Capítulo
1:
E
naquela noite, uma mãe chorou pelo seu filho.
*Nota
da Autora: "O Legado de Nix" é o relato de outra
aventura vivenciada pela Policial Victória di Angelis que foi
apresentada no conto: "MIRAGEM".
PARTE I
Vick analisava detalhadamente o corpo do rapaz encontrado em uma espécie
da caçamba apropriada para retirada de entulhos.Este apresentava
aquela rigidês característica, o que denotou, além
de outros detalhes que morrera há menos de 24 horas.
Os
médicos legistas já haviam sido avisados. A manhã
ainda estava coberta por um fino nevoeiro e a policial lembrou-se
que ainda não havia tido a oportunidade de ao menos tomar um
café no velho e sebento boteco da esquina da rua Almeida Barcelos.Agnaldo
aproximou-se com seu sorriso amplo. Era realmente uma bela figura
masculina.
______Olha!
não é por nada não, mas não ficaria surpreso
se o laudo desse: morte por overdose! Veja o braço dele...
está cheio de marcas. Olhe a posição dos braços,
pernas. Ele morreu sozinho, contorcendo-se e sem conseguir respirar.
Possívelmente de um ataque cardíaco fulminante...
______É...
bem provável mesmo, mas não sei...olhe só os
pelos do meu braço. Estão arrepiados e acredite, quando
isso acontece é que há algo muito estranho no ar...
______Sim!
a manhã tá fria, nublada e fantasmagórica! -
Agnaldo riu.
______Venha!
eu te pago um café!
______Só
um momentinho! estou anotando detalhes da tatuagem e estas inscrições
aqui, no peito. Parece latim.
______Ah!
decerto alguma prova de amor para uma garota. Esses meninos usam a
pele como se fosse um painel de recados!
______Tudo
bem! acabei. Já tirei várias fotos com minha nova máquina
polaroid. Quem sabe mais tarde eu possa encontrar algo novo..._
_____Não
há nada de novo em encontrar um morto por overdose na cidade
grande!
______é
uma tese! - riu, Victória.
______Vamos!
aceito seu café e podemos conversar sobre banalidades. Ajuda
a relaxar.
______Tá!
mas não me ofereça carona na sua moto! você é
doida e eu ainda nem alcancei os trinta anos.
Capítulo
2: "aquila non capit muscas"
(Do
Latim: A águia não apanha moscas.)
Vick apreciava o cheiro da pele de Lizandra, principalmente aquele
ponto delicioso entre o queixo e o pescoço ou a textura suave
e perfumada da nuca.
A garganta secou quando rememorou o amor que faziam, nuas entre os
lençóis cheirando a lavanda. Liz era do tipo de mulher
que chorava ao atingir o clímax e depois entregava-se a um
abandono langoroso, como se sua alma estivesse ausente.
Outras vezes, mordia-lhe os ombros em desespero e arranhava-lhe as
costas. Na noite anterior não fora diferente.
Amaram-se
intensa e urgentemente e tudo ressurgia novo e especial como se aquela
fosse a primeira noite das duas mulheres. Aconchegou-se mais à
amada adormecida para beijar-lhe suavemente as costas desnudas. Achava-as
perfeitas, assim como suas coxas e mãos longas e aristocráticas.
Cuidou
para não lhe perturbar o sono tão necessário.
Naquela semana a legista se esgotara com laudos e necrópcias
aparentemente intermináveis.
O
celular toca no quarto ainda escurecido pelas cortinas. Vick que zelava
pelo repouso de Liz como uma leoa cuida da cria, pula sobre o aparelho
intrometido e lhe abafa o sonido com o travesseiro. Por fim, a campainha
cessa.
Verificou
se sua parceira continuava adormecida e satisfeita ao constatar que
sim, volta-se para o aparelho e consulta o número de quem acabara
de ligar.
_____Que
droga! É o Henrique! Como esse maroto teve a coragem de me
ligar às 8 horas da manhã do meu primeiro dia de folga?Já
ia lançar o aparelho desligado para baixo da cama, quando percebeu
que na verdade o tal celular não era o seu.
_____Com
Milhões de gafanhotos! rosnou para si ao constatar que
a ligação era para a Liz. Sua ira foi tamanha que jogou
o pobre aparelho, no vaso d agua onde estava montada uma ikebana
de Gérberas e vime. Arrependeu-se logo em seguida pois lembrou-se
que a namorada utilizava principalmente o aparelho como agenda eletrônica.Socorreu
o objeto e saiu do quarto na ponta dos pés. Na copa, meditou
sobre como agir.
Tentou
acionar o aparelho e percebeu que nem o led vermelho deu sinal de
vida. Nada no display. Agoniou-se ao sentir que a umidade do artefato
a denunciaria.
______Eu
e meu temperamento imbecil!
______Ela
vai ficar furiosa quando descobrir!
Consultou
as horas no microondas. 8:10. Uma idéia genial
lhe ocorreu. Ato contínuo, botou o celular no interior do microondas
e ligou. Esperou dar três giros completos para retirar.
______Sou mesma um gênio! concluiu.
O
aparelho na mão estava enxuto. Acionou o botão end
esperançosa, mas logo percebeu que realmente era o fim.
Nem sinal, nem ruído. Abandonou o aparelho na mesa ao seu lado
e procurou concentrar-se nos preparativos da bandeja de café
da manhã para levar até a cama.
Quando
entrou no quarto, Liz já sorria deliciada enquanto se ajeitava
na cama para que a bandeja fosse encaixada eficientemente.
Conversaram
pouco enquanto ceavam. Ambas tinham o dia inteiro de folga e planejavam
aproveitá-lo intensamente. Sorrateiramente, Vick substituiu
o celular avariado pelo seu pois meses atrás, dera à
médica, de aniversário, um sofisticado aparelho idêntico
ao que possuía.
Planejou
assim ganhar tempo, enquanto pensava em algo que lhe livrasse daquela
sinuca.Lizandra conversava de forma descontraída. Programaram
uma caminhada no parque ecológico com direito a banho de cachoeira.
Depois
almoçariam em um restaurante delicioso em uma pequena e pacata
cidade das imediações, apanhariam alguns filmes na locadora
e por fim iriam encomendar um jantar alí na confortável
casa assobradada em que a médica morava.
Vick
aproveitava ao máximo os convites de Lizandra para passar a
noite em sua casa e naquele dia de folga de ambas, a médica,
sempre tão ocupada, prometera-lhe que teriam o dia inteiro
só para ambas.
Já
estavam prontas e vestidas para sair, quando a campainha toca insistentemente.
Vick afastou-se cuidadosamente para um canto da sala pois sabia o
quanto Lizandra prezava o segredo entre ambas.
A
médica espiou pela janela e avistou Henrique que esperava ser
atendido na varanda. Fez sinal para que a policial subisse para o
outro piso e dirigiu-se para a porta. Vick esgueirou-se para trás
do amplo sofá, sem que Liz a visse. Sabia que estava sendo
intrusa, mas seu sangue fervia de ciúmes e queria ouvir a conversa
entre os dois.
_____O
que veio fazer aqui, Henrique?
_____Liguei
em seu celular e você não atendeu. Depois passou a dar
na caixa postal. Sei que hoje é sua folga e pensei em passar
para te levar para um passeio.
_____Já
estou de saída!
Só
então Henrique percebeu que Lizandra estava vestida e com sua
bolsa no braço.
_____Vai
sair para onde? Com quem? Logo hoje que planejei algo especial para
nós dois...
_____Não
somos mais namorados, Henrique!
_____Mas
você prometeu pensar sobre tudo que te disse na Quarta-feira...O
rosto de Liz avermelhou-se.
_____Está
sendo agressivo e inconveniente, além de estar me atrasando...
_____Quem
é o homem que está se intrometendo entre mim e ti?
_____Não
há homem algum e por favor, não me aborreça mais...O
celular de Vick que já estava encaixado na bolsa de Liz, tocou.
Henrique,
irritado tomou o aparelho da mão da médica e atendeu.
