O CARRASCO

Vick foi atrás da garota que ligara e que se apresentara como Melissa.

Encontrou-a em um pequeno apartamento muito velho e cheio de infiltração de água pelas paredes e teto. Ela era bonita, mas estava magra e com aspecto envelhecido para seus vinte e poucos anos.

___Olha! Eu aceitei falar porque preciso de um dinheiro para pagar meu coquetel anti-hiv. Sou soropositivo.

___E ainda trabalha?

___Não! Por isso preciso do dinheiro.

___Então já viu esta tatuagem?

___Antes quero que me pague. Sei que é tira, mas gosto de me garantir.

___quanto quer?

___Serve esta sua corrente de ouro, o relógio chique e os anéis.

Vick retirou do dedo, a aliança que fizera para si, par da que dera para Liz. Retirou também o relógio caro e a pesada corrente de ouro do pescoço.

___o anel de rubi, não!

___Tudo bem! Aceito o que me der. - concordou a Melissa.

___Então, voltemos ao assunto. Já viu esta tatuagem no corpo de alguém?

___Sim! Uma ou duas vezes. Mas antes quero que me prometa que vai pegá-lo. Se ele descobre que o entreguei, ele me mata!

___Vamos pegá-lo se você colaborar. Descreva-o!

A moça iniciou a descrição com voz trêmula.

____Eu o chamo de "carrasco". Sente prazer em torturar as pessoas. Ele iniciava a sessão de tortura me asfixiando com um saco plástico. Depois me queimava a pele com cigarro. - mostrou o interior dos braços e das coxas com
cicatrizes circulares que lembravam a marca da varíola.

____E aí?

____Para completar... Ele enforca.

____E você está viva pra contar a estória?

____O Carrasco prepara um nó especial que não aperta o pescoço. Apenas esgana um pouco e depois ele corta a corda. Sabe o momento certo que a gente
suporta!

___E você se sujeitava a isso tudo por dinheiro?

___Sim! Por dinheiro e também... por prazer. Sou masoquista. Não consigo sentir prazer ou ficar excitada sem ser torturada, queimada com cigarro ou machucada...

A moça baixou os olhos envergonhada.

___hum! Cada um com seu gosto! Mas me diga uma coisa! Este seu "carrasco", ele se satisfaz sem penetração?

___Sim! Ele se satisfazia torturando e depois se masturbava enquanto eu esperneava na corda. Isso parece bastar para ele.

___E porque decidiu abrir sobre ele, além do dinheiro?

___Porque ele me contou um dia que matara um homem enforcado e chutara uma mulher grávida até que abortasse. Contou e mostrou um recorte de jornal confirmando. Não sei porque ele se abriu sobre isso , mas estou temendo que
ele apareça para dar "cabo" de mim! Quando ele me contou, estava embriagado e olha que um homem daquele tamanho demora para ficar grogue...

___Tem toda razão para ficar preocupada. Agora vamos ao ponto. Descreva-o e me diga onde posso encontrá-lo.


TOCAIA PARA O PREDADOR

Na rua, Victória não podia acreditar que tudo estava saindo perfeito e sem empecilhos. Tinha que visitar o assassino antes que este soubesse por boato que uma policial andara ao seu encalço com o desenho de uma tatuagem.
Convocou os meninos na praça e providenciou vários pipas e papagaios. Seria um disfarce perfeito.
Os meninos passaram a empinar pipas naquele pacato bairro onde em uma casa alugada, o assassino serial morava. Vick achou melhor entrar na casa quando o sujeito não estivesse, para verificar se realmente este era o homem certo. Algo porém a intrigava: o apelido " Legado de Nix", em nada se encaixava com a descrição do tal "carrasco". Além do mais, a partir da espada tatuada, aparecera o codinome: Anjo Vingador.

Tantos nomes para um só homem? Resolveu que a visita que faria na casa do "carrasco" lançaria luz a todas estas perguntas. Se comprovasse que era o mesmo homem que atacara Adriana e matara Tiago, finalmente convocaria a
equipe de Louise e o pegariam. O interessante também foi que o "insight" que tivera, foi do desenho, mas não do rosto do indivíduo. Porquê?

___melhor me apressar! - pensou, tentando conter os nervos.

Munira-se de sua máquina de choque, canivete, faca e outros paramentos.

Vestiu-se totalmente com uma malha preta e colocou na cabeça um gorro que na verdade era uma máscara. As botas, eram feitas de pelica, finas como uma luva, estilo ninja, com separação para o dedo maior.

Esperou na quadra atrás da rua alvo, toda coberta por um cobertor sujo, passando-se por uma andarilha sem rumo.

Antes, havia orientado o "chapa" e os outros meninos para só botar no ar a pipa vermelha quando o sujeito saísse da casa. Era o sinal que o caminho estava liberado. Combinou também, que uma vez que entrasse na casa, os
meninos passariam a jogar bola na rua e a avisariam de qualquer aproximação do indivíduo com uma lanterninha laser que ela lhes dera.

Por cima de toda sua roupa de assalto, aplicou alguns trapos velhos, para se fazer passar por uma andarilha de rua e esperou.

Parecia tudo muito bem arranjado, mas a policial, sentada na sarjeta com uma lata de ervilha aberta na mão, fingindo que pedia esmola, já estava impaciente com a demora de visualizar o sinal.

Já tivera de chutar dois cachorros vadios, xingar um bêbado que lhe passara os braços moles nos ombros e chacoalhar dois meninos travessos que inventaram de lhe jogar bexigas com xixi dentro.

Acabara de estourar uma delas nas costas do travesso, quando finalmente viu a pipa vermelha. Correu rua abaixo, livrando-se dos andrajos até que alcançou a casa desejada.
Espreitou para ver se alguém espiava e entrou no terreno baldio ao lado, pulando sobre o muro alto com habilidade. Avaliou que não seria prudente entrar por qualquer das portas externas. Do muro, escalou o telhado de onde retirou algumas telhas e entrou pelo forro. Com a lanterna, focou a laje, em busca da portinhola.

Encontrou-a e a forçou. Esta se abriu com facilidade. De lá, pulou para o interior da casa. Descobriu que fizera bem em ter evitado as portas externas. Nelas havia um fino sensor, tipo de alarme ou mesmo, de um dispositivo explosivo. Certamente a pessoa que entrasse, precisaria digitar
rapidamente um código em um aparelho oculto.

___ele realmente já serviu a algum grupo de elite das forças armadas ou da policia.

Passou a focar todo o ambiente que já imergia na penumbra da tarde que caía.

Os meninos na rua, faziam grande ruído, jogando bola. Podia-se ouvir os gritos entusiasmados deles.

Focou a mesa de trabalho. Com uma haste plástica, passou a vasculhar os objetos dispostos ali. Havia artefatos eletrônicos, livros em inglês, cordas, facas e vários tipos de estiletes. Em um canto da sala, cerca de oito galões contendo alguma substância química líquida. O armário estava recheado de armas de diversos tipos, além de granadas e munições. O que fez a tensão de Victória aumentar, foi quando deparou-se ao lado da mesa do
telefone, com um recorte de jornal contendo a foto de Antonio di Angelis.

Era a tal reportagem na coluna social que lera, dias antes. Ao lado, vários folders de pousadas na serra. Uma chamou a atenção da policial. A morada onde os praticantes de Armsbrust (besta) freqüentavam e praticavam. Sabia
que seu pai era sócio de uma delas e até tinha seu chalé reservado no local.

Ficava no pé da serra da Cantareira.

___Meu pai! Ele é o próximo alvo! - constatou aterrada.

Estava pensando no que fazer, quando ouve passos se aproximando da porta. Na pressa para se ocultar, pisou em algo que fez "claque" . Já se imaginou indo
para os ares, quando a dor latejante no pé, denunciou que pisara em uma grande ratoeira. Segurou o grito de dor. Os passos já estavam muito próximos. Era tudo ou nada. Caminhou mancando até o único quarto, repetindo
em pensamento o mantra: calma, calma, calma.
Olhou todos os lugares possíveis e não havia mais tempo para nada, além de se ocultar debaixo da cama imunda. Ouviu quando o "Anjo Vingador" entrou na casa, demorando-se alguns minutos, talvez desarmando os sensores de
segurança. Depois moveu-se pela sala e Vick sentiu-se gelar quando percebeu que os passos seguiam pelo corredor, em direção ao quarto. A porta se abriu de supetão e ela já lhe via os coturnos. O homem abriu os armários rapidamente e passou a colocar certos objetos dentro de uma enorme mochila.
Preparava-se para algo.

____Tanto melhor! Se estiver com pressa, terei chance de escapar, pensou a policial, já com sua faca em uma mão e a máquina de choque na outra. Um latido fino e irritante, despejou rios de adrenalina no sangue de Vick.

Havia um cachorro e este passara a latir repetidamente. Farejara-a.

Imaginou-se em um corpo a corpo com um homem daquele tamanho e peso. Ia ser esmagada como uma mosca debaixo de um cofre. Além do mais, não tinha arma de fogo e só um tiro da escopeta que vira dentro do armário, era capaz de
parti-la ao meio.

