HOMENAGEM



Com o cabelo tratado no cabeleireiro, Victória instalou-se em seu quarto na residência de Louise e passou a verificar os itens que comprara. Araújo despedira-se informando que não poderia vir à festa.

___vou levar com minha mulher e filho ao cinema hoje. É sexta-feira, dia da estréia de um épico que ele não quer perder.

___Traga-os aqui. O filme, pode ficar para amanhã.

___não. O Pedro era muito ligado a você e pensamos, eu e minha mulher que não faria bem a ele, encontra-la e não ser reconhecido. Explicamos o que significa a amnésia, mas para um garoto é difícil assimilar.

___nesse caso, outro dia a gente se vê.
Lancelot que armara tocaia no corredor, pulara contra as pernas da dona e esta quase vai ao chão com todas as sacolas que trouxera. Louise e seu pai não estavam em casa, no entanto o movimento de empregados era intenso, preparando o salão de recepção principal e de todos preparativos necessários. Carros de fornecedores de bebidas, refrigerantes e Buffets, entravam e saiam.
O felino de cara marrom, foi apanhado pelo couro do pescoço e rebocado até o quarto.

___espero que o senhor Lancelot não tenha atacado mais nenhuma mulher desprevenida.

Soube mais tarde que Teresa e duas outras empregadas foram vítimas do enorme gato.

___está só brincando. - defendeu-o Tereza. ___Do contrário teria fincado as garras em nossas pernas. Acho que se diverte armando tocaia pelos cantos.

___se ele pega a dona da casa, aí a coisa muda de figura. - retrucou uma das empregadas atacadas.

___nesse caso, é melhor mantê-lo sob vigilância! - conclui Vick, fechando-o no quarto consigo para poder tomar banho e se vestir.
Na banheira, não pode deixar de fechar os olhos, enquanto seu corpo tenso relaxava-se ao contato com a água morna. Imagens destacaram-se em sua frente. Louise, seus olhos, seus lábios. Depois, a seqüência voluptuosa de toques, carícias e prazer.
Abriu os olhos preocupada pois ficara intensamente excitada. Lembrou-se de como a chamara: Jour.
Tornou a fechar os olhos e tocou-se suavemente, desejando esvaziar a tensão gerada pela excitação que aumentava a cada detalhe, lembrança do que sonhara.

Direcionou o pensamento para Fernanda, a escritora, mas o estímulo não era suficiente.
A imagem de Louise entregando-se a ela sobre areia branca, a visão de seu corpo despido em um uma espécie de piscina coberta, ou dela lhe penetrando com força, utilizando-se de um artefato erótico. As imagens que a tomaram de assalto a fizeram alcançar o orgasmo e relaxar a ponto de quase afundar inteira na banheira.
Secou-se e hidratou o corpo, ensimesmada. Uma voz dentro de si, sussurrou-lhe que aquelas imagens que lhe sobrevieram no banho, não eram reflexos de sua imaginação e sim, flashs de sua memória que se restaurava lentamente.

___inacreditável. Eu e a "personificação da frieza tivemos um caso" ?
Araújo revelara que Louise afirmava ter uma dívida de honra com Victória pois esta lhe salvara a vida.
Tentando afastar aqueles pensamentos incongruentes, Vick retomou aos cuidados com a pele. Observou-se nua diante do espelho e com um sobressalto, descobriu pequenos hematomas arroxeados no abdômen, colo e coxas. A base do pescoço, estava lanhada com riscos finos e quase invisíveis.

___o que aconteceu comigo ? - inquiriu-se assustada. Sabia que o tom arroxeado representava hematoma recente.
Passou a arrumar-se e a pentear os cabelos com o coração palpitando de ansiedade. Estaria sofrendo convulsões durante o sono ?
Vestiu a roupa íntima com mãos trêmulas. O vestido longo, cinza azulado com decote transversal, mostrava um barrado de renda branca no fim da fenda lateral que lhe desnudava parte das pernas longas bem torneadas. Adquirira um tom trigueiro na pele devido à exposição ao sol, que em nada lhe diminuía o aspecto atraente, tornando-a ainda mais sensual.
Alguém bateu à porta.

___entre.

Teresa apenas apontou sua cabeça simpática pela fresta deixada pela porta.

