Capítulo
8: Operação Madrugada Vermelha
Vick
sentia vontade de abandonar tudo ali mesmo. Seu emprego, sua carreira
e a cidade.
Sentia
o espírito alquebrado ao constatar que ao fim das contas estava
só e aos poucos entrando em um beco sem saída. Precisava
desesperadamente confiar em alguém. Mas quem?
______Sei
quem mandou eliminar a equipe Nêmesis!
A
afirmação da Delegada L. Souza e Silva, fez Vick se
reanimar.
Seu desejo de acabar com tudo aquilo, custando o que custasse, a fez
ficar alerta. Não dava para disfarçar seu interesse.
______O
nome do indivíduo é Raul Dourado Leite.
É conhecido pela alcunha Dourado pois tem a boca
cheia de dentes de ouro.É um novo chefe que controla a favela
Grota do Adeus. Organizou uma facção: os Vira-pó.
Aos
poucos foram se organizando e agora chegaram ao ponto de desafiar
a polícia.
______Mas...
a favela Grota do Adeus era controlada pelo Tadeu Tristonho...
_____O
Tadeu foi eliminado pelo Raul.
_____Mas
o que tenho eu com isso?
_____Raul
Dourado acredita que você é culpada da morte do seu irmão
caçula .
_____Como?
_____Lembra
do caso do boy da rua três?
_____um
rapaz de 19 anos que peguei arrombando a casa de uma senhora idosa?
O Mateusinho?
_____Sim!
_____Mas
ele se enforcou na cela. Não tive culpa alguma nisso. Apenas
o prendi porque estava violento devido ao delírio da droga.
_____O
Raul acha que foi você quem mandou os outros presos enforcarem
o irmão...
_____Um
absurdo! Porque eu faria isso? Já havia feito meu trabalho.
Vick
ainda não acreditava que tanta morte fora provocada por uma
vingança pessoal de um novo chefe do crime organizado. Refletiu,
rememorou os fatos, comparou e percebeu que havia sim um nexo, algo
plausível naquela estória.
_____Como
a senhora descobriu isso?
_____Antes
de tomar posse, investiguei por meses o caso da Nêmesis.
Precisava tomar pé da situação e
saber onde estava me metendo e com quem.
_____Então
sabia de tudo desde o princípio? E porque me pediu o relatório?
_____Como
já disse! Preciso saber com quem estou tratando e as perguntas
que formulei a você ainda me interessam saber. Vou ler seu relatório
esta noite. Amanhã conversamos.Venha! O Helicóptero
que vai nos tirar daqui em segurança está nos esperando
no terraço.
O TRUQUE
Victória
fechou-se em seu abrigo na serra. Recebera ordens para não
aparecer na Delegacia até que a delegada a autorizasse.
Estava
muito preocupada. Dera à chefe o relatório meticuloso
que elaborara sobre o Serial Killer e não sobre
a equipe Nêmesis. Tencionara ganhar tempo para se
desembaraçar da marcação cerrada sobre si.
Um truque que geralmente dava certo pois como sempre aconteciam tantas
coisas insólitas e súbitas na sua vida, ao fim, o que
antes era tido como importante, acabava sendo deixado em segundo plano.
Mesmo
assim, estava insegura. Temia a ira da Delegada quando esta percebesse
que fora ludibriada. A L. Souza e Silva, a assustou pois demonstrara
uma inteligência e astúcia acima do comum e Vick constatou
que vacilara no seu estratagema porque estava acostumada
com chefes indolentes e irresponsáveis , que na maioria das
vezes não liam sequer o primeiro parágrafo do que escrevia.
Tanto que sempre conseguia se desembaraçar deles sem muitas
cobranças ou perguntas.
Caminhou
descalça pela casa, tentando se desligar do trabalho e de seus
problemas. O celular tocou. Atendeu sabendo se tratar de Liz.
_____Vick!
Onde você está?
_____Estou
no paraíso!
_____Como?
_____Morri
em combate e uma Valquíria me transportou em seu
cavalo branco para o Valhalla...
_____Não
brinque! Estou assustada! O ataque a bomba de ontem foi audacioso
demais. Estão demonstrando que não temem a polícia
ou qualquer outra forma de lei...
_____é...
infelizmente não há dúvidas que há policiais
envolvidos...
Silêncio
entre as duas.
Quando
voltou a falar, Lizandra parecia outra mulher.
_____Di!
Você desconfia de algum colega seu? Alguém que poderia
ter interesse direto em te prejudicar?
_____Não!
No momento não!
_____Precisa
descobrir! ... Di... eu estou com medo! Quero te ver...
_____Eu
ligo para você depois! Agora tenho que cuidar de algumas coisas...
_____Di!
Prometa-me que não deixará que eles te peguem!
Victória
engoliu em seco. Percebeu a angústia na voz de Liz.
_____Eu
prometo que vou me cuidar. Ouviu o respirar ansioso da outra pelo
celular. Quando esta falou, estava com a voz trêmula. Tinha
dificuldades em articular palavra.
_____Sei
que sou insegura e está sendo difícil para mim ter um
envolvimento secreto com uma mulher... mas acredite! Há dias
que sinto vontade de gritar para quem quiser ouvir que te amo e que
você é a mulher da minha vida! confessou-se.
A
Policial emocionou-se mas ao mesmo tempo sentia uma espécie
de revolta no peito.
_____Não
posso te dar um filho! interrompeu , amargamente.
A médica ficou silenciosa por um breve momento. Depois sussurrou:
_____Precisamos
conversar sobre isso pessoalmente. Você vai me ouvir... quem
sabe me entender!
____Outro
dia! Eu te ligo e combinamos um local. Agora tenho que atender à
porta porque chegou alguém.
Tentava
despistar Liz, até poder digerir melhor tudo o que ela lhe
dissera. Sentia-se magoada demais.
Não
houve tempo de abrir a porta que dava acesso à sala do chalé
pois esta foi aberta pelo caseiro que conduziu até o centro
da sala, nada menos do que a própria Delegada titular.
Vick
, que vinha descendo a escadaria, quase despencou degrau abaixo e
acabou desligando o celular bruscamente, sem se despedir.
____Patroa!
Esta senhora disse que é sua chefe e até mostrou o emblema
dela. Disse também que tinha assunto urgente pra tratar.
Passado
o choque inicial, Vick tratou de dispensar o empregado.
____Tudo
bem! Pode nos deixar a sós!.O caseiro percebeu a mensagem.
A patroa não queria ser interrompida.Saiu rapidamente para
continuar tratando de seus afazeres.A Delegada mal esperou o homem
se retirar e ergueu ameaçadoramente o pesado envelope pardo
que continha o Relatório de Vick.
____O
que significa isso?
Vick
não se deixou intimidar.
____Bom!
Pelo jeito, me enganei na entrega do relatório certo. O da
Nêmesis deve estar na minha gaveta lá na
delegacia.
O
rosto muito branco da Delegada, enrubesceu. Percebera o engodo.
____Está
tentando ganhar tempo!
____Talvez!
____Então
sente-se e me explique tudo sobre este assassino serial!
O
queixo de Vick quase caiu. A chefe lhe mandara sentar-se
em sua própria casa e além de tudo, ao invés
da explosão de ira esperada, inquire sobre o matador serial?
____Vamos,
Di Angelis! Não temos o dia todo!
Victória
sentou-se.
____O
que deseja saber?
____Quando
ele matará novamente?
____No
próximo Sabath...____E porque faz isso?
____Pelo
mesmo motivo que seriais killers matam. Precisam aplacar uma espécie
de sede e matam de forma como a realizar um ritual.Na mente anormal
deles, existe sempre um motivo que justifique seus atos.
____Desde
quando este assassino atua?
____Pelos
recortes aqui, ele já atua há um bom tempo... talvez
3 anos. Só não foi detectado pois escolhe suas vítimas
entre jovens que usam a cocaína e lhes provoca um ataque cardíaco
que acaba sendo diagnosticado como overdose.
A
Delegada sentou-se finalmente e fixou seus olhos atentos em Vick.
____Porque
o chama de O Legado de Nix?
____Bem!
Em alguns corpos, haviam tatuagens, estas permanentes onde certo símbolo
se repetia. O cálice e as estrelas.
A
moça que me entregou boa parte do Dossiê descobriu que
este é o símbolo da Deusa Mitológica que representa
a noite.Nix gerou vários filhos. Os primeiros com
seu esposo, Érebos, e dessa união nasceram Éter
e Hemera, as primeiras entidades luminosas de um mundo até
então totalmente escuro.
Depois
da breve união com Érebo, Nix desdobrou-se espontaneamente
e gerou outras divindades. As mais importantes foram as Hespérides,
as Meras e os gêmeos, Hipnos e Tânatus. Destes gêmeos,
um representa o sono e o outro, a morte.
____Então
o Legado de Nix é Tânatus?
____Sim!
O matador decerto acredita que é o próprio filho da
Noite, o que pode dispor da vida das pessoas. Por isso que em alguns
casos deixou o símbolo de Nix.
Era
visível o interesse da Delegada e a cada passo, e explicação,
seus olhos brilhavam.
____O
serial killer arquiteta um ritual em sua mente. O Legado de Nix, mata
semeando e deixa pistas sutis pois no fundo quer que a
humanidade descubra sua façanha. Acreditam serem predestinados
a uma missão. Possuem inteligência e meticulosidade fora
da média e podem ser vistos na rua sem levantar suspeitas pois
na maioria são pessoas de boa aparência e socialmente
bem articulados.
____e
quanto ao biótipo?
____Em
noventa por cento dos casos ou mais, o matador é do sexo masculino
e suas vítimas preferenciais: as mulheres. A média é
de brancos, entre vinte e um a trinta e cinco anos e começam
a agir de noite para o dia sem motivo aparente. É como se aquele
vizinho que conhecemos há mais de dez anos, dormisse um dia
um cidadão comum e no outro começasse a cozinhar criancinhas
em um caldeirão.
_____Isso
é assustador! Esse criminoso precisa ser detido! - indignou-se
a Delegada. Precisamos bota-lo atrás das grades antes que volte
a matar!Vick animou-se com o plural utilizado pela chefe que aparentava
estar muito impressionada com seu dossiê.
