VALHALLA

 

Depois do delicioso jantar, as duas se tocavam sensualmente e intimamente, quando o aparelho celular de Liz toca. Era um dos seus assistentes querendo saber detalhes de um exame pericial a ser feito.

Victória fez sinal para que Liz desligasse.

A médica orientou o subordinado e desligou.

_____Quem era? O que queria?

_____Apenas o Ângelo. Queria saber qual dos reagentes químicos utilizar em um teste.

_____Ah, sei!

Lizandra levantou-se langorosamente e entrou em seu quarto, deitando-se na grande king-size, sorrindo levemente.

Vick seguiu-a e pulou na cama, como um elástico, imobilizando a médica sob seu corpo.

_____Angelo, é? Quantos anos ele tem? é casado? bonito?

_____Ora, Di... deixa de bobagem. O que tem? Está com ciúmes?

A resposta foi um beijo selvagem nos lábios que quase tirou-lhe sangue.
Depois libertou-a, olhando firmemente seus olhos, com o rosto alterado pelo ciúmes e insegurança.

Lizandra tocou-lhe o rosto, acariciando-a com paixão.

_____Eu te amo, Di! Sou louca por você! Te amo tanto que até chega a doer. Sou sua mulher, lembra?

_____Se me ama! Faz amor comigo agora!

Lizandra se emocionou com o desejo e urgência refletidos nos olhos de Victória. Naquele momento, como jamais presenciara antes, sua amada parecia uma criancinha perdida pedindo ajuda, necessitando de conforto e amor.

Acercou-se de Vick, deliciando-se da visão de seu corpo que desnudava. Antes do amor, queria namorá-la demoradamente. Observou-lhe a musculatura firme e as curvas suaves de sua silhueta de atleta. Sabia que a policial praticara ginástica olímpica, dos seis aos 15 anos de idade e se tornara uma ginasta de grande expressão.Até que perdeu a mãe, o que a fez desequilibrar-se emocionalmente e se envolver nas encrencas que resultaram em sua internação no reformatório para moças. Não perdera a capacidade física e acrobática, usando-a muitas vezes para salvar vidas alheias e a sua própria. Por isso a chamavam de "Asa Negra". Desafiava o poder da gravidade de forma a parecer ter asas. Já "negra" era sua cor predileta e também a cor da maioria de suas roupas.

Aconchegou-se mais ao corpo da amada, puxando-a contra si novamente. Acariciou-lhe suavemente o ombro redondo, com duas maravilhosas covinhas na altura das espáduas. Possuía outro par um pouco acima do traseiro. Aquela estreita faixa entre o umbigo e a base das coxas, era sua predileta.

_____Você tem a parte pélvica tão linda! - exclamou Liz.

_____Pode beijá-la se quiser! Eu permito!

Liz beijou-lhe suavemente ali e já escorregava os dedos para o interior das coxas da namorada, quando esta lhe segura a mão.

_____Devagar querida! Lembre-se! Sou estreita aí!

_____Acalme-se! A Doutora aqui vai fazer um meticuloso exame de rotina! Comporte-se. Abra as pernas e coloque-as no meu ombro. E não ria. É um exame sério.

_____Mas eu posso sentir cócegas!

_____é?

A médica, inseriu suavemente os dedos, entre as pernas de Vick e abriu-lhe os grandes lábios.

O celular da policial tocou. Esta tateou sobre o móvel, tentando desligar o aparelho e lançou-o longe. Na verdade ela não percebeu que acabara ativando-o.

_____Um momento, doutora! A seco não dá! Vou sentir dor! Odeio sentir dor! Preciso de muitos beijinhos antes...

_____Calma. Já preparo o "campo" a ser trabalhado!

Liz inseriu sua cabeça loira entre as pernas da namorada, lambendo-lhe suavemente os pequenos e grandes lábios e por fim, penetrando-a com a língua.

_____uhhh! - gemeu Vick. Seu corpo distendeu-se e ela passou a fazer suaves movimentos com os quadris.

A médica apanhou-lhe firme pelos flancos e puxou-a mais contra si, mergulhando mais e mais em seu sexo.

_____Sua louca!

_____louca por você! Pelo seu corpo! Estou viciada em você!
Gemeu deliciosamente, enquanto a amante a tomava.

____Não para! Não para!

Riram, soluçaram e gemeram juntas.

____Me bebe! - suplicou Victória, segundos antes de explodir em um intenso orgasmo que lhe abalou toda a forte estrutura.

____Nunca pensei que poderia sentir tanto desejo por uma mulher, pelo seu sexo, seus seios! - exclamou Liz.

Vick descansou placidamente por alguns minutos e depois virou o jogo, apossando-se do corpo da namorada até conduzi-la ao prazer intenso.

Abraçaram-se exaustas e adormeceram abraçadas.

A policial acordou, sentindo sobre si o olhar penetrante da médica. Encontrou-a ao seu lado, apoiada em um braço.

____Você é bem estreitinha mesmo, aqui! - observou, tocando suavemente o sexo de Vick com os longos dedos. Algum homem já a penetrou?

____Bem, na verdade...

____Na verdade?

____Na verdade, não!

____Imaginei! - (breve pausa) - Bem! -(outra pausa) - Neste caso, você é a mulher certa para ser iniciada no "Portal Dourado do Valhalla".

____O que é isso? Algum método oriental?

____Não! - respondeu Lizandra, cerimoniosamente.____ É um segredo de família passado de pai para filho desde tempos imemoráveis, quando os Vikings dominavam os mares, Odin governava o firmamento com seu filho Thor e as Valkírias conduziam seus guerreiros mortos ao Valhalla.

_____Mesmo? Deve ser mesmo muito bom esse seu monumental, fabuloso "Portal Dourado do Valhalla" ...E como é?

_____Algo diferente de tudo que você conhece!

_____Olha que eu conheço coisa que você nem imagina!

Lizandra arrastou Victória para a cama, com um sorriso malicioso nos lábios e apagou a luz.

_____Esse, eu garanto que você não conhece!


O BEBÊ DE ADRIANA


Victória despertou, sentindo todo seu corpo relaxado mas um pouco dolorido.

