LEGADO DE NIX (O legado da Noite) - parte 2

 

Capítulo 8: Operação Madrugada Vermelha

Vick sentia vontade de abandonar tudo ali mesmo. Seu emprego, sua carreira e a cidade.

Sentia o espírito alquebrado ao constatar que ao fim das contas estava só e aos poucos entrando em um beco sem saída. Precisava desesperadamente confiar em alguém. Mas quem?

______Sei quem mandou eliminar a equipe “Nêmesis”!

A afirmação da Delegada L. Souza e Silva, fez Vick se reanimar.
Seu desejo de acabar com tudo aquilo, custando o que custasse, a fez ficar alerta. Não dava para disfarçar seu interesse.

______O nome do indivíduo é Raul “Dourado” Leite. É conhecido pela alcunha “Dourado” pois tem a boca cheia de dentes de ouro.É um novo chefe que controla a “favela Grota do Adeus”. Organizou uma facção: os Vira-pó.

Aos poucos foram se organizando e agora chegaram ao ponto de desafiar a polícia.

______Mas... a favela Grota do Adeus era controlada pelo “Tadeu Tristonho”...

_____O Tadeu foi eliminado pelo Raul.

_____Mas o que tenho eu com isso?

_____Raul Dourado acredita que você é culpada da morte do seu irmão caçula .

_____Como?

_____Lembra do caso do “boy da rua três”?

_____um rapaz de 19 anos que peguei arrombando a casa de uma senhora idosa? O Mateusinho?

_____Sim!

_____Mas ele se enforcou na cela. Não tive culpa alguma nisso. Apenas o prendi porque estava violento devido ao delírio da droga.

_____O Raul acha que foi você quem mandou os outros presos enforcarem o irmão...

_____Um absurdo! Porque eu faria isso? Já havia feito meu trabalho.

Vick ainda não acreditava que tanta morte fora provocada por uma vingança pessoal de um novo chefe do crime organizado. Refletiu, rememorou os fatos, comparou e percebeu que havia sim um nexo, algo plausível naquela estória.

_____Como a senhora descobriu isso?

_____Antes de tomar posse, investiguei por meses o caso da “Nêmesis”. Precisava tomar “pé” da situação e saber onde estava me metendo e com quem.

_____Então sabia de tudo desde o princípio? E porque me pediu o relatório?

_____Como já disse! Preciso saber com quem estou tratando e as perguntas que formulei a você ainda me interessam saber. Vou ler seu relatório esta noite. Amanhã conversamos.Venha! O Helicóptero que vai nos tirar daqui em segurança está nos esperando no terraço.


O TRUQUE

Victória fechou-se em seu abrigo na serra. Recebera ordens para não aparecer na Delegacia até que a delegada a autorizasse.

Estava muito preocupada. Dera à chefe o relatório meticuloso que elaborara sobre o “Serial Killer” e não sobre a “equipe Nêmesis”. Tencionara ganhar tempo para se desembaraçar da marcação cerrada sobre si.
Um truque que geralmente dava certo pois como sempre aconteciam tantas coisas insólitas e súbitas na sua vida, ao fim, o que antes era tido como importante, acabava sendo deixado em segundo plano.

Mesmo assim, estava insegura. Temia a ira da Delegada quando esta percebesse que fora ludibriada. A L. Souza e Silva, a assustou pois demonstrara uma inteligência e astúcia acima do comum e Vick constatou que “vacilara” no seu estratagema porque estava acostumada com chefes indolentes e irresponsáveis , que na maioria das vezes não liam sequer o primeiro parágrafo do que escrevia. Tanto que sempre conseguia se desembaraçar deles sem muitas cobranças ou perguntas.

Caminhou descalça pela casa, tentando se desligar do trabalho e de seus problemas. O celular tocou. Atendeu sabendo se tratar de Liz.

_____Vick! Onde você está?

_____Estou no paraíso!

_____Como?

_____Morri em combate e uma “Valquíria” me transportou em seu cavalo branco para o “Valhalla”...

_____Não brinque! Estou assustada! O ataque a bomba de ontem foi audacioso demais. Estão demonstrando que não temem a polícia ou qualquer outra forma de lei...

_____é... infelizmente não há dúvidas que há policiais envolvidos...

Silêncio entre as duas.

Quando voltou a falar, Lizandra parecia outra mulher.

_____Di! Você desconfia de algum colega seu? Alguém que poderia ter interesse direto em te prejudicar?

_____Não! No momento não!

_____Precisa descobrir! ... Di... eu estou com medo! Quero te ver...

_____Eu ligo para você depois! Agora tenho que cuidar de algumas coisas...

_____Di! Prometa-me que não deixará que eles te peguem!

Victória engoliu em seco. Percebeu a angústia na voz de Liz.

_____Eu prometo que vou me cuidar. Ouviu o respirar ansioso da outra pelo celular. Quando esta falou, estava com a voz trêmula. Tinha dificuldades em articular palavra.

_____Sei que sou insegura e está sendo difícil para mim ter um envolvimento secreto com uma mulher... mas acredite! Há dias que sinto vontade de gritar para quem quiser ouvir que te amo e que você é a mulher da minha vida! – confessou-se.

A Policial emocionou-se mas ao mesmo tempo sentia uma espécie de revolta no peito.

_____Não posso te dar um filho! – interrompeu , amargamente.
A médica ficou silenciosa por um breve momento. Depois sussurrou:

_____Precisamos conversar sobre isso pessoalmente. Você vai me ouvir... quem sabe me entender!

____Outro dia! Eu te ligo e combinamos um local. Agora tenho que atender à porta porque chegou alguém.

Tentava despistar Liz, até poder digerir melhor tudo o que ela lhe dissera. Sentia-se magoada demais.

Não houve tempo de abrir a porta que dava acesso à sala do chalé pois esta foi aberta pelo caseiro que conduziu até o centro da sala, nada menos do que a própria Delegada titular.

Vick , que vinha descendo a escadaria, quase despencou degrau abaixo e acabou desligando o celular bruscamente, sem se despedir.

____Patroa! Esta senhora disse que é sua chefe e até mostrou o “emblema” dela. Disse também que tinha assunto urgente pra tratar.

Passado o choque inicial, Vick tratou de dispensar o empregado.

____Tudo bem! Pode nos deixar a sós!.O caseiro percebeu a mensagem. A patroa não queria ser interrompida.Saiu rapidamente para continuar tratando de seus afazeres.A Delegada mal esperou o homem se retirar e ergueu ameaçadoramente o pesado envelope pardo que continha o “Relatório” de Vick.

____O que significa isso?

Vick não se deixou intimidar.

____Bom! Pelo jeito, me enganei na entrega do relatório certo. O da “Nêmesis” deve estar na minha gaveta lá na delegacia.

O rosto muito branco da Delegada, enrubesceu. Percebera o engodo.

____Está tentando ganhar tempo!

____Talvez!

____Então sente-se e me explique tudo sobre este assassino serial!

O queixo de Vick quase caiu. A chefe lhe mandara “sentar-se” em sua própria casa e além de tudo, ao invés da explosão de ira esperada, inquire sobre o matador serial?

____Vamos, Di Angelis! Não temos o dia todo!

Victória sentou-se.

____O que deseja saber?

____Quando ele matará novamente?

____No próximo Sabath...____E porque faz isso?

____Pelo mesmo motivo que seriais killers matam. Precisam aplacar uma espécie de sede e matam de forma como a realizar um ritual.Na mente anormal deles, existe sempre um motivo que justifique seus atos.

____Desde quando este assassino atua?

____Pelos recortes aqui, ele já atua há um bom tempo... talvez 3 anos. Só não foi detectado pois escolhe suas vítimas entre jovens que usam a cocaína e lhes provoca um ataque cardíaco que acaba sendo diagnosticado como “overdose”.

A Delegada sentou-se finalmente e fixou seus olhos atentos em Vick.

____Porque o chama de “O Legado de Nix”?

____Bem! Em alguns corpos, haviam tatuagens, estas permanentes onde certo símbolo se repetia. O cálice e as estrelas.

A moça que me entregou boa parte do Dossiê descobriu que este é o símbolo da Deusa Mitológica que representa a noite.”Nix” gerou vários filhos. Os primeiros com seu esposo, Érebos, e dessa união nasceram Éter e Hemera, as primeiras entidades luminosas de um mundo até então totalmente escuro.

Depois da breve união com Érebo, Nix desdobrou-se espontaneamente e gerou outras divindades. As mais importantes foram as Hespérides, as Meras e os gêmeos, Hipnos e Tânatus. Destes gêmeos, um representa o sono e o outro, a morte.

____Então o Legado de Nix é Tânatus?

____Sim! O matador decerto acredita que é o próprio filho da Noite, o que pode dispor da vida das pessoas. Por isso que em alguns casos deixou o símbolo de Nix.

Era visível o interesse da Delegada e a cada passo, e explicação, seus olhos brilhavam.

____O serial killer arquiteta um ritual em sua mente. O Legado de Nix, mata “semeando” e deixa pistas sutis pois no fundo quer que a humanidade descubra sua façanha. Acreditam serem predestinados a uma missão. Possuem inteligência e meticulosidade fora da média e podem ser vistos na rua sem levantar suspeitas pois na maioria são pessoas de boa aparência e socialmente bem articulados.

____e quanto ao biótipo?

____Em noventa por cento dos casos ou mais, o matador é do sexo masculino e suas vítimas preferenciais: as mulheres. A média é de brancos, entre vinte e um a trinta e cinco anos e começam a agir de noite para o dia sem motivo aparente. É como se aquele vizinho que conhecemos há mais de dez anos, dormisse um dia um cidadão comum e no outro começasse a cozinhar criancinhas em um caldeirão.