____Não contei com a possibilidade de ser flagrada! - pensou, com raiva de si mesma e da turma do "chapa" por não ter dado o alarme combinado.____Se
escapar dessa! Beijo os pés do Ângelo, vou à missa no primeiro domingo e ainda me confesso para o padre!

O poodle cinza correu direto para baixo da cama.

____Estou perdida! - pensou Vick.

Um ganido dolorido ecoou e o canino saiu correndo de sob o móvel. Dos seus pelos longos do focinho, pendia uma ratoeira grande.

____Seu cão estúpido! Andou acuando algum rato? Odeio estes roedores!

Victória com os olhos mais acostumados com a pouca luz, viu ao seu lado e por vários pontos do cômodo, enormes ratoeiras armadas. O monstrengo, apesar da casa fétida, com objetos e lixo jogados por todos os lados, tinha uma
fobia clara: ratos.

Em dado momento o assassino pareceu disposto a agachar para olhar as ratoeiras debaixo da cama, quando algo pesado, corre pelas pernas da policial, que conteve um grito.

Era uma ratazana grande e gorda que saiu em
direção ao armário. O homem agiu como um elefante enlouquecido, atirando tudo que alcançava às mãos sobre o animal. Depois bateu a porta, gritando com o cachorro.

____Fique aí até minha volta daqui a dois dias. Vou deixar água e ração. E nada de acuar estes animais imundos.

____o louco fala com o cachorro! - pensou Vick, que estava à beira de um ataque cardíaco. Sabia que conversar com objetos e animais era típico de pessoas que passavam muito tempo isoladas de outras. Quase desmaiou de alegria quando ouviu o bater das portas e o ronco de um automóvel. Esperou mais 15 minutos e saiu de seu esconderijo, observando que faltavam armas e também os galões de produto químico, além dos folders das pousadas.

____Ele foi atrás do meu pai! - raciocinou Victória, ligando seu celular e tentando falar com Agnaldo. Não conseguiu. Tentou a L. S.S e nada. Só caixa postal.

____Que droga! Onde eles se metem quando mais se necessita?

Saiu com dificuldade da casa, soltando antes o pobre animal de sua prisão do banheiro e levando-o consigo.

Na rua, encontrou com os meninos, todos sentados na sarjeta com cara de velório. Pareciam pássaros pousados em fio telefônico.

____E então galera? Qual é a desculpa?

Os garotos gritaram felizes ao vê-la e a rodearam saltitando.

____Que bom que escapou! - emendou o "chapa". Vick lhe apanhou pela orelha encardida.

____Não te esgano agora porque não tenho tempo. Vai no orelhão e liga para estas pessoas aqui até conseguir falar com alguém, ok? Diz que o matador está indo atrás de meu pai em uma pousada chamada Nova Suíça.

A policial saiu apressada em busca do matagal onde ocultara sua motocicleta e ainda ouviu um garoto comentando:

____Viu só, "chapa"? quem mandou se empolgar com o jogo? Nem vimos o monstrengo entrando na casa. O Baita quase deu cabo da Asa Negra!

____É... eu até pensei que ela tinha ido pro beleléu! - emendou o Crocoió.

MORTE NA NOVA SUÍÇA

Victória sentia-se congelar com o frio que fazia ao subir a serra. O nevoeiro descera e com visibilidade de poucos metros, ela tinha que pilotar lentamente. Conhecia alguma parte da Cantareira pois já fora em alguns tempos, passear com amigos motociclistas na Trilha das Torres. Sua moto era
inadequada para off-road, mas podia-se alugar uma moto estilo cross em vários locais. Estava aflita pois avançava com dificuldade e ainda se perdera em certo trecho, tendo que rodar alguns quilômetros a mais. Parou para esperar amanhecer e tentar encontrar o caminho certo. Não ia na Pousada Nova Suíça, desde que Elaine Di Angelis deixara de existir. Sabia que enfrentar o "Nix" sozinha era loucura, mas já tentara de todos os modos contatar com os "Neblinas" e não obtivera qualquer resultado.

____Onde eles estariam naquele momento extremo quando ela mais precisava?

Enfim, conseguiu encontrar o caminho certo para a pousada, e passou a descer a serra, pois o local ficava em um tipo de vale. Agoniava-se em imaginar seu pai correndo risco de vida e o desespero a fez descer o vale, rodando sobre valetas, pedras e muito próxima do abismo. Pilotava como uma maníaca. Entrou no local com as primeiras luzes da Aurora. Havia uma guarita que ela nem tomou conhecimento, abalroando com a robusta motocicleta todos
os obstáculos à sua frente.
Um grande gramado, separava as fileiras de chalés. Procurou aquele que segundo se lembrava, pertencia ao seu pai. Eram feitos de madeira, tipo casa pré-fabricada de dois pisos. Confiou em seu instinto e entrou chutando
a porta de acesso de um, exatamente o que tinha em sua garage a grande camionete de Antonio. A porta cedeu com um estalo. Não estava trancada.

Ouviu um ruído como um móvel sendo chutado. Com os sentidos aguçados ao extremo, Vick viu com terror que um corpo se debatia, suspenso em uma corda, justamente na sala da lareira. Agiu por reflexo ao lançar a enorme faca de
campanha que tinha na mão, acima do corpo, contra a corda. Atingiu seu objetivo e ouviu o baque surdo da queda da pessoa ao chão. Esta gemia e tossia. Ouviu a porta do piso superior batendo. Acudiu a vítima e assustou-se ao constatar que era Louise. Tirou-lhe a fita adesiva dos lábios
e cortou o fio que lhe prendia os tornozelos e os punhos para trás. A delegada levou a mão ao pescoço, agoniada e apanhou uma arma que tinha escondida nas botas e a deu para Vick. Não conseguia falar devido ao nó da corda que felizmente não era corrediço. Talvez o assassino quereria
torturá-la por mais um tempo antes de matá-la. O barulho que ouvira ao entrar, era do da cadeira onde Louise fora colocada, sendo chutada para que seu corpo pendesse da corda. Ainda bem que ela era de constituição pequena e
leve, pois podia-se estrangular com o tranco recebido no longo e frágil pescoço.

____Pegue-o! - mandou a Delegada, tossindo.___Mas tome cuidado! Ele está com Antonio!

Vick correu escada acima com a arma na mão e ao chegar na porta, o instinto a fez se jogar o corpo ao lado, exatamente no momento em que esta se abria e uma flecha mortal rasgava o ar, cravando-se na madeira do lado oposto.

Arrepiou-se ao se imaginar espetada como um inseto pela cruel e dolorosa flecha disparada pela "besta", uma arma medieval parecida com um enorme e robusto arco, usado na horizontal e conhecida na atualidade como Armsbrust.

Decidiu aproveitar o elemento surpresa e se sem deixar tempo para o assassino pensar, entrou correndo no quarto como uma bala de canhão, procurando surpreender o maníaco. Deparou-se frente a frente com aquele
homem monstruoso com a "besta" na mão e um sorriso maligno. Estava sem máscara, o que denotava que não tinha intenção de deixar ninguém escapar vivo.

Vick sabia que agora era lutar para sobreviver e não deixar o monstro lhe agarrar o corpo. Tinha a seu favor sua leveza e habilidade acrobática, porém seria o fim se ele a agarrasse. Sabia como um lutador de judô, pesado e lento podia quebrar um ágil e saltitante karateca. Apanhou tudo que
encontrou perto e atirou na criatura, vendo com terror que ele apenas desviava os objetos com a mão enorme, como uma grande aranha.

Lembrou-se da arma que Louise lhe dera mas não teve tempo de reagir pois o monstro com velocidade impressionante arremeteu contra ela, fazendo sua arma
voar a metros e apanhando-lhe o punho, como um gorila que apanha um graveto, puxando-a para si.

Vick no reflexo do desespero, laçou-lhe o pescoço com as pernas e começou a a apertar, tentando estrangulá-lo.
Ele se debatia, jogando o corpo para os lados, tentava atingi-la. Ouviu-se tiros. Era Louise que certamente o atingira pois o monstro uivou e lançou Vick longe, correndo rapidamente para a janela, levando ainda consigo a
"besta" e as setas.

A policial, ensandecida, pulou nas costas do fugitivo com uma faca e golpeou-o , mas a criatura continuava a se mover, jogando-a novamente ao chão. Ela girou no ar como um felino e ao pousar os pés no chão, apanhou,
televisão, vídeo, mesinha de cabeceira, ferro de lareira, tudo que encontrava à frente e lançava sobre o " Nix".