_____Mas
antes temos que nos livrar dos assassinos da Nêmesis ...
mesmo porque se não o fizermos, eles é que irão
se livrar de nós e o tempo está se esgotando...
_____Tem
algum plano em mente? perguntou Victória.
_____Sim
e preciso poder contar com você, mas antes quero que prometa
não fazer nada sem minhas ordens...
_____Bom!
Posso tentar.
_____Então
aproxime-se e veja!
A
L. Souza retirou de uma pasta um esboço de um mapa. Nele estavam
desenhados a favela Grota do Adeus .
_____Ao
contrário dos morros, o Império do Raul Dourado é
uma grande grota cercada por paredes rochosas íngremes, onde
se situa a favela. Todos sabem que ele é o segundo homem deste
Estado na frente do narcotráfico, contrabando de armas e crime
organizado.
O primeiro homem é o João Proverbial, apelido
dado porque sempre cita um provérbio quando defende suas idéias,
por mais absurdas que sejam. A verdade é que o Raul quer ser
o primeiro e João é o empecilho.
Existe
um plano arquitetado por Raul para invadir o morro Fura-couro
e liquidar com o rival. Antes porém ele encomendou à
peso de muito Pó , um verdadeiro arsenal de armas
pesadas e modernas. Vai equipar seus homens para derrubar o João.
O carregamento chega amanhã à noite na Grota do
Adeus.
_____Então
atacamos?
A
Delegada olhou Vick com incredulidade.
_____Está
lendo muita revista de super-herói, Policial? Na vida real
as coisas ocorrem de outra forma e muitas vezes diversa à nossa
vontade. Não temos homens nem armas que possam hoje, invadir
com sucesso a Grota do Adeus. Raul receberá as
armas e atacará João. Uma breve pausa em seu plano de
vingança contra nós. Depois voltará sua atenção
e poder redobrado para o Distrito Policial.
Quando
tiver êxito, mostrará ao município quem é
que dá as cartas na região e precisamos detê-lo.
Matar a serpente no ninho.
_____E
como faremos isso?
_____Os
criminosos são pessoas sem qualquer escrúpulos. Esse
é nosso trunfo. Eles não possuem em quem confiar além
da força do seu dinheiro sujo. A traição e falsidade
é moeda corrente e basta inserir uma informação
de que um quer liquidar o outro à traição
e este vai cuidar de fazer o serviço antes.
Portanto
já tratei de fazer chegar até João, a informação
verdadeira sobre os planos de Raul, inclusive data e provas do carregamento
de armas. O que você faria se fosse João?
_____Eu
verificaria se tinha algo de verdade na informação e
me anteciparia ao meu inimigo! Daria o troco e no efeito surpresa!
_____Certo!
Então algo me diz que vai haver uma guerra na Grota do
Adeus amanhã!
_____Sim!
Brilhante isso! Mas... o Raul pode vencer e permaneceremos em risco
do mesmo jeito!
_____Já
pensei nisso. E é aí que entramos. Veja... essas são
as únicas entradas e saídas da Grota. Estaremos lá
sim e esperaremos a guerra se iniciar. Quem vencer... mesmo assim,
estará muito enfraquecido, com muitos homens mortos e feridos.
Aí entramos no ninho da serpente e passaremos tudo no pente
fino sem dar tempo de que se reorganizem ou descansem. Vê
esse rádio transmissor? Através dele, um grupo de policiais
escolhidos a dedo já estão aguardando minhas ordens.
Consegui o apoio do alto comando da polícia. É o nome
da instituição e a segurança das pessoas comuns
nas ruas que está em risco. Se vencermos, mostraremos para
a sociedade que o crime está sob controle e para os criminosos
daremos uma lição de que não poderão desafiar
a polícia.
_____E
se falharmos?
_____Se
falharmos: Xeque mate!
Vick
sentiu-se arrepiar. Percebeu que se os planos da Delegada não
surtissem o efeito esperado, teria que fugir da cidade, estado ou
mesmo do país.
Sabia
que o desejo de vingança do criminoso não se aplacaria
até que fosse consumado com seu sangue. Imaginou-se viajando
clandestina, com Sir Lancelot no colo, para uma cidade além
do deserto do Saara. Ou seria melhor Timbuktu?
_____Posso
contar contigo? - indagou a Delegada.
_____Pode...
aliás... é um plano muito inteligente. Brilhante mesmo!
A
Delegada preparou-se para se retirar e estendeu-lhe o rádio
transmissor.
_____Tome!
Fique com este! Preciso ter meios de me comunicar contigo a qualquer
hora e lugar. Não se separe dele.
_____Ok!
_____Ah!
Preciso ir e terminar os últimos preparativos para a Missão
Madrugada Vermelha, portanto preciso que me faça um favor
particular.
_____Sim?
_____Aqui
está o endereço. Quero que intercepte minha filha na
escola e a mantenha ao seu lado até que eu entre em contato
novamente. Recebi informação à pouco que pretendem
seqüestra-la na porta do colégio.
O
pedaço de papel tinha o endereço do local e a foto de
uma garota esguia de longos cabelos negros muito lisos.
_____Ela
sai daqui há 4 horas. Acha que consegue chegar a tempo?
_____Com
folga! Minha moto é muito potente!
_____Ok!
Então mais tarde entrarei em contato.
Saiu
sem se despedir e bateu a porta.
Vick
correu escada acima para apanhar sua jaqueta de couro e a mochila.
Estava excitada com o fato de ter sido inserida nos planos da Delegada
e ainda gozar de sua confiança o suficiente para que esta lhe
confiasse a guarda de sua filha adolescente.
Olhou
novamente a foto.
______Me
parece tão suave e frágil.
Diferente da mãe que é a fortaleza fria e calculista.
Decerto puxou ao pai. Vai ser mais fácil do que andar pra frente.
Acelerou
a moto, sentindo a adrenalina correr em suas veias
Capítulo
9: A Tua Vaidade te Condena
Adiantou-se, entrou no colégio - um bom e tradicional colégio
por sinal - e retirou Julia Souza e Silva ainda no meio do período.
Mostrou seu emblema para a professora e escoltou a garota até
a calçada sem problemas com a coordenação.
Não queria correr o risco de ser surpreendida por um bando
de homens armados.
O
problema surgiu quando ofereceu um capacete sobressalente para a garota
montar na garupa de sua moto.
______Não
uso isso aí... vai amassar meu cabelo.
A
adolescente em nada se parecia com a Delegada, exceto pelos cabelos
negros e olhos azuis. Suas feições eram finas e demonstravam
fragilidade, mas na verdade revelou-se de um temperamento azedo e
implicante.
______Você
é quem sabe! Se não subir agora e colocar esse capacete,
um certo bando de homens muito fedidos e peludos virão para
te buscar.
A
garota colocou o capacete e subiu na moto resmungando.Na rua, aconchegou-se
à Victória e pediu:
_____Para
em uma lanchonete que estou com fome!
Vick
dirigiu-se até uma espécie de lanchonete em um bairro
pacato ha uns 8 km do centro da cidade.
Sentaram-se em uma mesa onde uma parede as ocultava da rua e ainda
quebrava o vento frio da tarde. A garota pediu um sanduíche
do tamanho de um côco da Bahia.
Vick lembrou-se de sua adolescência e de seu estômago
de avestruz, insaciável.
Sentou-se
como de costume com as costas sempre voltadas para a parede onde ninguém
poderia surpreende-la e defronte para a entrada do estabelecimento.
Seus óculos escuros, tipo espelhado, ela os colocou na mesa.
Por ali veria quem se aproximasse pelo canto esquerdo.
O canto direito era fechado por outra parede. Pediu um guaraná.
_____Ah!
E eu quero uma cerveja! encomendou Júlia para a garçonete.
_____Nada
de cerveja, mocinha! barrou Vick.
_____Ruuunffff!
Vocês criadinhos de mamãe sempre com essa mania de ficar
nos policiando. Das outras vezes pelo menos, ela mandava uns gatinhos
lá do DP para me cuidar. Agora estamos decadente. Vou reclamar
para ela!
Vick
pensava em Lizandra e procurava ignorar o papinho non sense
daquela criatura inacabada.
Pensou duas vezes em ligar para Liz. Na última vez que conversaram
não lhe havia dado muita atenção diante da situação
apertada em que estava se metendo.
_____E
vou dizer mais! Eu uso drogas sim! Fumo um baseado e ainda bebo pra
caramba! Esse papo de que maconha vicia e faz mal, é coisa
de véio coróca...
Victória
não acreditou no que a garota estava afirmando. Pegara o assunto
pela metade pois não estivera prestando lá muita atenção.
_____O
quê?
_____Isso
aí que você ouviu! E não precisa fazer essa cara
de Tira escandalizada .
Dona
Louise desconfia, mas não tem certeza... e não adianta
contar para ela... eu desminto tudo!
_____Dona
Louise?
_____Sim!
A poderosa-valente-incorruptível-valorosa-Delegada,
sua chefe...
A
Policial teve vontade de dar uns sopapos naquela pirralha, mas se
conteve. Não ia entrar no jogo dela.
Um
homem vestindo jaqueta jeans entrou no lugar e procurou o freezer
horizontal e retirou dali quatro sorvetes de palito. Seu modo de andar,
gingado, chamou a atenção de Vick.Foi até o balcão
e retirou uma cédula de 50 reais do bolso para pagar a despesa.
_____Não
tem trocado moço? perguntou a jovem balconista.
_____Não,
princesa! Tô sem troco!
_____Tá
bom... vai levar só os picolés?
_____Só!
A
moça abriu o caixa e contou cédula à cédula
do troco e entregou ao cliente. Depois guardou a de 50 reais.
Vick
levantou-se enquanto o rapaz embolsava o troco. Júlia abriu
a boca para falar algo, mas a policial lhe lançou um olhar
furioso e ameaçou baixinho.
_____Fica
sentada. Não se mova. Se sair um milímetro do lugar
eu lhe torço esse pescoço fino!