_____Isso é assustador! Esse criminoso precisa ser detido! - indignou-se a Delegada. Precisamos bota-lo atrás das grades antes que volte a matar!Vick animou-se com o plural utilizado pela chefe que aparentava estar muito impressionada com seu dossiê.

_____Mas antes temos que nos livrar dos assassinos da Nêmesis” ... mesmo porque se não o fizermos, eles é que irão se livrar de nós e o tempo está se esgotando...

_____Tem algum plano em mente? – perguntou Victória.

_____Sim e preciso poder contar com você, mas antes quero que prometa não fazer nada sem minhas ordens...

_____Bom! Posso tentar.

_____Então aproxime-se e veja!

A L. Souza retirou de uma pasta um esboço de um mapa. Nele estavam desenhados a favela “Grota do Adeus” .

_____Ao contrário dos morros, o Império do Raul Dourado é uma grande grota cercada por paredes rochosas íngremes, onde se situa a favela. Todos sabem que ele é o segundo homem deste Estado na frente do narcotráfico, contrabando de armas e crime organizado.
O primeiro homem é o João “Proverbial”, apelido dado porque sempre cita um provérbio quando defende suas idéias, por mais absurdas que sejam. A verdade é que o Raul quer ser o primeiro e João é o empecilho.

Existe um plano arquitetado por Raul para invadir o morro “ Fura-couro” e liquidar com o rival. Antes porém ele encomendou à peso de muito “Pó” , um verdadeiro arsenal de armas pesadas e modernas. Vai equipar seus homens para derrubar o João. O carregamento chega amanhã à noite na “Grota do Adeus”.

_____Então atacamos?

A Delegada olhou Vick com incredulidade.

_____Está lendo muita revista de super-herói, Policial? Na vida real as coisas ocorrem de outra forma e muitas vezes diversa à nossa vontade. Não temos homens nem armas que possam hoje, invadir com sucesso a “Grota do Adeus”. Raul receberá as armas e atacará João. Uma breve pausa em seu plano de vingança contra nós. Depois voltará sua atenção e poder redobrado para o Distrito Policial.

Quando tiver êxito, mostrará ao município quem é que dá as cartas na região e precisamos detê-lo. Matar a serpente no ninho.

_____E como faremos isso?

_____Os criminosos são pessoas sem qualquer escrúpulos. Esse é nosso trunfo. Eles não possuem em quem confiar além da força do seu dinheiro sujo. A traição e falsidade é moeda corrente e basta “inserir” uma informação de que “um” quer “liquidar” o outro à traição e este vai cuidar de fazer o serviço antes.

Portanto já tratei de fazer chegar até João, a informação verdadeira sobre os planos de Raul, inclusive data e provas do carregamento de armas. O que você faria se fosse João?

_____Eu verificaria se tinha algo de verdade na informação e me anteciparia ao meu inimigo! Daria o troco e no efeito surpresa!

_____Certo! Então algo me diz que vai haver uma guerra na “Grota do Adeus” amanhã!

_____Sim! Brilhante isso! Mas... o Raul pode vencer e permaneceremos em risco do mesmo jeito!

_____Já pensei nisso. E é aí que entramos. Veja... essas são as únicas entradas e saídas da Grota. Estaremos lá sim e esperaremos a guerra se iniciar. Quem vencer... mesmo assim, estará muito enfraquecido, com muitos homens mortos e feridos. Aí entramos no ninho da serpente e passaremos tudo no “pente fino” sem dar tempo de que se reorganizem ou descansem. Vê esse rádio transmissor? Através dele, um grupo de policiais escolhidos a dedo já estão aguardando minhas ordens. Consegui o apoio do alto comando da polícia. É o nome da instituição e a segurança das pessoas comuns nas ruas que está em risco. Se vencermos, mostraremos para a sociedade que o crime está sob controle e para os criminosos daremos uma lição de que não poderão desafiar a polícia.

_____E se falharmos?

_____Se falharmos: Xeque mate!

Vick sentiu-se arrepiar. Percebeu que se os planos da Delegada não surtissem o efeito esperado, teria que fugir da cidade, estado ou mesmo do país.

Sabia que o desejo de vingança do criminoso não se aplacaria até que fosse consumado com seu sangue. Imaginou-se viajando clandestina, com Sir Lancelot no colo, para uma cidade além do deserto do Saara. Ou seria melhor Timbuktu?

_____Posso contar contigo? - indagou a Delegada.

_____Pode... aliás... é um plano muito inteligente. Brilhante mesmo!

A Delegada preparou-se para se retirar e estendeu-lhe o rádio transmissor.

_____Tome! Fique com este! Preciso ter meios de me comunicar contigo a qualquer hora e lugar. Não se separe dele.

_____Ok!

_____Ah! Preciso ir e terminar os últimos preparativos para a “Missão Madrugada Vermelha”, portanto preciso que me faça um favor particular.

_____Sim?

_____Aqui está o endereço. Quero que intercepte minha filha na escola e a mantenha ao seu lado até que eu entre em contato novamente. Recebi informação à pouco que pretendem seqüestra-la na porta do colégio.

O pedaço de papel tinha o endereço do local e a foto de uma garota esguia de longos cabelos negros muito lisos.

_____Ela sai daqui há 4 horas. Acha que consegue chegar a tempo?

_____Com folga! Minha moto é muito potente!

_____Ok! Então mais tarde entrarei em contato.

Saiu sem se despedir e bateu a porta.

Vick correu escada acima para apanhar sua jaqueta de couro e a mochila. Estava excitada com o fato de ter sido inserida nos planos da Delegada e ainda gozar de sua confiança o suficiente para que esta lhe confiasse a guarda de sua filha adolescente.

Olhou novamente a foto.

______Me parece tão suave e frágil.
Diferente da mãe que é a fortaleza fria e calculista. Decerto puxou ao pai. Vai ser mais fácil do que andar pra frente.

Acelerou a moto, sentindo a adrenalina correr em suas veias

Capítulo 9: A Tua Vaidade te Condena


Adiantou-se, entrou no colégio - um bom e tradicional colégio por sinal - e retirou Julia Souza e Silva ainda no meio do período.
Mostrou seu emblema para a professora e escoltou a garota até a calçada sem problemas com a coordenação.
Não queria correr o risco de ser surpreendida por um bando de homens armados.

O problema surgiu quando ofereceu um capacete sobressalente para a garota montar na garupa de sua moto.

______Não uso isso aí... vai amassar meu cabelo.

A adolescente em nada se parecia com a Delegada, exceto pelos cabelos negros e olhos azuis. Suas feições eram finas e demonstravam fragilidade, mas na verdade revelou-se de um temperamento azedo e implicante.

______Você é quem sabe! Se não subir agora e colocar esse capacete, um certo bando de homens muito fedidos e peludos virão para te buscar.

A garota colocou o capacete e subiu na moto resmungando.Na rua, aconchegou-se à Victória e pediu:

_____Para em uma lanchonete que estou com fome!

Vick dirigiu-se até uma espécie de lanchonete em um bairro pacato ha uns 8 km do centro da cidade.
Sentaram-se em uma mesa onde uma parede as ocultava da rua e ainda quebrava o vento frio da tarde. A garota pediu um sanduíche do tamanho de um côco da Bahia.
Vick lembrou-se de sua adolescência e de seu estômago de avestruz, insaciável.

Sentou-se como de costume com as costas sempre voltadas para a parede onde ninguém poderia surpreende-la e defronte para a entrada do estabelecimento. Seus óculos escuros, tipo espelhado, ela os colocou na mesa. Por ali veria quem se aproximasse pelo canto esquerdo.
O canto direito era fechado por outra parede. Pediu um guaraná.

_____Ah! E eu quero uma cerveja! – encomendou Júlia para a garçonete.

_____Nada de cerveja, mocinha! – barrou Vick.

_____Ruuunffff! Vocês criadinhos de mamãe sempre com essa mania de ficar nos policiando. Das outras vezes pelo menos, ela mandava uns gatinhos lá do DP para me cuidar. Agora estamos decadente. Vou reclamar para ela!

Vick pensava em Lizandra e procurava ignorar o papinho “non sense” daquela criatura inacabada.
Pensou duas vezes em ligar para Liz. Na última vez que conversaram não lhe havia dado muita atenção diante da situação apertada em que estava se metendo.

_____E vou dizer mais! Eu uso drogas sim! Fumo um baseado e ainda bebo pra caramba! Esse papo de que maconha vicia e faz mal, é coisa de “véio coróca”...

Victória não acreditou no que a garota estava afirmando. Pegara o assunto pela metade pois não estivera prestando lá muita atenção.

_____O quê?

_____Isso aí que você ouviu! E não precisa fazer essa cara de “Tira escandalizada” .

Dona Louise desconfia, mas não tem certeza... e não adianta contar para ela... eu desminto tudo!

_____Dona Louise?

_____Sim! A “poderosa-valente-incorruptível-valorosa-Delegada”, sua chefe...

A Policial teve vontade de dar uns sopapos naquela pirralha, mas se conteve. Não ia entrar no jogo dela.

Um homem vestindo jaqueta jeans entrou no lugar e procurou o freezer horizontal e retirou dali quatro sorvetes de palito. Seu modo de andar, gingado, chamou a atenção de Vick.Foi até o balcão e retirou uma cédula de 50 reais do bolso para pagar a despesa.

_____Não tem trocado moço? – perguntou a jovem balconista.

_____Não, princesa! Tô sem troco!

_____Tá bom... vai levar só os picolés?

_____Só!

A moça abriu o caixa e contou cédula à cédula do troco e entregou ao cliente. Depois guardou a de 50 reais.

Vick levantou-se enquanto o rapaz embolsava o troco. Júlia abriu a boca para falar algo, mas a policial lhe lançou um olhar furioso e ameaçou baixinho.

