A luz matutina brincava em seu rosto. Não tivera sono tranqüilo.
Antes, voltou a ser aterrorizada pelos sonhos com túneis escuros,
gritos angustiados e o aluvião arrastando-a implacavelmente
para as profundezas, enquanto a feria e afogava.
Levantou-se e julgou ouvir o canto do galo vermelho. Aguçou
o ouvido e não ouviu mais nada além do trinar do Sem-fim.
Apreciava o canto do pássaro que os peões teimavam entre
si, afirmando alguns que o canto dizia: Peixe frito. Os outros, ouviam
claramente: Sem-fim.
A sua volta, um quarto desconhecido. O reflexo no espelho da penteadeira,
este delineava alguém. Tocou o rosto sonolenta. Cuidou de lavá-lo
e pentear os cabelos. Desceu a escadaria de acesso ao hall principal,
desejando encontrar a "senhora dos portais". Avistou-a sentada
em uma mesa posta para o desjejum. Lia atentamente o jornal, enquanto
bebericava elegantemente uma xícara de capuccino.
___sente-se Victória! - determinou ela, sem erguer o rosto
para a recém chegada.
Di Angelis não demorou a servir-se. O apetite matinal costumava
ser voraz e a mesa estava bem fornida com variedades de pães,
geléias, leite, sucos e queijos.
Apenas um item a incomodava. Quando estava embaraçada, não
conseguia engolir líquidos sem fazer ruído com a glote.
No terceiro, glut-glut, Louise ergueu seus olhos vibrantes e fixou
em seu rosto como um alfinete espetando a borboleta contra a madeira.
___Quando era criança engoli uma tampa de garrafa e ela entalou
na garganta. - retrucou Vick, mordaz.
A Delegada levantou uma sobrancelha, observando-a agora com mais atenção.
O rosto fechado, não manifestou agrado ou desagrado. Finalmente
retomou a leitura do jornal.
Victória sorriu e enquanto preparava mais dois pães
para si, lembrava-se de outro sonho da noite anterior. O único
além do pesadelo.
Entrara em uma imensa casa comercial. Talvez um shopping. Haviam três
pisos e escadas rolantes. O produto comercializado alí era
o mesmo: vendia-se famílias completas.
Em algumas lojas, mães de todas a idades e tipos, sorriam e
acenavam.
Em uma repartição, comprava-se pais sorridentes, autoritários,
chorosos ou apáticos.
O comando chave era: ____siga-me! - E o pai, mãe, irmão
ou avô escolhido a seguiam.
Saíra do local com dois. Antonio e Louise. Talvez um equívoco.
De freguesa virara produto e a família que passava a avistou
e a escolheram. Sonho estranho.
Engoliu o ultimo naco de pão e levantou-se. Em sua mente, estabelecia
o que faria no dia. Louise adiantou-se.
___Se quiser voltar para a cama ou estender-se na rede sob o caramanchão,
fique à vontade. Não teve boa noite de sono. Tereza
estará por perto se precisar de algo.
A jovem, olhou-a inquisitiva e aproveitando que ao menos agora, ela
desviara a atenção da leitura do jornal. Arriscou.
___Vai sair ?
___Sim. Até a Delegacia mas retorno por volta das dezessete
horas.
___Nesse caso, poderei ir com você, ver a delegacia e os colegas.
Louise levantou-se abruptamente.
___Deverá ficar no condomínio. Heitor e Oliveira a acompanharão
nos passeios pela propriedade. O momento certo de reencontrar seus
colegas, decidimos eu e seu pai.
Vick enrubesceu. Comprovara-se o que temia. Estava com sua liberdade
tolhida a sete chaves por uma mulher tirana e implacável. Seu
problema, trauma craniano, a reduzira ao status de tutelada da madrasta.
Não havia possibilidade de diálogo.
A Delegada retirou-se e minuto depois, ouviu-se o ronco potente do
motor japonês do carro que se afastava.