____O que foi aquilo? - exclamou para si, enquanto segurava a cabeça. Levantou-se e no caminho para o banho, uma ligeira tontura a fez parar.

____Mas um pouco e ela me matava ontem! - relembrou do labirinto de sensações e prazer que Lizandra a fez enveredar. Nunca havia sentido orgasmos tão intensos e deliciosos.

____Ainda bem que eu sou forte, resistente!


Começou a preparar o banho, pensando no que faria naquele dia inteiro de folga, enquanto Liz já havia partido cedo para o trabalho. Pensou em preparar um delicioso almoço para a namorada, mas desistiu, imaginando ser mais prudente encomendar o rango.

O telefone fixo começou a tocar insistente e Victória sentiu-se gelar.

____Quem poderia estar ligando para a médica em plena manhã?
Um horrível "deja vu" a assolou.

Continuou a experimentar a temperatura da água na banheira desejando não se deixar perturbar tanto, principalmente quando a secretária eletrônica colhesse o recado da pessoa que insistia tanto na ligação.

O bipe conhecido e a voz de Agnaldo.

____Di! Eu sei que você está aí! Atenda!. Adriana estava no shopping comprando o enxoval da bebê e teve um sangramento. Levaram ela às pressas para o hospital maternidade Beneficência Portuguesa!

Em vinte minutos, Victória já estava ao lado dela no hospital. Informaram-lhe que fora apenas um susto e o médico recomendou repouso por um dia e deu-lhe alta.

Já em sua casa, deitada, Adriana mantinha-se silenciosa, olhando fixamente para algum ponto no teto. Seu noivo não viera pois estava viajando a trabalho.

_____O que foi, Adri? O que você tem? Está sentindo dor? - perguntou Vick, ansiosa, apertando-lhe a mão nas suas.

_____Pensei que ia perder a nenê e morreria junto se isso acontecesse. Eu já a amo tanto. E a pensar que nunca me imaginei no papel de mãe. Sempre priorizei minha vida profissional. O bebê veio sem que programássemos.

_____Descanse, sim?

Victória iniciou uma massagem relaxadora nos pés de Adriana com um hidratante.
Adriana a olhou com os olhos negros vertendo amor.
A policial sentiu-se embaraçada e entabulou um assunto.

_____Já escolheram o nome da nenê!

_____Acredita que ainda não?

_____sério?

_____muito sério e quero aproveitar e pedir que escolha o nome para sua afilhada.

_____Mas, mas...

_____Ora Di, escolha um nome. Se eu não gostar, pode deixar que digo.
Vick ficou por um minuto silenciosa, contemplando o rosto querido de Adriana e pensando no nome que daria a sua própria filha, se a tivesse.

_____Nicole! É nome de mulher feminina, inteligente e de muita personalidade.

_____Gostei do nome! - parabenizou Adriana.___Pronto! Está escolhido.

Os olhos de Vick encheram-se de ternura, enquanto tocava suavemente o ventre de Adriana, sem conseguir articular qualquer palavra.
A terapeuta percebeu sua comoção e resolveu tocar no assunto.

_____Nunca pensou em ter um filho? Di?

_____Às vezes me ocorre, mas passa como chuva de verão. Acho que não tenho competência para criar um. Sir Lancelot que o diga. Fica abandonado esperando sua lata de sardinha da tarde e o leite matinal. Na tarde, fica jogado as traças. No dia que a faxineira vem, come como um paxá. Nos outros, só fica na lembrança de dias melhores. Estes tempos, até que teve sorte. Ficou com a namorada e ninhada na casa de Liz.

_____Mas aposto que o "Lance" não troca o apê com você por um casarão cheio de mimos.

_____Lancelot é um gato tolo! Espera-me todas as tardes. Se ele soubesse atender o telefone, eu o avisaria sobre os dias que não pousaria em casa. Mas tento levá-lo comigo sempre que posso.

_____E sua namorada? Ela é viúva, não? Nunca pensou em ter um filho? É uma mulher jovem!

Vick fechou a cara e Adriana percebeu que entrara em terreno perigoso, porém não se intimidou.

_____O assunto te incomoda, pude perceber.

_____Lizandra quer um filho. O assunto já rendeu até a nossa última separação. Digo, o assunto foi parte. Mas agora reatamos.

_____E resolveram o problema?

_____Ainda não conversamos sobre isso.

_____Ignorar o assunto não vai ajudar a resolvê-lo.

_____Não sei o que fazer.

_____Mas o que sente por ela?

_____Penso que a amo.

_____E não poderiam criar esta criança como duas mães?

_____Mas ela não quer adotar. Quer um filho do sangue dela! Até tentou engravidar do ex-namorado!

_____Hummm! Complicado!

_____Mais do que complicado. Existem outros obstáculos. Quanto mais nos envolvemos, mas meu ciúme cresce. Sinto ciúmes de cada fio daquele cabelo loiro, ciúmes de sua boca, de seu olhar amoroso, de seu modo especial de caminhar sobre saltos altos. Eu pareço ser uma pessoa de mentalidade aberta e moderna, mas quando se trata da minha namorada, sou castradora, controladora, ciumenta e machista medieval. Tento ser coerente mas não consigo. Se me sentar e ficar pensando no assunto de ter que dividir seus braços com outra criatura, sou capaz de ter uma síncope.

Vick falava alto e caminhava nervosa pelo quarto, esmurrando o ar com os punhos fechados.

____Eu sei que estou errada mas me sinto impotente quanto a isso! Até recentemente, você bem sabe, ainda não era capaz de me relacionar por mais de seis meses com ninguém. Agora que parece que "estabilizei" em um relacionamento, a mulher por quem eu tenho um tesão louco, me faz oscilar todo momento com dilemas que não consigo resolver. Quem sabe se eu pudesse dar a ela, um filho com o nosso sangue. O meu e o dela.

