Deitada
sobre uma espécie de maca móvel que lhe introduzia a
cabeça lentamente dentro do aparelho de tomografia computadorizada,
Victória tentava conter o medo, contemporizando sobre o que
lhe disseram o médico e assistentes minutos atrás.
____é
um procedimento simples, eficaz e totalmente indolor. A ciência
evoluiu muito na área dos exames de diagnóstico.
Não
soube ao certo porque lembrou-se de imagens de sua mãe sendo
submetida a uma mamografia . O procedimento certamente beirava ao
medieval e quem sabe no futuro, será comparado à extração
de dentes no século XIX, quando os práticos encharcavam
o paciente/vítima com cachaça, goela abaixo. Depois
amarravam-no em sólida cadeira de ferro e se extraía
o dente com o famoso "boticão". Aparelho bem semelhante
à torquês.
____mais
um minuto e tudo estará terminado! - avisou a assistente vestida
de azul-hortência.
____Sim,
terminado. Tudo terminado! - ecoou Vick, dramática.
O
médico vestido com roupão alface-hidropônica apertou
certo botão vermelho no painel e o zumbido fez a adrenalina
disparar aos jorros no corpo de Di Angelis que se imaginava agora,
exposta ao suplício da cadeira elétrico com seu sinistro
zunir inicial.
A verdade era que aceitara se submeter àquele exame devido
à suspeita de um coágulo em seu cérebro, o que
estaria causando a amnésia. Tal coágulo se não
tratado, poderia acarretar sérios problemas.
André lhe explicara lenta e pacientemente.
Luzes
cambiantes no interior do "túnel" metálico
do aparelho de tomografia, de um certo modo desencadeou uma espécie
de relaxamento confortável na agitada paciente.
Fechou
os olhos e rememorou mansamente os dias no interior de Minas. Dias
brandos e luminosos. Saudade. Medo.
Letícia a filha do patrão se tornara arredia e ostracista
a cada dia que precedera sua volta aos estudos na cidade grande. O
pai já se acostumara e a mãe desconfiava que tinha algo
a ver com paixão não correspondida.
Na
Festa do Peão, a jovem estava acompanhada pelo irmão
e alguns pretendentes, porém a tristeza não a abandonava.
Iolanda
pedira licença para comprar uma maçã do amor
caramelada e Maurício não disfarçava a admiração
e atração física que sentia pela estranha e calada
moça, a quem chamavam de Brisa por não lhe conhecerem
o nome certo.
____Vou com você! - ofereceu-se Let.
____Não
carece, patroinha! Já volto com duas. Uma pra mim, outra pra
senhorinha.
Agenor,
um dos peões da fazenda do Rui, apressou-se a acompanhar Iolanda.
O rapaz, moço alto, dotado de sólida e lenhosa musculatura,
nascera e criara-se naquelas bandas e fora companheiro de meninices
ao lado da bela cabocla. No entanto, depois de atingida a maioridade,
não a via mais com olhos de amigo e sim com o desejo de homem,
ansioso por conseguir torná-la finalmente sua esposa.
Diziam até que estava montando um bom e espaçoso rancho
nas minguadas terras que herdara do pai.
____Vamos
até a arena apreciar os touros! - convidou Maurício,
apanhando gentilmente o braço da irmã.
____Não!
Quero ir até o carro. Estou com uma irritante dor de cabeça.
____Tudo
bem! - anuiu o rapaz.
Brisa,
à alguns metros acompanhou os irmãos com os olhos, e
depois, passou a seguir cautelosamente a jovem fazendeira até
o estacionamento dos autos.
Em certo ponto, Letícia mudou o rumo e guiou-se para as barracas
de doces, lanches e outras guloseimas. Estacou ao avistar Iolanda
sorrindo e conversando com Agenor, que neste instante mantinha seu
braço em torno da cintura da moça.
Letícia voltou-se antes que conseguissem vê-la e se embrenhou
na área escura destinada aos carros.O luar estava esplendoroso
e o cheiro da mata verde, perfumava a noite. Entretanto, lágrimas
como gotas de orvalho cristalino, seguiam novos caminhos pelo rosto
aveludado da filha de Rui Castro.