_____Fica sentada. Não se mova. Se sair um milímetro do lugar eu lhe torço esse pescoço fino!

A cara que a garota fez, mostrou que a ameaça produzira efeito.
Vick avançou sobre o rapaz e apalpou-lhe rapidamente a cintura. Estava desarmado.

_____O que é isso, gata? – perguntou o homem, sorrindo...

_____Encosta na parede e não se mova. É a polícia...

_____Tá maluca? Eu to limpo!...

_____é o que veremos!Algemou o rapaz com os punhos para trás, enquanto o revistava.

_____Vou te processar! Moça!

A balconista e outras pessoas se aproximaram.

_____Pegue a nota de 50 que ele te entregou! – pediu Vick.

A garota apanhou a cédula. O dono do local chegou apressado.

_____O senhor sabe distinguir uma nota falsa de uma verdadeira? – perguntou Vick para o recém-chegado.

_____Ah! Sei sim... já me deparei com algumas de excelente qualidade mas se olhar com cuidado dá pra ver...

_____Avalie esta!

O Homem olhou contra a luz, tateou e por fim constatou:

_____é falsa... mas muito bem feita...

Vick neste instante encontrou dentro da meia do indivíduo que detêra, mais cédulas de 50 reais falsificadas.

_____O senhor está sendo detido por tentar introduzir moeda falsa em circulação.Letícia aproximou-se admirada.

_____Como desconfiou?

_____Em um dia frio... comprando sorvetes... agasalhado... e ainda pagando despesa de cinco reais com uma cédula de cinqüenta?

_____E o que há de errado nisso?

_____Errado? Nada. Suspeito sim!. Quem tem uma cédula falsa... quer transforma-la em cédulas autênticas e por isso sempre procuram receber o máximo possível de troco.Daí é só sair e gastar à vontade sem medo de ser pego. Ele deve ter esperado que o dono do estabelecimento, muito mais experiente saísse e deixasse o caixa com a jovem balconista.

Júlia abriu a boca...

_____Você é inteligente! Quase como “Dona Louise”... mas como a “chefe” não tem ninguém que se compare... ela é a melhor...

Vick ligou para a Delegacia e pediu para que providenciarem a busca do sujeito que acabara de prender.

Estava atenta ao rádio transmissor. A Louise Souza e Silva poderia contatar à qualquer momento. Não via a hora de se livrar daquela “pentelha” de olhos azuis.

_____Diz aí pra mandarem um carro bom e macio... não vou mais andar de moto... estou congelando...

_____Fica quietinha, sim? É primavera! Sorria... só faz frio um pouquinho à noite... nada que justifique esse chilique infantil...

Júlia cruzou os braços e armou o “bico”. Em minutos uma viatura parou em frente ao local. Victória sentiu-se gelar ao ver quem viera até ali. Os seus olhos cruzaram-se com os de Henrique Duarte.

Nos dele havia uma frieza que parecia ocultar o mais puro ódio burbulhante.

_____Ah! Nossa heroína Justiceira apanhou um falsário, é? Parabéns!

Duarte mostrou os dentes. Seu riso parecia o esgar de uma fera pronta a dar o bote.Vick não respondeu. Duarte apanhou o rapaz algemado pela gola e o lançou dentro do camburão como se fosse uma pluma. Era um homem alto e muito forte, além de muito bonito. Vick tentava disfarçar seu ciúmes.

_____Opa! Olha quem ta aí... a “cria” da chefa ? Virou babá de aborrescente? A famosa “Asa Negra” está decadente mesmo!

Júlia que antes tinha se animado toda com o aparecimento do policial bonitão, agora fechou mais a cara.
Vick preparou-se para pagar a conta e já ia saindo, levando a garota pelo pulso, quando ouviu Duarte falando alto ao celular.

_____Lizandra! Daqui há 15 minutos passo para te pegar!...não interessa!... eu quero ir agora. sai daí, dá uma desculpa qualquer!... Quero começar a “transa” cedinho hoje... estou com o maior gás. Não. Eu não aceito não como resposta! ... quem dá as cartas sou eu, lembra?. Fique pronta ! Já estou à caminho. Tomo um banho na sua casa!.

Vick quase teve um ataque epilético. Ficou petrificada na calçada sem acreditar no que acabara de ouvir. Só podia ser blefe do Duarte, pensou.

O colega entrou na viatura e saiu cantando os pneus, com um sorriso maldoso.

_____O que foi, ô? Tá branca que nem um papel. – Julia olhava-a, subitamente interessada.

____Quero ir para minha casa. – exigiu.Victória fez sinal para ela se calar e discou o número do celular de Lizandra.

_____Liz... o Duarte estava aqui e fez que te ligou... disse que vocês vão ficar juntos essa noite... é verdade?

_____Vick... procure entender... eu preciso conversar com você... mas agora não posso...

_____Diz que é mentira! Liz. – Vick gritou, desesperada.O silêncio de Lizandra foi mais eloqüente do que uma dúzia de palavras.Desligou.

Não conseguiu conter as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto.Júlia a olhava assustada. O rádio transmissor emitiu vários bips. Vick procurou se recompor.

_____Está com Júlia? – a voz fria e cortante da Delegada restaurou-lhe um pouco da atenção.

_____Sim! Ela está comigo...

_____Então leve-a para sua chácara. Estará segura lá. Torno a contactar mais tarde.

Vick não contestou a ordem da chefa, mesmo detestando levar aquela “moleca” revoltada para seu ninho secreto de paz.

_____Vamos! - chamou a garota que obedeceu silenciosa pois percebeu que era mais prudente não contrariar a policial.


CILADA


Ainda estavam no perímetro urbano e a tarde caia, quando Vick percebeu que um carro as seguia. Acelerou a motocicleta mas o carro era potente e já estava encostando, ameaçando abalroa-las.
Subiu no canteiro e passou a pilotar pela calçada enquanto Júlia dava gritinhos animados, adorando a aventura.

_____Cala essa boca e se segura! – mandou enraivecida.

Por fim pensou que conseguira se livrar do veículo suspeito quando outro as apanha de cheio pela traseira.

O impacto fez com que a moto empinasse e a roda dianteira girasse livre no ar enquanto o motor roncava agoniado. Vick tentou controlar o veículo mas assustou-se ao perceber que Letícia havia caído há metros atrás.
Parou a motocicleta e tentou correr até onde estava a moça.
Viu , horrorizada o primeiro carro que as perseguira, parar e braços fortes içarem a moça como uma boneca para o interior do veículo que saiu fugindo em disparada.

Pensou em voltar e apanhar a motocicleta, mas o segundo carro a cercou, acompanhado por mais duas motos. As portas se abriram e ela foi arrastada para seu interior e imobilizada no banco de trás. Percebeu que no carro haviam três homens. Dois no banco da frente e um, muito forte no branco de trás, que a mantinha deitada no soalho, prendendo sua cabeça com uma mão, enquanto outra lhe revistava o corpo em busca de sua arma. Encontrou a pistola glock oculta na cintura da policial. Retirou a arma e riu...

_____Uma boa arma... coisa de primeira... vou ficar com ela. Não vai mais te servir nesta vida!

Um dos homens do banco da frente falava ao celular.

_____Nós pegamos as duas pombinhas, chefe!. O informante táva certo! O que faremos agora? ...Ah! O senhor quer tratar dela pessoalmente? Ta... deixa que “a gente tamos” levando ela aí...

A Adrenalina jorrava intensamente no sangue de Vick. Seu cérebro e metabolismo aceleraram e ela agiu instintivamente. Sacou o revólver calibre 38, cinco tiros que sempre trazia preso ao tornozelo. Aprendera a andar com a pistola e o revólver. Era um truque que o Araújo lhe ensinara e que um dia disse que poderia salvar-lhe a vida.
Na verdade, serviria para que se a pistola “negasse” fogo, não ficasse na mão.

Agora a servia de outra maneira. Um tiro de baixo para cima atingiu a base do crânio do homem que a imobilizava. Outro tiro na nuca do homem ao lado do carona. Outro na altura do coração do motorista e o carro começou a deslizar sem controle.
Bateu em um poste e Vick pulou pela janela quebrada e fugiu na noite sem perceber onde estava ou para onde ia. Correu até perder o fôlego.
Não sabia quanto tempo se passara até então. Só aí percebeu que estava em uma espécie de bairro pobre, não muito distante da Favela “Grota do Adeus”.

Sentou-se no meio-fio. Estava exausta, tanto fisicamente quanto emocionalmente. O reboar dos tiros ainda a mantinham semi-surda, quando ouviu as sirenes e não soube identificar se eram de ambulância, dos bombeiros ou da própria polícia.
Uma viatura parou à sua frente. Levantou-se arisca.

_____Calma... entre aí! A voz da Delegada fez seu coração quase em colapso, desacelerar um pouco.

_____Entre!

Dentro do carro, Um policial dirigia e as duas se mantiveram sentadas no banco traseiro.

_____Conte-me tudo o que aconteceu! Encontramos os três homens que você matou! Vai precisar de um advogado. Sempre há um juiz que pode achar que um tiro na nuca e outro nas costas desclassifica a “legítima defesa”... mas não se preocupe, isso nós resolveremos.
Conheço um bom amigo que é um grande e experiente advogado. Ele vai tratar de tudo.

Vick tremia.
Nunca em sua carreira, matara alguém. Pelo menos diretamente. Nem nos tiroteios chegara a ferir mortalmente um bandido.

_____Tenha calma. É sempre um trauma matar alguém, mas você sabe que fez para se defender.

A voz da delegada agora soava grave e compassadamente, produzindo o efeito desejado e Victória conseguiu relaxar um pouco, pelo menos para contar todo o ocorrido até então.

_____Eles estão com Júlia e alguém que nos viu, nos entregou...

O rosto da L. Souza e Silva endureceu-se em um esgar de ira, como o de uma leoa a quem lhe haviam roubado a cria.

Respirou profundamente, como se para voltar à calma e perguntou.