___Vai superar isso!

____Não sei! Às vezes bate um desespero. Estamos bem, mas a todo momento, fico na expectativa do assunto vir a tona e meu castelo de sonho desabar. Ainda não estou preparada para um casamento com direito a filho e tudo mais. O assunto me assusta! Se ao menos a gente pudesse conviver um anos ou dois juntas, aí poderíamos amadurecer o relacionamento e aí, talvez eu me preparasse para "enfrentar" uma criança!

Adriana riu com a expressão de pavor de Vick e tomou sua mão.

____Bem, nesse caso, posso sugerir algo?

____Claro!

____Converse com ela. Abra seu coração. Você não está errada e ela também não. Apenas possuem certas aspirações divergentes. Isso acontece toda hora com casais ou namorados. Pessoas são diferentes e quando se encontram, são oriundas de diversos meios sociais, familiares, culturais. Não está errada em valorizar sua vida profissional. Sei o quanto sua profissão significa para você no momento. Tente convencer Liz de sua afeição e seja paciente.

Victória beijou as mãos de Adriana.

____Meu anjo bom!

____Então agora que está mais animada, quero pedir um favor!

____Tudo que quiser! Estou na minha folga!


____Pode ir no Shopping pegar alguns itens do bebê que comprei e não consegui retirar?

____Já estou indo!


FARRA NA 44

No shopping, Victória retirou vários livros de "primeiros passos do bebê", "amamentação", "Educação da criança" .

Na loja onde deveria retirar algumas fraldas descartáveis, loção e outros itens, a vendedora anunciou que já havia entregado a sacola para o noivo de Adriana.
A policial não estranhou pois sabia que o moço estava para chegar de viagem e talvez tivesse resolvido passar para ir adiantando as coisas, antes de rumar para casa.
Diante disso, Vick aproveitou para fazer algumas compras para si e cuidar de detalhes de sua estadia com Liz no chalé em Monte Verde. Já estava a caminho de seu apartamento quando o HT bipou. A L.S.S. informou que precisavam conversar com ela ainda naquele dia.

____Vou passar na delegacia! - informou Victória, já mudando de rumo.
Na sala 44, deparou-se com Agnaldo animado trabalhando em uma escrivaninha.

____Salve, Di! Tudo bem? Soube que a Adriana está ok.

____Pois é. Fiquei um bom tempo com ela e depois fui ao shopping apanhar umas compras para o bebê. Serei madrinha.

____Isso é ótimo. Mas o que faz aqui? Não é seu dia de folga?

____Liz vai trabalhar o dia todo e a L.S.S. quer conversar comigo.

____Ah!

____Mas então? Novidades? O que está fazendo, assim tão concentrado?

____Veja, a chefe me delegou algumas tarefas específicas e estou trabalhando nelas desde ontem. Consegui encontrar umas gravuras e símbolos relativos a Nix e seus filhos. Pesquisei sobre os sabahs e seus rituais. Até a posição das estrelas nas noites dos solstícios e equinócios eu consegui marcar em um mapa. Estou fazendo o relatório e resumo circunstanciado para entregar ao Ed-good-zilla Meirelles.
Vick não conteve o riso e riu até ter contrações abdominais. Agnaldo tinha a mania de aplicar apelido nos colegas e o do chefe Edgar lhe parecera bem engraçado e apropriado.

____Então já viu a ficha dos nossos colegas de sala? - perguntou Di Angelis.

____Yessssssssssssss! - respondeu o Agnaldo, imitando pela sala uns passos de "Jonh Travolta" .

____Já viu a foto da tal Ana Beatriz?... deve ser uma enjoeiraaaaaaaaaaaa!-
O policial começou a andar de forma gingada, com os joelhos colados e os calcanhares voltados para fora, fazendo beicinho e com um olhar de pura afetação. O rariz enrugado como o de um coelho e uma das mãos estendida e a outra na cintura.

____Um desprazer conhecer você! - falou com voz de falsete, dando dois tapinhas no ombro da colega e revirando os olhos.

Victória atirou-se por sobre a mesa mais próxima, rolando de rir. Porém o som de passos de alguém se aproximando pelo corredor, os fez tentar se recompor. Era a tal Ana Beatriz que abriu a porta de supetão e com passos calculados, dirigiu-se até o armário número 3 e o abriu, guardando uma mochila e fechando-o com o cadeado. Parou. Deu um giro em torno de si, observou atentamente Agnaldo, a quem cumprimentou com um leve aceno de cabeça e por fim, saiu sem cumprimentar Victória.

____"Canin-Ana" Beatriz! - nomeou Agnaldo!

____Caninana...Ahahahahh! - aplaudiu Victória.
Outra pessoa se aproximava.

____Prepare-se! - avisou Vick. ____capriche no apelido. É um, dois e trêsssssssss!
Doutora Lizandra entrou na sala.

____Wowww! Bravoooo! - aplaudiu a policial, apanhando um cartão e enrolando-o para improvisar um megafone._____Na passarela, a linda, maravilhosa, deliciosa e esplendida loiraaaaaaaaa! Lizzzzzzzzzzzzzzzzandraaaaaa!

Liz os encarou com os grandes olhos verdes, muito abertos.

____Vocês beberam? Olha que beber logo pela manhã e em horário de serviço é sinal claro de alcoolismo!

Victória ajoelhou-se diante de Liz e passou a dar-lhe inúmeros beijinhos nas pernas desnudas, subindo lentamente e já estava na altura do joelho, quando ouve passos no corredor.

____Levante-se sua maluca ou vão nos flagrar em posição do "kama-sutra"...

Vick deu um salto ágil para trás e caiu sentada na escrivaninha, quando a porta se abre e entra um moço alto e de rosto incrivelmente atraente. Agnaldo perdeu o fôlego. O rapaz tinha os cabelos negros azulados e os olhos de um azul intenso, ornados por densas pestanas negras, face alva e corada na altura das bochechas, com lábios tão intensamente tenros e vermelhos como cerejas. O corpo era esguio e bem torneado. Nem muito forte, nem magro. Cumprimentou a todos com um sorriso tímido.

____Sou Leandro! Vocês devem ser, Agnaldo, Doutora Lizandra e agente Di Angelis?

____é, é! - gaguejou Agnaldo.

____Maravilha! acho que vamos nos sair bem na missão. Tenho aqui um material que "levantei" na internet. Vou trazer meu computador e outros equipamentos hoje a tarde. Agora tenho que ir. Até mais.