Este empurrou um móvel contra a policial e finalmente alcançou a varanda do quarto. Louise cambaleou com a arma e ainda deflagrou mais alguns disparos, porém, podia-se ver que ela ainda não estava toda recuperada da corda no
pescoço e não conseguia fazer mira com precisão.
Vick enfim, recuperando-se um pouco do transe em que entrara, percebeu amarrados e amordaçados, seu pai e uma mulher jovem desconhecida, sentados no ofurô dentro do quarto. Ao lado os galões com inscrição: Ácido
sulfúrico. Estava claro o plano do criminoso. Encheria o recipiente com uma parte de água e a outra com ácido, derretendo suas vítimas, enquanto se deliciaria de seus sofrimentos e agonia, sendo que Louise seria a parte
final de seu ritual macabro de onde retirava grande prazer.
Encontrou a faca e livrou os braços e pernas de seu pai que estava só de calção. Depois saiu em busca do fugitivo. No gramado, ouviu quando uma motocicleta roncava por uma banda do vale. Correu e encontrou várias motocross, enfileiradas. Sacou seu canivete de múltiplas funções e enfiou no lugar da chave em uma delas conseguindo ligar o motor. Acelerou e engrenou a marcha quando sentiu alguém lhe apanhando a cintura e sentando-se em sua
garupa. Era Louise.Arrancou, torcendo para lembrar como se controlava uma moto irada daquela, pelas trilhas, serra acima. Seguiu, orientando-se pelo ronco distante da
outra moto e pelas marcas dos pneus no solo úmido. A cada barranco e obstáculo vencido nas paredes cada vez mais acentuadas, sentia os dedos da Louise se fecharem com força em seu corpo.

____tome cuidado, sua maluca, ou vamos quebrar o pescoço! - sussurrou-lhe ela ao ouvido com sua voz rouca, ainda mais sensual.

____Não podemos perdê-lo! Não agora!

____Eu o feri, mas ele está com o sangue quente e as balas eram perfurantes.

Não estava usando as com "power-stop" explosivas. Não vim preparada para "aquilo"!

____Certamente! - concluiu Victória, imaginando que o maníaco surpreendera a todos os que estavam no chalé.
Em certos momentos, quando a trilha bifurcava, Victória tinha que confiar em seu instinto, com medo de que a cada barranco encontrado, ocultasse um precipício, mas continuava galgando a serra. Às vezes a motocicleta
escorregava para os lados ou a roda traseira emparelhava com a dianteira, quando então ela dava vários toques com o calcanhar no solo, como uma alavanca, mantendo o eixo do equilíbrio do veículo e prosseguindo. Por fim, quando já estavam preocupadas de ter perdido o "Legado de Nix", encontraram com a motocicleta que ele usara, com as rodas encaixadas em uma valeta.

Continuaram pela trilha com a mata se fechando mais e mais. A luz começava a ser apenas feixes que escapavam pelas copas altas e densas. Passaram entre dois troncos e Vick sentiu quando algo pesado lhe atingiu o ombro
derrubando-a da moto, que desgovernada continuou em frente até finalmente tombar. Louise pulou com destreza da garupa e correu por entre a mata, ocultando-se. Victória levantou-se atordoada, quando vê por uma fração de
segundos a "besta" voltada em sua direção. Saltou de lado, com estrelas e mortais, e quando finalmente pousou no solo, sentiu o baque de algo que lhe atingira e fixara no tronco de uma árvore atrás de si.

____Acabou! - pensou ao ver a sombra enorme se aproximando com dificuldade e armando outra flecha no cruel dispositivo. Não imaginava que acabaria assim,
trespassada em um bosque. Ouviu um disparo e percebeu que Louise a acudia.

Os olhos cruéis do assassino brilharam e ele desistiu de terminar o serviço com Vick , fugindo pesadamente pela mata. A delegada aproximou-se da policial que estava em pé, afixada contra a árvore e de olhos fechados.

____Di Angelis! - chamou Louise, Apanhando-lhe a cabeça nas mãos. Seus olhos estavam cheios de medo e angústia.

___não se atreva a morrer agora! Nós o pegamos. Ele está ferido. Não vai agüentar por muito tempo perdendo sangue, por mais que seja monstruosamente forte!

____Tudo bem! Louise! Eu não estou sofrendo!

A delegada começou a afastar a roupa de Victória, tentando descobri-lhe o ferimento que parecia ter lhe atingido o lado direito do corpo. Se tivesse atingido uma artéria, sabia que ela morreria em minutos.

Encostou seu corpo contra o dela, enquanto tentava chegar ao ferimento, sem mover a seta. Talvez conseguisse socorrê-la, apesar que naquele ermo era empreitada considerada impossível.

____Sua maluca! Não chamou seus colegas?

____Eu bem que tentei avisar, mas acho que estavam cuidando de coisas melhores...

____Criança tola! Está com o anel? Lembra que disse que ele te protegeria? Você vai sair dessa viva!

Victória gemeu e Louise gritou enquanto lhe dava tapas no rosto.

____Você vai sair dessa! Eu estou mandando!

A policial sorriu e pendeu o rosto para um lado, gemendo novamente.

____O que está sentindo? - tornou a perguntar Louise, agora com a voz suave e engasgada, enquanto continuava rasgando o couro e tecido por onde a seta entrara.

____Na verdade?

____Sim!
____Estou sentindo cócega! Muita cócega! Está mexendo em minha axila...

____O quê? -rugiu Louise, atirando-se a cortar com mais rapidez o que restava da jaqueta de couro de Vick e a camisa, descobrindo que ela estava presa no tronco, apenas pela jaqueta, que fora transfixada bem abaixo da
axila direita da policial, prendendo-a mas sem lhe atingir a carne.

____Você não foi atingida! - gritou a Delegada!

Victória piscou várias vezes, surpresa. Era certo que pensara que fora espetada e acreditara piamente que não sentia dor pois estava com o sangue quente ou em estado de choque.

____é mesmo? - perguntou com um sorriso sem graça, tentando compor os frangalhos do que restava de sua roupa.

Louise lançou-lhe um olhar fulminante, para depois sair correndo trilha acima com a pistola em punho. Resolvera continuar sua caçada sozinha, espumando de raiva.

____Volte aqui! Vai se perder ou cair em algum precipício. - chamou Victória e ao perceber que ela não lhe respondia, sobreveio-lhe um mau pressentimento.

Correu como pode pela trilha seguida pela delegada, mas estacou ao ouvir vários tiros, um grito bestial, seguido pelo gemido surdo de Louise.

Chegou a tempo de ver os dois, o maníaco e a delegada, rolando precipício abaixo. Ele a atacara como um animal ferido e acuado e lançaram-se no vazio, sem perceber que a trilha acabava no nada.

Vick correu para a borda da pirambeira e viu as arvores abaixo balançando.

Iniciou uma descida, agarrando-se a parede de rocha e foi descendo. Avistou um parapeito e dele uma árvore de copa baixa com os galhos avançando sobre o imenso vazio. Viu aterrorizada o corpo da Delegada, preso pelo tornozelo
na forquilha de um galho, suspenso e balançando suavemente com a cabeça para baixo. Seus olhos estavam fechados e um filete fino de sangue pingava de seu
corpo.

____Está morta! - constatou.

Como um flash, repassou em sua memória tudo que vivenciara com Louise e como ela lhe livrara do cano frio e letal da pistola do Duarte . Salvara-lhe a vida e não iria deixá-la ali, como um animal abatido dependurado, onde as
aves de rapina a alcançariam.

____Devo isso a ela! - pensou. Merece um sepultamento digno!

Desceu pela parede ao lado e avaliou. Havia um modo absurdo de conseguir retirá-la! Era pulando no abismo com um mortal, lançando o corpo, apanhando-a e pousando na parede oposta com precisão pois só havia pouco mais de dois palmos de saliência. Lembrou-se das lições que tivera na infância, onde aprendera que o corpo lançado como um bumerangue, quantas voltas fizesse no ar, usando a cabeça como pêndulo, prolongava o vôo.

Precisava calcular tudo para não se esborrachar na parede oposta e ricochetear para a queda fatal. Viu algumas raízes ali, onde pensou em enfiar as unhas quando pousasse e assim, se fixasse com o corpo de Louise entre si e a rocha.

Encostou-se na parede, pensando em sua mãe, em seu pai e em tudo que passara em seus vinte e cinco anos. Fechou os olhos em uma prece rápida e retesou o corpo, saltando com toda força e flexibilidade de sua juventude no ar, viu
na fração e segundos que ultrapassava, os olhos belos de Louise abrirem-se com uma expressão de terror. Era tarde. Girou no ar, apanhou-a no corpo e sentiu-a se agarrando com desespero a si, como um filhote. Naqueles instantes em que pairava, desafiando a morte, sentiu-se livre e
estranhamente feliz, como a muito não era. Parecia ter voltado ao seu elemento natural. O ar. O toque na rocha, fê-la imergir de seu sonho e suas mãos, como se pertencessem a outra pessoa, fincaram-se na rocha, musgo e raiz, ferindo-se mas cravando-se e firmando-lhe o corpo. Louise ainda estava agarrada ao seu corpo, agora apertada entre a rocha e Victória. Sentiu-lhe as lágrimas quentes escorrendo pelos seus seios.

A policial estava na beira de um colapso físico e psicológico, mas sabia que a vida de Louise e a dela ainda corria perigo. Precisavam descer o paredão.

