MANHÃS



A luz matutina brincava em seu rosto. Não tivera sono tranqüilo. Antes, voltou a ser aterrorizada pelos sonhos com túneis escuros, gritos angustiados e o aluvião arrastando-a implacavelmente para as profundezas, enquanto a feria e afogava.

Levantou-se e julgou ouvir o canto do galo vermelho. Aguçou o ouvido e não ouviu mais nada além do trinar do Sem-fim. Apreciava o canto do pássaro que os peões teimavam entre si, afirmando alguns que o canto dizia: Peixe frito. Os outros, ouviam claramente: Sem-fim.
A sua volta, um quarto desconhecido. O reflexo no espelho da penteadeira, este delineava alguém. Tocou o rosto sonolenta. Cuidou de lavá-lo e pentear os cabelos. Desceu a escadaria de acesso ao hall principal, desejando encontrar a "senhora dos portais". Avistou-a sentada em uma mesa posta para o desjejum. Lia atentamente o jornal, enquanto bebericava elegantemente uma xícara de capuccino.

___sente-se Victória! - determinou ela, sem erguer o rosto para a recém chegada.

Di Angelis não demorou a servir-se. O apetite matinal costumava ser voraz e a mesa estava bem fornida com variedades de pães, geléias, leite, sucos e queijos.
Apenas um item a incomodava. Quando estava embaraçada, não conseguia engolir líquidos sem fazer ruído com a glote. No terceiro, glut-glut, Louise ergueu seus olhos vibrantes e fixou em seu rosto como um alfinete espetando a borboleta contra a madeira.

___Quando era criança engoli uma tampa de garrafa e ela entalou na garganta. - retrucou Vick, mordaz.

A Delegada levantou uma sobrancelha, observando-a agora com mais atenção. O rosto fechado, não manifestou agrado ou desagrado. Finalmente retomou a leitura do jornal.

Victória sorriu e enquanto preparava mais dois pães para si, lembrava-se de outro sonho da noite anterior. O único além do pesadelo.

Entrara em uma imensa casa comercial. Talvez um shopping. Haviam três pisos e escadas rolantes. O produto comercializado alí era o mesmo: vendia-se famílias completas.
Em algumas lojas, mães de todas a idades e tipos, sorriam e acenavam.
Em uma repartição, comprava-se pais sorridentes, autoritários, chorosos ou apáticos.
O comando chave era: ____siga-me! - E o pai, mãe, irmão ou avô escolhido a seguiam.
Saíra do local com dois. Antonio e Louise. Talvez um equívoco. De freguesa virara produto e a família que passava a avistou e a escolheram. Sonho estranho.

Engoliu o ultimo naco de pão e levantou-se. Em sua mente, estabelecia o que faria no dia. Louise adiantou-se.

___Se quiser voltar para a cama ou estender-se na rede sob o caramanchão, fique à vontade. Não teve boa noite de sono. Tereza estará por perto se precisar de algo.

A jovem, olhou-a inquisitiva e aproveitando que ao menos agora, ela desviara a atenção da leitura do jornal. Arriscou.

___Vai sair ?

___Sim. Até a Delegacia mas retorno por volta das dezessete horas.

___Nesse caso, poderei ir com você, ver a delegacia e os colegas.
Louise levantou-se abruptamente.

___Deverá ficar no condomínio. Heitor e Oliveira a acompanharão nos passeios pela propriedade. O momento certo de reencontrar seus colegas, decidimos eu e seu pai.

Vick enrubesceu. Comprovara-se o que temia. Estava com sua liberdade tolhida a sete chaves por uma mulher tirana e implacável. Seu problema, trauma craniano, a reduzira ao status de tutelada da madrasta. Não havia possibilidade de diálogo.

A Delegada retirou-se e minuto depois, ouviu-se o ronco potente do motor japonês do carro que se afastava.

Sentiu justa indignação e partiu para o interior da residência principal em busca do telefone. Depois de algumas ligações, saiu para um passeio entre o arvoredo. Os guarda-costas, vestidos em ternos alinhados, a seguiam discretamente. Uma potente motocicleta estradeira com a chave no contato, fora retirada da garage. Aproximou-se e o rapaz que cuidava de lustrar os cromados do veículo, sorriu com simpatia.

___uma bela motocicleta. - elogiou.

___é sim, senhora. O doutor Antonio gosta que eu a deixe bem polida nos metais, cuidada com silicone nas partes de fibra e borracha e grafite no miolo das chaves e pontos de atrito.

