Solidão


 

Deitada sobre uma espécie de maca móvel que lhe introduzia a cabeça lentamente dentro do aparelho de tomografia computadorizada, Victória tentava conter o medo, contemporizando sobre o que lhe disseram o médico e assistentes minutos atrás.

____é um procedimento simples, eficaz e totalmente indolor. A ciência evoluiu muito na área dos exames de diagnóstico.

Não soube ao certo porque lembrou-se de imagens de sua mãe sendo submetida a uma mamografia . O procedimento certamente beirava ao medieval e quem sabe no futuro, será comparado à extração de dentes no século XIX, quando os práticos encharcavam o paciente/vítima com cachaça, goela abaixo. Depois amarravam-no em sólida cadeira de ferro e se extraía o dente com o famoso "boticão". Aparelho bem semelhante à torquês.

____mais um minuto e tudo estará terminado! - avisou a assistente vestida de azul-hortência.

____Sim, terminado. Tudo terminado! - ecoou Vick, dramática.

O médico vestido com roupão alface-hidropônica apertou certo botão vermelho no painel e o zumbido fez a adrenalina disparar aos jorros no corpo de Di Angelis que se imaginava agora, exposta ao suplício da cadeira elétrico com seu sinistro zunir inicial.
A verdade era que aceitara se submeter àquele exame devido à suspeita de um coágulo em seu cérebro, o que estaria causando a amnésia. Tal coágulo se não tratado, poderia acarretar sérios problemas.
André lhe explicara lenta e pacientemente.

Luzes cambiantes no interior do "túnel" metálico do aparelho de tomografia, de um certo modo desencadeou uma espécie de relaxamento confortável na agitada paciente.

Fechou os olhos e rememorou mansamente os dias no interior de Minas. Dias brandos e luminosos. Saudade. Medo.
Letícia a filha do patrão se tornara arredia e ostracista a cada dia que precedera sua volta aos estudos na cidade grande. O pai já se acostumara e a mãe desconfiava que tinha algo a ver com paixão não correspondida.

Na Festa do Peão, a jovem estava acompanhada pelo irmão e alguns pretendentes, porém a tristeza não a abandonava.

Iolanda pedira licença para comprar uma maçã do amor caramelada e Maurício não disfarçava a admiração e atração física que sentia pela estranha e calada moça, a quem chamavam de Brisa por não lhe conhecerem o nome certo.
____Vou com você! - ofereceu-se Let.

____Não carece, patroinha! Já volto com duas. Uma pra mim, outra pra senhorinha.

Agenor, um dos peões da fazenda do Rui, apressou-se a acompanhar Iolanda. O rapaz, moço alto, dotado de sólida e lenhosa musculatura, nascera e criara-se naquelas bandas e fora companheiro de meninices ao lado da bela cabocla. No entanto, depois de atingida a maioridade, não a via mais com olhos de amigo e sim com o desejo de homem, ansioso por conseguir torná-la finalmente sua esposa.
Diziam até que estava montando um bom e espaçoso rancho nas minguadas terras que herdara do pai.

____Vamos até a arena apreciar os touros! - convidou Maurício, apanhando gentilmente o braço da irmã.

____Não! Quero ir até o carro. Estou com uma irritante dor de cabeça.

____Tudo bem! - anuiu o rapaz.

Brisa, à alguns metros acompanhou os irmãos com os olhos, e depois, passou a seguir cautelosamente a jovem fazendeira até o estacionamento dos autos.
Em certo ponto, Letícia mudou o rumo e guiou-se para as barracas de doces, lanches e outras guloseimas. Estacou ao avistar Iolanda sorrindo e conversando com Agenor, que neste instante mantinha seu braço em torno da cintura da moça.
Letícia voltou-se antes que conseguissem vê-la e se embrenhou na área escura destinada aos carros.O luar estava esplendoroso e o cheiro da mata verde, perfumava a noite. Entretanto, lágrimas como gotas de orvalho cristalino, seguiam novos caminhos pelo rosto aveludado da filha de Rui Castro.

