na verdade seu cérebro prodigioso está
trabalhando intensamente, processando toda informação
e testando possibilidades e estratégias.
____Estou
impressionada! Continue. Tenho um palpite que vou gostar de seus abomináveis
homens da neve!
____Admiráveis
Homens da Neblina! - corrigiu a delegada, já com uma pequena
ruga de irritação entre os grandes olhos azuis.____abaixo
de Edgar e subordinados a ele, estará você e o restante
da equipe. O agente Agnaldo foi convocado para atuar como consultor
de mitologia, latim, grego e pesquisas em bibliotecas e enciclopédias.
Doutora Lizandra Torres, atuando como consultora sobre venenos, antídotos
e procedimentos de prevenção e emergência, além
de outras utilidades que poderá prestar como médica
legista criminalista. Tudo que for sendo apurado sob a suspeita de
ataque do "Legado de Nix" será sigiloso e a necropsia
liderada pela médica. Este rapaz aqui, Leandro Bittencourt,
tem 22 anos, três deles na carreira policial. É um gênio
da informática. Um hacker habilidoso e com conhecimentos especiais
nas áreas da mecatrônica, eletrônica e telemática.
Mostrou
a foto de um rapaz bonito, com o rosto jovem e imberbe e entregou
a pasta para Victória que a juntou 'as outras que estavam em
seu colo.
Estranhou que os olhos da policial estivessem em algum ponto abaixo
da base do seu pescoço, ao invés de se fixarem nos documentos
que apresentava.
____Preste
atenção! - repreendeu. ____não vou repetir a
informação!
Vick
teve um sobressalto. Não imaginava que a chefe lhe apanhasse
os olhos presos no início de um vale que desaparecia entre
dois montes alvos com algumas pintas castanhas suave, esparsas, ocultando-se
no delicioso decote. Deviam estar sustentados por "meias-taças",
raciocinou.
Louise
levantou-se repentinamente e dirigiu-se a mesa de reunião que
havia na sala. Sentou-se e indicou para a subordinada uma cadeira
defronte à sua, mas com pelo menos metro e meio de mesa entre
elas.
____Esta
é Ana Beatriz Moura. É especialista em armamento e tiro.
Possui grande habilidade com armas de fogo, armas brancas e outros
instrumentos perfuro/cortante/contundente. Uma colher nas mãos
dela, pode virar uma arma letal. Fez curso de montagem e desarmamento
de bombas e outros artefatos explosivos. Procure ser cautelosa com
ela. É uma pessoa de temperamento "complexo". Tem
24 anos e está na polícia há 5. Seu pai foi um
policial de carreira expressiva.
____imagino
o que ela faria com um garfo! - zombou Vick.
A
Delegada ignorou a observação e mostrou-lhe a pasta
com a foto de uma moça de olhar frio, cabelos avermelhados
lisos cortados na altura dos ombros. Os olhos castanho mel, parecia
fixos em "nada" e o nariz fino a boca com lábios
tensos, demonstravam uma nítida posição de "não-me-toques".
____Deve
ser difícil mesmo tratar com uma garota assim. - concluiu Vick
para si, já se sentindo aliviada de não estar na liderança
do grupo.
____Luiz
Takahishi. Mestre em artes marciais. Um policial de ação.
Não se iluda com seu aspecto franzino. É uma arma perigosa.
Tímido e muito gentil. Vai gostar dele.
Enfim, este é o primeiro escalão. Conviverão
na sala 44. Sete núcleos. Agregados a cada núcleo, estarão
cerca de 21 a 30 homens e mulheres do "segundo escalão".
Foram escolhidos entre policiais na ativa ou veteranos aposentados,
militares da reserva ou não, atiradores de elite, informantes,
artistas plásticos, artesões. Enfim, gente de todas
as procedências dispostas a trabalhar contra o crime.
