LEGADO DE NIX (O legado da Noite)

Capítulo 1:

E naquela noite, uma mãe chorou pelo seu filho.

*Nota da Autora: "O Legado de Nix" é o relato de outra aventura vivenciada pela Policial Victória di Angelis que foi apresentada no conto: "MIRAGEM".


PARTE I


Vick analisava detalhadamente o corpo do rapaz encontrado em uma espécie da caçamba apropriada para retirada de entulhos.Este apresentava aquela rigidês característica, o que denotou, além de outros detalhes que morrera há menos de 24 horas.

Os médicos legistas já haviam sido avisados. A manhã ainda estava coberta por um fino nevoeiro e a policial lembrou-se que ainda não havia tido a oportunidade de ao menos tomar um café no velho e sebento boteco da esquina da rua Almeida Barcelos.Agnaldo aproximou-se com seu sorriso amplo. Era realmente uma bela figura masculina.

______Olha! não é por nada não, mas não ficaria surpreso se o laudo desse: morte por overdose! Veja o braço dele... está cheio de marcas. Olhe a posição dos braços, pernas. Ele morreu sozinho, contorcendo-se e sem conseguir respirar. Possívelmente de um ataque cardíaco fulminante...

______É... bem provável mesmo, mas não sei...olhe só os pelos do meu braço. Estão arrepiados e acredite, quando isso acontece é que há algo muito estranho no ar...

______Sim! a manhã tá fria, nublada e fantasmagórica! - Agnaldo riu.

______Venha! eu te pago um café!

______Só um momentinho! estou anotando detalhes da tatuagem e estas inscrições aqui, no peito. Parece latim.

______Ah! decerto alguma prova de amor para uma garota. Esses meninos usam a pele como se fosse um painel de recados!

______Tudo bem! acabei. Já tirei várias fotos com minha nova máquina polaroid. Quem sabe mais tarde eu possa encontrar algo novo..._

_____Não há nada de novo em encontrar um morto por overdose na cidade grande!

______é uma tese! - riu, Victória.

______Vamos! aceito seu café e podemos conversar sobre banalidades. Ajuda a relaxar.

______Tá! mas não me ofereça carona na sua moto! você é doida e eu ainda nem alcancei os trinta anos.


Capítulo 2: "aquila non capit muscas"
(
Do Latim: A águia não apanha moscas.)


Vick apreciava o cheiro da pele de Lizandra, principalmente aquele ponto delicioso entre o queixo e o pescoço ou a textura suave e perfumada da nuca.
A garganta secou quando rememorou o amor que faziam, nuas entre os lençóis cheirando a lavanda. Liz era do tipo de mulher que chorava ao atingir o clímax e depois entregava-se a um abandono langoroso, como se sua alma estivesse ausente.
Outras vezes, mordia-lhe os ombros em desespero e arranhava-lhe as costas. Na noite anterior não fora diferente.

Amaram-se intensa e urgentemente e tudo ressurgia novo e especial como se aquela fosse a primeira noite das duas mulheres. Aconchegou-se mais à amada adormecida para beijar-lhe suavemente as costas desnudas. Achava-as perfeitas, assim como suas coxas e mãos longas e aristocráticas.

Cuidou para não lhe perturbar o sono tão necessário. Naquela semana a legista se esgotara com laudos e necrópcias aparentemente intermináveis.

O celular toca no quarto ainda escurecido pelas cortinas. Vick que zelava pelo repouso de Liz como uma leoa cuida da cria, pula sobre o aparelho intrometido e lhe abafa o sonido com o travesseiro. Por fim, a campainha cessa.

Verificou se sua parceira continuava adormecida e satisfeita ao constatar que sim, volta-se para o aparelho e consulta o número de quem acabara de ligar.

_____Que droga! É o Henrique! Como esse maroto teve a coragem de me ligar às 8 horas da manhã do meu primeiro dia de folga?Já ia lançar o aparelho desligado para baixo da cama, quando percebeu que na verdade o tal celular não era o seu.

_____Com Milhões de gafanhotos! – rosnou para si ao constatar que a ligação era para a Liz. Sua ira foi tamanha que jogou o pobre aparelho, no vaso d’ agua onde estava montada uma “ikebana” de Gérberas e vime. Arrependeu-se logo em seguida pois lembrou-se que a namorada utilizava principalmente o aparelho como agenda eletrônica.Socorreu o objeto e saiu do quarto na ponta dos pés. Na copa, meditou sobre como agir.

Tentou acionar o aparelho e percebeu que nem o led vermelho deu sinal de vida. Nada no display. Agoniou-se ao sentir que a umidade do artefato a denunciaria.

______Eu e meu temperamento imbecil!

______Ela vai ficar furiosa quando descobrir!

Consultou as horas no microondas. 8:10. Uma idéia “genial” lhe ocorreu. Ato contínuo, botou o celular no interior do microondas e ligou. Esperou dar três giros completos para retirar.
______Sou mesma um gênio! – concluiu.

O aparelho na mão estava enxuto. Acionou o botão “end” esperançosa, mas logo percebeu que realmente era o “fim”. Nem sinal, nem ruído. Abandonou o aparelho na mesa ao seu lado e procurou concentrar-se nos preparativos da bandeja de café da manhã para levar até a cama.

Quando entrou no quarto, Liz já sorria deliciada enquanto se ajeitava na cama para que a bandeja fosse encaixada eficientemente.

Conversaram pouco enquanto ceavam. Ambas tinham o dia inteiro de folga e planejavam aproveitá-lo intensamente. Sorrateiramente, Vick substituiu o celular avariado pelo seu pois meses atrás, dera à médica, de aniversário, um sofisticado aparelho idêntico ao que possuía.

Planejou assim ganhar tempo, enquanto pensava em algo que lhe livrasse daquela sinuca.Lizandra conversava de forma descontraída. Programaram uma caminhada no parque ecológico com direito a banho de cachoeira.

Depois almoçariam em um restaurante delicioso em uma pequena e pacata cidade das imediações, apanhariam alguns filmes na locadora e por fim iriam encomendar um jantar alí na confortável casa assobradada em que a médica morava.

Vick aproveitava ao máximo os convites de Lizandra para passar a noite em sua casa e naquele dia de folga de ambas, a médica, sempre tão ocupada, prometera-lhe que teriam o dia inteiro só para ambas.

Já estavam prontas e vestidas para sair, quando a campainha toca insistentemente. Vick afastou-se cuidadosamente para um canto da sala pois sabia o quanto Lizandra prezava o segredo entre ambas.

A médica espiou pela janela e avistou Henrique que esperava ser atendido na varanda. Fez sinal para que a policial subisse para o outro piso e dirigiu-se para a porta. Vick esgueirou-se para trás do amplo sofá, sem que Liz a visse. Sabia que estava sendo intrusa, mas seu sangue fervia de ciúmes e queria ouvir a conversa entre os dois.

_____O que veio fazer aqui, Henrique?

_____Liguei em seu celular e você não atendeu. Depois passou a dar na caixa postal. Sei que hoje é sua folga e pensei em passar para te levar para um passeio.

_____Já estou de saída!

Só então Henrique percebeu que Lizandra estava vestida e com sua bolsa no braço.

_____Vai sair para onde? Com quem? Logo hoje que planejei algo especial para nós dois...

_____Não somos mais namorados, Henrique!

_____Mas você prometeu pensar sobre tudo que te disse na Quarta-feira...O rosto de Liz avermelhou-se.

_____Está sendo agressivo e inconveniente, além de estar me atrasando...

_____Quem é o homem que está se intrometendo entre mim e ti?

_____Não há homem algum e por favor, não me aborreça mais...O celular de Vick que já estava encaixado na bolsa de Liz, tocou.