A
cara que a garota fez, mostrou que a ameaça produzira efeito.
Vick avançou sobre o rapaz e apalpou-lhe rapidamente a cintura.
Estava desarmado.
_____O
que é isso, gata? perguntou o homem, sorrindo...
_____Encosta
na parede e não se mova. É a polícia...
_____Tá
maluca? Eu to limpo!...
_____é
o que veremos!Algemou o rapaz com os punhos para trás, enquanto
o revistava.
_____Vou
te processar! Moça!
A
balconista e outras pessoas se aproximaram.
_____Pegue
a nota de 50 que ele te entregou! pediu Vick.
A
garota apanhou a cédula. O dono do local chegou apressado.
_____O
senhor sabe distinguir uma nota falsa de uma verdadeira? perguntou
Vick para o recém-chegado.
_____Ah!
Sei sim... já me deparei com algumas de excelente qualidade
mas se olhar com cuidado dá pra ver...
_____Avalie
esta!
O
Homem olhou contra a luz, tateou e por fim constatou:
_____é
falsa... mas muito bem feita...
Vick
neste instante encontrou dentro da meia do indivíduo que detêra,
mais cédulas de 50 reais falsificadas.
_____O
senhor está sendo detido por tentar introduzir moeda falsa
em circulação.Letícia aproximou-se admirada.
_____Como
desconfiou?
_____Em
um dia frio... comprando sorvetes... agasalhado... e ainda pagando
despesa de cinco reais com uma cédula de cinqüenta?
_____E
o que há de errado nisso?
_____Errado?
Nada. Suspeito sim!. Quem tem uma cédula falsa... quer transforma-la
em cédulas autênticas e por isso sempre procuram receber
o máximo possível de troco.Daí é só
sair e gastar à vontade sem medo de ser pego. Ele deve ter
esperado que o dono do estabelecimento, muito mais experiente saísse
e deixasse o caixa com a jovem balconista.
Júlia
abriu a boca...
_____Você
é inteligente! Quase como Dona Louise... mas como
a chefe não tem ninguém que se compare...
ela é a melhor...
Vick
ligou para a Delegacia e pediu para que providenciarem a busca do
sujeito que acabara de prender.
Estava
atenta ao rádio transmissor. A Louise Souza e Silva poderia
contatar à qualquer momento. Não via a hora de se livrar
daquela pentelha de olhos azuis.
_____Diz
aí pra mandarem um carro bom e macio... não vou mais
andar de moto... estou congelando...
_____Fica
quietinha, sim? É primavera! Sorria... só faz frio um
pouquinho à noite... nada que justifique esse chilique infantil...
Júlia
cruzou os braços e armou o bico. Em minutos uma
viatura parou em frente ao local. Victória sentiu-se gelar
ao ver quem viera até ali. Os seus olhos cruzaram-se com os
de Henrique Duarte.
Nos
dele havia uma frieza que parecia ocultar o mais puro ódio
burbulhante.
_____Ah!
Nossa heroína Justiceira apanhou um falsário, é?
Parabéns!
Duarte
mostrou os dentes. Seu riso parecia o esgar de uma fera pronta a dar
o bote.Vick não respondeu. Duarte apanhou o rapaz algemado
pela gola e o lançou dentro do camburão como se fosse
uma pluma. Era um homem alto e muito forte, além de muito bonito.
Vick tentava disfarçar seu ciúmes.
_____Opa!
Olha quem ta aí... a cria da chefa ? Virou babá
de aborrescente? A famosa Asa Negra está decadente
mesmo!
Júlia
que antes tinha se animado toda com o aparecimento do policial bonitão,
agora fechou mais a cara.
Vick preparou-se para pagar a conta e já ia saindo, levando
a garota pelo pulso, quando ouviu Duarte falando alto ao celular.
_____Lizandra!
Daqui há 15 minutos passo para te pegar!...não interessa!...
eu quero ir agora. sai daí, dá uma desculpa qualquer!...
Quero começar a transa cedinho hoje... estou com
o maior gás. Não. Eu não aceito não como
resposta! ... quem dá as cartas sou eu, lembra?. Fique pronta
! Já estou à caminho. Tomo um banho na sua casa!.
Vick
quase teve um ataque epilético. Ficou petrificada na calçada
sem acreditar no que acabara de ouvir. Só podia ser blefe do
Duarte, pensou.
O
colega entrou na viatura e saiu cantando os pneus, com um sorriso
maldoso.
_____O
que foi, ô? Tá branca que nem um papel. Julia
olhava-a, subitamente interessada.
____Quero
ir para minha casa. exigiu.Victória fez sinal para ela
se calar e discou o número do celular de Lizandra.
_____Liz...
o Duarte estava aqui e fez que te ligou... disse que vocês vão
ficar juntos essa noite... é verdade?
_____Vick...
procure entender... eu preciso conversar com você... mas agora
não posso...
_____Diz
que é mentira! Liz. Vick gritou, desesperada.O silêncio
de Lizandra foi mais eloqüente do que uma dúzia de palavras.Desligou.
Não
conseguiu conter as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto.Júlia
a olhava assustada. O rádio transmissor emitiu vários
bips. Vick procurou se recompor.
_____Está
com Júlia? a voz fria e cortante da Delegada restaurou-lhe
um pouco da atenção.
_____Sim!
Ela está comigo...
_____Então
leve-a para sua chácara. Estará segura lá. Torno
a contactar mais tarde.
Vick
não contestou a ordem da chefa, mesmo detestando levar aquela
moleca revoltada para seu ninho secreto de paz.
_____Vamos!
- chamou a garota que obedeceu silenciosa pois percebeu que era mais
prudente não contrariar a policial.
CILADA
Ainda estavam no perímetro urbano e a tarde caia, quando Vick
percebeu que um carro as seguia. Acelerou a motocicleta mas o carro
era potente e já estava encostando, ameaçando abalroa-las.
Subiu no canteiro e passou a pilotar pela calçada enquanto
Júlia dava gritinhos animados, adorando a aventura.
_____Cala
essa boca e se segura! mandou enraivecida.
Por
fim pensou que conseguira se livrar do veículo suspeito quando
outro as apanha de cheio pela traseira.
O
impacto fez com que a moto empinasse e a roda dianteira girasse livre
no ar enquanto o motor roncava agoniado. Vick tentou controlar o veículo
mas assustou-se ao perceber que Letícia havia caído
há metros atrás.
Parou a motocicleta e tentou correr até onde estava a moça.
Viu , horrorizada o primeiro carro que as perseguira, parar e braços
fortes içarem a moça como uma boneca para o interior
do veículo que saiu fugindo em disparada.
Pensou
em voltar e apanhar a motocicleta, mas o segundo carro a cercou, acompanhado
por mais duas motos. As portas se abriram e ela foi arrastada para
seu interior e imobilizada no banco de trás. Percebeu que no
carro haviam três homens. Dois no banco da frente e um, muito
forte no branco de trás, que a mantinha deitada no soalho,
prendendo sua cabeça com uma mão, enquanto outra lhe
revistava o corpo em busca de sua arma. Encontrou a pistola glock
oculta na cintura da policial. Retirou a arma e riu...
_____Uma
boa arma... coisa de primeira... vou ficar com ela. Não vai
mais te servir nesta vida!
Um
dos homens do banco da frente falava ao celular.
_____Nós
pegamos as duas pombinhas, chefe!. O informante táva certo!
O que faremos agora? ...Ah! O senhor quer tratar dela pessoalmente?
Ta... deixa que a gente tamos levando ela aí...
A
Adrenalina jorrava intensamente no sangue de Vick. Seu cérebro
e metabolismo aceleraram e ela agiu instintivamente. Sacou o revólver
calibre 38, cinco tiros que sempre trazia preso ao tornozelo. Aprendera
a andar com a pistola e o revólver. Era um truque que o Araújo
lhe ensinara e que um dia disse que poderia salvar-lhe a vida.
Na verdade, serviria para que se a pistola negasse fogo,
não ficasse na mão.
Agora
a servia de outra maneira. Um tiro de baixo para cima atingiu a base
do crânio do homem que a imobilizava. Outro tiro na nuca do
homem ao lado do carona. Outro na altura do coração
do motorista e o carro começou a deslizar sem controle.
Bateu em um poste e Vick pulou pela janela quebrada e fugiu na noite
sem perceber onde estava ou para onde ia. Correu até perder
o fôlego.
Não sabia quanto tempo se passara até então.
Só aí percebeu que estava em uma espécie de bairro
pobre, não muito distante da Favela Grota do Adeus.
Sentou-se
no meio-fio. Estava exausta, tanto fisicamente quanto emocionalmente.
O reboar dos tiros ainda a mantinham semi-surda, quando ouviu as sirenes
e não soube identificar se eram de ambulância, dos bombeiros
ou da própria polícia.
Uma viatura parou à sua frente. Levantou-se arisca.
_____Calma...
entre aí! A voz da Delegada fez seu coração quase
em colapso, desacelerar um pouco.
_____Entre!
Dentro
do carro, Um policial dirigia e as duas se mantiveram sentadas no
banco traseiro.
_____Conte-me
tudo o que aconteceu! Encontramos os três homens que você
matou! Vai precisar de um advogado. Sempre há um juiz que pode
achar que um tiro na nuca e outro nas costas desclassifica a legítima
defesa... mas não se preocupe, isso nós resolveremos.
Conheço um bom amigo que é um grande e experiente advogado.
Ele vai tratar de tudo.
Vick
tremia.
Nunca em sua carreira, matara alguém. Pelo menos diretamente.
Nem nos tiroteios chegara a ferir mortalmente um bandido.
_____Tenha
calma. É sempre um trauma matar alguém, mas você
sabe que fez para se defender.
A
voz da delegada agora soava grave e compassadamente, produzindo o
efeito desejado e Victória conseguiu relaxar um pouco, pelo
menos para contar todo o ocorrido até então.
_____Eles
estão com Júlia e alguém que nos viu, nos entregou...
O
rosto da L. Souza e Silva endureceu-se em um esgar de ira, como o
de uma leoa a quem lhe haviam roubado a cria.