Eu
por motivos óbvios, não poderei tratar da caçada
ao matador serial, diretamente. Tenho um grande Distrito Policial
em uma área violenta da cidade para chefiar. Entretanto como
já deve ter percebido, sempre estarei a par de todo o trabalho
realizado. Edgar cuidará de me manter bem informada e no controle.
Victória
estava impressionada com a meticulosidade e engenhosidade com que
L.S.S. tratava o assunto. Sentia-se envergonhada também. Não
queria que a chefe pensasse que "funcionava" como um rapaz
cheio dos hormônios, mas não conseguia tirar os olhos
das elegantes pernas cruzadas e os braços desnudos, muito alvos
que se uniam em seu colo suavemente esculturado.
____Acho
que estou na minha fase fértil. - raciocinou, baixando os olhos
para as pastas que lhe eram entregues e procurando demonstrar grande
concentração e interesse no material.
____Os
indivíduos do segundo escalão, estarão ligados
a cada "núcleo". Estes agregados não conviverão
na sala 44 e estarão sob as ordens do cabeça de núcleo.
Louise levantou-se, arrebatando rapidamente as pastas do colo de Victória.
____Então,
agora que está tudo acertado, vá para sua casa se preparar
pois amanhã cedo quero que trate de uma atividade "extra"
na capital
Victória empertigou-se, ansiosa por ação.
____Preste
atenção que vou descrever o que deverá fazer.
Conversaram
por mais vinte minutos até que Louise a dispensou.
____
lembre-se: eu estarei a um passo de você e a equipe!
A
policial sorriu e caminhando para a porta, virou-se antes de acionar
a maçaneta.
____Sabe!
Ás vezes quando olho algumas pessoas, eu estabeleço
uma certa conexão da imagem dela com uma figura geométrica!
Louise,
sentada na sua cadeira e com ar de impaciência, perguntou:
____E
que figura vê em mim?
____Um
triângulo!
Virou-se
com um sorriso divertido flutuando no rosto e saiu porta afora.
EXTRA
Na
capital, a policial não podia entender como a chefe podia ter
lhe reservado uma atividade tão "rotineira" e sem
importância quanto aquela.
____Deve
estar testando minha paciência e humildade! Só pode!
Isso explicaria tudo!
Consultou o papel que tinha nas mãos. Precisava encontrar com
um informante no metrô em plena Sampa, apanhar o documento que
ele lhe ia fornecer, devendo retornar para sua cidade, entregando-o
nas mãos de Louise. Nada aparentemente ligado 'a investigação
sobre o "Legado de Nix".
____Agora
ela me faz de Office-girl! - ruminou, inconformada, embalada pelo
suave sacolejo do metrô. Por fim, abriu o jornal matutino e
leu sobre enchentes, rodízio de carros, greve, quebra-quebra
em boate Funk entre outras notícias sem utilidade.
O
barulho do atrito das rodas nos trilhos lembrava o uivo de uma boitatá,
se é que boitatá uivava.- cismou - Observou as pessoas
sentadas 'a sua frente, ao lado, estáticas, que pareciam carregar
no rosto a máscara urbana do: "sou humano mas não
te conheço" .
Na
Sé, as portas abriram-se pelos dois lados e um formigueiro
invadiu o vagão de forma que a densidade da matéria
ali permitia-se agora viajar em pé, sem segurar nas barras
ou alças de apoio.
A
policial já estava pensando que o tal "informante"
não viria ou mesmo não a havia encontrado quando em
dado momento, ao esvaziar súbito do vagão, deparou-se
com um travesti muito alto e maquiado que se aproxima piscando-lhe
o olho adornado de enormes pestanas postiças , coladas no rímel,
contrastando com as pálpebras multicoloridas como um arco-íris.
____Aí
mona? Posso me sentar? Eu sou Brigitte, o melhor programa da Desvairada
da Garoa. (São Paulo)
____ah-rã!
Sente-se aí! - ciciou Vick, apontando um lugar vago ao seu
lado.
O
rapaz, vestido em um estreito conjunto vermelho de saia e top, cruzou
elegantemente suas pernas bem depiladas. A peruca vermelha, estilo
chanel, na altura de seu queixo maciço de pele azulada pela
barba que insistia em crescer.