Sentiu justa indignação e partiu para o interior da
residência principal em busca do telefone. Depois de algumas
ligações, saiu para um passeio entre o arvoredo. Os
guarda-costas, vestidos em ternos alinhados, a seguiam discretamente.
Uma potente motocicleta estradeira com a chave no contato, fora retirada
da garage. Aproximou-se e o rapaz que cuidava de lustrar os cromados
do veículo, sorriu com simpatia.
___uma bela motocicleta. - elogiou.
___é sim, senhora. O doutor Antonio gosta que eu a deixe bem
polida nos metais, cuidada com silicone nas partes de fibra e borracha
e grafite no miolo das chaves e pontos de atrito.
___tenho uma moto. Uma Harley Davidson muito parecida com esta que
você está se ocupando.
Thomas, voltou-se para observar melhor a jovem ao seu lado.
___A senhorita é a filha do patrão, estou certo?
___É, eu sou.
___Então esta aqui é a sua Harley. Ele mandou que eu
a pusesse no ponto, para quando a filha melhorasse.
___Este dia chegou.
O empregado a olhou, desconfiado.
___voltou do hospital ontem.
___Passei sete dias dormindo depois da cirurgia. Terapia do sono só
para garantir.
___No entanto, acho que não deve tomar sol na cabeça.
Victória começou a se aborrecer e perguntou impaciente.
___o capacete, está aí ?
O moço apresentou o acessório.
___Então, está decidido. Vou sair para uma volta.
___não estou certo que a patroa autorizaria.
Vick avistou o controle dos enormes portões, junto ao chaveiro
da motocicleta. Sentia-se insegura se conseguiria pilotar a máquina,
mas confiava que conseguiria agir no reflexo espontâneo. Montou
e ligou o motor.
Na arrancada furiosa, ainda ouviu as vozes dos guarda-costas, atrás
de si. Acionou o controle e o portão de ferro pesado, abriu-se
lentamente.
Ganhando a sinuosa estrada entre as propriedades do condomínio,
buscou a saída que visualizara no dia anterior. Os seguranças
da guarita, ainda tentaram manter as cancelas baixadas para detê-la,
entretanto, Victória acelerou mais o veículo. A tempo,
o rapaz próximo ergueu o obstáculo, temendo ferir a
enteada da famosa Delegada de Polícia. A governanta havia ligado
para a portaria, pedindo que impedissem à jovem, com cautela.
___Doutora Louise Bittencourt liquida com o emprego de vocês,
se Victória Di Angelis sofrer qualquer ferimento. - avisou.
Na estrada, pilotava abstraída em seus pensamentos. Agora sim,
libertara-se.
Escritório de investigações particulares.
Detetive A. Santos Araújo.
A inscrição na plaqueta metálica, indicava o
segundo andar, sala 23 de um prédio comercial mal conservado.
Entrou porta adentro sem cerimônia. O amigo examinava algumas
fichas e garatujava algumas linhas em um bloco de anotação.
No cubículo, escrivaninha, duas cadeiras defronte a esta, estante
metálica e arquivo. Na janela escurecida pela fuligem, fios
dos postes traçavam linhas diagonais.
___não imaginei que a doutora autorizasse esta visita. - comentou.
___não autorizou. - informou Victória, sentando-se diante
do ex-colega.
Ele cofiou o bigode, franzindo a testa em gesto de preocupação.
___Louise não está acostumada a ser contrariada.
___não me importo com Louise. Vim porque preciso que me esclareça
algumas coisas que estão me intrigando.
___acredita que tenho a resposta ?
___certamente.
___pergunte! - assentiu ele, depondo as fichas sobre a mesa e olhando-a
com atenção.
Victória desfiou uma série de questionamentos. Porque
o pai não a havia procurado desde que soube de seu paradeiro
e vivia ausente em viagens à negócio; a razão
pela qual a madrasta a desprezava e aprisionava e porque seus colegas
e amigos estavam sendo mantidos à distância.
