PESADELO OU PREMONIÇÃO

Victória acordou sobressaltada e com o coração acelerado, encontrando Agnaldo no quarto ao
seu lado, muito assustado.

____O que ouve, Di? Você estava gritando e chorando!
Di Angelis não conseguia responder, apenas chorava copiosamente.

____Sonhei com algo muito ruim que não consigo me lembrar agora - disse entre soluços.

Agnaldo foi buscar um copo de água para ela enquanto a policial sentou-se na cama agoniada.

____preciso me lembrar do sonho!

____Precisa é se acalmar. Tome isto! É uma espécie de calmante homeopático e vai te ajudar a relaxar.

HIPNOSE

Na segunda-feira, Victória não apareceu na delegacia e marcou uma consulta com Adriana. O reencontro delas foi emocionado e antes da sessão de terapia, conversaram sobre a vida e tantos outros assuntos pendentes.

____E Liz?

____Em algum reduto no passado!

____Você a esqueceu?

____Ainda não, mas é o que pretendo conseguir muito em breve!

____Quer falar sobre isso?

____Não! Vim porque preciso que você me hipnotize e me induza a lembrar de um sonho que vem me atormentando há duas noites e que não consigo recordar quando desperto!

____O esquecimento é um recurso de defesa do nosso organismo. Muitas vezes apagamos da memória consciente o que não poderíamos suportar em certos momentos de fragilidade!

____Mas eu tenho um pressentimento de que preciso relembrar o sonho pois ele poderá conter alguma mensagem do meu inconsciente, algo que captei apenas subliminarmente!.Adriana ficou silenciosa por alguns minutos, considerando sobre a importância dos "insights" e da intuição de Victória que muitas vezes salvou vidas, mas também ponderando sobre o
perigo de fazer imergir de dentro dela um pesadelo ou algo que lhe abalasse a estrutura emocional.

____Está bem! Vou te induzir a um estado de hipnose mas vou aplicar eletrodos para controle das ondas alfa de seu cérebro e batimentos cardíacos. Assim poderei detectar se você acabar entrando em estado de angústia ou qualquer perturbação intensa e nterromper
a sessão.


GEMINI

Já em seu apartamento, Victória refletia sobre o sonho. Adriana o recuperara do seu subconsciente e determinara que a policial se lembrasse dele ao acordar. Agora, sozinha, ela tremia ao lembrar quadro a quadro do pesadelo que lhe sobreviera nas noites.
Sonhara que estava sendo perseguida por algo ou alguém que não sabia quem era ou podia ver o rosto.

Corria desesperada na noite densa, quando algo no céu lhe chamou a atenção. A disposição das estrelas, formando o símbolo de "Nix". Continuou a fugir do ente invisível que a perseguia, quando entrou em uma clareira com várias tumbas. Nas lápides, o nome de uma a uma das vítimas do " Legado de NIX". Neste instante os corpos saem da terra, semi decompostos e levantam-se e estendem a mão para ela.

____Ajude-nos! - pediu um cadáver com a voz gutural, enquanto com a mão ressequida
tentava lhe apanhar o braço.

Um grito de horror ficou preso na garganta de Victória ao ver, aquelas criaturas medonhas caminhando em sua direção. Torna a correr na escuridão, quando cai em uma cova recém escavada.

Dentro dela vê Louise deitada como se desmaiada, vestida com uma túnica longa muito alva. Os mortos rodeiam a cova e começam a lançar terra para dentro da sepultura, enquanto Victória tenta retirar Louise dali e fugir. Porém, a delegada abre os intensos olhos
azuis e sorri, enquanto seu rosto sofre uma mutação e vai ficando gradualmente infantil até se transformar na face risonha de Julia.

_____Me leva para passear, Vick? - pediu a garota ainda sorrindo, enquanto eram sepultadas vivas e no ultimo rasgão do céu que ainda conseguiu vislumbrar derradeiramente, havia um símbolo curioso.

Victória levantou-se de sua cama e acionou a Internet, pesquisando exaustivamente até encontrar algo semelhante ao que sonhara: o símbolo do Zodíaco que representava GÊMEOS.

Refletiu sobre a conexão que poderia ter "gêmeos" com o "legado de Nix" e julgou encontrar a resposta:____O filho de Nix que está matando as pessoas é THANATUS, que é irmão gêmeo de HIPNOS. Logo, o assassino tem um irmão gêmeo.


A PRECE


Ainda perturbada pelo sonho constante e o trauma sofrido com Louise, Victória procurou uma catedral e esgueirou-se pelo amplo átrio quase deserto, aproximando-se do altar e das velas.

Acendeu uma e ajoelhou-se para rezar. Havia muito tempo que não procurava ajuda divina e
sentia-se tímida e desmerecedora de qualquer graça.

Rezou baixinho, pedindo principalmente proteção, paz e que sua mágoa e rancor pela titular fosse desaparecendo dentro de si, como o sol dissipa a névoa da madrugada.

