___mais um desanimado da vida. - comentou Araújo enquanto passava
os olhos pelo jornal.
___onde foi que ele se enforcou ? - inquiriu Vick, misturando açúcar
no café.
___na viga do galpão da bicicletaria onde que trabalhava com
uma câmara de ar. Este tipo de borracha dá excelente
garrote.
Agnaldo
parou a viatura próximo do meio- fio e esticou a perna para
fora, conseguindo finalmente retirar sua longa estrutura do veículo.
Acostumara-se a servir-se do café da manhã no boteco
do Pilatos, em companhia de Victória e Araújo.
___onde está o Leandro ?
___hoje
ele não vem. Na verdade, acho que nesta semana o Léo
vai tomar café na região do 4° DP. Está fascinado
por uma novata, recém saída da academia. Miranda Stacker
Nogueira é o nome dela.
___os rapazes dos outros DPs também. Meses atrás, promoveram
uma festa para comemorar qualquer coisa, não me lembro ao certo,
para toda a força policial da cidade. Miranda apareceu e virou
o centro das atenções. Eu vi a garota. Uma beleza exótica
- completou Araújo.
___Ana
Beatriz não deve estar contente. - riu Victória.
___mas a "Toda Poderosa Seccional" está. Miranda
está há cinco meses no 4o distrito e já retirou
do arquivo morto, seis casos de homicídio.
Victória
franziu a testa , tentando disfarçar a ferroada cruel do ciúme.
Araújo, percebendo o silêncio constrangido da colega,
levantou-se e pagou a conta.
___Eu e minha sócia precisamos voltar ao trabalho. Até
mais tarde, Agnaldo.
A expressão "voltar" ao trabalho, em plena oito horas
da matina poderia soar estranha, mas não no caso deles. Estiveram
rondando a cidade na madrugada, empenhados em conversar com "aqueles
que dormem cedo", expressão usada para designar os indivíduos
que moviam-se pela noite e dormiam ao raiar do dia.
Trabalhavam em um caso, onde as informações oferecidas
pelas mulheres da vida, meninos de rua, vigilantes de becos e catadores
de papelão poderiam oferecer alguma pista importante.
No escritório amplo com duas mesas e estantes de livros, Vick
sentou-se defronte seu computador e passou a digitar o conteúdo
de suas anotações nas fichas.
___sei
o que a está incomodando.
___a mim ? - inquiriu a detetive, desviando a atenção
do micro.
___sim.
___é tão visível assim ?
Araújo moveu a cabeça afirmativamente e Victória
voltou a digitar seu relatório de ronda noturna.
____vou
fazer um sanduíche para nós.
___o meu é daquele jeito. Pouco presunto, muito queijo. - avisou
a colega.
Na pequena copa, André Araújo refletia sobre o revés
enfrentado por Victória desde que ressurgiu do nada.
A Secretaria de Segurança do Estado indeferiu o pedido de recondução
da servidora para os quadros da polícia. Alegaram que o tipo
de trauma sofrido, seguido de amnésia por um longo período,
a desabilitara para prestar serviços ao Estado e ter porte
de arma.
Na opinião de Araújo, a atual Delegada Seccional poderia
ter utilizado de sua influência e obtido a readmissão
da enteada. No entanto, Louise Bittencourt nada fizera.
Voltou com dois pratos e colocou-os na mesa próxima.
___fiz
apenas um para você. Minha esposa mandou convida-la para o almoço.
O Pingo está radiante.
No fim da tarde, Victória acelerou a motocicleta, ansiosa para
voltar ao apartamento novo e poder dormir.
O local, um condomínio de classe média alta, possuía
boa infra-estrutura. Sauna, piscina, quadras de tênis e salões
de festa.
No saguão, Sir Lancelot, já pressentindo sua aproximação,
passou a miar alto.
___hoje
o seu rango é ração e para mim, pizza. Não
estou disposta a mexer com panelas.
Cuidou dos afazeres preliminares e após o banho, fechou-se
no quarto escuro.
Dormiu deliciosamente.
Quando o telefone tocou, já estava semidesperta. O mostrador
do relógio digital indicava meio-dia e meia.
___estava pensando em passar por aí e encomendar uma comida
chinesa. - sugeriu Agnaldo do outro lado da linha.