___Você desapareceu no interior de uma galeria pluvial antiga
que não consta nos mapas dos subterrâneos de São
Paulo. Louise estava ao seu lado, mas em algum momento, ela a perdeu.
O rio subterrâneo desaguaria em outro, à céu aberto.
O Detetive esticou o braço e alcançou um mapa que estava
enrolado dentro de um estojo de papelão. Apontou o rio subterrâneo,
apelidado de Aqueronte e onde deveria desaguar no Tietê.
___Os bombeiros, encontraram Louise aqui. - apontou.____procuraram
por você por toda esta região. - assinalou com um lápis
vermelho.___ocorre que também havia a possibilidade de na pior
das hipóteses, seu corpo ter se prendido no interior das galerias
submersas, junto aos entulhos. Chovia muito na ocasião.
___e então ?
___Louise contratou um exército de homens e mulheres que esquadrinharam
quilômetros abaixo do Tietê. Policiais, Bombeiros e operadores
de dragas, trabalharam por uma semana no local. Encontraram alguns
corpos mutilados. DNA negativo em todos eles. Antonio Di Angelis por
sua vez, fez publicar sua foto em jornais na região, oferecendo
recompensa por uma informação que levassem a encontra-la,
viva ou não. Muitos o procuraram indicando locais, cidades
ou regiões ermas. Nada. Até que seu pai, ele...
___o que aconteceu ?
___não resistiu à angústia e tensão diária
e sofreu um infarto. Diante disso, Louise que trabalhava incessante
nas buscas, tomou o controle da situação e cuidou para
que fosse operado com urgência. Ele recebeu duas pontes de Safena.
Agora compreende o porque do aparente desinteresse dele e também
porque só o avisamos sobre você, depois que já
havia sido operada e convalescia no hospital ?
___então ele não sabia que eu estava em São Paulo
?
___não fazia a mínima idéia. Quando a localizei
no interior de Minas Gerais, contatei Louise que estava na Europa,
visitando a filha adolescente.
Araújo relatou para Vick, o drama sofrido por Júlia
Bittencourt, pouco antes de seu desaparecimento. Relatou também,
detalhadamente o trabalho da Equipe Especial do Neblinas em busca
do Serial Killer conhecido como "O Devorador de Almas",
ou o "Filho de Nix".
O telefone tocou e Araújo atendeu, enquanto defronte, Victória
tamborilava com os dedos sobre a mesa, tentando diluir dentro de si,
o medo que o relato lhe incutiu. Agora entendia o significado dos
pesadelos. Eles lhe contavam sobre os últimos momentos que
vivenciara antes de sua partida para o esquecimento.
___sim. Ela está aqui. Estamos terminando um assunto e logo
eu me encarrego de conduzi-la para casa. - afirmou André Araújo
ao telefone. Desligou.
___Era Louise ?
___exato e me comprometi em conduzí-la de volta antes que seu
pai ligue para saber sobre você.
___Ele está viajando ?
___A negócios. Cumpre ordens médicas que pediu que tentasse
manter o ritmo normal de trabalho com o objetivo de conter o impacto
emocional causado pelo seu reaparecimento.
___como me encontrou em Minas ?
___Estava participando das buscas. Fui aposentado compulsoriamente
em virtude de um acidente no trabalho. Então, abri este escritório
para aumentar o orçamento. De bom grado teria continuado meus
trabalhos no caso, quando o dinheiro escasseou e tive que voltar a
atender outros clientes.
Tornou a cofiar o bigode e apontou o dedo indicador para a porta.
___foi assim que um dia, meses depois do sepultamento simbólico,
a doutora Louise entrou por aquela porta e me ofereceu uma boa quantia
para me dedicar única e exclusivamente no seu caso. Aceitei
prontamente, pois assim voltaria a trabalhar no que para mim era uma
dívida de honra.
___dívida ?
___você salvou minha vida e ainda conseguiu me trazer de volta
para meu filho e esposa. Mas isso foi pouco antes de me aposentar.