_____Preciso superar ou enlouqueço! - disse para si enquanto levantava-se.

Viu que ao seu lado estava uma mulher cadavérica, ajoelhada e rezando com os olhos mareados de lágrimas. Compadeceu-se e preparou-se para sair quando a desconhecida lhe estende a mão.

_____Minha filha... do que padeces?

Victória a olhou sem entender.

_____Qual é o seu mal? Mal do corpo ou da alma?

_____Acho que da alma. - respondeu a policial, insegura.

_____Então ainda há esperança para seu corpo, mas a ferida na alma, ainda é muito pior do que a que consome o corpo. A ferida da alma, a gente carrega pela eternidade, enquanto a do corpo se acaba quando retornamos ao pó. Estou prestes a retornar a matéria que me formou e meu fôlego ao criador.

Victória percebeu que a mulher realmente parecia estar em estado terminal de alguma doença.

_____Já fui como você. Já fui cheia de vida e bonita.
Isso não faz muito tempo. Mas a mágoa que acumulei, as pessoas que não perdoei e todo ranço e rancor acumulado, destruíram meu corpo... o templo do meu espírito. Isso foi pouco a pouco e não senti. Agora agradeço o ar que ainda consigo respirar e as manhãs que ainda nascem diante dos meus olhos.

Tocou o rosto de Vick.

_____Vejo profunda tristeza e medo em suas janelas da alma. Vê meus olhos? Estão cheio de lágrimas que não posso mais verter. Perdoa, minha filha... perdoa quem merece o seu perdão e siga em frente.
Tente e reze e conseguirá um dia. Não deixe para depois pois pode não ter outra oportunidade.

A mulher levantou-se e saiu silenciosamente, como se pairasse sobre o piso de pedra da igreja e depois daquele dia, nunca mais foi vista, deixando a policial com a nítida sensação de que tudo não passara de uma visão em plena luz do dia.

MUDANÇA DE DISTRITO

Ao retornar a trabalhar Di Angelis encontrou sobre a mesa de trabalho sua bolsa que deixara no apartamento da titular quando fugira na madrugada.
Sentiu uma raiva misturada com desprezo ao recordar o que passara, sentando-se na frente do micro para elaborar um ofício onde solicitaria sua transferência de Distrito Policial. Ligou depois para o número de celular da delegada Giuliana e conversaram, sendo que esta prometeu que conseguiria sua remoção o mais rápido possível, bastava Victória dar entrada com o pedido.

____Tenho certeza de que não se arrependerá e aqui encontrará o que precisa para trabalhar com mais liberdade e autonomia! - asseverou Giuliana.

Desligaram a tempo de Agnaldo entrar na sala e avisar:

_____O chefe está convocando todos para uma reunião extraordinária. Parece que apareceu uma missão urgente!

Na grande sala, Vick sentiu alívio ao constatar que a titular não estava presente, pois como anunciara o Edgar, ela entrara em merecidas férias, deixando-o como chefe interino, também do Distrito Policial. Ato contínuo, explicou detalhadamente a missão que teria como objetivo encontrar e fotografar obras de artes possivelmente roubadas na Europa e comercializadas
para colecionadores particulares.

_____A informação que recebemos foi a de que na mansão dos Abreu Goulart, na ilha conhecida como "Marola Negra", existem pelo menos dez destas obras.

A Interpol nos forneceu as fotos e o que temos de fazer é fotografar os quadros, estatuas e tapetes do lugar
e entregar o material para a polícia internacional que o avaliarão e, constatando se alguma destas obras pertencem ao acervo perdido, agirão na invasão e resgate. Mas isso é outra parte.

_____nós faremos o serviço sujo e os internacionais apanham o filé e os louros? - reclamou Ana Beatriz.

_____Exatamente, mas fomos convidados a participar do plano e nossa titular aceitou. Além do mais, o objetivo da polícia é combater o crime em primeiro lugar. Depois poderemos angariar a fama ou o reconhecimento, se vierem.

A reunião terminou e no corredor, Victória pediu para conversar a sós com Edgar.

Na sala do Delegado, a policial apresentou sem muitas delongas seu pedido de transferência para o distrito de Giuliana.

Edgar leu o memorando piscando várias vezes, em sinal claro de surpresa.

_____Não quer trabalhar mais com nosso pessoal?

_____Nada contra o pessoal ou o distrito. Apenas penso que preciso mudar um pouco de ares, ou inovar um pouco. Acredito que será positiva uma mudança agora para a minha carreira.

Edgar cofiou a barba, silencioso, com os olhos inteligentes fixos no rosto de Victória.

_____Está bem! Vou entregar seu pedido para nossa titular, mas espero que pense melhor e
reconsidere a possibilidade de ficar conosco! É uma policial valorosa e fará falta.

