Capítulo
13 - DOMINGO, TRÊS MÊSES APÓS.
Ivy entrou, acompanhada por Victória na grande propriedade
onde seria a festa à fantasia beneficente promovida para a
alta sociedade de São Paulo. O objetivo do evento era angariar
doações para entidades carentes.
A
filha do diplomata ucraniano vestira-se de Columbina e estava acompanhada
por Victória que se fantasiara de espadachim mascarado. Sua
ampla capa preta, ajudava a disfarçar as formas femininas e
os coldres com as armas. Acompanhava os passos de Ivy, divertindo-se
com as outras fantasias.
A
mulher gato passou, ronronando e jogando beijos para o Batman. Napoleão
já estava corado de embriagues e sentara nos degraus de pedra
para contar as aventuras de sua vida ao seu amigo César o conquistador.
Cleópatra
chamou a atenção de Victória, não só
pelo porte altivo e a beleza da sua fantasia mas pelo rosto com lábios
cheios e grandes olhos azuis contornados à moda dos faraós.
Gelou
ao reconhecer Louise Bittencourt. Devia ter previsto sobre o risco
de encontra-la em uma festa como aquela. Desde aquele dia em que se
falaram ao telefone, não fizeram mais
contato.
Com
a mãe, avista-se a cria. Julia divertia-se fantasiada de Elfo.
Uma linda elfo com direito a orelhas pontudas, vestido diáfano
e flores nos cabelos.
___pelo
menos, a família Bittencourt está sobrevivendo à
crise do "flagrante na Alcova". - concluiu Victória,
convicta que se Júlia a visse por perto, teria um verdadeiro
ataque histérico.
Napoleão,
Júlio César, Ramsés II e Tarzan, se acercaram
de "Cleópatra" entabulando conversa e o primeiro
que tentou aproximar-se um pouco mais foi rechaçado pelo "Elfo"
Júlia que se enfiou entre a mãe e o intruso, com expressão
hostil.
___O senhor mantenha a distancia e o respeito! - disse a jovem.
Victória
encostou-se em uma pilastra e riu da expressão frustrada dos
galanteadores. Era certo que antes, quando Louise namorava Enrico
Campos, Júlia não apresentava este comportamento. Entretanto
depois do trauma que sofrera, seu apego pela mãe tornara-se
obsessivo.
Do
gazebo onde estava, Victória podia observar o que se passava
no imenso jardim no nível abaixo e assim, acompanhar com atenção
os passos da Colombina, que neste exato momento conversava animada
com o Fantasma da Ópera.
Tocou uma valsa e os pares formaram-se , deslizando graciosos. Talvez
com supremo esforço,(enfrentar um Elfo rabugento) Pierrô
conseguiu tirar Cleópatra para a dança.
Victória
sentou-se na mureta e rememorou os acontecimentos daquelas quinta
-feira decisiva, meses atrás.
Ivy
abandonou sua conversa com o Fantasma da Ópera e procurou Victória
com o olhar. Ao avista-la no gazebo, caminhou em sua direção.
___venha
dançar comigo. Ninguém desconfia que você é
mulher e além do mais, preciso manter o Fantasma da Ópera
à distancia. O moço é um tanto atrevido.
Valsando
com Ivy nos braços, Victória avistou Louise que dançava
com um "Super-Homem" de cabelos castanhos claros densos
e queixo quadrado. Um belo exemplar masculino. - concluiu a detetive.
A valsa foi trocada por uma música lenta e os pares adequaram
os passos ao ritmo. Por sobre o ombro de Ivy, Victória avistava
o "Super-homem" estreitar a "Cleópatra"
em seus braços. Ivy por seu lado, encaixou as pernas e a pélvis
contra o corpo de Victória. Iniciou-se a troca de pares e o
"Fantasma da Ópera" largou sua parceira para arrancar
Ivy dos braços do "Espadachim Mascarado".