___Ela
não sabe! É preciso falar-lhe!
Letícia
sobressaltou-se ao divisar com a alta silhueta de Brisa, recortada
contra a luz prata do luar.
___O
que quer dizer com isso? - perguntou, sufocada em súbita raiva.
___Não
vai parar de doer enquanto não deixar seu sentimento encontrar
uma vazão!
___O
que sabe sobre o amor se não é capaz de se lembrar de
nada?
Brisa
silenciou-se e Letícia, por mais que tentasse conter sua dor,
passou a soluçar desconsolada.
Abraçou-a.
___Não
tenha medo! Fale com ela! A solidão é cinza e fria.
Fale com ela e talvez, haja uma esperança para o amor.
Cidade Grande
Acordada pelas assistentes, Victória cambaleou preguiçosa
para a ante-sala. Encontrou o sisudo André Araújo que
aguardou ao seu lado até que o especialista o chamasse em particular
para o relatório do exame.
Confirmou-se
o coágulo e a data da intervenção cirúrgica.
___vamos
comer um belo canelone no Bexiga! - convidou o ex-policial, enquanto
saiam da clínica.
Vick esboçou um sorriso tímido e o acompanhou obediente.
No
local de teto baixo, móveis toscos e gastos, o garçom
avisou que a "nona" já estava cuidando da "pasta".
Serviram-se
de um bom vinho de São Roque e o assunto saúde surgiu
espontaneamente.
___a
operação será feita com um cateter e uma incisão
de meio centímetro no couro cabeludo. A caixa craniana, você
deve imaginar, será perfurada com um instrumento semelhante
à furadeira comum.
___animador!
___Por
outro lado, o cateter aspirará o coágulo em minutos
e você estará livre de qualquer risco.
Os
olhos firmes e expressivos de Victória Di Angelis, estacionaram
em suas próprias mãos.
___Está
insegura e preocupada! - afirmou Araújo.
___como
sabe?
___eu
a conheço bem. Fui seu primeiro parceiro na polícia.
O gesto de encarar as mãos, denuncia preocupação
e insegurança. Quando saiu da clínica, parou sobre o
capacho da entrada e o endireitou com o pé. É bem metódica
quando está ansiosa por agir e se livrar de enrascadas.
___pensa
que estou me sentindo encrencada?
___encrencada
e sem escolha!
___parabéns
pela perspicácia.
O
garçom trouxe a conta. Araújo conferiu a comanda e deixou
as cédulas debaixo do cinzeiro.
___vamos
dividir. - argumentou Vick, puxando uma carteira gasta do bolso do
jeans. Recebera certa quantia de Rui à título de pagamento
e para a eventualidade, se desejasse, comprar uma passagem de volta
para o interior de Minas.
___Nada
disso. O patrocinador é quem está pagando. Vamos embora.
___Quem
é o patrocinador ? Meu pai ?
___não.
Mas cedo ele, o patrocinador, aparecerá para se encarregar
de você.
___o
que foi combinado ?
___Ele
aparece e eu passo sua custódia nas mãos dele.Simples.
___Alto
lá. Isto não cheira bem. Não sou produto para
comercialização.
___Posso
pedir que continue a confiar em mim ? O que diz sua intuição
?
___Diz
para acreditar em sua boa fé e é isso que tenho feito
até o momento.
___E
eu vou lhe contar um segredo. Sua intuição é
insuperável. Nunca lhe falhou. Você teria se metido menos
em encrencas se tivesse confiado mais nela.
Entraram
no velho fordão e Victória apertou o pino da porta,
bateu, puxou o pino novamente e tornou a aperta-lo.
___acabou
de travar.
___travar
o quê?
___a
porta.
___é
importante na cidade grande. Estamos em São Paulo, a desvairada.
___Então
lembra do apelido da Sampa ?
___algumas
coisas fluem na cabeça, naturalmente.
___Tal
como travar o fordão do Araújo. O mecanismo da porta
tem um defeito que obriga a soltar e apertar o pino duas vezes para
travar. O que isso denota ?