Victória levantou-se e procurou a porta, enquanto Edgar ainda perguntou:

_____Ao menos participará da missão ou ficará aguardando o desembarace do processo de
transferência?

_____Claro que participarei da missão! Pode contar comigo!.

"MAROLA NEGRA"


Na mansão, situada na face leste da ilha, a policial se infiltrara entre os convivas de uma festa monumental que estava sendo promovida no local, fazendo se passar por uma das garotas contratadas para "fazer companhia" e "animar" os convidados.

Não estava sendo tarefa fácil, pois tivera que tolerar certas mãos atrevidas lhe apertando ou percorrendo-lhe o corpo, enquanto tivera um sujeito que fora além, beijando-a no meio do salão. O pior ela bem sabia, estava por vir, com o adiantar da noite e o grau de álcool subindo nas veias dos convivas.

Até lá, pretendia ter terminado sua sessão de fotos, nos aposentos por onde transitara.

Estava acompanhada por Ana Beatriz que se passava por uma das copeiras.

Di Angelis vestia-se com um longo preto e usava uma peruca loira, com lentes de contato verdes. A mansão era em uma ilha particular no litoral paulista e quando o mar estava revolto, apenas podiam descer nela de helicóptero, e dependendo da tempestade, nem deste
recurso podia-se contar, a não ser esperar a melhora do tempo.

Seu estado de espírito alerta, mudou para o "tenso sob stress" quando percebeu em dado momento que algo dera errado e que agora estavam em perigo.

A missão aparentemente simples e bem arquitetada, começara a mostrar outras perigosas
facetas.
____Como foi que eu me meti nesta arapuca? - raciocinou ao se fechar em um closet e solicitar ajuda pelo rádio.____Onde se meteu a Ana Beatriz? O que fez o exército de seguranças passar a se mover pelos corredores como formigas tucanguiras furiosas?

Rememorou que Edgar informara que se algo desse errado, as agentes deveriam se livrar de tudo que as pudesse denunciar, incluindo os aparelhos eletrônicos, punhais e qualquer outro petrecho e ato contínuo, deveriam buscar o "Fuga 1" que era um pequeno cais oculto na mata, onde uma lancha estaria esperando para a evacuação. Se não pudessem acessar o
"fuga 1" , ainda haveria o "fuga 2" que consistia em botes infláveis ocultos na banda noroeste da ilha, local esse de difícil acesso que só podia ser alcançado, atravessando-se espessa vegetação e escalando rochas imensas, arriscando-se ainda a perder-se. Era o recurso dos desesperados.

No rádio, Victória avisou para o Leandro e Agnaldo que aguardavam na lancha do "fuga 1" que estava a caminho e a esperassem.

____Ok, Di, aguardaremos, mas estamos preocupados com a Ana Beatriz que não está respondendo aos nossos contatos pelo rádio!

____Que saco, será que aquela "mala" foi pega? - pensou Victória, concluindo agora que talvez Ana Beatriz fosse a causa da movimentação estranha. Um segurança passou perto da porta, comandando a todos os outros que dessem uma busca minuciosa por todos os inúmeros aposentos da mansão.

____Preciso sair! - raciocinou Vick, sentindo seu instinto de sobrevivência gritar.

A rota em busca da saída da mansão estava difícil, principalmente quando um segurança a viu esgueirar-se pelos corredores.

____Ei você! O que está fazendo aqui? Este andar é privativo dos moradores!

A policial não teve escolha a não ser sair correndo escadaria acima, tendo o enorme sujeito ao seu encalço. Por fim o despistou mas lembrou-se de que naquele exato momento ele estaria acionando seus colegas.

Procurou um local escuro e deserto, tornando a contatar Agnaldo pelo rádio.

____preciso de ajuda para sair. O cerco está se fechando sobre mim!

____Temos problemas, Di ! A Ana Beatriz chegou ao "Fuga1", ferida. Foi perseguida por vários seguranças e cães e precisa de cuidados médicos. Estamos indo para o continente mas voltaremos com a lancha para buscá-la! - informou com voz tensa.

____ok, parceiro! Quando voltar, estarei esperando! - respondeu Vick, tentando emprestar à voz, certa confiança que não dispunha.

Desligou o aparelho, sentindo-se solitária como nunca antes. Lembrou-se de Edgar informando que se o pior acontecesse, era preciso manter a calma e aguardar, pois seria providenciado um "escudo", isto é, um agente que viria ao resgate.

_____Quem será meu escudo? Seria Mestre Takahishi? - Lembrou-se de que se o "agente escudo" se fizesse necessário, este seria aportado na ilha pelo helicóptero, que naquele momento, diante do tempo ruim, devia estaria descendo por meio de uma escada de corda, pois não poderia pousar no heliporto e nem se arriscar a se chocar contra as rochas, diante
de um inesperado vento forte.

_____só pode ser mestre Takahishi, pois ele possui uma capacidade física fantástica e Agnaldo morre de medo do mar, sendo que o Leandro não tem treinamento específico, nem qualquer experiência para este tipo de ação. - raciocinou.

