Capítulo 8: O ATAQUE À CABEÇA DA MEDUSA


No intervalo para o almoço, Agnaldo levou a colega para um delicioso e calmo restaurante da região. Soube que o Chefe Edgar "good-zilla", dera a Vick e Leandro a tarefa de montarem um retrato falado digital do visitante noturno que Ricardo descrevera. Edgar e outros, iriam fazer outra visita ao estudante de Direito.

Doutora Lizandra ficara encarregada de orientar a perícia do livro do Bevilácqua e Agnaldo e Mestre Takahishi se encarregariam
de descobrir quantas lojas e revendas do tal perfume francês "Água dos Vales" haviam na cidade, clientes fixos e outros detalhes que conseguissem.

____Di! Eu sei que está sofrendo! Abra seu coração. Se continuar se fechando, vai ser pior.

____Nada que uma boa carga de trabalho e ação, não solucione!

____Sei que Liz também está sofrendo!

____Está desatualizado! Ela está saindo com um dos médicos assistentes.

____Como assim?

____Eu o vi entrando no carro dela, ontem no fim da tarde e de manhã, chegaram juntos no Instituto Médico. Acho que é o tal "Ângelo".

____Está seguindo Liz?

____Não! Apenas estava passando de moto na frente do instituto.

____Pode ser apenas uma carona. Colegas fazem isso toda hora.

____Bem! Não é da minha conta, mas o tal "colega" de Liz, vive apregoando para quem quiser ouvir que tem adoração pela chefe.
Ficaram em silêncio novamente.

____Está fazendo terapia?

____Sim! Voltei a fazer com a Adriana. Vou hoje no fim do expediente.

____Mas ela ainda está atendendo? Está perto de ganhar bebê!

____Para mim, ela abre uma exceção. São só 40 minutos e está sendo em um gabinete na casa dela.

____E o Noivo?

____O Tiago só chega do trabalho depois das 20 horas e até lá, minha sessão já se encerrou.

____Tudo bem! Então, vá para sua sessão de hoje e tente se abrir com Adriana sobre tudo que está te magoando e machucando. Eu te conheço. Dá pra ver claramente que está se alimentando mal, dormindo mal e perdendo peso.

____Só falta dizer que estou horrível!

____Diria horrorosa, mas ainda falta muito. Sua sorte é que mulheres de beleza exuberante como você demoram muito para ficarem "caidassas". Este seu ar de Madona Anoréxico-melancólica, é um charme.

Riram. O almoço foi posto e Agnaldo ficou contente ao presenciar a colega atacando a refeição. Depois, ao ver que ela se levantara e correra para o toalete, acabrunhou-se. Sabia que o alimento estavadescendo cano abaixo e ajudou Victória a caminhar enfraquecida para fora do estabelecimento.

____Precisa tentar reter algum alimento no estômago, senão vai ter que entrar no soro!

____Estou tentando, Gui!

____Faz assim! Leva o carro e eu vou com sua moto. Do jeito que está fraca, é capaz de se esborrachar.

----ASTROLÁBIO (instrumento utilizado para medir a distância entre as estrelas)

Victória estava deitada no divã, diante da terapeuta. Só havia a tênue luz de um abajur na sala e uma música erudita suave ao fundo.

Adriana, sentada em sua confortável Berger, passou a incentivar, com fala mansa e compassada, sua paciente.

_____Abra seu coração! Di.

_____Não sei por onde começar!

_____Pode começar contando-me como se sente em relação ao rompimento de sua relação com a doutora Lizandra!

_____Sinto mágoa, revolta, frustração e muita dor...

_____Fale-me sobre a mágoa!

_____Ela me acusou de estar traindo-a, injustamente e insinuou que tenho "complexo de Electra". Acredita que não tenho uma boa relação com Antonio Di Angelis, pois no fundo sou uma garota apaixonada pelo pai. Insinuou que é isso que me bloqueia quanto a me relacionar com homens. É horrível você conviver com uma pessoa, deixando-a entrar em sua intimidade e depois ela lhe aparecer com certas teorias absurdas, por conta de pensar que já está te conhecendo o suficiente.

____Ela pode estar agindo movida pelo ciúme e mágoa. Está magoada porque pensa que você não quer ter uma relação espelhada em uma família comum, com direito a criança pela casa e juras de amor e fidelidade, na "alegria e na tristeza, na riqueza ou na pobreza" - emendou Adriana, parafraseando o famoso voto matrimonial.

Após alguns minutos de silêncio e lágrimas mornas, Vick balbuciou.

____O que ela não entende é que depois que aquilo tudo que passamos, com o Duarte e o a revelação do desejo de ter um filho, depois que voltamos a fazer amor, algo diferente começou a aflorar em mim. Eu passei, perante ela, em certos momentos, a me sentir mesmo como um rapaz castrado. Nunca havia experimentado algo parecido antes. É como se não pudesse possuí-la mais do
que um certo limite. Queria tê-la inteiramente e cada vez mais fico insegura se quando fazemos amor, ela estaria, involuntariamente me comparando com seus antigos namorados, amantes ou o marido.
Na última vez que estivemos juntas, ela me demonstrou que conhece truques no sexo que talvez nem o Casanova poderia imaginar ou conceber. É muito experiente, segura e uma amante versátil e maravilhosa. Isso está me assustando.

Adriana conduziu o foco para um ponto específico.

____Me explique porque se sente castrada?

____ Vou tentar explicar. Antes de Liz e o assunto bebê, nunca tive tal sensação. Conhece a estória de Abelardo e Heloísa?

____Sim. Uma linda e triste estória de amor em plena idade média!

____Eles foram contra todos os dogmas e hipocrisia da época em nome do amor. Enfim, como sabe, os "emissários da moral" o emascularam (castraram), enviando Heloísa para um convento. Ele escapou da morte causada pela forte hemorragia e acabou também se consagrando monge. Mas... ao menos ele teve uma única e
derradeira noite de amor com Heloísa e lhe deixou sua semente.
É isso que me tortura. Nem isso posso dar a Liz. Nem um filho a quem chamar... Astrolábio. Sou menos do que um homem castrado e ela já me jogou isso no
rosto.
(* Abelardo e Heloísa, impedidos de estarem juntos e se amarem, deram o nome de Astrolábio ao filho, para significar que mesmo distantes um do outro, como duas estrelas, o instrumento astrolábio mediria a distancia entre eles, ou seja, seria como uma ponte que continuaria unindo-os).

Vick soluçou, invadida pela sua dor e continuou.

____Eu sei que nada posso fazer diante do rumo que tomou meu relacionamento com Lizandra, mas não consigo parar de pensar que existem tantos homens em volta dela, todos com potencial para suprir seu sonho de maternidade.

____Então este é o ponto que te fez cair nesta insegurança. O sonho de maternidade da namorada e seu ciúme dela. Isso está te abalando a estrutura emocional. Porém, há uma saída: podem adotar uma criança ou inseminar!

____Sim... naquele dia, Liz me falou sobre isso e eu tentaria ir me
acostumando com a nova situação, mas ela se descontrolou, com ciúmes de você e de Nicole e me falou tantas coisas que até hoje ecoam em meus ouvidos e que causaram uma mágoa que não consigo aplacar ou assimilar.
Adriana aproximou-se, abraçando Victória.

____Fale com ela! Diga tudo isso que me contou agora. Ela vai entender.

____Não consigo!

____Então escreva!

____Posso tentar, mas ainda assim, toda vez que penso em me aproximar a sós de Liz, a encontro acompanhada por certos rapazes.

____Tem seguido-a?

____Todos os dias. É algo compulsivo. Não consigo evitar.

A terapeuta pareceu ficar preocupada. Conhecia bem o temperamento impulsivo e ardente de Vick e sabia bem que ela era capaz de perder a cabeça se visse algum sujeito beijando a ex-namorada ou assediando-a.

