VICK

 

Ela se desvencilhou suavemente do corpo da amante adormecida e saiu silenciosamente.
Na rua, procurou tomar um café forte pra ver se o cérebro funcionava...

______Precisava dar um tempo com as mulheres- pensou. ______ isso ainda vai ser minha ruína !... Imagine?, naquela noite, se deitara com a sua terapeuta. E elas se conheciam há anos...

____Mas o que fazer se a mulher era sensual e muito cheirosa? Ah! E por fim, ainda a assediara exatamente no momento em que ela estava se sentindo muito carente e abrindo seu coração em uma das consultas. Daí tudo aconteceu rapidamente, como efeito dominó...
Vick despira a terapeuta com tanta habilidade que até se surpreendera. Amaram-se no divã do consultório mesmo. Depois foram para o pequeno apartamento da policial e continuaram no saciar de desejos urgentes.

Encostada no balcão sebento de um boteco de esquina, a policial de 25 anos, sorvia lentamente seu café amargo e pensava em tudo que vivera e presenciara até então. Sabia ser uma mulher com um certo magnetismo pessoal que funcionava principalmente com o sexo frágil.

_____Mas o que há de errado nisso? - perguntou-se, enquanto terminava seu lanche matutino. Dentro de si, porém, a convicção de que havia algo que lhe faltava, fazendo-a sentir-se vazia, mas ela não sabia ao certo o que poderia ser, apenas desconfiava.

O celular tocou. Avisaram que naquela madrugada, um dos informantes da policia havia sido barbaramente assassinado.

Vick correu para sua moto e saiu em alta velocidade, costurando entre os carros. Precisava chegar na cena do crime antes que algum colega estúpido estragasse algum vestígio ou mesmo prova... Lá chegando viu a aglomeração de pessoas e a figura exaltada do Robertão. Ah, aquele sujeito conseguia deixá-la aborrecida só de vê-lo assim tão cedo.
Já tinha que aturá-lo todos os dias na delegacia, coçando abaixo da linha do Equador e a despindo com seus olhos lascivos. Ele por sua vez, mal a cumprimentou e foi logo dizendo, com sua voz de mastodonte no cio:

_____Bom diiiia, princesa... Hoje veio sem sutiã?...

Ela quase perguntou se ele havia engolido um gambá, tamanho o mal hálito do homem, mas se conteve.

____Eu não os uso. Não preciso!

____Imagino! São firmes! Dá pra encher a mão... Robertão, fixou os olhos libidinosos nos belos e firmes seios de Vick, que se delineavam em sua camisa branca, semi ocultos por uma jaqueta de couro.

____Não enche, Betão, ou vou contar ao chefe que você me assedia!...

____Quê que é isso, minha querida, Vivi?, eu estava só brincando...Na boa tá? O que foi? Acordou nervosinha?

____Vivi é a senhora sua mãe! - pensou Vick, saindo de perto pra não esticar conversa e se aborrecer ainda mais.
No chão, reconheceu o que restou do corpo do "Boca de Sapo".

____Que droga! Logo agora que ele ia "abrir o bico" sobre o grande carregamento de cargas roubadas?...

____É, parceira...Serviço de meses perdido. Vamos ter que reiniciar na estaca zero. - comentou o inspetor Araújo, um homem de aparência calma, fala compassada e de aspecto físico muito frágil e magro.
Vick adorava o Araújo. Devia a ele tudo que aprendera em toda sua carreira como policial e o amava como a um irmão. Este, além de ser um policial antigo e experiente, ainda era seu referencial de indivíduo honesto e íntegro. Ela sempre lhe ouvia os conselhos atentamente e até uma repreensão ou outra, caso necessário, com humildade, faceta essa de sua personalidade que poucos conheciam.
A moça passava para as pessoas, a imagem de policial arrogante e segura, além de fria e temperamental. Um escudo que lhe servia muito bem até o momento e a protegia em inúmeras situações e ocasiões. Descobrira, quando ingressara na corporação, que a grande maioria dos policiais Possuíam enorme preconceito quanto a admissão de mulher na carreira.

_____No primeiro tiroteio, você amarela... - disse-lhe o chefe do setor de Operações especiais, no dia em que saíram para sua primeira missão, há 3 anos. Mas com o tempo, Vick provou que podia ser tão capaz quanto qualquer policial homem e granjeou respeito entre a maioria dos colegas. Ainda haviam os que a provocavam, mas tudo dentro do limite da tolerância humana.

Observando com muita atenção, palmo a palmo do chão onde se encontrava o cadáver, a policial encontra uma bituca de cigarro caída entre o braço e o corpo do morto.