Observou pelas grandes janelas, uma forte tempestade desabar pela ilha e o mar revolto, se encapelar em ondas medonhas e negras.

_____Agnaldo e Leandro não vão conseguir voltar do continente com a lancha para me resgatar! Preciso sair da casa e tentar alcançar o ponto 2. Lá, vou me ocultar na mata e esperar a melhora do mar, fugindo com o bote. Não posso me dar ao luxo de ficar à espera
do "escudo"...

Com o plano desenhado em sua mente, Vick desceu as escadarias, tentando se ocultar como
pudesse, sendo novamente avistada.

Correu para o piso inferior onde a festa ainda rolava a todo vapor, misturando-se entre as pessoas, já semi-embriagadas.

A mão forte de um homem, fechou-se sobre seu pulso.

_____ah! Vem cá docinho, me fazer um carinho! - disse o gordo convidado, arrastando-a para uma saleta semi iluminada.

No local, o homenzarrão não teve tempo de forçá-la a nada pois caiu desmaiado, vítima de uma forte coronhada.

_____Vim resgatá-la! - avisou uma silhueta humana que imergia das sombras.

Victória gelou ao reconhecer a voz de Louise que estava vestida com um grande capote impermeável.

_____Anda! Siga-me ou a apanharão e te asseguro que serão bem capazes de a torturar e fazer lançar ao mar.

A policial despertou de seu torpor, causado pela ira de reconhecer a titular como sendo o "escudo", mas naquele momento perigoso, era necessário se agarrar a qualquer tábua de salvação, mesmo que esta fosse oferecida pela pessoa por quem passara a nutrir um
desprezo e mágoa intensa.

Seguiu-a pelos corredores estreitos, sempre descendo escadarias. Reconheceu que estavam entrando em alguma galeria subterrânea.

Quando tais galerias, de onde gotas de água de infiltração pingavam do teto, bifurcavam,
Louise consultava sua bússola e escolhia o rumo a seguir.

_____Onde estamos?

_____Nas antigas galerias de escoamento pluvial da mansão. Na verdade, antes de tudo, havia aqui um pequeno castelo construído por um antigo governador de capitanias hereditárias.Agora, da antiga edificação, só resta os alicerces de pedra e os subterrâneos.

Victória conteve sua curiosidade pois aborrecia-a tratar com Louise como se nada tivesse acontecido no apartamento do Largo das Azáleas.

Alcançaram a saída da galeria para o ar livre, quando foram surpreendidas por quatro homens acompanhados por cachorros que passaram a atirar.

Louise atirou de volta e feriu dois deles, enquanto fugiam. Os cães se aproximavam e a delegada passou a vitimá-los um a um.

_____Pare! Eles estão fugindo! É como atirar em crianças! - protestou Vick ao perceber que enquanto corriam para a mata, Louise ainda continuava a alvejar os cães.

_____crianças não possuem mordidas com impacto de até uma tonelada! - retrucou a delegada, buscando
caminho por uma trilha na densa vegetação. ____Siga-me e procure não se perder ou estará
liquidada!

Correram pelo terreno acidentado, galgando morros, pedras, troncos e outros obstáculos. A chuva aumentava de intensidade e a delegada retirou da mochila outra capa e deu-a para Di Angelis.

Pararam certo momento para descansarem, sendo que Louise mandou:

_____pegue a bússola! Suba dois quilômetros ao norte e encontrará uma cabana de pedra abandonada onde poderá se abrigar em segurança até o tempo melhorar.

_____E você?

_____Estou cansada demais para sequer mudar o passo. A chuva forte e o caminho íngreme me tiraram o fôlego. Preciso de tempo para me recuperar e tornar a caminhar. Vou me ocultar na mata e esperar. Se não me avistar até o raiar do dia, use a bússola e vá até a
praia na margem noroeste, onde encontrará os botes!.

Victória apanhou a bússola e seguiu trilha acima com o passo acelerado, pensando que era o melhor a ser feito, afinal, a titular quando se dispora a ser o escudo, certamente sabia o risco que correria.

Galgou mais alguns metros e parou. Seu coração estava se tornando pesado ao pensar que abandonara a Bittencourt como um cão atropelado em uma trilha deserta na mata densa.

Voltou, pensando o que fazer. Encontrou-a sentada em um tronco, envolta em seu capote, curvada pois a chuva estava se tornando mais densa e a temperatura despencava.

_____Vim buscá-la, afinal! Eu faria isso até por bêbado mijado na sarjeta!

Louise lançou-lhe um olhar furioso e não se moveu.

Victória a apanhou nos braços e atirou-lhe o corpo por sobre o ombro, indiferente aos rugidos e protestos da delegada.

_____Ponha-me no chão ou eu atiro!

A policial continuou caminhando trilha acima quando sente uma pancada seca em sua fronte
que lhe turva a vista a faz cair ajoelhada.

_____Eu a avisei, Di Angelis!
Recuperando-se lentamente da coronhada que levara, Vick avançou de um salto sobre Louise, acertando-lhe um soco firme na base do queixo, o que a fez desabar, desmaiada.

