ENFORCADOS




___mais um desanimado da vida. - comentou Araújo enquanto passava os olhos pelo jornal.

___onde foi que ele se enforcou ? - inquiriu Vick, misturando açúcar no café.

___na viga do galpão da bicicletaria onde que trabalhava com uma câmara de ar. Este tipo de borracha dá excelente garrote.

Agnaldo parou a viatura próximo do meio- fio e esticou a perna para fora, conseguindo finalmente retirar sua longa estrutura do veículo.
Acostumara-se a servir-se do café da manhã no boteco do Pilatos, em companhia de Victória e Araújo.

___onde está o Leandro ?

___hoje ele não vem. Na verdade, acho que nesta semana o Léo vai tomar café na região do 4° DP. Está fascinado por uma novata, recém saída da academia. Miranda Stacker Nogueira é o nome dela.

___os rapazes dos outros DPs também. Meses atrás, promoveram uma festa para comemorar qualquer coisa, não me lembro ao certo, para toda a força policial da cidade. Miranda apareceu e virou o centro das atenções. Eu vi a garota. Uma beleza exótica - completou Araújo.

___Ana Beatriz não deve estar contente. - riu Victória.

___mas a "Toda Poderosa Seccional" está. Miranda está há cinco meses no 4o distrito e já retirou do arquivo morto, seis casos de homicídio.

Victória franziu a testa , tentando disfarçar a ferroada cruel do ciúme.
Araújo, percebendo o silêncio constrangido da colega, levantou-se e pagou a conta.

___Eu e minha sócia precisamos voltar ao trabalho. Até mais tarde, Agnaldo.

A expressão "voltar" ao trabalho, em plena oito horas da matina poderia soar estranha, mas não no caso deles. Estiveram rondando a cidade na madrugada, empenhados em conversar com "aqueles que dormem cedo", expressão usada para designar os indivíduos que moviam-se pela noite e dormiam ao raiar do dia.
Trabalhavam em um caso, onde as informações oferecidas pelas mulheres da vida, meninos de rua, vigilantes de becos e catadores de papelão poderiam oferecer alguma pista importante.
No escritório amplo com duas mesas e estantes de livros, Vick sentou-se defronte seu computador e passou a digitar o conteúdo de suas anotações nas fichas.

___sei o que a está incomodando.

___a mim ? - inquiriu a detetive, desviando a atenção do micro.

___sim.

___é tão visível assim ?

Araújo moveu a cabeça afirmativamente e Victória voltou a digitar seu relatório de ronda noturna.

____vou fazer um sanduíche para nós.

___o meu é daquele jeito. Pouco presunto, muito queijo. - avisou a colega.

Na pequena copa, André Araújo refletia sobre o revés enfrentado por Victória desde que ressurgiu do nada.
A Secretaria de Segurança do Estado indeferiu o pedido de recondução da servidora para os quadros da polícia. Alegaram que o tipo de trauma sofrido, seguido de amnésia por um longo período, a desabilitara para prestar serviços ao Estado e ter porte de arma.
Na opinião de Araújo, a atual Delegada Seccional poderia ter utilizado de sua influência e obtido a readmissão da enteada. No entanto, Louise Bittencourt nada fizera.
Voltou com dois pratos e colocou-os na mesa próxima.

___fiz apenas um para você. Minha esposa mandou convida-la para o almoço. O Pingo está radiante.

No fim da tarde, Victória acelerou a motocicleta, ansiosa para voltar ao apartamento novo e poder dormir.
O local, um condomínio de classe média alta, possuía boa infra-estrutura. Sauna, piscina, quadras de tênis e salões de festa.
No saguão, Sir Lancelot, já pressentindo sua aproximação, passou a miar alto.

___hoje o seu rango é ração e para mim, pizza. Não estou disposta a mexer com panelas.

Cuidou dos afazeres preliminares e após o banho, fechou-se no quarto escuro.

Dormiu deliciosamente.

Quando o telefone tocou, já estava semidesperta. O mostrador do relógio digital indicava meio-dia e meia.

___estava pensando em passar por aí e encomendar uma comida chinesa. - sugeriu Agnaldo do outro lado da linha.

___está bem.

___a propósito, estou pensando em levar alguns colegas comigo.

___a tal moçada nova do seu setor no Oitavo Distrito?

___é, o sangue novo. Nestes dois últimos meses, estou sendo pressionado para apresentar a lendária Victória Di Angelis e não tenho tido sucesso.

___tem uma foto minha no mural dos que "bateram as botas" em ação. Mostre a eles.

___A turma já viu a tal foto, que aliás foi retirada da galeria por ordem do Edgar Meirelles. Deixa de ser ranzinza e personifique-se para eles.

___Acho que meu estado de humor é compatível para uma policial que foi afastada da corporação com apenas quatro anos de carreira.

___mas você vai recorrer da decisão administrativa, é claro.

___líquido e certo. já contratei advogado e estão cuidando da papelada. O processo é demorado.

___e então ? Vamos ter chinês para o almoço ?

___Tenho uma sugestão melhor. Venham para o jantar. Assim tenho tempo de pedir para a diarista dar uma geral no apê e ainda locar um bom filme de ação.

___está combinado. - assentiu o rapaz.

Saindo da cama direto para a banheira, suspirou satisfeita com o contato da água aquecida contra a pele. Fechou os olhos e deixou-se levar no encanto das imagens que nos últimos meses representavam seu segredo acariciado.

"Louise gemia enquanto Victória beijava sua nuca, pescoço, mordia seu queixo e lhe acariciava os seios com a língua quente."

Da banheira, Di Angelis saiu para aplicar cuidadosamente o hidratante na pele.

"Na pélvis, a pequena tatuagem representando o escorpião demarcava o início da lanugem curta, bem aparada. Estimulou-a ali, enquanto lhe sorvia os pés, a área sensível atrás do joelho e o interior das coxas. Virou-a de bruços e deitou-se sobre ela, movendo os quadris contra a superfície curva e macia dos dela, fantasiando que a penetrava. Beijou-lhe a nuca, afastando os cabelos com a mão. Ela contorcia-se sob o peso do corpo de Victória como uma fêmea fogosa desejando que a possuísse."

Vestiu-se, escolhendo uma blusa regata branca que lhe realçava as linhas bem talhadas do colo, braços e costas e calça brim preta, gasta industrialmente na face das coxas, ilharga e traseiro em uma composição sexy.

"Estendeu o braço, sem libertar sua presa e abriu a ultima gaveta da cômoda de madeira maciça. Encontrou o artefato desejado e ajustou-o a si.
O sexo dela, orvalhado e túmido de excitação, foi invadido a fundo, com movimentos sincronizados que aumentaram de intensidade na medida que Victória lhe prendia os seios, colocando-a de quatro enquanto lhe arremetia com mais força.
Louise contorceu-se naquele modo tão peculiar seu, felina, perigosa. Desabou finalmente, prostrada ante a força do primeiro orgasmo."


Na despensa, verificou que não tinha pipoca para micro ondas.
Derramou um pouco de ração para Sir Lancelot, trocou a água e mudou a substância granulada da bandeja para necessidades fisiológicas do gato.
O telefone da diarista estava anotado no pequeno bloco imantado na geladeira. Ligou e combinou uma "ajeitada básica".
Desceu e foi caminhando até a locadora de Vídeos da esquina.Nos cartazes, casais em beijos tórridos.

"Voltou a acaricia-la forte, senhoril. Queria subjuga-la e invadi-la novamente, só que desta vez, fitando-lhe o rosto.
Penetrou-a na posição em que o artefato a estimulava ao mesmo tempo que a invadia. Puxou-a para si, mordiscando e sugando as auréolas dos seios sem perder o ritmo do movimento dos quadris.
Os cabelos negros lisos, cortados rente ao queixo, estão colados em sua face e Louise observa Victória com as pálpebras e lábios entreabertos. No momento do próximo orgasmo, ela a chama "Dian", enquanto arranha e morde seus ombros, costas."