_____Desconfia de alguém da polícia? Alguém as viu na rua?

Uma série de imagens desfilou no cérebro da policial. Lembrou-se finalmente do que lhe fizera soar o alarme quando observou a garagem da delegacia.
O carro esporte de Henrique Duarte, apesar do colega estar de plantão naquele dia, não estava em sua vaga costumeira. Aliás. Não estava naquele piso, nem no outro e ela sabia que o moço não se separava do carro.

Entendeu que fora ele quem montara as bombas e não quis danificar seu adorado veículo com os estilhaços do artefato.

A vaidade dele o condenou.

Não havia mais dúvidas. Tudo se encaixava com perfeição e ela relatou sua suspeita para a chefe.

_____Foi ele quem nos viu na lanchonete. Certamente avisou ao bando do Raul. Ouvi quando disseram que “o informante” estava certo. Eles iam me levar até o chefe e este certamente acabaria comigo.

A delegada ouvia a tudo, atentamente.
A certo ponto, o carro parou e elas saíram e trocaram de carro.
Agora estavam só as duas e Louise dirigia. Rodaram por duas horas até que entraram em uma espécie de condomínio fechado em uma pequena cidade das redondezas.
Era uma chácara de bom tamanho, muito bonita e requintada.A delegada foi em frente, chamando pelos cachorros e os prendendo no canil.

Entraram na casa. Uma estrutura de tijolo, estilo inglês.

_____Estaremos a sós e seguras aqui até o momento de agir – Disse a chefe enquanto servia para Vick um delicioso conhaque grego, o Metaxa.

_____Beba! Vai reanima-la e lhe fará bem para os nervos. Sua pele está fria. Mais um pouco você entrava em choque! Vou providenciar roupas limpas e uma toalha para seu banho.
Saiu.
Vick desabou no macio divã. Havia lareiras e é claro, o ambiente portanto se tornava muito acolhedor, quase um útero materno. Para utilizar o termo mais correto.
Louise apagou as luzes e acendeu velas.

_____Ajuda a relaxar.

Mesmo sendo “fraca” para bebidas, a policial apreciou muito o conhaque. Tanto que serviu-se mais algumas vezes. Começou a sentir um calor crescente, irradiando do seu umbigo para todo o corpo. A garganta secou e ela decidiu parar de beber aquele líquido ambarino.
Quando Louise voltou, encontrou Vick olhando atentamente uma série de retratos dispostos acima da lareira.

_____É sua filha?

_____sim! Em várias fases de sua vida. Aqui ela tinha começado a engatinhar. Esta é quando andou pela primeira vez. Este é quando fez o catecismo...

_____E este é seu marido?

_____Sim!
A resposta seca, estancou o desejo de perguntar de Vick.

Momentaneamente instalou-se um silêncio sepulcral entre as duas.

Louise como sempre, rompeu o embaraço e mandou:

_____Suba a escada e encontrará um banheiro. Fique somente o tempo que for necessário. Depois desça e estarei te esperando.

Vick obedeceu à Delegada como uma menina crescida. Não estava preocupada no momento com o modo autoritário de Louise.
Não conseguia se preocupar com muita coisa além da lembrança incessante de que Liz poderia estar naquele momento, servindo com seu corpo àquele traidor e mau caráter do Henrique Duarte.
No piso superior encontrou uma banheira com água morna. Uma espécie de “ofurô” delicioso.
Entrou e sentiu seus músculos relaxando aos poucos, como cordas de arco tensas depois da batalha.
Saiu e se enxugou.
Depois vestiu a camiseta e a calça de malha que recebera e desceu.
Na sala, encontrou Louise com os cabelos soltos e no corpo um diáfano vestido de algodão com corte reto que lhe alcançava até os tornozelos nus.
Havia também tomado um banho e sua pele estava brilhante e perfumada. Bebia o conhaque, distraidamente, sentada em uma almofada ao chão, enquanto consultava sua agenda.

Pela primeira vez, Victória sentiu que trabalhava para uma mulher “de verdade” e não para um coronel de saias, como sempre lhe parecera. Porém procurou manter a prudência e não baixar a guarda.

Os cabelos Negros de Louise não eram muito longos como parecera na primeira vez que a vira. Tinha corte estilo chanell, fios retos e lisos, três dedos abaixo do queixo.

Havia ainda uma franja e todo o conjunto lhe emprestava um certo ar “francês”. Os braços alvos e lisos, denunciavam uma musculatura firme e bem definida, porém alongada, tal como o das bailarinas.
Sim... ela poderia se passar por uma bailaria ou “Etoìle” do Teatro Municipal de Paris.
A fantasia se dissipou, quando a “Anna Pavlova” sacou de algum canto oculto da sala, o mapa da Favela “Grota do Adeus” e de seu transmissor passou a ditar ordens aos quatro ventos.
Enquanto falava ao aparelho, riscava e fazia esboços no papel.
Vick tentava acompanhar a linha do raciocínio poderoso da chefe, mas sentia-se no momento como um calhambeque seguindo uma Ferrari.
Desligou o aparelho e saiu da sala rapidamente. Voltou com uma bandeja onde haviam dois pratos com um ravióli fumegante.

_____Não se impressione! Eu a mandei trazer de uma cantina italiana! – cortou a Delegada ao ver os olhos de Vick se expandirem.

____Coma!. Ajuda a se situar no mundo dos viventes. Está muito pálida ainda.

Victória não se fez de rogada. Serviu-se do seu prato e continuou a bebericar o conhaque. O trauma que sofrera lhe fazia as mãos tremerem e ela tentava disfarçar sua situação precária e não compreendia como Louise se alimentava impassivelmente, sabendo que sua filha única estava em poder de seqüestradores cruéis.

_____Nós vamos conseguir livra-la do Raul. - Vick afirmou timidamente, perscrutando o rosto da Delegada em busca de um leve sinal que lhe denunciasse o sofrimento.

_____Não quero falar sobre isso agora. Coma e deixe os delírios para quando se deitar.Vick terminou seu prato.

Sentia-se muito melhor e a imagem de Lizandra, talvez pelo efeito da bebida, talvez pela sua intensa tristeza, lhe desfilava agora em sua mente. Podia vê-la sendo “tomada” pelo Duarte.Corou e Louise percebeu sua perturbação.Olhou-a como se curiosa e esboçou um gesto que foi interrompido pelo toque do celular de Vick.

A policial nem se lembrava que ainda tinha um celular, mas este ficara muito bem encaixado em seu cinto e agora estava disposto junto com sua roupa suja e rota que usara. Levantou-se e o atendeu.

_____Vick... é Liz... onde você está?

Desligou.

Não dispunha de estrutura emocional no momento para conversar com Liz.Louise enrugou a testa e tomou o aparelho das mãos da policial.

_____Nada de celular aqui! Regra número 1.

Vick obedeceu e voltou a sentar-se no chão sobre o tapete, em torno da pequena mesa de centro onde se servira e fitou seus olhos inquisitivos em Louise. Sentia que cada gesto seu ou mesmo movimento estava sendo criteriosamente observado e analisado.

_____Seu pai, Antonio di Angelis, é um empresário inteligente e agressivo...

O comentário da Delegada, pegou Victória de surpresa. Não esperava que Louise conhecesse tanto de sua vida familiar.

_____Dizem que ele é uma dos melhores executivos de sua geração! – respondeu Vick, tentando manter o tom informal da conversa.

Uma música suave, invadiu o ambiente. As melodias apaixonadas de uma obra de Chopin...

Louise sentou-se em uma confortável poltrona de espaldar alto e fechou os olhos, visivelmente inebriada pela música. Vick, mesmo contrariada, teve que admitir que à sua frente havia uma mulher que sabia ser sensual e sedutora. Ali, até seus gestos, antes tão rígidos e tensos, eram harmônicos e graciosamente femininos.

_____Aurora era o nome da mulher que inspirou essa obra! comentou por fim, a policial, a quem a obra do músico austríaco atingiu em cheio o coração apaixonado e triste.

Louise abriu os olhos e completou:

_____Aurore De Dudevant...

Levantou-se e aproximou-se de onde Vick estava sentada, tocando-lhe suavemente a face ao perceber as lágrimas represadas em seus olhos.

_____Conhece como foram feitas as famosas espadas dos samurais? – perguntou.

_____Não! Já li um pouco sobre elas, mas não sei muita coisa.

Louise levantou-se e subiu as escadas. Voltou com uma bela espada nas mãos.

_____Esta é uma peça rara. Comprei-a em um leilão na Inglaterra. Pertenceu a um bravo samurai que serviu ao último Xogum da Dinastia Tang. Veja a lâmina... é capaz de ferir uma rocha. Sabe porque?

_____Não! Não faço a menor idéia!

_____Pela forma como foi forjada. O mestre ferreiro a submeteu ao fogo, para que se livrasse das impurezas e pudesse ser forjada. Submeteu-a depois a milhares de fortes marteladas, para que cada molécula fosse se comprimindo até ter a massa mais rija do que a rocha.
E assim a espada foi feita: o fogo, o martelo e a água... que também era utilizada para uma espécie de choque térmico que empresta têmpera ao aço...

Victória entendeu perfeitamente a razão daquela explicação quase enciclopédica sobre a espada do samurai: Grandes homens e mulheres são forjados no fogo-sofrimento, no martelo-experiências e entre um e outro, a água-alento, molda a têmpera de seu caráter.

A policial tocou a lâmina, reverente...

_____Pegue-a!... sinta-a em suas mãos...O toque no metal, fez uma energia deliciosa fluir para seu corpo alquebrado.

_____Você poderia estar morta, nesse momento! - interrompeu, Louise!

_____Eram três homens de coração duro e mau. Tinham ordens de leva-la até Raul e ele certamente iria finalmente levar a cabo sua desejada vingança.

Uma breve pausa e os olhos das duas mulheres se cruzaram e fitaram-se intensamente.