___está bem.
___a propósito, estou pensando em levar alguns colegas comigo.
___a
tal moçada nova do seu setor no Oitavo Distrito?
___é, o sangue novo. Nestes dois últimos meses, estou
sendo pressionado para apresentar a lendária Victória
Di Angelis e não tenho tido sucesso.
___tem uma foto minha no mural dos que "bateram as botas"
em ação. Mostre a eles.
___A turma já viu a tal foto, que aliás foi retirada
da galeria por ordem do Edgar Meirelles. Deixa de ser ranzinza e personifique-se
para eles.
___Acho
que meu estado de humor é compatível para uma policial
que foi afastada da corporação com apenas quatro anos
de carreira.
___mas
você vai recorrer da decisão administrativa, é
claro.
___líquido e certo. já contratei advogado e estão
cuidando da papelada. O processo é demorado.
___e então ? Vamos ter chinês para o almoço ?
___Tenho
uma sugestão melhor. Venham para o jantar. Assim tenho tempo
de pedir para a diarista dar uma geral no apê e ainda locar
um bom filme de ação.
___está
combinado. - assentiu o rapaz.
Saindo
da cama direto para a banheira, suspirou satisfeita com o contato
da água aquecida contra a pele. Fechou os olhos e deixou-se
levar no encanto das imagens que nos últimos meses representavam
seu segredo acariciado.
"Louise
gemia enquanto Victória beijava sua nuca, pescoço, mordia
seu queixo e lhe acariciava os seios com a língua quente."
Da
banheira, Di Angelis saiu para aplicar cuidadosamente o hidratante
na pele.
"Na
pélvis, a pequena tatuagem representando o escorpião
demarcava o início da lanugem curta, bem aparada. Estimulou-a
ali, enquanto lhe sorvia os pés, a área sensível
atrás do joelho e o interior das coxas. Virou-a de bruços
e deitou-se sobre ela, movendo os quadris contra a superfície
curva e macia dos dela, fantasiando que a penetrava. Beijou-lhe a
nuca, afastando os cabelos com a mão. Ela contorcia-se sob
o peso do corpo de Victória como uma fêmea fogosa desejando
que a possuísse."
Vestiu-se, escolhendo uma blusa regata branca que lhe realçava
as linhas bem talhadas do colo, braços e costas e calça
brim preta, gasta industrialmente na face das coxas, ilharga e traseiro
em uma composição sexy.
"Estendeu o braço, sem libertar sua presa e abriu a ultima
gaveta da cômoda de madeira maciça. Encontrou o artefato
desejado e ajustou-o a si.
O sexo dela, orvalhado e túmido de excitação,
foi invadido a fundo, com movimentos sincronizados que aumentaram
de intensidade na medida que Victória lhe prendia os seios,
colocando-a de quatro enquanto lhe arremetia com mais força.
Louise contorceu-se naquele modo tão peculiar seu, felina,
perigosa. Desabou finalmente, prostrada ante a força do primeiro
orgasmo."
Na despensa, verificou que não tinha pipoca para micro ondas.
Derramou um pouco de ração para Sir Lancelot, trocou
a água e mudou a substância granulada da bandeja para
necessidades fisiológicas do gato.
O telefone da diarista estava anotado no pequeno bloco imantado na
geladeira. Ligou e combinou uma "ajeitada básica".
Desceu e foi caminhando até a locadora de Vídeos da
esquina.Nos cartazes, casais em beijos tórridos.
"Voltou a acaricia-la forte, senhoril. Queria subjuga-la e invadi-la
novamente, só que desta vez, fitando-lhe o rosto.
Penetrou-a na posição em que o artefato a estimulava
ao mesmo tempo que a invadia. Puxou-a para si, mordiscando e sugando
as auréolas dos seios sem perder o ritmo do movimento dos quadris.
Os cabelos negros lisos, cortados rente ao queixo, estão colados
em sua face e Louise observa Victória com as pálpebras
e lábios entreabertos. No momento do próximo orgasmo,
ela a chama "Dian", enquanto arranha e morde seus ombros,
costas."
Locou um filme de suspense policial que o jovem da locadora achava
"O Bicho", "Manêro", "Tudo haver".
Não costumava confiar no gosto daquela moçada de ossos
longos e dentes proeminentes , mas estava por fora dos lançamentos
da indústria cinematográfica. Pelo sim , pelo não,
locou o DVD.