Saiu e Agnaldo ajoelhou-se no chão.

____O que é aquilo? O que é aquiiiiilo minha gente?

____é o jovem Bittencourt. - respondeu Liz com um sorriso malicioso nos lábios.

____Acho que me apaixonei! - suspirou Agnaldo.

____como você é volúvel! E onde fica o tal Felipe?

____Bem... fica... fica... Fico com os dois...

____Tsc, tsc, que homem infiel, frívolo, fácil!

Agnaldo ensaiou seu sorriso mais sacana, piscando repetidamente os olhos, enquanto mandava beijinhos no ar para a amiga.

Esta riu e emendou o assunto.

____Mas, voltando ao que interessa: Que apelido lhe daremos? - quis saber Vick, animada.____é realmente um belo exemplar do gênero masculino! - observou.

____Bello! Bello de Jour! Caramba! Estou precisando de uma ducha fria.

____Acalme-se garota histérica, menina marota, buliçosa! Olha o colesterol, a varicocele, - zombou a policial, tomando o pulso de Agnaldo com o indicador e polegar de uma mão e consultando o relógio, como se lhe contasse a freqüência cardíaca.

____Varicocele? Eu? ___Sua palhaça!

Lizandra aproximou-se de Vick e lhe fez um carinho no rosto.

____Então minha gata gostou do "Belo da Tarde"? Aposto que nem faz idéia de quem ele seja parente próximo. Muito próximo. Irmão, para ser mais precisa!

____De quem? De quem? - perguntou Agnaldo, simulando um ataque histérico, segurando a cabeça com as duas mãos.

A doutora postou-se no centro da sala, como se fosse fazer uma revelação muito solene. Esperou um pouco para aumentar o suspense e depois despejou:

____A beldade é único irmão da "guilhotina da Revolução Francesa"...

____O quêeeeee? - Exclamaram Victória e Gui, em Uníssono.

____Irmão da "Madame-Facão-na goela"? "Peixeira-de-capar-jegue"? - continuou o rapaz.

____Putz! Essa foi forte! - gemeu Victória.

____é! Acho que me excedi! Fiquemos apenas com "Madame-facão-na-goela", ok?

____Ok!

____Mas restaurando o assunto perdido! O "Belo da tarde" é irmão de quem mesmo? Será que ouvi direito?

____Ouviu sim! O nome dele é Leandro Souza Bittencourt, irmão caçula temporão da L.S.S. O iô-iô de iã-iã da nossa chefe suprema.

____E como sabe tanto assim sobre Louise? - quis saber Vick, desconfiada.

____Não é preciso ir muito longe. Leia mais sobre as famílias tradicionais e quatrocentonas de São Paulo. Os Souza Bittencourt são uma linhagem distinta e abastada. Em um ramo, criminalistas de renome. No outro, joalheiros tradicionais. O nome de solteira da nossa chefe era Louise Souza Bittencourt, até se casar pela segunda vez com um certo "Lima e Silva" .

____Ah! - exclamou Vick, enquanto seu cérebro funcionava a todo gás. ____Então é isso! Ela estava me testando. Um teste para ter certeza de que eu seria digna e confiável. - pensou.

____Mas que raposa vermelha! - pensou em voz alta.

____hãa? Quem é raposa? - quis saber Lizandra com olhar desconfiado.

____Nada amor. Estava apenas pensando em como será perfeito nosso fim de semana. Já reservei a pousada. Tenho alguns folders e folhetos do local no meu armário. Venha que te mostro. É um lugar muito alto, portanto tem um clima agradavelmente frio e o ar muito puro. As araucárias, pinus, esquilos e arquitetura enxaimel faz com que pareça uma pequena vila alemã. Podemos nos fartar de uma boa comida mineira, queijos e vinhos ao lado da lareira, além de fondue de carne, chocolate ou frutas. No pequeno terraço do chalé que reservei, no andar superior, pode-se tomar um banho de ofurô bem quente. Será algo maravilhoso...
Abriu o armário com o rosto iluminado pelo contentamento, e por acidente os livros do bebê vieram ao chão.

____O que é isso? - perguntou Liz, com o olhar de grande surpresa.

____O que está vendo? - perguntou Vick, sem graça.
Agnaldo tratou de sair da sala, sorrateiramente.

____Estou vendo tratados de "como criar um bebê" e um kit para futura mamãe...
A policial lembrou-se que Liz não fazia a menor idéia da gravidez de Adriana e nem que as duas estavam se encontrando. Sabia que Lizandra sentia muito ciúmes de sua amizade com a antiga namorada.

Diante do olhar inquisidor da loira, decidiu encaminhar o assunto na brincadeira.

___Me dê os parabéns. Estou grávida! - gritou Vick.
Lizandra sentou-se na cadeira mais próxima com a mão no peito.

____De quem? Você só pode estar brincando comigo!

____Estou grávida do Gui!

____Não pode ser!

____Nada que uma bandeira nacional no rosto não resolva...

____Para com isso e fala sério.

____tá bem, ta bem! Se te contar você não vai acreditar! Já ouviu falar de "desdobramento espontâneo do gineceu sem androceu"?

____Ora amor! Não me enrole! - disse Liz, torcendo as mãos em um gesto de grande ansiedade, o que fez Victória concluir que já era hora de parar com os gracejos.

____Bem... eu não havia contado nada porque não tive oportunidade. Ia tocar também neste assunto neste fim de semana...

Não mentia. Pretendia contar sobre a gravidez de Adriana, além de tocar no tal assunto "delicado" de ter ou não ter um bebê.

Liz, ficou por breves instantes com expressão ininteligível e depois soltou um gritinho de alegria, envolvendo a namorada nos braços e apertando-a contra si.

____Então finalmente quer conversar sobre um bebê? Esta é a grandiosa surpresa que tinha para mim? - disse , enquanto a beijava e lágrimas escorriam dos seus belos olhos.