Respirou
profundamente, como se para voltar à calma e perguntou.
_____Desconfia
de alguém da polícia? Alguém as viu na rua?
Uma
série de imagens desfilou no cérebro da policial. Lembrou-se
finalmente do que lhe fizera soar o alarme quando observou a garagem
da delegacia.
O carro esporte de Henrique Duarte, apesar do colega estar de plantão
naquele dia, não estava em sua vaga costumeira. Aliás.
Não estava naquele piso, nem no outro e ela sabia que o moço
não se separava do carro.
Entendeu
que fora ele quem montara as bombas e não quis danificar seu
adorado veículo com os estilhaços do artefato.
A
vaidade dele o condenou.
Não
havia mais dúvidas. Tudo se encaixava com perfeição
e ela relatou sua suspeita para a chefe.
_____Foi
ele quem nos viu na lanchonete. Certamente avisou ao bando do Raul.
Ouvi quando disseram que o informante estava certo. Eles
iam me levar até o chefe e este certamente acabaria comigo.
A
delegada ouvia a tudo, atentamente.
A certo ponto, o carro parou e elas saíram e trocaram de carro.
Agora estavam só as duas e Louise dirigia. Rodaram por duas
horas até que entraram em uma espécie de condomínio
fechado em uma pequena cidade das redondezas.
Era uma chácara de bom tamanho, muito bonita e requintada.A
delegada foi em frente, chamando pelos cachorros e os prendendo no
canil.
Entraram
na casa. Uma estrutura de tijolo, estilo inglês.
_____Estaremos
a sós e seguras aqui até o momento de agir Disse
a chefe enquanto servia para Vick um delicioso conhaque grego, o Metaxa.
_____Beba!
Vai reanima-la e lhe fará bem para os nervos. Sua pele está
fria. Mais um pouco você entrava em choque! Vou providenciar
roupas limpas e uma toalha para seu banho.
Saiu.
Vick desabou no macio divã. Havia lareiras e é claro,
o ambiente portanto se tornava muito acolhedor, quase um útero
materno. Para utilizar o termo mais correto.
Louise apagou as luzes e acendeu velas.
_____Ajuda
a relaxar.
Mesmo
sendo fraca para bebidas, a policial apreciou muito o
conhaque. Tanto que serviu-se mais algumas vezes. Começou a
sentir um calor crescente, irradiando do seu umbigo para todo o corpo.
A garganta secou e ela decidiu parar de beber aquele líquido
ambarino.
Quando Louise voltou, encontrou Vick olhando atentamente uma série
de retratos dispostos acima da lareira.
_____É
sua filha?
_____sim!
Em várias fases de sua vida. Aqui ela tinha começado
a engatinhar. Esta é quando andou pela primeira vez. Este é
quando fez o catecismo...
_____E
este é seu marido?
_____Sim!
A resposta seca, estancou o desejo de perguntar de Vick.
Momentaneamente
instalou-se um silêncio sepulcral entre as duas.
Louise
como sempre, rompeu o embaraço e mandou:
_____Suba
a escada e encontrará um banheiro. Fique somente o tempo que
for necessário. Depois desça e estarei te esperando.
Vick
obedeceu à Delegada como uma menina crescida. Não estava
preocupada no momento com o modo autoritário de Louise.
Não conseguia se preocupar com muita coisa além da lembrança
incessante de que Liz poderia estar naquele momento, servindo com
seu corpo àquele traidor e mau caráter do Henrique Duarte.
No piso superior encontrou uma banheira com água morna. Uma
espécie de ofurô delicioso.
Entrou e sentiu seus músculos relaxando aos poucos, como cordas
de arco tensas depois da batalha.
Saiu e se enxugou.
Depois vestiu a camiseta e a calça de malha que recebera e
desceu.
Na sala, encontrou Louise com os cabelos soltos e no corpo um diáfano
vestido de algodão com corte reto que lhe alcançava
até os tornozelos nus.
Havia também tomado um banho e sua pele estava brilhante e
perfumada. Bebia o conhaque, distraidamente, sentada em uma almofada
ao chão, enquanto consultava sua agenda.
Pela
primeira vez, Victória sentiu que trabalhava para uma mulher
de verdade e não para um coronel de saias, como
sempre lhe parecera. Porém procurou manter a prudência
e não baixar a guarda.
Os
cabelos Negros de Louise não eram muito longos como parecera
na primeira vez que a vira. Tinha corte estilo chanell, fios retos
e lisos, três dedos abaixo do queixo.
Havia
ainda uma franja e todo o conjunto lhe emprestava um certo ar francês.
Os braços alvos e lisos, denunciavam uma musculatura firme
e bem definida, porém alongada, tal como o das bailarinas.
Sim... ela poderia se passar por uma bailaria ou Etoìle
do Teatro Municipal de Paris.
A fantasia se dissipou, quando a Anna Pavlova sacou de
algum canto oculto da sala, o mapa da Favela Grota do Adeus
e de seu transmissor passou a ditar ordens aos quatro ventos.
Enquanto falava ao aparelho, riscava e fazia esboços no papel.
Vick tentava acompanhar a linha do raciocínio poderoso da chefe,
mas sentia-se no momento como um calhambeque seguindo uma Ferrari.
Desligou o aparelho e saiu da sala rapidamente. Voltou com uma bandeja
onde haviam dois pratos com um ravióli fumegante.
_____Não
se impressione! Eu a mandei trazer de uma cantina italiana!
cortou a Delegada ao ver os olhos de Vick se expandirem.
____Coma!.
Ajuda a se situar no mundo dos viventes. Está muito pálida
ainda.
Victória
não se fez de rogada. Serviu-se do seu prato e continuou a
bebericar o conhaque. O trauma que sofrera lhe fazia as mãos
tremerem e ela tentava disfarçar sua situação
precária e não compreendia como Louise se alimentava
impassivelmente, sabendo que sua filha única estava em poder
de seqüestradores cruéis.
_____Nós
vamos conseguir livra-la do Raul. - Vick afirmou timidamente, perscrutando
o rosto da Delegada em busca de um leve sinal que lhe denunciasse
o sofrimento.
_____Não
quero falar sobre isso agora. Coma e deixe os delírios para
quando se deitar.Vick terminou seu prato.
Sentia-se
muito melhor e a imagem de Lizandra, talvez pelo efeito da bebida,
talvez pela sua intensa tristeza, lhe desfilava agora em sua mente.
Podia vê-la sendo tomada pelo Duarte.Corou e Louise
percebeu sua perturbação.Olhou-a como se curiosa e esboçou
um gesto que foi interrompido pelo toque do celular de Vick.
A
policial nem se lembrava que ainda tinha um celular, mas este ficara
muito bem encaixado em seu cinto e agora estava disposto junto com
sua roupa suja e rota que usara. Levantou-se e o atendeu.
_____Vick...
é Liz... onde você está?
Desligou.
Não
dispunha de estrutura emocional no momento para conversar com Liz.Louise
enrugou a testa e tomou o aparelho das mãos da policial.
_____Nada
de celular aqui! Regra número 1.
Vick
obedeceu e voltou a sentar-se no chão sobre o tapete, em torno
da pequena mesa de centro onde se servira e fitou seus olhos inquisitivos
em Louise. Sentia que cada gesto seu ou mesmo movimento estava sendo
criteriosamente observado e analisado.
_____Seu
pai, Antonio di Angelis, é um empresário inteligente
e agressivo...
O
comentário da Delegada, pegou Victória de surpresa.
Não esperava que Louise conhecesse tanto de sua vida familiar.
_____Dizem
que ele é uma dos melhores executivos de sua geração!
respondeu Vick, tentando manter o tom informal da conversa.
Uma
música suave, invadiu o ambiente. As melodias apaixonadas de
uma obra de Chopin...
Louise
sentou-se em uma confortável poltrona de espaldar alto e fechou
os olhos, visivelmente inebriada pela música. Vick, mesmo contrariada,
teve que admitir que à sua frente havia uma mulher que sabia
ser sensual e sedutora. Ali, até seus gestos, antes tão
rígidos e tensos, eram harmônicos e graciosamente femininos.
_____Aurora
era o nome da mulher que inspirou essa obra! comentou por fim, a policial,
a quem a obra do músico austríaco atingiu em cheio o
coração apaixonado e triste.
Louise
abriu os olhos e completou:
_____Aurore
De Dudevant...
Levantou-se
e aproximou-se de onde Vick estava sentada, tocando-lhe suavemente
a face ao perceber as lágrimas represadas em seus olhos.
_____Conhece
como foram feitas as famosas espadas dos samurais? perguntou.
_____Não!
Já li um pouco sobre elas, mas não sei muita coisa.
Louise
levantou-se e subiu as escadas. Voltou com uma bela espada nas mãos.
_____Esta
é uma peça rara. Comprei-a em um leilão na Inglaterra.
Pertenceu a um bravo samurai que serviu ao último Xogum da
Dinastia Tang. Veja a lâmina... é capaz de ferir uma
rocha. Sabe porque?
_____Não!
Não faço a menor idéia!
_____Pela
forma como foi forjada. O mestre ferreiro a submeteu ao fogo, para
que se livrasse das impurezas e pudesse ser forjada. Submeteu-a depois
a milhares de fortes marteladas, para que cada molécula fosse
se comprimindo até ter a massa mais rija do que a rocha.
E assim a espada foi feita: o fogo, o martelo e a água... que
também era utilizada para uma espécie de choque térmico
que empresta têmpera ao aço...
Victória
entendeu perfeitamente a razão daquela explicação
quase enciclopédica sobre a espada do samurai: Grandes homens
e mulheres são forjados no fogo-sofrimento, no martelo-experiências
e entre um e outro, a água-alento, molda a têmpera de
seu caráter.
A
policial tocou a lâmina, reverente...
_____Pegue-a!...
sinta-a em suas mãos...O toque no metal, fez uma energia deliciosa
fluir para seu corpo alquebrado.
_____Você
poderia estar morta, nesse momento! - interrompeu, Louise!
_____Eram
três homens de coração duro e mau. Tinham ordens
de leva-la até Raul e ele certamente iria finalmente levar
a cabo sua desejada vingança.