____Vamos fazer um acordo. Você tenta trabalhar e tocar sua vida normalmente e eu vou conversar com Lizandra. Sei que de certo modo fui um dos vetores dessa crise e penso que uma conversa às claras, sem rodeios poderá dar algum resultado ou no máximo não tem como piorar a situação.

____Ela não vai aceitar conversar com você!

____Está enganada. Desde que vocês romperam, ela tem ligado no consultório ou mesmo aqui em casa, pedindo para termos uma entrevista. Eu ainda não aceitei.

____E porque?

____Motivos particulares. Sabe que não temos qualquer afinidade ou amizade. Mas agora, mudei de idéia e estou resolvida a aceitar.

Victória lembrou-se que de alguma forma, a causa do rompimento de seu namoro com Adriana, teve como pivô uma certa calcinha de Lizandra que a policial tomara e esquecera na bolsa.

____e porque conversaria com Liz? Porque faria isso por mim?

____Porque sou sua terapeuta e quero te ver bem!


Voltando para seu apartamento, Victória filosofava sobre sua vida.

____Antes eu tivesse nascido uma gata rajada, vira-lata e sem dono. Teria mais liberdade e nenhuma preocupação, além do bife que deveria "desviar" de alguma grelha desavisada. Pessoas são complexas. Pessoas são difíceis de tratar. Mulheres então...navegam na maré de seus hormônios. Aiiiii... acho que estou com cólicas. Este raio de ciclo menstrual tinha que chegar agora?

Entrou correndo pelas escadarias do seu bloco de apartamento. Quatro andares e muitos degraus, no ultimo lance, encontrou seu gato, miando e esfregando-lhe pelas pernas.

Entraram no apartamento, ambos correndo e Vick continuou apressada, saltitando para não pisar no rabo de Sir Lancelot, o "louco". Com dificuldade, conseguiu alcançar sua pequena suíte e iniciar o preparo do seu banho, com a calça saint-tropêz já desabotoada, escorregando-lhe pelo meio das coxas, os
sapatos esparramados pela sala e a camisa jogada no sofá.

Enfim, acomodada na banheira fumegante, imersa em seu demorado e sagrado ritual, não conseguia pensar em nada que não fosse Lizandra rindo, Lizandra nua, Lizandra gemendo e "quase lá" e as lágrimas escorrendo pela seu rosto quando finalmente atingia o clímax. Tentou se concentrar no que ela lhe dissera na noite do "Valhalla". Dissera que a amava!


Fechou os olhos e passou a sonhar.


Saiu da banheira enrugada e pensando que deveria haver um método para poder dormir ali dentro, rememorando os bons tempos do útero materno.

____Aí eu adormeço e glug-glug! Afogo-me. Devíamos ter uma espécie de sensor, como o dos golfinhos que dormem, boiando ou dos passarinhos que conseguem tirar altos cochilos empoleirados. E por falar em passarinho, o tal Ângelo parece uma coruja com aquela cabeça e olhos redondos. Ah! E a íris do moço? Estranhas. Íris amarelas para mim quem tem são certos bípides emplumados ciscantes!

Foi até a janela apreciar o cair da tarde, que para ela era um espetáculo lindo e melancólico. A luz se modificava.

Segundo a Mitologia era no exato momento da passagem do dia para a noite que as Hespérides cruzavam o céu. A Sagrada Nix logo chegaria em sua carruagem voadora e tomaria o seu trono no firmamento. Então seus filhos, viriam para reinar ao seu lado. A leitura de mitologia grega sobre a Deusa da Noite desfilava parte a parte em sua memória. Gostava de mitologia, porém aquela em particular estava lhe afetando os nervos.

Saiu da janela e sentou-se diante do computador a um canto da saleta, acionando a Internet. Precisava fazer o "dever de casa" para ver se conseguia parar de pensar por alguns minutos em Lizandra e o tal Ângelo-bocó-asa-caída.

Abriu o e-mail e ali estava um apanhado completo sobre o tal médico legista, assistente de Liz: Aluno brilhante, vida linear, sem problemas na infância ou adolescência. O curriculum do homem de 27 anos era invejável.

____O cara não cospe na rua nem coça o saco em público! Não é possível! Ele TEM QUE TER algo muito feio oculto no armário. Quem sabe, chulé, sudorese, mal-hálito, espinha no traseiro, frieira, ronco, pêlo encravado no esfíncter... Não é possível, "madona mia" , o cara é certinho demais.

Levantou-se frustrada, procurando onde deixara o pacote contendo os retratos falados que produzira com Leandro. Aliás, o tal dossiê "Ângelo Miranda", fora gentileza do jovem Bittencourt a seu pedido. Entraram "sem querer" no cadastro de profissionais que atuavam junto à Segurança Pública.

____Minha irmã me exonera se descobre! - avisou Leandro naquela tarde.

____Sua irmã não precisa nem "sonhar" com isso! Faça a coisa de modo a não deixar rastro de nossa passagem.

O rapaz sorriu suavemente e piscou para ela. Parecia um menino travesso, na expectativa de aprontar mais uma das suas artes.

____Será nosso segredo. Sim?

____Claro! - concordou Victória, embaraçada pela forma como o rapaz a olhava firmemente dentro dos olhos.

A verdade era que apreciara fazer parceria com o Leandro na sala 44. Deram-se bem logo de início e o garoto em nada lembrava a "Guilhotina". Era risonho, bem humorado, otimista e parecia confiável. Um bom companheiro de trabalho.

Levantou-se do computador e foi na geladeira apanhar uma cartela cheia de uvas passas e um copo de leite achocolatado. Antes abriu a sardinha do Lancelot e voltando para a mesa do computador, abriu os outros e-mails.
Estes traziam o trabalho em si. Dados que Leandro estava rastreando na tarde. Mandou imprimir, enquanto refletia sobre o que Liz deveria ter pensado de tantas ligações feitas em seu celular de orelhão por alguém que não dizia uma palavra sequer. Só naquela tarde, Victória fizera quatro.
Parara em um orelhão a cada duas quadras a caminho do serviço.

O retrato falado elaborado junto ao Ricardo Almeida, não ajudava muito, afinal o que ele sabia a respeito do sujeito era que este tinha a pele clara, estrutura forte, um bigode (que podia ser postiço) e um rosto comum.
Nada diferente. Nenhuma cicatriz visível, tatuagem, calvície. A testemunha insistia no tal perfume e disse que conhecia bem a fragrância pois era a que seu irmão adorava e denotava personalidade exigente e complexa de quem o utilizava.

____Bem, amanhã vou continuar o trabalho e espero sinceramente que o Gui e Mestre Takahishi, tenham levantado algo novo.

Vestiu seu roupão de seda e programou o som para tocar e desligar
automaticamente ao fim da música "Vulnerable" da Roxette. Deitou-se e adormeceu lentamente embalada pela música, exatamente no ponto do refrão que afirmava:____She's so vulnerable...

Acordou sobressaltada com a campainha do telefone tocando insistente. Pensou em desconectar o console da parede, mas refletiu que podia ser algo importante. Talvez Agnaldo com alguma novidade bombástica das investigações.

_____Alô! Quem fala?

No display luminoso do relógio eletrônico, 2:03 da madrugada. Preocupou-se ao reconhecer a voz do outro lado da linha.

_____Di Angelis! Onde está seu gato?

_____Meu gato? Sir Lancelot?

_____Onde está seu gato!


Victória sentiu vontade de rir, porém pensando melhor e já mais desperta, pulou da cama apressada, com o telefone sem fio, encaixado entre o queixo e ombro.

_____Como meu gato? - perguntou, gesticulando muito e chamando Sir Lancelot pelo apartamento. Sem resposta, correu e abriu a porta da sala, desembocando no hall, onde se deparou com a Delegada com o bichano no colo.

A chefe não disse nada para a policial surpresa e entrou no apartamento, sentando-se muito séria no sofá.

Vick fechou a porta e voltou-se rindo embaraçada.