Locou um filme de suspense policial que o jovem da locadora achava "O Bicho", "Manêro", "Tudo haver".
Não costumava confiar no gosto daquela moçada de ossos longos e dentes proeminentes , mas estava por fora dos lançamentos da indústria cinematográfica. Pelo sim , pelo não, locou o DVD.

"Na gaveta uma pequena busca e não demorou para encontrar o outro artefato. Este, do tamanho de seu dedo médio. Retira o anterior da cinta de couro e encaixa o artefato menor com raiva de tê-lo encontrado, juntamente com preservativos e lubrificante íntimo. Louise debate-se, tentando evitar que fosse "montada".
Esforço vão.
___não faça com que eu a odeie, Victória Di Angelis.
Ameaça vã.
Victória veste o preservativo lubrificado no artefato e a penetra lentamente. Seu desejo era invadi-la com fúria e faze-la sucumbir na dor para tentar aplacar a própria dor que lhe roia a alma. No entanto, mais do que se vingar, queria deixar nela a sua marca. Algo seu. E esta marca seria o prazer, de toda a maneira, para valer. Valer a pena.
Alcançou-lhe o sexo e a estimulou enquanto a invadia ao fundo, no ir e vir sensual. Puxou-lhe os cabelos e mordeu-lhe os lábios. Ela ciciou e perdeu a batalha contra a própria libido, vibrando, arquejando, invadida pelos espasmos do prazer. "

O interfone avisou que um animado grupo de jovens esperavam autorização para subir. Victória espiou-se no espelho.
Os cabelos presos e os olhos negros luminosos.
Constatou que estava com boa aparência.
A campainha soa. Abre e se depara com o amigo loiro, abraçado com duas garotas. Atrás, mais jovens sorridentes. Olhou atentamente para ver se encontrava outro rapaz. Avistou um.

___podemos entrar na mansão Di Angelis ? - perguntou a jovem presa à asa direita de Agnaldo.

___claro! - gaguejou Victória embaraçada.

A tropa entrou e se acomodou nos sofás. Lancelot cruzou o ambiente como um torpedo.

___não está acostumado às visitas na mansão de Mademoiselle Ostra. - brincou Agnaldo.

___não trouxemos cerveja ou vinho porque amanhã tem expediente. - explicou a loira de cabelos curtos, revoltos, esculpidos em gel.

___brindaremos com guaraná e outros refrigerantes. - avisou a anfitriã.

___então vamos às apresentações. Da ponta para a esquerda, Carolina; Paola; Marcela; Elisa e Telêmaco. Todos zerinhos na Polícia. Ana Beatriz você conhece. Somos sete, mas você não é a Branca de Neve. - brincou Agnaldo.

___talvez a má-drasta. - emendou Ana Beatriz, com dubiedade na colocação.

Victória riu. Não ia embarcar na provocação da ex-colega, mesmo que nela houvesse alguma insinuação a respeito da condição de Louise em relação à Vick : Madrasta.

Ofereceu pipoca para a turma e foi até a Home Theater acoplar o DVD no aparelho.

___fiuuu- fiuu! - assoviou uma das meninas.___me diziam e eu não acreditava. Victória Di Angelis é um mulherão.

Vick virou o rosto enrubescida, na tentativa de descobrir a engraçadinha que fizera a observação espirituosa.
Todos a olharam sérios, como crianças à espera da sessão da tarde. Voltou-se para o DVD e ouviu outra piadinha. Deu de ombros e riu, apertando o "start".
Quinze minutos de filme e começou a "aperta pausa, que preciso ir ao toalete", "aperta pausa porque mordi a língua"; "pausa para atender o celular"; "pausa porque o cílio entrou no olho"...

Victória levantou-se de sua Berger e encomendou a comida chinesa.
O filme ficou pela metade (tedioso e previsível) mas os pratos esvaziaram-se. A turma entusiasmada, -exceto Beatriz e o calado Telêmaco - partiu para disputar caxeta, pif-paf, tranca, canastra, arranca-dedo.

O interfone tocou. A portaria avisava que a vizinhança estava incomodada com o ruído. Victória olhou o relógio: meia-noite e quarenta.
Voltou para a sala e anunciou:

___quarenta minutos depois das doze badaladas. O cassino da Victória encerra o expediente.


- 1:30 da Madrugada.

Deitada, a imagem de Louise flutuava em sua mente. Rememorou o sábado, derradeiro, em que a possuiu e a deixou exaurida pelo prazer no quarto escurecido pelas cortinas. No táxi, rumo ao "ninho", não conseguia olhar para trás mas não se arrependia.
Antes de sair, a mão de Louise procurou a sua. Nela. Victória viu o anel de ouro em forma de estrela, com a pedra azul no centro simbolizando Vênus. Aquele gesto pareceu ter um significado velado.
Em seu abrigo, encontrou tudo como deixara antes.
Agnaldo consolou-a aturdido por não entender a causa de tantas lágrimas doridas.

- 3:00 horas da madrugada.

Moveu-se na cama agoniada. Não conseguia conciliar o sono e sabia a causa. O programa da noite a deixara excitada. Afastou as pernas e tocou-se. Dois meses sem os beijos e abraços da "Jour".

Não conseguiu satisfazer-se. Acendeu a luz e procurou uma caixa de madeira chaveada dentro do armário.
Colocou-a na cama e abriu.
Dentro a bela pistola Glock. Manuseou-a cuidadosamente.
Lembrou-se daquele dia, na semana passada, em que teve que entregar o emblema e a carteira funcional para o Delegado Edgar Meirelles. Apresentou-se orgulhosa naquele gabinete que fora de Louise e repleta de lembranças pungentes.

___é difícil para mim Victória mas sei que está sendo extremamente penoso para você. - ele disse, com o rosto entristecido.___devíamos condecora-la por bravura mas as regras dos burocratas indicam seu desligamento definitivo. Lamento muito.

Vick entregou o emblema e sua carteira funcional que também a autorizava a portar armas.

___sem o porte, não poderá sair para a rua com suas armas particulares. Outro erro. Um policial passa o dia a dia granjeando inimigos. Quando se aposenta ou é afastado, fica indefeso. Você pode tentar conseguir o porte, fazendo um requerimento e explicando as razões de sua necessidade. A corja de marginais que já colocou nas grades é um bom motivo. Nunca se sabe quando se pode topar com um deles na rua.

___não vou requerer porte de arma. - respondeu a ex-policial com orgulho.

___Mas eu não acredito que nesta cidade algum policial, civil ou militar vá lhe pedir o porte. - exclamou Edgar com cumplicidade. Já em outra cidade ou a capital, é preciso ter cautela. Podemos conseguir arredondar o incidente mas perderá a arma.

___eu compreendo.

___e o que pretende fazer a partir de hoje ?

___meu amigo, André Araújo me convidou para uma sociedade na sua agência de Detetive. Vou aceitar. O trabalho é uma excelente terapia.

___e quanto a fazer terapia literalmente, já pensou nisso ? Todos que participaram da caçada ao "Devorador de Almas", estão se submetendo a sessões terapêuticas.

___até o senhor ?

___não. Eu não estive nas profundezas. Na verdade, eu e o Doutor William Salomão somos os únicos que estamos fora das sessões.

Victória intuiu que Louise Bittencourt, que estivera ao seu lado no pior momento de suas vidas, também estava se tratando.

___Uma boa idéia. - sorriu. ___vou procurar um bom profissional.

Fora do gabinete do Edgar, procurou a sessão onde poderia rever os antigos colegas. Encontrou vários pelos corredores, refeitório e na porta das salas. Não viu Agnaldo e os novatos do setor que estavam na rua entregando intimações.
No salão do auditório, a galeria dos homenageados. Fotos de todos os policiais que tombaram em ação. Avistou antigos colegas, como o Robertão, o "Cacha", membros do grupo Nêmesis, outros que não conhecia e estacou estarrecida ao ver a própria foto, com a data de seu nascimento e o da suposta morte.