___Continue segurando em meu corpo. Vamos descer calmamente.

___Não consigo andar. Não sinto meu tornozelo esquerdo.Deixe-me no sobressalto e suba em busca de socorro!

___Não posso deixá-la sozinha e ferida. Escurecerá e já está muito frio. Se ficar sozinha com a rocha, acaba congelando.

Observou finalmente , pela primeira vez que a delegada vestia apenas uma camiseta sem mangas branca e uma calça rústica jeans. Nunca a vira sem sua roupa social bem cortada e elegante.

___Vai logo, estou mandando!

___Não! Vamos descer. Só precisa se agarrar a mim e ficar quietinha. Para baixo meu esforço será menor. Confie em mim! Faço isso todo dia!

___Não se atreva a cair!

___Ouço e obedeço, chefe!.

Louise nada mais disse. Apenas enlaçou Victória por baixo das axilas e firmou-se com as costas para a parede. Vick iniciou a descida muito lentamente e com prudência. Podia sentir o rosto de Louise em seu ombro desnudo e o cheiro delicioso dos cabelos macios em desalinho. Estava com os
olhos fechados e a cada movimento da policial, podia sentir-lhe os dedos cravados em sua carne mais profundamente presos.

Ao fim de um tempo que mais pareceu um ano, Victória soltou-se da rocha e saltou. Louise gemeu e silenciou-se novamente com o ruído dos pés da policial em piso firme. A delegada tentou firmar-se na perna ilesa e tornou a gemer. Vick a apanhou nos braços como se fosse um gatinho e passou a caminhar.

___Onde vai?

Aquela voz soou fraca mas com certa autoridade.

___Vamos a algum lugar, sei lá!

___Não! Se caminhar, nos perderemos mais. É preciso ficar exatamente no pé do precipício de onde teríamos despencado. Então o grupo de busca encontrarão os rastros e descerão para buscar os corpos.

___Mas estamos vivas, minha querida!

___é! Estamos vivas! Mas espero que "ele" não esteja e quando as aves de rapina aparecerem, chamarão a atenção da equipe de buscas -afirmou Louise, olhando para Victória com um olhar novo. Havia ali respeito e uma grande
ternura, olhar este que a policial sabia que talvez nunca mais presenciasse.

___Eu lhe devo minha vida!

___Não me deve nada. Estamos quites.

___Salvar você do Duarte foi infinitamente mais fácil!

Victória mostrou a corrente de onde havia uma espécie de pingente onde se podia guardar algo em seu interior. Abriu-o e de lá retirou o anel.

___Lembra do anel da sorte?

Louise esboçou um sorriso, misto com um esgar de dor.

___Sente-se e deixe-me examiná-la. Preciso saber se está com alguma lesão interna.

___Se estiver, de que servirá o exame?

___Assim teremos tempo para encomendar a alma!

Deitou Louise suavemente no solo e afastou-lhe a roupa, tocando-a e procurando sinal de osso quebrado ou alguma lesão grave interna. Viu-lhe o tornozelo que inchava.
Ao fim, a Delegada pediu-lhe:

___precisa encontrar o corpo de "Legado de Nix" e comprovar se é mesmo o nosso homem! - fez uma pausa e continuou.

Victória deixou Louise sentada em uma vegetação rasteira e saiu na busca. Em dado momento, encontrou pedaços de carne. Afastou-se em repugnância ao reconhecer um tronco mutilado sem pernas, braços ou cabeça. Procurou os
membros. Encontrou um braço enroscado em um lado e examinou-o com um pedaço de graveto. Encontrou as pernas ainda presas nos quadris. Depois o outro
braço e finalmente na mão presa a este, a tatuagem. Pegou uma folha e com ela, arrastou aquele membro até Louise, mostrando-lhe. Depois, tornou a afastá-lo. A delegada fechou os olhos e suspirou profundamente sorrindo.

____Finalmente acabou! - suspirou e gemeu ao mesmo tempo, de modo que a policial adiantou-se rapidamente, apanhando-a novamente nos braços e a levando para um lugar mais distante do corpo mutilado e acomodando-a à
sombra de uma árvore.

____Não me disse como chegou até "ele"...

Vick contou sobre a tatuagem e toda sua aventura. A delegada ouviu atenta, com expressão admirada em alguns pontos e em outros, seu olhar endurecia.

____Acabou?

____Sim!

____Lembre-me, de quando sairmos desta para escalá-la em serviços corriqueiros! Acho que já esgotou totalmente sua parcela de sorte pelos próximos 100 anos.

____é! Pensando bem, um serviçinho rotineiro talvez me fizesse bem depois desta. Assim teria tempo para me dedicar ao amor.

____e por falar em amor, porque a Doutora Lizandra veio me procurar pedindo para se afastar da 44?

Victória ficou embaraçada, mas ali naquele ermo, sozinhas, encorajou-se e contou sobre o flagra que Liz lhe dera com Leandro.

____Estava na cama com Leandro?

____Sim, mas foi tudo um mal entendido!

____Explique!

A policial explicou o ocorrido e Louise mordeu seus lábios em claro gesto de aborrecimento.

____Está dizendo a verdade? Está contando tudo?

____Sim. Porque mentiria para você, Louise?

A policial falou com os olhos tão cintilantes que a delegada percebeu que ela estava sendo sincera, porém isso não a impediu de reagir de forma agressiva.

____Leandro Bittencourt é um rapaz bom, mas ingênuo. Decerto está se sentindo atraído por você. Parta o coração dele e lhe partirei a carreira em pedaços!

As palavras duras saíram com voz trêmula.

Victória aborreceu-se por não encontrar compreensão ali também e levantou-se de perto da delegada, postando-se a metros, encostada a uma rocha, silenciosa. Passaram-se minutos que se tornaram horas.

A noite caiu sobre elas e as estrelas eram tão luminosas e belas que Victória sentou-se para contemplá-las com expressão mais relaxada. Refletia sobre todo o risco que correra em sua vida e talvez que era hora de estabilizar. Não poderia se safar sempre e para ela, o prazer era fundamental e para se obter prazer, o importante é se manter viva.

_____Di Angelis! - chamou Louise. Victória fez que não ouviu. Estava magoada.

_____Victória, estou com frio!

A policial despertou dos seus pensamentos, engoliu seu orgulho e correu para Louise, preocupada. Tocou-lhe a pele e percebeu que estava fria.

____Preciso aquecê-la! - falou, já sentindo culpa de tê-la deixado tanto tempo sozinha e sem cuidados.

Sentou-se e colocou-a em seu colo, agasalhando-lhe o corpo com o seu, abraçando-a forte.

Louise a olhava atenta e estendeu sua mão, tocando-lhe o rosto.

____Sou uma pessoa com temperamento difícil! Precisa ser paciente! Antonio diz que para se relacionar comigo, é preciso se acostumar a dormir no pé do Vesúvio. Corre-se o risco de se queimar ou...

____ou?

____deixe pra lá. Não é importante.

____imagino que o complemento da frase seja: ou se incendiar de prazer.

Louise sorriu suavemente, encostando a cabeça no peito de Vick.

____Antonio também não é uma pessoa fácil! - emendou.

____O casal perfeito! - exclamou Di Angelis.

____Não! Estamos separados. Desentendimentos, entende? Mas nossa amizade continua sólida! Você viu a garota no chalé? É a mais nova namorada!

____E você não se importa? Não sente ciúmes?

____Também tenho meus namoros e assim o tempo passa e todos ficam bem! - revelou Louise, tornando a fechar os olhos.
Vick ficou em silêncio, pensando em Lizandra. Aquela noite linda lhe apertava o peito. Queria estar naquele momento em Monte Verde com ela.
Estariam talvez ambas olhando as estrelas...

____O que está pensando? - perguntou Louise.

____Em Monte Verde! Em Liz...

A policial não sabia porque, mas naquele momento, não tinha nenhum pudor diante da delegada. Era como se estivesse segredando com Agnaldo.

_____Quando sairmos deste buraco, vai procurá-la? - continuou a delegada.

_____Não tenho certeza! Estou magoada! Ela nem ao menos se despediu ou me deixou abrir o coração, ficou só me agredindo com palavras que aprofundaram mais a mágoa. Não sei como vou agir a respeito.

____Você a ama?

____Estou confusa, mas a verdade é que sinto muito a falta dela. Preciso de paixão pra me manter feliz e fazer meu sangue jorrar forte, quente. Mas, também me preocupa a inconstância de meu coração. Hoje estou enlouquecida de
paixão, outro dia, acordo vazia de qualquer sentimento. Me preocupa a volatilidade pois não se lida com objetos e sim com pessoas. Às vezes penso se não seria melhor estar sempre sozinha!

Louise acariciou-lhe novamente a face.

_____Não precisa carregar tanta culpa ou medo, minha cara, um dia vai estabilizar e o que precisa fazer é aprender a conviver bem com seu coração impetuoso!