___Ela não sabe! É preciso falar-lhe!

Letícia sobressaltou-se ao divisar com a alta silhueta de Brisa, recortada contra a luz prata do luar.

___O que quer dizer com isso? - perguntou, sufocada em súbita raiva.

___Não vai parar de doer enquanto não deixar seu sentimento encontrar uma vazão!

___O que sabe sobre o amor se não é capaz de se lembrar de nada?

Brisa silenciou-se e Letícia, por mais que tentasse conter sua dor, passou a soluçar desconsolada.

Abraçou-a.

___Não tenha medo! Fale com ela! A solidão é cinza e fria. Fale com ela e talvez, haja uma esperança para o amor.

Cidade Grande

Acordada pelas assistentes, Victória cambaleou preguiçosa para a ante-sala. Encontrou o sisudo André Araújo que aguardou ao seu lado até que o especialista o chamasse em particular para o relatório do exame.

Confirmou-se o coágulo e a data da intervenção cirúrgica.

___vamos comer um belo canelone no Bexiga! - convidou o ex-policial, enquanto saiam da clínica.
Vick esboçou um sorriso tímido e o acompanhou obediente.

No local de teto baixo, móveis toscos e gastos, o garçom avisou que a "nona" já estava cuidando da "pasta".

Serviram-se de um bom vinho de São Roque e o assunto saúde surgiu espontaneamente.

___a operação será feita com um cateter e uma incisão de meio centímetro no couro cabeludo. A caixa craniana, você deve imaginar, será perfurada com um instrumento semelhante à furadeira comum.

___animador!

___Por outro lado, o cateter aspirará o coágulo em minutos e você estará livre de qualquer risco.

Os olhos firmes e expressivos de Victória Di Angelis, estacionaram em suas próprias mãos.

___Está insegura e preocupada! - afirmou Araújo.

___como sabe?

___eu a conheço bem. Fui seu primeiro parceiro na polícia.
O gesto de encarar as mãos, denuncia preocupação e insegurança. Quando saiu da clínica, parou sobre o capacho da entrada e o endireitou com o pé. É bem metódica quando está ansiosa por agir e se livrar de enrascadas.

___pensa que estou me sentindo encrencada?

___encrencada e sem escolha!

___parabéns pela perspicácia.

O garçom trouxe a conta. Araújo conferiu a comanda e deixou as cédulas debaixo do cinzeiro.

___vamos dividir. - argumentou Vick, puxando uma carteira gasta do bolso do jeans. Recebera certa quantia de Rui à título de pagamento e para a eventualidade, se desejasse, comprar uma passagem de volta para o interior de Minas.

___Nada disso. O patrocinador é quem está pagando. Vamos embora.

___Quem é o patrocinador ? Meu pai ?

___não. Mas cedo ele, o patrocinador, aparecerá para se encarregar de você.

___o que foi combinado ?

___Ele aparece e eu passo sua custódia nas mãos dele.Simples.

___Alto lá. Isto não cheira bem. Não sou produto para comercialização.

___Posso pedir que continue a confiar em mim ? O que diz sua intuição ?

___Diz para acreditar em sua boa fé e é isso que tenho feito até o momento.

___E eu vou lhe contar um segredo. Sua intuição é insuperável. Nunca lhe falhou. Você teria se metido menos em encrencas se tivesse confiado mais nela.

Entraram no velho fordão e Victória apertou o pino da porta, bateu, puxou o pino novamente e tornou a aperta-lo.

___acabou de travar.

___travar o quê?

___a porta.

___é importante na cidade grande. Estamos em São Paulo, a desvairada.

___Então lembra do apelido da Sampa ?

___algumas coisas fluem na cabeça, naturalmente.

___Tal como travar o fordão do Araújo. O mecanismo da porta tem um defeito que obriga a soltar e apertar o pino duas vezes para travar. O que isso denota ?