Henrique, irritado tomou o aparelho da mão da médica e atendeu. Uma voz masculina chamou:

_____Princesa! É o Agnaldo...Um silêncio denso instalou-se na sala.

Henrique atirou o aparelho contra a parede e este veio a cair aos pés de Victória que o pegou e o substituiu pelo de Liz.

A médica estava visivelmente furiosa.

_____Como se atreve a fazer isso?

O policial já estava arrependido de sua explosão de fúria, mas retrucou:

_____Nunca pensei que eu e a Di Angelis um dia teríamos algo em comum. ambos somos dois otários, sendo enganados pelos namorados...

_____Você não é meu namorado!

_____Mas aconteceu muita coisa entre nós que não dá para você tentar ignorar...sinto que você ainda sente algo por mim. Senti isso ontem no restaurante, quando te roubei um beijo...

O coração de Vick quase saltou pela garganta. Sabia que Lizandra trabalhara quase sem qualquer descanso nos últimos dias, mas ela nada lhe contara sobre o almoço com Henrique.
Liz por sua vez, corou mais ainda e empurrou o rapaz porta afora e a bateu.
Duarte não insistiu mais e foi embora, acelerando seu carro esporte. Quase no mesmo minuto, a médica ouve o ronco do motor da motocicleta de Vick que estava guardada na garagem, ao lado de sua camionete.

Tentou alcançá-la mas esta já estava contornando a esquina.


Agnaldo abre a porta do seu apartamento e encontra diante de si, a colega e parceira de trabalho com o rosto transtornado.

Abandonou tudo que fazia no momento para ouví-la em seu desabafo, pacientemente. Ao fim, abraçou-a e a conduziu até o sofá da sala de televisão, onde sentou-se e acomodou a cabeça da amiga em seu colo, acariciando-lhe os cabelos.
Se ele sentisse atração pelo sexo feminino, certamente Vick representaria a mulher de sua vida.
Esperou um momento em silencio, até sentí-la mais calma.

______ “aquila non capit muscas” .Victória já descobrira que o colega era um profundo conhecedor das máximas latinas e sempre as citava quando as julgavam pertinentes ou transmitiam fielmente sua linha de pensamento, portanto abriu os olhos e fitou os dele, interrogativamente.

______O que quer dizer com isso?

Agnaldo beijou-lhe a fronte e continuou acariciando-lhe os longos cabelos enquanto esclarecia.

______do latim: A águia não apanha moscas.

______E como se aplica no meu caso?

______Quero dizer que talvez você tenha que se concentrar no que realmente é perigoso na sua relação com Liz.
Talvez Duarte seja apenas mais uma “mosca” e você como águia que é, não deveria deixar que este ínfimo inseto lhe tire a concentração de seu verdadeiro alvo ou objetivo.

Capítulo 3:
Ecce Exiit qui seminat, seminare
(Eis que o semeador saiu a semear).


Em sua mesa na Delegacia, Vick examinava atentamente com uma lupa as fotos polaroids do corpo do rapaz morto.

O caso já havia sido esquecido pelos jornais. Constatara-se que a morte realmente foi por overdose e o rapaz tinha um longo histórico de dependência química e inúmeras internações em clínicas de recuperação, além de recaídas, o que lhe custou por fim a abreviação de sua vida aos 23 anos.

A policial guardou as fotos no bolso e levantou-se para ir até a copa, tomar um café.

Entrara na delegacia muito cedo pois o sofrimento causado pela ausência de Liz ao seu lado, latejava com tanta intensidade que a dor era quase física.

Nestes dias, gostava de chegar em um horário em que a enorme Delegacia daquele distrito ainda estava silenciosa e alí se encontravam ainda, apenas os policiais e carcereiros de plantão.

Havia também um motivo: detestaria dar de frente com o Duarte. Sentia um misto de raiva e despeito por ter sido preterida pelo colega e por isso, procurava centrar sua mente no trabalho para não fazer nenhuma bobagem passional, do tipo, esmurrar o rival pelos corredores.

Apanhou o café e sorveu-o lentamente em sua escrivaninha, novamente concentrada nas tatuagens que haviam pelo corpo do morto, principalmente certa inscrição em latim:

“ Ecce Exiit qui seminat, seminare”(Eis que o semeador saiu a semear).

Agnaldo já lhe traduzira a inscrição na tarde anterior. O colega viera de um distrito policial de outro estado e agora substituía o Araújo na parceria com Victória.
Pensando nele, hei-lo que entra pela porta, com os cabelos aloirados molhados e a pele recendendo a um banho recente.

_____refletiu sobre o que conversamos ontem?

_____A noite inteira. Não consegui fechar o olho.

_____bem, vai chegar a hora em que deverá tomar uma atitude...

_____é... e isso está me abalando os nervos. Se esse telefone tocar agora mesmo, sou capaz de esmurrar meu nariz de susto.

Foi Vick acabar de falar e o aparelho passou a tocar. A policial deu um salto e quase caiu da cadeira.Agnaldo a olhou surpreso.

_____Fique calma! Vou atender... e se for “ela”?

_____Diga que estou na rua...

_____Ah!Botou o fone no ouvido e escutou, articulou algumas palavras e o passou para Vick.

_____é o Pedro. Quer saber se você poderia ir ao cinema com ele e a mãe neste fim de semana.

_____Ah! Me dá o fone!Conversaram e combinaram assistir um filme no domingo. Desligou.

_____Ufa! Pensei que fosse Liz...

_____Não sei o que te faria se sentir pior! Ela ligando ou não ligando!

_____Nem eu sei! Mas preciso organizar minhas idéias...

_____E assim as moscas tomam conta!

Vick baixou a cabeça e procurou concentrar-se na papelada que havia sobre sua mesa. Ocorrências simples.

Ocorrências comuns e uma ou duas que ela pensava que seria bom averiguar a fundo.

Desde que Araújo fora aposentado da polícia e Agnaldo o substituíra como seu parceiro, o novo delegado Titular do Distrito, designou ambos no “repasse” dos crimes esquecidos no “arquivo morto”, ou seja, os considerados sem solução.

Havia uma sala inteira com inúmeras pastas empoeiradas e guardadas há pelo menos cinco ou mais de dez anos.

Pela parte de vidro na divisória que formava sua estreita sala, Vick viu quando Duarte passou pelo corredor apressado e com expressão apática. Naquele instante, temeu que o colega fosse entrar na sala para “tirar satisfações com Agnaldo pelo suposto telefonema no celular de Liz.

Temia também não ser capaz de ocultar sua própria ira diante do homem que era seu rival. Ao vê-lo passar sem dizer nada, Vick respirou aliviada e voltou a lidar com os papéis enquanto refletia um pouco sobre tudo.

O caso dos assassinos que liquidaram com os rapazes da Nêmesis agora estava confiada a uma equipe de investigadores veteranos mas que até então nada haviam descoberto.

Pedira ao novo chefe e titular que deixasse o caso em suas mãos e de Agnaldo porque ela era uma dos principais interessados no assunto pois se a armadilha fora armada para liquidar todos os membros da equipe, e ainda restavam vivos, ela e o Araújo, a vida de ambos poderia ainda estar em risco.

Porém foi exatamente esse argumento que o Delegado chefe usara para a afastar das investigações. Victória Di Angelis estaria se expondo às gangues que liquidaram com os policiais ou poderia também perder o controle sobre seus atos por estar se movendo pelo desejo de vingança.

Vick contra argumentara com o chefe mas foi em vão.Duarte reapareceu pelo corredor e agora estava com a expressão furiosa.

Entrou na sala com o olhar faiscando.

_____Muito bom encontrar os dois namoradinhos logo cedo, assim eu vou arrancar essa sua máscara cínica e mostrar à Di Angelis quem você realmente é.

Agnaldo ergueu a cabeça e piscou várias vezes, perplexo.