___tenho uma moto. Uma Harley Davidson muito parecida com esta que você está se ocupando.

Thomas, voltou-se para observar melhor a jovem ao seu lado.

___A senhorita é a filha do patrão, estou certo?

___É, eu sou.

___Então esta aqui é a sua Harley. Ele mandou que eu a pusesse no ponto, para quando a filha melhorasse.

___Este dia chegou.

O empregado a olhou, desconfiado.

___voltou do hospital ontem.

___Passei sete dias dormindo depois da cirurgia. Terapia do sono só para garantir.

___No entanto, acho que não deve tomar sol na cabeça.

Victória começou a se aborrecer e perguntou impaciente.

___o capacete, está aí ?

O moço apresentou o acessório.

___Então, está decidido. Vou sair para uma volta.

___não estou certo que a patroa autorizaria.

Vick avistou o controle dos enormes portões, junto ao chaveiro da motocicleta. Sentia-se insegura se conseguiria pilotar a máquina, mas confiava que conseguiria agir no reflexo espontâneo. Montou e ligou o motor.

Na arrancada furiosa, ainda ouviu as vozes dos guarda-costas, atrás de si. Acionou o controle e o portão de ferro pesado, abriu-se lentamente.
Ganhando a sinuosa estrada entre as propriedades do condomínio, buscou a saída que visualizara no dia anterior. Os seguranças da guarita, ainda tentaram manter as cancelas baixadas para detê-la, entretanto, Victória acelerou mais o veículo. A tempo, o rapaz próximo ergueu o obstáculo, temendo ferir a enteada da famosa Delegada de Polícia. A governanta havia ligado para a portaria, pedindo que impedissem à jovem, com cautela.

___Doutora Louise Bittencourt liquida com o emprego de vocês, se Victória Di Angelis sofrer qualquer ferimento. - avisou.

Na estrada, pilotava abstraída em seus pensamentos. Agora sim, libertara-se.

 



Escritório de investigações particulares.
Detetive A. Santos Araújo.


A inscrição na plaqueta metálica, indicava o segundo andar, sala 23 de um prédio comercial mal conservado.
Entrou porta adentro sem cerimônia. O amigo examinava algumas fichas e garatujava algumas linhas em um bloco de anotação. No cubículo, escrivaninha, duas cadeiras defronte a esta, estante metálica e arquivo. Na janela escurecida pela fuligem, fios dos postes traçavam linhas diagonais.

___não imaginei que a doutora autorizasse esta visita. - comentou.

___não autorizou. - informou Victória, sentando-se diante do ex-colega.

Ele cofiou o bigode, franzindo a testa em gesto de preocupação.

___Louise não está acostumada a ser contrariada.

___não me importo com Louise. Vim porque preciso que me esclareça algumas coisas que estão me intrigando.

___acredita que tenho a resposta ?

___certamente.

___pergunte! - assentiu ele, depondo as fichas sobre a mesa e olhando-a com atenção.

Victória desfiou uma série de questionamentos. Porque o pai não a havia procurado desde que soube de seu paradeiro e vivia ausente em viagens à negócio; a razão pela qual a madrasta a desprezava e aprisionava e porque seus colegas e amigos estavam sendo mantidos à distância.

___Você desapareceu no interior de uma galeria pluvial antiga que não consta nos mapas dos subterrâneos de São Paulo. Louise estava ao seu lado, mas em algum momento, ela a perdeu. O rio subterrâneo desaguaria em outro, à céu aberto.

O Detetive esticou o braço e alcançou um mapa que estava enrolado dentro de um estojo de papelão. Apontou o rio subterrâneo, apelidado de Aqueronte e onde deveria desaguar no Tietê.

___Os bombeiros, encontraram Louise aqui. - apontou.____procuraram por você por toda esta região. - assinalou com um lápis vermelho.___ocorre que também havia a possibilidade de na pior das hipóteses, seu corpo ter se prendido no interior das galerias submersas, junto aos entulhos. Chovia muito na ocasião.

___e então ?

___Louise contratou um exército de homens e mulheres que esquadrinharam quilômetros abaixo do Tietê. Policiais, Bombeiros e operadores de dragas, trabalharam por uma semana no local. Encontraram alguns corpos mutilados. DNA negativo em todos eles. Antonio Di Angelis por sua vez, fez publicar sua foto em jornais na região, oferecendo recompensa por uma informação que levassem a encontra-la, viva ou não. Muitos o procuraram indicando locais, cidades ou regiões ermas. Nada. Até que seu pai, ele...