Guardou a Glock cuidadosamente em seu estojo. Procurou as fotos. Fotos de sua mãe ao piano, do pai, de si quando menina. O colar que Louise lhe dera. Ela o manuseou reverente. Olhou novamente o perfil esculpido no jade. Ao lado, um pino fino, camuflado no metal, sugeria algo como uma dobradiça.

Levantou-se e levou o objeto à luz da luminária. Com a unha pressionou um ponto flexível e uma mola potente fez o camafeu se abrir, revelando no interior, um feixe de cabelos negros atados por um fino cordão e encaixado na face fixa da peça, a fotografia colorida de Louise.

Contemplou-a longos minutos.
Fechou a peça com o coração palpitante de alegria por saber que ela existia, mesmo desprezando o amor que lhe oferecera.
O anel de pedra vermelha em forma de estrela representando Marte. Este Victória encontrara dentro da caixa que Louise lhe dera. O primeiro, par do que a Delegada mantinha no anular da mão direita, perdera-se no desastre ou nas terras no interior de Minas. Não se lembrava. Apanhou-o na mão e o colocou em seu anular.

Havia ainda a foto da equipe dos "Homens da Neblina".

Guardou tudo novamente com cuidado, retirando apenas uma pequena peça branca feita de rendas.

Deitou-se novamente e apagou a luz, aspirando o odor feminino emanado da peça íntima de Louise que levara consigo para rememorar o amor que lhe fizera em quatro horas de intensa volúpia, naquela manhã de sábado.

- 5: 20 da manhã. - Adormeceu.


NOVO CLIENTE


Cedo no escritório, Victória traduzia com dificuldade a verborréia do malandro Curicaca sobre o furdunço que fez ao encontrar o morto no matagal da rua Boleadores.

___aí chefia, o léro é o que rola (aí chefia, a conversa é a seguinte): - Geou no barraco, a cabrocha tava nos dia (recebi um gelo em casa da patroa que estava naqueles dias) - Não fez marmita nem desfez meu algodão na banha e soda ( Não fez o jantar, nem lavou minhas roupas) - Daí saí no prumo, encruzilhando e deu hora, esquinei (saiu para a rua, na reta, avançando quadras e em certa hora, parou na esquina) - jardineira passou. Cosme e Damião filmando o malandro (ônibus passou na via, depois dois PMs, observando o malandro) - Mucréa buzinou e o malandro disse: Vixe olha os tracks (mulher da vida gritou e eu pensei, agora vem tiro) Não dei dois passos no quadriculado, a espoleta comeu e Dona Justa quinou. (Não conseguiu mudar dois passos na calçada quando ouviu tiros e o carro da polícia apareceu na esquina) - Enquadraram o primo que caxinguelê apontô (Os policiais deram voz de prisão e miraram no primeiro que o "macaco"- cagueta entregou)...

Araújo entrou e observou o texto por cima dos ombros da sócia.

___acha mesmo importante passar para os arquivos o que este malandro ou qualquer outro alucinado das ruas têm a dizer ?

___com certeza. Gosto de fazer um banco de dados para dispor consultar quando precisar.

___na verdade, você está fazendo um documentário. - caçoou André Araújo.___entretanto, hoje trouxe trabalho para nós, com um bom prêmio em dinheiro se o elucidarmos.

Victória fechou o arquivo do Curicaca no micro computador , guardou as fichas e postou-se atenta à explanação preliminar do sócio.

___vamos chamá-lo do caso do "Garrote inusitado". O moço. Vinte e dois anos, filho de família rica, estudante de engenharia. Amanheceu na semana passada, enforcado no quarto de uma pousada, com a própria roupa de baixo.

A Di Angelis sorriu para o amigo e sócio. Araújo tinha dificuldades em descrever ou dizer cenas ou termos tidos como chulos para ela. Usara agora, roupa de baixo para designar uma palavra curta: cueca.
Apesar de um pouco exagerada, a atitude do amigo a agradava. No meio policial era comum ter que ouvir conversas masculinas, com termos exorbitantes, palavrões, gírias vulgares. Não que entre as mulheres também não houvesse palavras de baixo calão ou vulgaridade, entretanto o linguajar tosco de alguns rapazes, feriam os ouvidos , além de aborrece-la profundamente.
Com Araújo sempre fora diferente. Além de respeita-la, tratava-a como se ela tivesse seu tempo de serviço e experiência. Isso desde o primeiro dia em que a novata apareceu no Distrito, recém chegada da academia de Polícia.

___o indivíduo deixou bilhete explicando o motivo de sua atitude extrema ?

___não. E o interessante é que se dependurou em um dossel de madeira na guarda da cama.

___estava sozinho ?

___sim. A polícia técnica constatou que ele realmente cometeu suicido e não foi obrigado a isso. Na posição em que foi encontrado, estava com as pernas dobradas, forçando o torniquete a lhe causar asfixia. Poderia levantar-se em qualquer momento, caso se arrependesse.

___o que os pais do moço querem que nós investiguemos ?

___se o filho realmente matou-se.
A crença religiosa deles abomina o suicídio, tanto que o jovem não pôde ser sepultado no campo santo reservado para a família.

___e se constatarmos que ele realmente suicidou-se ?

___se constatarmos, em um relatório circunstanciado que realmente suicidou-se, recebemos uma quarta parte do prêmio. Por outro lado, se provarmos que o rapaz foi obrigado a matar-se ou mesmo, foi assassinado, o prêmio será pago no valor total e a família poderá conduzir o corpo para o descanso no local consagrado.
___No interesse de receber o pagamento integral do prêmio, uma equipe de detetives sem escrúpulos poderia forjar provas para a tese de assassinato.

___nossos clientes já procuraram escritórios de detetives, tradicionais e conceituados na capital. Os relatórios, todos, defendiam assassinato mas não os convenceram. Estavam eivados de falhas, lacunas sem respostas e argumentos pífios. O casal são os principais acionistas de uma das maiores Seguradoras do Brasil.
Victória depôs o lápis na mesa, impressionada. Sabia que o peixe que lhes caíra na rede, provavelmente era maior do que a barca, entretanto não estava disposta a abrir mão da oportunidade.

___e então, vamos ao trabalho ?

___já estou nele, avisou Vick, conectando seu computador na Internet.___diga o nome do rapaz. - pediu.

___Douglas Rusemberg.

Digitou o nome no mecanismo de busca. Apareceu uma centena de link.

___acho melhor a gente comer alguma coisa. - convidou Victória.___o caso do "garrote inusitado" abriu o apetite.

Ele riu e apanhou o casaco para saírem. O apetite de Victória nunca fora "fechado", entretanto, podia comer sem culpa pois não adquiria milímetro de tecido adiposo. Ele acreditava que tal peculiaridade era resultado de herança genética aliada à atividade física espartana que a sócia enfrentava nas academias.

Na rua, ela lhe oferece a chave do Jeep, enquanto ajustava o blazer elegante sobre a camisa. Gostava de trajar esporte fino.

___você dirige. Ainda não terminei os testes para retirar novamente minha carteira de motorista e não posso arriscar ter o carro guindado.

IVY


A idéia partiu de Agnaldo - o sociável : formar uma caravana e ir até a maior e mais sortida livraria de São Paulo, desenterrar algumas "pérolas", depois, poderiam emendar para algum espetáculo no Teatro Municipal.

Para tédio de Victória, Ana Beatriz ofereceu-se para ir.

Já no local, cinco andares de pura cultura e entretenimento personificada em livros, revistas, CDs, DVDs , K7, rolos ou vinil, Victória procurou logo o andar dos filmes chamados de "clássicos".

Ana Beatriz a acompanhou entre as gôndolas.

___não me perguntou sobre o assunto da "sessão Pipoca".

___está se referindo ao "Má-drasta" ?

___isso mesmo. Pelo que vejo, sua memória está ótima.

___e eu também.

___entretanto não foi isso que foi alegado perante o Secretário de Segurança Pública a seu respeito.

___como assim ?

___meu pai tem amigos no alto escalão da polícia. Louise não só se omitiu a respeito do seu caso. Ela interferiu para que você fosse desligada definitivamente da corporação.