_____Como?

_____Conte a ela sobre suas investidas contra minha namorada!

Os dois homens passaram a discutir e tanto Agnaldo quanto Eduardo já falavam alto e pareciam em vias de partirem para a agressão física que Victória decidiu interferir e entrar entre eles.

_____Parem! Se continuarem a discutir, o chefe ainda acaba metendo uma sindicância em vocês dois...

_____Eu admiro você Di Angelis, tão orgulhosa e parece não ligar a mínima se seu namorado está dando encima da minha garota.

O rosto de Vick ficou avermelhado.

Estava prestes a perder seu auto controle quando uma voz conhecida interferiu.

_____Duarte! Já discutimos sobre isso!

Liz entrara na sala e tinha os olhos fixos em Victória, enquanto falava com Eduardo.

_____Saia e depois conversamos! Está fazendo papel de menino raivoso e não se pode agir assim, sendo ambos policiais e armados...

Henrique Duarte engoliu a raiva mas saiu da sala obedientemente. Todos podiam perceber o grande controle que Lizandra exercia sobre ele.
Agnaldo tratou de arranjar uma desculpa de que tinha que apanhar algo no andar superior e também saiu do local, deixando ambas frente a frente.
Vick não conseguia articular palavra. Lizandra estava com seus lindos cabelos loiros soltos e aqueles cachos sobre os ombros lhe emprestavam um aspecto muito sedutor.
A roupa branca impecável, contrastava com sua pele rosada.

Tinha trinta e três anos e era a personificação da mulher sedutora no esplendor da maturidade e viço com a energia que emanava de seu corpo fazendo Vick se sentir quase à beira de um desmaio, por não estar preparada para encontrá-la assim tão de repente.

____Liguei várias vezes em seu celular e você não atendeu. O meu está queimado.

Comprei outro, quer o número?

____ah! Sim! – respondeu a policial, sem saber o que fazer com as mãos e tornando a se sentar em sua escrivaninha pois acabara de perder o contato com as pernas.

____Anote!Liz se aproximou e Vick abriu sua gaveta, com as mãos trêmulas, em busca de seu próprio aparelho celular. Na gaveta, as fotos da polaroid chamaram a atenção da médica.

____Ah! A morte do estudante de engenharia!

____conhece o caso?

____Li no jornal. Era filho de um grande amigo meu. Um sofrimento terrível para a família. Vi o corpo no IML Municipal.

Lizandra apanhou as fotos e as olhou atentamente.

____E o curioso são estas tatuagens aqui. Não lembro de tê-las visto.

____Mas eu as fotografei!

____Sim! Mas... decerto saíram quando o corpo foi lavado. Possivelmente eram feitas em tinta lavável.

____é... mas uma vítima das drogas para a estatística. – lastimou-se a policial.

____ Só o que me deixa cismada é essa tatuagem com dizeres estranhos.A conversa estancou e um silêncio embaraçoso se instalou entre as duas até que Lizandra decidiu explicar sua aparição por alí.

____Bom! Só passei para dizer oi e ver como está. Não tem atendido ao telefone, só o Agnaldo. Assim vou passar também a sentir ciúmes de seu “namorado”...

Vick levantou-se e travou a fechadura da porta. Ato contínuo, puxou Liz para trás do enorme arquivo de aço que obstruía a visão de quem andasse pelo corredor e a apertou contra a parede, enquanto lhe beijava os lábios furiosamente.

Suas mãos lhe percorriam entre as coxas enquanto a médica tratava de retribuir ao gesto, encaminhando-se até o decote da blusa de Vick e agarrando-lhe os seios.

_____Venha para minha casa hoje à noite! Seu lado na cama está frio e os lençóis estão perfumados à nossa espera!

A policial apanhou-lhe o rosto com um misto de ira e desejo.

_____Retirou os que acomodaram o corpo de Duarte?A resposta veio na forma de uma cravada de unhas nos ombros.

_____Está me confundido com outra mulher, Policial! Se estivesse com Eduardo , você seria a primeira pessoa a quem eu contaria.

Vick não resistiu mais ao desejo que sentia e ajoelhou-se e acomodou seu rosto entre as pernas de Liz, beijando-a ardorosamente.

_____Devo estar ficando louca! Mas eu te quero agora! Não posso esperar mais!

Lizandra apanhou-lhe o rosto gentilmente nas mãos e acariciou-o.

_____Terá que ser paciente pelo menos por uns minutos, meu amor! Vou até minha sala no Instituto médico. Espere quinze minutos, arrume uma desculpa e vá até lá.
Estarei esperando no gabinete...

Também estou necessitando tê-la...


Capítulo 4: " vox faucibus haesit "

lat: A voz ficou presa na garganta. Expressão virgiliana para indicar uma forte emoção.


E o amor que fizeram no gabinete não aplacou toda a ânsia e o desejo represados das enamoradas, tanto que Lizandra ligou para seu chefe imediato e pediu uma folga para tratar de “assuntos pessoais”.

Vick, por seu lado, esperou impaciente pelo fim do expediente para poder se unir à amada em sua casa, conforme combinaram.

Naquela tarde nem reclamou de ter que ficar na repartição, no serviço burocrático.

Ao sair apressada pelo saguão principal da delegacia, uma moça franzina e com grandes e espessos óculos de grau no rosto, apanhou-a pelo braço em gesto desesperado...

_____Asa Negra... eu estava tentando falar-lhe mas seus colegas me disseram que não estava na delegacia...Preciso de sua ajuda!

_____Bem! Eu realmente estive fora e já estou saindo... hoje não é meu plantão!

_____Mas preciso que me ouça... tenho algo muito importante a mostrar...

Vick parou e observou melhor sua interlocutora.

Era mesmo uma moça miúda, vestida em roupas muito formais e um pouco gastas e apesar de jovem, tinha um certo aspecto de bibliotecária solteirona.

Olívio, um dos policiais de plantão aproximou-se e insistiu com a moça para que ela saísse.

_____Já anotei seu relato, moça! Vou passar para o Delegado de plantão. Agora vai pra casa e procure se acalmar.A desconhecida percebendo que o policial a conduzia para fora da delegacia, ainda fez um gesto para Vick.

_____Tome este “dossiê” e o leia, por favor! Alguém precisa deter o assassino! Ele vai voltar a matar no próximo sabath... Você precisa detê-lo, Asa Negra! Estendeu para Vick um grande envelope pardo cheio de papéis que a policial apanhou e o botou dentro da mochila.

_____Prometo que o lerei! Olívio fez um sinal disfarçado para Vick.

Um sinal de que a garota era “treze”, isso na gíria policial significava: maluca.

A estranha agradeceu e saiu rapidamente, mergulhando na tarde que caía.

_____Se você não aparecesse acho que a mocinha treze alí teria armado o maior “barraco” aqui na delegacia e aí o chefe ia virar um bicho!

_____Bom! Enfim tudo resolveu-se! – apaziguou Vick.

_____É... a gente aqui vê cada coisa! Imagine que hoje de manhã um homem veio se apresentar pra ser preso porque assim ao menos teria um lugar para dormir e um “rango”?

_____Triste isso! Devia estar mesmo desesperado!

_____Que nada! Ele tem casa e família. Eu pesquisei. É treze também... tudo treze...

Vick saiu da Delegacia rindo.

Agora entendia a razão porque os colegas chamavam Olívio de “Olie13”.


“Relembrando MIRAGEM”.


Na rua, rumo à casa de Liz, Vick repassou na mente, aquela parte difícil e perigosa de sua vida que foi quando Miragem apareceu e desapareceu sem deixar vestígio e quase todos os componentes da equipe Nêmesis foram assassinados.

Araújo ficou com a memória seriamente comprometida e havia dias que nem a reconhecia. Miragem e a irmã estavam em algum castelo perdido na Escócia ou Irlanda, até onde pôde saber e aparentemente a jovem autista perdera o interesse por seu “avatar alfa”.