___o que aconteceu ?

___não resistiu à angústia e tensão diária e sofreu um infarto. Diante disso, Louise que trabalhava incessante nas buscas, tomou o controle da situação e cuidou para que fosse operado com urgência. Ele recebeu duas pontes de Safena. Agora compreende o porque do aparente desinteresse dele e também porque só o avisamos sobre você, depois que já havia sido operada e convalescia no hospital ?

___então ele não sabia que eu estava em São Paulo ?

___não fazia a mínima idéia. Quando a localizei no interior de Minas Gerais, contatei Louise que estava na Europa, visitando a filha adolescente.

Araújo relatou para Vick, o drama sofrido por Júlia Bittencourt, pouco antes de seu desaparecimento. Relatou também, detalhadamente o trabalho da Equipe Especial do Neblinas em busca do Serial Killer conhecido como "O Devorador de Almas", ou o "Filho de Nix".

O telefone tocou e Araújo atendeu, enquanto defronte, Victória tamborilava com os dedos sobre a mesa, tentando diluir dentro de si, o medo que o relato lhe incutiu. Agora entendia o significado dos pesadelos. Eles lhe contavam sobre os últimos momentos que vivenciara antes de sua partida para o esquecimento.

___sim. Ela está aqui. Estamos terminando um assunto e logo eu me encarrego de conduzi-la para casa. - afirmou André Araújo ao telefone. Desligou.

___Era Louise ?

___exato e me comprometi em conduzí-la de volta antes que seu pai ligue para saber sobre você.

___Ele está viajando ?

___A negócios. Cumpre ordens médicas que pediu que tentasse manter o ritmo normal de trabalho com o objetivo de conter o impacto emocional causado pelo seu reaparecimento.

___como me encontrou em Minas ?

___Estava participando das buscas. Fui aposentado compulsoriamente em virtude de um acidente no trabalho. Então, abri este escritório para aumentar o orçamento. De bom grado teria continuado meus trabalhos no caso, quando o dinheiro escasseou e tive que voltar a atender outros clientes.

Tornou a cofiar o bigode e apontou o dedo indicador para a porta.

___foi assim que um dia, meses depois do sepultamento simbólico, a doutora Louise entrou por aquela porta e me ofereceu uma boa quantia para me dedicar única e exclusivamente no seu caso. Aceitei prontamente, pois assim voltaria a trabalhar no que para mim era uma dívida de honra.

___dívida ?

___você salvou minha vida e ainda conseguiu me trazer de volta para meu filho e esposa. Mas isso foi pouco antes de me aposentar. - afirmou ele, com os olhos avermelhados ante a forte emoção.
Indicou o porta-retratos com a foto sua ao lado de uma simpática senhora e um menino aparentando nove anos ou menos.

___porque Louise o escolheu ?

___pelo mesmo motivo que eu escolheria você para encontrar meu filho, se ele se perdesse. Intuição e capacidade para se empenhar no trabalho incansavelmente.

___assim, iniciei a colar cartazes com sua foto nos bares, esquinas e praças. Um dia um homem me ligou, informando que um caminhoneiro que bebera uns goles em seu boteco, contara uma estória sobre a mulher fantasma que o abordou, pelas bandas da ponte do rio taboinha. A conversa se iniciara entre os motoristas, quando um deles passou a desfiar uma série de causos de assombração de estrada. No caso do caminhoneiro Lopes, este assegurou com firmeza que encontrou uma alma vagante, quanto parou no acostamento, próximo à ponte para verificar um pneu que estava soltando a recauchutagem. Descreveu-a detalhadamente e assustou-se ao se deparar com a fotografia sua no cartaz atrás do balcão.

___você deve ter recebido centenas de ligações com relatos desse tipo. O que foi que lhe chamou a atenção para o caso?

Ele bateu o dedo médio na fronte.

___intuição. Procurei o boteco, lá me informei sobre o Lopes e o itinerário que costumava fazer: Interior de Minas. Mais algumas semanas e encontrei-o em um posto de gasolina a caminho de São Paulo. Disse que a assombração entrou pela boléia adentro e ele não se atreveu a enxotá-la. - "E quem se atreveria ? A moça, branca como só os de fora dessa vida poderiam ser - (nas palavras do Lopes), vestia pedaços de roupa rasgada e dizia que precisava fugir do "Devorador". Em uma parada na beira da estrada, já em Minas, você desapareceu. Decerto tomou o rumo do vale onde a Dona Dita a acolheu.