___é
a regra, amigo. - disse o sujeito.
Victória
ficou perdida entre os pares que dançavam e que trocavam de
parceiros. Em um vão, avistou Louise que já se desvencilhara-se
do "Super-homem" e dançava com o "Batman".
As mãos do rapaz desciam da cintura de "Cleópatra"
e escorregaram para seu traseiro, coxas. O gesto atrevido teve uma
conseqüência rápida e dolorosa. Uma joelhada entre
as pernas que fez o atrevido dobrar-se.
Furiosa,
Cleópatra afastou-se e foi interceptada pelo "Espadachim
Mascarado" que a enlaçou pela cintura e a puxou para o
centro da pista de dança.
___um
castigo merecido para tamanho atrevimento. - Victória elogiou-a
com um sorriso tímido.
Ao
reconhecer a Di Angelis, Louise Bittencourt estacou.
___o
que faz aqui ?
___cuido
de uma Columbina festeira. De outro modo não poderia entrar
em um círculo tão restrito, não é ?
Voltaram
a dançar em silêncio e a "Cleópatra"
pousou o rosto no colo do "Espadachim Mascarado".
___seu
coração está batendo forte. - sussurrou-lhe ela.
___Talvez
de medo de ser atacada por uma "Elfo" furiosa.
___Leandro
o "Pierrô" já a está levando para casa.
Já passa da meia-noite.
___E
assim, a noite está apenas começando para a "Cleópatra".
- retrucou Victória, enciumada.
Louise
estacou o passo da dança.
___É isso. E preciso conversar e dançar mais com os
outros convidados. Também não aprecio o "fácil"
ou o "vulgar".
Afastou-se deixando-a sozinha no meio da valsa.
Victória
enrubesceu. Sentia como se tivesse levado um tapa no rosto.
Saiu do meio dos convidados e voltou para seu refúgio no Gazebo.
Naqueles meses, lera os jornais apreensiva, esperando encontrar uma
reportagem anunciada em letras maiúsculas: Empresária
dona do Grupo Soleil, vista ao lado de Fulano, ou namorando, Sicrano,
ou mesmo de flerte com Beltrano. Mas a Bittencourt parecia ter se
fechado das vistas dos fofoqueiros de plantão.
Inocentada
no caso do "Esquadrão de Justiceiros", Louise voltara
a chefiar a Seccional de Polícia da região, mas continuava
a fiscalizar com mão de ferro seus diretores, administradores
e os negócios de suas empresas, por intermédio de Leandro.
O
que surpreendera Di Angelis, foi o afastamento voluntário e
definitivo do rapaz da força policial.
___depois
do episódio do "Devorador de Almas", o Leandro ficou
um tanto abalado. Não tem a fibra da irmã - explicou
Agnaldo.__Todos nós estamos fazendo terapia.
___o
episódio do "Devorador de Almas" mudou completamente
a minha vida. - constatou Victória.
A
Columbina moveu-se em direção do Gazebo onde estava
Victória, mas foi interceptada pelo "Robin" , que
a conduziu para o centro da pista de dança, apertando-a contra
si, enquanto suas mãos lhe acariciavam as costas.
A
bebida fazia efeito entre os convidados e casais em beijos e abraços
ardentes já se formavam por todo lugar, escondendo-se em nichos
formados pelos ramos das árvores.
___Eu
sabia que isso ia virar uma babilônia. - concluiu Victória,
saindo para procurar a "Cleópatra", sem se afastar
muito pois precisava manter a Columbina ao alcance da vista.
Não
sabia porque insistia em torturar-se. Naqueles meses até arranjara
algumas paqueras e namoradas nos bares e nas boates GLS em São
Paulo. Era conhecida por "Vivi" que morava em uma cidade
do interior. Apenas isso. Ninguém sabia ao certo com que trabalhava,
seu nome e onde vivia. Fazia sucesso quando transitava nas avenidas
com sua moto, roupa de couro, óculos de aro sextavado com lente
em tom vinho.