- afirmou ele, com os olhos avermelhados ante a forte emoção.
Indicou o porta-retratos com a foto sua ao lado de uma simpática
senhora e um menino aparentando nove anos ou menos.
___porque Louise o escolheu ?
___pelo mesmo motivo que eu escolheria você para encontrar meu
filho, se ele se perdesse. Intuição e capacidade para
se empenhar no trabalho incansavelmente.
___assim, iniciei a colar cartazes com sua foto nos bares, esquinas
e praças. Um dia um homem me ligou, informando que um caminhoneiro
que bebera uns goles em seu boteco, contara uma estória sobre
a mulher fantasma que o abordou, pelas bandas da ponte do rio taboinha.
A conversa se iniciara entre os motoristas, quando um deles passou
a desfiar uma série de causos de assombração
de estrada. No caso do caminhoneiro Lopes, este assegurou com firmeza
que encontrou uma alma vagante, quanto parou no acostamento, próximo
à ponte para verificar um pneu que estava soltando a recauchutagem.
Descreveu-a detalhadamente e assustou-se ao se deparar com a fotografia
sua no cartaz atrás do balcão.
___você deve ter recebido centenas de ligações
com relatos desse tipo. O que foi que lhe chamou a atenção
para o caso?
Ele bateu o dedo médio na fronte.
___intuição. Procurei o boteco, lá me informei
sobre o Lopes e o itinerário que costumava fazer: Interior
de Minas. Mais algumas semanas e encontrei-o em um posto de gasolina
a caminho de São Paulo. Disse que a assombração
entrou pela boléia adentro e ele não se atreveu a enxotá-la.
- "E quem se atreveria ? A moça, branca como só
os de fora dessa vida poderiam ser - (nas palavras do Lopes), vestia
pedaços de roupa rasgada e dizia que precisava fugir do "Devorador".
Em uma parada na beira da estrada, já em Minas, você
desapareceu. Decerto tomou o rumo do vale onde a Dona Dita a acolheu.
___estava frio e sentia muita fome. - recordou-se Victória
com o coração opresso, mas desejava saber tudo que pudesse.
____como foi que apareci na ponte do rio Taboinha?
___Está aqui! - indicou ele no mapa.___galerias centenárias
que estavam bloqueadas e foram desobstruída por força
da explosão causada pelo Delegado Edgar Meirelles, chefe das
equipes de apoio. Você por algum motivo, separou-se de Louise
neste ponto e desembocou no taboinha, um córrego raso e assoreado
que ganhara volume naquela noite devido às chuvas e às
águas do rio subterrâneo. Deve ter flutuado boa parte,
em estado de choque e depois, ao finalmente ganhar as margens, deparou-se
com o Lopes e seu caminhão.
___isso explica tudo.
___Louise pensa que é a teoria mais próxima da realidade.
___e naquela tarde, você apareceu na fazenda do Rui, com suas
fotos e história.
___após ter avisado a Delegada na Europa e ela ter me instruído
para convence-la a voltar, voluntariamente para não agravar
as possíveis seqüelas do acidente.
___Letícia me convenceu a ligar.
___E assim, informei Louise que embarcou imediatamente para o Brasil
e me encarregou de conduzi-la para os exames preliminares.
Victória amuou. Fora injusta com seu pai e a Delegada, que
por trás da máscara de quase indiferença, haviam
amargado um ano e meses em uma busca, incansáveis. Entendia
agora em parte a atitude controladora de Louise. Não queria
correr o risco de perde-la novamente.
___Então, tenho que ir antes que Antonio ligue. - apressou-se.
___deixe a motocicleta no estacionamento ao lado. Amanhã um
empregado se encarrega dela. Você vem comigo no fordão.
Araújo não entrou na residência e partiu em seu
velho automóvel. Na sala, Louise silenciosa a esperava chegar.
A governanta apressou-se em arrumar a mesa do jantar. Antonio ligou
meia hora depois e conversou animado com Victória. Disse que
sentia saudades e logo estaria de volta. Sem dizer palavra, as duas
mulheres subiram as escadarias e cada uma se dirigiu ao seu quarto.