___estava frio e sentia muita fome. - recordou-se Victória com o coração opresso, mas desejava saber tudo que pudesse. ____como foi que apareci na ponte do rio Taboinha?

___Está aqui! - indicou ele no mapa.___galerias centenárias que estavam bloqueadas e foram desobstruída por força da explosão causada pelo Delegado Edgar Meirelles, chefe das equipes de apoio. Você por algum motivo, separou-se de Louise neste ponto e desembocou no taboinha, um córrego raso e assoreado que ganhara volume naquela noite devido às chuvas e às águas do rio subterrâneo. Deve ter flutuado boa parte, em estado de choque e depois, ao finalmente ganhar as margens, deparou-se com o Lopes e seu caminhão.

___isso explica tudo.

___Louise pensa que é a teoria mais próxima da realidade.

___e naquela tarde, você apareceu na fazenda do Rui, com suas fotos e história.

___após ter avisado a Delegada na Europa e ela ter me instruído para convence-la a voltar, voluntariamente para não agravar as possíveis seqüelas do acidente.

___Letícia me convenceu a ligar.

___E assim, informei Louise que embarcou imediatamente para o Brasil e me encarregou de conduzi-la para os exames preliminares.

Victória amuou. Fora injusta com seu pai e a Delegada, que por trás da máscara de quase indiferença, haviam amargado um ano e meses em uma busca, incansáveis. Entendia agora em parte a atitude controladora de Louise. Não queria correr o risco de perde-la novamente.

___Então, tenho que ir antes que Antonio ligue. - apressou-se.

___deixe a motocicleta no estacionamento ao lado. Amanhã um empregado se encarrega dela. Você vem comigo no fordão.
Araújo não entrou na residência e partiu em seu velho automóvel. Na sala, Louise silenciosa a esperava chegar. A governanta apressou-se em arrumar a mesa do jantar. Antonio ligou meia hora depois e conversou animado com Victória. Disse que sentia saudades e logo estaria de volta. Sem dizer palavra, as duas mulheres subiram as escadarias e cada uma se dirigiu ao seu quarto. Vick preparou-se para deitar como na noite anterior e ao aconchegar-se debaixo dos cobertores, a sonolência a venceu.

No quarto escuro, não soube o que a despertou. Aspirou a deliciosa fragrância, sentindo-se perturbada ao divisar com Louise sentada ao seu lado, na cama.

CAVALEIRO DA CARA MARROM


Victória pôs-se alerta. Sabia que Louise tinha o direito de repreende-la com rigor, porém o gesto dela fez surpresa. Içou do nível do chão, uma caixa de madeira, parecida com uma arca, com alça e portinha cheia de orifícios. Do interior, um ruído estranho, semelhante à uma moto-serra enguiçada.

___tive que pedir ao caseiro para aprisiona-lo.

Estendeu a mão alva e abriu a portinhola com rapidez. Retirou os dedos bem a tempo de evitar ser arranhada por uma pata robusta em tom chocolate.

___o que tem aí ? Uma ariranha ?

A criatura dentro da caixa passou a ronronar com fúria ao ouvir a voz de Vick. Depois, com um baque pesado, um enorme gato siamês com cara marrom, saltou sobre o abdômen de Victória, esfregando-se nela freneticamente, enquanto os ronrons cambiavam de rosnados a uma espécie de gemido agudo.

___Sir Lancelot! - apresentou a Delegada.

Victoria soltou uma risada cristalina e tomou a mão de Louise na sua. Não tinha palavras para agradece-la e por isso esperava que aquele toque lhe dissesse o quanto estava arrependida de tê-la preocupado e a perdoasse.

Neste instante, Lancelot passou a "amassar pão" sobre o ventre da dona.

___vou deixar vocês a sós. Depois, poderá acomoda-lo naquele cesto acolchoado ao lado da poltrona de leitura. Providenciei ração e outros acessórios para felinos deste porte. Não se preocupe se ele escapulir pela janela para uma volta noturna. Não mantenho mais cães de guarda na propriedade. - avisou Louise com voz baixa.

