Ela
esperava ansiosamente o que acreditava ser o primeiro grande momento
de sua vida. Sabia que as chances que possuía eram mínimas,
mas desistir sem qualquer tentativa, não era faceta do seu
caráter.
Viajara de trem por três dias e duas noites até alcançar
a pequena cidade montanhosa de Vila Rica das Artes, onde próximo
- como uma fortaleza antiga incrustada em um dos contrafortes da serra
- a Quinta das Artes repousava majestosa. Lá tentaria a bolsa
de estudos para piano.
A grandeza do lugar, com seus arcos palacianos, colunas e belos capitéis,
lhe consumia o ânimo e a convicção a respeito
de seu talento inato, lhe escapava a cada passo que mudava.
Todos os anos, inúmeros jovens como ela, ali se aventuravam
como andarilhos nos caminhos de Santiago, em busca da fonte que presumia-se
inesgotável daquele manancial do saber .
Não soube como se deparou ao fim do labirinto de corredores,
o átrio onde jovens talentosos dedilhavam freneticamente um
grande piano de cauda, observados pela banca selecionadora.
Sentou-se, e tentou organizar na mente, a peça que interpretaria.
Escolhera-a com ajuda do "senhor Teodoro", um velho músico
aposentado que sazonalmente, com o "fluir das águas"
aparecia para pescar no pantanal e se hospedava na pousada onde Isabelle
e sua mãe trabalhavam.
Ele convencera-a que tinha um raro talento e desde então a
incentivava a se aprimorar junto ao decrépito piano que tinha
ao alcance das mãos.
___toque Tchaikowisk! É apaixonante. Traduz emoções
em ebulição! Este é o seu caminho Isabelle. Nunca
deixe que sua sensibilidade e paixão cedam espaço a
maior armadilha da vaidade de um músico talentoso: composições
com precisão matemática, para qual, é preciso
técnica sofisticada e nenhum sentimento. Evite se enveredar
por Liszt ou Rachmaninov! - aconselhou-a o músico.
Despertou bruscamente de seus solilóquios, quando uma voz solene
anunciou seu nome. Chegara a sua vez e ela sentiu-se sendo carregada
por forças sobrenaturais para o piano, já que não
conseguia se comunicar com suas pernas.
Aproximou-se do instrumento, trôpega, como se embriagada e por
fim, sentou. Não se utilizava de partituras pois era autodidata
e não as sabia ler. À sua volta, no grande salão
do recital, do alto da tensão que sofria, divisava apenas imagens
borradas.
Dedilhou, no princípio insegura. Depois, evoluiu os trinados
melódicos, com a paixão que lhe era peculiar, sofrendo
em contra-ponto angústia por temer que ao primeiro acorde desarmônico
seu, o sonho lhe escapasse literalmente por entre os dedos.
Ao terminar, saiu cabisbaixa. Outros jovens esperavam por sua vez
de se apresentarem à bancada.
___Não consegui! - pensou, contendo a dor muda latejante em
seu peito jovem.
Ao procurar a saída, percebeu ao passar, o olhar frio e a face
contraída de uma das velhas senhoras examinadores. Este olhar
percorreu de Isabelle, para depois fixar-se em um camarim semi-oculto
no piso superior, de onde apenas se podia divisar com um belo par
de mãos, dotadas de longos dedos que pareciam sob intensa emoção,
pois a todo tempo se entrelaçavam e estremeciam em espasmos.
O rosto e o corpo da silhueta misteriosa, estavam ocultos por um grande
roupão com capuz.
Ouviu no corredor o comentário, que a tal criatura misteriosa
era quem na realidade dava o "voto de Minerva" na classificação
de um aspirante à bolsa.
___Que gente estranha ! - pensou a jovem recém-chegada.
Desceu para a cidadela em busca de algo para comer. Não tinha
nada no estômago e depois da emoção que sofrera
era bem capaz de desmaiar. Não ficaria nem mais um dia para
saber o resultado. Sua mãe estava certa. Aquele não
era seu mundo. Sentou-se em um banco de praça depois de tomar
um copo de leite com chocolate e um pão com queijo feito na
chapa em uma pequena lanchonete de esquina. O relógio da igrejinha
central soou, ecoando pela manhã radiosa, causando um efeito
onírico.