Uma voz masculina chamou:
_____Princesa!
É o Agnaldo...Um silêncio denso instalou-se na sala.
Henrique
atirou o aparelho contra a parede e este veio a cair aos pés
de Victória que o pegou e o substituiu pelo de Liz.
A
médica estava visivelmente furiosa.
_____Como
se atreve a fazer isso?
O
policial já estava arrependido de sua explosão de fúria,
mas retrucou:
_____Nunca
pensei que eu e a Di Angelis um dia teríamos algo em comum.
ambos somos dois otários, sendo enganados pelos namorados...
_____Você
não é meu namorado!
_____Mas
aconteceu muita coisa entre nós que não dá para
você tentar ignorar...sinto que você ainda sente algo
por mim. Senti isso ontem no restaurante, quando te roubei um beijo...
O
coração de Vick quase saltou pela garganta. Sabia que
Lizandra trabalhara quase sem qualquer descanso nos últimos
dias, mas ela nada lhe contara sobre o almoço com Henrique.
Liz por sua vez, corou mais ainda e empurrou o rapaz porta afora e
a bateu.
Duarte não insistiu mais e foi embora, acelerando seu carro
esporte. Quase no mesmo minuto, a médica ouve o ronco do motor
da motocicleta de Vick que estava guardada na garagem, ao lado de
sua camionete.
Tentou
alcançá-la mas esta já estava contornando a esquina.
Agnaldo abre a porta do seu apartamento e encontra diante de si, a
colega e parceira de trabalho com o rosto transtornado.
Abandonou
tudo que fazia no momento para ouví-la em seu desabafo, pacientemente.
Ao fim, abraçou-a e a conduziu até o sofá da
sala de televisão, onde sentou-se e acomodou a cabeça
da amiga em seu colo, acariciando-lhe os cabelos.
Se ele sentisse atração pelo sexo feminino, certamente
Vick representaria a mulher de sua vida.
Esperou um momento em silencio, até sentí-la mais calma.
______
aquila non capit muscas .Victória já descobrira
que o colega era um profundo conhecedor das máximas latinas
e sempre as citava quando as julgavam pertinentes ou transmitiam fielmente
sua linha de pensamento, portanto abriu os olhos e fitou os dele,
interrogativamente.
______O
que quer dizer com isso?
Agnaldo
beijou-lhe a fronte e continuou acariciando-lhe os longos cabelos
enquanto esclarecia.
______do
latim: A águia não apanha moscas.
______E
como se aplica no meu caso?
______Quero
dizer que talvez você tenha que se concentrar no que realmente
é perigoso na sua relação com Liz.
Talvez Duarte seja apenas mais uma mosca e você
como águia que é, não deveria deixar que este
ínfimo inseto lhe tire a concentração de seu
verdadeiro alvo ou objetivo.
Capítulo
3:
Ecce
Exiit qui seminat, seminare
(Eis
que o semeador saiu a semear).
Em sua mesa na Delegacia, Vick examinava atentamente com uma lupa
as fotos polaroids do corpo do rapaz morto.
O
caso já havia sido esquecido pelos jornais. Constatara-se que
a morte realmente foi por overdose e o rapaz tinha um longo histórico
de dependência química e inúmeras internações
em clínicas de recuperação, além de recaídas,
o que lhe custou por fim a abreviação de sua vida aos
23 anos.
A
policial guardou as fotos no bolso e levantou-se para ir até
a copa, tomar um café.
Entrara
na delegacia muito cedo pois o sofrimento causado pela ausência
de Liz ao seu lado, latejava com tanta intensidade que a dor era quase
física.
Nestes
dias, gostava de chegar em um horário em que a enorme Delegacia
daquele distrito ainda estava silenciosa e alí se encontravam
ainda, apenas os policiais e carcereiros de plantão.
Havia
também um motivo: detestaria dar de frente com o Duarte. Sentia
um misto de raiva e despeito por ter sido preterida pelo colega e
por isso, procurava centrar sua mente no trabalho para não
fazer nenhuma bobagem passional, do tipo, esmurrar o rival pelos corredores.
Apanhou
o café e sorveu-o lentamente em sua escrivaninha, novamente
concentrada nas tatuagens que haviam pelo corpo do morto, principalmente
certa inscrição em latim:
Ecce Exiit qui seminat, seminare(Eis que o semeador saiu a semear).
Agnaldo
já lhe traduzira a inscrição na tarde anterior.
O colega viera de um distrito policial de outro estado e agora substituía
o Araújo na parceria com Victória.
Pensando nele, hei-lo que entra pela porta, com os cabelos aloirados
molhados e a pele recendendo a um banho recente.
_____refletiu
sobre o que conversamos ontem?
_____A
noite inteira. Não consegui fechar o olho.
_____bem,
vai chegar a hora em que deverá tomar uma atitude...
_____é...
e isso está me abalando os nervos. Se esse telefone tocar agora
mesmo, sou capaz de esmurrar meu nariz de susto.
Foi
Vick acabar de falar e o aparelho passou a tocar. A policial deu um
salto e quase caiu da cadeira.Agnaldo a olhou surpreso.
_____Fique
calma! Vou atender... e se for ela?
_____Diga
que estou na rua...
_____Ah!Botou
o fone no ouvido e escutou, articulou algumas palavras e o passou
para Vick.
_____é
o Pedro. Quer saber se você poderia ir ao cinema com ele e a
mãe neste fim de semana.
_____Ah!
Me dá o fone!Conversaram e combinaram assistir um filme no
domingo. Desligou.
_____Ufa!
Pensei que fosse Liz...
_____Não
sei o que te faria se sentir pior! Ela ligando ou não ligando!
_____Nem
eu sei! Mas preciso organizar minhas idéias...
_____E
assim as moscas tomam conta!
Vick
baixou a cabeça e procurou concentrar-se na papelada que havia
sobre sua mesa. Ocorrências simples.
Ocorrências
comuns e uma ou duas que ela pensava que seria bom averiguar a fundo.
Desde
que Araújo fora aposentado da polícia e Agnaldo o substituíra
como seu parceiro, o novo delegado Titular do Distrito, designou ambos
no repasse dos crimes esquecidos no arquivo morto,
ou seja, os considerados sem solução.
Havia
uma sala inteira com inúmeras pastas empoeiradas e guardadas
há pelo menos cinco ou mais de dez anos.
Pela
parte de vidro na divisória que formava sua estreita sala,
Vick viu quando Duarte passou pelo corredor apressado e com expressão
apática. Naquele instante, temeu que o colega fosse entrar
na sala para tirar satisfações com Agnaldo pelo
suposto telefonema no celular de Liz.
Temia
também não ser capaz de ocultar sua própria ira
diante do homem que era seu rival. Ao vê-lo passar sem dizer
nada, Vick respirou aliviada e voltou a lidar com os papéis
enquanto refletia um pouco sobre tudo.
O
caso dos assassinos que liquidaram com os rapazes da Nêmesis
agora estava confiada a uma equipe de investigadores veteranos mas
que até então nada haviam descoberto.
Pedira
ao novo chefe e titular que deixasse o caso em suas mãos e
de Agnaldo porque ela era uma dos principais interessados no assunto
pois se a armadilha fora armada para liquidar todos os membros da
equipe, e ainda restavam vivos, ela e o Araújo, a vida de ambos
poderia ainda estar em risco.
Porém
foi exatamente esse argumento que o Delegado chefe usara para a afastar
das investigações. Victória Di Angelis estaria
se expondo às gangues que liquidaram com os policiais ou poderia
também perder o controle sobre seus atos por estar se movendo
pelo desejo de vingança.
Vick
contra argumentara com o chefe mas foi em vão.Duarte reapareceu
pelo corredor e agora estava com a expressão furiosa.
Entrou
na sala com o olhar faiscando.
_____Muito
bom encontrar os dois namoradinhos logo cedo, assim eu vou arrancar
essa sua máscara cínica e mostrar à Di Angelis
quem você realmente é.
Agnaldo
ergueu a cabeça e piscou várias vezes, perplexo.
_____Como?
_____Conte
a ela sobre suas investidas contra minha namorada!