_____Este é o jeito mais original de invadir a casa das pessoas!

_____Ora! Sente-se!


A policial não gostou de receber ordens dentro de sua casa, fora de seu expediente, mas a expressão dura e concentrada de Louise a fez obedecer rapidamente, esperando que sua chefe contasse sem delongas, sobre o motivo de aparecer repentinamente naquele horário e pessoalmente.

_____"O Legado de Nix" atacou esta noite!

_____Quê?

_____E a Doutora Lizandra...

_____Liz, Liz? O que aconteceu com Liz?

_____Tenha calma! Vamos ao hospital e...

Victória já se encontrava exaltada, gritando para Louise lhe "contar logo o que acontecera com Liz".

A delegada lhe apertou o queixo na mão com força, até que a dor lhe catalisasse momentaneamente o estado de ânimo alterado.

_____Fique quieta e escute! Vá ao quarto e se vista. Conversaremos no caminho do hospital.

O que quer que a Delegada houvesse lhe relatado no percurso, Vick não tomou conhecimento até entrarem no hospital. Os corredores brancos e silenciosos pareceram canyons intermináveis. O quarto estava suavemente iluminado e alguém preso aos aparelhos. Aproximou-se e reconheceu o corpo esguio e os cabelos negros lisos de Adriana contrastando com a brancura dos lençóis.
Estava ligada a vários monitores e aparelhos e de suas narinas, saiam pequenas sondas e tubos para oxigenação.

____O que aconteceu? O que aconteceu? Outra ameaça de aborto? - perguntou, Vick, baixo para Louise, mesmo sabendo que todo aquele aparato servia para evitar algo muito pior. Adriana respirava com auxílio de aparelhos.

_____"Ele" a torturou e chutou-lhe o ventre até que abortasse. Depois tentou estrangulá-la e só não terminou seu crime pois a Doutora Lizandra chegou a tempo.

_____Liz viu o assassino?

_____Não! Ele fugiu enquanto ela aplicava os primeiros socorros em Adriana que havia tido uma parada respiratória e cardíaca.

_____E o bebê?

_____O bebê passa bem. A doutora salvou as duas. Um feito de coragem e que merece reconhecimento.

Vick tentava atinar porque Liz teria ido até a casa de Adriana, até que lembrou que a terapeuta lhe prometera que aceitaria conversar com a médica.

O médico que estava no quarto informou que Adriana estava em um quadro clínico estável mas que era preciso esperar que saísse do coma induzido para avaliar se a asfixia que sofrera teria lhe acarretado lesão cerebral. Por fim, fez sinal para que elas saíssem do quarto e que aguardassem mais notícias na ampla sala de espera.

No local, Victória procurava com os olhos por Lizandra, porém sentia que ali no ambiente estava faltando "alguém" que tinha motivos infinitamente maiores para não estar ausente naquele momento. O noivo.

_____Onde está o Tiago?

_____O corpo dele foi encontrado pendendo de um lustre na sala de leitura.
Victória que já estava se sentindo horrível, agora lutava para conseguir respirar pois sua revolta e angústia, cambiava para um ódio e gana por vingança indescritível.

_____Porque Adriana? Porquê Tiago?

____as serpentes, lembra? A vingança. Algo publicado no jornal voltou a ira do assassino contra você e atingindo as pessoas próximas, ele pretende inicialmente incutir terror e medo para depois dar o golpe de misericórdia, decapitando a Medusa - esclareceu Louise.

____Mas como ele soube de Adriana?

____Talvez tenha te seguido! Talvez te conheça mais do que pensas. Lembra que ele te chamou de lésbica?

____Estava na boate, no sabbah de Ostara!

____Então, se o assassino a viu, pode ser que você também o tenha visto. Procure pensar nisto.

Victória sabia bem que Louise estava se referindo à sua memória fotográfica.

____Mas algo me intriga! Com essa vingança paralela, ele está se expondo demais! Não faz sentido!

____Nada que o "Legado de Nix" faça, faz o menor sentido. Isso só é coerente em sua mente doente! Já alertei a doutora Lizandra e Agnaldo. Quero que não retornem para suas casas. Irão para um hotel ou pousada até que decidamos o que fazer. Isso vale para você.

____Eu sou a medusa, lembra? Ele ainda não vai me decapitar se existem ainda serpentes vivas. Até lá vou encontrá-lo e matá-lo lentamente. Quero que sofra!

O desejo de vingança e o ódio estavam se alastrando por cada célula de seu corpo.

____Se o matar estará se equiparando a ele e serei obrigada a te prender! - ameaçou Louise.

Vick sentia-se tão mal que procurou pela saída do hospital. Precisava respirar. Foi neste instante que ela a viu.

Lizandra entrou por uma das grandes portas, acompanhada por vários médicos e formaram uma roda a um canto, como se discutissem o estado clínico de Adriana. Entre eles, estava o tal Ângelo. Ver Liz, naquele momento, para Vick foi como se a noite parasse seu ritmo onírico. O som desapareceu e as
pessoas passaram a se mover em slow-motion. Seu coração batia no compasso do olodum.

Liz voltou a cabeça e os olhos das duas se encontraram por uma fração de segundos, quando a médica esboçou um sorriso tímido, porém Victória viu, irada, Ângelo erguendo a mão, pousando-a na cintura da médica no típico gesto de posse. A policial voltou-lhe as costas e ganhando a rua, correu ladeira abaixo. Depois, cansada caminhou a esmo pela noite. Não sabia de quê ou de quem fugia, mas aquele gesto de Ângelo lhe trouxera todo trauma
sofrido com Henrique Duarte e isso lhe estava implodindo o peito. Virou quadras e quadras, solitária.

____Dian! Onde vai?
Sem se voltar ela já sabia quem era. O jovem Bittencourt a chamava daquele jeito.

____Venha Dian! Eu te dou uma carona! São quase 3 horas da madrugada e temos reunião 'as 9 horas na sala 44 hoje, lembra?

____Sim! Eu me lembro! mas, diz aí...está com seu computador no carro?

____sim!

____com os arquivos do trabalho da equipe?

____Sim! Estou compilando para o Edgar e a chefe.

____Então está convidado para ir ao meu apê. Quer?

____cla-claro! - gaguejou Leandro.

____É, mas não se anime! É puro interesse - emendou a policial com um meio sorriso.

Já na mesa do apê, debruçados sobre o lap-top, analisavam a centena de informação gerada pelo grupo de investigadores. Vick lia linha a linha com velocidade que deixou Leandro impressionado.

____Então é verdade que você além de memória fotográfica, assimila dados e informação com rapidez impressionante?

____é o que dizem! - riu-se Vick.____porém tenho defeitos terríveis!

____Por exemplo?

____Bebo o sangue quente e borbulhante de um rapaz jovem e viril todas as manhãs.

Leandro riu e depois se aproximou mais da colega, continuando sua
especulação.

____E o que vai fazer depois de absorver tanta informação?

____Vou dormir, sair para tomar um sorvete, fazer compras no shopping. Andar a cavalo.

____E depois?

____Depois meu cérebro terá feito um "zilhão" de conexões e "plim",
aparecerá uma informação coerente e nova!

____E esta tal informação é "quente"?


Victória alfinetou Leandro com um olhar penetrante.

____Quentíssima! porém...

____porém?

____Quando sai uma furada... pode acreditar que vais entrar pelo cano!

____hummm! Sinto-me muito seguro ao seu lado!


Riram juntos até que o rapaz lhe tocou a face, voltando a ficar sério.

____Não é a toa que minha irmã te admira!

____Louise me admira? Ela te disse alguma coisa sobre isso?

____Não! Louise nunca se abre com ninguém, acredite! Só diz o que precisa para conseguir o que quer. Porém eu a conheço um pouco. É por isso que a Ana Beatriz quer ver o caramunhão a ver você. Antes ela era a pérola da chefe. Além do Edgar, claro.

Tornaram a rir juntos e Victória convidou:

____Vamos dormir? Já são quase 5 da manhã.

____Isso é um convite?

A policial levantou-se e buscou no seu quarto lençol, travesseiro e
cobertor, atirando-os no colo de Leandro.