___Denota que você tem que trocar as engrenagens da porta.

Araújo riu.

___não despiste. Você sabe onde quero chegar.

___não tenha certeza disso.

___Então vou explicar direitinho. A senhorita Di Angelis, já usou este fordeco. É carro de colecionador e eu o emprestei a você para ir a um baile de estilo anos sessenta. Na verdade o carro que uso para bater no dia a dia é um maverick, que você também conhece.

___está bem. Estou convencida de que tenho um certo passado com você.

___E que passado!

___conte-me um pouco sobre ele.

___tudo bem. Vou começar pelo caso : Bate - Estacas e se der tempo, conto sobre o Mané Sete-léguas.
Na entrada do hotel, Araújo apanhou a chave do quarto onde instalara Vick naquela semana e seguiram escadaria acima até atingir a suíte número 10.

___descanse enquanto vou ao centro resolver umas pendências. Se precisar de alguma coisa, meu cartão está na escrivaninha.

___quando verei aquele senhor... Antonio Di Angelis é o nome dele ? - perguntou tentando dissimular o interesse.

___seja paciente e nesta tarde mesmo terá a resposta.
Aqui neste envelope tem algumas fotos de amigos, colegas e parentes. Escrevi no verso o nome e outros detalhes. Se quiser examina-las, fique à vontade.

Saiu apressado.

O amplo quarto estava mobiliado com bom gosto. Os móveis imitavam o estilo Luiz XIV e do teto pendia um imenso lustre com centenas de gotas de cristal. A diária deveria custar uma nota firme. Decerto também seria paga pelo misterioso patrocinador. concluiu.
Afastou as cortinas da janela palaciana e espiou da pequena sacada. O movimento das pessoas e carros era intenso e o dia que nascera cinzento, aos poucos cambiava para o dourado radiante.
O telefone tocou insistente. Atendeu.

___quem está falando? - inquiriu.

Do outro lado da linha, ouviu uma respiração tensa.

___com quem deseja falar? - insistiu.

Não obteve resposta e desligou.

Caminhou pelo aposento e resolveu tomar um banho demorado. A banheira com pés de leão transbordou o líquido morno quando se acomodou. Esfregou as coxas, ombros e pés e um relaxamento delicioso a fez fechar os olhos e mergulhar nas recordações da semana anterior.

___eu a procurei! - informou Letícia, com voz baixa.
Brisa aproximou-se da coluna do varandado e observou o semblante pálido da filha do patrão.___na verdade ela me encontrou antes e não tive oportunidade de falar de meus sentimentos. Anunciou que estava "juntando os trapos" com o Agenor. Semana que vem se mudará para o rancho do peão. Mas agora não importa. Estou indo para a cidade e não tenho intenção de voltar antes da formatura.

Um silêncio embaraçoso instalou-se entre as duas.

___vou encilhar o alazão para você. Ar fresco ajuda a organizar as idéias. - comentou Brisa.

Let contornou o grande vaso de cerâmica próximo e desceu a escadaria que dava acesso á área verde defronte à casa grande, com passos cuidadosos. No último degrau parou e voltou-se.

___Venha comigo!

___ainda não terminei de lidar com a criação miúda.

___Já mando o Almeida cuidar de suas tarefas matutinas. Quero que me acompanhe no pasto. O alazão é velhaco.
Na sombra de um frondoso jatobá, a filha do patrão arriscou uma pergunta tímida.

___você se lembra de seus pais?

___Não. Às vezes sonho com um homem alto me conduzindo pela mão. Outras vezes, estou sentada no colo de uma mulher que toca o piano com mãos elegantes e habilidosas.

___consegue ver o rosto deles?

___imagens embaçadas apenas.

Letícia apanhou os cabelos castanhos e os ajeitou melhor sob o chapéu de abas largas.