____Diz
pra sua chefe que "as garotas aqui andam indóceis. A cada
dia chega freguês com cada tara, que você nem imagina,
me-ni-naaa!
____Sério?
Brigitte
retirou do decote entre seus enormes seios siliconados, um papel cuidadosamente
dobrado.
____
Tome! Aqui tem o rol das taras mais estranhas. Tem também o
relatório dos principais bordéis, pontos, zonas e mafuás
de sua cidade, viu? Sabe como é. Aqui em Sampa funciona o escritório
"central" dos melhores centros do prazer das cidades do
interior. Diz pra chefe que fiz o levantamento direitinho.
____Ah!
Obrigada.
____Então,
xau, gatinha! - despediu-se com um olhar libidinoso.___ Se eu gostasse
de amapoas, te dava um "trato completo" agora mesmo por
conta dessa pinta sensual que você tem aí! - apontou
o rosto da policial, enquanto os olhos desciam de seus lábios
e escapuliam por entre suas pernas.
Foi
a vez de Vick cruzá-las rapidamente, preocupada em ocultar
sua área de lazer daquele olhar voraz. Não estava gostando
nada da vulgaridade e intimidade do informante, mas sabia que ter
que tolerar conversas constrangedoras e tratar com todo tipo de gente
estranha, fazia parte do seu trabalho.
Brigitte levantou-se.
____Vou
nessa! Três beijinhos viu?
Esfolou a face de Vick com sua barba de um milímetro e saiu
equilibrando-se majestosamente nos saltos altos.
_____humpfff!
Cada uma que dona L.S. S. me arruma! - sibilou, entediada guardando
o precioso papel e esticando a vista para o mapa do trajeto da linha,
a fim de descobrir quantas estações faltavam para saltar.
O
vagão tornou encher e esvaziar em um aperta e afrouxa irritante.
____Se
eu morasse nesta cidade, já estaria louca, montada no "Monumento
'as Bandeiras", gritando: _____Avante Caramuru! Em frente Anhangüera!
O Eldorado nos espera!
Um
homem magro e bem vestido entrou apressado e sentou no banco a sua
frente. Não sabia porque sua atenção voltou-se
àquela minúscula criatura até descobrir que este
era portador de um fino e engomado bigode, que se movia freneticamente
para todos os lados, como se tivesse vida própria.
____Decerto
foi um rato do campo, nas vidas passadas, com os bigodes frenéticos
farejando um bom queijo caipira! - concluiu a policial.
Mais
pessoas entraram e saíram. Aquele homem também desapareceu
na multidão, porém sua valise continuou sob o banco.
Um menino vendedor de bala de hortelã tentou apanhá-la
disfarçadamente. Vick o impediu.
_____Achadu
num é rubado, moça! - argumentou o maroto.
_____Tô
sabendo, pivete! Circulando, circulando!
O
garoto zangou-se, retirou de algum canto oculto do calção
um canivete enferrujado, cuspiu ao lado e provocou:
_____Além
de muié, inda é abusada! Ninguém manda no "Fuguete"
aqui. To sendo obrigado a assartar ocê! Passa a borsa sinão
lhe espeto! - ameaçou.
Vick
deu um pulo ágil para o lado, pô-se a salvo e sacou da
bota sua enorme faca de operação. De um lado, dentes
como o de um serrote. Do outro, um gume tão afiado que partiria
o pêlo de uma pulga ao meio.
_____Interessante!
Eu também tenho um canivete. É um assalto, digo eu!
Passe a Valise, você! - anunciou com um sorriso zombeteiro,
ligeiramente maldoso nos lábios.
Os olhos do menino giraram frouxos nas órbitas enquanto largava
no chão do vagão tudo que tinha na mão e no bolso,
fugindo para um extremo do veículo, onde se meteu atrás
de algumas pessoas até que as portas se abriram. Por fim, escapuliu
correndo desembestado pela plataforma gritando:
_____socorro
poliça, fui assartado!