Vick não sabia o que dizer diante de uma situação inesperada como aquela, e pensava na melhor maneira de desfazer o mal entendido, enquanto Liz começou a tecer planos para seus sonhos de futuro.

____Podemos fazer uma inseminação artificial. Podemos escolher um doador com características físicas semelhantes a sua. Se aqui for difícil, iremos para o exterior para nos inscrever em um banco de sêmen. Sei de alguns colegas nos EUA que cuidarão para que tudo dê certo, sem qualquer risco! Nosso bebê será perfeito.

A policial achou melhor abrir o jogo rapidamente antes que seu amor continuasse se aprofundando mais.

____Liz, você não entendeu!

____Não entendi o quê?

____O bebê. O bebê é de Adriana. Ela está no oitavo mês de gravidez e este é o enxoval da pequena Nicole...

A médica pareceu ter levado um choque elétrico e se afastou de Vick, com um gemido.

____Adriana? Um bebê? Nicole?

____é... eu ia contar sobre o estado "interessante" dela dias atrás, mas não tive oportunidade, aí pensei em contar no nosso fim de semana lá em Monte Verde...

____sua ex-namorada vai ter um bebê, o nome dele é Nicole, você está com o armário abarrotado de sacolas com o enxoval da criança, livros...

____Vou ser madrinha de Nicole. Fui ao shopping apanhar as compras de Adriana. Ela me pediu.

____Tem se encontrado com Adriana? Há quanto tempo? Lembra que você me disse que não a via desde o dia do tal almoço em família? Mentiu para mim? O que está ocultando?

Lizandra não conseguia conter sua decepção, frustração, que cambiava para raiva e intenso ciúme.

____Não estou tentando ocultar nada. Apenas não queria que você sentisse ciúmes. Não há mais nada entre eu e Adri.

O rosto de Lizandra estava vermelho e seus lábios tremiam enquanto falava. Parecia prestes a perder o controle.

____Está curtindo o bebê? Quem escolheu o nome? - perguntou com os punhos cerrados.

____e-e-eu!

A médica soltou uma espécie de rugido agudo, enquanto caia com as unhas nos ombros e braços da namorada.

____Tinha que ser idéia sua! Eu bem que imaginei que este tal noivo da Adriana era apenas fachada, sempre viajando, sempre ausente, o que facilita bem as coisas pois este caso antigo de vocês não acabou coisa nenhuma!

____Acalme-se Liz, vamos sair e conversar!

____Ora! Conversemos aqui mesmo pois o que tenho a lhe dizer será breve. Está tudo terminado entre nós. Estou saindo de sua vida. Quero que me esqueça!

____Liz! Você não entende!

____Não é preciso! Eu só entendo que você é incapaz de ser fiel ou leal a alguém por mais de alguns meses.Não preciso manter uma relação com uma mulher que age como um rapaz castrado.

Victória se sentiu atingida fortemente no peito. Não esperava palavras tão duras vindas da namorada com quem fizera amor ainda na noite anterior. A palavra "rapaz castrado" ecoava em seus ouvidos, tirando-a de si.

____Se sou tudo isso que está dizendo, então porque me aturou? Vai dizer que não teve prazer em meus braços?

____Tudo foi apenas curiosidade de mulher madura e que tem um lado sexual muito forte. Estava me sentindo solitária. Apenas isso. Mas esta brincadeira já ficou sem graça. Esgotou-se. Acabou!

____Eu não acredito no que está dizendo, Liz. Em nada disso!

____Ora, Victória, aceite a realidade. Você precisa mesmo de terapia. Precisa se curar desse "complexo de Electra" que tem em relação a Antonio Di Angelis. Por isso não se relaciona com homens.

____Está maluca? "complexo de Electra" ? como pode afirmar isso?

____É a única explicação plausível para essa sua relação " conturbada" com seu pai.


A policial baixou a cabeça e sentou-se.

____Saia, por favor doutora. Já disse o suficiente. Nosso assunto está encerrado.


Lizandra ficou parada na sala por alguns minutos sem articular mais nenhuma palavra, até que saiu rapidamente, batendo a porta.

Vick esperou alguns momentos e decidiu-se a sair dali antes que alguém a visse prestes a irromper em um choro amargurado.

Procurou por sua mochila e as chaves da moto. Precisava sair da delegacia.

Louise entrou na sala 44.

____Agente Di Angelis! Estava a sua procura! Venha ao meu gabinete. Precisamos conversar.


COMPLEXO DE ELECTRA


Vick seguiu-a pelos corredores e elevador. Dentro do gabinete, tentava a custo conter o desespero que se avizinhava.

Louise preparou dois copos de bebida e ofereceu um a policial que aceitou e bebeu rapidamente.

Respirou fundo e tentou relaxar, encostada no sofá, erguendo o queixo em franca luta para manter o controle de sua dor.

____O que você tem? Não está se sentindo bem?

____Na verdade, não estou mesmo bem.

____Então eu lhe ofereço duas opções. Uma é voltar para sua casa e tentar dormir e voltaremos a conversar quando melhorar.

____E a outra?

____Começar a trabalhar desde já no nosso caso. Um pouco de ação pode ajudar a esvaziar um pouco a cabeça.

Victória levantou-se rapidamente e perguntou pelo toalete.
Louise apontou o lugar.

____Não precisa se esforçar tanto para ocultar as lágrimas.
A observação da delegada rompeu com a ultima barreira e a policial já não conseguia mais controlar o choro e os soluços.

____Acalme-se! Sente-se enquanto preparo outra bebida.

____Desculpe-me, mas é que...

____Não precisa se desculpar, infelizmente eu ouvi parte de sua discussão com a Doutora Lizandra. Estava próxima da porta e decidi entrar depois que terminassem de conversar. Não quis ser intrometida, mas não pude evitar. Estava à sua procura.