"Na gaveta uma pequena busca e não demorou para encontrar
o outro artefato. Este, do tamanho de seu dedo médio. Retira
o anterior da cinta de couro e encaixa o artefato menor com raiva
de tê-lo encontrado, juntamente com preservativos e lubrificante
íntimo. Louise debate-se, tentando evitar que fosse "montada".
Esforço vão.
___não faça com que eu a odeie, Victória Di Angelis.
Ameaça
vã.
Victória
veste o preservativo lubrificado no artefato e a penetra lentamente.
Seu desejo era invadi-la com fúria e faze-la sucumbir na dor
para tentar aplacar a própria dor que lhe roia a alma. No entanto,
mais do que se vingar, queria deixar nela a sua marca. Algo seu. E
esta marca seria o prazer, de toda a maneira, para valer. Valer a
pena.
Alcançou-lhe o sexo e a estimulou enquanto a invadia ao fundo,
no ir e vir sensual. Puxou-lhe os cabelos e mordeu-lhe os lábios.
Ela ciciou e perdeu a batalha contra a própria libido, vibrando,
arquejando, invadida pelos espasmos do prazer. "
O interfone avisou que um animado grupo de jovens esperavam autorização
para subir. Victória espiou-se no espelho.
Os cabelos presos e os olhos negros luminosos.
Constatou que estava com boa aparência.
A campainha soa. Abre e se depara com o amigo loiro, abraçado
com duas garotas. Atrás, mais jovens sorridentes. Olhou atentamente
para ver se encontrava outro rapaz. Avistou um.
___podemos entrar na mansão Di Angelis ? - perguntou a jovem
presa à asa direita de Agnaldo.
___claro! - gaguejou Victória embaraçada.
A tropa entrou e se acomodou nos sofás. Lancelot cruzou o ambiente
como um torpedo.
___não está acostumado às visitas na mansão
de Mademoiselle Ostra. - brincou Agnaldo.
___não trouxemos cerveja ou vinho porque amanhã tem
expediente. - explicou a loira de cabelos curtos, revoltos, esculpidos
em gel.
___brindaremos com guaraná e outros refrigerantes. - avisou
a anfitriã.
___então vamos às apresentações. Da ponta
para a esquerda, Carolina; Paola; Marcela; Elisa e Telêmaco.
Todos zerinhos na Polícia. Ana Beatriz você conhece.
Somos sete, mas você não é a Branca de Neve. -
brincou Agnaldo.
___talvez a má-drasta. - emendou Ana Beatriz, com dubiedade
na colocação.
Victória
riu. Não ia embarcar na provocação da ex-colega,
mesmo que nela houvesse alguma insinuação a respeito
da condição de Louise em relação à
Vick : Madrasta.
Ofereceu
pipoca para a turma e foi até a Home Theater acoplar o DVD
no aparelho.
___fiuuu- fiuu! - assoviou uma das meninas.___me diziam e eu não
acreditava. Victória Di Angelis é um mulherão.
Vick
virou o rosto enrubescida, na tentativa de descobrir a engraçadinha
que fizera a observação espirituosa.
Todos a olharam sérios, como crianças à espera
da sessão da tarde. Voltou-se para o DVD e ouviu outra piadinha.
Deu de ombros e riu, apertando o "start".
Quinze minutos de filme e começou a "aperta pausa, que
preciso ir ao toalete", "aperta pausa porque mordi a língua";
"pausa para atender o celular"; "pausa porque o cílio
entrou no olho"...
Victória
levantou-se de sua Berger e encomendou a comida chinesa.
O filme ficou pela metade (tedioso e previsível) mas os pratos
esvaziaram-se. A turma entusiasmada, -exceto Beatriz e o calado Telêmaco
- partiu para disputar caxeta, pif-paf, tranca, canastra, arranca-dedo.
O
interfone tocou. A portaria avisava que a vizinhança estava
incomodada com o ruído. Victória olhou o relógio:
meia-noite e quarenta.
Voltou para a sala e anunciou:
___quarenta minutos depois das doze badaladas. O cassino da Victória
encerra o expediente.
- 1:30 da Madrugada.