Uma
breve pausa e os olhos das duas mulheres se cruzaram e fitaram-se
intensamente.
_____Mas
aí está você, ilesa fisicamente, apesar do trauma
emocional sofrido!.
A
Delegada serviu-se do conhaque e continuou:
_____Meu
colega, a quem substitui no Oitavo Distrito, havia me dito sobre sua
fama de ter sete vidas... Agora entendo o porquê.
Talvez você ainda tenha muito o que realizar nesta vida... Talvez.
Já vi policiais valorosos e inteligentes, morrerem em situações
totalmente absurdas e insólitas, como ir na esquina comprar
pão e se depararem com um assalto, ou mesmo levar um corte
na jugular, feito por um caco de garrafa nas mãos de um menino
de seis anos...
_____É
a violência urbana! comentou Vick enquanto manuseava
a espada e tentava acompanhar o raciocínio de Louise. Sabia
que poderia ter morrido em inúmeras oportunidades, mas de um
modo ou outro, que ela jamais poderia explicar, escapara. Quem sabe
a Delegada tivesse razão.
Quem sabe ela estava sendo poupada para algum grand finale...
um grande momento.Como se lesse o pensamento da policial, Louise afirmou:
_____O
Grande Momento de nossas vidas poderá ser amanhã...Já
pensou nisso? Já pensou que esta pode ser sua última
noite aqui, nessa esfera ou dimensão?
_____Nã,
não! Eu prefiro nem pensar nisso! Gosto de pensar que sou mais
esperta do que a Dona Morte!
_____É
natural!. concluiu Louise, voltando a sentar-se na poltrona,
cerrando os olhos para apreciar a música.
Vick
a olhou admirada. Estava impressionada com sua coragem e a clareza
como encarava a vida, o momento, o destino e até a possibilidade
da morte. Queria ter toda aquela coragem em face do imponderável...mas
seria exigir demais de seu coração jovem e aventureiro
que por vezes até acreditava ser imortal.
O
rádio transmissor da Delegada soou e ela o atendeu prontamente.
Saiu da sala para o varandado, onde pudesse conversar com seus homens
sem que Victória a ouvisse. Voltou para o interior da sala,
muito séria e o rosto novamente endurecido.
_____
há algumas horas, mandei que detivessem o policial Henrique
Duarte para algumas averiguações, diante dos graves
indícios contra ele...
Victória
levantou-se de um salto, ansiosa pela notícia.
_____Ele
foi pego? Onde estava?
_____Estava
na casa da namorada...A Doutora Lizandra, uma das legistas que trabalham
no Instituto Médico local. Você deve conhece-la...
_____Sim!
Eu a conheço! exclamou Vick, em um gemido.
_____Henrique
Duarte escapou do cerco!
_____Como?
_____Usou
a namorada como refém e fugiu...
Vick
cerrou os punhos, quase fora de si.
_____Eu
não acredito! Não posso acreditar...Ele usou Liz como
refém? Vou mata-lo...Louise parecia não entender a razão
do desespero de Victória e ficou em pé, atônita.
_____Ele
a levou consigo? Para onde a teria levado?
_____Presumo
que procurará refúgio, pelo menos por alguns dias ou
uma noite, lá na Grota do Adeus...
_____Mon
Dieu! Mon Dieu! Ele levou Liz para o inferno? Isso não pode
estar acontecendo... acho que eu morri e estou vivendo um pesadelo...
só pode ser isso! Se algo acontecer com Lizandra eu não
vou suportar...Louise adiantou-se e a abraçou forte, enquanto
ela lhe molhava os ombros com suas lágrimas.
_____Você
não entende! eu a amava... eu a amava como nunca havia conseguido
amar alguém em minha vida!
Louise
nada respondeu naquele momento e esperou que ela aos poucos se acalmasse.
Depois convidou:
_____Venha,
criança!.. vou lhe mostrar seu quarto. Dormir lhe fará
bem. Amanhã será outro dia e precisará dispor
de toda sua energia e juventude para a ação.
Posso precisar contar com você!
Capítulo
10:
"Age
quod agis"
latim: Faze o que fazes.
Podendo significar ainda: Presta atenção no que
fazes; concentra-te na tua missão.
Naquele sonho, Vick apertava Lizandra em seus braços enquanto
se amavam e ao mesmo tempo, lutavam. Mordeu-lhe os lábios com
ânsia até que vertessem sangue. Depois a agarrou pelos
macios cabelos loiros e a trouxe próximo de si.
_____Porque?
Porquê você fez isso comigo! O que fiz para merecer isso?
Ainda
estava presa a Liz, quando a morte se personificou à sua frente.
Em suas mãos descarnadas ela ostentava duas esferas de luz.
Uma azul, outra lilás.
_____Este será o seu amanhã! Escolha entre a sua vida
ou a dela. determinou o terrível espectro.
Vick entendeu rapidamente que as esferas de luz representavam sua
vida e a de Liz.
De
um lugar misterioso, no espaço sem nitidez de seu sonho, sacou
a longa e terrível espada dos samurais.
_____E
porque não você? disse , enquanto partia em ataque
àquele esqueleto encapuzado e o transformava em pequenos pedaços
de osso e tecido, com a poderosa * katana.(*espada japonesa).
Acordou ensopada de suor e ofegante.
Saltou da cama aliviada de que tudo não tivesse passado de
um sonho ruim. Olhou seu corpo nu através do enorme espelho
preso à parede.
Via ali uma mulher jovem e bonita com longos cabelos negros ondulados
e volumosos . O corpo, alongado e de musculatura firme fora esculpido
pela rotina espartana do tempo em sua adolescência, em que praticara
ginástica olímpica.
Vestiu-se
e desceu as escadas. Encontrou Louise na sala, com uma xícara
de café na mão e os olhos presos em algum ponto do mapa
que ainda estudava.
Estava
vestida em um uniforme chumbo escuro, com cinturão onde se
prendiam pistola, revólver e munições. Nos bolsos
da perna haviam suporte para outra arma, coldre de coxa, rádio
transmissor, punhal e GPS. Nas mãos, luvas de dedo e nos pés,
um par de boots de cano longo e couro macio.
Vick
aproximou-se da mesa, onde estavam ainda, dois capacetes de polímero
preto fosco com viseira, coletes à prova de bala e um uniforme
cuidadosamente dobrado.
Enrubesceu
embaraçada pois tinha verdadeira fixação por
aquele tipo de farda de operação e se deparar com a
visão de Louise naqueles trajes, lhe fez irradiar pela pele
uma suave e sutil descarga de energia que ela bem sabia o que significava.
_____Bom Dia! cumprimentou, olhando para os próprios
pés.
A
Delegada cravou-lhe o olhar frio no rosto e sua expressão endureceu-se
mais. Não lhe respondeu o cumprimento, apenas fez sinal para
que ela sentasse.
Continuou examinando atentamente o tal mapa da Grota do Adeus, que
ganhara várias marcas feitas em caneta vermelha, azul e verde.
Rabiscava anotações intensamente em um bloco, enquanto
acionava o rádio transmissor e despejava inúmeros comandos.
_____Rainha
Negra para Bispo...Alguma alteração? Câmbio?
_____Bispo,
copiando... nenhum movimento à noroeste, apenas avanço
de dois peões. Nada rompendo o esquematizado!
_____Permaneça
em QAP e avise-me quando os gafanhotos descerem! Câmbio,
desligo!
Se
Louise não estivesse com as feições descansadas
e totalmente vestida para combate, Vick poderia apostar que ela passara
a noite inteira estudando o mapa, terminando de lapidar seu plano
de ação.
Um pequeno corte em seus lábios, chamou a atenção
do olhar da policial, mas diante do comportamento totalmente fechado
da Delegada, decidiu não perguntar como se ferira.
Uma
mulher muito quieta e magra, entrou trazendo a bandeja com o desjejum
para duas pessoas. Retirou-se tão silenciosamente quanto entrara.
A
Delegada serviu-se de um bom sanduíche e passou a explicar
seriamente para Victória toda sua estratégia e mostrar
os pontos de fuga(lugares de abrigo), os cegos(lugares
ocultos), os de colisão(lugares de perigo) e os
de visão(lugares de onde poderiam vigiar).
Em certo ponto do mapa, ela apontou o núcleo, ou
ponto zero, onde presumia que Raul Dourado e sua corte
conviviam.
_____Na Grota, existem duas vias de acesso. Na verdade,
três, mas esta aqui fica no ponto de fuga do Mirante.
Para se fugir por aqui, é preciso quase que conhecimentos de
alpinismo, além de ter que atravessar uma espécie de
represa à nado ou uma trilha que passa exatamente no olho
do ciclone, isso é, um lugar onde a quadrilha do Raul costuma
se abrigar. Existe outros pontos aqui e ali, mas quase inacessíveis
se tivermos que considerar que os Vira-pó estarão
espalhados por todo esse trecho.
O plano A é: Aguardar que os homens do Proverbial
entrem para atacar a Grota e quando estiverem no núcleo,
ou próximo dele, fecharemos as vias de acesso.
Ninguém entra, ninguém sai. Então, aguardaremos
o conflito e após o sinal das Torres que estarão
a postos nos pontos de Visão... invadiremos.
_____Mas e a população civil inocente?
_____A população infelizmente já está
acostumada às constantes guerrilhas entre as quadrilhas e certamente
se fecharão em seus barracos. Costumam cavar valas enormes
para se protegerem em tais ocasiões.
Vick
ouvia a tudo, admirada da inteligência e capacidade da Souza
e Silva.
_____Coma!
Vai precisar de toda sua energia! Depois vista a farda. Vou destaca-la
para se posicionar entre os vigias das vias de acesso!
_____Então
não vou poder entrar na Grota?
_____Não!
Ainda está com os nervos muito abalados e dormiu muito mal
à noite. Do meu quarto pude ouvir seus gemidos e o debater
na cama.
Victória
recebeu a notícia com surpresa. Não se lembrava de ter
sequer acordado no decorrer da noite anterior, porém, aos poucos
recordou-se de seu conflito com Liz e o posterior ataque à
morte.