Entretanto
por mais que se esforçasse, sua libido havia desaparecido e
não conseguia mais alcançar o prazer, por mais que sua
parceira se esforçasse.
Estava
"castrada" emocionalmente. Concluiu assustada. Procurando
até um terapeuta especialista no assunto.
Iniciara
o tratamento sem sucesso. O profissional garantira que aos poucos,
Victória recuperaria sua libido, mas a jovem sentia-se desanimada.
Voltando
o foco de sua atenção para a festa à Fantasia
Beneficente, do ponto onde estava, avistou um homem tocando intimamente
uma mulher, ocultos parcialmente por uma estátua. Ela gemia
e o coração de Victória disparou, deixando-a
fora de si pois julgou saber quem era a mulher.
Avançou
contra o casal e estacou o passo ao perceber que estava interrompendo
a intimidade do "Napoleão" com a "Nefertiti".
Afastou-se
a tempo de não ser percebida e voltou ao local onde pares ainda
dançavam ternamente na pista.
"Robin" beijava a "Columbina" e a moça
parecia estar bem à vontade.
Victória
voltou para o Gazebo. Sentia-se vazia e intensamente solitária.
Em algum lugar daquele jardim, Louise poderia estar em companhia de
um amante fogoso.
___não.
Ela não se submeteria a isso. - argumentou para si mesma.
Mas
o ciúme corrosivo não parava de consumi-la.
Sentou-se
no banco de pedra e aparou a cabeça com as mãos tentando
sufocar a dor que a invadia em seus momentos de solidão.
Naqueles meses difíceis depois do adeus à Louise, agira
maquinalmente sem pensar na ferida viva que trazia no peito e que
parecia que nunca iria cicatrizar.
Tentara
em vão se envolver com alguma garota e evitara de todas as
maneiras que conseguira, cruzar o caminho da Bittencourt. Mas naquela
noite, o destino a colocara novamente à sua frente para fazer
com que o punhal cravado em seu peito, mergulhasse mais fundo.
Alguém
acariciou-lhe o cabelo e surpreendida, Victória ergueu o rosto
e viu a "Cleópatra" em sua frente, olhando-a com
uma expressão de intensa ternura.
___finalmente
encontrei seu esconderijo - disse ela.__refleti melhor e concluí
que este nosso encontro sem previsão, poderia ser a oportunidade
para finalmente conversarmos.
___não
acredito que ainda temos o que conversar.
___O
que disse aquele dia ao telefone, Victória. Você me acusou
de vulgaridade, de ser uma mulher amoral.
___pinçando o evento passado e lançando-o na arena agora,
sob uma análise fria, eu devo pedir desculpas pela intenção
de ofender. Não posso julga-la. Quem sou para julgar as pessoas
?
___não
pode me julgar, assim como não a julgo.
___mas você sabe que existem muitas diferenças entre
nós e que eu sou a culpada de ter perseguido-a meses a fio
tentando seduzi-la.
___gesto
insensato seu que rechacei com toda minha energia mas não foi
o suficiente.
___Sim. Não foi suficiente lutar contra minhas constantes investidas.
Tenho consciência dos meus erros, da irresponsabilidade cometida,
mas eu pensei que depois de tudo que passamos juntas, do perigo, das
aventuras, houvesse criado um elo entre nós que não
se partiria. Um elo de confiança, companheirismo e lealdade.
___eu
cumpri as promessas que lhe fiz, Victória. Todas elas.
___Sim,
principalmente a que não me abandonaria nos subterrâneos.
Quero que saiba que sempre serei grata a você por isso. No entanto,
quando regressei e me lembrei do nosso passado, pensei que poderíamos
tentar manter um relacionamento.