Saiu e o gato, após ter amassado bastante a região onde queria se acomodar, ronronou e deitou-se com um outro baque pesado.

___amanhã o senhor Lancelot iniciará um regime. Está obeso. - ralhou ela, carinhosamente.

Relaxou e suportou o quanto pôde manter-se deitada de barriga para cima com aquele volume pesado e peludo aninhado em si. Vencida pelo cansaço, apanhou o robusto felino e o acomodou no cesto. Ficou alguns minutos agachada ao lado de Lancelot, acariciando-lhe a cabeça até perceber que este aceitara o lugar onde fora acomodado.
Novamente na cama, pensou em Louise e na tristeza velada oculta no olhar dela. Desejou sinceramente reverter o resultado de sua atitude irresponsável e egoísta. O relógio de pêndulo do corredor, soou onze vezes, anunciando a décima primeira hora do período noturno.

___Onde andará Antonio ? - pensou.___longe, em algum quarto de hotel. E eu, se fosse ele, não passaria tanto tempo longe dela -concluiu.

Fechou os olhos e as imagens mentais se mesclaram em profusão de movimento,vozes e cores mirabolantes. A respiração compassada e o mover rápido dos globos oculares revelaram que navegava agora ao sabor das ondas Alfas. Uma explosão e a garganta monstruosa engolindo-a. Petrificada pelo medo e ainda sedada pelo assassino, Victória debatia-se em busca de luz e ar. As mãos de Louise a içaram das profundezas e sua voz, em um tom de intensa ternura e dor, acalentava-a, prometendo não abandona-la nos subterrâneos de Hades.
Sentou-se na cama, sobressaltada. Avistara o "Devorador de Almas" e suas vítimas insepultas. Arquejava agoniada quando viu diante de si, novamente, Louise vestida em um diáfano vestido. Com a luz azulada do luar que se entrevia pela grande janela, banhando-a, parecia resplandecer, sobrenatural.

___Os pesadelos novamente. - disse ela, tocando suavemente a face porejada de suor de Victória com os dedos da mão. A voz dela, grave e sedutora a fez tremer ao toque.

A policial, olhou ao redor. Estavam em um quarto desconhecido e Louise lhe sorria docemente.

Depois abriu uma gaveta e lhe presenteou com anel em forma de estrela com um rubi no centro.

___Jour, eu...

___Não diga nada, Dian! - pediu ela, aproximando o rosto e oferecendo os lábios ardentes ao beijo enlouquecedor. Beberam-se até serenarem, ofegantes. Os lábios túmidos ante o furor das carícias.

Louise deitou-se sobre Victória e passou a desnuda-la lentamente, enquanto seus lábios e língua lhe percorriam o corpo, invadindo, sorvendo, desvendando.

Iniciara a lhe fazer amor com o corpo febril de desejo. Onde tocava, parecia queimar a pele. Orvalhava sua jovem parceira com lágrimas, murmurando palavras incompreensíveis, em voz rouca, eivada de uma sensualidade ímpar.

O embate longo, intenso, fez o corpo de Victória vibrar em êxtase, contorcendo-se agoniado, suplicando para que sua amante finalmente a possuísse por completo.
As carícias voluptuosas, intensificaram-se a ponto de faze-la gemer de dor e prazer, ao ter o corpo lanhado pelos dentes, sugado forte e penetrado com fúria. Atingiu o clímax, invadida por espasmos intensos. Abandonou-se prostrada ante a descarga elétrica deflagrada pelo o orgasmo poderoso.

Gemeu baixinho, sentindo-se relaxar e virou-se de bruços, adormecendo.

Um golpe forte nas costas a assustou enquanto lhe roubava o fôlego.

___ah! O peso dos meus pecados! - exclamou, enquanto virava-se na cama, lançando o parrudo gato ao chão.

Sentou-se e observou ao redor. Estava sozinha e em seu quarto.

___um sonho! - constatou.

Meteu-se no banheiro, fazendo com que a água quente enevoasse o ambiente com o vapor.
Demorou ensaboando os membros lassos e recordou detalhes excitantes do que sonhara, sabendo que a lembrança da maioria de seus sonhos prazerosos, esvaia-se da memória ao fim do dia.

Ao voltar ao quarto enrolada na toalha, uma calça, camisa e blazer estavam dispostos na cama. Ao lado dela, sapatos com saltos médios e meias finas. Estranhou que escolhessem a roupa que deveria usar no dia, entretanto ao experimentá-las, apreciou o resultado no espelho.
Quando desceu para o café, encontrou Louise entretida ao celular.
Desligou e iniciou a preencher a folha da agenda em seu colo.