Enfim,
teve que se curvar ao bom senso de que a Delegada estava certa.
Serviu-se
do café e o leite, enquanto mastigava algo e estudava o mapa
sobre a mesa. Louise tornou a voltar sua atenção às
suas anotações até que o rádio transmissor
a chamou.
_____Torre
Alfa para Rainha Negra! movimentação suspeita nos pontos
de acesso, oeste e noroeste...
_____Rainha
Negra se movendo! Aguardem ordens...
Desligou
o rádio e levantou-se com energia.
_____Está começando. O vulcão está dando
sinal de estar prestes a entrar em erupção e precisamos
nos colocar a postos. Nem antes, nem depois. Lembre-se: qualquer vacilo,
poderá custar a vida de todos, portanto obedeça e tente
se concentrar no que faz.
Capítulo
11:
"aquilae
non gerunt columbas"
do
latim: Águias não geram pombas- Podendo significar:
tal pai, tal filho.
Assistiram pacientemente o dia nascer, maturar e morrer. Estavam posicionados
em um platô alto, denominado pela Delegada de ponto de Visão
principal.
Victória,
apesar de toda sua tristeza e aflição quanto à
possibilidade de que Duarte tivesse arrastado Lizandra até
o núcleo ou área vermelha, não
deixou de sorrir ao encontrar entre os homens que iriam acompanha-la
no seus posto, nada menos do que seu parceiro, o Agnaldo.
_____Quando soube do que havia acontecido com você ontem, eu
procurei entrar logo em contato com a Souza e Silva e me oferecer
para participar da missão secreta...
Vick o abraçou forte e beijou-lhe repetidamente o rosto.
_____Você nem imagina como sua presença aqui está
sendo importante para mim.
Relatou
ao amigo, detalhe a detalhe de tudo que passara na véspera
e do seu temor de que Duarte tivesse se abrigado com Raul, levando
Liz consigo.
______Mas é claro que não tenho certeza e ela pode estar
agora em outro lugar distante daqui e em segurança!
exclamou, esperançosa.
Agnaldo a ouvia com o cenho franzido e manteve-se silencioso por um
momento até que tocou-lhe o ombro, jovialmente.
_____Ah ! Lembrei! Se serve de consolo, devo informar que resgatei
Sir Lancelot e sua família e os levei até meu
apê. Lá minha empregada estará tratando bem deles
até voltarmos.
_____Sim!.... Se voltarmos...
_____É claro que vamos voltar! Estamos nas torres de
vigia. O que poderá dar errado conosco? Teremos por onde
fugir se o pior acontecer. retrucou, Agnaldo.
_____Mas a Rainha Negra e seus peões vão
invadir a Grota...
_____Sim!... é uma missão um tanto suicida...ou... impossível...
_____Não se todo o esquema se encaixar conforme ela o elaborou!
Argumentou, Vick.
Agnaldo cofiou a barba de três dias, meditativo.
_____Desculpe,
Di! Mas não é preciso ter muita experiência na
carreira policial pra saber que na hora do quebra-pau
mesmo, o acaso nos aplica peças e muitos imprevistos acontecem.
E aí...
_____E
aí?
_____Aí? ...Você sabe rezar? Talvez precisemos rezar
pelas almas deles...
A noite avançava e esperar tanto, para Victória estava
sendo uma tortura. A chegada sorrateira de blocos e blocos de homens
de João Proverbial, lhe ascendeu cada célula do corpo.
Comunicaram a movimentação dos gafanhotos
para a Delegada Souza e Silva que estava postada e oculta, em algum
ponto perto das Vias de acesso.
A
dado momento, talvez perto da meia-noite, a voz forte e autoritária
de Louise, comandou:
_____Todos os peões das torres e entradas das vias... Fechem
o acesso. Ninguém entra! Ninguém sai! Simultaneamente
começaram o matraquear dos fuzis e metralhadoras e Vick e seu
grupo perceberam que a sangrenta guerra entre as facções
dos Vira-pó de Raul e os Fura-couro
do Proverbial, havia sido deflagrada.
_____Gui!
A Souza e Silva não é humana! A filha dela está
lá... em algum ponto desse inferno!
_____Procure se acalmar...
_____Estou tentando! Ainda não foi confirmada a presença
de Liz na Grota...Ainda tenho esperança!
Agnaldo virou o rosto, tentando disfarçar sua expressão
e Victória percebeu que o amigo podia estar lhe ocultando algo.
_____Porque
virou o rosto? Olhe para mim... o que sabe e está me escondendo?
O
Policial continuou silencioso, olhando em algum ponto perdido na densa
escuridão da noite.
_____Liz
está na Grota? Fale... não me esconda nada!
_____Desculpe,
Di... mas... a chefe determinou que eu não lhe contasse sobre
Liz!
Vick sentou-se em uma pedra à beira do precipício e
não conseguia conter as lágrimas que lhe escorriam pelo
rosto.
Muitos
metros abaixo, o caldeirão crepitava sinistramente.
Acima de sua cabeça, as estrelas apareciam, intensas e serenas,
alheias à aflição e dor de quem estava naquele
momento em Hades.
Rememorou
cada momento sublime que vivera ao lado de Lizandra; o sabor de seus
beijos, o calor de seus braços; a forma como se enroscava em
seu corpo enquanto dormia.
Ainda podia lhe visualizar o sorriso suave e o olhar lânguido
depois do amor.
Levantou-se
decidida. Desceria no inferno e encontraria Liz, nem que fosse para
retirar dali seu corpo ou mesmo acompanha-la em sua sorte. Tremia
ao se imaginar tão claramente defronte à morte, mas
deixou-se levar mais uma vez por seu temperamento impetuoso, antes
que qualquer titubear seu lhe restituísse o juízo momentaneamente
embotado.
Procurou por uma pequena lanterna com imã que se encaixasse
em sua arma. Um GPS, punhal e o que conseguisse carregar rocha abaixo.
Teria que se dependurar na pedra pelos dedos, mas confiava em sua
habilidade de praticante de alpinismo e capacidade física de
atleta. Ajustou a longa corda que lhe permitiria descer da torre
até uma das bandas da grota.
Tinha o mapa de Louise, impresso na mente. Ainda ouviu quando Agnaldo
anunciava pelo rádio transmissor, sua fuga à Delegada.
_____Vigia para Rainha Negra! não há mais como interceptar
Di Angelis! Nós a perdemos!
Na
Grota, quando finalmente seus pés tocaram em um terreno razoavelmente
plano, Vick procurou orientar-se. Estava perto do lado norte da Favela.
O lugar era uma espécie de monstruosa cratera, contornada pela
silhueta já escura dos morros escarpados. O cheiro de pólvora
lhe irritou as narinas. Abaixou-se e passou a mover-se cuidadosamente,
arrastando-se ao solo.
Sobre
sua cabeça, os projéteis perdidos zuniam e riscavam
a noite. Eram inúmeros deles e qualquer vacilada poderia ser
fatal.
Avançou por estágios, arrastando-se até que atingiu
um dos degraus de cimento de uma das intermináveis escadarias
que cortavam a Favela.
Ali, estas tanto subiam quanto desciam, formando labirintos estreitos
entre os barracos precários de madeira ou alvenaria sem reboco.
Haviam
corpos espalhados por todos os lados e no meio do fogo cruzado e incessante,
percebeu a impossibilidade de avançar qualquer centímetro,
ilesa. Perto de onde estava oculta, naquele momento passaram vários
homens armados de fuzis e metralhadoras. Gritavam e atiravam alucinados,
aparentemente sem medo algum da morte. Logo, cada um deles foram tombando
sem vida.
Não
havia no momento qualquer possibilidade de alcançar o núcleo
com vida, enquanto os comandos não se enfraquecessem
e tivessem muitas baixas. Pensou na Delegada e na clareza com que
ela tentara lhe incutir na mente a dura realidade.
Percebeu
o quanto fora irracional ao tomar aquela atitude. Enfim compreendeu
a silenciosa aceitação de Louise, quanto ao destino
de sua filha e que isso não significava que não estivesse
sofrendo.
E agora? o que poderia fazer?
Decidiu
esperar. Quem sabe se com sorte, a Rainha Negra e suas hostes, descessem
do abrigo nas rochas a tempo de ainda encontra-la com vida? Ou quem
sabe acontecesse um milagre?
Colou
o rosto no solo úmido pelo sereno e fechou os olhos, rezando
silenciosamente. Não percebeu quantos minutos decorrera até
que uma mão a apanhasse pelo calcanhar.
Assustou-se
e virou o rosto na direção de seus pés. Um rosto
franzino, com grandes olhos expressivos, apareceu, saíndo de
uma espécie de valeta oculta por tábuas soltas.
_____Ei... Asa Negra! Entra aqui...
Victória não esperou segunda ordem e se arrastou para
dentro do buraco na terra.
_____Reconheci você quando passou se arrastando perto do buraco.
segredou o menino.
A voz era do pequeno Tiziu, um dos engraxates da praça
das Aléias que costumava lhe tratar as boots.
_____Venha... vou te levar até um lugar seguro!
_____Espera! Um momento!
_____Sim?
_____Você pode me levar até onde o Raul Dourado guardou
as moças que foram raptadas?
_____Óia, tia, até posso, mas só
sei de uma moça de zôio de gato que diziam que haviam
tirado lá dos bacanas...
_____E podemos chegar até lá?
_____Até perto eu levo! Depois é com a senhora!
Arrastaram-se por um labirinto de escavado no solo, ouvindo sobre
suas cabeças, passos de homens que gritavam e o gemido e choro
dos moribundos.
Tiziu
por fim, parou de se arrastar.
_____É aqui! Ta vendo aquele barraco lá? Tem um cadeado...
é lá que guardam os hóspedes do Raul...
_____Obrigada , Tiziu! to te devendo esta!
_____Tudo bem, Tia!.. mas se escapar dessa... eu vou cobrar!
_____Trato feito!
Vick se esgueirou para fora da valeta, procurando se ocultar nas sombras.