Vick preparou-se para deitar como na noite anterior e ao aconchegar-se
debaixo dos cobertores, a sonolência a venceu.
No quarto escuro, não soube o que a despertou. Aspirou a deliciosa
fragrância, sentindo-se perturbada ao divisar com Louise sentada
ao seu lado, na cama.
CAVALEIRO
DA CARA MARROM
Victória pôs-se alerta. Sabia que Louise tinha o direito
de repreende-la com rigor, porém o gesto dela fez surpresa.
Içou do nível do chão, uma caixa de madeira,
parecida com uma arca, com alça e portinha cheia de orifícios.
Do interior, um ruído estranho, semelhante à uma moto-serra
enguiçada.
___tive que pedir ao caseiro para aprisiona-lo.
Estendeu a mão alva e abriu a portinhola com rapidez. Retirou
os dedos bem a tempo de evitar ser arranhada por uma pata robusta
em tom chocolate.
___o que tem aí ? Uma ariranha ?
A criatura dentro da caixa passou a ronronar com fúria ao ouvir
a voz de Vick. Depois, com um baque pesado, um enorme gato siamês
com cara marrom, saltou sobre o abdômen de Victória,
esfregando-se nela freneticamente, enquanto os ronrons cambiavam de
rosnados a uma espécie de gemido agudo.
___Sir Lancelot! - apresentou a Delegada.
Victoria soltou uma risada cristalina e tomou a mão de Louise
na sua. Não tinha palavras para agradece-la e por isso esperava
que aquele toque lhe dissesse o quanto estava arrependida de tê-la
preocupado e a perdoasse.
Neste instante, Lancelot passou a "amassar pão" sobre
o ventre da dona.
___vou deixar vocês a sós. Depois, poderá acomoda-lo
naquele cesto acolchoado ao lado da poltrona de leitura. Providenciei
ração e outros acessórios para felinos deste
porte. Não se preocupe se ele escapulir pela janela para uma
volta noturna. Não mantenho mais cães de guarda na propriedade.
- avisou Louise com voz baixa.
Saiu e o gato, após ter amassado bastante a região onde
queria se acomodar, ronronou e deitou-se com um outro baque pesado.
___amanhã o senhor Lancelot iniciará um regime. Está
obeso. - ralhou ela, carinhosamente.
Relaxou e suportou o quanto pôde manter-se deitada de barriga
para cima com aquele volume pesado e peludo aninhado em si. Vencida
pelo cansaço, apanhou o robusto felino e o acomodou no cesto.
Ficou alguns minutos agachada ao lado de Lancelot, acariciando-lhe
a cabeça até perceber que este aceitara o lugar onde
fora acomodado.
Novamente na cama, pensou em Louise e na tristeza velada oculta no
olhar dela. Desejou sinceramente reverter o resultado de sua atitude
irresponsável e egoísta. O relógio de pêndulo
do corredor, soou onze vezes, anunciando a décima primeira
hora do período noturno.
___Onde andará Antonio ? - pensou.___longe, em algum quarto
de hotel. E eu, se fosse ele, não passaria tanto tempo longe
dela -concluiu.
Fechou os olhos e as imagens mentais se mesclaram em profusão
de movimento,vozes e cores mirabolantes. A respiração
compassada e o mover rápido dos globos oculares revelaram que
navegava agora ao sabor das ondas Alfas. Uma explosão e a garganta
monstruosa engolindo-a. Petrificada pelo medo e ainda sedada pelo
assassino, Victória debatia-se em busca de luz e ar. As mãos
de Louise a içaram das profundezas e sua voz, em um tom de
intensa ternura e dor, acalentava-a, prometendo não abandona-la
nos subterrâneos de Hades.