___Denota
que você tem que trocar as engrenagens da porta.
Araújo
riu.
___não
despiste. Você sabe onde quero chegar.
___não
tenha certeza disso.
___Então
vou explicar direitinho. A senhorita Di Angelis, já usou este
fordeco. É carro de colecionador e eu o emprestei a você
para ir a um baile de estilo anos sessenta. Na verdade o carro que
uso para bater no dia a dia é um maverick, que você também
conhece.
___está
bem. Estou convencida de que tenho um certo passado com você.
___E
que passado!
___conte-me
um pouco sobre ele.
___tudo
bem. Vou começar pelo caso : Bate - Estacas e se der tempo,
conto sobre o Mané Sete-léguas.
Na entrada do hotel, Araújo apanhou a chave do quarto onde
instalara Vick naquela semana e seguiram escadaria acima até
atingir a suíte número 10.
___descanse
enquanto vou ao centro resolver umas pendências. Se precisar
de alguma coisa, meu cartão está na escrivaninha.
___quando
verei aquele senhor... Antonio Di Angelis é o nome dele ? -
perguntou tentando dissimular o interesse.
___seja
paciente e nesta tarde mesmo terá a resposta.
Aqui neste envelope tem algumas fotos de amigos, colegas e parentes.
Escrevi no verso o nome e outros detalhes. Se quiser examina-las,
fique à vontade.
Saiu
apressado.
O
amplo quarto estava mobiliado com bom gosto. Os móveis imitavam
o estilo Luiz XIV e do teto pendia um imenso lustre com centenas de
gotas de cristal. A diária deveria custar uma nota firme. Decerto
também seria paga pelo misterioso patrocinador. concluiu.
Afastou as cortinas da janela palaciana e espiou da pequena sacada.
O movimento das pessoas e carros era intenso e o dia que nascera cinzento,
aos poucos cambiava para o dourado radiante.
O telefone tocou insistente. Atendeu.
___quem
está falando? - inquiriu.
Do
outro lado da linha, ouviu uma respiração tensa.
___com
quem deseja falar? - insistiu.
Não
obteve resposta e desligou.
Caminhou
pelo aposento e resolveu tomar um banho demorado. A banheira com pés
de leão transbordou o líquido morno quando se acomodou.
Esfregou as coxas, ombros e pés e um relaxamento delicioso
a fez fechar os olhos e mergulhar nas recordações da
semana anterior.
___eu
a procurei! - informou Letícia, com voz baixa.
Brisa aproximou-se da coluna do varandado e observou o semblante pálido
da filha do patrão.___na verdade ela me encontrou antes e não
tive oportunidade de falar de meus sentimentos. Anunciou que estava
"juntando os trapos" com o Agenor. Semana que vem se mudará
para o rancho do peão. Mas agora não importa. Estou
indo para a cidade e não tenho intenção de voltar
antes da formatura.
Um
silêncio embaraçoso instalou-se entre as duas.
___vou
encilhar o alazão para você. Ar fresco ajuda a organizar
as idéias. - comentou Brisa.
Let
contornou o grande vaso de cerâmica próximo e desceu
a escadaria que dava acesso á área verde defronte à
casa grande, com passos cuidadosos. No último degrau parou
e voltou-se.
___Venha
comigo!
___ainda
não terminei de lidar com a criação miúda.
___Já
mando o Almeida cuidar de suas tarefas matutinas. Quero que me acompanhe
no pasto. O alazão é velhaco.
Na sombra de um frondoso jatobá, a filha do patrão arriscou
uma pergunta tímida.
___você
se lembra de seus pais?
___Não.
Às vezes sonho com um homem alto me conduzindo pela mão.
Outras vezes, estou sentada no colo de uma mulher que toca o piano
com mãos elegantes e habilidosas.
___consegue
ver o rosto deles?
___imagens
embaçadas apenas.
Letícia
apanhou os cabelos castanhos e os ajeitou melhor sob o chapéu
de abas largas.
___deve
ser difícil para você.