Dentro do vagão em movimento, a policial guardou calmamente
sua faca na bainha de couro presa 'a bota, apanhando a valise e preparando-se
para sentar. Foi quando percebeu que as pessoas que estavam à
sua volta, permaneciam imóveis como paralisadas.
_____Defeito
na Matrix! - pensou, divertida, até que viu uma senhora idosa
com o terço na mão, rezando. Retirou sua insígnia
de policial e apresentou-se.
____Agente Di Angelis da Polícia. Está tudo bem, pessoal.
Só estava botando um "trombada" pra correr.
O
povo pareceu relaxar lentamente e pouco a pouco foram recuperando
a aparência normal de apatia. Enfim Victória tornou a
sentar para avaliar atentamente a valise do senhor "Rato-do-campo".
____Se
fosse em outro país -pensou-___volume suspeito esquecido em
lugar público já seria um bom motivo para que o esquadrão
anti-bomba fosse acionado e o detonasse sem demora.
Girou-a
na mão e percebeu que não estava fechada no segredo.
Abriu cuidadosamente, raciocinando que dentro deveria haver algum
documento que facilitasse a devolução ao seu dono. Encontrou
um cartão da M & B Joalheiros com o endereço da
loja. Ficava perto do Distrito para onde a policial deveria ir. No
interior, debaixo dos papéis, uma peça fulgurante que
encheria os olhos de quem a contemplasse. Um colar de ouro com preciosas
esmeraldas engastadas, adornadas por brilhantes. No certificado de
autenticidade e avaliação, o valor tinha dígitos
generosos.
_____Que
loucura!- Exclamou, Vick sentindo o ar ficando denso. Fechou rapidamente
a valise e passou a raciocinar furiosamente, pensando que uma pequena
fortuna lhe tinha caído no colo por obra da sorte.
Saiu do metrô carregando a valise, nervosamente. Aquela jóia
representaria uma tentação para qualquer pessoa e não
estaria fazendo nada errado se ficasse com ela.
_____Mas
tem o cartão e o endereço!
Sua
consciência começou a borbulhar. Imaginou-se independente
de Antonio Di Angelis por um bom período. O pai arcava com
todas as despesas do sítio e ainda lhe depositava uma boa mesada
pois seu salário de policial honesta não era suficiente
para manter uma parca fração de suas contas mensais.
Ainda vivia no mesmo padrão de vida que tivera em sua família
original. Às vezes sentia-se diminuída diante de Liz,
pois a médica possuía boa renda, parte deixada pela
pensão do marido morto, mais o adicional no Instituto Médico
Legal e da clínica particular que tinha em sociedade com outros
colegas.
Caminhou pelas ruas de São Paulo como uma alucinada e foi dar
na porta da tal joalheria M&B. Subiu as escadarias correndo e
com a garganta seca, depositou a valise diante de um atendente assustado.
_____Encontrei
no metrô!
O
atendente chamou se chefe pelo interfone e o Medeiros (rato do campo)
apareceu nervoso. Abriu a valise sem piscar e com as mãos trêmulas
conferiu cada item do interior. Vick virou-se para sair.
_____Espere
moça! - pediu.____faz idéia de quanto vale esta peça?
_____Sim!
Li no certificado!
_____Vale
muito mais do que está descrito no certificado. É uma
jóia de família quatrocentona de São Paulo. Uma
relíquia - esclareceu.
_____Imaginei.
- respondeu a policial, com o coração apertado.
_____Mas
espere! Meu sócio e eu queremos lhe oferecer uma recompensa.
_____Não
vim pela recompensa! Vim apenas pela minha consciência e pelo
cartão!
_____Ah!
O cartão! Mas nos daria um grande prazer se aceitasse. Jovens
como você são raros hoje em dia! Venha, entre aqui. Quero
tirar a medida de seu dedo. Escolha uma peça.