____O sofá é novo. Dá pra dormir tranqüilamente, encolhendo as pernas, claro. Só não estranhe se algo peludo lhe desfilar pelo corpo. Sir Lancelot é muito ativo nas madrugadas.

A policial dirigiu-se para seu quarto e finalmente em sua cama, mergulhou no sono profundo e atribulado. Teve pesadelos dos quais não se lembraria quando despertasse. A verdade é que acordou com o suave ruído da porta da sala batendo. Abriu os olhos e deparou-se com Liz estática, em pé no meio do quarto. Seus olhos estavam muito abertos e seus lábios tremiam. Foi quando Vick se deu conta que estava deitada, somente com roupas íntimas nos braços
de Leandro. O rapaz ressonava em sono profundo.

____Bem que eu desconfiava! - balbuciou Lizandra. Depois voltou-se e saiu apressadamente, jogando as chaves do apartamento de Vick, ruidosamente sobre um móvel.

A vontade da policial foi de fazer um "colegacídio" contra Leandro, mas pensou que melhor era ouvir primeiro o que o rapaz tinha a dizer.

Foi a custo que o acordou e este lhe sorriu. Um sorriso lindo que deu um aperto no coração e amainou um pouco sua ira.

____O que faz aqui? Não estava no sofá?

____Não se lembra?

____Lembrar do quê? - perguntou Victória, preocupada.

____Bem, Acordei com você chorando e se debatendo na cama. Estava tendo um pesadelo e corri te acudir. Aí você me abraçou e pediu que ficasse e não a deixasse sozinha. Deitei ao seu lado e você se enroscou em mim voltando a adormecer profunda e serenamente.

Os olhos azuis de Leandro, agora estavam profundamente escurecidos de preocupação e ansiedade.

____tudo bem! Desculpe-me. - balbuciou Victória, percebendo a sinceridade do colega. ____Agora me dá licença que eu preciso tomar um banho e me vestir.


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MORTE NA NEBLINA


Os dois policiais chegaram atrasados para a reunião matutina na sala 44 com os cabelos negros molhados pelo banho. Leandro entrou primeiro e depois Victória, em uma tentativa clara de não dar o que falar, mas o olhar de todos à mesa, demonstrou, sem exceção que dera mesmo o "que pensar". Desta vez, Louise estava postada em uma das pontas da grande mesa.

____Agentes Di Angelis e Bittencourt! Espero que possuam uma boa
justificativa para um atraso de hora e meia na reunião. - repreendeu.

____Sim! Temos! - justificou o rapaz - Depois do hospital, estudamos as
informações em meu lap-top a madrugada inteira e por fim nos deitamos ao nascer do dia!- justificou Leandro, com um sorriso entusiasmado no rosto.

Vick o encarou aborrecida com tamanha ingenuidade do rapaz.

____"nos deitamos?" - repetiu Louise. Estreitando os enormes olhos para o irmão, como uma gata preste a dar o bote. Agnaldo, pasmo, movia o olhar de Victória para Leandro e de Leandro para Victória, com a testa enrugada.

Lizandra estava rígida em sua cadeira, mordendo o lábio inferior e apertando com força seu bloco até seus dedos perderem a cor. Em certo momento ela fechou os olhos, para depois abri-los e fixá-lo no rosto de Victória.

____Deitamos! Eu em minha cama e ele no sofá. Não que eu deva qualquer justificativa do que faça em minha casa! - atalhou Vick com o rosto fechado.

Edgar rompeu o clima e o silêncio constrangedor.

_____Continuando nossa reunião, devo parabenizar a Doutora Lizandra que salvou duas vidas na noite anterior. Portanto, gostaria também de tomar algumas precauções para que o assassino não tente se vingar dela por ter-lhe frustrado os planos ou de qualquer membro da equipe. Trabalharemos na cidade, de dia e em grupo de dois, sempre. De noite, iremos para um hotel .

A cada três dias, trocamos do lugar de pernoite. A terapeuta Adriana e sua filha já foram removidas para um hospital em outra cidade e estão tendo proteção das pessoas agregadas ao mestre Takahishi.

Edgar fez seu discurso e tornou a distribuir tarefas. Victória só conseguia
pensar em Liz e encontrar um meio de desfazer aquele mal entendido com
Leandro.

Fora da sala de reuniões e já em suas mesas de trabalho na ala do trabalho da 44, Agnaldo não cessava de ingerir o café.

____Para Gui! Vai fazer uma cratera no estômago! - avisou Vick, sorridente.

____Estômago? Quê estômago? - respondeu o colega, amuado. Depois do ataque de ontem, sinto-me como se fosse um alce com a cabeça a prêmio.

Vick lembrou-se da fama de que coragem não constava no rol de virtudes do Agnaldo, apesar de que não o culpava. Medo é instinto de preservação natural. - sempre lhe acentuava o ex-colega Araújo.

Lizandra estava sentada a um canto séria, anotando alguma coisa rapidamente em seu bloco, aparentemente compenetrada. Victória foi se aproximando disfarçadamente pensando em como arranjaria um pretexto para chamá-la em particular.

A sala de trabalho fora arranjada em espécies de baias, onde cada um tinha sua mesa e computador em rede. A policial sentou-se diante do aparelho, ocultando-se da vista dos outros, acionando o emissor de mensagens.
Escreveu: ____Precisamos conversar sobre o caso "Leandro no quarto"!
Aplicou SEND, remetendo-o para o computador de Liz. Chegou até a ouvir o "plimmm" característico da mensagem se oferecendo na tela do monitor da médica. Ouviu Liz digitando rapidamente e recebeu dela a mensagem:

____Não há nada para conversar sobre isso ou sobre qualquer coisa que
queira!

____Entenda. Eu estava fora de mim e quando vi você com o tal Ângelo lhe pegando pela cintura, o caldo desandou! - digitou Vick.

____Não tenho incentivado as pretensões amorosas do Ângelo, mas o que eu faço ou deixo de fazer, enquanto mulher solteira e acostumada a me relacionar com homens, não é de sua conta. Além do mais isso não lhe autorizava a se comportar como uma mulher leviana e vulgar.

Victória sentiu suas faces esquentarem. Digitou:
____vulgar? E o que posso pensar de uma mulher que se deitou com o Duarte, não por amor, mas apenas para ficar prenha? Isso sim é imoral!

Percebeu que agora lhe atingira na ferida exposta. A resposta veio ligeira.

____Imoral? -Ora criança, que parâmetro você tem para me julgar?Que
experiência de vida tem além de breves casos com garotas? Ao menos, você e o Bittencourt usaram camisinha? Já ouviu falar de DST ou gravidez indesejada?

Victória ficou remoendo o que lera e percebeu que o assunto estava
desandando, assim como crescia seu desejo de provocá-la ao extremo. Ficava mortificada quando Liz se investia de uma postura de mulher mais velha e experiente, tratando-a como a uma criança ingênua.

____e por falar em criança, seria bom se eu engravidasse. Assim nosso
problema seria resolvido, afinal poderíamos criar um bebê como duas mães zelosas. Além do mais, Leandro seria um doador muito mais apto do que a aberração do Duarte.

Ouviu quando Liz desligou o computador e saiu porta afora, batendo-a.
Agnaldo levantou-se de sua baia e olhou para Victória que agora estava de pé.

____O que houve?

____Vamos tomar um suco de laranja na padaria da esquina e eu te conto.

____Posso ir junto? -ofereceu-se Leandro erguendo-se do seu cubículo.

____Não! - responderam Agnaldo e Victória, juntos, antes de saírem também.

Ana Beatriz riu divertida e atacou Leandro.

____pelo jeito a noitada caliente não fez a Di Angelis abrir mão do
Agnaldo!

____Ora, colega, eles não namoram mais. O próprio Agnaldo me contou outro dia.

____é, mas não sei não! Acho que hoje, depois do "escândalo da madrugada" ou eles reatam ou não se acertam mais.

____Não desejando mal a ninguém, eu preferia a segunda opção.

____é assim tão a fim da Di Angelis?

____Nossa! Você nem imagina o quanto. Namorar a Vick deve ser o sonho de muito marmanjo por aí...

____humpff! - fez Ana Beatriz, com despeito.


No elevador, o HT de Vick chama. Louise a convoca em seu gabinete.