_____Animal peçonhento! - resmungou, enquanto a manietava e a recolocava nos ombros e prosseguia.

Enfim, conseguiu visualizar a cabana em meio aos relâmpagos que iluminavam momentaneamente a noite escura. Entrou e experimentou uma sensação de prazer ao sentir que ali poderiam encontrar um bom abrigo, pois o local não estava tão degradado quanto
imaginava.

Havia até fardos de capim seco que poderiam utilizar como cama. Depositou a delegada, ainda manietada a um canto e procurou meios de fazer fogo.

Retirou o que precisava da mochila que Louise transportava e acendeu a pequena lareira de pedra.

Animou-se mais ao encontrar a um canto, presos por fios de nylon, peixes salgados que talvez os pescadores que ali costumavam pousar, deixavam conservados. Espetou um em uma vara e passou a assá-lo.

A delegada aos poucos gemeu e ao acordar por completo, vendo que suas mãos estavam amarradas, atacou:

_____Exijo que me solte ou vou mandar prender-te!

_____Não vou soltá-la e quanto a mandar prender-me, isso pode ficar para depois!

_____Podia ter deslocado meu queixo ou me causado uma concussão! - repreendeu Louise.

_____Todo cuidado com a serpente é pouco! Nunca vi alguém tão imprevisível e sem capacidade de gratidão como você! Eu voltei para buscá-la e acabei recebendo uma coronhada na fronte? Ainda bem que tenho a cabeça dura! A mais, nem sei porque voltei pois.você me dá asco!

A delegada ficou silenciosa observando os raios e o temporal na janela. Victória serviu-se do peixe e retirou um pedaço e o levou até os lábios da Bittencourt que virou o rosto em sinal de
rejeição.

_____Não quer? Tudo bem! Eu comerei tudo! Está uma delícia!

_____Preciso fazer minha necessidade fisiológica!

_____Tudo bem! Eu abro a porta e você corre para aquele abrigo na rocha lá adiante e faz o que quiser!

_____preciso usar minhas mãos ou você vai me ajudar a tirar a roupa?

_____Tirar sua roupa? Nem se você fosse a derradeira mulher existente! Aliás, acho que você não é uma mulher normal. Deve ser cruza de algum animal selvagem com primata !

Vou soltar suas mãos, mas aviso! Se tentar me agredir vou revidar e isso pode doer muito!

Aproximou-se de Louise com a faca e antes, retirou tudo que era arma que encontrou presa no macacão de neoprene que ela usava.

_____Fico com estes brinquedinhos!

Soltou-a e voltou-se para o fogo, continuando a assar outros peixes. A delegada levantou-se massageando os pulsos e saiu porta afora. Demorou mais do que esperado e Victória já estava ficando preocupada. De súbito a porta se abre e Louise entra com os cabelos pingando de água e senta-se silenciosamente perto da fogueira para aquecer-se. A policial percebe que
ela está faminta.

_____Estou cansada! Vou tentar dormir um pouco. Este peixe no caniço aqui é seu.

Arranjou os capins para próximo do fogo e deitou-se, adormecendo rapidamente. Em certo momento, sentiu junto ao seu corpo, outro que se aconchegava em busca de calor. Depois, braços macios lhe enlaçaram a cintura. Tornou a adormecer pois os acontecimentos do dia a deixaram fadigada.

Acordou bruscamente e sentou-se, com o coração acelerado e o rosto banhado por lágrimas.

_____O que aconteceu? - perguntou Louise, tocando-lhe o rosto crispado.

_____Eu tive um sonho horrível! - gemeu Victória, sendo que em um gesto brusco afastou a mão da delegada de si.

_____Agradeceria se me tocasse somente o suficiente ou necessário! - avisou, com cara fechada.

Louise riu. Uma risada curta e borbulhante.

_____O que é suficiente? E o necessário? Ora, Di angelis, sua ira me fascina!

_____Você realmente não me leva a sério...

_____Está enganada! Eu a levo muito a sério e diante disso, gostaria de propor uma trégua quanto as agressões físicas e verbais, ou acabaremos nos machucando.

A policial refletiu por alguns minutos.

_____Está bem! Aceito a trégua. Ou melhor: da minha parte vou me controlar para não lhe relar a mão, em todos os sentidos.

_____Para mim está ótimo. Agora deite-se e tente dormir! Amanhã vai precisar de toda sua energia.

Vick tornou a deitar-se tentando adormecer, mas a lembrança do sonho a deixara muito perturbada. Louise percebeu sua agitação.

_____Conte-me seu sonho. Pode ser que se abrindo um pouco ajude a acalmá-la ou mesmo a determinar se tem algum fundo de origem sensorial ou é mesmo uma bela de uma indigestão! - argumentou a delegada.

Di Angelis pensou que não haveria mal algum em se abrir para a Bittencourt e relatou detalhadamente cada parte de seu pesadelo. Terminou e ainda tremia de pavor.