_____Mas aí está você, ilesa fisicamente, apesar do trauma emocional sofrido!.

A Delegada serviu-se do conhaque e continuou:

_____Meu colega, a quem substitui no Oitavo Distrito, havia me dito sobre sua fama de ter “sete vidas”... Agora entendo o porquê. Talvez você ainda tenha muito o que realizar nesta vida... Talvez. Já vi policiais valorosos e inteligentes, morrerem em situações totalmente absurdas e insólitas, como ir na esquina comprar pão e se depararem com um assalto, ou mesmo levar um corte na jugular, feito por um caco de garrafa nas mãos de um menino de seis anos...

_____É a violência urbana! – comentou Vick enquanto manuseava a espada e tentava acompanhar o raciocínio de Louise. Sabia que poderia ter morrido em inúmeras oportunidades, mas de um modo ou outro, que ela jamais poderia explicar, escapara. Quem sabe a Delegada tivesse razão.
Quem sabe ela estava sendo poupada para algum “grand finale”... um grande momento.Como se lesse o pensamento da policial, Louise afirmou:

_____”O Grande Momento” de nossas vidas poderá ser amanhã...Já pensou nisso? Já pensou que esta pode ser sua última noite aqui, nessa esfera ou dimensão?

_____Nã, não! Eu prefiro nem pensar nisso! Gosto de pensar que sou mais esperta do que a Dona Morte!

_____É natural!. – concluiu Louise, voltando a sentar-se na poltrona, cerrando os olhos para apreciar a música.

Vick a olhou admirada. Estava impressionada com sua coragem e a clareza como encarava a vida, o momento, o destino e até a possibilidade da morte. Queria ter toda aquela coragem em face do imponderável...mas seria exigir demais de seu coração jovem e aventureiro que por vezes até acreditava ser imortal.

O rádio transmissor da Delegada soou e ela o atendeu prontamente. Saiu da sala para o varandado, onde pudesse conversar com seus homens sem que Victória a ouvisse. Voltou para o interior da sala, muito séria e o rosto novamente endurecido.

_____ há algumas horas, mandei que detivessem o policial Henrique Duarte para algumas averiguações, diante dos graves indícios contra ele...

Victória levantou-se de um salto, ansiosa pela notícia.

_____Ele foi pego? Onde estava?

_____Estava na casa da namorada...A Doutora Lizandra, uma das legistas que trabalham no Instituto Médico local. Você deve conhece-la...

_____Sim! Eu a conheço! – exclamou Vick, em um gemido.

_____Henrique Duarte escapou do cerco!

_____Como?

_____Usou a namorada como refém e fugiu...

Vick cerrou os punhos, quase fora de si.

_____Eu não acredito! Não posso acreditar...Ele usou Liz como refém? Vou mata-lo...Louise parecia não entender a razão do desespero de Victória e ficou em pé, atônita.

_____Ele a levou consigo? Para onde a teria levado?

_____Presumo que procurará refúgio, pelo menos por alguns dias ou uma noite, lá na Grota do Adeus...

_____Mon Dieu! Mon Dieu! Ele levou Liz para o inferno? Isso não pode estar acontecendo... acho que eu morri e estou vivendo um pesadelo... só pode ser isso! Se algo acontecer com Lizandra eu não vou suportar...Louise adiantou-se e a abraçou forte, enquanto ela lhe molhava os ombros com suas lágrimas.

_____Você não entende! eu a amava... eu a amava como nunca havia conseguido amar alguém em minha vida!

Louise nada respondeu naquele momento e esperou que ela aos poucos se acalmasse. Depois convidou:

_____Venha, criança!.. vou lhe mostrar seu quarto. Dormir lhe fará bem. Amanhã será outro dia e precisará dispor de toda sua energia e juventude para a ação.
Posso precisar contar com você!


Capítulo 10:

"Age quod agis"


latim: Faze o que fazes.
Podendo significar ainda: “Presta atenção no que fazes; concentra-te na tua missão”.


Naquele sonho, Vick apertava Lizandra em seus braços enquanto se amavam e ao mesmo tempo, lutavam. Mordeu-lhe os lábios com ânsia até que vertessem sangue. Depois a agarrou pelos macios cabelos loiros e a trouxe próximo de si.

_____Porque? Porquê você fez isso comigo! O que fiz para merecer isso?

Ainda estava presa a Liz, quando a morte se personificou à sua frente.
Em suas mãos descarnadas ela ostentava duas esferas de luz. Uma azul, outra lilás.


_____Este será o seu amanhã! Escolha entre a sua vida ou a dela. – determinou o terrível espectro.


Vick entendeu rapidamente que as esferas de luz representavam sua vida e a de Liz.

De um lugar misterioso, no espaço sem nitidez de seu sonho, sacou a longa e terrível espada dos samurais.

_____E porque não você? – disse , enquanto partia em ataque àquele esqueleto encapuzado e o transformava em pequenos pedaços de osso e tecido, com a poderosa “* katana”.(*espada japonesa).


Acordou ensopada de suor e ofegante.
Saltou da cama aliviada de que tudo não tivesse passado de um sonho ruim. Olhou seu corpo nu através do enorme espelho preso à parede.
Via ali uma mulher jovem e bonita com longos cabelos negros ondulados e volumosos . O corpo, alongado e de musculatura firme fora esculpido pela rotina espartana do tempo em sua adolescência, em que praticara ginástica olímpica.

Vestiu-se e desceu as escadas. Encontrou Louise na sala, com uma xícara de café na mão e os olhos presos em algum ponto do mapa que ainda estudava.

Estava vestida em um uniforme chumbo escuro, com cinturão onde se prendiam pistola, revólver e munições. Nos bolsos da perna haviam suporte para outra arma, coldre de coxa, rádio transmissor, punhal e GPS. Nas mãos, luvas de dedo e nos pés, um par de “boots” de cano longo e couro macio.

Vick aproximou-se da mesa, onde estavam ainda, dois capacetes de polímero preto fosco com viseira, coletes à prova de bala e um uniforme cuidadosamente dobrado.

Enrubesceu embaraçada pois tinha verdadeira fixação por aquele tipo de farda de operação e se deparar com a visão de Louise naqueles trajes, lhe fez irradiar pela pele uma suave e sutil descarga de energia que ela bem sabia o que significava.


_____Bom Dia! – cumprimentou, olhando para os próprios pés.

A Delegada cravou-lhe o olhar frio no rosto e sua expressão endureceu-se mais. Não lhe respondeu o cumprimento, apenas fez sinal para que ela sentasse.
Continuou examinando atentamente o tal mapa da Grota do Adeus, que ganhara várias marcas feitas em caneta vermelha, azul e verde. Rabiscava anotações intensamente em um bloco, enquanto acionava o rádio transmissor e despejava inúmeros comandos.

_____Rainha Negra para Bispo...Alguma alteração? Câmbio?

_____Bispo, copiando... nenhum movimento à noroeste, apenas avanço de dois peões. Nada rompendo o esquematizado!

_____Permaneça em QAP e avise-me quando os “gafanhotos” descerem! Câmbio, desligo!

Se Louise não estivesse com as feições descansadas e totalmente vestida para combate, Vick poderia apostar que ela passara a noite inteira estudando o mapa, terminando de lapidar seu plano de ação.
Um pequeno corte em seus lábios, chamou a atenção do olhar da policial, mas diante do comportamento totalmente fechado da Delegada, decidiu não perguntar como se ferira.

Uma mulher muito quieta e magra, entrou trazendo a bandeja com o desjejum para duas pessoas. Retirou-se tão silenciosamente quanto entrara.

A Delegada serviu-se de um bom sanduíche e passou a explicar seriamente para Victória toda sua estratégia e mostrar os pontos de “fuga”(lugares de abrigo), os “cegos”(lugares ocultos), os de “colisão”(lugares de perigo) e os de “visão”(lugares de onde poderiam vigiar).
Em certo ponto do mapa, ela apontou o “núcleo”, ou “ponto zero”, onde presumia que Raul Dourado e sua corte conviviam.


_____Na Grota, existem duas “vias” de acesso. Na verdade, três, mas esta aqui fica no ponto de fuga do “Mirante”. Para se fugir por aqui, é preciso quase que conhecimentos de alpinismo, além de ter que atravessar uma espécie de represa à nado ou uma trilha que passa exatamente no “olho” do ciclone, isso é, um lugar onde a quadrilha do Raul costuma se abrigar. Existe outros pontos aqui e ali, mas quase inacessíveis se tivermos que considerar que os “Vira-pó” estarão espalhados por todo esse trecho.
O plano “A” é: Aguardar que os homens do “Proverbial” entrem para atacar a Grota e quando estiverem no “núcleo”, ou próximo dele, fecharemos as “vias” de acesso. Ninguém entra, ninguém sai. Então, aguardaremos o conflito e após o sinal das “Torres” que estarão a postos nos pontos de “Visão”... invadiremos.


_____Mas e a população civil inocente?


_____A população infelizmente já está acostumada às constantes guerrilhas entre as quadrilhas e certamente se fecharão em seus barracos. Costumam cavar valas enormes para se protegerem em tais ocasiões.

Vick ouvia a tudo, admirada da inteligência e capacidade da Souza e Silva.

_____Coma! Vai precisar de toda sua energia! Depois vista a farda. Vou destaca-la para se posicionar entre os vigias das vias de acesso!

_____Então não vou poder entrar na Grota?

_____Não! Ainda está com os nervos muito abalados e dormiu muito mal à noite. Do meu quarto pude ouvir seus gemidos e o debater na cama.

Victória recebeu a notícia com surpresa. Não se lembrava de ter sequer acordado no decorrer da noite anterior, porém, aos poucos recordou-se de seu conflito com Liz e o posterior ataque à “morte”.