_____Veja , Araújo... uma bituca...pode ser uma pista...

A voz do Robertão, soou estridente:

_____Não perca seu tempo, Vivi...a bituca é minha! eh eh eh. Eu cheguei antes aqui, estava fumando e me descuidei.

Vick sentiu um desejo quase incontrolável de esganar o Robertão, a quem ela e outros da repartição, apelidaram secretamente de Ro "bestão".

Respirou fundo e baixou mais a cabeça, procurando concentrar-se e esfriar sua ira. continuou acocorada,iniciando a garatujar pequenas anotações em seu bloquinho de notas, quando ouve o Araújo perguntando algo a alguém que acabara de se aproximar do grupo.

_____E então doutora?

_____Examinei preliminarmente o corpo...minha equipe vai cuidar de removê-lo daqui...os populares já estão se aglomerando.

_____Como acha que o liquidaram?

_____Primeiramente o torturaram. Depois deram um tiro de misericórdia na nuca.

Ao ouvir a voz suave e pausada, Vick levantou-se rapidamente, não antes de dar uma apreciada rápida nas pernas nuas e bem torneadas da mulher desconhecida, que usava um conjunto de blusa e saia escuros, muito elegantes.

____Ah! Vick! Você que estava de férias. Não conhece ainda nossa nova médica Legista: Doutora Lizandra. - apresentou-as, o Araújo.

____Prazer! - gaguejou a policial, estendendo a mão, embaraçada, pois estava diante de uma mulher bem atraente. Mas o embaraço piorou, ao perceber, fixos em si, aquele belo par de olhos verdes.

____a marca no seu pescoço sairá depois de alguns dias! - observou a médica, sorrindo suavemente. Vick correu até o espelho retrovisor de sua moto. Sim, havia uma bela marca roxa em seu pescoço.

____Ai que droga... Preciso urgente de um esparadrapo! Como foi que eu permiti àquela louca me fazer isso? - raciocinou, sentindo o rubor subir forte às suas faces.



Capítulo 2: ASA NEGRA


Araújo organizava uns papéis em sua mesa e observava silenciosamente sua jovem parceira trabalhando, compenetrada e com aquela expressão séria, costumeira. Sabia que ela tinha verdadeira aversão pela burocracia dos relatórios e outras papeladas necessárias ao serviço interno, mas mesmo assim, dedicava-se ali em sua mesa, com o mesmo empenho e concentração que ao trabalho de rua. O rosto oval, com grandes e expressivos olhos negros, liam atentamente a papelada, certamente tentando descobrir o nexo, desconexo de tanta burocracia e procedimentos sem objetivo aparente, a não ser entulhar os arquivos de aço de papel. Conhecia bem a dificuldade da colega em tratar com a papelada e a ajudava sempre que podia.

_____Minha esposa ligou: Quer que vá almoçar conosco.

_____Mas é claro que vou!

_____O Pingo já está me aborrecendo de tanto perguntar pela senhorita... ele te adora...ficou desolado quando você viajou em suas férias, pois disse que havia prometido ajudá-lo a montar aqueles carrinhos de miniatura.

Victoria sorriu. Um dos seus raros e encantadores sorrisos.

_____Não esqueço de minhas promessas. Sabe o quanto gosto do garoto.Até comprei um kit de miniaturas para ele. Acha que vai gostar?

_____Com certeza.Tudo que vier de você ele gosta, até uma bolinha de gude.

Ela suspirou e engavetou o restante dos papéis.

_____Estou ficando louca com essa papelada.

_____Não teria tantos papéis se não se envolvesse tanto com as encrencas da rua.

_____Acho que atraio as encrencas.

_____É! Também acho... mas...tem se dado bem na maioria delas...Está ficando popular na cidade. Quase todos os jornais de hoje, noticiaram o acontecimento desta madrugada.

_____ihhhh! Nem li...

_____É... se prepara porque o chefe logo te chama.

Araújo mal terminou de falar e o interfone toca. Era o Delegado titular chamando Vick para o gabinete.

_____Boa sorte colega! - desejou-lhe Araújo.

_____Tudo bem, parceiro. Não é a primeira nem vai ser a última vez que o chefe me chama para a "bronca matinal".

_____Juízo... controle seu temperamento...não adianta dar murro em ponta de faca. Mesmo porque seus argumentos não vão adiantar de nada .

_____Tudo bem... vou ligar meu dispositivo "Sim-Senhor-Não-Senhor" e desligar meus ouvidos e que venha a bronca...

 

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