_____Bem! Ele tem me perseguido nas últimas noites. Antes eu não me lembrava, até que pedi que minha terapeuta me hipnotizasse e me induzisse a lembrar. Pensei que assim poderia resolver o problema, mas está piorando a cada noite!

_____Sempre o mesmo sonho?

_____Sim! Mas a cada noite, ele vai se completando, como se um capítulo a mais fosse adicionado...

_____Um péssimo relato para ser contado em uma noite como esta! Parece história de assombração! O que tem ingerido antes de dormir?- observou Louise com um leve sorriso no canto do rosto que Vick julgou a princípio ser de escárnio, mas observando melhor, concluiu que havia sim um quê de ternura ali.

_____Acha que é indigestão?

_____Não! Mas preciso pensar mais sobre isso. Vamos dormir?

Tornou a deitar-se e sentiu a delegada voltar a se aninhar nela. Não conseguia pegar no sono e imaginou que Louise já estava a sono solto, voltando-se o corpo para ela, buscando ver-lhe o rosto. A luz bruxuleante do fogo e a dos relâmpagos, em certo momento o iluminaram e ela pode ver aqueles olhos azuis intensos, muito abertos e brilhantes.

_____Pensei que estivesse dormindo!

_____Eu tentei, mas também não consigo dormir!

Um momento silencioso entre as duas, rompido por Victória.

_____Porque fez aquilo comigo, Louise?

_____Estava irada e resolvida a te dar uma lição inesquecível!

_____Você conseguiu, mas devo dizer ainda que nunca detestei tanto um ente humano como a você nos últimos dias...

_____ódio adoece a alma!

_____O que você fez, foi desumano!

_____Reconheço que errei com você!

_____Ao menos eu queria entender sua atitude cruel. Você me humilhou, usou, magoou...

superou tudo que já imaginei de degradante!

_____Não tenho o menor jeito para agradar mulheres. Além do mais, diante de suas constantes tentativas de sedução, não poderia imaginar sequer que ainda possuías um hímen. Pensei que fosse mais "resistente" sexualmente!

_____Minha vontade naquela noite foi a te aniquilar!

Louise sorriu suavemente sem dizer palavra e aconchegou mais seu corpo no de Vick.

_____Porque veio aqui nesta noite? - perguntou a policial.

_____Porque você corria sérios riscos de vida e a estratégia da equipe é "risco zero", o que
determina que temos que ter sempre uma válvula de escape para nossos agentes, eficaz para não perdermos mais nenhuma vida em uma missão.

_____Arriscou a sua! Podia ter mandado outro policial!

_____Outro policial não conhece as galerias subterrâneas da mansão...

_____Então foi seu pai que construiu também a fortaleza da ilha?

_____Não! Mas devo dizer que herdei dele a fixação por estudar e conhecer todos os tipos de castelos e mansões, seus esconderijos e galerias subterrâneas. Ouro Preto tem muitas. Um verdadeiro emaranhado que abrange todo o subsolo da cidade.

_____Mais um hobby seu?

_____Digamos que sim, além das armas brancas, armbrust e chicotes!

_____Ah, sim! Eu me lembro de um reluzente florete em minha garganta e ainda não consigo compreender porque fez aquilo comigo, se de certo modo lhe salvei a vida lá no abismo.

Louise ficou um momento quieta, como se refletindo e por fim, tomou o rosto de Vick em suas mãos, dizendo:

_____conhece o conto do escorpião e a rã?

_____Talvez, mas não estou lembrada. Conte-me!.

_____o escorpião precisava atravessar o riacho, senão seria devorado por um outro animal.
Encontra a rã e pede para que ela o leve até a outra margem, ao que a rã diz que não faria
pois poderia ser ferroada. O escorpião argumenta que se a ferroasse, ambos afundariam e se afogariam. Diante de um argumento forte como aquele, a rã aceita levá-lo até a outra margem. No meio do riacho, o escorpião a ferroa e ela, iniciando a morrer e afundar, ainda diz: - Mas porque fez isso se agora ambos pereceremos? - O escorpião responde:- Porque é
a minha natureza!

_____Sim e onde isso se encaixa no nosso caso?

_____a expressão: " é a minha natureza" !

_____Quer dizer que é a sua natureza maltratar as pessoas que lhe oferecem algum sentimento ou carinho?

_____Digamos que é da minha natureza ferir quem se aproxima demais da minha fortaleza!

_____Fortaleza?

_____Não pergunte mais! - cortou Louise, rispidamente.____E para encerrar o assunto,
quero lhe fazer uma proposta.

_____Diga! - exclamou, Vick, curiosa.

_____Existe outro motivo para minha vinda. Tínhamos o mapa das galerias subterrâneas, mas é claro que como eu já as conheço de memória, fui a pessoa mais indicada, porém, Mestre Takahishi se ofereceu para "descer" na ilha e te resgatar.