___estava
me acostumando. - respondeu Brisa, amuada.
A
filha do patrão acercou-se dela com olhar inquisitivo.
___e
o que aconteceu de novo?
___um
homem da cidade. Disse que me conhece, que sou policial e tenho pai
e amigos. Todos pensam que estou morta.
Falou tudo de um fôlego só, com amargura.
Desde que André Araújo a procurara, sua vida deu súbita
guinada e agora sentia necessidade de se abrir com alguém.
Estava sendo arrastada a tomar uma decisão importante e talvez
uma pessoa como Letícia, inteligente e neutra, pudesse ajuda-la
a pensar melhor.
Depois do incidente na festa do Peão, perceberam que faziam
parte da mesma "espécie" e ruiu-se a barreira entre
as duas, instalando-se rapidamente a cumplicidade e estreita amizade.
___porque
não procurou suas origens há mais tempo? Papai de bom
grado a ajudaria.
___Mau
presságio. Sonhava com pessoas mortas, gritos agoniados, armas
e sangue escorrendo. Pensei que era uma foragida que a boa sorte roubara
a memória e oferecera nova chance para recomeçar.
___como
aconteceu o trauma que a fez perder-se?
Brisa
contou com detalhes o que Araújo lhe revelara.
___Uma
policial de primeira linha. E eu acreditando aqui que você era
uma foragida da justiça. - completou Letícia, rindo
pela primeira vez naquele dia.
Caminharam
pela alameda forrada por grama fofa.
Em
certo momento, a filha do patrão a apanhou pelo braço.
___já
pensou que seu desaparecimento marcou as pessoas que a amavam? Precisa
voltar. Este homem da cidade, ele deixou algum endereço, telefone
ou cartão?
Brisa
procurou algo no bolso da calça jeans gasta.
___está
aqui. - apresentou um cartão amarfanhado, onde havia a inscrição:
Detetive Araújo. Abaixo o número de um telefone.
Mudou o bolso e de lá sacou um papel dobrado. Era uma cópia
de parte de uma folha jornal. Em letras garrafais a inscrição:
Policial Heroína, morre em confronto com Serial Killer. Abaixo
uma foto grande do rosto de Victória Di Angelis.
Letícia
leu o artigo no jornal e sorriu entusiasmada.
___vamos
já para a sede. Meu pai vai gostar de ver isso aqui. Uns sujeitos
metidos a homens da lei andaram assuntando a seu respeito. O Rui ficou
possesso. Gosta de você.
Brisa
sorriu suavemente. Os olhos baixos fixos em algum ponto a seus pés,
denunciavam-lhe o embaraço.
___Policial
Heroína. Quase inacreditável. - exclamou Letícia.
Adiantou-se em soltar o cavalo amarrado na cerca próxima.
___me ajude a montar. - pediu.___vou aproveitar. Ainda sou sua patroa.
Na
volta, avistaram morro acima, Iolanda sorridente na garupa do cavalo
de Agenor.
A máscara de sofrimento retomou ao rosto da jovem fazendeira.
___esquecer,
às vezes, pode ser uma dádiva. - concluiu.
Retornando
de sua abstração, Victória vestiu a roupa nova
que a jovem fazendeira lhe dera e avizinhou-se do envelope com as
fotos.
Sentada na Berger, passou a escrutinar atentamente cada uma delas.
Na primeira, com um colorido envelhecido, uma mulher jovem e sorridente,
segurando uma menina nos braços. Estavam sentadas no banco
de um piano. Virou a fotografia e leu a inscrição: E.
Campos Di Angelis e Victória.
Observou com carinho o retrato da mãe e lágrimas afloraram
em seus olhos. Vê-la sentada diante do piano, era como ver a
si. Apenas alguns detalhes diferenciavam. Outros, como os cabelos,
formato do rosto e olhos, estes não desapareceram com ela.
Sobreviveram na garotinha que trazia ao colo.
Na
outra foto, um homem de compleição sólida como
um penedo. Os olhos azuis cristalinos e a face quadrada moldurada
pelo cabelo loiro liso, nada lhe traduziam. Na inscrição
a surpresa: Antonio Di Angelis.