Os
dois homens passaram a discutir e tanto Agnaldo quanto Eduardo já
falavam alto e pareciam em vias de partirem para a agressão
física que Victória decidiu interferir e entrar entre
eles.
_____Parem!
Se continuarem a discutir, o chefe ainda acaba metendo uma sindicância
em vocês dois...
_____Eu
admiro você Di Angelis, tão orgulhosa e parece não
ligar a mínima se seu namorado está dando encima da
minha garota.
O
rosto de Vick ficou avermelhado.
Estava
prestes a perder seu auto controle quando uma voz conhecida interferiu.
_____Duarte!
Já discutimos sobre isso!
Liz
entrara na sala e tinha os olhos fixos em Victória, enquanto
falava com Eduardo.
_____Saia
e depois conversamos! Está fazendo papel de menino raivoso
e não se pode agir assim, sendo ambos policiais e armados...
Henrique
Duarte engoliu a raiva mas saiu da sala obedientemente. Todos podiam
perceber o grande controle que Lizandra exercia sobre ele.
Agnaldo tratou de arranjar uma desculpa de que tinha que apanhar algo
no andar superior e também saiu do local, deixando ambas frente
a frente.
Vick não conseguia articular palavra. Lizandra estava com seus
lindos cabelos loiros soltos e aqueles cachos sobre os ombros lhe
emprestavam um aspecto muito sedutor.
A roupa branca impecável, contrastava com sua pele rosada.
Tinha
trinta e três anos e era a personificação da mulher
sedutora no esplendor da maturidade e viço com a energia que
emanava de seu corpo fazendo Vick se sentir quase à beira de
um desmaio, por não estar preparada para encontrá-la
assim tão de repente.
____Liguei
várias vezes em seu celular e você não atendeu.
O meu está queimado.
Comprei
outro, quer o número?
____ah!
Sim! respondeu a policial, sem saber o que fazer com as mãos
e tornando a se sentar em sua escrivaninha pois acabara de perder
o contato com as pernas.
____Anote!Liz
se aproximou e Vick abriu sua gaveta, com as mãos trêmulas,
em busca de seu próprio aparelho celular. Na gaveta, as fotos
da polaroid chamaram a atenção da médica.
____Ah!
A morte do estudante de engenharia!
____conhece
o caso?
____Li
no jornal. Era filho de um grande amigo meu. Um sofrimento terrível
para a família. Vi o corpo no IML Municipal.
Lizandra
apanhou as fotos e as olhou atentamente.
____E
o curioso são estas tatuagens aqui. Não lembro de tê-las
visto.
____Mas
eu as fotografei!
____Sim!
Mas... decerto saíram quando o corpo foi lavado. Possivelmente
eram feitas em tinta lavável.
____é...
mas uma vítima das drogas para a estatística.
lastimou-se a policial.
____
Só o que me deixa cismada é essa tatuagem com dizeres
estranhos.A conversa estancou e um silêncio embaraçoso
se instalou entre as duas até que Lizandra decidiu explicar
sua aparição por alí.
____Bom!
Só passei para dizer oi e ver como está. Não
tem atendido ao telefone, só o Agnaldo. Assim vou passar também
a sentir ciúmes de seu namorado...
Vick
levantou-se e travou a fechadura da porta. Ato contínuo, puxou
Liz para trás do enorme arquivo de aço que obstruía
a visão de quem andasse pelo corredor e a apertou contra a
parede, enquanto lhe beijava os lábios furiosamente.
Suas
mãos lhe percorriam entre as coxas enquanto a médica
tratava de retribuir ao gesto, encaminhando-se até o decote
da blusa de Vick e agarrando-lhe os seios.
_____Venha
para minha casa hoje à noite! Seu lado na cama está
frio e os lençóis estão perfumados à nossa
espera!
A
policial apanhou-lhe o rosto com um misto de ira e desejo.
_____Retirou
os que acomodaram o corpo de Duarte?A resposta veio na forma de uma
cravada de unhas nos ombros.
_____Está
me confundido com outra mulher, Policial! Se estivesse com Eduardo
, você seria a primeira pessoa a quem eu contaria.
Vick
não resistiu mais ao desejo que sentia e ajoelhou-se e acomodou
seu rosto entre as pernas de Liz, beijando-a ardorosamente.
_____Devo
estar ficando louca! Mas eu te quero agora! Não posso esperar
mais!
Lizandra
apanhou-lhe o rosto gentilmente nas mãos e acariciou-o.
_____Terá
que ser paciente pelo menos por uns minutos, meu amor! Vou até
minha sala no Instituto médico. Espere quinze minutos, arrume
uma desculpa e vá até lá.
Estarei esperando no gabinete...
Também
estou necessitando tê-la...
Capítulo
4: " vox faucibus haesit "
lat:
A voz ficou presa na garganta. Expressão virgiliana para indicar
uma forte emoção.
E o amor que fizeram no gabinete não aplacou toda a ânsia
e o desejo represados das enamoradas, tanto que Lizandra ligou para
seu chefe imediato e pediu uma folga para tratar de assuntos
pessoais.
Vick,
por seu lado, esperou impaciente pelo fim do expediente para poder
se unir à amada em sua casa, conforme combinaram.
Naquela
tarde nem reclamou de ter que ficar na repartição, no
serviço burocrático.
Ao
sair apressada pelo saguão principal da delegacia, uma moça
franzina e com grandes e espessos óculos de grau no rosto,
apanhou-a pelo braço em gesto desesperado...
_____Asa
Negra... eu estava tentando falar-lhe mas seus colegas me disseram
que não estava na delegacia...Preciso de sua ajuda!
_____Bem!
Eu realmente estive fora e já estou saindo... hoje não
é meu plantão!
_____Mas
preciso que me ouça... tenho algo muito importante a mostrar...
Vick
parou e observou melhor sua interlocutora.
Era
mesmo uma moça miúda, vestida em roupas muito formais
e um pouco gastas e apesar de jovem, tinha um certo aspecto de bibliotecária
solteirona.
Olívio,
um dos policiais de plantão aproximou-se e insistiu com a moça
para que ela saísse.
_____Já
anotei seu relato, moça! Vou passar para o Delegado de plantão.
Agora vai pra casa e procure se acalmar.A desconhecida percebendo
que o policial a conduzia para fora da delegacia, ainda fez um gesto
para Vick.
_____Tome
este dossiê e o leia, por favor! Alguém precisa
deter o assassino! Ele vai voltar a matar no próximo sabath...
Você precisa detê-lo, Asa Negra! Estendeu para Vick um
grande envelope pardo cheio de papéis que a policial apanhou
e o botou dentro da mochila.
_____Prometo
que o lerei! Olívio fez um sinal disfarçado para Vick.
Um
sinal de que a garota era treze, isso na gíria
policial significava: maluca.
A
estranha agradeceu e saiu rapidamente, mergulhando na tarde que caía.
_____Se
você não aparecesse acho que a mocinha treze alí
teria armado o maior barraco aqui na delegacia e aí
o chefe ia virar um bicho!
_____Bom!
Enfim tudo resolveu-se! apaziguou Vick.
_____É...
a gente aqui vê cada coisa! Imagine que hoje de manhã
um homem veio se apresentar pra ser preso porque assim ao menos teria
um lugar para dormir e um rango?
_____Triste
isso! Devia estar mesmo desesperado!
_____Que
nada! Ele tem casa e família. Eu pesquisei. É treze
também... tudo treze...
Vick
saiu da Delegacia rindo.
Agora
entendia a razão porque os colegas chamavam Olívio de
Olie13.
Relembrando MIRAGEM.
Na rua, rumo à casa de Liz, Vick repassou na mente, aquela
parte difícil e perigosa de sua vida que foi quando Miragem
apareceu e desapareceu sem deixar vestígio e quase todos os
componentes da equipe Nêmesis foram assassinados.
Araújo
ficou com a memória seriamente comprometida e havia dias que
nem a reconhecia. Miragem e a irmã estavam em algum castelo
perdido na Escócia ou Irlanda, até onde pôde saber
e aparentemente a jovem autista perdera o interesse por seu avatar
alfa.