_____o suco fica pra depois, Gui, mas devo dizer que acho que exagerei no meu ataque à "aquela pessoa". Foi uma troca de farpas recíproca e nem consegui explicar que o que ela viu, na verdade não representa o que ela "pensa" que viu, entendeu? Na realidade, nada foi como pareceu ser! Pegou?

____com esta sua capacidade e clareza de explicação, imagino que ela não tenha "entendido" bulhufas...

____Nem me deixou explicar.

____Mas... esclarece uma coisa...o que foi mesmo que ela viu que na
realidade não é o que parece ser?

____Ela me viu na cama, de calcinha e sutiã, nos braços do Leandro...

____Você na cama com o "Belo da Tarde"? Só isso? Coisa mixa...

____Fala sério!

____Bem, não querendo te desanimar, mas isso é pior do que tentar explicar batom em cueca...

____Sei disso, mas é que estava tendo pesadelos e o moço foi até a cama me acudir e eu nem vi...

____O que mais você não viu?

____Ora Gui! Se tivesse acontecido alguma outra coisa assim... perfurante, penetrante, sei lá, eu perceberia e te contaria...
Quase na porta do gabinete da titular, Agnaldo se despede:

____Vou ver se encontro a loira, mas... ainda tem estas mensagens sobre bebê que vocês trocaram. O que a fez alfinetar tanto a Liz assim, quando na verdade você queria mesmo era se entender com ela?

____Sei lá. Ela me chamou de criança e eu fiquei possessa!

____Vou providenciar uma sessão de exorcismo para você!

Riram.

____ok! Agora me deixa ver o que a chefinha quer...


O ANEL


No gabinete, Victória tentava disfarçar o constante bocejo e o sono e
esperou a ordem costumeira.

____Sente-se.

Sentou-se no sofá de tecido azul Royal e aguardou. Louise se acomodou a seu lado, depositando em seu colo uma pequena caixa de veludo negro.

____Abra! - pediu com os olhos azuis profundo brilhando.
A policial abriu e deparou-se com um fantástico anel com um enorme e bem lapidado rubi em formato sextavado ao centro, lançando luzes vermelhas sobre os pequenos brilhantes que o rodeavam. Estava engastado em ouro branco.

____É lindo!

____Sim e é seu! - disse Louise enquanto o retirava de sua caixa e
colocava suavemente no dedo de Vick.

____Não posso aceitar!

____Não gostou?

____Adorei, mas...

____Ele é seu. Aceite. Quero que o use sempre, para dar sorte. É um anel de bacharel em Direito.

Victória lembrou-se do joalheiro da M&B e sorriu para Louise, um sorriso
amplo e emocionado.

A delegada apanhou-lhe a mão com o anel e beijou-o.

____Agora estás com o "corpo fechado". Transfiro para você, parte da minha imortalidade. Não vou precisar me preocupar mais se voltará ou não de uma missão ou diligência de rotina nas ruas - Louise disse isso e riu tímida, voltando a sentar-se em sua grande mesa.

____gostei do ritual, mas preocupa-se tanto assim com seus "homens"?

____Cada instante, todos os dias,em todas as noites!

____Mas há tanto motivo assim?

____Vê os " Os Homens da Neblina" ? O único membro que restou do grupo inicial, desde sua fundação, há 7 anos, é o Edgar. Os outros se foram. Um a um. Alguns mortos, outros mutilados. Os que tiveram mais sorte, ou se aposentaram por tempo de serviço ou por sérios problemas emocionais. Tive dois homens de primeira linha que se suicidaram. Sabe que depressão, alcoolismo, dependência química e suicídio é muito comum entre policiais?

Louise fechou os olhos, como se tomada de intensa dor.

____Ainda os vejo, um a um em meus sonhos!

____Isso é um pesadelo!

____Não! É saudade apenas. Mas já convivo bem com isso há anos.

A delegada repentinamente adquiriu uma expressão de profundo cansaço.

____Agora vá que preciso continuar despachando.

A forma abrupta com que interrompeu a entrevista, denotou que talvez ela estivesse arrependida de ter aberto o coração. Mesmo que por breve
instantes.


Ao começar a descer as escadarias, Agnaldo reaparece sem fôlego e com o aspecto preocupado.

____Di, vamos ao suco de laranja e pão na chapa, agora! - disse apanhando-a pelo braço.

Na ala confortável das mesas na padaria da esquina, o policial irrompe a
falar como uma metralhadora.

____Liz abdicou da equipe dos Neblinas, vai entregar sua cota na clínica
particular para os sócios administrarem e vai para o sul trabalhar em uma
pesquisa por 6 meses.

____Ela está maluca?

____Não! Liguei para um conhecido meu lá no Instituto Médico. Ele me contou com detalhes.

____E onde ela está? Em que hotel? Preciso encontrar com ela. O celular só dá caixa postal. Quero que ela me olhe nos olhos e diga que não me quer mais. Só assim vou poder seguir minha vida novamente!

____Então precisa ser rápida. Neste momento ela já deve estar a caminho do aeroporto em São Paulo.

____Como?

____Deixou alguém encarregado para cuidar das coisas dela aqui. Vai para Belo Horizonte para uma espécie de congresso. Decidiu de última hora. De lá, voa para Porto Alegre.

Victória rumou para São Paulo na velocidade máxima que conseguia em sua motocicleta.

No aeroporto ela lutava contra a maré de pessoas que se moviam apressadas.

Viu a cabeça amada de Liz, destacando-se entre as pessoas, tanto pelos
cabelos dourados cintilantes, quanto pelo seu rosto belo como de uma
guerreira Viking. Estava preste a entrar na ala reservada para embarque e a policial começou a correr em sua direção até que viu um homem aproximar-se da médica e a segurar pelo braço, insistindo em algo com ela.

____Lizandra! Porque está viajando tão repentinamente? De quem está fugindo? Fique para podermos conversar.

____Não tenho nada a conversar com você Ângelo, além de trabalho e eu já lhe disse isso antes!

O rapaz ainda insistia até que Liz se livrou dele e entrou na área
restrita, misturando-se com os passageiros daquele vôo no amplo corredor, sem olhar para trás. Ângelo aborrecido, preparava-se para ir embora quando avista Victória e aproximou-se dela, forçando passagem entre as pessoas que estavam aglomeradas no imenso saguão.

____Ei, agente Di Angelis... chegou atrasada para despedir de sua amiga...

____é... infelizmente me enrolei com o trabalho e não deu para sair do
Distrito a tempo. Uma pena, mas mais tarde eu ligo para ela para
conversarmos.

Ângelo riu e seus olhos amarelos ficaram mais claros, acentuando mais seu aspecto de gigantesco frango de granja.

____Sabe agente, eu estava pensando como uma médica de alto nível, estilo e fina como a Doutora Lizandra, mantém amizade com pessoas de nível cultural medíocre e moral questionável como você e seu namorado, o tal Agnaldo.

____Ãnnn? Não entendi!

____Então deixa eu ser claro! Fiquei sabendo que o ataque de um maníaco perigoso contra a terapeuta Adriana, foi motivado por vingança contra você.
Agora a Doutora Lizandra e outras pessoas, também estão na mira do louco assassino. E tudo por sua culpa. Está fazendo cursinho para gato preto? Pesquisei um pouco sobre sua carreira. Responde por 3 homicídios e só está livre porque seu papaizinho paga meia dúzia de bons advogados para lhe livrarem a cara. Todas as pessoas que já estiveram perto de você ou trabalharam com você, se ferraram. Não preciso dizer muito que você é má companhia para Liz. Afaste-se dela, é um conselho de amigo! - disse, com o dedo em riste para Vick.