___este
é o homem! - pensou.
Em
uma fotografia grande, vários policiais vestidos com jaqueta
e coldres. Avistou-se entre eles. Da esquerda para direita, Edgar
Meirelles, Mestre Takahishi, Leandro Bittencourt, Ana Beatriz, Doutor
Salomão, Louise Bittencourt , Lizandra Torres, Victória
e Agnaldo.
Deteve o olhar em Louise. A inscrição indicava: Delegada
Chefe do Oitavo Distrito Policial. O coração acelerou-se,
perturbado.
Outra pessoa a fez sentir a garganta seca de ansiedade : a loira médica
legista.
Quanto aos outros, um misto de carinho e saudade. No entanto, não
conseguia recordar-se claramente de nenhum deles.
Pousou
as fotos no joelho, imaginando como seria o dia do reencontro. Talvez
um pouco estranho para si. Um tanto insólito para eles quando
descobrissem que havia sobrevivido. Imponderável. Nas palavras
de Araújo.
Observou
outras fotografias. Um gato siamês dormindo em um sofá.
Sir Lancelot, revelava a inscrição.
A
reluzente motocicleta com detalhes cromados a fez vibrar. Tinha uma
Harley Davidson. Será que ainda saberia pilota-la ?
___Depois
da cirurgia, quem sabe. - concluiu animada.
Alguém bateu à porta.
Deixou o envelope na escrivaninha próxima e apressou-se a abrir.
Esperava ansiosa por Araújo que poderia trazer novidades. Não
entendia porque tinha que ficar hospedada anonimamente na capital
e o porque da demora em se unir aos parentes e amigos.
Sabia que era pouco provável que ao revê-los, os reconheceria
mas a idéia de estar finalmente entre os seus, a confortava.
Abriu
e deparou-se com o detetive e poucos passos atrás, uma mulher
pequena e esguia, de uma beleza madura impressionante.
O rosto alvo como alabastro, trazia uma palidez incomum e os belos
olhos azuis intensos, possuíam um brilho intimidante.
Lembrou-se da fotografia que não fazia jus à sua beleza.
___Victória,
esta é Louise. A patrocinadora. - Apresentou Araújo.
A
voz estancou na garganta de Di Angelis. Não podia entender
a razão de estar sendo novamente assolada por emoções
intensas e conflitantes. Sentia angústia ante a presença
da recém chegada. Entretanto, o coração disparara
de contentamento.
Não
sabia como agir e o que dizer. Como fuga, mergulhou-se no silêncio
catatônico.
André
Araújo despediu-se abraçando Vick e saiu do quarto com
passos firmes.
___Você
sabe meu número. Se precisar, na hesite. Ligue. - avisou antes
de fechar a porta atrás de si.
Sozinhas, as duas mulheres se olharam demoradamente. A primeira estática.
Di Angelis, tensa.
A
expressão fria e autoritária no rosto de Louise, cambiou
para inescrutável, enquanto suas faces, abandonavam o tom pálido
e coravam-se intensamente.
___"E
quindi uscimo a riveder le stele" (E dali saímos para
rever as estrelas).
Primeiros dias de uma vida recém descoberta
Victória
foi submetida à cirurgia, dias depois. André ocultara
dela parte do diagnóstico. O coágulo estava se movendo,
próximo da região responsável pelas funções
vitais. Não dispunham de muito tempo.
Já
instalada no quarto particular, iniciara o pós-operatório,
sonolenta, emergindo do efeito da anestesia.
Em certo momento, sentiu a presença de alguém no quarto.
Na penumbra, não pode divisar nada e voltou a adormecer.
Acordou,
não sabia ao certo quanto tempo havia transcorrido.
Ao seu lado, André Araújo cofiava o espesso bigode grisalho
e lhe esquadrinhava o rosto pálido.
___bem
vindo ao princípio.
Victória
sorriu com suavidade.
___pensei
que não ia ter o prazer de rever este seu bigode. Ainda não
passa de um desconhecido que sabe tudo sobre minha vida, porém,
algo me diz que realmente tivemos uma boa amizade.