_____Então existe outro motivo para sua vinda?

_____Sim! O motivo primário foi, garantir seu resgate, pois as pessoas com que estamos lidando são capazes até de matar o presidente para manter a posse das relíquias roubadas. O motivo secundário é que, salvando sua vida, posso lhe retribuir por ter salvo a minha no abismo. Assim estaremos quites e poderei me desvincular de você.

_____Esta é a proposta? Quitar uma suposta dívida e romper vínculos comigo? Que tipos de vínculos são estes?
_____Gratidão, entre outros. Não gosto de ficar em dívida!

_____Dívida?

_____De certa forma minha vida ficou vinculada a sua quando me retirou do abismo. Agora vou tirá-la da ilha e tudo voltará ao "Status Quo Ante" .

Quem riu desta vez foi Victória. Um riso embaraçado, confuso. Não conseguira "alcançar" a profundidade do que Louise lhe dissera mas resolveu tomar uma atitude.

_____Aceito sua proposta! - finalizou, sentindo que de alguma forma, o diálogo entre as duas lhe deixara o coração mais leve e estava conseguindo livrá-la aos poucos daquele ranço contra a titular que carregara até ali.
Fechou os olhos e tentou voltar a dormir, quando a
porta se abre de supetão, revelando a silhueta de três homens armados.

_____ora! O que temos aqui! Duas pombinhas aninhadas! - zombou um deles, aproximando-se
com a arma em riste.

Em uma fração de segundos, Louise saltou sobre o mais próximo com um punhal e atingiu-lhe o peito, seguidamente. Os outros ainda estavam atônitos com o ataque súbito, quando a delegada apanhando a arma do moribundo, passou a atirar. Vick só teve o reflexo de
apanhar a mochila e a bússola e partir para a porta oposta a que os agressores entraram.

Ouviu-se mais tiros e ela parou sob uma folhagem densa e procurou uma arma na mochila,
encontrando uma pistola.

_____Preciso buscar Louise! Eles devem tê-la ferido!
Voltou sorrateira e se deparou com a delegada ensangüentada debaixo do enorme corpo de
um homem. Parecia estar dormindo. Haviam mais dois corpos caídos pelo lugar.

_____Louise! - gritou Vick, puxando-a cuidadosamente e lhe aninhando o corpo contra o seu, enquanto saía correndo pela noite. Sabia que a alguns metros havia uma parede com uma espécie de erosão que formava um nicho. Ali podia-se abrigar e verificar-lhe a gravidade dos ferimentos.

Deitou-a ao chão, com a lanterna na mão e abriu vagarosamente o zíper do macacão de neoprene, procurando a fonte do sangue abundante que lhe manchava a pele. Assustou-se quando ao mesmo tempo em que se deparou com uma tatuagem pequena em forma de escorpião , no início da dobra de seus púbis, a Delegada abrisse os olhos, segurando-lhe o
pulso.

_____O que está fazendo?

_____Estou procurando onde você foi ferida!

_____Eu não fui ferida! Apenas desmaiei quando cento e tantos quilos de massa humana desabou sobre mim! O sangue é da jugular dele!

_____Você liquidou com todos eles sem pestanejar! Mata como se escovasse os dentes!

_____comparação estranha! - disse Louise, enquanto tornava a fechar seu macacão e levantava-se.

_____Não sente o coração pesado ao matar pessoas?

_____Não, pois sei que eles fariam pior se nos apanhassem. Ao menos dei-lhes uma morte rápida e isso já é um gesto de misericórdia!

_____Mas ainda não deixa de ser assassinato!

_____Você não entende! Isso é uma guerra! O direito à vida deles cessou quando atentaram contra a nossa, entende?

_____E consegue dormir à noite?

_____Não perco um minuto de sono por isso!

Iniciaram a caminhada com Victória imersa em seus pensamentos.

Estavam buscando alcançar o outro lado da ilha, onde botes infláveis com motor estavam ocultos no "fuga 2"..Pararam alguns minutos, enquanto Louise consultava a bússola e descansavam.

_____matar parece lhe dar prazer! - reiniciou Vick.

Louise sorriu. Na chuva densa, sob relâmpagos intensos, seu rosto adquiriu algo de malévolo
e seus olhos fulguraram na escuridão, com o de animais selvagens.

_____Tenho medo de você! - exclamou a agente.

A Bittencourt nada disse e continuou a caminhar, sendo seguida por Di Angelis. Alcançaram os botes ainda na madrugada cinzenta.

______Agora, vamos ao mar! - determinou a delegada.

______As ondas ainda estão muito agitadas e altas!

______O continente é próximo. Se o mar estivesse calmo, poderíamos alcançá-lo até de Jet-ski.
São apenas três quilômetros.

_____O titanic está submerso a 3 mil e tantos metros. Dependendo do ângulo... é uma distância absurda.

_____Está com medo?

_____imagine! Medo? Só por algumas ondinhas mixurucas que se movem como se o Everest
imergisse e submergisse a todo instante... imagina... Estou me sentindo intima de Netuno...