____Este lugar mexe comigo ! Pensou Isabelle.
____Quem me dera poder ficar por aqui, mas para garotas pobres como
eu, a única chance era a bolsa de estudos e agora, isto me
parece tão absurdo e vago. Eu realmente não devo ter
nenhum juízo.
Não viu as horas passarem. O Sol mudou sua luz esbranquiçada
para o amarelo dourado da tarde. Sua pele se aqueceu e ardeu um pouco.
Refletiu, se deveria ao menos consultar o resultado da mesa avaliadora
mas seu acabrunhamento a fez continuar inerte naquele banco, sem forças
para reagir ao sentimento de fracasso. Sabia que dera o melhor de
si, mas talvez o seu melhor, estivesse muito aquém do que os
virtuosos mestres da Quinta entendiam como um talento a ser lapidado.
____Sai desse sol, menina! Assim você se queima inteira! - avisou
uma senhora que passava por ali.
____Deixa, Gertrudes ! Esta garota não tem a pele como a nossa!
Veja, ela parece ser esculpida no bronze!
Isa observou que a mulher tinha razão. Os moradores daquele
povoado descendiam de imigrantes europeus e eram tão alvos
quanto paredes caiadas.
Pelo seu lado, a garota de 18 anos era mestiça índio
com alemão. Sua mãe fora criada em uma fazenda do Mato
Grosso do Sul. Descendia dos bravos índios Guaicurus. Seu pai
era o filho de um fazendeiro alemão recém aportado no
Brasil.
Da relação de amor dos dois nasceu a morena Isabelle,
que recebeu do pai, como único legado, o sobrenome Zimmerman.
Um acidente ceifara a vida jovem do pai e o avô rejeitara mãe
e filha.
Mudaram-se para outra fazenda, onde a mãe trabalhara como cozinheira
para criar a filha. O piano, Isa o aprendera tocar ouvindo escondida,
a velha senhora, dona da Fazenda Montes da Promessa, tirar acordes
sublimes com seus dedos deformados pelo reumatismo.
_____Ei ! Você é a Mato-grossense que está disputando
a bolsa de estudos para música? - perguntou um rapaz magro,
muito branco, de cabelos ruivos espetados.
Isa moveu-se no banco, muito à contragosto. Sentia-se incomodada
por perceber que seu doce anonimato fora quebrado.
_____É ! - respondeu.___Na Verdade, Sul-mato-grossense! - corrigiu.
_____O resultado já saiu ! - continuou o rapaz, sem se importar
com detalhes tão regionais.____ A banca reprovou 99% dos candidatos.
Eles sempre são muito severos na avaliação para
o piano.
_____Sim, eu percebi!
_____Porém este ano aceitaram um nome. Uma tal Isabelle Nunes
Zimmerman ! Li no mural. Quanto aos outros candidatos, ou pagam a
pequena fortuna que é exigida pelo curso, ou caem fora ! Ainda
bem que para a bolsa de pintura e desenho, havia 4 vagas. Eu consegui
uma. Meu nome é Godofredo e o seu?
O jovem não recebeu resposta e assustou-se ao ver a moça
saltar como se fosse feita de borracha do local onde se quedara e
sair correndo pela praça gritando !
____Ai meu Deus, eu passei ! Eu passei!
"O
pesadelo de olhos de aço"
Apesar
de o sonho "Quinta das Artes" revelar-se muito superior
a tudo que imaginara, não demorou para Isa descobrir que uma
bolsista sem dinheiro teria sérias dificuldades para arcar
com as despesas básicas como a de adquirir o mínimo
do equipamento necessário para o aprendizado.
Fora alojada em um quarto com dois beliches que dividia com mais três
moças de idade entre 17 e 22 anos.