Sentou-se na cama, sobressaltada. Avistara o "Devorador de Almas"
e suas vítimas insepultas. Arquejava agoniada quando viu diante
de si, novamente, Louise vestida em um diáfano vestido. Com
a luz azulada do luar que se entrevia pela grande janela, banhando-a,
parecia resplandecer, sobrenatural.
___Os pesadelos novamente. - disse ela, tocando suavemente a face
porejada de suor de Victória com os dedos da mão. A
voz dela, grave e sedutora a fez tremer ao toque.
A policial, olhou ao redor. Estavam em um quarto desconhecido e Louise
lhe sorria docemente.
Depois abriu uma gaveta e lhe presenteou com anel em forma de estrela
com um rubi no centro.
___Jour, eu...
___Não diga nada, Dian! - pediu ela, aproximando o rosto e
oferecendo os lábios ardentes ao beijo enlouquecedor. Beberam-se
até serenarem, ofegantes. Os lábios túmidos ante
o furor das carícias.
Louise deitou-se sobre Victória e passou a desnuda-la lentamente,
enquanto seus lábios e língua lhe percorriam o corpo,
invadindo, sorvendo, desvendando.
Iniciara a lhe fazer amor com o corpo febril de desejo. Onde tocava,
parecia queimar a pele. Orvalhava sua jovem parceira com lágrimas,
murmurando palavras incompreensíveis, em voz rouca, eivada
de uma sensualidade ímpar.
O embate longo, intenso, fez o corpo de Victória vibrar em
êxtase, contorcendo-se agoniado, suplicando para que sua amante
finalmente a possuísse por completo.
As carícias voluptuosas, intensificaram-se a ponto de faze-la
gemer de dor e prazer, ao ter o corpo lanhado pelos dentes, sugado
forte e penetrado com fúria. Atingiu o clímax, invadida
por espasmos intensos. Abandonou-se prostrada ante a descarga elétrica
deflagrada pelo o orgasmo poderoso.
Gemeu baixinho, sentindo-se relaxar e virou-se de bruços, adormecendo.
Um golpe forte nas costas a assustou enquanto lhe roubava o fôlego.
___ah! O peso dos meus pecados! - exclamou, enquanto virava-se na
cama, lançando o parrudo gato ao chão.
Sentou-se e observou ao redor. Estava sozinha e em seu quarto.
___um sonho! - constatou.
Meteu-se no banheiro, fazendo com que a água quente enevoasse
o ambiente com o vapor.
Demorou ensaboando os membros lassos e recordou detalhes excitantes
do que sonhara, sabendo que a lembrança da maioria de seus
sonhos prazerosos, esvaia-se da memória ao fim do dia.
Ao voltar ao quarto enrolada na toalha, uma calça, camisa e
blazer estavam dispostos na cama. Ao lado dela, sapatos com saltos
médios e meias finas. Estranhou que escolhessem a roupa que
deveria usar no dia, entretanto ao experimentá-las, apreciou
o resultado no espelho.
Quando desceu para o café, encontrou Louise entretida ao celular.
Desligou e iniciou a preencher a folha da agenda em seu colo.
Tereza tratou de fazer surtir novamente a mesa.
Victória serviu-se, tentando disfarçar seu olhar sobre
Louise. André Araújo contara que elas, haviam estado
nos subterrâneos, lutando juntas contra a morte. O que mais
a surpreendia era o fato de que mesmo em todos aqueles meses de celibato,
não fora assediada por sonhos eróticos com aquela intensidade.
Seria uma delícia recordar, se a parceira de loucura fosse
outra personagem. Não a mulher de seu pai.
Na medida que sua mente sonolenta despertava, a culpa, algoz dos insensatos,
a invadia.
___está sem fome ? - inquiriu Teresa.
___não. Apenas com pouco apetite. - desculpou-se Vick.
Louise ergueu os olhos de suas anotações e cravou-os
na recém chegada.
___atrasou-se duas horas.
___dormi demais. - retrucou Victória, evitando o olhar dela,
mas não conseguindo evitar o rubor que lhe subiu às
faces.