Mostrou
uma vitrine com vários anéis. Vê aquele ali? É
rubi com brilhantes, incrustados em ouro branco. Um anel de bacharel
em Direito.
_____Deve
ser muito caro! Não posso aceitar!
_____Ora,
aceite! Não gostamos de ficar em dívida com ninguém,
senhorita!
O
joalheiro rapidamente experimentou os anéis no dedo anular
de Victória. Encontrou um que servisse, colocou-o no cone para
medida e anotou.
_____Vou
mandar o ourives ajustar a peça para seu dedo. Entregamos tão
logo fique pronto.
ANTONIO E LOUISE
Victória
conseguiu uma carona de volta a sua cidade em uma viatura.
Comprou o jornal. Não havia notícias dignas de nota.
Abriu distraidamente a coluna social e deparou-se com uma grande foto
de Antonio Di Angelis. Abaixo a legenda: Conhecido empresário
é o mais recente e badalado solteiro da cidade. Vick apressou-se
a ler a coluna e descobriu que seu pai já se encontrava separado
da madrasta há um ano e alguns meses.
Na
delegacia, comentou com Agnaldo sobre o caso.
_____Olha
Di, quanto ao seu pai estar separado da mulher, isso foi novidade
para mim, mas soube estes dias uma fofoca quente: a L.S.S. também
está solteira. E isso já tem tempo. Quem me contou foi
um policial antigo do Distrito que ela chefiava antes de vir para
o nosso.
____Agora
faz sentido! Eles estão namorando! Não há mais
qualquer empecilho - concluiu Vick.
____O
que eu acho é muito bom! A nossa chefa precisa mesmo de um
"amante- latino-garanhão-caliente" para esgotar aquela
energia toda e nos dar uma folga. Eu heim? Se continuar nesse ritmo,
ela nos mata! Tenho um rol de atividades para resolver. Acha que o
"Di Angelis-Number One" dá conta de manter a Lou
saciada?
____meu
pai? Claro! Antonio "manda bem"! Tive para quem puxar -
observou Victória sem deixar de sentir uma pontada de despeito.
Resolveu
então, para relaxar, continuar a puxar a língua do Gui.
____E
mais alguma novidade no front?
____Bem!
Não era para contar antes da reunião, mas continuam
chegando correspondências endereçadas a você pelos
supostos seriais killers. Sabe que a maioria é lixo, mas encontrei
uma que sabemos ser "dele" datilografado em papel jornal,
como o anterior. Não há impressão digital. Entreguei
à chefe.
____E
o que dizia?
Agnaldo
olhou cuidadosamente para os lados e segredou.
____"ele"
diz que antes de continuar seu ritual sagrado, vai castigar os profanadores.
Compara você com a Medusa da Mitologia grega. Diz que irá
decapitá-la, porém, antes vai eliminar uma a uma as
serpentes presas a sua cabeça.
____O
homem além de macabro é criativo!
____Sabemos
que ele é perigoso, Di! A chefa neste momento deve estar preocupada
com o rumo da situação. Ameaças deste maníaco
não podem ser desprezadas.
_____Está
tentando nos intimidar! Deve estar com medo de ser pego!
_____Gostaria
de ter a sua segurança, amiga, mas não consigo pensar
nisso sem sentir muita "paura" ...
_____Ora,
relaxa, pense nas coisas boas da vida!
_____Ah!
Então vou pensar nos braços confortáveis do "Lipe",
me esperando quando chegar em casa! - suspirou Agnaldo, sonhador.
_____"Lipe"
?
_____o
nome dele é Felipe!
_____E
quem é Felipe?-quis saber Victória.
_____Meu
novo paquera, não te contei?
Vick
fechou a cara para Agnaldo. Já lhe pedira que evitasse romances
relâmpagos que pudessem lhe trazer sofrimento ou coisa pior.
_____Bem!
Outra hora te conto com detalhes. Agora vamos almoçar?
O celular tocou.
_____Di!
Quer jantar comigo hoje? - convidou Lizandra.