____Ouviu até o "rapaz castrado"?

____Diríamos que do "rapaz castrado" até o "complexo de Electra"?
A Policial inconformada argumentou.

____Mas não tenho qualquer "complexo" a respeito de Antonio Di Angelis. O problema com meu pai é de outra natureza.

____Do lado dele, posso afirmar que seu pai acha que você o culpa pela morte de sua mãe!

Uma bomba explodiu na cabeça de Victória e ela fechou os olhos e reclinou a cabeça no sofá. Sentia como se todos os dias luminosos de sua vida escoassem e sobre si, abatia uma eterna e densa noite. Ouvia a voz de Louise muito distante e cada vez mais baixa, misturar-se a sua própria que dizia:

____Ele a matou! Ele a matou!

____matou? - perguntou a delegada.

Vick inspirou com dificuldade e revelou.

____Discutiram e ela saiu com o carro pela serra e...

____Não precisa contar mais nada! - mandou Louise.

Victória entrou em um estado de distanciamento de si. Não soube quanto tempo vagou em seu torpor até que finalmente imergiu, tomando consciência da delegada reclinada sobre si, passando-lhe um cubo de gelo envolto em um lenço de seda, nos lábios e rosto.

____Está tudo bem agora! - afirmou com voz baixa e rouca. - Tome isso e vai se acalmar. - ofereceu um comprimido calmante.____ Depois mando levá-la ao seu apartamento.

____Não! Diga o que quer que eu faça. Estou precisando de ação!

____Preciso me certificar que não vai colocar sua vida em risco, além da de seu parceiro...

____Meu problema está aqui. - disse apontando para o peito - Não há nada errado com meu lado profissional. Todos temos problemas particulares, não é?

____Está bem!. Então preste atenção. Você e Ana Beatriz irão fazer visitas aos "homens de Marta". Acho muito difícil que algum deles seja o "Legado de Nix", mas acredito que podemos conseguir pistas.

____Mas porque com Ana Beatriz?

____Duas mulheres chamam pouca atenção e encorajam os homens, além de aparentarem não oferecer perigo.

____Por mim, está bem. Quando começo?


BUSCA AOS 4 ELEMENTOS

Reunidos em torno da ampla mesa da sala 44, os membros da equipe NEBLINA, escutava o relatório de missão de Ana Beatriz e Victória.

____ O vendedor de carro, achou que ela era uma garota de programa e pediu para que lhe fizesse um "boquete".

Ana Beatriz relatava e apontou para Vick que parecia fazer infindáveis anotações em seu bloco, com um ar de "não é comigo".

____E então? - quis saber o Edgar.

____Ela quase rompe a "bolsa escrotal" do homem com as mãos.

Silêncio sepulcral na mesa e Leandro solta uma espécie de grunhido abafado, o que irrompe um verdadeiro zum-zum-zum, generalizado.

____huuuuuuffff! Dói só de imaginar! - observou o jovem Bittencourt, com um meio sorriso no rosto. Agnaldo ocultou o rosto vermelho de vontade de rir, com sua prancheta, enquanto o mestre Takahishi, piscava perplexo, como se não entendesse bem o quase "rompimento da bolsa escrotal" do indivíduo que as agentes visitaram.
Lizandra mantinha o olhar fixo em algum lugar no centro da sala, aparentemente alheia a tudo e Edgar perguntou:

____Imagino que a agente Di Angelis estava usando algum disfarce.

____Uma peruca prateada, lentes de contato cinza, base dourada no rosto e uma colant prata grudada ao corpo com amplo decote, além de sandálias plataforma. - informou Beatriz, com um olhar de desprezo para Victória.

____E o que o "senhor Antunes" tinha a declarar? - inquiriu o chefe da equipe.

____Tirando os palavrões, ameaças e gemidos, posso resumir que o "senhor Antunes" visitava Marta nas quintas-feiras, tinha uma chave de acesso a casa pela copa e tem um álibi excelente para a noite em que a bibliotecária foi morta. Estava completamente nu, amarrado a uma cadeira, amordaçado por uma fita adesiva, pois pegara uma mulher em um "ponto" no meretrício, que o fez ingressar em uma sessão particular de sado-maso, sendo que depois de imobilizá-lo, " limpou" sua casa.
Levantei o Boletim de Ocorrência e ainda o testemunho da empregada que o encontrou no outro dia, ainda nu e amarrado. - informou Vick.

Ana Beatriz esperou impaciente, que o chefe repreendesse Di Angelis ao que Edgar apenas voltou seu rosto muito sério para a policial e pediu que continuasse o relatório.

Com um gesto de irritação, a parceira de Vick consultou suas anotações e voltou ao relatório.

____O militar da reserva é um senhor de cinqüenta e tantos anos. Mora em uma pequena chácara, protegida por cerca elétrica. Deve criar mais de 100 cães e gatos lá. Interfonei e me apresentei como policial. Ele perguntou o que eu queria e eu disse que fazer algumas perguntinhas. Ele simplesmente me ignorou.

____Você estava sozinha nesta visita?

____Não! Minha parceira estava circundando a chácara, dizendo que precisava conhecer o "campo" a ser explorado.

____E então?

____Então que ela reaparece pedindo alguns minutos e sai. Aí eu fiquei ali, diante do imenso portão, ouvindo os latidos dos cães, quando a porta se abre e aparece o tal militar, convidando-me para entrar.

____E você entrou sozinha? - perguntou Agnaldo.

____Claro! Não ia perder a chance e minha "parceira" estava demorando. A mais, eu me garanto!

____E então conseguiu interrogar o militar? - inquiriu Edgar.

____Primeiro ele me fez uma sessão de perguntas, me fez apresentar minha insígnia e tudo mais. Estava no seu direito. Aí viu meu nome e falou que conhecia meu pai e daí não consegui mais fazer qualquer pergunta pois o homem entabulou a me contar as proezas que fizera na caserna.

____Então ainda temos o militar para entrevistar?

____Não! O interfone tocou e a agente Di Angelis se apresentou como uma veterinária amiga de Marta. O tal militar correu atender. Nossa colega estava vestida de branco, com uma valise preta na mão e peruca loira. Só um tonto como o Alfredo (o militar) para não perceber que a sobrancelha negra não combina com cabelo loiro.