___está dizendo que ela fez jogo duplo, alegando para mim e meu pai que iria dar entrada nos papéis para que eu fosse readmitida ?

___não mentiu. Ela fez, entretanto, parece que mudou de idéia no percurso do procedimento administrativo.

___você não precisa mentir para mim, Ana Beatriz. Não estou mais no Distrito e eu não disputo mais o respeito e admiração dos seus chefes.

___está certa. Não preciso mais "blefar" para você. Estou lhe contando na letra, o que meu pai relatou. Ele, como eu, acha injusto que uma policial da sua competência, seja sucatada pela corporação como você foi. Não aprecio injustiças, Victória.

Ela afastou-se para verificar as outras gôndolas, mas deixara atrás de si, o fel, se alastrando pelo corpo de Victória.
O que piorava era a verossimilhança das palavras de Beatriz.

Procurou esvaziar a cabeça e tornar a procurar pelo filme desejado. A mãe possuía uma cópia VHS e quando Victória tinha seis anos, assistiram juntas à fita. A história do filme ficou gravado na memória da menina e a fita, perdeu-se sob o efeito do tempo e da umidade.

Chamou uma atendente e pediu:

___tem o filme "Os Girassóis da Rússia" em DVD ?

A moça consultou uma máquina e conseguiu a indicação da ala e o número da gôndola.

___ainda temos duas unidades.- indicou o lugar.

Victória apressou-se em procurar a relíquia e ao encontra-la suspirou emocionada.
A ilustração de capa, era uma das cenas do filme, onde os girassóis, antes filmados em preto e branco, surgiam colorizados digitalmente em todo o esplendor que se espera de um imenso campo de girassóis.

Sua distração foi interrompida pela voz branda de uma jovem que possuía uma espécie de sotaque.

___não estou encontrando o filme dos Girassóis que a senhorita disse estar nesta ala. - disse à atendente.

___lamento, mas se não estão aqui as últimas duas unidades, é que foram vendidas à pouco.

Victória levantou os olhos, no mesmo instante em que a desconhecida volta-se em sua direção.
Era uma jovem alta, envolta em um sobretudo estilo europeu que lhe cobria até o tornozelo. Os grandes olhos cinzas, adornados por cílios cor de palha, tal qual os cabelos presos, estavam instalados em um rosto rosado, de lábios nacarados pequenos e cheios. A maçã do rosto proeminente dava a pista de seu biótipo: Eslavo.

Os olhos delas estavam fixos no DVD que Victória tinha nas mãos.

___não precisa se preocuparrr, já encontrei o que queria. - dispensou a atendente, aproximando-se de Victória.

___vai ficarr com o filme ? - perguntou.

___estava procurando por ele há meses.

___Eu o procuro há anos. - respondeu a jovem.

Victória tornou a erguer os olhos do resumo que lia e os fixou irritada no belo rosto da desconhecida.

___lamento mas não vou cede-lo a você. Não posso desvestir um santo para vestir outro.

___espirituosa. - riu a eslava, fazendo sinal para dois homens altos vestidos com ternos azul escuro impecáveis.___paguem a ela o 100 euros pelo DVD. - mandou.

Os marmanjos se aproximaram e Victória irritou-se.

___100 euros é uma boa quantia. Poderia vende-lo a você por este valor. Acontece que a abordagem acintosa me aborreceu e o DVD para mim tem valor sentimental, que é muito maior do que vocês poderiam pagar. Guardem o dinheiro.

Saiu contendo a raiva, ainda ouvindo um dos brutamontes argumentando que a filha do Diplomata Ucraniano Dimitri Mayakovich estava disposta a aumentar a oferta.

___interessante que entre um milhão de desinteressados por este filme, me aparece aquela personagem saída dos contos de Leão Tolstoi.
Encontrou-se com Agnaldo, Beatriz e Telêmaco e após cada um pagar o que comprou, saíram para dar um passeio na Avenida Paulista .

___"Os Girassóis da Rússia". O que tem de tão interessante neste filme ? - inquiriu o amigo, curioso.

___a história de um casal apaixonado que se separa com a guerra e forçosamente suas vidas tomam destinos diferentes e quando se reencontram, descobrem que o amor não é mais suficiente para uni-los. - explicou Victória. ___as cenas em que ela o procura em todos os campos onde se haviam travado batalhas na Rússia, inclusive um vasto campo de Girassóis, são comoventes.

___e a parte do reencontro dos dois é sublime! - emendou o calado Telêmaco.

___é filme antigo ? - quis saber Beatriz.

___é.

___então não é da minha época. - riu.

___só comprou o DVD ? - perguntou Agnaldo.

___só, e mesmo assim às duras penas. - riu, enquanto relatava a disputa travada com a jovem eslava.

___E você não aceitou 100 Euros pelo vídeo ? Incrível. - resmungou Bia.

No Teatro Municipal, Vick observou que os ingressos que Agnaldo comprara eram de um espetáculo de Dança Moderna. Imaginava que iriam assistir ao concerto de uma orquestra.

Acomodaram-se e aguardaram que as cortinas se abrissem. O espetáculo iniciou-se e Victória que não apreciava tanto a dança moderna, empolgou-se rapidamente. Os dançarinos lançavam-se ao ar como em um vôo curto. Todos jovens de corpos esculpidos pela dança, encenavam o tema com dramaticidade. O jogo de luz, cores e corpos em movimento, lembrava um espetáculo do Cirque Du Soleil, tamanha a beleza e grandeza. O par de dançarinos principal, bailava soberbo ao centro do palco. O rosto dela, apesar da distância, maquiagem e cabelos firmemente presos, Vick reconheceu: a jovem filha do diplomata Ucraniano com quem disputara o DVD naquela tarde.
Os olhos delas, fechados, em certo momento abriram-se e exibiram suas íris cinzas invernais que se fixaram em um ponto no palco. Victória teve a má impressão de que a jovem ucraniana a avistara na platéia. Estavam muito próximos do palco.
Procurou no programa do espetáculo, o nome do elenco. Encontrou o da dançarina solista: Ivy Mayakovich.

Quando as cortinas se fecharam, saíram pelo corredor comentando sobre a coreografia.

___fascinante o par de dançarinos solistas. - comentou Beatriz.

___uma menina nova, bonita e talentosa. - completou Telêmaco.

___Ivy Mayakovich. - ponteou Agnaldo. ___seria de origem russa ?

___Ucraniana. Filha do Diplomata Dimitri Mayakovich - revelou Vick.

___como sabe ? -duvidou Beatriz.

___apenas um palpite. - completou Victória, rindo da expressão aborrecida da ex- colega.

___um palpite bem extenso este seu. Acaba de chegar da terra das alfafas e pedra sabão e está a par da vida cultural, política e social da região ?- amuou Ana Beatriz.

___gosto de me manter informada. - encerrou a detetive.

Capítulo 07 - RETORNO DE JULY


Antonio havia ligado. Queria que a filha almoçasse domingo no condomínio de Louise.

___Julia estará chegando da Europa. - avisou.

___veio passar uma temporada ?

___Está vindo definitivamente.

A voz dele estava um pouco grave, o que denotava que de algum modo, o retorno da filha de Louise o perturbara.

___pensei que Julia não suportaria morar na mesma cidade que o seu agressor.

___aquele degenerado não anda mais por estas terras. Aliás, não anda mais no planeta. Matou-se enforcado no ano em que você esteve ausente.

___ah. Pelo jeito, a forca está bem popular por estas bandas.
___como assim ? - quis saber Antonio.
___nada importante. - desconversou Victória.___no domingo nos veremos.

Desligou o telefone e procurou o computador. Um palpite insólito lhe ocorreu quando conversava com o pai.
Conectou na internet e digitou o nome do indivíduo que violentara July cruelmente e que Louise odiava com todas as forças.
Descobriu artigos antigos a respeito do suicídio do indivíduo pesquisado. Ao ler a data da morte, ficara intrigada. Algo ali, lhe disparara o alarme da intuição.
Achou melhor não forçar a memória pois ainda estava convalescendo de uma cirurgia delicada.
Para espairecer, resolveu fazer algo aleatório, tal como a pesquisa dos índices de suicídios mediante enforcamento ocorridos no Estado. Assustou-se com o número de registros. Depurou para o número de enforcamentos para cada mil habitantes. O resultado comprovou: naquela cidade do interior paulista, o número de enforcamentos por mil habitantes, deu um salto a partir de uma data no ano anterior.