Enfim, teve que se curvar ao bom senso de que a Delegada estava certa.

Serviu-se do café e o leite, enquanto mastigava algo e estudava o mapa sobre a mesa. Louise tornou a voltar sua atenção às suas anotações até que o rádio transmissor a chamou.

_____Torre Alfa para Rainha Negra! movimentação suspeita nos pontos de acesso, oeste e noroeste...

_____Rainha Negra se movendo! Aguardem ordens...

Desligou o rádio e levantou-se com energia.


_____Está começando. O vulcão está dando sinal de estar prestes a entrar em erupção e precisamos nos colocar a postos. Nem antes, nem depois. Lembre-se: qualquer vacilo, poderá custar a vida de todos, portanto obedeça e tente se concentrar no que faz.

Capítulo 11:

"aquilae non gerunt columbas"
do latim: Águias não geram pombas- Podendo significar: tal pai, tal filho.


Assistiram pacientemente o dia nascer, maturar e morrer. Estavam posicionados em um platô alto, denominado pela Delegada de ponto de “Visão” principal.

Victória, apesar de toda sua tristeza e aflição quanto à possibilidade de que Duarte tivesse arrastado Lizandra até o “núcleo” ou “área vermelha”, não deixou de sorrir ao encontrar entre os homens que iriam acompanha-la no seus posto, nada menos do que seu parceiro, o Agnaldo.


_____Quando soube do que havia acontecido com você ontem, eu procurei entrar logo em contato com a Souza e Silva e me oferecer para participar da missão “secreta”...


Vick o abraçou forte e beijou-lhe repetidamente o rosto.


_____Você nem imagina como sua presença aqui está sendo importante para mim.

Relatou ao amigo, detalhe a detalhe de tudo que passara na véspera e do seu temor de que Duarte tivesse se abrigado com Raul, levando Liz consigo.


______Mas é claro que não tenho certeza e ela pode estar agora em outro lugar distante daqui e em segurança! – exclamou, esperançosa.


Agnaldo a ouvia com o cenho franzido e manteve-se silencioso por um momento até que tocou-lhe o ombro, jovialmente.


_____Ah ! Lembrei! Se serve de consolo, devo informar que “resgatei ” Sir Lancelot e sua família e os levei até meu apê. Lá minha empregada estará tratando bem deles até voltarmos.


_____Sim!.... Se voltarmos...


_____É claro que vamos voltar! Estamos nas “torres de vigia”. O que poderá dar errado conosco? Teremos por onde fugir se o pior acontecer. – retrucou, Agnaldo.


_____Mas a “Rainha Negra” e seus peões vão invadir a Grota...


_____Sim!... é uma missão um tanto suicida...ou... impossível...


_____Não se todo o esquema se encaixar conforme ela o elaborou! – Argumentou, Vick.
Agnaldo cofiou a barba de três dias, meditativo.

_____Desculpe, Di! Mas não é preciso ter muita experiência na carreira policial pra saber que na hora do “quebra-pau” mesmo, o acaso nos aplica peças e muitos imprevistos acontecem. E aí...

_____E aí?


_____Aí? ...Você sabe rezar? Talvez precisemos rezar pelas almas “deles”...


A noite avançava e esperar tanto, para Victória estava sendo uma tortura. A chegada sorrateira de blocos e blocos de homens de João Proverbial, lhe ascendeu cada célula do corpo.
Comunicaram a movimentação dos “gafanhotos” para a Delegada Souza e Silva que estava postada e oculta, em algum ponto perto das Vias de acesso.

A dado momento, talvez perto da meia-noite, a voz forte e autoritária de Louise, comandou:


_____Todos os peões das torres e entradas das vias... Fechem o acesso. Ninguém entra! Ninguém sai! Simultaneamente começaram o matraquear dos fuzis e metralhadoras e Vick e seu grupo perceberam que a sangrenta guerra entre as facções dos “ Vira-pó” de Raul e os “Fura-couro” do Proverbial, havia sido deflagrada.

_____Gui! A Souza e Silva não é humana! A filha dela está lá... em algum ponto desse inferno!


_____Procure se acalmar...


_____Estou tentando! Ainda não foi confirmada a presença de Liz na Grota...Ainda tenho esperança!


Agnaldo virou o rosto, tentando disfarçar sua expressão e Victória percebeu que o amigo podia estar lhe ocultando algo.

_____Porque virou o rosto? Olhe para mim... o que sabe e está me escondendo?

O Policial continuou silencioso, olhando em algum ponto perdido na densa escuridão da noite.

_____Liz está na Grota? Fale... não me esconda nada!

_____Desculpe, Di... mas... a chefe determinou que eu não lhe contasse sobre Liz!
Vick sentou-se em uma pedra à beira do precipício e não conseguia conter as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto.

Muitos metros abaixo, o “caldeirão” crepitava sinistramente. Acima de sua cabeça, as estrelas apareciam, intensas e serenas, alheias à aflição e dor de quem estava naquele momento em “Hades”.

Rememorou cada momento sublime que vivera ao lado de Lizandra; o sabor de seus beijos, o calor de seus braços; a forma como se enroscava em seu corpo enquanto dormia.
Ainda podia lhe visualizar o sorriso suave e o olhar lânguido depois do “amor”.

Levantou-se decidida. Desceria no inferno e encontraria Liz, nem que fosse para retirar dali seu corpo ou mesmo acompanha-la em sua sorte. Tremia ao se imaginar tão claramente defronte à morte, mas deixou-se levar mais uma vez por seu temperamento impetuoso, antes que qualquer titubear seu lhe restituísse o juízo momentaneamente embotado.
Procurou por uma pequena lanterna com imã que se encaixasse em sua arma. Um GPS, punhal e o que conseguisse carregar rocha abaixo. Teria que se dependurar na pedra pelos dedos, mas confiava em sua habilidade de praticante de alpinismo e capacidade física de atleta. Ajustou a longa corda que lhe permitiria descer da “torre” até uma das bandas da grota.
Tinha o mapa de Louise, impresso na mente. Ainda ouviu quando Agnaldo anunciava pelo rádio transmissor, sua fuga à Delegada.


_____Vigia para Rainha Negra! não há mais como interceptar Di Angelis! Nós a perdemos!

Na Grota, quando finalmente seus pés tocaram em um terreno razoavelmente plano, Vick procurou orientar-se. Estava perto do lado norte da Favela.
O lugar era uma espécie de monstruosa cratera, contornada pela silhueta já escura dos morros escarpados. O cheiro de pólvora lhe irritou as narinas. Abaixou-se e passou a mover-se cuidadosamente, arrastando-se ao solo.

Sobre sua cabeça, os projéteis perdidos zuniam e riscavam a noite. Eram inúmeros deles e qualquer vacilada poderia ser fatal.
Avançou por estágios, arrastando-se até que atingiu um dos degraus de cimento de uma das intermináveis escadarias que cortavam a Favela.
Ali, estas tanto subiam quanto desciam, formando labirintos estreitos entre os barracos precários de madeira ou alvenaria sem reboco.

Haviam corpos espalhados por todos os lados e no meio do fogo cruzado e incessante, percebeu a impossibilidade de avançar qualquer centímetro, ilesa. Perto de onde estava oculta, naquele momento passaram vários homens armados de fuzis e metralhadoras. Gritavam e atiravam alucinados, aparentemente sem medo algum da morte. Logo, cada um deles foram tombando sem vida.

Não havia no momento qualquer possibilidade de alcançar o “núcleo” com vida, enquanto os “comandos” não se enfraquecessem e tivessem muitas baixas. Pensou na Delegada e na clareza com que ela tentara lhe incutir na mente a dura realidade.

Percebeu o quanto fora irracional ao tomar aquela atitude. Enfim compreendeu a silenciosa aceitação de Louise, quanto ao destino de sua filha e que isso não significava que não estivesse sofrendo.
E agora? o que poderia fazer?

Decidiu esperar. Quem sabe se com sorte, a Rainha Negra e suas hostes, descessem do abrigo nas rochas a tempo de ainda encontra-la com vida? Ou quem sabe acontecesse um milagre?

Colou o rosto no solo úmido pelo sereno e fechou os olhos, rezando silenciosamente. Não percebeu quantos minutos decorrera até que uma mão a apanhasse pelo calcanhar.

Assustou-se e virou o rosto na direção de seus pés. Um rosto franzino, com grandes olhos expressivos, apareceu, saíndo de uma espécie de valeta oculta por tábuas soltas.


_____Ei... Asa Negra! Entra aqui...


Victória não esperou segunda ordem e se arrastou para dentro do buraco na terra.


_____Reconheci você quando passou se arrastando perto do “buraco”. – segredou o menino.


A voz era do pequeno “Tiziu”, um dos engraxates da praça das Aléias que costumava lhe tratar as “boots”.


_____Venha... vou te levar até um lugar seguro!


_____Espera! Um momento!


_____Sim?


_____Você pode me levar até onde o Raul Dourado “guardou” as moças que foram raptadas?


_____Óia, “tia”, até posso, mas só sei de uma moça de zôio de gato que diziam que haviam tirado lá dos bacanas...


_____E podemos chegar até lá?


_____Até perto eu levo! Depois é com a senhora!


Arrastaram-se por um labirinto de escavado no solo, ouvindo sobre suas cabeças, passos de homens que gritavam e o gemido e choro dos moribundos.

Tiziu por fim, parou de se arrastar.


_____É aqui! Ta vendo aquele barraco lá? Tem um cadeado... é lá que “guardam” os hóspedes do Raul...


_____Obrigada , Tiziu! to te devendo esta!


_____Tudo bem, Tia!.. mas se escapar dessa... eu vou cobrar!


_____Trato feito!


Vick se esgueirou para fora da valeta, procurando se ocultar nas sombras. Não havia ninguém ali, como sentinela. Tropeçou em dois corpos. Um deles tinha cabelos loiros. Focou com a pequena lanterna e viu com alívio que era um homem com densa cabeleira oxigenada.
Aproximou-se da porta e retirou um dos seus brincos-gazua da orelha.