Quanto
à Nêmesis, esta ainda era sua maior preocupação
pois enquanto os assassinos dos policiais estivessem soltos havia
sim um risco oculto a cada esquina e Victória tratara de se
manter atenta e cautelosa.Mas também haviam ocorrido coisas
boas naquele período.
Ganhara
a chácara do pai e conhecera Agnaldo. Este aparecera em sua
vida como um anjo bom, um companheiro leal e arguto que a entendia,
principalmente por também ser gay.
Havia
ocorrido uma empatia entre os dois desde o primeiro momento em que
se viram.
Sir
Lancelot até passara a ronronar no colo de Agnaldo, o que acontecia
raramente em se tratando de outras pessoas, além da policial,
de Lizandra e Adriana.
Vick
acelerou a moto.
Estava
prestes a passar mais uma noite de amor ao lado da mulher que realmente
conseguira arpoar seu coração inconstante
e isso a fazia sentir-se envolta em densa alegria.
Aqueles dias que estiveram separadas a fizera vibrar de intensa saudade
e desejo.
Ao
chegar, foi recebida com um delicioso beijo e na mesa posta um jantar
à luz de velas.
_____Venha
amor! Sei que trabalhou muito e está faminta.
Jantaram
calmamente a deliciosa comida italiana regada ao vinho tinto, enquanto
suas mãos muitas vezes se tocavam e suas pernas se entrelaçavam
por baixo da mesa.
Depois
subiram para o demorado banho na hidromassagem. Liz preparou a água
com sais perfumados, óleos e pétalas de rosas. Ali,
beijaram-se e tocaram-se até o limite do desejo, quando Liz,
apanhou Vick pela cintura e a conduziu até seu quarto que para
espanto de desta, estava todo enfeitado com flores e o chão
e lençóis cobertor por macias pétalas de rosas.
Lizandra
sussurrou nos ouvidos de Vick.
_____Hoje
quero ser sua de todas as maneiras possíveis e imagináveis.
Quero que me tome por trás...
Dizendo
isso, abriu a gaveta do criado e mostrou à namorada um certo
artefato apropriado para o ato.
Vick
riu nervosamente e engoliu o medo.
Liz
estava se revelando a cada dia, um poço de desejos e fantasias
e por mais que a policial tivesse farta experiência com mulheres,
às vezes sentia-se um pouco insegura diante daquela fêmea
insaciável, o que era bastante natural, devia às circunstâncias.
Respirou
fundo e mergulhou naquela aventura alucinante.
Depois
do amor, nem se lembrava mais do motivo que deflagrara a última
separação entre as duas e pela manhã, fora acordada
daquela forma deliciosa, tão peculiar de Liz, que era beijando-a
suavemente e sussurrando que a amava até que imergisse do sono
e langor matutino e ficasse totalmente desperta.
Na
mesa, o capuccino pronto, vários pães, manteiga,
geléias e frutas a esperavam, em torno de um belo arranjo de
flores ao centro. Sentaram-se mudas, envoltas em um clima mágico
que beirava a irrealidade.
Vez
ou outra, Vick flagrava o olhar profundo de Liz sobre si, onde havia
um misto de ternura, desejo e ao fundo um mistério fechado
em um cofre, o que maravilhava a policial, ao mesmo tempo que a intrigava.
Ela
tinha para si que o olhar de Lizandra era como um túnel com
sete portas onde seis estavam abertas e a ultima fechada com uma enorme
tranca.
Já
lhe dissera isso certa vez e a médica riu e argumentou que
sempre era necessário manter uma porta fechada ao se tratar
da perigosa Di Angelis devastadora-de-corações-desavisados.
Despediram-se
com um beijo longo, onde Vick já sentia saudades e Liz apressou-se
em trazer até a namorada sua jaqueta de couro que estava pendurada
na cadeira.
_____Vista!
As manhãs são frias e podes se resfriar. Vou estar envolvida
o dia todo em uma perícia, mas te ligo no fim da tarde.Ciao,
amore.
_____Ciao!
A ALIANÇA
Naquela semana, Victória di Angelis mergulhou em uma fixação:
os dedos de Lizandra Torres.
Mandara
forjar duas alianças que havia desenhado cuidadosamente para
oferecer à namorada como prova de amor e compromisso.
Na
de Liz, havia um lírio com brilhante lhe compondo as pétalas
e esmeralda nas folhas. As pedras estavam incrustadas em uma estrutura
de ouro branco e amarelo. Uma verdadeira jóia digna de um mestre
joalheiro. Já a sua, era uma pequena rosa vermelha encarnada
com pequenas pedras de rubi e as folhas em esmeralda. No interior
da aliança, gravada estava o nome de Liz e vice-versa.
Até
alí, pernoitava na casa da namorada porque esta viajara para
um importante congresso internacional de Médicos Legistas em
Lisboa- Portugal e só voltaria na outra semana, portanto a
policial ainda não tivera a oportunidade de entregar-lhe as
alianças mas a aguardava paciente.
Aos
seus pés, Sir Lancelot contemplava orgulhoso, sua família.
A
gata siamesa de Lizandra dera a luz a uma ninhada de três serelepes
gatinhos, aos quais lambia incansavelmente.
Já
totalmente esquecida do tal dossiê que a estranha
lhe dera e que estava guardado em um armário no seu sítio,
Vick lia displicentemente um jornal, quando o telefone toca.
Deixou
a secretária eletrônica atender pois sabia que o recado
certamente era para a médica.
_____Liz!
Eu te amo e não consegui dormir esta noite pensando em você.
Sei que está viajando mas quero saiba que não desisti
de te reconquistar. Quanto ao seu sonho de ter um filho e eu adoraria
ser o pai deste bebê. Quando chegar, me ligue!. Quero te ver.
Beijos! Henrique.
Vick
largou o jornal ao lado. Perdera toda a concentração.
Estava perturbada. Seu rival dava tranqüilidade a Liz e havia
ainda a referido-se a um filho? Será que entendera errado?.
De qualquer forma esta era uma informação verossímil
e Lizandra nunca tocara com ela, em tal assunto.
Tomou
um banho, alimentou a família de Sir Lancelot e saiu à
procura de Agnaldo.
Precisava
se aconselhar com alguém que estivesse observando a tudo de
outro ângulo e confiava no bom senso do parceiro.Mas ao chegar
do apê deste, o encontrou pela primeira vez desde que se conheciam,
em um estado de ânimo alterado. Estava sentado em sua poltrona
de leitura, com a cabeça nas mãos, chorando como um
menino. Descobrira que Adriano, seu namorado tinha um caso
muito antigo com outro homem e o que era pior, contraíra o
vírus HIV deste e sempre lhe escondera sua condição.
_____Eu
o amava, Di, e achei que tínhamos uma grande afinidade e cumplicidade
que permitia que tudo fosse perfeito e transparente entre nós.
Vick
abraçou o amigo que agora lhe molhava os ombros com suas lágrimas
copiosas. Esqueceu-se momentaneamente da própria preocupação.
_____Venha!
Prepara suas coisas. Precisa sair um pouco, ir a lugares novos. Conheço
alguns excelentes. convidou.
O BAR QUÉOPS
No pequeno e delicioso Bar Quéops, os amigos conversavam
com as mãos dadas sobre a mesa. Os olhos claros de Agnaldo
estavam mareados de lágrimas e tristeza mas aos poucos ele
foi recobrando um pouco de sua personalidade jovial e brincalhona.
______Vamos
Di... conte aqui para seu leal- cortez -amigo e incomparável
namorado o que te preocupa...- perguntou Agnaldo.
Victória
aproveitou a oportunidade e relatou ao amigo sobre o recado de Duarte
e este meneou a cabeça, irritado.
______Esse
cara não larga do pé da Liz e além de tudo é
um chato insistente.
______E
o que acha de tudo isso? Tenho medo de que Lizandra não esteja
desencorajando as pretensões dele!