Na primeira aula teórica ao piano deveriam levar diapasão,
caderno pautado e metrônomo. Isa não possuía nada.
A professora, Mestra Norayeva, depois da aula se aproximou e com seus
olhos frios e penetrantes, propôs:
____Quer ganhar algum dinheiro menina? Precisa comprar seu material
ou não poderá continuar a participar da aula. Para tanto
é só não ser orgulhosa e encarar um trabalho.
Temos uma vaga para faxina nas alas da música. Recebi uma sugestão
para oferecê-la a você. Aceita?
Isa assentiu com a cabeça, desconfiada da oferta daquela mulher,
que parecia desprezá-la sem ao menos conhecê-la melhor.
____Então siga-me! Vou mostrar-lhe onde começará.
O trabalho consistia em tirar o pó dos móveis e limpar
o soalho de pedra de várias salas de música. A Quinta
das Artes, na verdade, era uma espécie de fortaleza dividida
em vários blocos, onde cada um destes era dedicado ao ensino
de uma variedade artística.
No imenso platô havia no total nove blocos.
Em uma Rocha gigantesca que rasgava o terreno estava plantada o "ninho",
que era uma mansão em estilo Português, onde morava a
Senhora Duarte de Alencar, proprietária da escola e muitas
terras, até onde a vista podia alcançar- contaria um
velho morador da cidadela.
Isa, agora esfregava com força o chão de mármore.
Sentia raiva e um misto de frustração, mas não
se deixaria dobrar. Mestra Nora certamente esperava que ela desistisse
mas provaria que podia administrar seu orgulho e contornar mais aquele
obstáculo.
_____O que eu fiz para essa mulher implicar tanto comigo? - pensou.
Passara semanas tentando se adequar à sua nova vida e preservando
ao máximo seus longos e ágeis dedos. Depois das aulas,
arranjava sempre um tempo para tocar algumas baladas de amor, o que
atraía seus colegas em torno de si e granjeava-lhes o respeito
almejado. Comentavam que a novata era puro sentimento e nenhuma teoria,
o que Isa, se esforçava ao máximo para adquiri-la pois
sabia que necessitava ao menos dominar um pentagrama para passar a
evoluir na música erudita.
O serviço de faxina que lhe fora designado não era pesado,
apenas trabalhoso e ainda havia tempo para poder praticar sozinha
em alguma sala vazia - conformou-se.
O barulho da porta que se abriu de supetão a içou de
seus pensamentos. Uma moça com idade aproximada à sua
entrara colidindo contra tudo que encontrava à sua frente.
Isa já sabia que aquele belo exemplar do gênero feminino
era a temida Alexandra Duarte de Alencar, a quem chamavam de Alexa.
Tinha os cabelos cor de trigo com tons acobreados. Os olhos cinzas,
frios eram algo raro e espetacular que Isa - tinha de admitir - não
conhecera mais belos. Os lábios semelhantes a cerejas tenras
e rubras, estabeleciam uma composição harmônica
com o nariz reto, a pele de romã e a testa alta e inteligente.
Esta possuía um detalhe peculiar e sedutor: o "v".
Aquela invasão densa de fios, que rompia a linha entre seus
belos cabelos lisos e a pele muito alva.
Alexa aproximou-se com seu passo aristocrático. Tinha longas
e bem torneadas pernas e quase sempre vestia uma roupa negra de couro,
botas e os cabelos, cortados rente ao queixo, estavam presos por uma
espécie de tiara de pedras cintilantes.
____Nunca cruze o caminho de Alexa ! - avisou, certo dia, uma das
garotas de seu alojamento.
Isa, mesmo inebriada pela beleza da jovem, sentiu algo dentro de si
a alertar, mesmo que tardiamente. Ainda estava de joelhos, esfregando
o chão, quando o balde foi chutado com estrondo e voou ao seu
encontro, molhando-a completamente.
Alexa riu desafiadoramente. Seu rosto agora mostrava duas covinhas
nas bochechas.