___deve ser difícil para você.

___estava me acostumando. - respondeu Brisa, amuada.

A filha do patrão acercou-se dela com olhar inquisitivo.

___e o que aconteceu de novo?

___um homem da cidade. Disse que me conhece, que sou policial e tenho pai e amigos. Todos pensam que estou morta.
Falou tudo de um fôlego só, com amargura.
Desde que André Araújo a procurara, sua vida deu súbita guinada e agora sentia necessidade de se abrir com alguém. Estava sendo arrastada a tomar uma decisão importante e talvez uma pessoa como Letícia, inteligente e neutra, pudesse ajuda-la a pensar melhor.
Depois do incidente na festa do Peão, perceberam que faziam parte da mesma "espécie" e ruiu-se a barreira entre as duas, instalando-se rapidamente a cumplicidade e estreita amizade.

___porque não procurou suas origens há mais tempo? Papai de bom grado a ajudaria.

___Mau presságio. Sonhava com pessoas mortas, gritos agoniados, armas e sangue escorrendo. Pensei que era uma foragida que a boa sorte roubara a memória e oferecera nova chance para recomeçar.

___como aconteceu o trauma que a fez perder-se?

Brisa contou com detalhes o que Araújo lhe revelara.

___Uma policial de primeira linha. E eu acreditando aqui que você era uma foragida da justiça. - completou Letícia, rindo pela primeira vez naquele dia.

Caminharam pela alameda forrada por grama fofa.

Em certo momento, a filha do patrão a apanhou pelo braço.

___já pensou que seu desaparecimento marcou as pessoas que a amavam? Precisa voltar. Este homem da cidade, ele deixou algum endereço, telefone ou cartão?

Brisa procurou algo no bolso da calça jeans gasta.

___está aqui. - apresentou um cartão amarfanhado, onde havia a inscrição: Detetive Araújo. Abaixo o número de um telefone.
Mudou o bolso e de lá sacou um papel dobrado. Era uma cópia de parte de uma folha jornal. Em letras garrafais a inscrição: Policial Heroína, morre em confronto com Serial Killer. Abaixo uma foto grande do rosto de Victória Di Angelis.

Letícia leu o artigo no jornal e sorriu entusiasmada.

___vamos já para a sede. Meu pai vai gostar de ver isso aqui. Uns sujeitos metidos a homens da lei andaram assuntando a seu respeito. O Rui ficou possesso. Gosta de você.

Brisa sorriu suavemente. Os olhos baixos fixos em algum ponto a seus pés, denunciavam-lhe o embaraço.

___Policial Heroína. Quase inacreditável. - exclamou Letícia.
Adiantou-se em soltar o cavalo amarrado na cerca próxima.
___me ajude a montar. - pediu.___vou aproveitar. Ainda sou sua patroa.

Na volta, avistaram morro acima, Iolanda sorridente na garupa do cavalo de Agenor.
A máscara de sofrimento retomou ao rosto da jovem fazendeira.

___esquecer, às vezes, pode ser uma dádiva. - concluiu.

Retornando de sua abstração, Victória vestiu a roupa nova que a jovem fazendeira lhe dera e avizinhou-se do envelope com as fotos.
Sentada na Berger, passou a escrutinar atentamente cada uma delas. Na primeira, com um colorido envelhecido, uma mulher jovem e sorridente, segurando uma menina nos braços. Estavam sentadas no banco de um piano. Virou a fotografia e leu a inscrição: E. Campos Di Angelis e Victória.
Observou com carinho o retrato da mãe e lágrimas afloraram em seus olhos. Vê-la sentada diante do piano, era como ver a si. Apenas alguns detalhes diferenciavam. Outros, como os cabelos, formato do rosto e olhos, estes não desapareceram com ela. Sobreviveram na garotinha que trazia ao colo.

Na outra foto, um homem de compleição sólida como um penedo. Os olhos azuis cristalinos e a face quadrada moldurada pelo cabelo loiro liso, nada lhe traduziam. Na inscrição a surpresa: Antonio Di Angelis.