Não havia ninguém ali, como sentinela. Tropeçou
em dois corpos. Um deles tinha cabelos loiros. Focou com a pequena
lanterna e viu com alívio que era um homem com densa cabeleira
oxigenada.
Aproximou-se da porta e retirou um dos seus brincos-gazua da orelha.
Abriu
o cadeado com facilidade e entrou no barraco estreito e escuro, de
onde podia-se sentir um cheiro nauseabundo de urina e vômito.
Aguardou
por um instante em um canto, tentando detectar se havia alguma presença
viva no local. Uma voz tremida e fraca rompeu o silêncio.
_____Por favor! Não me mate!
A Policial reconheceu a voz de Julia e procurou se mover lentamente
em direção do local onde ouvira o lamento. Tocou uma
pele fria e úmida.
_____Júlia! Sou eu, a Di Angelis... vim vou te buscar. Está
sozinha?.
A garota se agarrou a ela, com o que restava de suas forças.
_____Me tira daqui! sussurrou! Eu estou sozinha..._____Eles
estão me matando de fome e ainda prometeram que iam me enterrar
viva para se vingarem de minha mãe...
_____Acalme-se ! Nós vamos sair daqui.____Viu mais alguma mulher
presa ? Uma loira?
_____Não!
A conversa estancou e Vick conduziu a garota até a valeta de
onde saíra.
Lá,
pôde ver que Julia tinha algemas lhe prendendo os pulsos. Cuidadosamente
as abriu e fez sinal para que ela mantivesse a calma e o silêncio.
A garota esfregou os pulsos, aliviada.
_____Foi mamãe quem te mandou me salvar, não foi?
_____Silêncio! Fique quieta!
_____Eu sabia que minha mãe não ia me deixar morrer
aqui! Ela é a melhor policial do mundo! sussurrou a
adolescente.
_____é ! concordou Vick. _____Agora precisamos sair
daqui e você precisa me obedecer...
_____Eu vou fazer tudo que você mandar!
_____Então! Vamos!...
Arrastaram-se por metros e Victória parava vez ou outra para
consultar com a pequena lanterna, o GPS. Procurava um dos pontos de
fuga ou cegos. Ali, quem sabe, poderiam se
abrigar e aguardar até que a guerra terminasse.
Ouviram passos de muitos homens e uma voz mandava que semeassem
as bananas de dinamite para mandar os inimigos pelos ares...
_____Dinamite? pensou Vick..._____Isso não estava previsto
nos planos da Souza e Silva e poderá ser fatal, pois não
serão necessários muitos homens para aciona-las.
Lembrou-se
do rádio transmissor desligado que estava em um dos bolsos
da sua calça. Ligou-o cuidadosamente.
_____Di Angelis informa Rainha Negra! Existe dinamite na Grota!
câmbio.
Um ruído de interferência e silêncio fez com que
Vick imaginasse que talvez fosse tarde demais. Até que...
_____Rainha Negra pergunta sua localização!
_____Alguns graus a leste do ponto de colisão 2.
respondeu a policial, consultando novamente o GPS.
_____Ok! Vamos localizar e destruir o paiol. Sua informação
foi de importância Vital. Bom trabalho.
A
garota ao ouvir a voz da mãe, aproximou-se e a chamou.
_____Mamãe!
A voz da Rainha Negra se tornou mais grave.
_____Está com Júlia?
_____Sim!
- respondeu Victória.
_____Ok!
Agora escute com atenção: Vá até o ponto
de fuga do Mirante e não saia do local até que chegue
o resgate. Existe uma espécie de lagoa. Júlia não
sabe nadar. Quero que arranje um meio de atravessa-la até a
outra margem.
_____Mas pode haver mais elementos das quadrilhas se abrigando por
lá!
_____Tenho informação que não há mais
acesso pela trilha até o Mirante.
_____Ok! Estamos a caminho!
_____E
ouça, Di Angelis... não saiam de lá, custe o
que custar. A vida de Júlia agora depende novamente de você.
Não falhe a outra vez.
Vick
desligou o rádio e chamou pela garota.
_____Vamos!... ainda temos muito que nos arrastar!
Em
certo momento, puderam sentir que a valeta estava muito mais úmida
e com algumas infiltrações de água.
_____Estamos perto da represa! Temos que sair.
A visão que teve foi desanimadora. A Lagoa apanhava de fora
a fora daquela parte da grota e seria quase impossível nadar,
arrastando consigo a garota. E para piorar a situação,
um temporal denso e forte desabou sobre suas cabeças.
Mal podia ver o rosto uma da outra. Em poucos minutos, o volume da
água aumentava e pequenas e perigosas ondas se formavam ao
sabor do vento. A um canto, centenas de lixo e garrafas plásticas
de refrigerantes vazias, estavam encalhadas na margem.
Vick
teve uma idéia.
Podia funcionar e além de tudo, não poderiam mais perder
tempo. Apanhou várias daquelas garrafas vazias com tampa e
passou a inseri-las por baixo da camiseta de Julia e a prende-las
com seu cinto.
A
garota não retrucava e mantinha a cabeça baixa com humildade.
Tremia de frio e de medo.
A
Policial tirou suas botas, o colete e mais outros equipamentos pesados.
Encaixou também em sua roupa, duas daquelas garrafas e arrastou
a menina para a lagoa.
Em poucos minutos, passou a nadar, arrastando Julia que flutuava por
intermédio do ar preso nas garrafas. Mesmo com essa ajuda,
a chuva forte e o esforço, a fizeram quase acreditar que não
agüentaria mais bater os braços e as pernas até
a outra margem.
Minutos
que mais pareceram dias, se passaram naquela luta contra a água
até que seu pé encontrou o fundo.
Saiu
quase em estado de estafa, arrastando a si e à menina assustada.
Ficou
por um momento deitada, tentando recuperar o fôlego até
que Julia mostrou um pequeno barraco a um canto, onde poderiam se
abrigar.
O Mirante era mesmo um ponto de difícil acesso e naquele momento,
não apresentava qualquer saída.
Vick arrastou-se, agora auxiliada pela adolescente até o interior
do barraco. Lá, com a lanterna, focou os cantos e quase desmaiou
ao se deparar ali, com Liz.
A
Médica estava sentada e tinha as mãos amarradas. Seus
olhos verdes, expandiram-se ao reconhecer Vick. Mas havia também
neles uma espécie de pavor.
A
policial não teve tempo de se aproximar dela, quando ouviu
o característico estalo de uma arma sendo engatilhada. O lampião
preso a um dos cantos, foi aceso por um fósforo.
O
sorriso cruel de Duarte fez o coração de Victória
bater acelerado.
_____
Então novamente nos encontramos! Disse, enquanto apanhava
o pescoço de Vick com uma das mãos, enquanto a outra
lhe encostava o cano frio da arma na testa.
Júlia
vendo a situação, correu para fora do barraco e sumiu
na escuridão.
_____Deixa o coelho escapar. Não há saída e mais
tarde poderei caçá-la calmamente!
_____Porque está fazendo isso? Henrique?
______Digamos que por dinheiro e principalmente por vingança!
______O que fiz para você?
______Pergunte à sua amante...
Vick percebeu que Duarte já sabia de seu relacionamento amoroso
com Liz.
______Encontrei uma linda carta de amor que escreveu para
Lizandra. Inicialmente pensei que fosse o Agnaldo, mas estava assinada.
Então percebi quem realmente você era. Uma aberração.
Então pensei que poderia acabar com você e ainda lucrar
com isso!
______Ele estava me chantageando ! Disse que a mataria se eu não
reatasse o namoro! - gritou a médica em meio aos soluços.
_____É? E como foi que eu encontrei o bilhetinho? Foi no seu
quarto depois que havíamos transado... conte a ela sobre o
bebê que estávamos tentando fazer? Diz que
é mentira minha?
Lizandra levantou-se com dificuldade e pediu.
______Deixe-a ir embora, Henrique! Você já conseguiu
o que queria... já me tem ao seu lado... não precisa
mais se vingar....
_____Nunca! Dessa vez a famosa Asa Negra vai morrer...
Eu a odeio...
_____E depois? O que fará? Vick perguntou, tentando
aparentar calma.
_____Será caçado por todos os lados...
_____Consegui uma boa grana com o Raul por conta dos serviços
que prestei. Já tenho uma conta no exterior. Quando amanhecer,
eu e Liz vamos sumir do mapa...
Liz, aproveitando-se da distração de Duarte, abraço
Vick e falou:
_____Se tentar mata-la... terá que me matar junto...
_____Não seja tola...
_____Se
fizer isso! Vou te odiar pelo resto de minha vida!
_____Vou pagar para ver! bradou o homem enfurecido de ciúmes
e ódio.
O
dedo se posicionou no gatilho e ... bang...
Um estampido e expressão de surpresa nos olhos já sem
vida.
Ao desabar contra a terra pisada do barraco, Duarte caiu pesadamente
sobre o corpo de Victória que tentava se desvencilhar da enorme
mão , ainda fechada em sua garganta.
Enfim
conseguiu se livrar e levantou-se procurando por quem havia deflagrado
aquele certeiro tiro na nuca do ex-policial.
Louise
Souza e Silva, entrou no barraco, tendo Julia abraçada firmemente
ao seu corpo com seus braços finos e longos. Estava com alguns
aranhões no pescoço e mãos, além de ter
na cintura, petrechos de alpinista. Certamente descera até
o mirante pelo paredão que o cercava, em uma perigosa e difícil
descida sob a chuva torrencial.
A
pistola em sua mão ainda fumegava.
Ao
constatar que Vick estava ilesa e que tudo ali dentro estava sob controle,
acionou seu rádio transmissor e comunicou-se com seus homens.
______Rainha
Negra no Mirante! Câmbio!
______Bispo e peões aproximando-se do Núcleo. Todos
os pontos estratégicos cercados ou capturados. Aguardamos comando!
______Derrubem o Rei! ordenou Louise. _____Aniquilem o Império!
VITÓRIA
A
Operação Madrugada Vermelha teve uma repercussão
fantástica na imprensa e significou um golpe duro e histórico
contra o Crime organizado. A Delegada L. Souza e Silva e seu grupo
operacional, denominado invisíveis, receberam menção
honrosa e homenagens das autoridades e do Governador.