___Estava esperando que descesse. Convidei André para lhe fazer
companhia em seus passeios hoje.
___passeios ? - ecoou Victória, não acreditando que
a "Madame dos Portais" estava lhe oferecendo uma chave.
___se você assim desejar, claro.
___isso é ótimo! - Di Angelis entusiasmou-se, fazendo
um movimento amplo com os braços, mas ainda esquivando-se dos
olhos incandescentes dela.
Uma
xícara ricocheteou da mesa e espatifou-se no piso, não
sem antes derramar todo o líquido de seu bojo, no impecável
tailler "risca de giz" da Delegada.
Vick empalideceu, entretanto, Louise levantou-se calmamente e avisou
à governanta que iria mudar a roupa antes de sair para o trabalho.
No olhar, a imponência e frieza habituais.
Como uma criança contente por não ser repreendida à
mesa, a jovem hospede tratou de ajudar a empregada a recolher os cacos.
___deixe que eu cuide disso. A senhorita também é dona
da casa.
Escapulindo pela porta lateral, Victória procurou pela sombra
de um gazebo, sentando-se embevecida pelas flores azuis que pendiam
em cachos sobre a estrutura. Examinou uma contra o palmo da mão
e constatou que tinha a forma parecida com a de um beija-flor e um
azul cintilante pendendo para o violeta.
___uma flor especial. Chamam-na de "sapatinho-de-judia".
- informou Teresa com seu sorriso franco.___vim avisa-la que o senhor
Araújo já está na sala à sua espera.
OUTRAS REVELAÇÕES
André dirigia agora um carro modelo popular novo.
___Doutora Louise me aconselhou a comprar um carro novo. Preocupa-se
com a sua e a minha segurança. - explicou. Estou procurando
um escritório melhor para alugar. Quando se recuperar totalmente
e se não quiser continuar na polícia, pode trabalhar
comigo. Seremos sócios. Imagine a placa: Di Angelis & Araújo
Detetives Associados...
Ela riu mas observando o rosto dele, percebeu uma sombra de preocupação,
intuindo que o assunto podia ter outras facetas ocultas, não
tão divertidas.
___acredita que há a possibilidade de que eu não volte
a trabalhar para o Departamento de Polícia ? - inquiriu.
___para o Estado, você estava morta. Sua chefe, atual esposa
de seu pai, a ex-Titular do Oitavo Distrito, está se empenhando
para reverter seus assentamentos onde consta o óbito.
___Então Louise também está tratando do assunto
?
___principalmente ela. Esteve de licença para cuidar de assuntos
particulares por quase um ano e há cinco dias quando voltou,
havia decidido afastar-se da polícia. Entretanto o Secretário
da Segurança insistiu para que assumisse o comando da Seccional,
a Delegacia de controla todas as outras do Município. Com isso,
ela trabalhará com carga horária diminuída e
também poderá cuidar mais de perto dos prósperos
negócios da família.
___Mas o que a faz se empenhar tanto para que eu seja reincorporada?
Pode ser que eu não me importe em voltar para a corporação
e decida trabalhar em outro ramo de negócios.
___Ela sabe, tanto quanto eu e todos os que te conhecem, que quando
você recuperar a memória, se importará sim. Aliás,
pertencer à organização policial significava
tudo para você. Acredite minha cara: você é uma
policial excepcional e vive, respira e sonha com o seu trabalho.
___Entretanto, com este atentado que sofri, podem restar algumas seqüelas
emocionais e...
___Este será outro obstáculo que teremos que enfrentar,
tão logo seus assentamentos sejam regularizados. Podem querer
te aposentar por invalidez como fizeram comigo. Traumas cranianos
não são bem vistos pelos manda-chuvas da cúpula.
Temem as seqüelas emocionais que você citou, entre outras
seqüelas de origem orgânica que inutilizem o policial para
o trabalho nas ruas. E trabalho burocrático para você,
é uma piada de mau gosto. Não possuis índole
para isso.