___Seu pai e a Doutora Louise já estão no salão recebendo os convidados.

___não vou me demorar. - tranqüilizou-a.

Arranjou os cabelos com uma pequena tiara e vestiu a meia-fina cuidadosamente.
Observou-se no espelho e concluiu que estava realmente com boa aparência.
Desde que saíra do interior de Minas, desejara intimamente rever as pessoas que Araújo lhe mostrara nas fotos. Não tinha tomado consciência da intensa solidão e saudade que a consumia naquelas terras do esquecimento. Sentia-as sem saber e agora a emoção causada ante a possibilidade de revê-las, ameaçava esmaga-la.
Tornou a sentar-se na cama, acovardada.
Sir Lancelot saltou em seu colo e passou a "amassar o pão".
Ela não o impediu e deixou-se ficar, mergulhada em seus pensamentos.
Alguém tornou a bater na porta, não sabia quanto tempo depois.

___Estamos esperando-a. - avisou Antonio Di Angelis por trás da porta fechada.
Victória levantou-se de sobressalto e teve que amparar nos braços o roliço gato, que fincara as unhas nos ornatos do vestido, prendendo-se.

___está bem. Se quer se manter aí, pois fique.

Enfiou os pés no sapato alto e saiu porta afora como se expelida. Deparou-se no corredor com Antonio, vestido em social fino que lhe ofereceu o braço.

___só temos um problema. Sir Lancelot prendeu-se no meu vestido e parece pouco disposto a me deixar sair sem leva-lo.

___não há problema. Você e este felino juntos é quase uma marca registrada. Quando pilotava sua moto com o jaquetão de couro, acomodava-o dentro como se fosse uma bolsa de canguru.

Desceram a escadaria lentamente e o burburinho de vozes no salão, desapareceu, cedendo espaço para exclamações veladas.

___está com os cabelos mais curtos.

___o que não diminui em nada sua beleza.

___a pele, dourada, sedutora. - suspirou Leandro Bittencourt.

___e o porte altivo de sempre, apesar do nervosismo. - completou Agnaldo.___eu a conheço bem.

Antonio a conduziu até uma cadeira e postou-se em pé ao seu lado, iniciando um discurso de boas vindas com sua voz poderosa.
Victória sentia sobre si os olhares de todos e não esperava que aquela festa pudesse deixa-la tão embaraçada, perdida.
Terminado o discurso, Antonio Di Angelis beijou o rosto de Victória e os garçons iniciaram a desfilar pelo salão, oferecendo bebidas e canapés. Edgar Meirelles adiantou-se e puxou Victória para um abraço entusiasmado.

___Eu sou o Edgar , atual titular do Oitavo Distrito, substituindo Louise. Seja bem-vinda entre nós. - disse, enquanto a beijava nas faces.

___E eu, o agente Agnaldo, seu amigo. Você me chamava carinhosamente de Gui. - apresentou-se o rapaz loiro muito alto de barba e cavanhaque, acariciando a cabeça castanha de Lancelot que costumeiramente ranzinza, não reagiu agressivo, denotando conhecer o policial.

Uma jovem de olhos e cabelos castanhos avermelhados, aproximou-se séria e estendeu a mão. Victória apertou-a.

___Ana Beatriz. Colega de equipe. Estou sinceramente feliz em saber que ainda está no mundo dos viventes.

___não se aborreça com o jeito sutil e delicado da Bia dizer que sentiu sua falta. É a natureza agreste dela. - emendou o rapaz bonito que se aproximava e que, pela grande semelhança com a irmã, Victória só pôde concluir ser Leandro Bittencourt.___não sabe o quanto a notícia de que você tinha reaparecido, foi importante para todos nós. - completou com os olhos cintilantes de emoção.

Abraçou-a e afastou-se.

___Doutora Lizandra.

A médica empalideceu ao ouvir Victória a chamar pelo nome.

___você se lembra ? - perguntou, engasgada em forte emoção.

___não. André Araújo me mostrou a sua fotografia e memorizei o nome - desculpou-se Vick.

___Mas irá se lembrar. Lentamente, e aos poucos sentirá como se a paisagem das lembranças passadas, antes envolvidas em névoas, se delineasse com todos os detalhes, gradativamente. - constatou a médica, sorrindo e abraçando-a forte.

Lancelot, preso entre elas, ronronou carinhoso.

___ele me conhece. É o pai de Sir Gallahad. Um dia o trarei para você conhece-lo.

Pela primeira vez Victória riu efusivamente relaxando sob o efeito do champanhe.