____Então "a bola" passou para nossa agente das "mil faces"? - riu, Edgar. - e aí? Ela também "bateu" no milico?

____Não foi preciso e ainda consegui obter um bom relato do senhor Alfredo! - anunciou Vick com um sorriso triunfante nos lábios.____ Percebi que um homem solitário e cheio de animais, sempre se valia de um veterinário. Aí pensei que talvez Marta já lhe indicara algum. Acertei. Me apresentei como médica veterinária da mesma clínica onde a bibliotecária levava seu gato. Ele disse que nunca havia me visto por lá e eu argumentei que era nova na equipe. Ajudou, o fato de que os gatos vieram me cheirar e alguns até se alojaram no meu colo. Ganhei o homem. Foi quando conduzi o assunto para a "lamentável" morte de Marta.

_____imaginem a cena? Um homem grande, gordo e forte, chorando como um bebê, com a cabeça no ombro dela? - atacou, Ana Beatriz.

_____Ao menos não estava chorando porque ela lhe deu uma coronhada! - riu, Leandro.

_____Victória é uma lady! Jamais bateria em um homem solitário e que cria gatos! - emendou, Agnaldo.

Doutora Lizandra, mudou seu ponto de foco para outro, mais próximo de Edgar, ainda aparentando estar alheia a tudo.

_____Resumo da visita: o Alfredo tinha um caso com Marta. Eram super apegados e ele a tinha como "quase filha"...

_____Filhos não se "relacionam sexualmente" com pais. É incesto" ! - irrompeu Lizandra entre dentes. Sua voz saíra carregada de emoção e raiva contida.

Victória pareceu perder o fio da meada e Edgar a incentivou a continuar.

_____O militar freqüentava a casa nas segundas feiras. Quando soube que Marta havia se enforcado, acabou dando entrada em uma clínica para hipertensos. Ainda não se conforma. Achava que Marta tinha um desejo enorme pela vida e que jamais se mataria. - encerrou Vick, com as mãos trêmulas virando as folhas de seu relatório. Evitava encontrar os olhos de Liz que agora se mantinham fixos em si.

_____Ele é o nosso homem! - afirmou Ana Beatriz. - enganou a colega direitinho. Ele poderia ter ido na quarta-feira, feito o serviço e saído fora. A mais, há indícios de que quem armou o nó e outros detalhes, tinha conhecimento militar. O tal Alfredo é um homem muito forte!

_____E quanto ao estudante de Direito? - cortou Edgar, percebendo que o assunto com a equipe estava se dispersando.

_____Tudo ia bem e o rapaz de 26 anos estava receptivo. Nos apresentamos como jornalistas desejosas de elaborar uma matéria sobre "jovens e promissores estudantes da carreira jurídica" . O apartamento do Ricardo Almeida é uma kitnet de luxo para estudantes com pais abonados. Enfim, como já disse, tudo ia bem e eu estava fazendo uma espécie de entrevista sutil, tentando entrar sutilmente no assunto "Marta", quando, a colega aí, levanta-se, vai até a estante de livros, abre um, folheia, vira para o Ricardo e o apanha pela gravata.

_____Como é? - perguntou o tranqüilo e fleumático Luiz Takahishi.


Ana Beatriz continuou seu relato, com um sorriso de vitória nos lábios.

_____Ela perguntou onde o Ricardo Almeida estava na data da morte de Marta e o estudante ameaçou colocar-nos porta afora. Aí ela se apresentou como policial e lhe deu uma "remada" na base da nuca. O moço cambaleou e caiu sentado no sofá, choramingando.

Edgar cravou os minúsculos olhos em Vick, como se a inquirir se aquilo era mesmo verdade. O silêncio da policial confirmou a versão de Beatriz.

_____Aí o Ricardo disse que "ia representar" contra nós, que ia apresentar queixa-crime, que ia nos retirar dos quadros da polícia a botinadas. Falou ainda que tinha tio Juiz, pai Promotor de Justiça e avô desembargador!

_____Virge! Que sinuca! - exclamou Leandro.

_____Já estava falando em Corregedor, quando a minha parceira ali, o agarra pela gravata e o chacoalha várias vezes, dando-lhe voz de prisão, com direito a algemas.

_____E então? - perguntou Leandro, preocupado.

_____O estudante gritou: sob quê argumento está me prendendo? Aí ela mostrou um livro e disse que Ricardo o "subtraíra" de Marta em circunstâncias obscuras que precisava ser averiguada.

_____E o que disse o tal Ricardo? - perguntou Agnaldo, já todo reclinado sobre a mesa, torcendo as grandes mãos, ansioso, enquanto Mestre Takahishi, imitia discretas risadinhas nervosas.

_____O sujeito se urinou todo! - emendou Beatriz, com cara aborrecida ao perceber o efeito contrário que seu relato estava fazendo entre os ouvintes.


Edgar, naquele momento, parecia estar entrando em hibernação, com os olhos fechados e corpo inerte na cadeira.

Vick assumiu o relato.

_____E daí que a colega Ana Beatriz, a partir deste ponto não sabe mais nada, pois foi em busca do tal " esportista radical" e eu continuei "trabalhando" o Ricardo.

_____Continuou batendo nele? - perguntou Mestre Takahishi, excitado.

_____Não. Levei-o até a casa de Marta e consegui, entre choros, vômitos e calças borradas, que o tal sujeito me desse um relato completo de como entrou na casa da bibliotecária na noite de quarta-feira e retirou o precioso e raro livro da coleção de 6 volumes dos "Ensaios para o Código Civil de Clóvis Bevilácqua" .

_____Fiuuuuuu! - assoviou Leandro._____Que loucura! Esta coleção é raríssima! Não sei de nenhum particular que a tenha, além dos volumes da biblioteca da faculdade de Direito de São Paulo, trancados a dezessete chaves!