Quanto à Nêmesis, esta ainda era sua maior preocupação pois enquanto os assassinos dos policiais estivessem soltos havia sim um risco oculto a cada esquina e Victória tratara de se manter atenta e cautelosa.Mas também haviam ocorrido coisas boas naquele período.

Ganhara a chácara do pai e conhecera Agnaldo. Este aparecera em sua vida como um anjo bom, um companheiro leal e arguto que a entendia, principalmente por também ser gay.

Havia ocorrido uma empatia entre os dois desde o primeiro momento em que se viram.

Sir Lancelot até passara a ronronar no colo de Agnaldo, o que acontecia raramente em se tratando de outras pessoas, além da policial, de Lizandra e Adriana.

Vick acelerou a moto.

Estava prestes a passar mais uma noite de amor ao lado da mulher que realmente conseguira “arpoar” seu coração inconstante e isso a fazia sentir-se envolta em densa alegria.
Aqueles dias que estiveram separadas a fizera vibrar de intensa saudade e desejo.

Ao chegar, foi recebida com um delicioso beijo e na mesa posta um jantar à luz de velas.

_____Venha amor! Sei que trabalhou muito e está faminta.

Jantaram calmamente a deliciosa comida italiana regada ao vinho tinto, enquanto suas mãos muitas vezes se tocavam e suas pernas se entrelaçavam por baixo da mesa.

Depois subiram para o demorado banho na hidromassagem. Liz preparou a água com sais perfumados, óleos e pétalas de rosas. Ali, beijaram-se e tocaram-se até o limite do desejo, quando Liz, apanhou Vick pela cintura e a conduziu até seu quarto que para espanto de desta, estava todo enfeitado com flores e o chão e lençóis cobertor por macias pétalas de rosas.

Lizandra sussurrou nos ouvidos de Vick.

_____Hoje quero ser sua de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Quero que me tome “por trás”...

Dizendo isso, abriu a gaveta do criado e mostrou à namorada um certo “artefato” apropriado para o ato.

Vick riu nervosamente e engoliu o medo.

Liz estava se revelando a cada dia, um poço de desejos e fantasias e por mais que a policial tivesse farta experiência com mulheres, às vezes sentia-se um pouco insegura diante daquela fêmea insaciável, o que era bastante natural, devia às circunstâncias.

Respirou fundo e mergulhou naquela aventura alucinante.

Depois do amor, nem se lembrava mais do motivo que deflagrara a última separação entre as duas e pela manhã, fora acordada daquela forma deliciosa, tão peculiar de Liz, que era beijando-a suavemente e sussurrando que a amava até que imergisse do sono e langor matutino e ficasse totalmente desperta.

Na mesa, o “capuccino” pronto, vários pães, manteiga, geléias e frutas a esperavam, em torno de um belo arranjo de flores ao centro. Sentaram-se mudas, envoltas em um clima mágico que beirava a irrealidade.

Vez ou outra, Vick flagrava o olhar profundo de Liz sobre si, onde havia um misto de ternura, desejo e ao fundo um mistério fechado em um cofre, o que maravilhava a policial, ao mesmo tempo que a intrigava.

Ela tinha para si que o olhar de Lizandra era como um túnel com sete portas onde seis estavam abertas e a ultima fechada com uma enorme tranca.

Já lhe dissera isso certa vez e a médica riu e argumentou que sempre era necessário manter uma porta fechada ao se tratar da perigosa “Di Angelis –devastadora-de-corações-desavisados”.

Despediram-se com um beijo longo, onde Vick já sentia saudades e Liz apressou-se em trazer até a namorada sua jaqueta de couro que estava pendurada na cadeira.

_____Vista! As manhãs são frias e podes se resfriar. Vou estar envolvida o dia todo em uma perícia, mas te ligo no fim da tarde.Ciao, amore.

_____Ciao!


“A ALIANÇA”


Naquela semana, Victória di Angelis mergulhou em uma fixação: os dedos de Lizandra Torres.

Mandara forjar duas alianças que havia desenhado cuidadosamente para oferecer à namorada como prova de amor e compromisso.

Na de Liz, havia um lírio com brilhante lhe compondo as pétalas e esmeralda nas folhas. As pedras estavam incrustadas em uma estrutura de ouro branco e amarelo. Uma verdadeira jóia digna de um mestre joalheiro. Já a sua, era uma pequena rosa vermelha encarnada com pequenas pedras de rubi e as folhas em esmeralda. No interior da aliança, gravada estava o nome de Liz e vice-versa.

Até alí, pernoitava na casa da namorada porque esta viajara para um importante congresso internacional de Médicos Legistas em Lisboa- Portugal e só voltaria na outra semana, portanto a policial ainda não tivera a oportunidade de entregar-lhe as alianças mas a aguardava paciente.

Aos seus pés, Sir Lancelot contemplava orgulhoso, sua família.

A gata siamesa de Lizandra dera a luz a uma ninhada de três serelepes gatinhos, aos quais lambia incansavelmente.

Já totalmente esquecida do tal “dossiê” que a estranha lhe dera e que estava guardado em um armário no seu sítio, Vick lia displicentemente um jornal, quando o telefone toca.

Deixou a secretária eletrônica atender pois sabia que o recado certamente era para a médica.

_____Liz! Eu te amo e não consegui dormir esta noite pensando em você. Sei que está viajando mas quero saiba que não desisti de te reconquistar. Quanto ao seu sonho de ter um filho e eu adoraria ser o pai deste bebê. Quando chegar, me ligue!. Quero te ver. Beijos! Henrique.

Vick largou o jornal ao lado. Perdera toda a concentração. Estava perturbada. Seu rival dava tranqüilidade a Liz e havia ainda a referido-se a um filho? Será que entendera errado?. De qualquer forma esta era uma informação verossímil e Lizandra nunca tocara com ela, em tal assunto.

Tomou um banho, alimentou a família de Sir Lancelot e saiu à procura de Agnaldo.

Precisava se aconselhar com alguém que estivesse observando a tudo de outro ângulo e confiava no bom senso do parceiro.Mas ao chegar do apê deste, o encontrou pela primeira vez desde que se conheciam, em um estado de ânimo alterado. Estava sentado em sua poltrona de leitura, com a cabeça nas mãos, chorando como um menino. Descobrira que Adriano, seu namorado tinha um “caso” muito antigo com outro homem e o que era pior, contraíra o vírus HIV deste e sempre lhe escondera sua condição.

_____Eu o amava, Di, e achei que tínhamos uma grande afinidade e cumplicidade que permitia que tudo fosse perfeito e transparente entre nós.

Vick abraçou o amigo que agora lhe molhava os ombros com suas lágrimas copiosas. Esqueceu-se momentaneamente da própria preocupação.

_____Venha! Prepara suas coisas. Precisa sair um pouco, ir a lugares novos. Conheço alguns excelentes. – convidou.


O BAR QUÉOPS


No pequeno e delicioso Bar “Quéops”, os amigos conversavam com as mãos dadas sobre a mesa. Os olhos claros de Agnaldo estavam mareados de lágrimas e tristeza mas aos poucos ele foi recobrando um pouco de sua personalidade jovial e brincalhona.

______Vamos Di... conte aqui para seu “leal- cortez -amigo e incomparável namorado” o que te preocupa...- perguntou Agnaldo.

Victória aproveitou a oportunidade e relatou ao amigo sobre o recado de Duarte e este meneou a cabeça, irritado.

______Esse cara não larga do pé da Liz e além de tudo é um chato insistente.

______E o que acha de tudo isso? Tenho medo de que Lizandra não esteja desencorajando as pretensões dele!

______O cara é mesmo um “mala” que não está disposto a desistir da ex-namorada, mas esse papo de filho, realmente é estranho. É como se eles tivessem conversado algo que Liz ainda não se abriu contigo, sabe lá o motivo.