_____Como pode saber?

_____Já fui assim.

_____Foi? - perguntou a policial admirada com aquela revelação.

_____Fui! Mas...

Silenciou e aconchegou-se mais ao corpo de Victória, fechando os olhos como se estivesse mergulhando em sono profundo.

_____Descanse minha querida! Vou cuidar de você! - sussurrou Vick.

As horas passaram-se e Victória refletiu sobre sua vida, sobre tantas coisas novas, sobre a descoberta que lhe aflorou naquele momento que talvez Louise
significasse para ela, mais do que pensava. Lembrou-se do desespero de vê-la pendendo daquele galho, aparentemente sem vida. Sorriu invadida pela felicidade que tomou seu peito de senti-la em seu colo, adormecida e a salvo. Apanhou-lhe suavemente a mão esfolada de onde resplandecia um diamante solitário belo e valioso. Beijou-o. Louise abriu os grandes olhos azuis e a fitou.

____Para dar sorte! - explicou Vick.

Recebeu como resposta um sorriso lindo e uma pergunta.

____quando amou pela primeira vez?

A policial foi pega de surpresa com aquela pergunta tão pessoal, porém sabendo que ambas ainda estavam sob o efeito do trauma de quase morte sofrido, e portanto segredos parecia proibidos naquele local, decidiu tentar
conversar sobre algo que à simples lembrança lhe fazia o peito doer como se tudo tivesse acontecido no dia anterior.

____Bem, na verdade, a primeira paixãozinha geralmente acontece pelo professor, não é? As minhas não foram diferentes. No pré-primário, adorava a "tia" Susan. Passava horas no colo dela e ela adorava pentear-me os cabelos
cacheados. Depois vieram outras "tias".

____Nunca um rapaz?

____É estranho, mas, não! Eu adorava estar no colo "delas", envolvida nos cabelos perfumados, cheirosos e escondendo-me em seus seios.

Louise riu suavemente.

____bem, continuando, eu já praticava ginástica olímpica, tinha 12 anos e já me destacava de outras da minha equipe. O professor, resolveu mudar-se e aí foi quando a nova professora apareceu. No início a turma não ficou contente
pois ela parecia muito nova e franzina em comparação ao nosso antigo instrutor. Porém, aos poucos, ela foi nos cativando com sua simpatia e capacidade. Estava com 21 anos e já era uma atleta que se destacava nacionalmente e internacionalmente. Casou-se dois anos depois e eu quase
morri de desgosto.

____Amar alguém do mesmo sexo, nunca te trouxe algum tipo de angústia e medo?

____Não. Não no meu caso. Amar alguém do mesmo sexo para mim foi tão espontâneo e natural, tanto na aceitação desta condição, tanto na falta de medo que tinha diante do mundo e diante de tudo, quanto se ter seios crescendo de um dia para outro. Eles aparecem suavemente, estão ali e você sabe que é o curso natural de tudo.

____interessante comparação! - disse a Delegada.

____Decerto porque na minha família, tanto meu pai quanto minha mãe não são do tipo de ficar alimentando tabus e preconceito. Sempre optaram pela modernidade e bom senso. Educação familiar é tudo na formação das pessoas.

____Certamente!

____mas descobri logo que era melhor manter minha vida particular resguardada de intrometidos e preconceituosos. Tanto melhor assim. Evita-se problemas, principalmente com os hipócritas ou furiosos que insistem em te
classificar de aberração da natureza. Henrique Duarte passou a me odiar a ponto de querer me matar depois que soube que eu e Liz tínhamos uma relação.

Antes ele era um colega problemático, insistente, daqueles que querem te namorar a todo custo e contam para todo mundo que se deitaram com você, mas eu já estava acostumada com esse tipo de pessoas.

____E a professora de ginástica?

____ah! Aos 22 ela se casou e eu quase morri de coração partido!

____Ela sabia de sua paixão?

____Eu me declarei e até roubei um beijo, mas ela disse que eu estava confundindo minha admiração por ela com outro sentimento. Aos 23 ela morreu.

Estava treinando para uma competição nacional, apenas acompanhada pelo marido no ginásio. Fez vários exercícios, até que na barra, ela voou, girou e caiu de ponta cabeça no chão. Quebrou o pescoço.

____Mas como?

____Havia tido uma parada cardíaca antes e desmaiou no meio do exercício.Tudo efeito de anabolizantes e outras drogas que tomou bem antes da puberdade. Algumas para formar a musculatura e fortalecer os ossos. Outra
para conter o crescimento dos seios e do corpo, o que encurta muito a carreira de uma ginasta. Seios grandes desequilibram. Lembra da Nadia Komanechi?

____Sim! Fiz um estudo sobre este tipo de droga. Causa falência dos órgãos dos atletas. Ataca rim, fígado e principalmente o coração.

Vick suspirou.

____Foi quando iniciei uma fase ruim em minha vida. Odiava tudo, odiava quem fabricava estas drogas, quem vendia... e aí minha mãe morreu. Foi quando meu mundo pareceu despencar de vez, mas por mais que o Antonio tenha me levado ao psicólogo e outros profissionais, nada melhorava. Aí comecei a beber e a sair pelas noites com má companhia. Chegava de madrugada em casa e passei a praticar "quebra-lustres", "quebra-cristaleiras" e depois evoluí para "quebra-móveis"...

____Estava usando alguma droga?

____Não. Droga não, mas bebia como uma ratazana e bebida é uma droga perigosa, só que não é proibida. O restante você já sabe. Antonio mandou me enjaular...
Riu. Um riso nervoso e curto.

____E como se decidiu pela carreira policial?

____Sempre achei legal ser policial. Adorava filmes de ação, de FBI e daí resolvi prestar concurso e academia. Um pouco também para azucrinar meu pai que sempre quis que eu me formasse em administração de empresas. Acabei gostando da carreira policial. O resto você deve saber de cor. Está tudo lá nos meus prontuários...

Louise silenciou-se por alguns minutos e a policial passou a beijar-lhe os cabelos, carinhosamente enquanto a percebia mergulhar novamente em sono profundo.

Não sabia quanto tempo dormiram abraçadas, mas ao acordar com o sol aquecendo-lhe o corpo, Victória ergueu-se com dificuldade devido às pernas adormecidas e o peso de Louise. Procurou abrigo sob uma árvore, já incomodada com o cheiro ruim que a brisa trazia, certamente oriundo do corpo mutilado nas imediações. Alguns urubus já rodavam no céu, naquele vôo circular característico.

Minutos depois, achou que ainda estava sonhando quando ouviu vozes de pessoas que desciam o paredão e o barulho das hélices de um Helicóptero que se aproximava.

____é o resgate! ajude-me a levantar, Di Angelis! - pediu Louise.___Quero recebê-los em pé!


O RESGATE

A equipe de resgate parecia não acreditar que houvesse sobreviventes e logo dois médicos se ocuparam de Louise, aplicando-lhe os primeiros socorros e preparando-a para o vôo. Enfim, avaliaram os ferimentos de Victória e constataram que eram apenas escoriações leves.


No corredor do hospital da cidade mais próxima, Antonio Di Angelis encontrou a filha sentada, com vários curativos pelo corpo e a abraçou forte sem conseguir conter as lágrimas.

____meu nenê! - chamou-a, emocionado, enquanto lhe acariciava os cabelos e a beijava.

Depois, quando conseguiram controlar a emoção e o choro, ambos foram ver Louise que fora medicada e dormia sob o efeito de sedativos, com o tornozelo fraturado engessado. Julia e Leandro estavam ao seu lado, quietos. Julia se mostrava transtornada, beijando repetidamente as mãos, o rosto e os cabelos da mãe.

____Acalme-se July! - pediu Leandro em voz baixa e com imensa ternura.___Ela agora está bem e fora de perigo! Depois que os exames saírem, talvez possamos levá-la para casa.

A adolescente que chorava baixinho , ao ver Vick, correu para abraçá-la forte.

____Eu adoro você! Você a salvou!

E aí vieram os pedidos:

____me ensina a andar a cavalo? Andar de moto? A nadar?

Victória riu totalmente pega de surpresa pelos pedidos de Julia. Ela podia ter professores para qualquer uma desta atividades e foi isso que argumentou para a garota, não conseguindo demovê-la.

____Quero você, Victória! Mamãe não confia em ninguém e me confina temendo que eu seja seqüestrada ou coisa pior. Com você é diferente. Sei que poderá cuidar de mim e ainda me ensinar bem pois você faz tudo muito bem!
Antonio Di Angelis sorriu para Vick com uma expressão: Tenha paciência com ela. Lembre-se que você também foi adolescente!

A policial cedeu.

____Tudo bem! Mas só se sua mãe permitir e na minha disponibilidade. Só quando EU for montar, ou nadar no clube ou mesmo tiver um tempo ocioso para te ensinar a pilotar moto, apesar, que esse você vai ter que esperar. É muito nova para ter habilitação.

Louise abriu os olhos e Antonio e Victória aproximaram-se.