___este é o homem! - pensou.

Em uma fotografia grande, vários policiais vestidos com jaqueta e coldres. Avistou-se entre eles. Da esquerda para direita, Edgar Meirelles, Mestre Takahishi, Leandro Bittencourt, Ana Beatriz, Doutor Salomão, Louise Bittencourt , Lizandra Torres, Victória e Agnaldo.
Deteve o olhar em Louise. A inscrição indicava: Delegada Chefe do Oitavo Distrito Policial. O coração acelerou-se, perturbado.
Outra pessoa a fez sentir a garganta seca de ansiedade : a loira médica legista.
Quanto aos outros, um misto de carinho e saudade. No entanto, não conseguia recordar-se claramente de nenhum deles.

Pousou as fotos no joelho, imaginando como seria o dia do reencontro. Talvez um pouco estranho para si. Um tanto insólito para eles quando descobrissem que havia sobrevivido. Imponderável. Nas palavras de Araújo.

Observou outras fotografias. Um gato siamês dormindo em um sofá. Sir Lancelot, revelava a inscrição.

A reluzente motocicleta com detalhes cromados a fez vibrar. Tinha uma Harley Davidson. Será que ainda saberia pilota-la ?

___Depois da cirurgia, quem sabe. - concluiu animada.
Alguém bateu à porta.
Deixou o envelope na escrivaninha próxima e apressou-se a abrir.
Esperava ansiosa por Araújo que poderia trazer novidades. Não entendia porque tinha que ficar hospedada anonimamente na capital e o porque da demora em se unir aos parentes e amigos.
Sabia que era pouco provável que ao revê-los, os reconheceria mas a idéia de estar finalmente entre os seus, a confortava.

Abriu e deparou-se com o detetive e poucos passos atrás, uma mulher pequena e esguia, de uma beleza madura impressionante.
O rosto alvo como alabastro, trazia uma palidez incomum e os belos olhos azuis intensos, possuíam um brilho intimidante.
Lembrou-se da fotografia que não fazia jus à sua beleza.

___Victória, esta é Louise. A patrocinadora. - Apresentou Araújo.

A voz estancou na garganta de Di Angelis. Não podia entender a razão de estar sendo novamente assolada por emoções intensas e conflitantes. Sentia angústia ante a presença da recém chegada. Entretanto, o coração disparara de contentamento.

Não sabia como agir e o que dizer. Como fuga, mergulhou-se no silêncio catatônico.

André Araújo despediu-se abraçando Vick e saiu do quarto com passos firmes.

___Você sabe meu número. Se precisar, na hesite. Ligue. - avisou antes de fechar a porta atrás de si.
Sozinhas, as duas mulheres se olharam demoradamente. A primeira estática. Di Angelis, tensa.

A expressão fria e autoritária no rosto de Louise, cambiou para inescrutável, enquanto suas faces, abandonavam o tom pálido e coravam-se intensamente.

___"E quindi uscimo a riveder le stele" (E dali saímos para rever as estrelas).

Primeiros dias de uma vida recém descoberta

Victória foi submetida à cirurgia, dias depois. André ocultara dela parte do diagnóstico. O coágulo estava se movendo, próximo da região responsável pelas funções vitais. Não dispunham de muito tempo.

Já instalada no quarto particular, iniciara o pós-operatório, sonolenta, emergindo do efeito da anestesia.
Em certo momento, sentiu a presença de alguém no quarto. Na penumbra, não pode divisar nada e voltou a adormecer.

Acordou, não sabia ao certo quanto tempo havia transcorrido.
Ao seu lado, André Araújo cofiava o espesso bigode grisalho e lhe esquadrinhava o rosto pálido.

___bem vindo ao princípio.

Victória sorriu com suavidade.