Desligou o computador. A atividade aleatória que escolhera, lhe confundira e cansara mais a mente.
Melhor seria utilizar o método cognitivo costumeiro: dormir.

No domingo, encontrou Antonio Di Angelis taciturno na sala de jogos, jogando sinuca sozinho. Tereza a informara que Louise saíra cedo com os seguranças para buscar Julia no aeroporto.

___preferiu ficar ? - perguntou Vick para o pai e arrependeu-se. O rosto dele contraiu-se enciumado.

___É.

___aconteceu algo que não sei ?
Ele parou de jogar e falou baixo como em desabafo.
___nada que já não previa que aconteceria um dia. A filha amada retorna e as migalhas de atenção que o esposo recebia, restarão em nada.

Foi um choque para Victória aquela revelação. Sabia que o casamento do pai com a Bittencourt era algo diferente, com casas e quartos separados. Relacionamento moderno, como diriam alguns. Só não o imaginava naquela situação.

___Eu pensei que vocês se amavam.

___Errou pela metade. Eu a amo, mas pelo lado dela, não há amor para ninguém além de Julia. Sei que se compadeceu do meu sofrimento, quando depois que pensei ter perdido você, tive um infarto. Naquela ocasião, quando encontraram um corpo feminino no rio, eu a vi chorar. Um choro amargo, pungente. Eu fui culpado. Aproveitei-me egoísta daquele raro momento em que a vi fraquejar e a pedi em casamento.

___se a indiferença dela o faz sofrer, então porque manter esta relação ?

___porque sofreria mais, distante dela.

Victória calou-se e escolheu um taco para jogar com Antonio. Precisava controlar-se e não deixar transparecer a raiva que esmurrava seu peito ante a atitude egoísta e possessiva do pai.

___uma vez, o senhor me disse que não amava mais Louise e apenas nutria por ela uma "bela e antiga amizade" . - perguntou cautelosa.

___a bela e antiga amizade é da parte dela. Quanto a não amá-la, eu tentava me convencer disso.
___ou convencer a mim.

___está enganada! - exaltou-se ele, lançando o taco que tinha às mãos no chão.
O objeto ricocheteou e atingiu os outros que estavam alinhados, fazendo-as cair ruidosamente.

Louise apareceu, seguida de Teresa, Júlia, Leandro e uma moça desconhecida.
___o que aconteceu ? - inquiriu preocupada.

Os dois Di Angelis ainda se olhavam desafiadoramente, com os rostos avermelhados.

Victória tentou compor-se.
___ele deixou o taco cair. Estávamos discutindo futebol.

___ou religião. Talvez, política. - emendou Leandro, bem humorado.
Louise conhecia bem o temperamento explosivo de Antonio e Victória percebendo claramente que eles acabaram de discutir.

Resolveu desviar o assunto mas não precisou agir.
Júlia correra e se pendurara no pescoço de Victória, beijando-a inúmeras vezes na face.

___sentiu minha falta ?

___claro, pequena. - respondeu Victória carinhosamente.

Na verdade, Júlia agora não poderia ser chamada de pequena além do adjetivo carinhoso. Desenvolvera-se completamente, adquirindo um corpo curvilíneo e flexível, exalando feminilidade. O rosto, denunciava a beleza potencial que se desenvolvia.

Teresa avisou que a mesa do almoço estava posta e todos se dirigiram para a sala de refeições.
Na mesa de oito lugares, sentaram-se com Louise em uma cabeceira e Antonio na outra.

Júlia insistira em ter Victória à sua frente e nesta disposição, sentaram-se à esquerda e direita de Louise.

Leandro apresentou para Júlia, Victória e o pai, a colega que convidara para o almoço de Domingo.
___Miranda Nogueira. Trabalha no 4o DP.

A moça, aparentava ter uma personalidade tímida e introspecta. Entretanto os olhos grandes e negros brilhavam, inteligentes.
A conversa na mesa desandou para as atividades cotidianas, até que Júlia perguntou sobre o que Victória fizera de interessante no dia anterior.

___passamos por São Paulo comprar DVDs e livros. Tive sorte e encontrei o filme que desejava para minha coleção.

___qual ?
___"Os Girassóis da Rússia".

___é filme policial ?
___não. Apenas um clássico que fala sobre o amor de dois jovens no tempo da guerra.

___pode resumir ? - pediu Júlia.

Victória passou a relatar o amor intenso entre dois jovens italianos, que rompeu-se quando o rapaz foi mandando à força para a guerra e desaparece em uma batalha na Rússia.
Ela, depois que a guerra acabou-se, procurou-o por todos os lugares, atravessando imensos campos de girassóis floridos, em busca do corpo ou de uma sepultura.
Como seu esforço foi em vão, ela voltou para a Itália e se casou com outro homem. Ele, que havia sido ferido na batalha e recolhido da morte certa na neve por uma jovem russa, casou-se com a moça, mas manteve dentro de si o propósito de voltar à Itália para rever seu grande amor.
Termina com ele ao lado de sua italiana, observando o filho dela no berço e se despedindo para voltar para sua mulher e filhos que deixara na Rússia.

___o que prova que o amor é um sentimento volátil. - brincou Leandro.

___ou talvez comprove que o amor pode perdurar em estado latente, mesmo quando a vida separa os amantes e os lança para o braço de outros amores. - concluiu Victória, evitando esbarrar no olhar de Louise e Antonio.

Leandro e Júlia ainda fizeram uma ou outra observação despreocupada sobre filmes e o assunto encerrou.

Terminada a refeição, Antonio convidou Leandro para uma partida de sinuca.
Miranda e Louise permaneceram conversando na sala.

Júlia cooptou Victória para o quarto e passou a lhe mostrar tudo que comprara no exterior, fotos de amigos, monumentos e lugares.

Victória gostou das fotos, principalmente as que Louise aparecia ao lado da filha.

___gostei desta. - mostrou-a para Julia.
___Se quiser ficar com ela, tenho o negativo e mando fazer outra. É também a minha preferida. Estamos na frente do Ópera de Paris. Sabe aquele teatro do Fantasma da Ópera ?
___já li sobre ele.

___mamãe veio para comemorar o meu aniversário. Neste Teatro, ela com a minha idade já pertencia ao corpo de Balé.
___e porque abandonou a carreira ? - quis saber Victória.

Julia observou ao redor para se certificar que estavam a sós.
___o joelho. Mamãe viera passar o natal com meus avós que possuíam uma grande joalheria em São Paulo. Depois voltaria para Paris, continuar os estudos e a carreira de bailarina. Dois homens armados invadiram a joalheria depois que já haviam fechado as portas e os empregados tinham ido embora. Pediram as jóias da vitrine e minha avó apressou-se em entrega-las. Apanharam todas as que conseguiram avistar e satisfeitos, agradeceram minha avó ... atirando nela e em minha mãe.

Júlia fez uma pausa para recuperar o fôlego.

___minha avó morreu instantaneamente. Louise teve sorte. O tiro lhe atingiu apenas o joelho esquerdo. Não se sabe porque aqueles homens atiraram. Estavam encapuzados e não temiam ser reconhecidos. Não houve reação por parte das vítimas.

___muitas vezes, não existe motivo plausível para um gesto cruel. - consolou-a Victória, acariciando-lhe os cabelos compridos.

Teresa bateu na porta e entrou.
___vou preparar o seu banho. Viajou horas e deve estar estranhando o fuso-horário. Sua mãe a quer na cama repousando.

___de volta ao regime Bittencourt. - riu Júlia.___mas estou acostumada. No internato temos regras e horário para tudo.

Descendo a escadaria, Victória avistou Miranda ao piano, tocando uma série de acordes complexos com habilidade impressionante. Louise, em pé ao seu lado, ouvia silenciosa.