______O
cara é mesmo um mala que não está
disposto a desistir da ex-namorada, mas esse papo de filho, realmente
é estranho. É como se eles tivessem conversado algo
que Liz ainda não se abriu contigo, sabe lá o motivo.
______O
que faria se estivesse em meu lugar?
______Eu esperaria ela voltar e aguardaria que ela tocasse no assunto.
Caso contrário, abra você uma conversa franca.
______é
o que farei! concluiu Vick.Uma pausa na conversa dos dois.
Após, a policial apertou os dedos de Agnaldo carinhosamente
na mão e perguntou.
______Você
e Adriano transavam com camisinha? Se não quiser responder,
tudo bem! Eu respeito!
______Sei
o que está pensando. Sim... sempre utilizávamos a camisinha
e olha que em algumas vezes ele alegava que o preservativo cortava
o ritmo do tesão mas nunca cedi. Porém, eu sei
que sou um dos poucos sujeitos que não se deixam levar na onda
da paixão e confiança exagerada no parceiro. Mas eu
ainda o amo!, Di.
______Vocês
romperam?
______Sim!
Mas estou sofrendo e preocupado com a saúde dele!
______Natural
que esteja. Uma relação de meia década deixa
marcas. Se quiser desabafar, sabe que pode contar comigo!
______Eu
sei, princesa!
Ainda
conversavam sobre trivialidades quando a privacidade dos dois terminou
pois chegaram no local novos fregueses.
______Ora,
ora! Quem encontramos aqui! Os dois pombinhos apaixonados do 8o Distrito...
Robertão
aproximou-se, arrastando seu pesado e rotundo corpo.
Atrás
de si estavam o Patrola, Cacha, Ricochete
e Jujuba. Havia também uma moça que provavelmente
era a namorada de um deles.
______Estamos
voltando de uma campana. Não deu em nada e a fome
apertou. Será que aqui tem um rango legal? quis saber
o Patrola, que do alto de seus dois metros, na verdade
tinha uma personalidade amiga e leal, além de gostar de Vick.
Sentaram-se
na mesa ao lado e pediram vários lanches. A conversa girava
sobre o súbito pedido de aposentadoria do atual chefe da delegacia
e sobre quem iria tomar posse para substituí-lo na semana seguinte.
______Espero
que seja um Delegado mais jovem e dinâmico. Por lá só
passaram Tiranossaurus Rex irados e burocratas. Vick
que o diga! afirmou, o Jujuba.
A
conversa passou a fluir normalmente até que Agnaldo e Vick
pediram a conta e saíram do bar, sob protestos da turma recém-chegada.
______Isso
ainda acaba em casório! resmungou Robertão.
______E
eu aqui, cheio de amor pra dar e a gata mais selvagem da delegacia
nem olha pra mim!
______Com
esse corpo! Você a esmagaria na lua-de-mel e Di Angelis não
é boba! riu-se o Patrola.
______E
ela mesmo parecendo ter o coração de pedra está
caidinha pelo Agnaldo... emendou Ricochete.
______Tá
errado isso! Esses novatos na área chegam e apanham nossas
garotas... retrucou Robertão, fungando despeitado.
______Não
acho! disse o Cacha, com descrença. ______Di
Angelis não ama ninguém... Conheço bem esse tipo
de mulher!
Capítulo
5: "homo homini lupus"
latim: O homem é o lobo para o homem.
Haviam
acabado de entrar no apartamento de Agnaldo quando o telefone toca.
Ocorrera uma chacina no Bar Quéops,
minutos atrás, informara o policial plantonista do 8o Distrito.
Vick
precisou sentar-se no sofá pois suas pernas não a sustentavam.
______Pelo
que me informaram, morreram três homens, uma mulher e um policial
está sendo encaminhado ainda vivo para o UTI. Testemunhas disseram
que cinco homens armados de metralhadora invadiram apenas uma sala
do bar, exatamente onde os policiais estavam e os metralharam. Estou
ligando porque o chefe quer todos os policiais aqui.O
policial do plantão desligou.
______Mon
dieu! exclamou Di Angelis, lembrando-se que haviam estado no
local minutos antes.
Desligou
o aparelho e contou tudo a Agnaldo que estava preocupado com a palidez
da colega.Silêncio.Ao fim, Agnaldo levantou-se e foi até
a cozinha preparar um antiácido para si e a amiga pois certamente
o estômago de ambos estavam pegando fogo.
______Gui!
Minha intuição diz que... a cilada era para mim e quem
estivesse junto. São os mesmos assassinos da Nêmesis...
Agnaldo
não respondeu e estendeu-lhe o copo com o remédio.
No IML, Vick e alguns colegas ajudaram a reconhecer o corpo dos policiais
assassinados e da garota que estava com eles.
Agnaldo e Di Angelis não tiveram muito tempo para se lamentar
pois como testemunhas valiosas dos últimos minutos antes da
chacina, passaram horas na Delegacia, entre delegados, escrivães
e investigadores, prestando depoimento e descrevendo em detalhe tudo
que viram e presenciaram no Quéops.O dia virou noite e a noite
dia quando por fim ambos foram dispensados .
Receberam
uma folga por aquele dia.
Na
porta do apartamento de Agnaldo, Lizandra esperava com expressão
sombria. Vick abraçou-a forte e entraram.
______Voltei
logo que soube do ocorrido! informou a médica. Vick
consultou o relógio. Já haviam se passado 30 horas depois
da chacina no bar.
______Precisamos
conversar, Di, e não quero que seja na cidade nem em minha
casa!
______Vamos
então para o ninho da mata resolveu a policial.
______Eu
vou tomar um banho e me deitar. avisou Agnaldo.
_____Meus
nervos precisam de uma folga para se recomporem. Depois eu ligo para
vocês.
"acta est fabula
Latim:
Terminou a peça.
Expressão usada no teatro antigo. Foi também pronunciada
pelo imperador Augusto na hora de sua morte.
No trajeto até o ninho da Mata, Victória
dirigira o carro de Lizandra, tagarelando sobre a semana, sentindo-se
por fim aliviada e feliz ao rever a namorada.
Liz
manteve-se quieta ouvindo a tudo atentamente.Ao entrarem no delicioso
quarto do sítio na Serra, abraçou forte Lizandra.
Estava com muitas saudades e insegura devido ao tal assunto : filho.
______Di!
______Sim?
______Quero
que você saiba que foi a melhor coisa que aconteceu na minha
vida, mas estou aqui para me despedir.
______Como?
O
teto pareceu ruir sobre a cabeça de Vick.
______Estou
saindo de sua vida, Di e gostaria que aceitasse e me deixasse ir mesmo
que não possa compreender...
Vick
sentou-se na cama com a cabeça baixa.
______Vai
voltar para o Duarte?
______O
Duarte não é o motivo... mas penso que não terei
forças para te falar tudo que deveria agora. quem sabe um dia...
______Está
bem! Victória sentia-se como embriagada. Os objetos ao redor
estavam desfocados e seu equilíbrio alterado, porém
o orgulho ainda a amparou em sua dor.
______Me
faz um favor?
______Sim?
perguntou Lizandra com o rosto tenso e os grandes olhos verdes
escurecidos pela tristeza.
______Deixe
Lancelot no apê do Agnaldo.
Depois
passo para pegar. A chave da sua casa está aqui.
Entregou
a chave e entrou no closet e ali ficou, preparando seu banho até
ouvir a porta do chalé bater com a saída da ex-namorada.
Mergulhou
em seu banho morno e abandonou-se sem conseguir pensar em nada. Nem
no passado nem naquele presente cheio de acontecimentos dolorosos.
Capítulo
6: ENFIM: O LEGADO DA NOITE.
E aconteceu que Vick arrastou Agnaldo consigo para a balada. Já
estavam noites e noites freqüentando festas e boates.
Naquele
sábado não seria diferente e a policial mal entrara
no ambiente palpitante e já avistara uma garota atraente que
dançava na pista iluminada .
Aproximou-se
e logo estavam se beijando ardentemente. Não se sabe ao certo,
mas naquela noite Vick devorou os lábios de pelos menos uma
dezena de garotas e ainda se sentia sedenta.