____O que você fez com minha nenê? Louise? Ela quebrou o chalé inteiro encima do monstro, além de ter voado pela sala como se fosse a mulher-gato!

____Mulher-gato, certamente! - riu Leandro.____Tem mais do que sete vidas!

____Nem tantas assim. Ela gastou algumas delas comigo! - emendou Louise, com a voz fraca.

Antonio tornou a abraçar Victória, forte e a beijá-la repetidamente, o que a policial ficou embaraçada por aquele gesto efusivo diante de outras pessoas, mas a verdade era que ela estava adorando o chamego do pai e aninhou-se nos braços dele, retribuindo o carinho, afinal os Di Angelis eram impetuosos, temperamentais mas também muito carinhosos.


FOBIA

Três dias se passaram e a equipe da sala 44 estava reunida em torno da mesa de reunião, excitados pela presença da chefe que viera ao Distrito pela 1ª vez após seu acidente.

Louise já restaurara sua aparência autoritária e de fria indiferença. Edgar fez um discurso de boas vindas e secou uma lágrima que escorreu pela sua face peluda.

Vick tentava disfarçar o olhar ansioso para a chefe, esperando em vão um olhar especial, um gesto, uma palavra. Edgar combinara que no fim de semana seguinte participariam de uma festa em homenagem a Louise e Victória. Todos pareciam animados, exceto Ana Beatriz que tinha o olhar fixo na chefe, como se quisesse mergulhar no azul profundo de seus olhos. Vick não podia entender, mas isso a estava incomodando.

Edgar agora repassava ao grupo, as novas diretrizes de segurança e risco zero, que Louise e ele haviam arquitetado. Consistia em enxugar ao mínimo, qualquer atividade de risco, poupando assim os membros da equipe 44. Lembrou que Victória errara por um lado por ter continuado a investigação sozinha, mas que também se não fosse sua descoberta e interferência junto aos planos do assassino a tempo, teria acontecido uma verdadeira tragédia.

____O importante agora é, agir com o grupo. Não agiremos mais individualmente. Agora se moverão aos pares, terão que manter obrigatoriamente um HT sempre à mãos e tudo que for descoberto em qualquer investigação proposta, deverá imediatamente ser comunicada às cabeças. Ou seja: para nossa titular e para mim.

Todos concordaram e os pares foram rearranjados. Agnaldo ficou com o Edgar, Mestre Takahishi com Leandro, Ana Beatriz com o mais novo membro convocado: o médico psiquiatra, William Salomão.

____É certo que agora que está encerrado o caso "Legado de Nix", vamos nos ocupar na investigação e busca de maníacos e casos complexos de homicídio.
Victória abriu a boca várias vezes para perguntar qual seria seu parceiro, porém teve que admitir que talvez este ainda não houvesse sido escalado, senão o Edgar o apresentaria na mesa.

Reunião encerrada, Agnaldo passou a fazer festas com Vick, brincando de carregá-la no colo, beijando-lhe o rosto e apertando-a contra si.
Louise saiu da mesa, apoiada por muletas e não a viram mais pela manhã. Na parte da tarde, Vick que estivera almoçando com Agnaldo e já descansava no intervalo do almoço em uma cadeira no refeitório, quando seu Ht chamou e ela atendeu.

Era Louise convocando-a para uma reunião particular em seu gabinete. O coração da policial pulsou forte.

Despediu-se dos colegas no refeitório e dirigiu-se para o corredor que dava acesso ao hall do elevador, ficando muito surpresa ao encontrar ali, a delegada, sozinha e ainda com o HT na mão.

____Pode me ajudar? - pediu ela.

____Claro!

E assim ambas entraram no elevador, com Victória ajudando Louise, segurando-a pela cintura e ela com o braço no ombro da policial. Acionaram o ultimo andar que era o do gabinete e aguardaram, quietas, uma diante da outra.

O celular de Vick tocou e ela tremeu a ouvir a voz de Lizandra.

____Di, você está bem?

____Sim! - respondeu Vick, com a voz trêmula.

____Já soube de tudo! Agnaldo me contou!

____Ah! -exclamou a policial sem saber o que dizer.

Não teve a oportunidade de continuar a conversa, pois Louise em um gesto rápido e totalmente inesperado, fechou o flip do aparelho, derrubando assim a ligação.

____O que está acontecendo? - perguntou Vick, indignada.

____Enquanto estiver perto de mim, te proíbo de atender a telefonema dela!

____Não estou entendendo!

____Não precisa entender! - cortou Louise com o rosto pétreo.

Em certo momento, o elevador parou bruscamente e as luzes piscaram várias vezes e por fim apagaram.

____Acho que pifou! - comentou Victória, nervosa diante da atitude agressiva e controladora da chefe.

Louise sacou de seu HT e fez alguns contatos.

Vick percebeu, pelo que ouvira, que por estar chovendo forte, um raio caíra e possivelmente queimara algum circuito eletrônico. Talvez ficassem por ali uma ou duas horas presas. O bombeiro foi acionado.

____Que remédio a não ser esperar? - exclamou Louise, amuada.

A policial permanecia silenciosa em seu canto, imersa em seus pensamentos e ao mesmo tempo, aborrecida.

Quando voltou a fixar Louise, pôde ver que ela estava muito pálida e tremia quase imperceptivelmente.

____O que houve? - perguntou aflita aproximando-se preocupada.
A chefe emitiu um riso nervoso.

____Lembra-se que me contou sobre a fobia do "Legado de Nix" por ratazanas?

____Sim!

____Todos temos fobias...

____O que quer dizer?

Louise olhou-a nos olhos embaraçada, enquanto de sua face o suor iniciava a escorrer copioso.

____Eu tenho claustrofobia e estou entrando em pânico! Está ficando difícil respirar...

Vick a acudiu e apertou-a nos braços.

____Vou tirá-la daqui!

Louise já estava com o corpo lasso e se encolhera no canto do elevador, ofegando desesperada por ar.

Victória sacou a enorme faca que tinha presa na bota e começou a forçar a porta (nunca tentem isso) até conseguir abrir dois palmos. Estavam entre dois pisos, sendo que o vão maior era no piso superior.

Apanhou Louise nos braços e a empurrou rapidamente para o piso superior, temendo que o elevador se movesse. Depois jogou as muletas e pulou por sua vez, em um salto ágil e rápido como um bote. Percebeu que estavam exatamente no último andar que era o do gabinete. A delegada estendeu-lhe a chave, com as mãos tremendo, meio desfalecida, sentada no soalho. Victória entendeu seu gesto. Sabia que ela não queria que ninguém a visse naquele estado. Abriu o gabinete e a carregou para dentro, fechando cuidadosamente. Deitou-a no sofá .
Lembrou-se do gelo no frigobar pois a chefe estava com os olhos fechados e ainda respirava com dificuldade. Encontrou a cuba e preparou-se para lhe passar na fronte, procurando por algum lenço de tecido ou algo similar. Não encontrou nada e então decidiu retirar sua camiseta sem mangas e envolver o gelo no tecido.

Aproximou-se passando suavemente o gelo no rosto de Louise, em seus lábios e fronte. Ela abriu os olhos lentamente e a fitou.

____Está tudo bem agora. Estamos a sós no gabinete e eu o tranquei por dentro para ninguém inventar de aparecer sem avisar.

A delegada pareceu recuperar-se aos poucos e suspirou, olhando-a intensamente.

____o que fez da sua camiseta?

____Ah! Não encontrei nada para o gelo! Vê?

____Estou vendo seus seios. Não usa sutiã?

____Não preciso! Eles são médios e firmes!

Breve silêncio entre as duas, rompido finalmente pela delegada.

____Porque será que tenho a nítida impressão de que você está tentando me seduzir? Saiba é pura perda de tempo. Não sinto qualquer atração pelo sexo feminino. Mulheres não estão "equipadas" ou aptas a me dar prazer!
Aquela observação, aborreceu Victória que até então não fizera qualquer movimento consciente com qualquer finalidade de seduzir a chefe. Estreitou os olhos e parou de passar o gelo no rosto de Louise.

____Tudo bem, se é assim que pensa, nada posso fazer a não ser me aborrecer. Além do mais, não daria encima da mulher de Antonio Di Angelis.

____Não pertenço a ninguém! - afirmou Louise, seca, com os olhos faiscantes.
O celular de Victória tornou a tocar e ela o retirou de sua cintura. Era novamente Lizandra.

____Victória! Não desligue novamente!

____Desculpe-me mas meu celular está com defeito, decerto de tanto que o joguei contra a parede!

Lizandra riu um riso nervoso!

____Me liga hoje no final do seu expediente? - pediu a médica.

Victória ia dizer que tudo bem, ligaria, quando sente novamente a mão de Louise tomando-lhe o aparelho da mão, fechando-o e o atirando a um canto do sofá.

____Que foi isso? - perguntou a policial, alterada.

____Ainda não mudei de idéia quanto a receber telefonemas de namoradas quando estiver reunida comigo!

____Reunida? Quem está reunida? - perguntou Victória nervosa, estendendo o corpo para alcançar seu aparelho que agora estava na mão de Louise. Neste movimento, encostou seu seio no rosto dela, que apanhou-o em um reflexo com os lábios, sugando-o fortemente.