_____E então? - estimulou Edgar Meirelles, ainda de olhos fechados, parecendo imergir suavemente de sua hibernação.

_____Então que diante da acusação de "furto" e suspeita de que teria causado a morte de Marta, ele contou tudo que fez, deixando claro que só visitara a bibliotecária fora dos dias costumeiros, porque precisava de uma consulta no tal livro raro. Como tinha a chave foi ao local mas encontrou a porta do fundo aberta. Entrou a tempo de ouvir passos de um homem que descia as escadarias na escuridão. Ocultou-se atrás de um móvel e viu parte do rosto do visitante quando este saia pela porta e passou por uma faixa de luz, vinda da varanda. Disse também que sentiu por breves instantes a fragrância do delicioso perfume "Água dos Vales", francês. Depois, esperou alguns instantes e subiu as escadas direto à estante onde sabia que os livros estavam guardados. Fez tudo com a luz apagada e quando se deparou com um vulto balançando no meio da sala, saiu correndo assustado.

_____Assustado, mas levando o livro, consigo, claro! - ironizou, Leandro.

_____Tem a descrição do tal visitante perfumado? - quis saber Edgar, agora totalmente desperto.

_____Sim. Consegui tudo que podia. O Ricardo se diz disposto a colaborar com a polícia, principalmente para se livrar da suspeita da morte de Marta. Ele soube depois que a bibliotecária fora encontrada enforcada, mas alega que não sabia que ela podia ter sido assassinada.(este item, nem a polícia sabia até a pouco). Disse que não furtara o livro, pois apenas o apanhara emprestado e que pensara em devolver, até que leu nos jornais do dia seguinte que a dona do volume estava morta e achou que seria justo ficar com o livro, diante dos bons serviços "prestados" na cama para a solteirona solitária. Confessou que havia se aproximado de Marta, justamente porque ela lhe contou na faculdade que tinha tal coleção, mas por fim, como homem sentimental e generoso, acabou se afeiçoando pela "criatura".

Ana Beatriz abriu muito os olhos, visivelmente pega de surpresa com todo o relato da colega e quebrou o lápis entre os dedos furiosa.

____Que cara nojento, abominável. Mas você ainda deu-lhe uns petelecos? - perguntou Beatriz, esperançosa.

____Não! Ele passou a "colaborar gentilmente com a polícia". - explicou Vick, para a colega. Aí tive que ser gentil com ele. Reciprocidade, sabe como é?

_____Onde está este tal Ricardo Almeida agora? - rugiu o Edgar, com expressão amuada.

_____Está em sua rotina habitual. O livro, eu o tenho comigo para perícia. Tenho no disquete um relato detalhado e a descrição do tal visitante perfumado. Já avisei o Ricardo Almeida que não deve viajar ou sair da cidade sem antes informar a polícia.
_____E onde estava sua parceira de trabalho mesmo?

Ana Beatriz engasgou-se e tentou defender-se.

_____Fui atrás do "esportista radical". Era o que faltava na lista. Não botei fé na encrenca que a colega armou, com o furto do tal livro. Não sabia que o tal Ricardo tinha ido até a casa de Marta na noite do crime, nem que tinha visto alguém.
_____E encontrou o tal esportista?

_____sim! No topo da "Pedra do Baú", com as calças arriadas, a bunda branca de fora e transando enlouquecido com a namorada. Tinham fumado alguma coisa e riam como duas hienas. - informou Ana Beatriz com expressão aborrecida.

Agnaldo e Leandro irromperam em risadas até às lágrimas. O Mestre Takahishi tentava ocultar um risinho maroto. Lizandra ainda não tirara os olhos verdes do rosto de Victória que já estava se sentindo incomodada com aquele olhar fixo, mas ao mesmo tempo não pode deixar de escapar quanto ao assunto em pauta, uma observação mordaz.
_____Bunda branca? Mas o tal cara não é um esportista viciado?

_____é, mas a especialidade dele é patins. Vive com aquelas roupas enormes e estranhas. Não toma sol. Compete mais na habilidade do que na força. E ele tinha um álibi que verifiquei depois. Estava participando de um campeonato em Chicago - EUA, por duas semanas, contando a da morte de Marta.

Edgar fez um ruído ritmado, enquanto riscava o nome do esportista de seu bloco e encarava Victória.

_____Então, vamos a um intervalo para lanche e outras atividades. Sessão encerrada.
Todos se levantavam, quando Edgar manda.

_____Agentes Di Angelis e Bittencourt, permaneçam à mesa. Os outros estão dispensados.

Agnaldo, Ana Beatriz, Doutora Lizandra e Mestre Takahishi saíram da sala de reunião da 44. Victória levantou-se bruscamente e também saiu, correndo apressada porta afora. Encontrou o toalete feminino e se trancou em um reservado. Agnaldo foi atrás da colega, preocupado e bateu na porta.

_____Di, o que está acontecendo?

_____Nada! Acho que alguma coisa que comi, me fez mal! Só isso!

E ouviu-se o barulho claro de vômitos.

_____Di! Abra essa porta! - vociferou Agnaldo, batendo com a mão espalmada contra a madeira do reservado.

Ana Beatriz entrou no toalete, acompanhada pelo Takahishi.

_____Deixa que eu arrombe a porta! - ofereceu-se o mestre em artes marciais.

_____Acho melhor pular por cima e entrar no reservado. Aí abro por dentro! - sugeriu Ana Beatriz para seus colegas.

Victória abriu a porta de supetão. Estava com o rosto muito pálido e dirigiu-se em silêncio até as pias, lavando o rosto e as mãos.

_____Eu já estou bem! Só um sanduba com prazo vencido. Acho. De qualquer forma, me livrei dele.

Saiu do meio do grupo preocupado.

_____Isso me parece bulimia! - atacou Ana Beatriz.

_____Nada disso! Di não tem bulimia ou qualquer "grilo" fresco. Eu a conheço. Amanhã vai estar de cara nova e aprontando das suas. Só precisa de uma boa noite de repouso. - defendeu Agnaldo.

_____Vamos lanchar então! - sugeriu Takahishi.

_____Será que a Doutora Lizandra aceita lanchar com a gente? - perguntou Takahishi.

_____Imagine! A tal médica é uma esnobe! Já saiu da sala faz tempo. Ela não se mistura com "tiras". - Avaliou Beatriz.

Na sala de reunião, Victória apresentou-se:

_____Estou aqui, chefe! Só tive que fazer uma visita de emergência aos sanitários mas agora está tudo bem.

_____Tudo bem, filha! Sente-se aí.

 

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