_____Não
olhe agora, mas alguém te viu agarrando todas
na pista! avisou Agnaldo, quando finalmente Victória
voltava para a mesa em busca de um breve descanso.Ela olhou ao redor
e... viu a doutora Lizandra saindo do local.
_____O
que a legista loira estava fazendo aqui? Neste antro de
perdição GLS?
Agnaldo
a olhou, sorriu e emendou.
_____A
pergunta certa é: Quem a legista-loira estava procurando?
_____Bom!
Se ela procurava alguém... não é da minha conta!
retrucou Vick.
_____E
agora que descansei... voltemos à captura de milhões
de deliciosos lábios femininos! Uhhhh! Isso é uma loucura!
_____Tá
bom... eu vou ficando aqui no point.- Avisou Agnaldo._____Estou
observando um certo rapaz muito tímido há horas. Pelo
menos é colírio para os olhos...
E
no centro do ciclone, a policial agora apertava contra si em um canto
uma macia e perfumada garota enquanto suas mãos atrevidas lhe
percorriam o corpo esguio.
O
grito na madrugada ecoou onírico e Vick viu-se imergir daquela
fantasia noturna para a realidade crua.
______Alguém
caiu do décimo andar! ouviu enquanto procurava encontrar
espaço entre as pessoas que se acumulavam em frente à
casa noturna. Acima haviam mais quinze andares de um edifício
ao lado. Apresentou seu emblema e abriu caminho à custo até
o corpo.
Sim,
porque a moça que jazia encaixada na cerca viva
de espinhos à sua frente estava morte e longe de qualquer ajuda
que pudessem tentar lhe oferecer. Agnaldo aproximou-se, falando ao
celular enquanto mandava que a multidão que se formara se afastasse.
Um
homem e uma mulher correram aflitos para onde estava o corpo.
______Minha
filha! Minha filha! chorava agoniado o pai da moça.
A mãe, tentava em vão mover o corpo dos espinhos.
______Ajudem-me!
- pedia._____Ela está se machucando!
Victória
sentia o coração apertado de dó daquela mãe
que se negava a aceitar que a filha estava morta.O som das sirenes
da ambulância e de um carro patrulha, somaram-se aos ruídos
da noite.
______Vamos
embora, Di! - convidou Agnaldo.
______Não
há nada mais que possa ser feito no momento. Victória
tinha os olhos fixos em uma espécie de tatuagem feita na parte
interna do braço da jovem morta.
______Veja!
Uma inscrição em latim: Aliud cecidit inter spinas,
...
______Até
onde conheço... spinas significa espinho...-
concluiu Agnaldo. Que louca coincidência.
______Coincidência?
Capítulo
7: "Aliud cecidit inter spinas, et simul
exortae ipinae suffocaverunt ill "
(Uma parte do trigo caiu entre os espinhos e afogaram-no os
espinhos)
Victória tremeu ao ouvir o pio triste de uma ave noturna.
Fechara-se em seu sítio na serra naquele fim de semana para
refletir sobre o caso da garota do apartamento 104 e ler
o dossiê que lhe fora entregue há um tempo,
na delegacia.
A cada página, seu coração batia forte ante o
que elas lhe revelavam. Era uma espécie de condensado sobre
assassinos seriais, suas estórias de crimes e uma
análise detalhada de suas mentes anormais. A autora, reunira
cuidadosamente recortes de jornais, cópias de laudos necroscópicos
e de ocorrências policiais de vários distritos da cidade
e do país.
Espalhou a grande quantidade de papéis sobre a mesa de leitura
e acendeu outro abajur.
Agnaldo
ressonava alto na cama e ela enfim levantou-se para virá-lo
e o amigo continuou em seu sono profundo.
Desde
que haviam saído daquela boate, Vick não conseguira
dormir por mais de 3 horas. A inscrição em latim fora
copiada integralmente e traduzida.
Agora que lera parte do Dossiê que recebera, finalmente compreendia
que havia um assassino serial ativo na cidade que matava de forma
a aparentar suicídio ou outra morte causada pela própria
vítima.
Anotou
no caderno que separara para aquele caso: O Semeador!
Denominara-o assim, pois certamente este tinha por hábito semear
suas vítimas.
Havia
também fotos anexadas em laudos, de desenhos semelhantes a
estrelas saindo de um cálice. Abaixo, na minúscula letra
da moça que lhe dera o material, a informação:
O Cálix de Nix.
Procurou nos papéis mais sobre esta personagem da mitologia
Grega. O que leu, causou-lhe uma série de arrepios pelo corpo.
Decidiu tomar um banho demorado. Fechou os olhos e dormiu por alguns
minutos na banheira.
Viu
Lizandra, linda como nunca antes, caminhando nua para seu lado, com
os braços estendidos, chamando-a para o amor.
Repentinamente
uma negritude densa cai sobre elas e Vick apenas ouve os gritos aflitos
da médica pedindo-lhe ajuda. Acordou do breve pesadelo e levantou-se
resoluta. Enquanto o Legado de Nix estivesse solto na
cidade, ninguém estaria à salvo.
EM BUSCA DO ASSASSINO SERIAL
Na Delegacia, Vick digitava um relatório detalhado de todo
o supra-sumo do que encontrara no dossiê, somados
ao que descobrira por intermédio de pesquisas e investigações.
Estava
decidida a apresentar aquele material ao Delegado chefe e pedir para
formar uma equipe, uma força tarefa para sair na
caçada do criminoso.
Levantou-se da mesa disposta a conseguir uma entrevista com o chefe
quando a médica entra na sala.
Ambas olharam-se, silenciosas por um momento.
______Sir
Lancelot não quer abandonar a família! avisou
a médica, de forma um tanto embaraçada.
_____Mas
também, procura por você todos os dias. Porém,
gostaria que o deixasse comigo por algum tempo porque lá em
casa tem a empregada e outras pessoas que podem tratá-lo e
dar-lhe as refeições na hora certa.
______Ah
sei! Tudo bem, mas só provisoriamente pois estou procurando
um bom apartamento para alugar próximo da delegacia. Depois
veremos.
A
frieza das palavras de Vick fizeram Lizandra sentir um sobressalto.______Está
me tratando como se fossemos estranhas!
______Não!
Ao contrário de como deve pensar, eu não trato ninguém,
homem ou mulher com quem me relaciono formalmente, de outra maneira.
Comparar a si com outras pessoas, fez Liz se irritar e atacar.
______Entendo!
Tratamento especial é apenas para as garotas das boates...
a quem beija e faz carícias íntimas à vista de
quem estiver por perto. Isso pode não pegar bem para a reputação
da já famosa e conhecida Asa Negra.
______Em
uma cidade de mais de um milhão de habitantes, o que representaria
uma noite fervilhante em uma boate gay? - retrucou Victória.
______E
o que estava fazendo lá?
O modo de falar seco e indiferente de Vick irritou mais ainda a médica.
_______Não
lhe interessa! Apenas quero avisá-la que trabalha em uma instituição
pública cheia de pessoas de mentalidade tacanha e machista
e que não está em situação de se dar ao
luxo de se queimar em praça pública.
Vick
divertiu-se diante daquela explosão de ira.
______E
veio até aqui para me dar esse sermão?
______Não!
Vim para lhe entregar isso.São fotografias do corpo da jovem
que se suicidou. Pensei que gostaria de saber que haviam inscrições
e desenhos feitos em tinta lavável no corpo dela.
A
policial levantou-se da mesa, visivelmente interessada e apanhou o
pacote de fotos.
______E
qual foi a causa mortis?
______Bem!
O legista de plantão constatou naturalmente que a morte deveu-se
a fraturas generalizadas, perda da massa encefálica e esmagamento
dos órgãos internos causado pela queda, porém
existe algo que ao meu ver não está se encaixando e
estou indo agora averiguar.
______O
que é?
______Ainda
não sei ao certo... mas tão logo consiga descobrir eu
te ligo...Victória, pela primeira vez naquela manhã,
abriu seu amplo sorriso.