Com sua chegada, a moça sobressaltou-se e parou de tocar.

Victória tentou disfarçar o ciúme efervescente que ameaçava a fugir de seu controle.
Completara quase dois meses que não a avistava assim tão próxima. Naquele tempo, evitara transitar na casa quando Louise ali se encontrasse. Depois, ainda tinha a chácara na serra e o apartamento da cidade para se refugiar.

___toque "Sonata ao Luar" de Beethoven. - pediu.

Miranda iniciou a tocar a peça e Victória e Louise surpreenderam-se. Ela tocava cada nota, acorde com perfeição, no entanto a interpretação era semelhante à de uma pianola. Simétrica, rápida e vazia.

A jovem terminou a sonata e levantou-se.
___vou voltar para a mesa de sinuca. - avisou com um sorriso curto.

Saiu e deixou Victória e Louise a sós.

A delegada sentou-se ao piano e começou a dedilhar alguns acordes esparsos até que evoluiu lentamente para a "Sonata ao Luar". Tocou com toda a dor e sentimento que o autor empregou na peça. As notas diluíam-se cristalinas, como lágrimas apaixonadas.

No dedo anular dela, o anel com a pedra azul.

Quando terminou, olharam-se em silêncio e não era preciso palavras para descrever a energia borbulhante que fluía entre seus corpos.

Victória temeu que seu pai reaparecesse e a flagrasse com toda sua paixão estampada no rosto.

Livrou-se daquele enleio e subiu rápida a escadaria. Queria fechar-se em seu quarto. Esforço inútil. Louise a seguiu e entrou no quarto antes que conseguisse detê-la, trancando a porta.

___todo este tempo me evitando. - disse ela em sua voz que adquiria o timbre sensualmente rouco quando se emocionava.

___não. Apenas com bastante trabalho no escritório.

___não acredito que o motivo seja o trabalho.

Victória sabia que não adiantava tentar despista-la.
___você passou a me odiar, eu sei. Quero esquecer aquele dia - completou Vick.

___o que a faz pensar assim ? foi o que aconteceu naquela manhã tórrida? Confesso que desejei vingar-me, mas odiar você está além de minha capacidade.

___desejou vingar-se apenas ? E que nome daríamos a um ato deliberado de conseguir meu desligamento da força policial ? Que nome você daria a esta atitude? Vingança? Traição ?

Louise empalideceu e olhou-a atônita.

___como descobriu ?

___Não importa como descobri. O que preciso entender é porque ? porque fez isso comigo?. Ser policial é a razão que me move.
___Não foi por vingança nem é traição. - disse ela, apanhando os braços de Victória com força.___prometo que um dia vou revelar o motivo. Por enquanto preciso que confie em mim.

___confiar em você ? Você mentiu para mim. Traiu.
___outras vezes, Victória, você também mentiu para mim e depois que lhe descobri as razões, entendi seu gesto. Se omiti, subverti os fatos ou agi ao largo da sua vontade, tenho fortes motivos e o que me move é o desejo de protege-la.

___me proteger ? De quem ou de quê ? Não sou mais uma criança, Louise. Sou uma mulher.

Ela nada respondeu. Apenas fixou o olhar nos de Victória e o que a ex-policial viu neles, transcendia a necessidade de palavras.
Ainda em silêncio, Louise tocou o anel de pedra vermelha na mão de Victória e entrelaçou os dedos nela.
Aproximou o rosto e ofereceu os lábios carnudos.

Beijaram-se como se unissem dois pólos, gerando uma energia inebriante. A língua de Louise percorria a boca, pele e queixo de Victória, invadindo e explorando.
Os braços lhe enlaçaram a cintura, puxando-a contra si enquanto deitava na cama.

Suspirou excitada ao sentir o peso de Victória contra seu corpo.
Abriu os botões da blusa e soltou o fecho do sutiã, livrando os dois seios redondos de auréolas rosadas.

___eu sei que você os quer. - afirmou, conduzindo a face de Victória próxima aos bicos tesos. ___Bebe-me, Dian. - disse um pouco antes de gemer quando a sentiu colar-lhe os lábios no seio e sorve-lo com sofreguidão.

INCÊNDIO

Na semana que se seguiu, Victória e Araújo trabalharam intensamente a campo em busca de dar solução ao Caso do “Garrote Inusitado”. Foram até a pousada onde foi encontrado o corpo e só então Victória percebeu a dificuldade para um detetive em conseguir que as pessoas falassem espontaneamente sem a obrigação imposta pelo poder de polícia.
O que ajudava muito era o farto material que os pais de Douglas conseguiram. Na pasta havia o Laudo da Polícia Técnica, o Necroscópico, fotos do corpo na posição que fora encontrado, depoimentos dos empregados da pousada e outras pessoas que ali estiveram hospedados no dia.

Como nada novo foi apurado, guardaram a Polaroid e os blocos de anotações e voltaram à cidade.

___está mais duro do que arrancar leite de pedra. – comentou Araújo.___de qualquer modo, para aparar todas as arestas, acho que é interessante dar uma passada no apartamento onde o rapaz vivia. Não foi vendido ou alugado e os pais o mantém intacto.

___a polícia já esteve lá ?

___já, mas quem sabe você não fareja algo diferente no local.

___ah! Farejar é comigo mesmo. – gabou-se a detetive, rindo.

___agora sim, está com uma cara melhor. Todos estes dias andava tão séria, compenetrada. É aquele assunto da corporação que ainda a incomoda ?

___ah, aquele assunto sempre incomoda. – concluiu Victória, lembrando-se da culpa que sentiu no domingo, após estar com Louise no quarto. Não haviam extrapolado os limites dos beijos intensos e carícias íntimas, porém, mesmo assim sentia-se traindo Antonio Di Angelis. Por esse motivo, a culpa perdurava e a seguia como sombra, por onde caminhasse.

A necessidade de libertar-se do querer insensato que a fazia ceder aos caprichos de Louise, crescia dia pós dia. Entendia as razões das atitudes da delegada, como também tinha que aceitar que seu pai, na condição de homem apaixonado resistiria o quanto pudesse para manter-se ao lado da mulher amada.

___até quando suportaria o orgulho dele? – perguntou-se no íntimo.
Por outro lado, Victória inquiria se teria a capacidade de ser amante de Louise Bittencourt, caso algum dia ela se fizesse livre novamente. Não conseguia obter resposta e sabia o motivo: a índole fogosa da delegada, além de seu atual comportamento bissexual.
É. Tinha que admitir que a palavra “bissexual” incutia terror em uma mulher com comportamento homossexual, no caso de Victória.
Certa vez, discutira o assunto com o Agnaldo e o rapaz riu ao saber de sua fobia ao bissexualismo.

___precisa ter cautela para não incorrer em preconceito. – avisou o amigo.
___está certo, mas vamos passar a situação em quadros. Imagine que você é uma mulher homo. Ato contínuo você se apaixona por outra, que antes se comportava tranqüilamente no universo hétero. Ela corresponde à sua sedução e vocês iniciam um relacionamento.

___estou acompanhando o quadro.

___então um belo dia, nestas escorregadas da vida, vocês rompem o namoro mas sua paixão continua.

___certo.

___e a bela, cai nos braços de um rapaz que a consola.

___natural.

___natural ? pirou? – esbravejou Victória, assustando o amigo.___então vamos inaugurar o Oba-oba geral. Se antes você teria que se preocupar com a metade da população do planeta, agora tem que ficar de olho na outra metade também? Dá para você, com seu biótipo feminino, concorrer com um homem alto, barbado, com pelos no peito e outros acessórios mais ?
___espera. Você me confundiu. Onde é que mora este homem alto, barbado, com pêlos no peito e outros acessórios mais? Tem o telefone dele ?

Victória estirou-se em seu sofá.