____ssssssssss! - gemeu Vick, pega de surpresa e sentindo uma fisgada forte de súbita excitação em seu sexo. Voltou o rosto para baixo para contemplar aquela cena linda, que era os lábios cheios e muito corados de Louise, sugando-lhe o seio com sofreguidão. Moveu-se cuidadosamente para cima do sofá, cuidando para não apertá-la e segurou-lhe a face nas mãos, enquanto se deliciava daquele estímulo sensual maravilhoso. Sentiu a outra mão dela, acariciar-lhe o outro seio, tocando-o de forma forte e possessiva, chegando a ponto de machucá-la.

Com a dor, Vick apanhou Louise nos braços e puxou-a para cima de si, invertendo as posições. Assim poderia acariciá-la sem correr o risco de apertá-la sob o peso de seu corpo quinze centímetros maior. A delegada libertou o primeiro seio, que agora se apresentava túmido e muito corado, passando a sugar agressivamente o outro.

____Querida! Assim você está me machucando! - pediu Victória.

____a seco não dá, não é? Precisa de beijinhos para ficar molhadinha? - perguntou Louise com um sorriso malicioso nos lábios, agora mais cheios e túmidos.

A policial sobressaltou-se pois lembrou-se que havia dito uma frase semelhante para Lizandra na noite do " VALHALLA".

____como?

Louise apanhou o celular de Vick e o colocou aberto sobre sua barriga.

____Precisa cuidar mais deste aparelhinho traiçoeiro quando estiver transando no cio com a namorada. Se não desligá-lo direito.

Victória lembrou-se de que o celular tocara naquela noite com Lizandra e ela tentara desligá-lo mas decerto acabara sim, acionando-o.

____Desculpe! Mas ouvi boa parte dos gemidos e suspiros, além das palavras, muitas vezes ininteligíveis. Mas desliguei logo, quando percebi que você não estava sendo torturada por um tarado assassino e que não corria risco de vida...

Vick apanhou o celular e o atirou contra a parede da sala em um arrufo de cólera. Preferia descontar sua ira nos objetos.

Louise a olhou séria, acomodando melhor seu corpo no da policial, corando logo em seguida, fechando os olhos com um sorriso nos lábios. Depois, deixou-se aninhar com o rosto colado no dela, respirando profundamente.

Um minuto se passou com elas silenciosas e a policial se sentindo um colchão de luxo, porém seu ânimo zangado começou a esfriar e pode sentir contra seu corpo, toda a firmeza do de Louise, admirando-lhe a barriga bem formada, os membros com boa musculatura, além da textura de sua pele. Não havia flacidez.

____Como faz para manter a forma? - perguntou timidamente.

Louise sorriu vaidosa e disse que era sua segunda natureza, malhar e fazer ginástica.

____Tenho uma academia completa em minha casa. Quando não estou trabalhando, ou estou fazendo exercício ou... cuidando de minha vida pessoal.

A policial concluiu que era este o motivo então que às vezes a chefe parecia ofegante quando lhe contatava pelo celular ou outro aparelho de comunicação. Ainda estava imersa em suas conjecturas, apreciando intensamente o corpo macio da delegada contra o seu, quando o HT desta tocou.

Louise apanhou-o preguiçosamente, acomodando-se sobre um braço.

____O que quer, Agente Beatriz? Mudar de parceiro? Quer saber com quem vai ficar a agente Di Angelis?

Ouviu atentamente, enrugando a testa.

____Não estamos em uma colônia de férias! Acostumará com seu parceiro!
Victória sentiu um desejo irresistível de provocá-la. Abriu a boca, como se fosse falar e Louise rapidamente lhe tapou os lábios com a mão livre.

____Se o Edgar agora tem um parceiro, eu também devo ter um? Você está se candidatando para ser a minha parceira? Impossível! Eu já tenho! Edgar quem escolheu. É a Di Angelis!

Ouviu algo que a fez piscar várias vezes, nervosa.

____Não questione e obedeça! Não quero conversar mais sobre isso. Se quiser, reclame com o Edgar.

Desligou com a boca apertada devido a irritação.

____Então eu sou sua parceira? - perguntou Vick, perplexa.

____sim! Deveremos trabalhar juntas nas ações e investigações que exigirem a equipe dos "Neblinas". Mas não se preocupe, como o caso do "Nix" está encerrado, voltaremos as atividades corriqueiras do distrito até que apareça algo digno do trabalho da equipe de elite. Até lá, ficará com seu parceiro Agnaldo no setor de investigação de casos arquivados e tidos como sem solução.
Levantou-se sensualmente, ainda fazendo uma carícia nos seios de Victória . A policial, envolvida totalmente com o modo sedutor de Louise, apanhou-lhe a nuca com a mão e puxou-a para si, tentando roubar um beijo daqueles lábios de cereja, sendo que teve sua tentativa frustrada pois a delegada virou o rosto dizendo:

____Não! beijo é para namorados ou amantes apaixonados e não somos nenhum dos dois. Contente-se com as carícias sensuais de uma pessoa adulta, talvez movida por curiosidade, talvez por gostar de se sentir desejada por alguém mais novo e cheio de vitalidade. Talvez. O certo é que essa brincadeira muito interessante cessa aqui.

Caminhou lentamente apoiando-se no pé engessado, para uma sala contígua a sua.
____Vou te emprestar uma camisa minha. Agora pode ir. Está dispensada.


O SABBAH

O comportamento de Victória a respeito de Antonio Di Angelis mudou radicalmente. O trauma de quase perdê-lo a fez ir se reaproximando do pai mesmo que timidamente. Ato contínuo, passou a aceitar os convites dele para passeios, eventos sociais, cavalgadas entre outras atividades. Até a imprensa local publicou uma nota sobre a restaurada amizade do badalado empresário e sua primogênita.

Na delegacia o trabalho junto aos arquivos e as investigações de rotina, transcorriam bem ao seu ver, exceto pelo fato de que passara a ver Louise parcas vezes e esta, não mais a chamara para entrevistas particulares em seu gabinete e quando a convocava,
sempre o fazia em conjunto com algum colega não abrindo mais qualquer espaço paraficarem a sós.

Depois daquele dia totalmente insólito, quando a titular lhe beijara os seios, dentro da policial crescera rapidamente, mesmo o combatendo veementemente, um sentimento ambíguo e o desejo de ter mais, muito mais e seduzir.
Necessitava com muita sede, descobrir até onde conseguiria avançar no duro e ariscocoração da chefe, principalmente pelo efeito avassalador e perigoso que as palavras:
"mulheres não estão aptas ou equipadas para me dar prazer" ditas por esta, lhe causaram.

Estava lançada a semente do desafio e Victória sabia que não demoraria muito para quesubmeter Louise aos seus desejos profundos e inconfessáveis, se tornasse uma obsessão e de nada adiantaria tentar ser sensata e coerente.

Não demorou muito para surgirem as oportunidades para o ataque com a proximidade de Leandro e Júlia de si, e a primeira foi em um sábado preguiçoso, quando disputava uma partida de tênis com Antonio Di Angelis no clube local.

A custo conseguira lhe ganhar um set e após um longo e difícil embate, ganhou o jogo, já com o corpo todo molhado pelo suor, o que só lhe aumentava a sensualidade.

_____Está ficando bamba, Nenê - elogiou o pai.____Mas, por mais que consiga me vencer, acredite! "dela" você não "leva" uma. Madame Bittencourt coloca a bola na sua quadra onde quiser, sem qualquer esforço. Compensa a força com a habilidade, inteligência e estratégia de jogo.

Apontou Louise que estava sentada, muito séria, assistindo o jogo, com seu pé engessado em uma mesa perto da grade protetora da quadra.

Victória de tão aplicada que se mantivera em ganhar as partidas duras e difíceis contra Antonio, não percebera quando "ela" chegara.

O pai, recolheu seu equipamento e a toalha, indo conversar sorrindo em direção da recém chegada.

Um rapaz alto e bem apessoado se aproximou, pedindo para jogar uma partida contra Victória e esta aceitou, partindo para um intenso e difícil jogo, entusiasmada com a
possibilidade de impressionar a delegada. Sua minúscula saia branca e a camisa pólo, lhe grudavam no corpo e em certo momento, percebendo os olhos de Louise fixos em si.

Disfarçadamente enfiou a mão sob a mini-saia de tênis, ajeitando sua calcinha branca, sedutoramente. No ângulo, Antonio e o rapaz do outro lado da quadra nada puderam
perceber, apenas o "alvo feminino", que pareceu endurecer mais o semblante, diante do gesto.

Em outro intervalo da partida, Victória continuou a arremeter sem trégua, apanhando uma garrafa de água que derramou deliciosamente em seu rosto, deixando que o líquido
refrescante lhe escorresse pelo pescoço e colo, eriçando os bicos de seus seios, soltando um suspiro de satisfação, sem tirar os olhos disfarçadamente ocultos sob suas espessas pestanas negras, de Louise.