____Está me ameaçando, doutor?

____Não! Só é um aviso! Quero você e seu comparsa loiro longe das pessoas de bem. O que está fazendo aqui no aeroporto? Não devia estar trabalhando prendendo bandido? Não é para isso que o Estado te paga?

A policial não esperava ser tão humilhada e desacatada em um lugar público como aquele diante de tantas pessoas. Pensou em virar as costas e sair dali rapidamente antes que perdesse o controle da raiva que lhe crescia no peito, mas não teve tempo.

O médico apanhou Victória pela jaqueta de couro, chacoalhou-a como se para mostrar força física e por fim a empurrou com força, soltando-a por fim. A Policial, pega de surpresa, cambaleou dois passos para trás, mas conseguiu recuperar o equilíbrio, a tempo de atacar, lançando o corpo para frente como um elástico e aplicando um golpe de mão aberta na orelha esquerda de Ângelo que cambaleou semi-atordoado. O ataque seguinte foi mais violento.

Vick partiu para cima do médico e derrubou-o ao chão, sentando-se sobre ele e esmurrando-o impiedosamente. Só parou quando seguranças do aeroporto a detiveram com grande esforço para retirá-la de sobre o homem caído. Depois foi conduzida a uma sala à parte onde foi trancada e colocada sobre forte vigia.

Liz embarcou no seu vôo sem tomar conhecimento do tumulto que se formara por sua causa e no saguão, Ângelo gania furioso aos quatro cantos que iria processar Victória, entre outras coisas. Quase duas horas depois, Louise apareceu na sala reservada e pediu para falar a sós com a policial.

____Olha, chefia, a garota aí é mais violenta do que touro miúra! Deu
trabalho para tirá-la de cima do rapaz. E olha que estávamos em quatro
homens. - avisou um dos seguranças.

____Pode deixar que com ela eu me entendo! - respondeu a Delegada, ríspida.

Ao ficarem a sós, Victória levantou a cabeça com cautela e contou o que
fizera com detalhes.

____Ele me agrediu verbalmente, ofendeu, provocou e por fim ainda me pegou pela jaqueta e me empurrou como se eu fosse um saco de batatas.

____Ele a provocou e você entrou no jogo dele?

Victória baixou a cabeça, envergonhada.

____Diante disso, encerro aqui o sermão. Agora não importa mais, o estrago já está feito. Vou tentar convencer o médico a não te processar. Direi que você anda sob forte tensão emocional diante do trabalho no Distrito, o que não é mentira alguma. Porém!...

____Porém?

____Vou ter que suspendê-la de sua função de policial por cerca de 15 dias a 1 mês e destituí-la permanentemente da equipe dos NEBLINAS. Quero que entregue sua arma e seu emblema agora.

Victória que estava sentada, abraçou a cintura de Louise e a trouxe para
si, encostando seu rosto nela, chorando silenciosamente.

____Não faça isso, Louise! Eu te peço! Não vou ter paz enquanto não
encontrar e deter "O Nix" . Só preciso de uma semana de descanso para
superar toda esta crise emocional.

Louise desvencilho-se dela e apontou a mesa próxima.

____O emblema e a arma.

Victória ergueu o queixo em seu gesto típico de desafio, tentando reaver o orgulho pisado. Depositou na mesa os objetos solicitados com as mãos
tremendo. A delegada os apanhou rapidamente e os guardou em sua valise.

____Posso ir agora? - perguntou com o semblante endurecido.

____Vai e fique em lugar onde eu possa te localizar rapidamente quando for preciso.


O INSIGHT


Naquela noite Agnaldo observava condoído Victória dançando como em transe no ritmo frenético e sincopado da música techno da boate. Sua roupa estava molhada e ela ali, destacava-se das outras pessoas, tanto pela sua beleza, quanto pelo modo sensual como dançava. Sabia que a amiga procurava cansar seu corpo como um meio eficaz para esvaziar a mente. Em dado momento, ela parou no meio da pista sob a luz estroboscópica. Parecia uma personagem saída de um filme e ali ficou com o olhar vazio e o corpo estático por pelo
menos dois minutos.

____acho que sua colega "travou" - avisou Felipe.

____Vou buscá-la! -informou Agnaldo, abrindo passagem pelas pessoas.
Aproximou-se e a enlaçou pela cintura.


____Venha! Vamos sair daqui. Precisa de ar puro.

____Preciso mesmo é de meu sítio...

____é perigoso subir a serra de noite!

____tudo é perigoso hoje em dia.

No sítio, tomou seu banho demorado, deitou-se e apagou a luz. Em sua mente desfilava centenas de imagens. A maioria oriunda do dossiê que lera e outras captadas no dia a dia. O insight se iniciara na pista de dança da boate e agora a escuridão densa servia como pano de fundo para as imagens e formas que brotavam de sua mente e ela visualizava. Foi quando em um clarão apareceu uma espécie de tatuagem. Tinha uma forma assemelhada de adaga ou espada curta. O punho e cabo como uma flor Florentina, sendo que a Lâmina iniciava de largura estreita e alargava como uma palma. Sabia que aquela imagem aparecera pois já a vira em algum lugar, talvez entre as pessoas na boate na noite do Sabbath de Ostara, ou entre as pessoas que rodearam o corpo da moça morta, caída no espinheiro. Havia coisas que seu subconsciente
retia que precisava de estímulo para ser liberado e algo no material que
Leandro lhe apresentara deflagrou o processo.

Pulou da cama e correu para a mesa de canto, acendendo o farolete e passou a rabiscar rapidamente, tentando reproduzir o desenho. Quando finalmente gerou um que achara bem próximo ao que visualizara, deitou-se exausta, adormecendo profundamente.

Muito cedo já estava descendo a serra em direção à cidade. Não queria que ninguém soubesse que iniciara uma investigação por conta própria. Podia ser que caísse nos ouvidos de Louise e isso não seria nada bom. Procurou cedo por um velho bibliotecário aposentado que conhecia. O homem estava cuidando de suas flores, discursando sobre a importância de se tratar as plantas e trabalhar a terra utilizando-se da umidade do orvalho e ainda quando o sol estava "brando".

____Tenho algo para você, Jorge. Um desenho que sei que representa algum símbolo ou entidade...

____Entra aqui em casa que minha patroa te serve um pão quentinho, enquanto eu busco meus óculos.
Na mesa da cozinha, o velho bibliotecário olhou o desenho de vários ângulos e por fim, retirou os óculos e depositou-o na mesa, esfregando o rosto com as mãos enrugadas.

____e então? Não representa nada? - perguntou a policial preocupada.

____Isso aqui, se eu estiver certo, representa algo maldito!

____Como assim?

____Uma adaga cerimonial de sacrifício humano. Deixa-me ver se encontro algo em minha enciclopédia lá no meu escritório. Espere.
Minutos depois volta com um livro aberto e a imagem de uma adaga forjada em ouro e pedra preciosas.

____A adaga do "Anjo Vingador". Os astecas acreditavam que ele descia na terra para sacrificar os profanadores do ritual de Quetzalktualpa e assim o vingar.

____Posso tirar uma foto do livro? - pediu Vick, retirando sua máquina
Polaroid da mochila.

____Claro, filha! Fique a vontade...


O SHOPPING

Vick já aguardava na porta de acesso quando o shopping abriu. Estava com os longos cabelos presos, e trançados, boné e óculos escuros. Vestia camiseta branca regata, bermuda de brim ocre e tênis. Procurou por certa loja no Shopping, e experimentando algumas loções e outros produtos na prateleira, esperou que a vendedora se aproximasse.

_____Posso ajudá-la?

_____Pode sim. Eu estava pensando em comprar alguns óleos para bebê e sabonetes também. É para mim. Sei que são os melhores para peles sensíveis.
A moça já ia mostrar a prateleira certa e a variedade dos produtos, quando Vick deixa cair no chão, as folhas com desenho que refizera, baseando-se na foto que tirara do livro do Jorge.