___não é justo. A doutora está praticando monopólio. - reclamou Dr. Salomão, brincalhão.

___vou deixar a fila andar e livra-la deste broche ronronante por uns tempos. Venha Lancelot. - disse Lizandra, ao desprender cuidadosamente as unhas do gato do vestido de Vick e se afastar, olhando-a com intensidade enquanto sorria.

Victória animou-se e serviu-se de outra taça de champanhe.
Na seqüência, aproximaram-se Doutor Salomão, Mestre Takahishi e outros colegas pertencentes a outros setores do Oitavo Distrito Policial.

___espero que esteja disposta hoje. Vamos colocar uma valsa e você dançará com todos, incluindo as mulheres. Um ritual de boas vindas. - avisou o pai.

___depois que me livrei daquele peso no colo, dançar até o amanhecer será um passeio. - afirmou Vick, sorrindo animada, acompanhando Lizandra discretamente com os olhos.

Louise mantinha-se à distância, sorvendo seu cálice de vinho, séria, acompanhada por Edgar, Salomão, Beatriz e Mestre Takahishi que conversavam animadamente.

Em certo momento, a música envolveu o ambiente e Antonio tirou Victória pelo braço para dançarem. Outros pares se formaram e em certo momento, Edgar arrebatou a homenageada dos braços do pai. Terminada aquela valsa, Agnaldo ofereceu o braço para Vick, levando-a novamente para o centro do salão.

___estão todos em um clima de euforia sobrenatural. Nós ainda não assimilamos com clareza a circunstância de seu retorno. Acho que vai demorar alguns meses para "cair a ficha".

___é natural. Nem eu mesma acredito que estou aqui. Parece que flutuo em um sonho constante.

A valsa mudou, Agnaldo afastou-se para ceder lugar a outro.
Com Leandro conduzindo-a nos braços, as empregadas comentavam entre si, que o par era tão atraente quanto um príncipe e princesa de contos de fada.

O moço sorria embriagado por tê-la junto a si. Para Victória, ver tão perto os olhos azuis, lábios cheios e rubros do rapaz, tão semelhantes aos da irmã, faziam seu coração acelerar.

Ana Beatriz a arrastou pelo salão, valsando freneticamente. Vez ou outra, pisava-lhe os pés.

Terminado o martírio, a homenageada apanhou outra taça de champanhe e virou-a. Sentia-se flutuar e sua vontade era de valsar até desmaiar. Os pés estavam doloridos, magoados pelos sapatos novos, Retirou-os e voltou ao centro do salão, só com a meia fina nos pés. Desta vez, rebocando Lizandra.

___você continua tão linda como sempre. - elogiou a doutora, enquanto a apertava mais contra si.

Victória apenas sorriu e mergulhou o olhar nos olhos verdes profundos dela.

___acabo de me decidir a ficar na cidade em definitivo. - sussurrou-lhe.

___e ainda pensava em voltar para Minas ?

___voltei um pouco contra a vontade. Estava levando uma vida simples e então um homem me aparece, com os bolsos cheios de quadros de meu passado, chamando-me por um nome desconhecido e afirmando que eu podia ter alguma lesão no cérebro que pioraria sem tratamento.

___este último argumento deve ter sido crucial para sua decisão em segui-lo. Você sempre foi um tanto hipocondríaca. Se machucasse a unha do pé, já imaginava que ele ia infeccionar e cair.

Riram divertidas e Lizandra discretamente a acariciava com as mãos.

___Decidi voltar semanas depois, quando a filha do fazendeiro para quem eu trabalhava, aconselhou-me. Não havia acreditado nos argumentos de Araújo e ela me fez perceber que eu estava me esquivando do passado.

A médica estacou o movimento da valsa.

___sempre rodeada por mulheres. Até em uma corrutela perdida no miolo do mundo, sempre haverão mulheres de todas as raças e cor, gravitando ao redor. Você não pertence a ninguém, Victória Di Angelis.

Afastou-se subitamente, deixando Vick aturdida no centro do salão.
Outros parceiros vieram e até a governanta dançou a valsa com a homenageada. Quando chegou a vez de Louise, Victória já havia desabado na cadeira, cansada.

Sir Lancelot passou correndo entre elas, miando divertido. Depois, voltou correndo, escorregando no piso liso com as unhas e chocando-se ruidosamente contra um móvel maciço. Aturdido, passou a lamber o focinho dolorido.