______Estarei
aguardando sua ligação, ansiosamente!Lizandra cravou-lhe
seus intensos olhos verdes, de onde escapavam que apesar da aparência
controlada, dentro de si havia o tormento de emoções
múltiplas em conflito .
______Devia sorrir mais, Di... fica tão linda! sussurrou.
_____Fico feliz por ter encontrado algo ao menos que lhe desperte
seu interesse e de poder ajudá-la.
Agnaldo
entrou na sala e a médica aproveitou a oportunidade e saiu
apressada.
______É
impressão minha ou senti um clima de volúpia palpável
entre vocês duas?
______Olha
, Gui! Se estivesse em casa agora, correria para uma ducha fria, mas
como tenho que ver o chefe... deixo a ducha para depois...
______Ah!
O chefe! Aliás... sabe que temos outro chefe, não é?
Eu se fosse você só procurava cruzar com ele quando ele
a chamasse. Nunca se sabe se este é mais peçonhento
do que o antigo...
_____Mas
eu preciso falar urgente com ele!
O
interfone toca. Agnaldo atende e desliga.
_____Seu
desejo é uma ordem. A secretária do gabinete disse que
o chefe a espera em sua sala. Esquisito isso... não me parece
bom presságio...
A GUILHOTINA
Victória foi introduzida no gabinete e sentou-se para esperar.
A porta do pequeno closet estava aberta e certamente o chefe
estaria ali, pois não o avistou de imediato na sala.
Na mesa, uma plaqueta com a inscrição de : L. Souza
e Silva Delegado de Polícia.
Estranhou
ainda o aroma de um delicioso perfume feminino no ambiente e logo
descobriu o motivo. Na sala, entrou a passos firmes e arrogante, uma
mulher. Esta estendeu-lhe a mão e perguntou:
______Você
deve ser Di Angelis. Levante-se policial e só sente quando
eu assim determinar...
Vick
sentiu o sangue lhe fluir na face, mas levantou-se da cadeira e fitou
atenta a figura à sua frente.
______Quem
seria aquela mulher arrogante para lhe tratar daquela maneira?
pensou.
______Sou
a nova Delegada Chefe deste Distrito, a partir de hoje e devo primeiramente
avisar-lhe que não admito qualquer tipo de desrespeito à
hierarquia, às leis e ao estatuto interno da polícia.
______e
a senhora chamou-me aqui para me avisar sobre isto?
Os
olhos azuis da Delegada a fitaram com uma frieza assustadora.
______E
só deve falar quando eu autorizar!Vick calou-se.
______Sente-se,
Di Angelis e relate-me tudo o que sabe sobre o assassinato da equipe
Nêmesis e não me oculte nada!
A
policial, apesar de ter sido apanhada de surpresa diante da nova chefe,
aproveitou e observou-a rapidamente. Era uma mulher miúda e
de constituição esguia, apesar de que seu blazer azul
escuro elegante lhe atenuava este detalhe, sendo que os cabelos lisos
e negros estavam presos firmemente à nuca e o rosto anguloso
parecia esculpido no alabastro, tal a brancura da tez.
Aparentava
ter aproximadamente quarenta anos e seu semblante frio e severo, moldurado
pelos óculos de fina armação redonda, lhe emprestava
um aspecto marcial e impingia na mente de quem a visse pela primeira
vez, o alerta de que era preciso muita cautela e sorte no trato com
tal criatura.
Victória
descreveu firme e detalhadamente a estória da Nêmesis,
sempre com os olhos fixos nos da delegada.
Era preciso demonstrar, subliminarmente que reconhecia sua autoridade
e a respeitava , mas não estava intimidada.
Aprendera o truque com um velho domador de feras de um circo.
______Precisa
manter contato visual fixo e só retirá-lo quando o animal
desviar o olhar. É assim que se estabelece o respeito e a hierarquia
entre os animais, mesmos os ditos racionais.
A
lição já lhe fora útil em outras circunstâncias
e podia funcionar naquele momento.
_______Basta!
interrompeu a Delegada.
_______O
restante já li nos relatórios dos investigadores. Anote
os itens que quero esclarecidos hoje no fim da tarde em um relatório
em minha mesa:
_____Como
obteve informação privilegiada sobre o local onde a
equipe estaria averiguando a denúncia anônima; quem é
seu informante sobre algumas circunstâncias que poderiam prejudicá-la
e como localizou o paradeiro do policial sobrevivente desaparecido?
.Levante-se. Importante ressaltar que não acredito em Papai
Noel e é bom que seu relatório seja elaborado sob a
luz da sensatez e verdade.
Não tolero mentiras e não confio em ninguém,
portanto só redija o que puder comprovar.
Vick
preparou-se para sair do gabinete quando a voz grave e fria da delegada
a interrompe.
_______Ainda
não terminei! A partir de hoje determino que assuma a investigação
do caso Nêmesis e escolha sua equipe entre os policiais
de sua confiança.
Quero
relatórios diários sobre a evolução dos
trabalhos.
_______Sim
senhora!
_______Está
dispensada!.
Ao
entrar novamente em sua sala, Agnaldo lhe inquire como foi a entrevista
com o chefe.
_______Não
vai acreditar! Nosso chefe usa saias e... acaba de me curar de minha
mulherite crônica. Tratamento de choque!. Agora
sou uma nova Victória Di Angelis.
Breve pausa.
Vick senta-se em sua mesa e fita Agnaldo com suas íris escuras.
______Posso
pedir uma coisa?
______sim!...
respondeu Agnaldo, pêgo de surpresa.
______Case-se
comigo! Nossos filhos seriam lindos...
______Poupe-me
de sua ironia e conte-me o que aconteceu para você estar nesse
estado de demência temporária?
______Agora
trabalhamos para a guilhotina de La Revolução
Francesa. A mulher é o caramunhão chupando
manga.
______O
quê? Uma mulher?
______da
pior espécie e peçonha 40 Years Old.
emendou Vick. ____Já leu sobre uma cobra que cospe veneno
?
______Sim,
porque?
______Pois
é ela, a própria!
______Ah!
Di... Nada pode ser tão péssimo assim... Onde está
sua boa sorte?
______Sorte?
Eu te avisei Agnaldo para não andar comigo porque eu sou pé
frio. Agora deixemos o muro das lamentações
e vamos aos relatórios. Que minha santa mãe me inspire
nesse momento.
O RELATÓRIO
Se neurônios fizessem ruído como engrenagens ao girarem,
ninguém naquele andar suportaria a poluição sonora
que escaparia do cérebro de Victória. Ela rascunhou,
torceu e esmagou várias folhas de papel, além de se
levantar poucas vezes da mesa.
Na delegacia, o clima de funeral ainda não havia
se dissipado diante do assassinato recente dos policiais no Bar Quéops
e corria à boca pequena, pelos corredores que os matadores
estavam dispostos a qualquer coisa pela cabeça
de Di Angelis. U
m informante ouvira que fora estabelecida uma pequena fortuna para
quem despachar a Asa Negra.Vick trabalhava alheia a tudo.
Por fim, agarrou a própria cabeça em desespero.
______Estou
perdida! Ela não vai acreditar em nada e não posso revelar
sobre MIRAGEM. E mesmo que o fizesse, como provaria?O
celular toca e Lizandra revela.
______Di
Angelis descobri algo! A garota já estava morta de uma parada
cardíaca, antes de sofrer a queda...
______hã?
Mas como o legista não detectou isso?
______Não
trabalhou com a possibilidade de assassinato...
______Mas
se teve parada cardíaca, algo deve ter lhe causado... e porque
se dar ao trabalho de lançá-la pela janela?
______Isso
agora é com você...Algo clareou na mente da policial.
______Agora
faz sentido. A inscrição em latim. A semente
caiu entre os espinhos...
______Ajudei
em alguma coisa?
______claro!...
mas...a parada cardíaca... a garota me parecia jovem...
______Sim!
Tinha 22 anos...
______E
usava drogas?
______acho
que sim. Examinei o septo nasal. Havia vestígio de pó...
______Mas...
então o assassino está batizando este pó
com alguma substância letal... só pode ser isso!
concluiu Vick.