___mas
tanta coisa mudou em apenas um ano, não é ? deve ter
sido confuso para você, lembrar-se da nossa noite juntas em
minha cama na véspera da caçada ao "Devorador de
Almas" e quando regressou, eu estava casada com seu pai e a havia
tornado minha enteada.
___um
momento difícil para mim, é verdade. - concordou Vick.
___E uma tortura intensa te avistar tão próxima e não
poder abraça-la e beija-la. Sabe que não resisti...
___eu
sei.
Victória
tremia ao vê-la ali tão próxima.
___porque
me evitou todo este tempo, Dian ? Porque trocou a fechadura de seu
apartamento e não atendeu aos meus telefonemas ? Outra vez,
eu fui até seu escritório, sabia que você estava
lá mas não fui atendida.
___os
elos romperam-se, Louise. Não existem mais a confiança
e a lealdade que nos unia. Você escondeu segredos importantes
de mim. Segredos que interfeririam diretamente em nosso relacionamento
. Nunca estive freqüentando sua cama e a de outra mulher no mesmo
período em que estivemos mantendo este relacionamento.
___como
pode exigir que eu não tenha segredos para você se desde
o momento em que passamos a trabalhar juntas, você não
faz outra coisa a não ser me ocultar fatos, pessoas, circunstâncias
?
___o
que quer dizer com isso ?
___que
você tem informantes misteriosos e que conhece Miranda Nogueira
e a avisou sobre o plano do cerco policial, plano este que ajudou
a arquitetar.
Percebendo
que não havia argumentos para despista-la e o perigo de se
estender naquele assunto, Victória amuou colocando-se em defensiva.
___Você
está certa. Cada qual com seu segredo. Agora, se me der licença,
eu gostaria de ficar só. Pode voltar para a babilônia
particular nos jardins e para os beijos de algum cavalheiro apaixonado.
- falou com a voz fraca.
___eu
disse que não aprecio o vulgar. Não vim a esta festa
para levar outro amante para minha cama.
Louise
voltou-lhe as costas e apoiou-se no beiral de madeira do Gazebo, aparentemente
distraída em observar o luar radioso. Percebera claramente
que Di Angelis fechara-se e decidiu ser prudente e tentar romper suas
muralhas mudando a abordagem.
___não
tive a oportunidade de agradece-la por ter ajudado a provar minha
inocência. - falou.
___não há necessidade. Edgar e sua equipe trabalharam
com eficiência. Agradeça a eles.
___mas
foi você quem desvendou a incógnita.
___recebi
de Edgar uma quantia generosa pelo meu trabalho no caso. No entanto
desconfio que a quantia não saiu do seu bolso. Um delegado,
honesto, não teria tanto dinheiro para dispor - cortou Victória.
___Quanta
perspicácia. Mesmo assim, como já havia dito antes,
não haverá quantia suficiente para compensa-la pelo
que fez.
A
voz de Louise soava fraca e rouca. Voltou-se para Victória
e a fitou indecisa. Percebeu-lhe o distanciamento.
___você
e Ivy, são amantes ? - perguntou timidamente.
O
inusitado da pergunta surpreendeu a Di Angelis.
___não.
Mantemos uma relação profissional que aos poucos está
derivando para uma boa amizade. Também sei cultivar amigos,
Louise.
___e
a garota ruiva ?
___uma
amiga de longas datas em apuros que socorri. Não possuo amigos
só na esfera policial, você sabe.
Louise
refletiu. Conhecia Victória o suficiente para saber que se
alguma daquelas mulheres citadas fosse uma namorada sua, não
receberia respostas tão claras e diretas. Di Angelis preferia
omitir a ter que mentir.
Aproximou-se
e a enlaçou. Sentiu sua resistência mas aos poucos, acariciando-a
e lhe falando palavras ternas ao ouvido, conseguiu encosta-la contra
a viga de sustentação do Gazebo, apertando-a com seu
corpo.
___o que ainda quer de mim além do que já lhe ofereci,
Dian ?