___Bebeu demais. É isso que dá. - observou Edgar.

A sala foi invadida por risadas.

___o jantar será servido.- Anunciou Teresa.

Duas mesas longas foram unidas para abrigar os convivas em torno de si. Na cabeceira direita, Antonio. Na esquerda, Louise.
Victória sorriu embevecida e suportou bravamente até o final da festa, sendo novamente abraçada por todos os convidados. Leandro lhe entregou discretamente, um aparelho celular.

___presente da turma. Assim, poderá conversar com todos os colegas. Os números estão gravados na agenda.

O movimento poderia passar imperceptível para todos, não para Louise que flagrou-o com seu olhar escrutinador.
Sir Lancelot, enciumado por avistar sua dona sendo abraçada por tanta gente, juntou as garras na calça do homem que se aproximara.

___este gato é vacinado ? - perguntou Agnaldo, sorrindo.

___acho que o problema dele é ciúmes. - defendeu Vick, apanhando no colo o felino que passou a ronronar satisfeito.

O ruído dos carros afastando-se marcou o fim dos festejos. Victória adiantou-se para abraçar o pai e este disse que tinha ainda uma surpresa para ela.

Conduziu-a até uma garage e acendeu a luz. Ali estavam a motocicleta Halley Davidson e ao lado um robusto Jeep de carroceria fechada, estilo on-road / off-road.

___a motocicleta, você já sabe que é sua. Já o jeep, é meu presente para você.

A jovem tremeu ao ver à frente aquele carro maciço, quase como um tanque de guerra com rodas altas.

___você sempre precisou de um carro. Não pode contar apenas com a moto em dias de chuva ou frio, além de que, nos passeios com amigos, pode dar carona para mais quatro deles.

___imagino que o salário de um policial comum não dê para comprar e manter um veículo destes.

___mas você não era uma policial comum, tinha uma convicção, filosofia de vida. Se quisesse, poderia sobreviver de suas mesadas, mas nunca aceitou.

Victória abraçou o pai e juntos saíram para a imensa área verde, cruzando-a até alcançar a casa principal. Ele despediu-se beijando-a na testa e subiu a escada.

A jovem procurou seus sapatos pela sala, recolheu o celular novo na bolsa que comprara e apanhou Sir Lancelot pelo cangote.

___toque de recolher.

Subiu a escadaria silenciosa e avançou pelo corredor, apressando-se em alcançar seu quarto. Entrou e fechou-o atrás de si. Cuidou de aninhar Lancelot e faze-lo sossegar.
A porta abriu-se sem ruídos e Louise entrou.

___esperava encontra-la acordada.

Victória sorriu, embaraçada pois naquele exato instante, a contra gosto, imaginava a madrasta em momentos íntimos com Antonio, no quarto dela.

___não dançou a valsa comigo. É um ritual para dar sorte e prolongar a amizade.

Os olhos dela brilhavam como duas jóias. No rosto, a expressão fria desaparecera e cedera lugar a outra, inescrutável.

___meus pés não suportariam. - desculpou-se Vick, embaraçada com a intensidade do olhar da Delegada, virando-se para a penteadeira.

___está linda. - exclamou Louise com dificuldade, adiantando-se para delicadamente, soltar os botões do vestido de Victória. Este, escorreu-lhe sensualmente pelo corpo, mas Louise o segurou, para que não a desnudasse tão prematuramente.

Olharam-se no espelho. Di Angelis viu sua imagem, com o colo desnudo e o vestido longo, preso abaixo dos seios pelas mãos de Louise. A imagem das duas, enlaçadas sensualmente, compunha uma cena que a vinha assaltando em seus sonhos, ou mesmo em momentos de vigília, quando estava só.

___Jour. - chamou-a e a viu sobressaltar-se e deixar o vestido finalmente correr até o chão. Tremeu forte como se despertasse de uma miragem.

___Amanhã. - disse, antes de sair apressada.

Se ainda havia alguma dúvida em Victória a respeito de um envolvimento amoroso intenso com Louise Bittencourt, esta se dissipou com aquela atitude insólita, minutos atrás. A alegria palpitante que antes lhe invadira, esvaiu-se como a areia de uma ampulheta. Célere, implacável.


O AMANHECER DE DUAS ALMAS

Despiu-se e contemplou seu corpo nu diante do espelho. As marcas estavam cambiando do tom arroxeado para o esverdeado.