Tereza tratou de fazer surtir novamente a mesa.

Victória serviu-se, tentando disfarçar seu olhar sobre Louise. André Araújo contara que elas, haviam estado nos subterrâneos, lutando juntas contra a morte. O que mais a surpreendia era o fato de que mesmo em todos aqueles meses de celibato, não fora assediada por sonhos eróticos com aquela intensidade. Seria uma delícia recordar, se a parceira de loucura fosse outra personagem. Não a mulher de seu pai.

Na medida que sua mente sonolenta despertava, a culpa, algoz dos insensatos, a invadia.

___está sem fome ? - inquiriu Teresa.

___não. Apenas com pouco apetite. - desculpou-se Vick.
Louise ergueu os olhos de suas anotações e cravou-os na recém chegada.

___atrasou-se duas horas.

___dormi demais. - retrucou Victória, evitando o olhar dela, mas não conseguindo evitar o rubor que lhe subiu às faces.

___Estava esperando que descesse. Convidei André para lhe fazer companhia em seus passeios hoje.

___passeios ? - ecoou Victória, não acreditando que a "Madame dos Portais" estava lhe oferecendo uma chave.

___se você assim desejar, claro.

___isso é ótimo! - Di Angelis entusiasmou-se, fazendo um movimento amplo com os braços, mas ainda esquivando-se dos olhos incandescentes dela.

Uma xícara ricocheteou da mesa e espatifou-se no piso, não sem antes derramar todo o líquido de seu bojo, no impecável tailler "risca de giz" da Delegada.

Vick empalideceu, entretanto, Louise levantou-se calmamente e avisou à governanta que iria mudar a roupa antes de sair para o trabalho. No olhar, a imponência e frieza habituais.

Como uma criança contente por não ser repreendida à mesa, a jovem hospede tratou de ajudar a empregada a recolher os cacos.

___deixe que eu cuide disso. A senhorita também é dona da casa.

Escapulindo pela porta lateral, Victória procurou pela sombra de um gazebo, sentando-se embevecida pelas flores azuis que pendiam em cachos sobre a estrutura. Examinou uma contra o palmo da mão e constatou que tinha a forma parecida com a de um beija-flor e um azul cintilante pendendo para o violeta.

___uma flor especial. Chamam-na de "sapatinho-de-judia". - informou Teresa com seu sorriso franco.___vim avisa-la que o senhor Araújo já está na sala à sua espera.

OUTRAS REVELAÇÕES


André dirigia agora um carro modelo popular novo.

___Doutora Louise me aconselhou a comprar um carro novo. Preocupa-se com a sua e a minha segurança. - explicou. Estou procurando um escritório melhor para alugar. Quando se recuperar totalmente e se não quiser continuar na polícia, pode trabalhar comigo. Seremos sócios. Imagine a placa: Di Angelis & Araújo Detetives Associados...

Ela riu mas observando o rosto dele, percebeu uma sombra de preocupação, intuindo que o assunto podia ter outras facetas ocultas, não tão divertidas.

___acredita que há a possibilidade de que eu não volte a trabalhar para o Departamento de Polícia ? - inquiriu.

___para o Estado, você estava morta. Sua chefe, atual esposa de seu pai, a ex-Titular do Oitavo Distrito, está se empenhando para reverter seus assentamentos onde consta o óbito.

___Então Louise também está tratando do assunto ?

___principalmente ela. Esteve de licença para cuidar de assuntos particulares por quase um ano e há cinco dias quando voltou, havia decidido afastar-se da polícia. Entretanto o Secretário da Segurança insistiu para que assumisse o comando da Seccional, a Delegacia de controla todas as outras do Município. Com isso, ela trabalhará com carga horária diminuída e também poderá cuidar mais de perto dos prósperos negócios da família.

___Mas o que a faz se empenhar tanto para que eu seja reincorporada? Pode ser que eu não me importe em voltar para a corporação e decida trabalhar em outro ramo de negócios.

___Ela sabe, tanto quanto eu e todos os que te conhecem, que quando você recuperar a memória, se importará sim. Aliás, pertencer à organização policial significava tudo para você. Acredite minha cara: você é uma policial excepcional e vive, respira e sonha com o seu trabalho.