_____Ele
precisa que suas vítimas pereçam exatamente no evento
de um sabath. A garota morreu exatamente no Sabbath
de Ostara que marca a entrada da Primavera. Seria coincidência
demais ter uma overdose exatamente nesta data e despencar na cerca
de espinhos... o matador preparou minuciosamente a droga e as circunstâncias
da morte.
_______Isso
tudo está ficando muito complexo...
_______Liz...
a substância... a droga está batizada ....
e com uma substância que provoca ataque cardíaco e não
aparece no exame necroscópico de rotina. Conhece alguma substância
de efeito rápido e fulminante que provoque isso?
_______Cianeto!
só pode ser isso! constatou a médica.
______ótimo...
preciso pesquisar!
______Di!
Não faça isso! Já está correndo perigo
demais com os assassinos da Nêmesis... agora vai
atrás de um psicopata frio, meticuloso e inteligente?
______Calma
querida! Vou tomar cuidado.
Preciso pensar mais e... quero que prometa que tudo que descobriu
e conversamos ficará apenas entre nós.
______Eu
prometo, mas deve me garantir que vai tomar precaução
e se cuidar. Não suportaria se algo ruim acontecesse com você...
Vick
sentiu a garganta secar e sua voz sumiu ao ouvir o soluço de
Lizandra.
______Não
chore, querida! Eu preciso fazer algo... não posso esperar
de braços cruzados até que me peguem... eu prometo que
vou me cuidar.
Desligou
o celular coração apertado.
Tomara uma decisão e um plano lhe ocorrera. Podia dar certo
e ela nada perderia em tentar.
Voltou-se para o computador e passou a digitar apressadamente.
A dado momento, o editor de texto sumiu da tela e a imagem captada
pelo circuito interno da Delegacia apareceu, mostrando vários
carros lado a lado.
_______As
garagens... mas este micro deve estar defeituoso. Não está
configurado para reproduzir o circuito interno!A imagem sumiu e a
tela anterior reapareceu...
_______é
MIRAGEM! Ela voltou a contatar e está tentando me mostrar algo!
concluiu apreensiva pois sabia que a MacKarll só intervinha
quando descobria que sua avatar alfa podia estar se metendo
em situação de grande risco.
______Existe
algo na garagem... mas qual delas? - indagou para sim em pensamento
pois haviam dois pisos que abrigavam os carros dos policiais.Levantou-se
decidida a averiguar. Uma voz fria interrompeu-lhe o pensamento.
______Terminou
o relatório? Faltam vinte minutos para o fim do expediente.
______Sim!
Estão aqui! Victória reuniu os papéis que produzira,
anexando-os com outros em uma pasta e os estendeu para a Delegada
que os apanhou a um movimento e saiu da sala sem articular palavra.A
policial respirou fundo e concentrou-se.
______A
sorte está lançada. Agora, tratemos das garagens.
Na
escadaria que levava até o primeiro sub-solo, Vick procurou
ficar fora do alcance da câmara de circuito interno e observar
a disposição dos carros. Aparentemente nada estava fora
do lugar. Desceu até o segundo piso. Lá olhou demoradamente
a disposição dos carros. Tinha memória quase
fotográfica e se houvesse algo fora do lugar um
alarme soaria em sua cabeça.Não demorou e este alarme
disparou.
______é
aqui! Tem algo fora da disposição normal...A Delegada
titular apareceu em seu ângulo de visão. Acabara de sair
do elevador e procurava pelo seu carro.
Neste
instante seus olhos se cruzam._
_____O
que está fazendo aí, Di Angelis?
A
policial percebendo que já não havia mais como disfarçar,
tentou articular uma desculpa.
______Tenho
uma intuição! Há algo errado com esta garagem!A
Delegada a olhou com expressão de perplexidade e curiosidade.
______Acredita
ter poderes paranormais? Policial?
Vick
percebeu que não havia mais saída e deitou-se no chão
e arrastou-se cuidadosamente no piso, observando criteriosamente abaixo
dos carros.
______O
que está fazendo? repreendeu-a a chefe.
______Levante-se
e explique-se!
Vick
continuou sua busca. Enfim, avistou uma luz vermelha conhecida piscando
embaixo de um veículo. Fez um sinal para a Delegada. Esta abaixou-se
e empalideceu ao perceber do que se tratava.
_______Vamos
subir! Não diga nada sobre isso com ninguém! - mandou.No
gabinete a Delegada ligou várias vezes, distribuindo ordens.
Uma equipe anti - bombas já estava descendo para a garagem
para desarmar o artefato.
Determinou
ainda que sutilmente o prédio fosse evacuado e passasse por
uma triagem andar por andar. Os minutos passavam e através
do celular e do telefone fixo, a Delegada chefe comandava a operação
transparência.
A
copeira entrou com duas xícaras de café em uma bandeja
e biscoitos salgados.Vick, percebendo que o lanche fora preparado
para as duas, adiantou-se e apanhou uma xícara fumegante. Estava
tensa com os acontecimentos do dia e uma bebida quente não
lhe cairia mal.A delegada desligou o telefone, onde se encontrava
conversando com o chefe da equipe anti-bombas e ordenou:
_______Não
toque em nada! Deixe para se alimentar em sua casa!
Vick sentiu-se enfurecer. Nunca em toda sua carreira como policial,
chefe algum a tratara daquela forma, humilhando-a a todo momento.
______Acabo
de receber a informação de que encontraram uma bomba
sob a viatura que você se utilizaria com seu parceiro para a
ronda noturna de hoje!A policial, moveu a cabeça, aborrecida.
O cerco sobre si estava se fechando.
______E
outra sob meu carro particular! completou a Delegada.
Victória entendeu de uma só vez a razão da atitude
desconfiada da chefe. Esta percebera que havia perigo para ambas também
dentro da delegacia e nem o cafezinho estava livre de suspeitas.
Ao ver a expressão surpresa da subordinada, a Delegada informou.
______desde
o assassinato da equipe da Nêmesis, os chefes de
polícia deste distrito também estão recebendo
ameaças anônimas de morte. Dizem que não vão
parar de matar até que consigam a cabeça do titular
e da Asa Negra. Isso explica porque tive que assumir este
distrito. Ninguém mais o quer. Dizem que está marcado
por uma poderosa facção criminosa para desaparecer.Por
isso a importância do seu relatório. Preciso ao menos
entender o porquê , que facções criminosas
muito organizadas e equipadas estão querendo a sua cabeça.
Outro
ponto: como desconfiou da bomba na garagem? Quem é seu informante?
Como pode saber em quem confiar?
Diante
de tantas perguntas feitas de forma direta e sem rodeios, Vick encarou
a chefe, olhando-a firme nos olhos.
______Porque
eu, como a presa mais cobiçada por esta facção,
deveria me abrir para a senhora?
Também conheço as regras do jogo: não confiar
em ninguém. Como posso entregar o nome de um informante que
já me livrou várias vezes das ciladas? Pode garantir
minha segurança e de meu informante?
A
Delegada aproximou-se de Vick de uma forma agressiva e irritada e
estendeu o indicador em riste próximo de seu nariz.
_______Escreva
o que estou lhe dizendo, Di Angelis. Se estiver envolvida com algum
crime ou falcatrua eu vou descobrir, quer você queira ou não
e não pensarei duas vezes em te meter atrás das grades
e você bem sabe que policial no presídio é carne
morta!
______Tudo
bem! Já estou bem avisada. Agora se a senhora me der licença,
eu vou sair. Tenho assuntos particulares a tratar.
______Você
não sai desta delegacia até que eu assim determine...Vick
perdeu a ultima gota de paciência maltratada.
______Estou
indo embora e se achar correto e justo... mande me prender!Disse isso
e saiu sem olhar para trás. Estacou surpresa ao perceber que
estava sendo apanhada fortemente pelo braço.
______Você
vai ficar! Entenda, criança! estamos em uma guerra e se eles
querem nos eliminar, vamos surpreendê-los. Nossa defesa será
o ataque. Fique e vou te mostrar algo que talvez lhe interesse!