___Ela esteve comigo na outra madrugada. Não era sonho. Eu a tive nos meus braços e ela me fez amor.

Tantos enigmas solucionados em uma só noite. Primeiramente, a "relação" mantida com a Delegada, antes de desaparecer nos subterrâneos de Hades.
E o tempo transcorrera e a realidade mudara. Louise casara-se com Antonio Di Angelis. O que era de se esperar ? O modo distante como ela a tratara no princípio. Mas sua máscara de indiferença caiu, quando Victória fugira e o sentimento de perda certamente a levou a perder o controle sobre si e seus desejos.

Naquela noite em que lhe trouxera Sir Lancelot e que o medonho pesadelo a assolou, a Bittencourt decerto ouvira seus gemidos e viera consola-la. O que aconteceu depois, estava traduzido, parte em sonho, parte na realidade das marcas deixadas no corpo.
A descoberta de que Louise não lhe era indiferente em absoluto e a desejava com paixão, poderia ser motivo deflagrador em Victória, de um estado de graça inebriante. Entretanto o "status" da Bittencourt : mulher de Antonio Di Angelis, pendia sobre sua cabeça como a lâmina da espada de Dâmocles.

Victória deitou-se nua sob os lençóis e a fadiga emocional a prostrou.
No sonho, um turbilhão de imagens nítidas, todas à meia-luz, misturada às vozes, frases soltas, inacabadas, abateram-lhe sobre os sentidos.

" ... prometa não deixar que meu corpo fique aqui nos subterrâneos! Quero que mande retirá-lo e o sepulte!" - ouviu a própria voz pedir. - "fizemos uma aliança de proteção mútua, lembra-se?"; - "você é tão linda e seus olhos são como duas safiras de brilho esplendoroso. A sua boca, ah, os seus lábios são semelhantes a buganvílias encarnadas"; - "Beijo nos lábios é só para o amor ? Diga Louise o que sente realmente por mim..."

Palavras que emergiam em sua voz, em meio às imagens que lhe acometiam velozes.
Outra voz, a de Louise, misturava-se à sua, falando-lhe com emoção.

"Venha, meu amor! Eu a terei como sempre deveria tê-la possuído na primeira vez" - "Quero sentir que será inteiramente minha !" - "Como poderia esquecer o que me une a ti?" - "O anel. Representa a estrela marte. Quero que o use em minha homenagem" - "Você é muito importante para mim! Depois que entrou em minha vida escura e solitária, tudo mudou e passei a ter prazer nas pequenas coisas e a apreciar todas as manhãs, quando a chamava em meu gabinete, com uma desculpa qualquer para vê-la sorrir ou falar".

Victória acordou sobressaltada no meio da madrugada.

___Amanhã, ela disse! Agora me lembro ! Eu a amo e não poderei continuar a agir como se nada tivesse acontecido.

As imagens mentais, lembranças, invadiam sua mente aos borbotões, como entes ausentes que retornavam finalmente ao seu lugar.

SÁBADO

Desceu as escadarias como se a manhã daquele dia, significasse o marco, a pedra angular dos próximos dias de sua vida.

Encontrou Antonio sozinho na mesa do desjejum.
Ele a viu e gesticulou animado para que se aproximasse.

___bom dia filha. Dormiu bem ?

___sempre com sonhos e pesadelos extensos qual longa metragem.
Entretanto, como diria Freud, todos cheios de significados, enigmas e mistérios. Acho que estou me entendendo bem com eles, agora que os estou desvendando.

___isso é positivo. Para se exorcizar pesadelos, nada como decifra-los e reduzi-los a quimeras.

___touché.

___Mas, há algo diferente em você hoje. O olhar determinado e o velho hábito de se vestir de calça, botas e jaquetas pretas.

___há mesmo algo importante a revelar hoje, pai e gostaria que você e Louise fossem os primeiros a saber.

___Ela ainda não desceu para o café. Acredito que deve estar no banho.

Passos leves atrás de si, denunciaram a chegada de Louise à mesa. Estava com os cabelos molhados presos e usava um roupão longo e sensual. Entretanto, apesar do frescor de sua pele, os olhos estavam contornados por suaves olheiras.
Antonio a enlaçou pela cintura e perguntou carinhosamente, beijando-lhe a face.

___está com aparência um pouco cansada, querida. Não dormiu bem à noite ?

___talvez tenha exagerado no vinho. - desculpou-se ela, sentando-se à mesa e servindo-se de café, sem erguer os olhos para a enteada.