Com
aquela pergunta, Victória julgou que chegara o momento de abrir
o jogo. Nunca vira Louise tão aberta ao diálogo. Ela
sempre a impedira de discutir o relacionamento quando estavam a sós
ou em momentos de intimidade.
___eu
a quero para mim, Loui. Sem limites, da mesma forma como eu me entrego
a você.
___você
tem meu corpo, minha intimidade, o que mais deseja?
___Desejo-a
plena. Não a quero pela metade, dividindo seu corpo, sentimento
com outros.
___eu
ofereço a você o único sentimento que posso ter.
Algumas pessoas não entendem o amor. Principalmente o amor
entre pessoas do mesmo sexo. Eu sou uma delas. Não posso engana-la.
Di
Angelis, abraçou-a e lhe falou ao ouvido ternamente.
___Sim,
uma vez você me disse que era incapaz de amar. Eu posso entender.Digo,
sei que tenho que entender. No entanto quero que esse sentimento que
é capaz de ter, talvez desejo ou paixão, seja doado
apenas para mim. Não poderia compartilhar as migalhas que recebo
com mais alguém.
___as
"migalhas" que posso oferecer, são suas, Dian.
___Não.
Eu as tenho que dividir com "aquele" homem da fotografia.
- Victória falou com amargura.
A
Bittencourt, afastou o rosto e a olhou nos olhos com firmeza.
___eu
nunca a trai, Victória. Aquele moço que você viu
na foto não é meu amante. Precisa acreditar. Enquanto
estive com você, não compartilhei minha intimidade com
ninguém.
___me perdoe, Loui mas eu tenho medo de acreditar e me iludir novamente.
Di
Angelis tocou a lágrima que escorreu dos olhos de Louise e
percebeu que estava lhe causando dor.
Uma
centelha de esperança fulgurou no coração de
Victória. Via nos olhos líquidos dela a sinceridade
.
___não
precisa dizer mais nada, meu amor. - pediu, enquanto a beijava ternamente.
Mas
a julgar pela intensidade das carícias que Louise iniciara
a lhe fazer, ela queria muito mais. Sua pele macia estava incandescente.
___eu
a quero, Dian. Não consegue perceber ? - sussurrou.
___aqui
não podemos, minha rainha. Já está alta a madrugada.
Mais algumas horas e poderemos nos encontrar. Sejamos pacientes e
seremos recompensadas. Eu não consigo pensar em outra coisa
agora a não ser nos momentos que desfrutaremos juntas.
Louise
retirou a parte superior de sua fantasia e desnudou seus seios redondos
oferecendo-os aos lábios de Victória.
A ex-policial reclinou-se e sorveu um dos gêmeos enquanto sua
mão acariciava o bico túmido do outro. A Bittencout
emitia suaves gemidos entrecortados, enquanto lhe acariciava os cabelos.
___Então,
agora preciso ir, Dian. Mas não me faça esperar. Sabe
o quanto o desejo me inebria, desorienta, consome. Não me faça
esperar. - repetiu.
Recompôs
suas vestes e saiu do esconderijo no Gazebo.
Na madrugada cálida, as pessoas ressonavam em cantos do jardim,
enquanto alguns casais ainda dançavam languidamente.
Di
Angelis ainda procurou Louise com os olhos mas percebeu que ela já
não se encontrava mais ali. Consultou o relógio: 2:20
da madrugada.
Caminhou pelas veredas revestidas de pedra e encontrou - sentada quieta
junto a um espelho de água- a Columbina que parecia mergulhada
em seus pensamentos.
___E
então, vamos embora ? - convidou Vick, oferecendo a mão
para ajuda-la a levantar-se.
Ivy
aceitou e colocou-se em pé com um sorriso preguiçoso.