_____Não enrole e entre logo pois a ligeira calmaria pode cessar!

_____Calmaria?

Vick entrou no bote, insegura e apertou no corpo o colete salva-vidas que havia ali. Louise
acionou o motor e segurou o leme com mão firme.

______apenas me indique o rumo com a bússola. Vou ter que navegar paralelamente com as ondas, e em zigue-zague.

Em certos momentos, a policial tinha a nítida impressão que estavam galgando uma tsunami
ou mesmo que vales e montanhas se formavam do nada, ou obstruindo-lhes a passagem, ou
ameaçando esmagá-las. O reflexo da Bittencourt, conduzia o bote pelos sulcos formados na
base das ondas e em certo ponto as escalava.

Em certo momento, a chuva caia com tanta intensidade sobre elas que a policial espiou pelos cantos do bote, à procura de um balde para ir retirando a água que se acumulava aos seus pés.

Louise pareceu adivinhar-lhe os pensamentos e gritou em meio ao ruído quase ensurdecedor do vento e do mar.

_____Não seja tola! A água mantém o bote pesado e estável. Fique quieta em seu lugar e me dê o rumo!

Alcançaram a terra e Victória se lançou na água, tomando pé e ajudando a arrastar o bote. Depois, inebriada pela euforia de ter se livrado daquela aventura medonha, ajoelhou-se na areia e rezou baixinho.

Levantou a cabeça e se deparou com o olhar enigmático de Louise.

_____Estou cansada! Vamos caminhar até um orelhão e chamar um táxi que nos leve do litoral até nossa cidade. Perdemos os rádios e celulares na fuga.

_____E como vamos pagar? Qual taxista se arriscaria a levar por 106 km uma loira encharcada, com uma lula no decote, um camarão na calcinha e um caranguejo nos cabelos?

____Ora, poupe-me de suas piadinhas e vamos para a avenida...

Os táxis passavam, iam parando e depois ao vê-las de perto, arrancavam apressados.

_____estúpidos! - grunhiu Louise enquanto Victória ria divertida.

_____O que está rindo? Está espantando os indivíduos. Esconda-se em algum lugar, enquanto eu espero o táxi. Quando ele parar, você aparece... aí não há mais tempo dele se negar a fazer a corrida...

Victória riu mais ainda, escondendo-se e se divertindo com as tentativas da delegada em parar um veículo.

_____Não é melhor ligar para o Edgar do orelhão?

_____só em ultimo caso. Preciso de um dia pelo menos no anonimato para dormir em paz e descansar. Depois, ligarei.

Vick continuou em seu esconderijo, rindo como uma embriagada, o que irritou ainda mais a delegada.

____Saia da toca, hiena africana e me diga porque continua rindo se estamos na mesma fria?

_____Você precisava se ver em um espelho! - continuou a rir. ____Imagina que vão parar o
carro para uma mignon embalada em neoprene, com cara de matadora serial, de pistola na cintura e cheiro de bacalhau? (ops, rimou!)

_____Bacalhau? Eu? - perguntou Louise, indignada.

_____Tudo bem. Digamos que está com o cheiro peculiar de uma foca!

Louise disparou no calçadão com passos acelerados e olhar feroz.

_____Eu paro o próximo que virar aquela esquina! Isso eu te asseguro! - rosnou.

Foi dizer e um táxi virou a rua perpendicular à avenida e a delegada esperou ele passar devagar e meteu-lhe a pistola no rosto.

_____Sobe a serra?

_____tô subindo! - gemeu o homem, apavorado.

_____Então toca o carro! - mandou Louise, entrando ao lado do motorista enquanto Vick se aboletava no banco de trás, rindo, claro, pois sabia que Louise, do alto do seu senso de correção e dignidade, em outras circunstâncias jamais conceberia semelhante atitude.

Acabaram ficando cada uma em seu apartamento, sendo que a policial tomou banho, lanchou e desabou em sua cama, pensando em hibernar por pelo menos uma semana.

Dormiu aquele dia inteiro, puxando o fio do telefone da parede , desligando o celular e todos os meios de
contato com o mundo exterior.

_____Se acontecer algo importante, eles batem na minha porta! - raciocinou.

Reapareceu na delegacia, na manhã do outro dia, piscando preguiçosamente, com os olhos sensíveis à luz do sol que se engendrava nas frestas da janela.

_____Onde esteve amoitada? Em alguma caverna? - perguntou Agnaldo que entrava na sala 44, sorridente.

_____nope, yep, sim, não, talvez, maizômeno! - respondeu a policial.

_____Pelo que vejo, está de bom humor hoje...

_____grandessíssimo e inabalável bom humor...

_____E a contagem do colesterol?

Vick levanta-se da cadeira e encarou o colega.

_____Agnaldo... o que está tramando, o que quer me contar?

_____Bem... é que a Liz está na cidade. Pronto, contei.

_____como?

 
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