___Victória diz que há algo importante a nos revelar.

Louise, depôs a xícara na mesa, lentamente, erguendo ligeiramente a sobrancelha esquerda - gesto conhecido seu que indicava concentração e expectativa - fitando séria a jovem que continuava em pé.

___Uma sensação estranha. Dormi sem qualquer lembrança do passado e despertei com um turbilhão de imagens pululando e se organizando em minha mente. A operação foi um sucesso. Eu estou me recuperando, pai.

Antonio ergueu-se de pronto da mesa.

___está dizendo que agora se lembra de mim, de sua casa, das pessoas próximas ?

___é isso. Eu me lembro. Mas como disse, é estranho. As lembranças aparecem sem ordem cronológica e aos poucos vão compondo quadros, como peças de puzzle .

O pai a abraçou emocionado.

___bem vinda, filha.

Louise levantou-se e subiu as escadas, silenciosa, deixando-os a sós.

Embaraçado, Antonio tentou justificar a atitude insólita da Delegada.

___Você deve se lembrar que para Louise é difícil externar seus sentimentos. Ela sofreu, como todos os parentes, amigos e colegas com o seu desaparecimento. No caso dela, agravava o fato de sentir-se responsável pela má sorte que a vitimou e estava obcecada com a promessa que fizera de resgatá-la, de um modo, ou de outro.

___promessa esta que ela cumpriu com competência. Sempre lhe serei grata. Agora pretendo refazer minha rotina e vou começar passando o fim de semana com amigos no "Ninho na Serra". Araújo me informou que vocês o mantiveram cuidado.

___com suas roupas, pertences e móveis no mesmo lugar. Até Sir Lancelot esteve por lá todos estes meses. O caseiro cuidou de manter tudo intacto, por ordem de Louise.

Victória baixou a cabeça e continuou.

___liguei para Agnaldo do celular. Não precisam ficar preocupados. Sei que vou precisar retirar nova carteira de motorista e ele vai me dar carona e passar o fim de semana por lá comigo. segunda-feira estarei de volta.

___Está bem. Se quer assim. - pausa .___Este seu colega, o Agnaldo me parece um rapaz simpático e bem apessoado.

Com estas palavras Antonio demonstrou claramente que assentia ao pedido da filha.

Victória sorriu e finalmente sentou-se para servir-se da mesa do café. Ele levantou-se e tornou a beija-la na testa.

___estou pensando em ir praticar Armbrust. Em um clube próximo da cidade. Vendi meu chalé da Nova Suíça. Más lembranças.

___e Louise ? - perguntou Victória, em tom casual, na intenção de disfarçar seu interesse.

___vai à Hípica com o irmão.

Ele saiu e Vick compunha um reboco feito de pasta de amendoim em seu pão, refletindo se o pai, como ela, teria lembrado da derradeira conversa que tiveram a respeito da "Jour". Conversa difícil aquela que para a policial, depois de um hiato de ano e meses, lhe surgia na lembrança com intensa clareza.

Despertou de seus pensamentos, com o retorno do pai, que já vestido e equipado, passara para lhe dar um beijo antes de sair com o carro. Estava com o rosto bem humorado.

___Ele não se lembra da nossa "derradeira conversa sobre a Jour". Ou pensa que ainda não me lembrei. - concluiu.___talvez seja melhor assim.
Levantou-se decidida a procurar por Louise mas a empregada se adiantou.

___A doutora quer vê-la.

Victória levantou-se da mesa, sem vontade. Preferia que Agnaldo já estivesse nos portões. Não estava preparada naquele momento para ter uma conversa difícil com a Bittencourt. Ainda estava assimilando lenta e minuciosamente a circunstância atual.

Acompanhou a moça, escada acima, sabendo que não havia como fugir daquela entrevista, mesmo porque Agnaldo só viria duas horas depois.
O coração acelerara e reboava em seu ouvido.
Pararam diante uma porta e a moça se afastou para cuidar de seus afazeres.
Victória observou os veios patinados da maciça porta do quarto de Louise. Agora, ela conhecia bem aquele ambiente. Estiveram ali na véspera de...
Bateu na madeira, esperou e depois girou a maçaneta com cautela. No quarto, Louise esperava em pé, fitando-a com um brilho misterioso no olhar.

___eu sei que com a sua memória em vias de recuperação, podem surgir inúmeras indagações. - iniciou ela, com voz rouca e pausada.