___desisto. Não dá para ter um papo cabeça com você. Se você fosse uma mulher, Lés como eu, talvez entendesse.

___ainda acho que essa linha de raciocínio pode descambar para o preconceito. Olhe aí. Se nós não gostamos que nos trate preconceituosamente, deveríamos ser os primeiros a evitar este tipo de comportamento. Conheci uma garota amiga de infância que é bi. Certa vez ela me desabafou na mesa de bar que tem dificuldade em se relacionar com garotas porque os bissexuais na cabeça de algumas, ou você é o café, ou é o leite. Não aceitam café com leite.

___Uma comparação diferente. Neste caso, prometo pensar sobre o assunto e reformular meus conceitos a respeito. Quem sabe um dia eu ainda acabe lançando um “Tratado do Comportamento, Gay, Lés, Bi, Pan, Trans e etc.”

___o que seria este “etc” ?

___ainda não sei. Vou pensar.

___se fizer o tratado, vai virar Best-seller. – concluiu Agnaldo.

Riram e esqueceram o assunto.

Só que o assunto delicado agora retornou à cabeça de Victória, que não sabia o que fazer com o fenômeno “Louise Bittencourt”.

No apartamento de Douglas Rusemberg, tudo parecia condizer com a imagem do estudante de engenharia tímido e muito religioso. Um recorte de jornal amarelado guardado no fundo de uma pesada cômoda, chamou a atenção da detetive. Ali, dizia que a polícia não havia conseguido provas que comprovasse a culpa de Douglas no crime do Campus de Engenharia.

___Pode ser indício de alguma coisa. – arriscou Vick, fotografando todos os cantos, móveis e objetos da casa.

___ou de nada. E no caso, aparentemente não tem ligação com o evento que originou nossa investigação.

___mesmo assim, quero puxar este fio para ver onde vai dar. Se de nada servir, acaba virando forro da caixa de areia de Sir Lancelot.

Continuaram a procurar pelas estantes e armários e dentro de um livro, uma folha impressa exibia a arvore genealógica da família Rusemberg. Dos bisavós que vieram da Europa fugindo do nazismo, decaiu para avós, ramificou-se e onde constava o tronco: José e Rosa Rusemberg, pais de Douglas, saíra três ramificações. Na primeira, Jonas, na segunda, Ruth e na terceira, o vão onde deveria estar impresso o nome e fotografia estava vazio.

___estranho. – constatou Araújo.

___muito estranho. - Ponteou Vick.__e pelo tipo de impressão, saiu de uma impressora jato de tinta doméstica.

Procuraram um microcomputador na casa.
Victória acionou o botão e a tela do prompt desfilou normalmente até esbarrar em uma senha de Setup.

___o rapaz era precavido com os dados do computador.

___mas já dou um jeito nisso. – avisou Victória, abrindo a caixa da máquina com uma chave. Depois, retirou a bateria da placa-mãe e esperou alguns segundos para recoloca-la.

___pronto. Esqueceu as configurações de senha e voltou ao padrão da Setup. – avisou.

No computador, procurou por arquivos de imagem, tif, jpg, gif, e outras variantes. Encontrou uma com o desenho da árvore genealógica. Da pasta, Victória retirou um disquete e copiou o arquivo.

Terminada a “vistoria milimétrica”, nome dado por Victória às averiguações acuradas em locais, decidiram recolher o equipamento.

___acho que agora caía bem um lanche de encerramento da tarde.

___é, cai bem. – concordou Araújo.___mas antes temos que passar no escritório para deixar digitado o relatório do dia.

___me lembre de contratar uma digitadora, tão logo a gente consiga um dinheiro em algum destes casos.

___é preciso ter cautela, Victória. Eu tenho apenas esta fonte de renda e registrar um funcionário é um malabarismo na atual situação.

No caminho, avistaram fumaça saindo por entre os prédios do centro da cidade.

___algum muquifo pegou fogo. – concluiu Victória.

___estes tipos de sinistros são raros hoje em dia. Mesmo que o prédio seja velho e mal conservado, os bombeiros agem rápido e se for o caso, utilizam até a gigantesca escada magirus.

___no entanto a fumaça está bem densa. – comentou Vick, resignada com o trânsito que não fluía.

___pode até ser um daqueles incêndios criminosos que andaram ocorrendo em imóveis centenários, tempos atrás. Os casarões declarados patrimônio pela Prefeitura, não podem ser demolidos ou descaracterizados. Então a idéia dos herdeiros é provocar um incêndio. Aí não há outro jeito a não ser demolir a estrutura calcinada. Daí criam-se estes amplos estacionamentos para automóveis, com lucro garantido.

___uma prática lastimável. – avaliou Victória.

Araújo conduziu o Fordão lentamente por duas quadras. Depois dobrou a esquina e logo à frente avistaram carros do corpo de bombeiros despejando água nos andares do prédio comercial onde mantinham o escritório.

Assustaram-se.

___consegue avistar nosso andar ? – perguntou Araújo.

___não. A fumaça atrapalha a visão.

Esperaram até que as chamas fossem controladas. No lugar do andar onde estava instalado o escritório “Di Angelis e Araújo – Detetives Associados”, havia apenas um vão escuro calcinado.

___inacreditável . – exclamou Victória.

___e assim perdemos os nossos móveis, os eletrônicos, aparelhos telefônicos, computadores, fichas e equipamentos. Agora sim que contratar uma digitadora está fora do orçamento. Estamos na rua.

Minutos depois, ainda observando os bombeiros fazerem o rescaldo, várias viaturas da polícia enfileiram-se próximas. Delas, saltam, um a um, os antigos colegas e amigos de Vick, além de Louise Bittencourt em pessoa.

O olhar da delegada cambiava de perplexo a furioso.

___eu não meti fogo no prédio. – desculpou-se Victória, tentando manter o humor estável.

Ela olhou Vick por alguns instantes, e afastou-se para conversar com o chefe dos bombeiros.

___o que a “manda-chuva” da força policial está fazendo aqui, estragando a Czarina e manchando o tailler na fuligem ? – perguntou em voz baixa, um bombeiro para outro.

___é procedimento rotineiro da polícia chegar junto para fazer o relatório.Só que desta vez, junto com a tropa, veio a “abelha-rainha” e você deve tomar cuidado com estas perguntas tolas. Aquela moça alta, encostada no carro é a enteada da autoridade. Natural a preocupação. Sabe lá se o incêndio tivesse iniciado com a moça dentro do prédio ? O local é velho e mais parece uma ratoeira. Além de quê, tudo indica que foi incêndio criminoso. O fogo alastrou-se rápido demais como se estivesse se alimentando de substância altamente comburente.

___deixe que os peritos façam suas conclusões.

Victória encarou Araújo. Não puderam evitar ouvir parte da conversa dos homens passos adiante.

___o que acha ?

___o bombeiro preocupado tem razão.

___o que teria causado ?

___pode ter certeza que não foram os herdeiros de prédios centenários. A construção tem cerca de trinta e cinco ou quarenta anos, é singela, sem estilo arquitetônico de época ou coisa que valha.

___então devo concluir que é um prédio velho.
___Sim e aí reside a diferença crucial. “O antigo”, valioso data de cerca de cem anos, um pouco menos, um pouco mais. Naquela época, os materiais utilizados eram de altíssima qualidade.Alguns forjados por mestres ferreiros, marceneiros e outros profissionais de carreira. Já uma casa ou prédio como este, se torna velho a partir de trinta e cinco anos, em média. Com esta idade, um imóvel precisa ter a hidráulica e elétrica substituída, além da estrutura do telhado , telhas, rebocos e madeirame.

___e nosso prédio de aspecto conservado, na verdade, velho, não teria recebido qualquer reforma estrutural importante ?

___é possível que não. O que pode justificar curto-circuito na elétrica e o incêndio.

___nesse caso, podemos conseguir alguma indenização junto ao proprietário ?

___nesse caso, é possível.

___e se for comprovado que foi incêndio criminoso ?

___aí estamos realmente na rua, sem eira nem beira e com uma batata quente na mão: a quem interessaria destruir nosso escritório ?


DEPOIS DO SINISTRO


No dia seguinte, Victória lançou-se no trabalho furiosamente.