___pensei que não ia ter o prazer de rever este seu bigode. Ainda não passa de um desconhecido que sabe tudo sobre minha vida, porém, algo me diz que realmente tivemos uma boa amizade.

Ele sorriu.

___Está de bom humor hoje.

___Não poderia ser diferente. Acordei no mundo dos vivos, não sinto dor de cabeça e meus cabelos estão intactos. - comentou, mergulhando a mão na espessa cabeleira.

___e se tudo correr conforme esperado, ainda hoje receberá alta. O cirurgião chefe informou que não há mais resquícios de coágulos ou qualquer outra lesão em seu tecido cerebral.

___como receberei alta, se acabo de sair da mesa de cirurgia? -perguntou ela, em seu modo especialmente peculiar de falar alto e pontear cada sílaba com movimentos amplos de braços.

___esteve sedada por sete dias. A junta médica entendeu ser estratégia adequada para viabilizar sua recuperação e a retomada gradativa de memória sem maiores seqüelas emocionais.

___ainda não me lembro de você.

___Está certo, mas recebemos garantia de que em um mês ou dois, irá se recordando de tudo, gradativamente.

___bom prognóstico.

Ele levantou-se, apanhando seu paletó de casemira puído do encosto da cadeira.

___agora preciso ir. Seu pai espera oportunidade para poder vê-la desperta. Enquanto estava na terapia de sono, ele , Louise e eu revezávamos as noites ao seu lado. Fui premiado. Você despertou em meu turno.

___interessante. Então o misterioso Antonio Di Angelis vai se personificar ? Porque agora? E Louise ? até onde sei, ela é apenas minha ex-chefe.

___Logo saberá.

André levantou-se e saiu.

Victória permaneceu deitada, tomada por pensamentos conflitante e perguntas que não conseguia resposta. A principal delas era o comportamento do pai que não aparecera para vê-la em nenhum momento desde que saíra de Minas.
Quem a acompanhou da porta do hotel até a imediata internação, foi a esquiva e enigmática "Madame Olhos Glaciais" que cuidara de toda papelada e despesas com precisão eletrônica, sem demonstrar qualquer gesto de apreço além da frieza inicial.

Voltando ao pai, por mais que não se lembrasse do genitor, era acolhedor saber que não aparecera no mundo dentro de um pé de couve.

Riu ao se lembrar da inocente de Vó Dita que acreditava piamente em fenômenos como aqueles e outros mais. A velha matuta assegurava que uma comadre tinha ido descascar repolho e no "miolim", encontrou um bebê tão pequenino que teve que criar em uma caixa de sapato.

Sobressaltou-se ao constatar que a porta abria-se cautelosamente, cedendo passagem a um homem agigantado, com a pele muito corada que entrou em silêncio.

Ao vê-la desperta, sorriu timidamente. Suas mãos tremeram e ele tentou em vão, ocultá-las nos bolsos da calça.

Vestia-se elegantemente em um terno escuro bem cortado. Os sapatos, certamente eram números especiais. O perfume, uma fragrância deliciosa que conhecia bem. Faceta curiosa da amnésia.
Podia lembrar-se de aromas e sensações, tais como frustração, amor, medo, raiva e desejo. Entre outros.
Ante o pai, naquele momento, sentiu ternura e amor. Com André Araújo, confiança e cumplicidade.

Ele se aproximou finalmente e tomou as mãos de Victória nas suas.

___como está se sentindo hoje?

___ótima e ansiosa para sair e dar uma voltinha.

___precisa ser paciente, nenê.

Victória encarou-o, perscrutando-lhe o rosto, analisando cada detalhe. O formato do rosto, os olhos azuis claros e cabelos loiros . Em nada se pareciam, ele e ela, constatou.

___já ouviu falar em bebês trocados na maternidade ? - perguntou ela, displicente, com um sorriso maroto.

___como? - Ele a fitou sério, sem saber a razão daquela pergunta inesperada.

___não nos parecemos fisicamente. - completou ela, rindo do embaraço dele.

Antonio corou ainda mais e ergueu os braços teatralmente.