Abriu o cadeado com facilidade e entrou no barraco estreito e escuro, de onde podia-se sentir um cheiro nauseabundo de urina e vômito.

Aguardou por um instante em um canto, tentando detectar se havia alguma presença viva no local. Uma voz tremida e fraca rompeu o silêncio.


_____Por favor! Não me mate!


A Policial reconheceu a voz de Julia e procurou se mover lentamente em direção do local onde ouvira o lamento. Tocou uma pele fria e úmida.


_____Júlia! Sou eu, a Di Angelis... vim vou te buscar. Está sozinha?.


A garota se agarrou a ela, com o que restava de suas forças.


_____Me tira daqui! – sussurrou! Eu estou sozinha..._____Eles estão me matando de fome e ainda prometeram que iam me enterrar viva para se vingarem de minha mãe...


_____Acalme-se ! Nós vamos sair daqui.____Viu mais alguma mulher presa ? Uma loira?


_____Não!


A conversa estancou e Vick conduziu a garota até a valeta de onde saíra.

Lá, pôde ver que Julia tinha algemas lhe prendendo os pulsos. Cuidadosamente as abriu e fez sinal para que ela mantivesse a calma e o silêncio.


A garota esfregou os pulsos, aliviada.


_____Foi mamãe quem te mandou me salvar, não foi?


_____Silêncio! Fique quieta!


_____Eu sabia que minha mãe não ia me deixar morrer aqui! Ela é a melhor policial do mundo! – sussurrou a adolescente.


_____é ! – concordou Vick. _____Agora precisamos sair daqui e você precisa me obedecer...


_____Eu vou fazer tudo que você mandar!


_____Então! Vamos!...


Arrastaram-se por metros e Victória parava vez ou outra para consultar com a pequena lanterna, o GPS. Procurava um dos pontos de “fuga” ou “cegos”. Ali, quem sabe, poderiam se abrigar e aguardar até que a guerra terminasse.


Ouviram passos de muitos homens e uma voz mandava que “semeassem as bananas de dinamite” para mandar os inimigos pelos ares...


_____Dinamite? – pensou Vick..._____Isso não estava previsto nos planos da Souza e Silva e poderá ser fatal, pois não serão necessários muitos homens para aciona-las.

Lembrou-se do rádio transmissor desligado que estava em um dos bolsos da sua calça. Ligou-o cuidadosamente.


_____Di Angelis informa Rainha Negra! Existe dinamite na Grota! – câmbio.


Um ruído de interferência e silêncio fez com que Vick imaginasse que talvez fosse tarde demais. Até que...


_____Rainha Negra pergunta sua localização!


_____Alguns graus a leste do ponto de “colisão 2”. – respondeu a policial, consultando novamente o GPS.


_____Ok! Vamos localizar e destruir o paiol. Sua informação foi de importância Vital. Bom trabalho.

A garota ao ouvir a voz da mãe, aproximou-se e a chamou.

_____Mamãe!


A voz da Rainha Negra se tornou mais grave.
_____Está com Júlia?

_____Sim! - respondeu Victória.

_____Ok! Agora escute com atenção: Vá até o ponto de fuga do Mirante e não saia do local até que chegue o resgate. Existe uma espécie de lagoa. Júlia não sabe nadar. Quero que arranje um meio de atravessa-la até a outra margem.


_____Mas pode haver mais elementos das quadrilhas se abrigando por lá!


_____Tenho informação que não há mais acesso pela trilha até o “Mirante”.


_____Ok! Estamos a caminho!

_____E ouça, Di Angelis... não saiam de lá, custe o que custar. A vida de Júlia agora depende novamente de você. Não falhe a outra vez.

Vick desligou o rádio e chamou pela garota.


_____Vamos!... ainda temos muito que nos arrastar!

Em certo momento, puderam sentir que a valeta estava muito mais úmida e com algumas infiltrações de água.


_____Estamos perto da represa! Temos que sair.


A visão que teve foi desanimadora. A Lagoa apanhava de fora a fora daquela parte da grota e seria quase impossível nadar, arrastando consigo a garota. E para piorar a situação, um temporal denso e forte desabou sobre suas cabeças.
Mal podia ver o rosto uma da outra. Em poucos minutos, o volume da água aumentava e pequenas e perigosas ondas se formavam ao sabor do vento. A um canto, centenas de lixo e garrafas plásticas de refrigerantes vazias, estavam encalhadas na margem.

Vick teve uma idéia.
Podia funcionar e além de tudo, não poderiam mais perder tempo. Apanhou várias daquelas garrafas vazias com tampa e passou a inseri-las por baixo da camiseta de Julia e a prende-las com seu cinto.

A garota não retrucava e mantinha a cabeça baixa com humildade. Tremia de frio e de medo.

A Policial tirou suas botas, o colete e mais outros equipamentos pesados. Encaixou também em sua roupa, duas daquelas garrafas e arrastou a menina para a lagoa.


Em poucos minutos, passou a nadar, arrastando Julia que flutuava por intermédio do ar preso nas garrafas. Mesmo com essa ajuda, a chuva forte e o esforço, a fizeram quase acreditar que não agüentaria mais bater os braços e as pernas até a outra margem.

Minutos que mais pareceram dias, se passaram naquela luta contra a água até que seu pé encontrou o fundo.

Saiu quase em estado de estafa, arrastando a si e à menina assustada.

Ficou por um momento deitada, tentando recuperar o fôlego até que Julia mostrou um pequeno barraco a um canto, onde poderiam se abrigar.


O Mirante era mesmo um ponto de difícil acesso e naquele momento, não apresentava qualquer saída.


Vick arrastou-se, agora auxiliada pela adolescente até o interior do barraco. Lá, com a lanterna, focou os cantos e quase desmaiou ao se deparar ali, com Liz.

A Médica estava sentada e tinha as mãos amarradas. Seus olhos verdes, expandiram-se ao reconhecer Vick. Mas havia também neles uma espécie de pavor.

A policial não teve tempo de se aproximar dela, quando ouviu o característico estalo de uma arma sendo engatilhada. O lampião preso a um dos cantos, foi aceso por um fósforo.

O sorriso cruel de Duarte fez o coração de Victória bater acelerado.

_____ Então novamente nos encontramos! – Disse, enquanto apanhava o pescoço de Vick com uma das mãos, enquanto a outra lhe encostava o cano frio da arma na testa.

Júlia vendo a situação, correu para fora do barraco e sumiu na escuridão.


_____Deixa o coelho escapar. Não há saída e mais tarde poderei caçá-la calmamente!


_____Porque está fazendo isso? Henrique?


______Digamos que por dinheiro e principalmente por vingança!


______O que fiz para você?


______Pergunte à sua amante...


Vick percebeu que Duarte já sabia de seu relacionamento amoroso com Liz.


______Encontrei uma “linda” carta de amor que escreveu para Lizandra. Inicialmente pensei que fosse o Agnaldo, mas estava assinada. Então percebi quem realmente você era. Uma aberração. Então pensei que poderia acabar com você e ainda lucrar com isso!


______Ele estava me chantageando ! Disse que a mataria se eu não reatasse o namoro! - gritou a médica em meio aos soluços.


_____É? E como foi que eu encontrei o bilhetinho? Foi no seu quarto depois que havíamos transado... conte a ela sobre o bebê que estávamos tentando “fazer”? Diz que é mentira minha?


Lizandra levantou-se com dificuldade e pediu.


______Deixe-a ir embora, Henrique! Você já conseguiu o que queria... já me tem ao seu lado... não precisa mais se vingar....


_____Nunca! Dessa vez a famosa “Asa Negra” vai morrer... Eu a odeio...


_____E depois? O que fará? – Vick perguntou, tentando aparentar calma.


_____Será caçado por todos os lados...


_____Consegui uma boa grana com o Raul por conta dos serviços que prestei. Já tenho uma conta no exterior. Quando amanhecer, eu e Liz vamos sumir do mapa...


Liz, aproveitando-se da distração de Duarte, abraço Vick e falou:


_____Se tentar mata-la... terá que me matar junto...


_____Não seja tola...

_____Se fizer isso! Vou te odiar pelo resto de minha vida!


_____Vou pagar para ver! – bradou o homem enfurecido de ciúmes e ódio.

O dedo se posicionou no gatilho e ... bang...


Um estampido e expressão de surpresa nos olhos já sem vida.


Ao desabar contra a terra pisada do barraco, Duarte caiu pesadamente sobre o corpo de Victória que tentava se desvencilhar da enorme mão , ainda fechada em sua garganta.

Enfim conseguiu se livrar e levantou-se procurando por quem havia deflagrado aquele certeiro tiro na nuca do ex-policial.

Louise Souza e Silva, entrou no barraco, tendo Julia abraçada firmemente ao seu corpo com seus braços finos e longos. Estava com alguns aranhões no pescoço e mãos, além de ter na cintura, petrechos de alpinista. Certamente descera até o mirante pelo paredão que o cercava, em uma perigosa e difícil descida sob a chuva torrencial.

A pistola em sua mão ainda fumegava.

Ao constatar que Vick estava ilesa e que tudo ali dentro estava sob controle, acionou seu rádio transmissor e comunicou-se com seus homens.

______Rainha Negra no Mirante! – Câmbio!


______Bispo e peões aproximando-se do Núcleo. Todos os pontos estratégicos cercados ou capturados. Aguardamos comando!


______Derrubem o Rei! – ordenou Louise. _____Aniquilem o Império!

VITÓRIA

A Operação “Madrugada Vermelha” teve uma repercussão fantástica na imprensa e significou um golpe duro e histórico contra o Crime organizado. A Delegada L. Souza e Silva e seu grupo operacional, denominado “invisíveis”, receberam menção honrosa e homenagens das autoridades e do Governador.