___acho
que nos divertimos o suficiente para a semana inteira. - disse ela.___eu
pelo menos, beijei bastante. - riu, apoiando-se em Victória
para caminhar.___parece até conversa de adolescente, mas hoje
em dia é preciso ter cuidado. Tem muita doença sexualmente
transmissível que se alastra com a promiscuidade.___acredita
que este pessoal no alto da embriagues lembrou de usar preservativo
ou outro cuidado qualquer?
___é.
Uma prática perigosa. - concordou Victória.
Alcançaram
o veículo e no caminho escuro iluminado pelos faróis,
as arvores pareciam silhuetas de pessoas, como se em um ritual mágico,
saudassem a chegada da Aurora.
Ivy
Mayakovich já ressonava profundamente adormecida, com a cabeça
no ombro da motorista.
Na
mente da Di Angelis, só um pensamento. Entregar a jovem aos
cuidados dos outros Guarda-costas e ligar para Louise Bittencourt.
Era bem provável que ela estivesse hospedada em algum lugar
na grande São Paulo.
Imaginou
que poderiam descansar juntas por algumas horas e quando despertassem,
se entregarem ao desejo.
Na
rodovia, uma ou duas horas depois, um movimento anormal chamou a atenção.
Viaturas da polícia, corpo de bombeiros e carros comuns, parados
no acostamento. Havia partículas de vidro e marcas de pneus
no asfalto.
___algum
acidente. - concluiu Ivy, desperta pelo ritmo lento com que Victória
passou a conduzir o carro em meio àquele congestionamento.
Aos
poucos, atravessavam a parte tumultuada, quando viram um veículo
capotado. A placa, Victória conhecia o que a fez guinar a direção
e estacionar o carro.
___é
o carro de Louise. - conseguiu exclamar antes de sair correndo para
a ambulância próxima.
Um bombeiro a reconheceu e tentou acalma-la.
___os
outros dois carros com os guarda-costas da Delegada que seguiam seu
veículo, receberam rajadas de metralhadora e saíram
para o acostamento.
A Delegada pressentindo o perigo, acelerou e conseguiu se livrar de
um cerco, acabando por ser perseguida pelos automóveis que
a abalroou até que saísse da pista e capotasse. Quando
chegamos, não a encontramos mais dentro do veículo.
Acreditamos que tenha sido seqüestrada. Dois guarda-costas morreram
e outros dois estão feridos.
Victória
correu até o veículo de Louise e agachou-se para verificar
o interior. Não havia vestígios de sangue, o que poderia
significar que a Bittencourt fora retirada de lá à força
mas ilesa.
A
Polícia Técnica chegou e afastou Victória do
local.
Sentada
no capô do veículo de Ivy, a detetive estava prostrada
em seu desespero. Descobrira da pior forma que Louise não era
imortal ou intocável como sempre acreditara em seus delírios
apaixonados.
A
jovem ucraniana estendeu um agasalho em seu ombro, pedindo que se
acalmasse ou de outra forma não poderia ajudar em nada.
___você
tem razão. De nada adianta me desesperar. Tenho que agir. -
falou a detetive.___vamos para a cidade. Se a seqüestraram, não
demorarão a pedir o resgate para a família.
No
trajeto de volta, inquiria-se se não errara em não ter
ido imediatamente com Louise, sem se preocupar em deixar Ivy na festa.
Se estivessem juntas no carro, poderia ter feito algo, ou não.
A realidade pintava-se amarga e sem retoques. Provavelmente não
conseguiria proteger Louise e no seu esforço, seria morta,
como os outros dois guarda-costas.
Tentou
retirar da circunstância um ponto positivo: estava viva e com
isso, ainda teria sua chance de resgatar a mulher que amava.
Saltou do capô do veículo de Ivy, determinada a se preparar
para o confronto de onde poderia sair viva ou morrer.
___nós
temos uma aliança de proteção mútua, Loui
e eu não vou lhe falhar. - disse enquanto beijava a pedra vermelha
do anel que ela lhe dera.
FIM
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