Ele
sorriu.
___Está
de bom humor hoje.
___Não
poderia ser diferente. Acordei no mundo dos vivos, não sinto
dor de cabeça e meus cabelos estão intactos. - comentou,
mergulhando a mão na espessa cabeleira.
___e
se tudo correr conforme esperado, ainda hoje receberá alta.
O cirurgião chefe informou que não há mais resquícios
de coágulos ou qualquer outra lesão em seu tecido cerebral.
___como
receberei alta, se acabo de sair da mesa de cirurgia? -perguntou ela,
em seu modo especialmente peculiar de falar alto e pontear cada sílaba
com movimentos amplos de braços.
___esteve
sedada por sete dias. A junta médica entendeu ser estratégia
adequada para viabilizar sua recuperação e a retomada
gradativa de memória sem maiores seqüelas emocionais.
___ainda
não me lembro de você.
___Está
certo, mas recebemos garantia de que em um mês ou dois, irá
se recordando de tudo, gradativamente.
___bom
prognóstico.
Ele
levantou-se, apanhando seu paletó de casemira puído
do encosto da cadeira.
___agora
preciso ir. Seu pai espera oportunidade para poder vê-la desperta.
Enquanto estava na terapia de sono, ele , Louise e eu revezávamos
as noites ao seu lado. Fui premiado. Você despertou em meu turno.
___interessante.
Então o misterioso Antonio Di Angelis vai se personificar ?
Porque agora? E Louise ? até onde sei, ela é apenas
minha ex-chefe.
___Logo
saberá.
André
levantou-se e saiu.
Victória
permaneceu deitada, tomada por pensamentos conflitante e perguntas
que não conseguia resposta. A principal delas era o comportamento
do pai que não aparecera para vê-la em nenhum momento
desde que saíra de Minas.
Quem a acompanhou da porta do hotel até a imediata internação,
foi a esquiva e enigmática "Madame Olhos Glaciais"
que cuidara de toda papelada e despesas com precisão eletrônica,
sem demonstrar qualquer gesto de apreço além da frieza
inicial.
Voltando
ao pai, por mais que não se lembrasse do genitor, era acolhedor
saber que não aparecera no mundo dentro de um pé de
couve.
Riu
ao se lembrar da inocente de Vó Dita que acreditava piamente
em fenômenos como aqueles e outros mais. A velha matuta assegurava
que uma comadre tinha ido descascar repolho e no "miolim",
encontrou um bebê tão pequenino que teve que criar em
uma caixa de sapato.
Sobressaltou-se
ao constatar que a porta abria-se cautelosamente, cedendo passagem
a um homem agigantado, com a pele muito corada que entrou em silêncio.
Ao
vê-la desperta, sorriu timidamente. Suas mãos tremeram
e ele tentou em vão, ocultá-las nos bolsos da calça.
Vestia-se
elegantemente em um terno escuro bem cortado. Os sapatos, certamente
eram números especiais. O perfume, uma fragrância deliciosa
que conhecia bem. Faceta curiosa da amnésia.
Podia lembrar-se de aromas e sensações, tais como frustração,
amor, medo, raiva e desejo. Entre outros.
Ante o pai, naquele momento, sentiu ternura e amor. Com André
Araújo, confiança e cumplicidade.
Ele
se aproximou finalmente e tomou as mãos de Victória
nas suas.
___como
está se sentindo hoje?
___ótima
e ansiosa para sair e dar uma voltinha.
___precisa
ser paciente, nenê.
Victória
encarou-o, perscrutando-lhe o rosto, analisando cada detalhe. O formato
do rosto, os olhos azuis claros e cabelos loiros . Em nada se pareciam,
ele e ela, constatou.
___já
ouviu falar em bebês trocados na maternidade ? - perguntou ela,
displicente, com um sorriso maroto.
___como?
- Ele a fitou sério, sem saber a razão daquela pergunta
inesperada.
___não
nos parecemos fisicamente. - completou ela, rindo do embaraço
dele.