A moça apressou-se em recolher os papéis e olhou-os detidamente.

_____Não estão bons. Eu estou pesquisando sobre símbolos rituais de
civilizações antigas.

_____Deve ser legal, entusiasmou-se a balconista.

_____Se é. Este aqui é muito especial e posso apostar que você nunca viu um antes...

_____A moça sorriu e foi às prateleiras apanhar os produtos que Vick pedira.

Voltou e a chamou no balcão.

_____Desculpe desapontá-la, mas já vi um homem com uma tatuagem na mão, idêntica a esta sua espada há poucos dias. Achei estranho uma pessoa de blazzer italiano de linho, relógio, que parecia legítimo rolex, com uma tatuagem destas na costa da mão direita.

_____Nossa? É sério? Mas não pode ser a mesma tatuagem. Esta aqui foi
descoberta a pouco em escavações em ruínas dos astecas...

_____Tenho certeza que é a mesma! Posso assegurar.

_____Ah então deve ser meu amigo de pesquisa o Arthur. Um homem de quase 2 metros, 30 anos, forte, branco e perfumado. Ele é um louco por símbolos antigos e deve ter feito uma tatuagem na mão.

A moça riu.

____Não! Este não pode ser o seu amigo Arthur. Ele aparentava estar na casa dos 40 anos ou mais. Porém era um homem muito perfumado e com um charme especial. Seus olhos escuros eram bem penetrantes. Impossível negar qualquer coisa que ele pedisse.

____É, eu devo ter me enganado! - afirmou Vick, ansiosa para sair do local e poder pensar com calma em tudo que descobrira.____Onde é o caixa?


Na rua, achou que era seu dever informar alguém da equipe 44 sobre sua
descoberta de que a balconista do shopping que entregara as sacolas de
compras de Adriana para o suposto Tiago, na verdade o entregara para o
"Legado de Nix" e que ela o vira, ao vivo e a cores e até reparara em sua
tatuagem.

Desconfiara que quem retirara as compras de Adriana não fora o noivo, pois conforme soubera mais tarde, o noivo não voltara de viagem naquele dia do shopping. Mas tudo lhe passara desapercebido pois estava envolvida demais em seu drama com Liz. Depois da tragédia ocorrida com Adriana e o assassinato de Tiago, a policial passou a se perguntar em como o assassino teria descoberto sua amizade próxima com a terapeuta e seu endereço, entre outros dados. Ele já devia estar seguindo a policial e apanhara as compras de Adriana antes de Vick, obtendo assim dados e talvez o argumento para entrar na casa da amiga.

A verdade era só uma: o assassino estava a um passo de si. Conclusão esta que a fizera tomar centenas de precauções toda vez que saía a fim de dificultar ser seguida.

Ligou para o Agnaldo.

____Ei colega, dá para você e o Leandro irem entrevistar a balconista do
shopping? Ela viu o assassino de dia. Assim dá pra continuar elaborando o
retrato falado. Contou sobre o caso da sacola extraviada e pediu que o amigo não abrisse com ninguém, de onde viera sua dica.

____Tudo bem! Mas espero que você esteja no sítio descansando e fora do caso! Agora que está sozinha, fica mais vulnerável e precisa se cuidar.

____Claro! Neste minuto mesmo estou procurando as receitas de bolo de fubá da minha avó, no baú da sala. mentiu Vick.

____Ora! Fala sério!

____Tá bom! Ta bom. Estou me preparando para meu ócio contemplativo/reflexivo.

____Melhorou! E sobre o que vai refletir?

____Sobre "celibato e sublimação de tesão encravado"!

____Para com isso!

____Mas é uma boa idéia. Posso até fundar uma "Ordem das Celibatárias do Chicote de três Pontas".

____Para quê chicote de três pontas?

____Pra expurgar todo pensamento impuro e libidinoso advindo da carne.

____Ah! Sei! Isso aí no seu caso, nem com chá broxante!

A PRAÇA

Duas horas da tarde, a policial estava sentada preguiçosamente em um banco de sua praça predileta. No centro, o coreto onde Carlos Gomes fizera seu primeiro concerto. Esperava seu hot-dog especial que o rapaz do trailer preparava enquanto relaxava. O pequeno engraxate aproximou-se sorridente, perguntando:

_____Vai graxa aí chapa?

Vick pensou se não seria má idéia dar uma lustrada em suas botas de
motociclista e tinha também o efeito relaxante de ouvir o tecido cantando contra ao couro e a tagarelice infantil do engraxate. Aquele especialmente era um menino "boa praça" e tinha o apelido de "chapa" porque sempre chamava as pessoas assim.

Enquanto o garoto tagarelava animado, a policial relembrava o que fizera no dia. Fora no Jorge, após ter visualizado em sua mente a imagem da adaga.

Sabia que isso fora um insight que tivera, diante de todo material
assimilado dos arquivos do Leandro, somados ao que seu subconsciente
coletara, sem que ela tomasse consciência. Certamente em meio às centenas de pessoas que estiveram na boate no Sabbath de Ostara, ou mesmo entre as que rodeavam o corpo da garota morta, uma delas possuía o símbolo e isso ficara gravado na mente da policial. A confirmação de que tratava-se mesmo de uma tatuagem veio de sua visita feita junto à balconista do shopping, que entregara a sacola das compras de Adriana para o homem que se apresentara como o noivo.

Agora então, era preciso procurar o dono da tatuagem e na
medida de que fosse descobrindo algo novo, contaria ao Agnaldo, mas queria estar um passo adiante na investigação pois desejava chegar ao assassino, antes de Louise e sua equipe. O caso, após o ataque contra Adriana e a ameaça contra si mesma, saíra do campo profissional para o pessoal. Estava até resignada com a saída de Lizandra de cena, assim ao menos ela estaria a salvo do ataque do maníaco serial.

_____Qual seria a próxima vítima que ele escolheria? Agnaldo? - refletiu.
A verdade era que Vick decidira surpreender o matador antes que tornasse a atacar.

Deixou-se ficar à sombra das árvores seculares. Às vezes uma inspiração lhe soprava que a saída repentina da médica da cidade e do Estado, tinha um dedo da Louise, mas não podia ter certeza. Levantou-se e chamou a garotada para uma rodada de pipoca. Depois tinha o algodão doce. Era interessante ver o açúcar virando aquelas teias mágicas no alumínio em movimento. Os meninos passavam o algodão no rosto inteiro, no cabelo e as mãos meladas agarravam o doce com gana. O "chapa" perguntou enfim o que Vick estava tramando naquele dia tão bonito.

_____Estou pensando em "caçar" um sujeito.

_____Se quiser, eu e meus manos aí, ajudamos!

_____Bem, primeiro eu preciso encontrar com algumas pessoas. Mas depois se precisar eu chamo, ok?

De dia, naquele enorme cortiço onde trabalhavam várias mulheres de programa, Victória moveu-se entre elas, mostrando a tatuagem e descrevendo o homem suspeito.

Não conseguiu apurar nada, apesar das "garotas" se mostrarem receptivas.

Gostavam da policial, principalmente porque ela já as defendera dos homens que as roubara, espancara ou as ameaçavam.
Deixou com elas o número do orelhão da praça que ela decidiu que seria seu escritório. Se não estivesse na área, o "chapa" atenderia e passaria o recado.

Voltou a praça e séria, passou a discursar para a garotada.

_____Como diziam os antigos gregos! Quando precisam descobrir um crime, aparentemente sem testemunhas, " procurem a mulher" ! - explicou para a pequena platéia de 6 garotos que a rodeavam.

_____Porquê? Tia?

_____Deixa eu contar uma estória. Tempos atrás, no nordeste, um homem enganou o melhor amigo, armando-lhe uma cilada dentro de um galpão escuro.

Ali ele o esfaqueou até a morte.