______O que faria se estivesse em meu lugar?


______Eu esperaria ela voltar e aguardaria que ela tocasse no assunto. Caso contrário, abra você uma conversa franca.

______é o que farei! – concluiu Vick.Uma pausa na conversa dos dois. Após, a policial apertou os dedos de Agnaldo carinhosamente na mão e perguntou.

______Você e Adriano transavam com camisinha? Se não quiser responder, tudo bem! Eu respeito!

______Sei o que está pensando. Sim... sempre utilizávamos a camisinha e olha que em algumas vezes ele alegava que o preservativo “cortava o ritmo” do tesão mas nunca cedi. Porém, eu sei que sou um dos poucos sujeitos que não se deixam levar na “onda” da paixão e confiança exagerada no parceiro. Mas eu ainda o amo!, Di.

______Vocês romperam?

______Sim! Mas estou sofrendo e preocupado com a saúde dele!

______Natural que esteja. Uma relação de meia década deixa marcas. Se quiser desabafar, sabe que pode contar comigo!

______Eu sei, princesa!

Ainda conversavam sobre trivialidades quando a privacidade dos dois terminou pois chegaram no local novos fregueses.

______Ora, ora! Quem encontramos aqui! Os dois pombinhos apaixonados do 8o Distrito...

Robertão aproximou-se, arrastando seu pesado e rotundo corpo.

Atrás de si estavam o “Patrola”, “Cacha”, “Ricochete” e “Jujuba”. Havia também uma moça que provavelmente era a namorada de um deles.

______Estamos voltando de uma “campana”. Não deu em nada e a fome apertou. Será que aqui tem um rango legal? – quis saber o “Patrola”, que do alto de seus dois metros, na verdade tinha uma personalidade amiga e leal, além de gostar de Vick.

Sentaram-se na mesa ao lado e pediram vários lanches. A conversa girava sobre o súbito pedido de aposentadoria do atual chefe da delegacia e sobre quem iria tomar posse para substituí-lo na semana seguinte.

______Espero que seja um Delegado mais jovem e dinâmico. Por lá só passaram “Tiranossaurus Rex ” irados e burocratas. Vick que o diga! – afirmou, o “Jujuba”.

A conversa passou a fluir normalmente até que Agnaldo e Vick pediram a conta e saíram do bar, sob protestos da turma recém-chegada.

______Isso ainda acaba em casório! – resmungou Robertão.

______E eu aqui, cheio de amor pra dar e a gata mais selvagem da delegacia nem olha pra mim!

______Com esse corpo! Você a esmagaria na lua-de-mel e Di Angelis não é boba! – riu-se o Patrola.

______E ela mesmo parecendo ter o coração de pedra está “caidinha” pelo Agnaldo... – emendou Ricochete.

______Tá errado isso! Esses novatos na área chegam e apanham “nossas” garotas... – retrucou Robertão, fungando despeitado.

______Não acho! – disse o “Cacha”, com descrença. ______Di Angelis não ama ninguém... Conheço bem esse tipo de mulher!

 

Capítulo 5: "homo homini lupus"


latim: O homem é o lobo para o homem.

 

Haviam acabado de entrar no apartamento de Agnaldo quando o telefone toca.
Ocorrera uma “chacina” no “Bar Quéops”, minutos atrás, informara o policial plantonista do 8o Distrito.

Vick precisou sentar-se no sofá pois suas pernas não a sustentavam.

______Pelo que me informaram, morreram três homens, uma mulher e um policial está sendo encaminhado ainda vivo para o UTI. Testemunhas disseram que cinco homens armados de metralhadora invadiram apenas uma sala do bar, exatamente onde os policiais estavam e os metralharam. Estou ligando porque o “chefe” quer todos os policiais aqui.O policial do plantão desligou.

______Mon dieu! – exclamou Di Angelis, lembrando-se que haviam estado no local minutos antes.

Desligou o aparelho e contou tudo a Agnaldo que estava preocupado com a palidez da colega.Silêncio.Ao fim, Agnaldo levantou-se e foi até a cozinha preparar um antiácido para si e a amiga pois certamente o estômago de ambos estavam “pegando fogo”.

______Gui! Minha intuição diz que... a cilada era para mim e quem estivesse junto. São os mesmos assassinos da Nêmesis...

Agnaldo não respondeu e estendeu-lhe o copo com o remédio.


No IML, Vick e alguns colegas ajudaram a reconhecer o corpo dos policiais assassinados e da garota que estava com eles.
Agnaldo e Di Angelis não tiveram muito tempo para se lamentar pois como testemunhas valiosas dos últimos minutos antes da chacina, passaram horas na Delegacia, entre delegados, escrivães e investigadores, prestando depoimento e descrevendo em detalhe tudo que viram e presenciaram no Quéops.O dia virou noite e a noite dia quando por fim ambos foram dispensados .

Receberam uma folga por aquele dia.

Na porta do apartamento de Agnaldo, Lizandra esperava com expressão sombria. Vick abraçou-a forte e entraram.

______Voltei logo que soube do ocorrido! – informou a médica. Vick consultou o relógio. Já haviam se passado 30 horas depois da chacina no bar.

______Precisamos conversar, Di, e não quero que seja na cidade nem em minha casa!

______Vamos então para o “ninho da mata” – resolveu a policial.

______Eu vou tomar um banho e me deitar. – avisou Agnaldo.

_____Meus nervos precisam de uma folga para se recomporem. Depois eu ligo para vocês.


"acta est fabula”

Latim: “Terminou a peça”.
Expressão usada no teatro antigo. Foi também pronunciada pelo imperador Augusto na hora de sua morte.


No trajeto até o “ninho da Mata”, Victória dirigira o carro de Lizandra, tagarelando sobre a semana, sentindo-se por fim aliviada e feliz ao rever a namorada.

Liz manteve-se quieta ouvindo a tudo atentamente.Ao entrarem no delicioso quarto do sítio na Serra, abraçou forte Lizandra.
Estava com muitas saudades e insegura devido ao tal assunto : “filho”.

______Di!

______Sim?

______Quero que você saiba que foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, mas estou aqui para me despedir.

______Como?

O teto pareceu ruir sobre a cabeça de Vick.

______Estou saindo de sua vida, Di e gostaria que aceitasse e me deixasse ir mesmo que não possa compreender...

Vick sentou-se na cama com a cabeça baixa.

______Vai voltar para o Duarte?

______O Duarte não é o motivo... mas penso que não terei forças para te falar tudo que deveria agora. quem sabe um dia...

______Está bem! Victória sentia-se como embriagada. Os objetos ao redor estavam desfocados e seu equilíbrio alterado, porém o orgulho ainda a amparou em sua dor.

______Me faz um favor?

______Sim? – perguntou Lizandra com o rosto tenso e os grandes olhos verdes escurecidos pela tristeza.

______Deixe “Lancelot” no apê do Agnaldo.

Depois passo para pegar. A chave da sua casa está aqui.

Entregou a chave e entrou no closet e ali ficou, preparando seu banho até ouvir a porta do chalé bater com a saída da ex-namorada.

Mergulhou em seu banho morno e abandonou-se sem conseguir pensar em nada. Nem no passado nem naquele presente cheio de acontecimentos dolorosos.


Capítulo 6: ENFIM: O LEGADO DA NOITE.


E aconteceu que Vick arrastou Agnaldo consigo para a balada. Já estavam noites e noites freqüentando festas e boates.

Naquele sábado não seria diferente e a policial mal entrara no ambiente palpitante e já avistara uma garota atraente que dançava na pista iluminada .

Aproximou-se e logo estavam se beijando ardentemente. Não se sabe ao certo, mas naquela noite Vick devorou os lábios de pelos menos uma dezena de garotas e ainda se sentia sedenta.