___quem sabe o melhor é não tentar responder, ou entender, por enquanto às incógnitas da vida ?

___talvez. - ponteou Louise.___no entanto eu preciso lhe dizer algumas coisas antes que vá se refugiar no "Ninho".

Ela aproximou-se de Victória e abraçou-a com força, molhando o ombro onde aninhara o rosto, com lágrimas mornas. Sua pele e mãos, febris, denotavam o que a jovem policial descobrira quando a tivera para si na primeira vez em Nova Suíça: o corpo de Louise fervia quando estava dominado pelo desejo. Mas os olhos traduziam o vazio da despedida.

___Nossas vidas, como nos subterrâneos, seguiram cursos diferentes. Quero que deixe no passado tudo que aconteceu entre nós. Guarde-as como lembranças sublimes de algo que tinha que ser enquanto conseguiu perdurar. Na vida temos que aceitar a parte que nos é destinada.

Victória não conseguia pensar com clareza. O golpe recebido fora rude e eficaz. Não havia nada a dizer ou pedir agora.

Louise desembaraçou-se de seu abraço e seguiu até uma mesa, de onde retirou uma arca de madeira, oferecendo-a.

___aceite-a. É o meu presente especial para você.

Victória sentia desejo de sair pela porta e não voltar mais, entretanto, a energia que fluía do corpo dela, a mantinha presa.

Abriu a arca e encontrou um colar de pérolas, tendo ao centro um pingente de ouro maciço cravejado de brilhantes. No centro, esculpida em jade, um perfil feminino.

___pertenceu à minha avó. - explicou.___é uma relíquia que acredito estar agora nas mãos certas.

Ainda na arca, havia um par de chaves de metal amarelo, com uma etiqueta com um endereço.

___e neste local, estão todos os seus pertences que mantinhas no apartamento da cidade.

___outro apartamento ?

___sim. Com a diferença que este é seu.

___não posso aceitar.

Louise a apanhou pelos braços, sacudindo-a. Os olhos azuis, fulguraram irados.

___abandone este orgulho sem utilidade e pueril. Acha que é mais digno arcar com as despesas do aluguel de um cubículo em um prédio mal conservado pintado de cinza ?
Desnecessário seria se você já possuísse um bom apartamento onde morar, próximo do trabalho e eu ou seu pai lhe oferecêssemos outro.
Não precisa agir como todo assalariado da classe média, Victória. Você é herdeira e não pode sentir-se culpada pelo conforto que recebe diante deste status.
Eu herdei tudo que tenho dos meus pais e estou aumentando a fortuna com meu trabalho. Isto é digno.
Não iniciei do nada e estou grata por isso, porque não vou precisar ambicionar evoluir na profissão na esperança de melhores salários. Eu trabalho por convicção, por amor, por um objetivo maior.

Victória afastou-se dois passos, aturdida enquanto sua mente depurava minuciosamente o que ela lhe dissera.
O celular trinou e a jovem atendeu em gesto maquinal. Agnaldo avisava que estava saindo de seu apartamento.

___Bom ter ligado. Mudei de idéia e não preciso de carona para subir a serra. O caseiro te conhece. Vá na frente. A gente se vê por lá. - desligou e guardou o aparelho na bolsa que deixou sobre um móvel próximo, juntamente com a arca.

___Você está certa, Louise Bittencourt. Certa quanto ao apartamento. Certa quanto à sua decisão de esquecer no passado o que lhe pertence. - As palavras lhe escapavam com raiva.___alguém precisa manter o bom senso, a moral e os bons costumes , entre sentimentos insensatos, desejos inconfessáveis. No entanto, antes de sair deste quarto e da sua vida particular, quero que me diga: que marcas são estas no meu corpo ? Fruto da minha imaginação ou do seu desejo ?

Victória desnudou o colo, aproximando-se de Louise e apertando-lhe o corpo contra o seu.

___O meu desejo é fenômeno de estação. Um dia incendeia meu corpo e no outro instante, saciado, desaparece. Não indica onde se oculta o amor, este sentimento mítico que desconheço.

___por hoje só, não vou pedir nada além do desejo. - sussurrou-lhe Victória, procurando-lhe os lábios com os seus. A custo segurava as lágrimas e passou a desnudar os ombros de Louise com volúpia.
Precisava possuí-la inteiramente mais uma vez e finalizar aquele ciclo que se iniciara. Só assim teria forças para partir.

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