___Eu confesso! Encontrei você em um cesto de pães, vinte e tantos anos atrás. È claro que não se parece comigo. Saiu cópia física de sua mãe. Já o temperamento, é espelho do meu. - continuou a falar, ainda gesticulando animado.
A porta se abriu novamente e Louise Bittencourt entrou.

___A enfermeira avisou. Ela acaba de receber alta. - informou a Delegada.___Podemos finalmente leva-la para casa.

Antonio enlaçou Louise pela cintura e puxou-a consigo até o leito.

___Quero apresentar a você, minha esposa. Louise Bittencourt Di Angelis. Juntos, formamos uma nova e unida família.
A convalescente observou o par à sua frente e por instantes não conseguiu articular palavra. Depois, removeu da mente, pensamentos que a incomodavam e tornou a exibir o bom humor inicial.

___então, quando poderemos ir ? Estou faminta. Não me lembro de ter ingerido nada sólido enquanto estive acordada.

___o que quer comer? - inquiriu Antonio.

___Talvez uma pizza, ou uma lasanha ou Fetuccini, talvez Canelone...

Antonio animou-se.

___O enorme apetite. Sinal claro de recuperação. Vou chamar uma enfermeira para ajuda-la a se vestir. Louise comprou algumas roupas e eu a ajudarei a caminhar até o carro. Uma semana deitada deixou sua musculatura enfraquecida. Conheço uma boa Cantina no caminho de casa onde poderá se fartar do que quiser.
Entraram na imensa propriedade de arquitetura em estilo Normando. Vick observou algo familiar naquele local e não conseguiu evitar o sentimento de que algo importante em sua vida, estava perdido. A governanta instalou-a e um quarto confortável.

Antonio apareceu para lhe dar o beijo de boa noite.

___amanhã passarei para vê-la.

___Não vai ficar ?

___não. Tenho negócios e casa em outra região. Casamento moderno.

Victória enfiou-se na banheira e passou bom tempo refletindo sobre sua nova vida. Ou seja, a retomada da antiga. Araújo lhe explicara pouco, quase nada sobre ela.
Precisava reencontra-lo para conversarem melhor.

Saiu e vestiu-se para dormir. A cama enorme e confortável, contrastava muito com o colchão de palha seca que lhe servira de leito na velha choupana de Vó Dita.

Virou-se para desligar o abajur, mas interrompeu o movimento ao perceber que alguém abria a porta.

___vim desejar-lhe boa noite. - informou Louise.

___obrigada! - agradeceu Vick com embaraço ao receber um suave beijo no rosto. O perfume dela. Conhecia aquela flagrância e com ela, surgiram sensações inconfessáveis de nutrir a respeito da mulher de seu pai. Sua madrasta.

Olharam-se por breves instantes. Aqueles lábios cheios sensuais, convidando ao beijo ardente. Victória fechou os olhos, e só tornou a abri-los quando ouviu-a sair.

Na escuridão densa, recordou-se da aventura sensual que travara nas terras em Minas. A fazenda de Rui, servia também como pousada rústica para os moradores de cidade grande, desejosos de encontrar um refúgio aprazível. Em Setembro, uma mulher atraente se instalara ali por três meses. Fernanda, escritora de peça teatral, viera em busca de inspiração e sossego. Não demorou para que sempre requisitasse a arredia Brisa para acompanha-la nos passeios a cavalo ou em outra tarefa, como subir os morros para observar os pássaros e animais silvestres. Daquela peculiar amizade, surgiram beijos intensos, abraços e carícias íntimas. Não passara disso mas a fez redescobrir a peculiaridade especial a respeito de sua sexualidade.

Fernanda retornou à cidade prometendo voltar na próxima temporada. Quando retornasse, não a encontraria mais.

Mas agora isso não era importante.

Fechou os olhos e tornou a adormecer profundamente.


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