_____Não olhe agora, mas “alguém” te viu “agarrando todas” na pista! – avisou Agnaldo, quando finalmente Victória voltava para a mesa em busca de um breve descanso.Ela olhou ao redor e... viu a doutora Lizandra saindo do local.

_____O que a “legista loira” estava fazendo aqui? Neste antro de perdição GLS?

Agnaldo a olhou, sorriu e emendou.

_____A pergunta certa é: Quem a “legista-loira” estava procurando?

_____Bom! Se ela procurava alguém... não é da minha conta! – retrucou Vick.

_____E agora que descansei... voltemos à captura de milhões de deliciosos lábios femininos! Uhhhh! Isso é uma loucura!

_____Tá bom... eu vou ficando aqui no “point”.- Avisou Agnaldo._____Estou observando um certo rapaz muito tímido há horas. Pelo menos é colírio para os olhos...

E no centro do ciclone, a policial agora apertava contra si em um canto uma macia e perfumada garota enquanto suas mãos atrevidas lhe percorriam o corpo esguio.

O grito na madrugada ecoou onírico e Vick viu-se imergir daquela fantasia noturna para a realidade crua.

______Alguém caiu do décimo andar! – ouviu enquanto procurava encontrar espaço entre as pessoas que se acumulavam em frente à casa noturna. Acima haviam mais quinze andares de um edifício ao lado. Apresentou seu emblema e abriu caminho à custo até o corpo.

Sim, porque a moça que jazia “encaixada” na cerca viva de espinhos à sua frente estava morte e longe de qualquer ajuda que pudessem tentar lhe oferecer. Agnaldo aproximou-se, falando ao celular enquanto mandava que a multidão que se formara se afastasse.

Um homem e uma mulher correram aflitos para onde estava o corpo.

______Minha filha! Minha filha! – chorava agoniado o pai da moça. A mãe, tentava em vão mover o corpo dos espinhos.

______Ajudem-me! - pedia._____Ela está se machucando!

Victória sentia o coração apertado de dó daquela mãe que se negava a aceitar que a filha estava morta.O som das sirenes da ambulância e de um carro patrulha, somaram-se aos ruídos da noite.

______Vamos embora, Di! - convidou Agnaldo.

______Não há nada mais que possa ser feito no momento. Victória tinha os olhos fixos em uma espécie de tatuagem feita na parte interna do braço da jovem morta.

______Veja! Uma inscrição em latim: “Aliud cecidit inter spinas, ...”

______Até onde conheço... “spinas” significa “espinho”...- concluiu Agnaldo. Que louca coincidência.

______Coincidência?

 

Capítulo 7: "Aliud cecidit inter spinas, et simul exortae ipinae suffocaverunt ill "


(“Uma parte do trigo caiu entre os espinhos e afogaram-no os espinhos”)


Victória tremeu ao ouvir o pio triste de uma ave noturna.
Fechara-se em seu sítio na serra naquele fim de semana para refletir sobre o “caso da garota do apartamento 104” e ler o “dossiê “ que lhe fora entregue há um tempo, na delegacia.
A cada página, seu coração batia forte ante o que elas lhe revelavam. Era uma espécie de condensado sobre “assassinos seriais”, suas estórias de crimes e uma análise detalhada de suas mentes anormais. A autora, reunira cuidadosamente recortes de jornais, cópias de laudos necroscópicos e de ocorrências policiais de vários distritos da cidade e do país.
Espalhou a grande quantidade de papéis sobre a mesa de leitura e acendeu outro abajur.

Agnaldo ressonava alto na cama e ela enfim levantou-se para “virá-lo” e o amigo continuou em seu sono profundo.

Desde que haviam saído daquela boate, Vick não conseguira dormir por mais de 3 horas. A inscrição em latim fora copiada integralmente e traduzida.
Agora que lera parte do Dossiê que recebera, finalmente compreendia que havia um assassino serial ativo na cidade que matava de forma a aparentar suicídio ou outra morte causada pela própria vítima.

Anotou no caderno que separara para aquele caso: O Semeador!
Denominara-o assim, pois certamente este tinha por hábito “semear” suas vítimas.

Havia também fotos anexadas em laudos, de desenhos semelhantes a estrelas saindo de um cálice. Abaixo, na minúscula letra da moça que lhe dera o material, a informação: O Cálix de Nix.
Procurou nos papéis mais sobre esta personagem da mitologia Grega. O que leu, causou-lhe uma série de arrepios pelo corpo. Decidiu tomar um banho demorado. Fechou os olhos e dormiu por alguns minutos na banheira.

Viu Lizandra, linda como nunca antes, caminhando nua para seu lado, com os braços estendidos, chamando-a para o amor.

Repentinamente uma negritude densa cai sobre elas e Vick apenas ouve os gritos aflitos da médica pedindo-lhe ajuda. Acordou do breve pesadelo e levantou-se resoluta. Enquanto o “Legado de Nix” estivesse solto na cidade, ninguém estaria à salvo.


EM BUSCA DO ASSASSINO SERIAL


Na Delegacia, Vick digitava um relatório detalhado de todo o “supra-sumo” do que encontrara no dossiê, somados ao que descobrira por intermédio de pesquisas e investigações.

Estava decidida a apresentar aquele material ao Delegado chefe e pedir para formar uma equipe, uma “força tarefa” para sair na caçada do criminoso.
Levantou-se da mesa disposta a conseguir uma entrevista com o chefe quando a médica entra na sala.
Ambas olharam-se, silenciosas por um momento.

______Sir Lancelot não quer abandonar a família! – avisou a médica, de forma um tanto embaraçada.

_____Mas também, procura por você todos os dias. Porém, gostaria que o deixasse comigo por algum tempo porque lá em casa tem a empregada e outras pessoas que podem tratá-lo e dar-lhe as refeições na hora certa.

______Ah sei! Tudo bem, mas só provisoriamente pois estou procurando um bom apartamento para alugar próximo da delegacia. Depois veremos.

A frieza das palavras de Vick fizeram Lizandra sentir um sobressalto.______Está me tratando como se fossemos estranhas!

______Não! Ao contrário de como deve pensar, eu não trato ninguém, homem ou mulher com quem me relaciono formalmente, de outra maneira.
Comparar a si com outras pessoas, fez Liz se irritar e atacar.

______Entendo! Tratamento especial é apenas para as garotas das boates... a quem beija e faz carícias íntimas à vista de quem estiver por perto. Isso pode não pegar bem para a reputação da já famosa e conhecida “Asa Negra”.

______Em uma cidade de mais de um milhão de habitantes, o que representaria uma noite fervilhante em uma boate gay? - retrucou Victória.

______E o que estava fazendo lá?
O modo de falar seco e indiferente de Vick irritou mais ainda a médica.

_______Não lhe interessa! Apenas quero avisá-la que trabalha em uma instituição pública cheia de pessoas de mentalidade tacanha e machista e que não está em situação de se dar ao luxo de se “queimar” em praça pública.

Vick divertiu-se diante daquela explosão de ira.

______E veio até aqui para me dar esse sermão?

______Não! Vim para lhe entregar isso.São fotografias do corpo da jovem que se suicidou. Pensei que gostaria de saber que haviam inscrições e desenhos feitos em tinta lavável no corpo dela.

A policial levantou-se da mesa, visivelmente interessada e apanhou o pacote de fotos.

______E qual foi a “causa mortis”’?

______Bem! O legista de plantão constatou naturalmente que a morte deveu-se a fraturas generalizadas, perda da massa encefálica e esmagamento dos órgãos internos causado pela queda, porém existe algo que ao meu ver não está se encaixando e estou indo agora averiguar.

______O que é?

______Ainda não sei ao certo... mas tão logo consiga descobrir eu te ligo...Victória, pela primeira vez naquela manhã, abriu seu amplo sorriso.