Antonio
corou ainda mais e ergueu os braços teatralmente.
___Eu
confesso! Encontrei você em um cesto de pães, vinte e
tantos anos atrás. È claro que não se parece
comigo. Saiu cópia física de sua mãe. Já
o temperamento, é espelho do meu. - continuou a falar, ainda
gesticulando animado.
A porta se abriu novamente e Louise Bittencourt entrou.
___A
enfermeira avisou. Ela acaba de receber alta. - informou a Delegada.___Podemos
finalmente leva-la para casa.
Antonio
enlaçou Louise pela cintura e puxou-a consigo até o
leito.
___Quero
apresentar a você, minha esposa. Louise Bittencourt Di Angelis.
Juntos, formamos uma nova e unida família.
A convalescente observou o par à sua frente e por instantes
não conseguiu articular palavra. Depois, removeu da mente,
pensamentos que a incomodavam e tornou a exibir o bom humor inicial.
___então,
quando poderemos ir ? Estou faminta. Não me lembro de ter ingerido
nada sólido enquanto estive acordada.
___o
que quer comer? - inquiriu Antonio.
___Talvez
uma pizza, ou uma lasanha ou Fetuccini, talvez Canelone...
Antonio
animou-se.
___O
enorme apetite. Sinal claro de recuperação. Vou chamar
uma enfermeira para ajuda-la a se vestir. Louise comprou algumas roupas
e eu a ajudarei a caminhar até o carro. Uma semana deitada
deixou sua musculatura enfraquecida. Conheço uma boa Cantina
no caminho de casa onde poderá se fartar do que quiser.
Entraram na imensa propriedade de arquitetura em estilo Normando.
Vick observou algo familiar naquele local e não conseguiu evitar
o sentimento de que algo importante em sua vida, estava perdido. A
governanta instalou-a e um quarto confortável.
Antonio
apareceu para lhe dar o beijo de boa noite.
___amanhã
passarei para vê-la.
___Não
vai ficar ?
___não.
Tenho negócios e casa em outra região. Casamento moderno.
Victória
enfiou-se na banheira e passou bom tempo refletindo sobre sua nova
vida. Ou seja, a retomada da antiga. Araújo lhe explicara pouco,
quase nada sobre ela.
Precisava reencontra-lo para conversarem melhor.
Saiu
e vestiu-se para dormir. A cama enorme e confortável, contrastava
muito com o colchão de palha seca que lhe servira de leito
na velha choupana de Vó Dita.
Virou-se
para desligar o abajur, mas interrompeu o movimento ao perceber que
alguém abria a porta.
___vim
desejar-lhe boa noite. - informou Louise.
___obrigada!
- agradeceu Vick com embaraço ao receber um suave beijo no
rosto. O perfume dela. Conhecia aquela flagrância e com ela,
surgiram sensações inconfessáveis de nutrir a
respeito da mulher de seu pai. Sua madrasta.
Olharam-se
por breves instantes. Aqueles lábios cheios sensuais, convidando
ao beijo ardente. Victória fechou os olhos, e só tornou
a abri-los quando ouviu-a sair.
Na
escuridão densa, recordou-se da aventura sensual que travara
nas terras em Minas. A fazenda de Rui, servia também como pousada
rústica para os moradores de cidade grande, desejosos de encontrar
um refúgio aprazível. Em Setembro, uma mulher atraente
se instalara ali por três meses. Fernanda, escritora de peça
teatral, viera em busca de inspiração e sossego. Não
demorou para que sempre requisitasse a arredia Brisa para acompanha-la
nos passeios a cavalo ou em outra tarefa, como subir os morros para
observar os pássaros e animais silvestres. Daquela peculiar
amizade, surgiram beijos intensos, abraços e carícias
íntimas. Não passara disso mas a fez redescobrir a peculiaridade
especial a respeito de sua sexualidade.
Fernanda
retornou à cidade prometendo voltar na próxima temporada.
Quando retornasse, não a encontraria mais.
Mas
agora isso não era importante.
Fechou
os olhos e tornou a adormecer profundamente.
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