___Entretanto, com este atentado que sofri, podem restar algumas seqüelas emocionais e...

___Este será outro obstáculo que teremos que enfrentar, tão logo seus assentamentos sejam regularizados. Podem querer te aposentar por invalidez como fizeram comigo. Traumas cranianos não são bem vistos pelos manda-chuvas da cúpula. Temem as seqüelas emocionais que você citou, entre outras seqüelas de origem orgânica que inutilizem o policial para o trabalho nas ruas. E trabalho burocrático para você, é uma piada de mau gosto. Não possuis índole para isso.

No escritório, Araújo retirava várias fichas de uma pasta.

___trabalhos para a semana. Esta aqui, foi conferir seu CPF junto ao sistema on-line da Receita Federal e depois que lançou o número, apareceu o nome de Jonas Melo. O nome dela é Maria Cândida Valentino. Outro cliente, acredita que o vizinho fez um "gato" subterrâneo e está roubando energia elétrica de sua casa. Outro, pensa que um adversário político grampeou os telefones de seu escritório, o que não seria nenhuma surpresa.

___não estou certa de que iria gostar deste trabalho.

___Os casos que enumerei são os mais freqüentes e tediosos. No entanto, vez ou outra aparecem casos dignos de nota.

___como o meu ?

___exato. Agora, antes que você durma sobre estas fichas, devo lhe contar a principal razão pela qual fui convidado a acompanha-la até a cidade hoje.

___mais um arranjo misterioso da "Senhora dos Portais de Olhos Glaciais" ?

___é isso. Um arranjo que a agradará. Nesta noite haverá uma festa para comemorar a sua volta. Um grupo seleto de pessoas foi convidado, entre colegas e amigos. Todos estão ansiosos há dias para reencontra-la. E naturalmente, os portais que a encerram, minha cara, serão franqueados por Louise e seu pai.

___Uma ótima notícia, mas ainda não entendi o motivo principal para de ter sido "solta" hoje, sem uma centena de cuidados, guarda-costas brutamontes e carro preto blindado.

___Está sentindo na pele o que Julia, filha única de Louise tinha que se submeter. Vivia chateada por não ter a liberdade das mesmas garotas da idade. No entanto, recaiam sobre ela dois itens que não se pode desprezar: é herdeira de uma das maiores fortunas do Estado de São Paulo e filha da Delegada mais temida e odiada pelos chefões do crime organizado. Em uma circunstância, a garota esteve sob sua responsabilidade. Era a forma que Louise encontrou de não deixa-la tão aborrecida com o batalhão de seguranças homens que a seguiam diuturnamente. Você na minha opinião, valia mesmo por quatro, entretanto, naquela ocasião Julia foi raptada e você quase foi executada sumariamente.

___Ato imprudente da Delegada.

___Nada disso. Ela agiu da melhor forma possível. O que não podia calcular era que um policial da corporação, acima de maiores suspeitas, que este colega nosso as trairia sordidamente. Tempos depois, Julia, pelos mesmos motivos que você hoje se aborrece, fugiu de casa e foi presa fácil para as bestas-feras que circulam pela noite.

___resumindo ?

___Enquanto não recuperar sua memória e demonstrar que é totalmente capaz de se cuidar, não terá a autonomia desejada. Agora também é herdeira de Louise e de quebra, herda os inimigos dela também, incluindo o crime organizado. Apesar de que, antes, estes indivíduos já temiam e odiavam você com igual intensidade.

___ gosto de me sentir tão cobiçada. E o motivo para este passeio ?

___compras. Recebi o dinheiro de sua mesada para levá-la às compras. Decerto, para o evento desta noite, uma mulher iria gostar de comprar um vestido novo, perfume e outros acessórios.

___muita perspicaz. Mas, estou curiosa para saber o valor da mesada.

___Está aqui. Ainda sabe contar dinheiro ?

Victória sorriu e passou a manusear as notas. Quando terminou, estava perplexa.

___aqui tem o salário que eu ganharia em dois anos de trabalho pesado, tratando de gado e cavalo lá na fazenda do Rui.

___é a mesada do mês. Se for econômica, dá para ir fazendo uma bela poupança. Não vai ter despesas com casa, alimentação e transporte agora.

Di Angelis concordou, pensativa.

___mas, como você mesmo concluiu, esta mulher vai gostar de comprar um vestido novo e outras porcariadas. Onde fica o shopping próximo?

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