______Estarei aguardando sua ligação, ansiosamente!Lizandra cravou-lhe seus intensos olhos verdes, de onde escapavam que apesar da aparência controlada, dentro de si havia o tormento de emoções múltiplas em conflito .
______Devia sorrir mais, Di... fica tão linda! – sussurrou. _____Fico feliz por ter encontrado algo ao menos que lhe desperte seu interesse e de poder ajudá-la.

Agnaldo entrou na sala e a médica aproveitou a oportunidade e saiu apressada.

______É impressão minha ou senti um clima de “volúpia palpável” entre vocês duas?

______Olha , Gui! Se estivesse em casa agora, correria para uma ducha fria, mas como tenho que ver o chefe... deixo a ducha para depois...

______Ah! O chefe! Aliás... sabe que temos outro chefe, não é? Eu se fosse você só procurava cruzar com ele quando ele a chamasse. Nunca se sabe se este é mais peçonhento do que o antigo...

_____Mas eu preciso falar urgente com ele!

O interfone toca. Agnaldo atende e desliga.

_____Seu desejo é uma ordem. A secretária do gabinete disse que o chefe a espera em sua sala. Esquisito isso... não me parece bom presságio...


A GUILHOTINA


Victória foi introduzida no gabinete e sentou-se para esperar. A porta do pequeno closet estava aberta e certamente o “chefe” estaria ali, pois não o avistou de imediato na sala.
Na mesa, uma plaqueta com a inscrição de : L. Souza e Silva – Delegado de Polícia.

Estranhou ainda o aroma de um delicioso perfume feminino no ambiente e logo descobriu o motivo. Na sala, entrou a passos firmes e arrogante, uma mulher. Esta estendeu-lhe a mão e perguntou:

______Você deve ser Di Angelis. Levante-se policial e só sente quando eu assim determinar...

Vick sentiu o sangue lhe fluir na face, mas levantou-se da cadeira e fitou atenta a figura à sua frente.

______Quem seria aquela mulher arrogante para lhe tratar daquela maneira? – pensou.

______Sou a nova Delegada Chefe deste Distrito, a partir de hoje e devo primeiramente avisar-lhe que não admito qualquer tipo de desrespeito à hierarquia, às leis e ao estatuto interno da polícia.

______e a senhora chamou-me aqui para me avisar sobre isto?

Os olhos azuis da Delegada a fitaram com uma frieza assustadora.

______E só deve falar quando eu autorizar!Vick calou-se.

______Sente-se, Di Angelis e relate-me tudo o que sabe sobre o assassinato da equipe “Nêmesis” e não me oculte nada!

A policial, apesar de ter sido apanhada de surpresa diante da nova chefe, aproveitou e observou-a rapidamente. Era uma mulher miúda e de constituição esguia, apesar de que seu blazer azul escuro elegante lhe atenuava este detalhe, sendo que os cabelos lisos e negros estavam presos firmemente à nuca e o rosto anguloso parecia esculpido no alabastro, tal a brancura da tez.

Aparentava ter aproximadamente quarenta anos e seu semblante frio e severo, moldurado pelos óculos de fina armação redonda, lhe emprestava um aspecto marcial e impingia na mente de quem a visse pela primeira vez, o alerta de que era preciso muita cautela e sorte no trato com tal criatura.

Victória descreveu firme e detalhadamente a estória da “Nêmesis”, sempre com os olhos fixos nos da delegada.
Era preciso demonstrar, subliminarmente que reconhecia sua autoridade e a respeitava , mas não estava intimidada.
Aprendera o truque com um velho domador de feras de um circo.

______Precisa manter contato visual fixo e só retirá-lo quando o animal desviar o olhar. É assim que se estabelece o respeito e a hierarquia entre os animais, mesmos os “ditos” racionais.

A lição já lhe fora útil em outras circunstâncias e podia funcionar naquele momento.

_______Basta! – interrompeu a Delegada.

_______O restante já li nos relatórios dos investigadores. Anote os itens que quero esclarecidos hoje no fim da tarde em um relatório em minha mesa:

_____Como obteve informação privilegiada sobre o local onde a equipe estaria averiguando a denúncia anônima; quem é seu informante sobre algumas circunstâncias que poderiam prejudicá-la e como localizou o paradeiro do policial sobrevivente desaparecido? .Levante-se. Importante ressaltar que não acredito em Papai Noel e é bom que seu relatório seja elaborado sob a luz da sensatez e verdade.
Não tolero mentiras e não confio em ninguém, portanto só redija o que puder comprovar.

Vick preparou-se para sair do gabinete quando a voz grave e fria da delegada a interrompe.

_______Ainda não terminei! A partir de hoje determino que assuma a investigação do caso “Nêmesis” e escolha sua equipe entre os policiais de sua confiança.

Quero relatórios diários sobre a evolução dos trabalhos.

_______Sim senhora!

_______Está dispensada!.

Ao entrar novamente em sua sala, Agnaldo lhe inquire como foi a entrevista com “o chefe”.

_______Não vai acreditar! Nosso chefe usa saias e... acaba de me curar de minha “mulherite crônica”. Tratamento de choque!. Agora sou uma nova Victória Di Angelis.
Breve pausa.
Vick senta-se em sua mesa e fita Agnaldo com suas íris escuras.

______Posso pedir uma coisa?

______sim!... – respondeu Agnaldo, pêgo de surpresa.

______Case-se comigo! Nossos filhos seriam lindos...

______Poupe-me de sua ironia e conte-me o que aconteceu para você estar nesse estado de “demência temporária”?

______Agora trabalhamos para a “guilhotina de La Revolução Francesa”. A mulher é “o caramunhão chupando manga”.

______O quê? Uma mulher?

______da pior espécie e peçonha “40 Years Old”. – emendou Vick. ____Já leu sobre uma cobra que “cospe veneno” ?

______Sim, porque?

______Pois é ela, a própria!

______Ah! Di... Nada pode ser tão péssimo assim... Onde está sua boa sorte?

______Sorte? Eu te avisei Agnaldo para não andar comigo porque eu sou pé frio. Agora deixemos o “muro das lamentações” e vamos aos relatórios. Que minha santa mãe me inspire nesse momento.


O RELATÓRIO


Se neurônios fizessem ruído como engrenagens ao girarem, ninguém naquele andar suportaria a poluição sonora que escaparia do cérebro de Victória. Ela rascunhou, torceu e esmagou várias folhas de papel, além de se levantar poucas vezes da mesa.
Na delegacia, o clima de “funeral” ainda não havia se dissipado diante do assassinato recente dos policiais no Bar Quéops e corria à boca pequena, pelos corredores que os matadores estavam dispostos a qualquer coisa pela “cabeça” de Di Angelis. U
m informante ouvira que fora estabelecida uma pequena fortuna para quem “despachar” a Asa Negra.Vick trabalhava alheia a tudo. Por fim, agarrou a própria cabeça em desespero.

______Estou perdida! Ela não vai acreditar em nada e não posso revelar sobre “MIRAGEM”. E mesmo que o fizesse, como provaria?O celular toca e Lizandra revela.

______Di Angelis descobri algo! A garota já estava morta de uma parada cardíaca, antes de sofrer a queda...

______hã? Mas como o legista não detectou isso?

______Não trabalhou com a possibilidade de assassinato...

______Mas se teve parada cardíaca, algo deve ter lhe causado... e porque se dar ao trabalho de lançá-la pela janela?

______Isso agora é com você...Algo clareou na mente da policial.

______Agora faz sentido. A inscrição em latim. “A semente” caiu entre os espinhos...

______Ajudei em alguma coisa?

______claro!... mas...a parada cardíaca... a garota me parecia jovem...

______Sim! Tinha 22 anos...

______E usava drogas?

______acho que sim. Examinei o septo nasal. Havia vestígio de pó...

______Mas... então o assassino está “batizando” este pó com alguma substância letal... só pode ser isso! – concluiu Vick.