Victória foi o destaque das manchetes por semanas e mesmo se negando a dar entrevista, uma repórter em especial, dedicava seu trabalho a escrever sobre as aventuras a ela atribuídas.


____Era só o que me faltava! – comentou, Vick, enquanto lia o jornal matutino.___A tal repórter agora está insinuando que eu tenho poderes paranormais...


Agnaldo riu. Estavam em uma sala atulhada de papéis, e estantes onde eram guardados objetos que foram periciados ou eram provas materiais em algum inquérito policial.

Victória fora transferida para o setor de depósito de material apreendido e outros, além de ser designada para auxiliar também em outros trabalhos internos.


____Esta burocracia ainda me mata! Hoje tenho que “bolar” mais uma carta precatória... Os escrivães não estão dando conta do volume de serviço e estão me utilizando “Ad Hoc”...(* expressão em latim muito usada no meio policial e jurídico que significa que alguém está provisoriamente exercendo outras funções diversa à sua específica).


____Güenta aí! Um dia a L.S.S. pode resolver te tirar do “castigo”...


____Mas eu não entendo essa mulher! Tudo bem que ela me salvou a vida... mas como consegui resgatar a Júlia, ficamos quites. Ninguém deve nada a ninguém...


____Parece que não é bem assim que ela pensa. Acha que você é desajuizada, impulsiva, indisciplinada e ...


____ta bom! Entendi. Eu reconheço que errei... mas tenho tentado controlar um pouco meu temperamento. Até voltei a fazer terapia.


____Isso já é um bom começo!


O telefone toca e Victória atende.


____hã? Você é a repórter do “Arauto da Notícia”? ... não... eu não posso dar entrevista... Sim... tenho muito trabalho a fazer... Alguma missão?... Claro.! Estou envolvida agora na investigação sobre a vida sexual dos “Hipopótamos Africanos”...


Agnaldo apanhou uma folha de papel em branco e escreveu com uma caneta hidrocor :


____Aceita almoçar com a garota! Ela é uma gata!


Vick continuou a conversar ao telefone, com expressão de tédio, enquanto ouvia os argumentos de sua interlocutora.

Agnaldo continuava macaqueando em frente à colega, mostrando a mensagem que escrevera até que se deu conta de que a Delegada Titular estava no corredor, observando-os pela parte de vidro da divisória.
Depois entrou na sala e Vick encerrou a conversa ao telefone rapidamente.


____Vejo que estão trabalhando muito!


Agnaldo articulou uma desculpa qualquer e saiu da sala pois trabalhava em outro setor. Victória como estava em sua própria sala, não tinha como escapar.


____O que significa isso? Di Angelis? – perguntou Louise, enquanto estendia três folhas de papel para a policial.


Vick as leu e gelou. Ali estava uma espécie de guia de recebimento endereçada ao 8o Distrito Policial, de nada menos do que um hipopótamo, pesando mais de duas toneladas.


____Onde mando “baixar” o animal? Aqui na sua sala? O ofício está claro. Você pediu que o animal fosse localizado e remetido à delegacia deprecante...


____Bem... Na verdade eu queria dizer que era para localizar o “bicho” que foi introduzido no país sem autorização do IBAMA e encaminhado aos cuidados da Polícia Federal... pois é crime da competência deles...


____Acho que algo aqui não foi bem explicado pois o “miúdo animal silvestre”, maior do que um fusca está lá fora em um caminhão... esperando para que você o receba e o guarde no depósito...


Victória sabia que não levava jeito algum com os papéis, muito menos para redigir Cartas Precatórias, porém, de todos as gafes que dera no breve período em que fora designada para o setor, aquela ali estava sendo a mais fantástica.


Apanhou o relatório do médico veterinário que examinara o “animal” e começou a ler:


_____Hipopótamo macho, selvagem, furioso, precisando de uma área de 10 por 15 metros de espaço e um tanque dágua de bom porte, além de uma fêmea de sua espécie e ...


Não agüentou e começou a rir descontroladamente, imaginando a cena do animal sendo içado pelo lado de fora da delegacia, e introduzido pela janela até sua estreita repartição.


Riu tanto que de seus olhos escorriam lágrimas. Louise que até aquele momento a fitava reprovadoramente com seus intensos olhos azuis turquesa, não suportou e também começou a rir.


____Di Angelis! Eu devia saber que você um dia ia acabar aprontando outra das suas! Não leva jeito mesmo para o serviço burocrático. Precisamos resolver essa “encrenca” agora!


Apanhou o telefone e passou a ditar ordens.

Por fim desligou.

O Hipopótamo seria recolhido ao zoológico municipal, até que o dono do circo que o comprou resolvesse sua situação irregular no país.

____Pronto!

Olharam-se intensamente e Victória não podia negar que a presença daquela mulher autoritária e inteligente à sua frente, estava mexendo com sua libido.

Louise apanhou a folha que Agnaldo riscara e mostrou-a a Vick.

____Vai almoçar com essa “gata”?


____Não! É apenas a repórter do “arauto” tentando conseguir uma reportagem. Já a dispensei.


____E a sua outra “amiga” a médica Legista? Você a tem visto?


____Ela viajou para o sul. Foi passar as férias com a família. Nos conversamos algumas vezes pelo celular,depois do dia da operação Madrugada Vermelha.

A verdade era, que Victória pedira a Lizandra um tempo para pensar e repensar a relação delas. A médica confessara que desejava há tempos ter um filho e temendo que Vick não aceitasse e se afastasse dela, passou a se encontrar em segredo com Duarte.
Foi então que ele teve a oportunidade de encontrar o bilhete de amor e descobrira que seu rival, não era Agnaldo e sim Vick. Desde então, passara a ameaçar dar “cabo” da policial se Lizandra não voltasse a ser sua namorada e estar sempre à disposição de seus desejos.


____Não me interessa sua vida particular e tudo que fizer fora da repartição! – disse Louise, interrompendo os pensamentos da policial.

____Quero que a partir de hoje, cuide do caso do “serial Killer” a quem você chama de “Legado de Nix”. Aqui está seu dossiê. Fiz algumas anotações aqui e ali.

Tem três dias para escolher a equipe que irá comandar e se instalar na sala 44.

Quero que me mantenha a par de toda a investigação e trabalhe sobre o mais completo sigilo. Esta é sua chance! Pegue-a!

Vick não teve nem tempo de agradecer pois a Delegada saiu rapidamente do local.

Agnaldo reapareceu, curioso para saber sobre tudo que acontecera e a colega não lhe omitiu detalhe algum da conversa que tiveram.

____Maravilha! Consegui pegar o "caso" do assassino serial...

O policial a encarou com um sorriso malicioso.

____Sabe que acho? Essa mulher está “dando” mole pra você!!!

____Ta maluco? O “coronel de Saias” é hetero de carteirinha!

____E você já teve problemas com alguma hetero?

____Não me meteria com essa! Conheço bem o tipo e acho muito bom agir com cautela. Sei que no menor deslize, ela me cai na goela como ...

____A guilhotina de “La révolution française”...

____é!

Agnaldo encarou-a com o olhar de menino travesso.

____Se te contar algo que não sabe sobre a L.S.S., você me escala para sua equipe?

____é fofoca?

____Não... é papo “quente”...

____Conta aí! Eu já havia escolhido você mesmo para minha equipe. Agora vai... conta senão morro de curiosidade. É algum segredo “cabeludo”...

____Não... coisa mixa...mas que diz respeito ao seu pai?

____Meu pai?

____Sim!

____Olha aqui, Gui... não põe o “pai” no meio que eu viro um bicho...

____Bem... a verdade é que Louise podia ser, além de sua chefa, sua madrasta...

____O quê?

____É. Soube por fontes fidedignas que depois da morte de sua mãe... houve um “breve relacionamento” entre os dois. A Delegada na época havia se separado recentemente do pai de Júlia. Hoje ela tem outro marido.

Victória sentou-se, com a boca aberta...

____mas o que aconteceu depois?

____Parece que ela rompeu o namoro! – completou Agnaldo.

____Louise esnobou Antonio Di Angelis? Inacreditável...

____Ora, Di... onde você estava nesse período que não sabe de nada sobre a vida do seu pai?

____Presa em um reformatório para adolescentes problema. Ele me deixou passar três anos de minha vida naquele local horrível!

____E porque?

____Acho que tive problemas em aceitar a morte de minha mãe. Aí parei de estudar, me envolvi em brigas e má companhia. Passei também a beber e uma noite, entrei bêbada em casa, quebrei tudo e desmaiei. Aí, no outro dia, acordei em um alojamento minúsculo como uma cela que teria que dividir com mais cinco garotas. Estava no reformatório que chamam eufemisticamente de Internato “Santa Gertrudes” para moças.

____Hummm!

____Mas isso passou!

Agnaldo aproximou-se e a abraçou forte.

Ficaram por uns minutos em silêncio, que foi rompido pelo rapaz.

____Mas olhe pelo lado bom da coisa! Hoje você podia ser a enteada da todo poderosa-heróica-espartana, L.S. S.


____Eu estaria frita!

____Não! Ela me pareceu bem apegada com a “cria” dela...

____Na verdade era a “cria” que grudou nela e não largava mais... Já viu filhote de macaco agarrado na mãe?

____A garota estava apavorada. Mas... voltando ao assunto inicial... pense que talvez Louise esteja vendo em você... algo de Antonio Di Angelis. O que reforça minha teoria de que ela não está imune aos seus encantos...

____tá maluco? Eu sou cópia da minha mãe...

____Mas tem o temperamento do pai. E lembre-se minha cara, “Aquilae non geruntum columbas”!(Águias não geram pombas”).

 

FIM do "LEGADO DE NIX" - segue "DEVORADOR DE ALMAS"