Isa ergueu-se indignada. Vestia, como costume uma camiseta sem manga
e sua velha calça jeans desbotada, que sem que ela percebesse,
valorizava sua silhueta morena e flexível. O contorno de seus
seios apareceu sob a camiseta molhada e, por um breve instante, ela
pôde perceber que Alexa parou de rir e mirou-a estática.
Era um olhar estranho, como se algo a estivesse perturbando profundamente.
Isa sentiu sua ira borbulhar na garganta e no exato momento em que
Alexa pareceu desarmar-se, saltou sobre ela.
Rolaram pelo piso molhado, como duas gatas selvagens. Isa não
viu quem as apartou, mas pôde ver que os lábios carmim
da jovem Duarte de Alencar sangravam e em sua face direita, aparecera
um pequeno hematoma azulado.
_____Estou perdida! - pensou em desespero ao cair finalmente em si.____machuquei
a filha da Diretora...
Levaram-na para uma espécie de gabinete, onde deveria aguardar
seu castigo. Seu corpo tremia de aflição e medo.
_____Eu deveria controlar meu gênio ! Agora está acabado.
Perdi tudo em tão pouco tempo!
Esperou por uma ou duas horas, que mais pareceram semanas, até
que um rapaz alto, branco, de cabelos negros azulados entrou e lhe
ofereceu um prato com duas fatias de pão de centeio e queijo.
_____Coma! Vai te fazer bem.
Isa não se fez de rogada. Seu estômago fervia e ela sentia
que aquele era o último lanche da condenada antes de ser expulsa
de seu Éden.
O rapaz esperou silencioso até que ela engolisse até
os últimos farelos do alimento, sorrindo-lhe agradecida.
_____Volte para seu alojamento ! Está liberada.- avisou.- Intercedi
junto à diretora e à Mestra Nora por você!
_____E por quê fez isso? Você não me conhece! -
perguntou a garota, desconfiada de tamanha generosidade gratuita.
O rapaz sorriu timidamente e Isa pode ver que seus olhos, mesmo ocultos
por óculos de lente muito grossas, eram de um belo azul profundo.
_____Minha irmã às vezes passa dos limites e não
está acostumada a encontrar alguém que a enfrente. Tem
um gênio difícil e Nora a estimula. Você a surpreendeu.
Quem sabe assim, a partir de hoje ela passe a respeitá-la.
Os confrontos estabelecem laços.
Isabelle percebeu enfim quem era seu gentil interlocutor.
_____Você é Eduardo Duarte de Alencar?
_____Sim, e você é a jovem pianista talentosa que conseguiu
uma das bolsas de estudo mais cobiçadas na Quinta. Eu a ouvi
tocar. Você é como um diamante bruto à espera
que um ourives a lapide com arte. A senhora Duarte de Alencar, minha
mãe, certamente percebeu seu talento.
_____Ela estava na sala?
_____Sim! Ela sempre está pelos recônditos mais secretos
de todo complexo da Quinta. Você não a viu. Quase ninguém
a vê. Nos recitais, costuma ficar em seu camarote oculto, metros
acima de onde está o piano. Eu fazia parte da pequena platéia
do local quando você tocou sua peça musical. A forma
como interpretas é tocante. Algo assim de alma e paixão.
Seja bem vinda à Escola de Arte. Pode contar comigo e com minha
amizade.
Isa não acreditava em sua boa sorte e sentiu-se revigorar e
restabelecer sua confiança em si mesma, com o entusiasmo do
jovem Eduardo.
_____Venha, está na hora do lanche da tarde. Você senta
comigo no refeitório. Quer?
O rapaz, de cerca de 24 anos, tinha um porte bem talhado e apesar
de não ser propriamente o modelo de homem bonito, exalava um
certo encanto pessoal e infundia confiança com sua voz grave
e agradável. Seu andar, porém, denotava que possuía
certo problema - ainda indefinido para a moça - em uma das
pernas, talvez um pouco rígida na altura do joelho.
____Vamos! Quero que meus amigos conheçam a gata selvagem Pantaneira!.
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