_____Ele precisa que suas vítimas pereçam exatamente no evento de um “sabath”. A garota morreu exatamente no “Sabbath de Ostara” que marca a entrada da Primavera. Seria coincidência demais ter uma overdose exatamente nesta data e despencar na cerca de espinhos... o matador preparou minuciosamente a droga e as circunstâncias da morte.

_______Isso tudo está ficando muito complexo...

_______Liz... a substância... a droga está “batizada” .... e com uma substância que provoca ataque cardíaco e não aparece no exame necroscópico de rotina. Conhece alguma substância de efeito rápido e fulminante que provoque isso?

_______Cianeto! – só pode ser isso! – constatou a médica.

______ótimo... preciso pesquisar!

______Di! Não faça isso! Já está correndo perigo demais com os assassinos da “Nêmesis”... agora vai atrás de um psicopata frio, meticuloso e inteligente?

______Calma querida! Vou tomar cuidado.
Preciso pensar mais e... quero que prometa que tudo que descobriu e conversamos ficará apenas entre nós.

______Eu prometo, mas deve me garantir que vai tomar precaução e se cuidar. Não suportaria se algo ruim acontecesse com você...

Vick sentiu a garganta secar e sua voz sumiu ao ouvir o soluço de Lizandra.

______Não chore, querida! Eu preciso fazer algo... não posso esperar de braços cruzados até que me peguem... eu prometo que vou me cuidar.

Desligou o celular coração apertado.
Tomara uma decisão e um plano lhe ocorrera. Podia dar certo e ela nada perderia em tentar.
Voltou-se para o computador e passou a digitar apressadamente.
A dado momento, o editor de texto sumiu da tela e a imagem captada pelo circuito interno da Delegacia apareceu, mostrando vários carros lado a lado.

_______As garagens... mas este micro deve estar defeituoso. Não está configurado para reproduzir o circuito interno!A imagem sumiu e a tela anterior reapareceu...

_______é MIRAGEM! Ela voltou a contatar e está tentando me mostrar algo! – concluiu apreensiva pois sabia que a MacKarll só intervinha quando descobria que sua “avatar alfa” podia estar se metendo em situação de grande risco.

______Existe algo na garagem... mas qual delas? - indagou para sim em pensamento pois haviam dois pisos que abrigavam os carros dos policiais.Levantou-se decidida a averiguar. Uma voz fria interrompeu-lhe o pensamento.

______Terminou o relatório? Faltam vinte minutos para o fim do expediente.

______Sim! Estão aqui! Victória reuniu os papéis que produzira, anexando-os com outros em uma pasta e os estendeu para a Delegada que os apanhou a um movimento e saiu da sala sem articular palavra.A policial respirou fundo e concentrou-se.

______”A sorte está lançada”. Agora, tratemos das garagens.

Na escadaria que levava até o primeiro sub-solo, Vick procurou ficar fora do alcance da câmara de circuito interno e observar a disposição dos carros. Aparentemente nada estava fora do lugar. Desceu até o segundo piso. Lá olhou demoradamente a disposição dos carros. Tinha memória quase fotográfica e se houvesse algo “fora do lugar” um alarme soaria em sua cabeça.Não demorou e este alarme disparou.

______é aqui! Tem algo fora da disposição normal...A Delegada titular apareceu em seu ângulo de visão. Acabara de sair do elevador e procurava pelo seu carro.

Neste instante seus olhos se cruzam._

_____O que está fazendo aí, Di Angelis?

A policial percebendo que já não havia mais como disfarçar, tentou articular uma desculpa.

______Tenho uma intuição! Há algo errado com esta garagem!A Delegada a olhou com expressão de perplexidade e curiosidade.

______Acredita ter poderes paranormais? Policial?

Vick percebeu que não havia mais saída e deitou-se no chão e arrastou-se cuidadosamente no piso, observando criteriosamente abaixo dos carros.

______O que está fazendo? – repreendeu-a a chefe.

______Levante-se e explique-se!

Vick continuou sua busca. Enfim, avistou uma luz vermelha conhecida piscando embaixo de um veículo. Fez um sinal para a Delegada. Esta abaixou-se e empalideceu ao perceber do que se tratava.

_______Vamos subir! Não diga nada sobre isso com ninguém! - mandou.No gabinete a Delegada ligou várias vezes, distribuindo ordens. Uma equipe anti - bombas já estava descendo para a garagem para desarmar o artefato.

Determinou ainda que sutilmente o prédio fosse evacuado e passasse por uma triagem andar por andar. Os minutos passavam e através do celular e do telefone fixo, a Delegada chefe comandava a operação “transparência”.

A copeira entrou com duas xícaras de café em uma bandeja e biscoitos salgados.Vick, percebendo que o lanche fora preparado para as duas, adiantou-se e apanhou uma xícara fumegante. Estava tensa com os acontecimentos do dia e uma bebida quente não lhe cairia mal.A delegada desligou o telefone, onde se encontrava conversando com o chefe da equipe anti-bombas e ordenou:

_______Não toque em nada! Deixe para se alimentar em sua casa!
Vick sentiu-se enfurecer. Nunca em toda sua carreira como policial, chefe algum a tratara daquela forma, humilhando-a a todo momento.

______Acabo de receber a informação de que encontraram uma bomba sob a viatura que você se utilizaria com seu parceiro para a ronda noturna de hoje!A policial, moveu a cabeça, aborrecida. O cerco sobre si estava se fechando.

______E outra sob meu carro particular! – completou a Delegada.
Victória entendeu de uma só vez a razão da atitude desconfiada da chefe. Esta percebera que havia perigo para ambas também dentro da delegacia e nem o cafezinho estava livre de suspeitas.
Ao ver a expressão surpresa da subordinada, a Delegada informou.

______desde o assassinato da equipe da “Nêmesis”, os chefes de polícia deste distrito também estão recebendo ameaças anônimas de morte. Dizem que não vão parar de matar até que consigam a cabeça do titular e da “Asa Negra”. Isso explica porque tive que assumir este distrito. Ninguém mais o quer. Dizem que está “marcado” por uma poderosa facção criminosa para desaparecer.Por isso a importância do seu relatório. Preciso ao menos entender o “porquê” , que facções criminosas muito organizadas e equipadas estão querendo a sua cabeça.

Outro ponto: como desconfiou da bomba na garagem? Quem é seu informante? Como pode saber em quem confiar?

Diante de tantas perguntas feitas de forma direta e sem rodeios, Vick encarou a chefe, olhando-a firme nos olhos.

______Porque eu, como a presa mais cobiçada por esta facção, deveria me abrir para a senhora?
Também conheço as regras do jogo: não confiar em ninguém. Como posso entregar o nome de um informante que já me livrou várias vezes das ciladas? Pode garantir minha segurança e de meu informante?

A Delegada aproximou-se de Vick de uma forma agressiva e irritada e estendeu o indicador em riste próximo de seu nariz.

_______Escreva o que estou lhe dizendo, Di Angelis. Se estiver envolvida com algum crime ou falcatrua eu vou descobrir, quer você queira ou não e não pensarei duas vezes em te meter atrás das grades e você bem sabe que policial no presídio é “carne morta”!

______Tudo bem! Já estou bem avisada. Agora se a senhora me der licença, eu vou sair. Tenho assuntos particulares a tratar.

______Você não sai desta delegacia até que eu assim determine...Vick perdeu a ultima gota de paciência maltratada.

______Estou indo embora e se achar correto e justo... mande me prender!Disse isso e saiu sem olhar para trás. Estacou surpresa ao perceber que estava sendo apanhada fortemente pelo braço.

______Você vai ficar! Entenda, criança! estamos em uma guerra e se eles querem nos eliminar, vamos surpreendê-los. Nossa defesa será o ataque. Fique e vou te mostrar algo que talvez lhe interesse!