Victória
foi o destaque das manchetes por semanas e mesmo se negando a dar
entrevista, uma repórter em especial, dedicava seu trabalho
a escrever sobre as aventuras a ela atribuídas.
____Era só o que me faltava! comentou, Vick, enquanto
lia o jornal matutino.___A tal repórter agora está insinuando
que eu tenho poderes paranormais...
Agnaldo riu. Estavam em uma sala atulhada de papéis, e estantes
onde eram guardados objetos que foram periciados ou eram provas materiais
em algum inquérito policial.
Victória
fora transferida para o setor de depósito de material apreendido
e outros, além de ser designada para auxiliar também
em outros trabalhos internos.
____Esta burocracia ainda me mata! Hoje tenho que bolar
mais uma carta precatória... Os escrivães não
estão dando conta do volume de serviço e estão
me utilizando Ad Hoc...(* expressão em latim muito
usada no meio policial e jurídico que significa que alguém
está provisoriamente exercendo outras funções
diversa à sua específica).
____Güenta aí! Um dia a L.S.S. pode resolver te tirar
do castigo...
____Mas eu não entendo essa mulher! Tudo bem que ela me salvou
a vida... mas como consegui resgatar a Júlia, ficamos quites.
Ninguém deve nada a ninguém...
____Parece que não é bem assim que ela pensa. Acha que
você é desajuizada, impulsiva, indisciplinada e ...
____ta bom! Entendi. Eu reconheço que errei... mas tenho tentado
controlar um pouco meu temperamento. Até voltei a fazer terapia.
____Isso já é um bom começo!
O telefone toca e Victória atende.
____hã? Você é a repórter do Arauto
da Notícia? ... não... eu não posso dar
entrevista... Sim... tenho muito trabalho a fazer... Alguma missão?...
Claro.! Estou envolvida agora na investigação sobre
a vida sexual dos Hipopótamos Africanos...
Agnaldo apanhou uma folha de papel em branco e escreveu com uma caneta
hidrocor :
____Aceita almoçar com a garota! Ela é uma gata!
Vick continuou a conversar ao telefone, com expressão de tédio,
enquanto ouvia os argumentos de sua interlocutora.
Agnaldo
continuava macaqueando em frente à colega, mostrando a mensagem
que escrevera até que se deu conta de que a Delegada Titular
estava no corredor, observando-os pela parte de vidro da divisória.
Depois entrou na sala e Vick encerrou a conversa ao telefone rapidamente.
____Vejo que estão trabalhando muito!
Agnaldo articulou uma desculpa qualquer e saiu da sala pois trabalhava
em outro setor. Victória como estava em sua própria
sala, não tinha como escapar.
____O que significa isso? Di Angelis? perguntou Louise, enquanto
estendia três folhas de papel para a policial.
Vick as leu e gelou. Ali estava uma espécie de guia de recebimento
endereçada ao 8o Distrito Policial, de nada menos do que um
hipopótamo, pesando mais de duas toneladas.
____Onde mando baixar o animal? Aqui na sua sala? O ofício
está claro. Você pediu que o animal fosse localizado
e remetido à delegacia deprecante...
____Bem... Na verdade eu queria dizer que era para localizar o bicho
que foi introduzido no país sem autorização do
IBAMA e encaminhado aos cuidados da Polícia Federal... pois
é crime da competência deles...
____Acho que algo aqui não foi bem explicado pois o miúdo
animal silvestre, maior do que um fusca está lá
fora em um caminhão... esperando para que você o receba
e o guarde no depósito...
Victória sabia que não levava jeito algum com os papéis,
muito menos para redigir Cartas Precatórias, porém,
de todos as gafes que dera no breve período em que fora designada
para o setor, aquela ali estava sendo a mais fantástica.
Apanhou o relatório do médico veterinário que
examinara o animal e começou a ler:
_____Hipopótamo macho, selvagem, furioso, precisando de uma
área de 10 por 15 metros de espaço e um tanque dágua
de bom porte, além de uma fêmea de sua espécie
e ...
Não agüentou e começou a rir descontroladamente,
imaginando a cena do animal sendo içado pelo lado de fora da
delegacia, e introduzido pela janela até sua estreita repartição.
Riu tanto que de seus olhos escorriam lágrimas. Louise que
até aquele momento a fitava reprovadoramente com seus intensos
olhos azuis turquesa, não suportou e também começou
a rir.
____Di Angelis! Eu devia saber que você um dia ia acabar aprontando
outra das suas! Não leva jeito mesmo para o serviço
burocrático. Precisamos resolver essa encrenca
agora!
Apanhou o telefone e passou a ditar ordens.
Por
fim desligou.
O
Hipopótamo seria recolhido ao zoológico municipal, até
que o dono do circo que o comprou resolvesse sua situação
irregular no país.
____Pronto!
Olharam-se
intensamente e Victória não podia negar que a presença
daquela mulher autoritária e inteligente à sua frente,
estava mexendo com sua libido.
Louise
apanhou a folha que Agnaldo riscara e mostrou-a a Vick.
____Vai
almoçar com essa gata?
____Não! É apenas a repórter do arauto
tentando conseguir uma reportagem. Já a dispensei.
____E a sua outra amiga a médica Legista? Você
a tem visto?
____Ela viajou para o sul. Foi passar as férias com a família.
Nos conversamos algumas vezes pelo celular,depois do dia da operação
Madrugada Vermelha.
A
verdade era, que Victória pedira a Lizandra um tempo para pensar
e repensar a relação delas. A médica confessara
que desejava há tempos ter um filho e temendo que Vick não
aceitasse e se afastasse dela, passou a se encontrar em segredo com
Duarte.
Foi então que ele teve a oportunidade de encontrar o bilhete
de amor e descobrira que seu rival, não era Agnaldo e sim Vick.
Desde então, passara a ameaçar dar cabo
da policial se Lizandra não voltasse a ser sua namorada e estar
sempre à disposição de seus desejos.
____Não me interessa sua vida particular e tudo que fizer fora
da repartição! disse Louise, interrompendo os
pensamentos da policial.
____Quero
que a partir de hoje, cuide do caso do serial Killer a
quem você chama de Legado de Nix. Aqui está
seu dossiê. Fiz algumas anotações aqui e ali.
Tem
três dias para escolher a equipe que irá comandar e se
instalar na sala 44.
Quero
que me mantenha a par de toda a investigação e trabalhe
sobre o mais completo sigilo. Esta é sua chance! Pegue-a!
Vick
não teve nem tempo de agradecer pois a Delegada saiu rapidamente
do local.
Agnaldo
reapareceu, curioso para saber sobre tudo que acontecera e a colega
não lhe omitiu detalhe algum da conversa que tiveram.
____Maravilha!
Consegui pegar o "caso" do assassino serial...
O
policial a encarou com um sorriso malicioso.
____Sabe
que acho? Essa mulher está dando mole pra você!!!
____Ta
maluco? O coronel de Saias é hetero de carteirinha!
____E
você já teve problemas com alguma hetero?
____Não
me meteria com essa! Conheço bem o tipo e acho muito bom agir
com cautela. Sei que no menor deslize, ela me cai na goela como ...
____A
guilhotina de La révolution française...
____é!
Agnaldo
encarou-a com o olhar de menino travesso.
____Se
te contar algo que não sabe sobre a L.S.S., você me escala
para sua equipe?
____é
fofoca?
____Não...
é papo quente...
____Conta
aí! Eu já havia escolhido você mesmo para minha
equipe. Agora vai... conta senão morro de curiosidade. É
algum segredo cabeludo...
____Não...
coisa mixa...mas que diz respeito ao seu pai?
____Meu
pai?
____Sim!
____Olha
aqui, Gui... não põe o pai no meio que eu
viro um bicho...
____Bem...
a verdade é que Louise podia ser, além de sua chefa,
sua madrasta...
____O
quê?
____É.
Soube por fontes fidedignas que depois da morte de sua mãe...
houve um breve relacionamento entre os dois. A Delegada
na época havia se separado recentemente do pai de Júlia.
Hoje ela tem outro marido.
Victória
sentou-se, com a boca aberta...
____mas
o que aconteceu depois?
____Parece
que ela rompeu o namoro! completou Agnaldo.
____Louise
esnobou Antonio Di Angelis? Inacreditável...
____Ora,
Di... onde você estava nesse período que não sabe
de nada sobre a vida do seu pai?
____Presa
em um reformatório para adolescentes problema. Ele me deixou
passar três anos de minha vida naquele local horrível!
____E
porque?
____Acho
que tive problemas em aceitar a morte de minha mãe. Aí
parei de estudar, me envolvi em brigas e má companhia. Passei
também a beber e uma noite, entrei bêbada em casa, quebrei
tudo e desmaiei. Aí, no outro dia, acordei em um alojamento
minúsculo como uma cela que teria que dividir com mais cinco
garotas. Estava no reformatório que chamam eufemisticamente
de Internato Santa Gertrudes para moças.
____Hummm!
____Mas
isso passou!
Agnaldo
aproximou-se e a abraçou forte.
Ficaram
por uns minutos em silêncio, que foi rompido pelo rapaz.
____Mas
olhe pelo lado bom da coisa! Hoje você podia ser a enteada da
todo poderosa-heróica-espartana, L.S. S.
____Eu estaria frita!
____Não!
Ela me pareceu bem apegada com a cria dela...
____Na
verdade era a cria que grudou nela e não largava
mais... Já viu filhote de macaco agarrado na mãe?
____A
garota estava apavorada. Mas... voltando ao assunto inicial... pense
que talvez Louise esteja vendo em você... algo de Antonio Di
Angelis. O que reforça minha teoria de que ela não está
imune aos seus encantos...
____tá
maluco? Eu sou cópia da minha mãe...
____Mas
tem o temperamento do pai. E lembre-se minha cara, Aquilae non
geruntum columbas!(Águias não
geram pombas).
FIM
do "LEGADO DE NIX" - segue "DEVORADOR DE ALMAS"