_____Porquê?

_____ Talvez por dinheiro. Estavam apenas os dois naquele galpão no meio de uma área deserta da fazenda. A vítima caída, viu um feixe da luz do dia entrando por uma fresta na madeira do galpão e disse:____Este feixe de luz será minha testemunha! E aí morreu e anos se passaram sem que o crime fosse desvendado. Até que um dia, o assassino em um bordel, em outro Estado, deitado ao lado de uma mulher, viu um feixe de luz entrar por um vão da janela e contou a mulher o que fizera, anos atrás em uma fazenda em uma cidade distante. Por fim, esta mulher procurou um delegado e contou o ocorrido. O policial foi investigar e confirmou o assassinato e prendeu o autor do crime.

_____E então? - perguntou um garoto.

_____Então que todo crime tem uma testemunha. Nem que seja o próprio
criminoso. Um dia ele sente necessidade de contar e provavelmente se abra para uma mulher. Foi assim nos tempos há milênios e ainda é assim até hoje!

_____Entendi! Então, decerto esse homem que a tia quer "encaçapar" vai se "abrir" para alguma mulher?

_____é possível! Estou contando com isso. Indivíduos como ele, possuem
dificuldade de se relacionar normalmente com as pessoas. Pode ser um bom vizinho, ou colega de trabalho, mas nunca estabelecem relacionamentos mais profundos, como o de ter uma namorada ou amante, entendem? Portanto procuram mulheres que aceitem ficar com ele por um pagamento.

___Onde a tia aprendeu isso tudo?

___Um pouco no trabalho. Um pouco com a vida! E... lembre-se da lição do sábio contador de Fábulas, o Esopo.

___Conta pra gente!

___Bom! Era uma vez um cordeirinho!...

Passos pelo calçamento fez com que a garotada debandasse. Vick voltou a cabeça com preguiça e deparou-se com a L.S.S. de pé há alguns metros com o olhar duro e expressão aborrecida.

___O que está fazendo na cidade Di Angelis? Pensei que estava no seu sítio!

___Não! Lá o ar anda muito puro! Preciso de um pouco de poluição e gás
carbônico para estimular os pulmões. - disse e inspirou profundamente, com um sorrisinho travesso nos lábios.

___Interessante como há 3 dias que nesta quadra, dobrou o número de
ocorrências de pequenos delitos e crimes comuns detidos. O Agente Moraes nunca pegou tanto batedor de carteira, trapaceiro, caloteiro, falso cego e outros meliantes quanto nestes dias. Algo me diz que isso tem o dedo seu.

Victória lembrou das ocorrências dos últimos dias. Apanhara um trombadinha e um trombadão. O trombadinha esbarrava na vítima e lhe tomava a carteira ou bolsa. Atacava por trás e como é pequeno e veloz, misturava-se fácil na multidão e sumia. Se a vítima inventa de correr atrás do moleque, o trombadão, que vem pela frente, dá-lhe um esbarrão que o faz invariavelmente se esborrachar no chão. Vick viu quando o trombadinha agiu e esperou o trombadão. Aí foi só pegar o moço e fazer com que ele lhe levasse até seu parceiro. Depois ligou para o Agente Moraes, colega que estava encarregado de patrulhar aquela área e que nunca pegava ninguém porque costumava adormecer dentro da viatura.

___Ei Moreira! Que tal fazer uma média no DP? Pega aqui uns "clientes", leva para o Distrito, mas não abre que fui eu quem ajudou, ok?
O Moreira "moleza" aceitou todo contente. Andava com a moral baixa na
Delegacia mas não conseguia conter o sono que o abatia. Era anêmico e não se tratava.

Depois, no mesmo dia, Vick viu uma garota toda contente mostrar uma cédula de 10 reais para o namorado.

___Veja João! Achei esta cédula na rua. Olha o que está escrito:___Esta é uma corrente de Caridade, somos milhões em todo mundo. Não a quebre. Agradeça a dádiva recebida, ofertando 5 reais a primeira pessoa necessitada que encontrar na rua.

O casal de namorados ficou maravilhado com a bondade humana e saíram
procurando um pedinte, que não demoraram a encontrar na esquina. Era um cego. Deixaram em seu chapéu uma cédula de 5 reais e saíram contentes. Dali a pouco, o "Crocoió", menino que vendia doces, encontrou outra cédula de 10 reais com as mesmas inscrições.

___Veja tia! - comentou com Victória - Acho isso legal. Tem gente que se preocupa com os pobres. Deixa eu ver aqui. Tenho 5 reais em nota de 1. vou dar as cédulas para aquele cego lá da esquina e ainda continuo com meu cincão, além de ter ajudado alguém que precisa...
___Espera aí, deixa eu ver esta cédula! - pediu Vick. Olhou e constatou o que já imaginava. Era falsa. Pensou calmamente em como agir.

___Crocoió! Faz assim! Vai lá até o cego. Faz que vai deixar o dinheiro e
deixa os dez reais. Pega cinco do chapéu dele. Aí venha para a praça e se ele passar a te xingar e correr atrás de você, corre para o coreto. O resto eu cuido. Confia em mim que sei o que estou mandando.

O menino fez isso e ficou assustado quando o suposto cego gritou com voz de gralha:

___Devolve aí meus cinco reais, moleque!

___Mas eu deixei 10 reais, moço!

___Devolve os cinco ou eu te arrebento!

O menino passou a correr, seguido pelo falso cego que corria como um coelho.
Na altura do coreto, Vick lhe dá uma rasteira e já o pega pela gola!

___Quieto aí, sujeito! É a polícia!

___Mas polícia? Eu estou limpo! O que fiz?

Victória revistou o sujeito e encontrou um maço de cédula falsas de 10
reais, com as inscrições da falsa corrente. Amarrou os braços do cego com uma corda que um menino arranjou. O Chapa correu ligar para a viatura do Moreira.

___Chefia! Tem mais um freguês no samburá! - anunciou o menino para o
policial.

E assim se passou 3 dias. Vick dando plantão na praça, enquanto não estava procurando informação nas zonas e casas de tatuagem. Prendera mais cinco pessoas. Algumas deram trabalho, correndo ou esperneando. Outros ficavam petrificados ao reconhecê-la.

___Eu fiz uma pergunta! Agente Di Angelis! Responda: Você anda atrás destas prisões?

A policial sobressaltou-se ao ter seus pensamentos interrompidos
bruscamente pela voz incisiva e autoritária de Louise.

___Eu? Porque eu faria isso?

___Porque não agüenta ficar sossegada em um canto, esperando a poeira abaixar. Tem um talento especial para se meter em encrencas ou farejar falcatruas ...

Vick sorriu e olhou-a com um ar desafiador. Gostava de vê-la furiosa.
Afinal, não fora ela que lhe suspendera e lhe punira a ponto de retirá-la do caso do matador serial? A policial ainda não se conformara de ter recebido uma punição tão severa, ainda mais enquanto sofria a dor da separação de Liz. Não contaria a Louise sobre nada que estava investigando. Não mostraria o desenho da tatuagem da adaga. Queria estar sempre a frente dos investigadores da 44.

O orelhão tocou e "Chapa" atendeu.

___Vick! É para você!

Louise levantou suas sobrancelhas e Victória foi atender o orelhão com ar
misterioso. Trocou duas ou mais palavras, anotou algo em um bloco de
anotações e desligou.

___Quem era? - quis saber a Delegada.

___Era um cliente! Estou vendendo coco da Bahia na praça!

___Agente Di Angelis! Se não quer se abrir sobre suas tramóias, ao menos não me falte com o respeito! Quero que saiba que estou de olho em você e acho bom que não cometa o menor deslize, senão sua suspensão vai evoluir para um Processo Disciplinar. E lembre-se: não está autorizada a usar arma nem a prender um gato sarnento!

Vick perfilou-se e bateu continência para Louise.

___Sim! Senhora!

A delegada saiu, visivelmente furiosa.

___Tia! Aquela lá é sua chefe?

___é sim!

___Ela tá uma arara com você!

___Pode acreditar!

___Vixe! Aqueles olhos azuis dela, cortam a gente em fatias. - observou o Crocoió.

___Se cortam! - riu Vick.

 

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