Araújo decidira levar o Pedro em um pesqueiro próximo para aliviar o stress, enquanto não saia o relatório do Corpo de Bombeiros.

Na biblioteca pública, a detetive pesquisou os jornais com a data aproximada do recorte que obtêra no apartamento de Douglas e após espirros causados pela poeira e ácaros, encontrou o liame: Uma pequena reportagem divulgando a morte de uma jovem estudante de engenharia no campus da Universidade. Foi violentada e morta por estrangulamento. Douglas foi apontado como a última pessoa vista ao lado da vítima. Não encontraram provas que o incriminassem e o assassino não deixara sêmen. Possivelmente utilizara preservativo.

Procurou pelo nome da moça assassinada. Chamava-se Clara Alves.

No campus de engenharia, ninguém quis comentar.
Saiu para a área da lanchonete e pediu um sanduíche. Mulheres vestidas em uniformes de faxineiras, varriam caprichosamente toda a área.
Uma delas parou à sombra de um fícus para fumar.
Victória abordou-a.

___trabalho difícil este. – comentou.

___se é. – concordou a mulher.

___Mas aposto que daqui fica sabendo de tudo que acontece no campus.

___ah, com certeza. – concordou a faxineira, olhando-a desconfiada. ___ Mas o que uma moça bonita e embalada nos panos bacana como você quer saber da minha vida ?

___na verdade, não quero me meter com sua vida e sim com o que você sabe a respeito de um certo assassinato de uma estudante de Engenharia no ano passado.
Victória acenou com uma nota de cinqüenta reais. A faxineira, cujo nome descobriu ser Mirtes, sorriu, exibindo as falhas entre os dentes.

___olha lá, moça. Você é tira ? Não quero complicação com a polícia.

___eu fui. Não sou mais. Agora trabalho por conta.

___Vê lá heim? Mas se lhe contar o que sei, acho que dá para firmar mais uma desta aí.

___ofereço setenta reais. – negociou Vick.

___ta certo. Vamo lá praquele banco de pedra ali pra que o encarregado do serviço não me aviste.


RELATÓRIO

Os dedos longos de Victória vibravam enquanto ela digitava rapidamente seu relatório para o papel. Inserira no cabeçalho de todas as páginas a palavra CONFIDENCIAL em letras maiúsculas.

Sabia que o que estava desenvolvendo ali era uma tese e como tal, importante que não viesse à tona, caindo nas mãos da mídia.

A Mirtes, de tudo que dissera, a maioria era confabulações de grupos de empregados, fatos que não podiam ser comprovados, quer pelo tom fantasioso, quer pelo lapso de tempo decorrido. O certo era que a mulher, pouco contribuíra, ou quase nada.

Contara que o tal Douglas, rapaz rico, era muito tímido e não levava “jeito” com as moças. Parecia assusta-las, mesmo as que se aproximavam dele para passear com o seu carrão ou desfrutar do “bem-bom” que o dinheiro dá.

Foi passar um ano de curso, em Douglas pareceu entranhar um estigma (nas palavras e conclusão de Victória), uma marca indelével que o tornou abominável para as mulheres e evitado pelos rapazes, colegas de curso. (A detetive não inseriu esta linha no relatório final. Ainda estava traçando o perfil de Douglas).

Tal estigma, poderia ser gerado por uma espécie de gosto de Douglas por “fazer aquilo com os mortos”. Mas isso, tanto Mirtes quanto os colegas faxineiros que lhe contaram, não podiam afirmar com certeza e se fossem chamados para contar algo para a polícia negariam.
A verdade é que um dia, o rapaz saiu para usar o mictório e deixou aberta uma pagina da internet, na sala da informática do bloco, os colegas espiaram e viram fotografias de mulheres mortas e inscrição em inglês sobre a necrofilia. Quando voltou e percebeu seu descuido, o rapaz teve uma crise de ira a ponto de lançar três micros no chão e os danificar.
Os pais do moço pagaram novamente o prejuízo.

A respeito de Clara Alves, Douglas tinha uma veneração ardente pela moça mas nunca consegui aproximar-se mais do que simples contato entre colegas.

As suas necessidades de rapaz moço, ele acabava resolvendo levando para o motel, algumas das “mariposas”, mulheres que ficavam na estrada próximo do campus, comercializando o corpo para os alunos do período noturno.

Victória entrevistou algumas destas mulheres e ao mostrar a foto do moço, obteve a pergunta:

___não sabia que o “papa-morta” tinha “fechado o paletó”.

___como assim ?

___ah. É que este moço aí, magrinho, tinha cada idéia quando queria fazer “aquilo”. Ele sempre queria que a gente fingisse que estava morta para depois ficar “daquele jeito”.

As mulheres escolhiam palavras para não soltar o linguajar chulo das ruas. Reconheceram Victória e sabiam que a ex-policial era “gente boa”, que nunca espancara ou molestara homem ou mulher de rua, sem motivos.

Porém, apesar de obter várias dicas a respeito da personalidade de Douglas, foi uma observação despreocupada de Mirtes que ela lhe indicou “a chave”. O fato ocorreu quando a detetive perguntou sobre onde conseguiria uma fotografia de Clara. A faxineira informou que havia uma de bom tamanho no saguão de homenageados pelas turmas de Engenharia.

Vick procurou pelo saguão e quando o encontrou, deparou-se com uma fotografia ampliada de Clara, em homenagem de sua turma que se formara naquele ano. A jovem pertencia a outra turma mais adiantada do que a de Douglas. Abaixo da foto, inscrições saudosas e a clássica data do nascimento e da morte.

___este tipo de homenagem me irrita. – pensou Victória naquela ocasião, lembrando de seu retrato exposto no 8o Distrito. Só que, algo na data, lhe acendeu o alarme interior. Douglas se enforcara na data em que Clara, se estivesse viva, comemoraria seu aniversário.

Aquele foi o estopim aceso que fez a policial se lançar em uma pesquisa frenética junto à internet, jornais, Institutos Médicos , hospitais. Em alguns momentos, ao conseguir comprovar algumas de suas suspeitas, pensou em ligar para o Agnaldo ou mesmo a Doutora Lizandra, pedindo informações mais precisas.

___impossível que alguém da polícia não tenha visto isso. – pensou.

No entanto, sabia ser antiético e irregular procurar informações nos bancos da polícia e não gostaria de fazer os ex-parceiros infringirem o regulamento do Serviço de Segurança.
Fazia uma investigação particular e não poderia se valer da máquina do Estado.

___se tenho que ir pelo caminho das pedras, é melhor me esforçar mais. – concluiu.

O telefone tocou e Victória temeu atender e ouvir a voz de Louise.
A delegada lhe chamara no celular ou no telefone do apartamento, várias vezes no dia e no anterior.
Perguntava onde estava, o que fizera ou se já havia se alimentado.
Por mais que Victória apreciasse ouvir a voz de Louise, aborreceu-se em pensar que ela estaria monitorando-lhe os passos.
Diante disso, adotou a estratégia de sempre responder com palavras curtas, ambíguas e vazias de significado.

O telefone insistia em tocar. Victória atendeu e sentiu alívio ao ouvir a voz animada do Agnaldo.

___bom dia, senhorita Inexpugnável. Estava pensando se a majestade não sairia por algumas horas da fortaleza para nos acompanhar em um delicioso festival de massas no “circuito gastronômico” ?

___Não posso sair agora. Sir Lancelot está em crise existencial e andou atacando as pernas da empregada, o que gerou o caos. Tive que dispensar a pobre moça, depois de leva-la até um ambulatório para curativo e tomar remédio. Além de que, o “Escritório Di Angelis & Araújo Detetives Associados” virou fumaça, você sabe.

___ah, eu sei. Estive por lá, lembra?

___você e a tropa toda. Quase que promovi uma festinha de confraternização.

___mas aquela “batida” você bem sabe quem promoveu. A nossa amada “Guilhotina da Revolução Francesa”.

Riram.

___e então, vamos sair ?

___como dizer não a você ?

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