No escritório, Araújo retirava várias fichas
de uma pasta.
___trabalhos para a semana. Esta aqui, foi conferir seu CPF junto
ao sistema on-line da Receita Federal e depois que lançou o
número, apareceu o nome de Jonas Melo. O nome dela é
Maria Cândida Valentino. Outro cliente, acredita que o vizinho
fez um "gato" subterrâneo e está roubando energia
elétrica de sua casa. Outro, pensa que um adversário
político grampeou os telefones de seu escritório, o
que não seria nenhuma surpresa.
___não estou certa de que iria gostar deste trabalho.
___Os casos que enumerei são os mais freqüentes e tediosos.
No entanto, vez ou outra aparecem casos dignos de nota.
___como o meu ?
___exato. Agora, antes que você durma sobre estas fichas, devo
lhe contar a principal razão pela qual fui convidado a acompanha-la
até a cidade hoje.
___mais um arranjo misterioso da "Senhora dos Portais de Olhos
Glaciais" ?
___é isso. Um arranjo que a agradará. Nesta noite haverá
uma festa para comemorar a sua volta. Um grupo seleto de pessoas foi
convidado, entre colegas e amigos. Todos estão ansiosos há
dias para reencontra-la. E naturalmente, os portais que a encerram,
minha cara, serão franqueados por Louise e seu pai.
___Uma ótima notícia, mas ainda não entendi o
motivo principal para de ter sido "solta" hoje, sem uma
centena de cuidados, guarda-costas brutamontes e carro preto blindado.
___Está sentindo na pele o que Julia, filha única de
Louise tinha que se submeter. Vivia chateada por não ter a
liberdade das mesmas garotas da idade. No entanto, recaiam sobre ela
dois itens que não se pode desprezar: é herdeira de
uma das maiores fortunas do Estado de São Paulo e filha da
Delegada mais temida e odiada pelos chefões do crime organizado.
Em uma circunstância, a garota esteve sob sua responsabilidade.
Era a forma que Louise encontrou de não deixa-la tão
aborrecida com o batalhão de seguranças homens que a
seguiam diuturnamente. Você na minha opinião, valia mesmo
por quatro, entretanto, naquela ocasião Julia foi raptada e
você quase foi executada sumariamente.
___Ato imprudente da Delegada.
___Nada disso. Ela agiu da melhor forma possível. O que não
podia calcular era que um policial da corporação, acima
de maiores suspeitas, que este colega nosso as trairia sordidamente.
Tempos depois, Julia, pelos mesmos motivos que você hoje se
aborrece, fugiu de casa e foi presa fácil para as bestas-feras
que circulam pela noite.
___resumindo ?
___Enquanto não recuperar sua memória e demonstrar que
é totalmente capaz de se cuidar, não terá a autonomia
desejada. Agora também é herdeira de Louise e de quebra,
herda os inimigos dela também, incluindo o crime organizado.
Apesar de que, antes, estes indivíduos já temiam e odiavam
você com igual intensidade.
___ gosto de me sentir tão cobiçada. E o motivo para
este passeio ?
___compras. Recebi o dinheiro de sua mesada para levá-la às
compras. Decerto, para o evento desta noite, uma mulher iria gostar
de comprar um vestido novo, perfume e outros acessórios.
___muita perspicaz. Mas, estou curiosa para saber o valor da mesada.
___Está aqui. Ainda sabe contar dinheiro ?
Victória sorriu e passou a manusear as notas. Quando terminou,
estava perplexa.
___aqui tem o salário que eu ganharia em dois anos de trabalho
pesado, tratando de gado e cavalo lá na fazenda do Rui.
___é a mesada do mês. Se for econômica, dá
para ir fazendo uma bela poupança. Não vai ter despesas
com casa, alimentação e transporte agora.
Di
Angelis concordou, pensativa.
___mas, como você mesmo concluiu, esta mulher vai gostar de
comprar um vestido novo e outras porcariadas. Onde fica o shopping
próximo?
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