Percebeu que o moço, com quem jogava já se encontrava envolto no clima de sedução que criara, enquanto a "Demi Moore de olhos de safira", parecia totalmente concentrada em sua conversa com Antonio.

____Acho que estou perdendo o jeito! - ruminou Vick, tornando ao jogo com gana de uma pantera negra, aniquilando seu adversário com várias jogadas fortes e precisas.

Ao fim, caminhou para a mesa do pai, com um sorriso nos lábios.

____vou tomar um banho, para depois subir a Serra!

Antonio a olhou preocupado.

____Não suba. Está se formando um nevoeiro perigoso no local! Fique em seu apartamento na cidade, pelo menos até o tempo melhorar!

____Marquei com "alguém" lá no sítio. - riu Victória, blefando e observando a reação de
Louise, com sutileza.

O pai a envolveu os ombros com o braço, sorrindo.

____Ah! Às vezes esqueço que minha "nenê" já é uma mulher feita e que tem vida particular...Mas... este seu "alguém", você pode encontrá-lo outro dia ou aqui na cidade. Se subir a serra hoje, vou ficar preocupado.

Victória, percebendo-lhe o medo, resolveu encerrar seu blefe.

____Tudo bem, não se preocupe! Mudei de idéia. Prometo que ficarei por hoje na cidade.
Agora...preciso tomar um bom banho. - disse, enquanto se dirigia aos vestiários femininos do clube.

Nua sob a ducha forte, Vick não conseguia desviar seu pensamento de Louise, e só de lembrar dela, tremeu, entrando em êxtase, percebendo por fim que não conseguiria relaxar e amainar a fúria de seu corpo se não se tocasse imediatamente. Iniciou, ensaboando os seios, massageando os mamilos já intumescidos, com o rosto voltado para o azulejo.

O vestiário estava vazio e não havia porta nos chuveiros.

Sentiu o corpo lasso diante do orgasmo que se aproximou rápido e a possuiu toda. Fechou os olhos, com o corpo vibrando, gemendo baixinho, ainda com uma das mãos no seio e a outra entre as coxas.

Sentiu um sobressalto quando o perfume dela lhe alcançou as narinas. Não podia saber quanto tempo ela se mantivera ali, silenciosa assistindo seu corpo se agitar no prazer mas ainda permanecia silenciosa com os olhos fixos em Victória.

Diante daquele flagrante, a policial não conseguia articular palavra e foi Louise quem acabou rompendo o silêncio.

___Você estava demorando para sair e Antonio está com pressa e ainda quer falar contigo. Então entrei.

___Há quanto tempo está aí?

___O suficiente!

Vick riu, um tanto nervosa, ainda amolecida pelo orgasmo e o susto de ter o objeto de sua fantasia secreta bem à sua frente, falando-lhe.

____Bem! - explicou:___ É que... jogar e ganhar me excita! Então preciso saciar meu corpo! Apenas isso. Não esperava ser flagrada. Preciso ser mais prudente.

Louise sorriu, suave e maliciosamente, daquele jeito tão característico seu.

____Devia ter deixado este trabalho para o "alguém" que lhe espera serra acima! - alfinetou.

____Bom, como hoje eu já não subo a serra, este "alguém" terá que descer! - completou Vick, devolvendo o ataque.

A delegada continuou observando-a. Parecia estar avaliando a veracidade de suas palavras, medindo, testando, estabelecendo conexões e buscando liames. Enfim, moveu os ombros em um movimento típico de indiferença que por mais que se esforçasse, não coadunava em nada com os lábios apertados, acompanhado pelo olhar intenso que bebia o corpo nu, molhado e harmonicamente esculturado da policial.

Victória parecendo adivinhar-lhe a fresta em sua couraça de indiferença e desprezo, não resistiu e aproximou-se dela, pois sonhara todos aqueles dias com uma oportunidade de
poder falar-lhe ao coração.

____podemos ficar a sós hoje, no meu apartamento. Poderemos ouvir música e beber um bom vinho para relaxar. Poderei velar pelo seu sono, protegendo-a em meus braços como naquela noite, lá no abismo, lembra? Vou aquecê-la com meu corpo, cuidar de você. E então? Você vem?

____O abismo? - ecoou Louise.____como poderia me esquecer do abismo?

Disse isso e saiu, tão silenciosamente quanto entrara, deixando atrás de si, a policial, refletindo se deveria ter sido menos direta e explícita em sua abordagem, evitando assim,
assustar aquele espécime raro e arisco, fazendo-a fechar-se mais.

____O mundo é um bairro e esta cidade não é grande o suficiente para você me evitar, Louise! Ainda vamos nos encontrar em alguma esquina de um dia luminoso e saberei o quanto ainda conseguirá resistir-me! - pensou Victória, obstinada enquanto se vestia.

Não demorou muito para que o acaso promovesse o outro encontro da duas. Desta vez foi na hípica, quando Victória se dirigia às cocheiras a fim separar uma montaria e galopar um pouco. Encontrou Julia que conduzia um cavalo castanho avermelhado pelos arreios, com grande dificuldade.

____Eles percebem quando você está com medo! - avisou Vick.

____Hoje é minha aula de equitação mas já me aborreci com meu instrutor e o dispensei! - respondeu a garota, aborrecida.____Eles me tratam como uma criancinha tola...

Victória riu, lembrando-se de sua difícil fase de adolescente, oferecendo-se para ajudar.

____Venha, gentil senhorita. Se quiser, a "tia" Di Angelis lhe dará de graça algumas instruções importantes pra você controlar este seu "beiçudo".

Riram descontraídas e ainda conversavam quando em certo momento, presenciaram Louise passar, a três cercas dali, em pleno galope.

____Aquele é o "Posseidon", o cavalo preferido dela. Minha mãe monta desde os 5 anos. É uma amazona habilidosa mas não tem a mínima paciência para me ajudar a aprender. Um dia ainda consigo ser como ela, mas tenho medo de cair. Já caí uma vez e isso dói...

____Dói e é perigoso, mas não se preocupe. Eu vou te ajudar. Verá que o principal segredo está em vencer o medo e conhecer o animal. Faremos uma surpresa. Você aprende a montar bem e depois desfila para sua mãe ver!

Julia deu um gritinho de felicidade, pulando no colo de Victória, ao que Louise reapareceu como um raio com seu cavalo, parando abruptamente ao lado das duas. Seus olhos
faiscavam.

____Julia! Quero que vá para a casa e termine aquela tarefa de matemática que abandonou ontem!

____mas hoje é dia da minha aula de equitação! - argumentou Júlia.

____Não discuta! - cortou a delegada.

A garota baixou a cabeça desolada, porém obedeceu, puxando seu cavalo em direção às cocheiras. Vick tentou ajudá-la mas foi impedida por um gesto irritado de Louise.

____Não me oponho que lhe dê dicas e outras orientações, mesmo porque já contratei vários instrutores e ela os rejeita. Porém, Julia está fascinada por você e isso não é bom, por isso não posso admitir que ocorram demonstrações efusivas de afeto entre ambas, como a que acabo de presenciar!

Victória estacou, pega de surpresa.

____Está pensando que sou capaz de seduzir Julia? De aliciá-la e me aproveitar de sua inocência?

____Não estou pensando em nada, Di Angelis! Apenas não gostaria de ver minha filha, ainda, nos braços de ninguém, muito menos nos seus. Além do mais, acho que você não faz a menor idéia do alcance deste seu irresponsável poder de sedução. É preciso estabelecer limites!

A policial sentiu-se ruborizar. Sabia que no lugar de Louise, poderia ter atitude semelhante, mas não pode deixar de sentir justa indignação contra a atitude da delegada.

____pensa que sou uma depravada sem qualquer caráter? Que não possuo freios em meus desejos e instintos? Por quem me tomas? Então saiba que agora não quero mais Julia a 100 metros de mim. Não preciso me submeter a insinuação e a humilhação desta natureza. Arranje outra babá. De preferência entreviste-a ou devasse a vida particular dela em busca de algum comportamento fora do padrão. Eu estou cheia!

Depois deste dia, Vick evitou Julia e Leandro, sendo que como já se deparava pouco com Louise na delegacia, pode trabalhar e cuidar de sua vida como antes.

Do incidente na hípica restara porém uma mágoa latejante, maltratando seu peito, o que a fez voltar a considerar a possibilidade de um dia mudar de Distrito Policial.

Agnaldo protestava veementemente contra a idéia.

____Tire isso da cabeça, Di! Não me imagino aqui na delegacia sem dar bom dia a esta sua pinta tão "cosa nostra"...

Riram e deixaram o assunto minguar.

Quanto a Liz, esta ainda tentava estabelecer contato telefônico, mas Victória nunca lhe atendia os chamados pois sentia no momento, uma necessidade nova de liberdade e de estar só para refletir sobre o rumo que estava tomando sua vida e os novos sentimentos que forte passaram a assediá-la.

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