Deitada,
a imagem de Louise flutuava em sua mente. Rememorou o sábado,
derradeiro, em que a possuiu e a deixou exaurida pelo prazer no quarto
escurecido pelas cortinas. No táxi, rumo ao "ninho",
não conseguia olhar para trás mas não se arrependia.
Antes de sair, a mão de Louise procurou a sua. Nela. Victória
viu o anel de ouro em forma de estrela, com a pedra azul no centro
simbolizando Vênus. Aquele gesto pareceu ter um significado
velado.
Em seu abrigo, encontrou tudo como deixara antes.
Agnaldo consolou-a aturdido por não entender a causa de tantas
lágrimas doridas.
- 3:00 horas da madrugada.
Moveu-se na cama agoniada. Não conseguia conciliar o sono e
sabia a causa. O programa da noite a deixara excitada. Afastou as
pernas e tocou-se. Dois meses sem os beijos e abraços da "Jour".
Não
conseguiu satisfazer-se. Acendeu a luz e procurou uma caixa de madeira
chaveada dentro do armário.
Colocou-a na cama e abriu.
Dentro a bela pistola Glock. Manuseou-a cuidadosamente.
Lembrou-se daquele dia, na semana passada, em que teve que entregar
o emblema e a carteira funcional para o Delegado Edgar Meirelles.
Apresentou-se orgulhosa naquele gabinete que fora de Louise e repleta
de lembranças pungentes.
___é difícil para mim Victória mas sei que está
sendo extremamente penoso para você. - ele disse, com o rosto
entristecido.___devíamos condecora-la por bravura mas as regras
dos burocratas indicam seu desligamento definitivo. Lamento muito.
Vick entregou o emblema e sua carteira funcional que também
a autorizava a portar armas.
___sem o porte, não poderá sair para a rua com suas
armas particulares. Outro erro. Um policial passa o dia a dia granjeando
inimigos. Quando se aposenta ou é afastado, fica indefeso.
Você pode tentar conseguir o porte, fazendo um requerimento
e explicando as razões de sua necessidade. A corja de marginais
que já colocou nas grades é um bom motivo. Nunca se
sabe quando se pode topar com um deles na rua.
___não vou requerer porte de arma. - respondeu a ex-policial
com orgulho.
___Mas eu não acredito que nesta cidade algum policial, civil
ou militar vá lhe pedir o porte. - exclamou Edgar com cumplicidade.
Já em outra cidade ou a capital, é preciso ter cautela.
Podemos conseguir arredondar o incidente mas perderá a arma.
___eu
compreendo.
___e
o que pretende fazer a partir de hoje ?
___meu amigo, André Araújo me convidou para uma sociedade
na sua agência de Detetive. Vou aceitar. O trabalho é
uma excelente terapia.
___e quanto a fazer terapia literalmente, já pensou nisso ?
Todos que participaram da caçada ao "Devorador de Almas",
estão se submetendo a sessões terapêuticas.
___até
o senhor ?
___não.
Eu não estive nas profundezas. Na verdade, eu e o Doutor William
Salomão somos os únicos que estamos fora das sessões.
Victória intuiu que Louise Bittencourt, que estivera ao seu
lado no pior momento de suas vidas, também estava se tratando.
___Uma boa idéia. - sorriu. ___vou procurar um bom profissional.
Fora do gabinete do Edgar, procurou a sessão onde poderia rever
os antigos colegas. Encontrou vários pelos corredores, refeitório
e na porta das salas. Não viu Agnaldo e os novatos do setor
que estavam na rua entregando intimações.
No salão do auditório, a galeria dos homenageados. Fotos
de todos os policiais que tombaram em ação. Avistou
antigos colegas, como o Robertão, o "Cacha", membros
do grupo Nêmesis, outros que não conhecia e estacou estarrecida
ao ver a própria foto, com a data de seu nascimento e o da
suposta morte.
Guardou
a Glock cuidadosamente em seu estojo. Procurou as fotos. Fotos de
sua mãe ao piano, do pai, de si quando menina. O colar que
Louise lhe dera. Ela o manuseou reverente. Olhou novamente o perfil
esculpido no jade. Ao lado, um pino fino, camuflado no metal, sugeria
algo como uma dobradiça.
Levantou-se
e levou o objeto à luz da luminária. Com a unha pressionou
um ponto flexível e uma mola potente fez o camafeu se abrir,
revelando no interior, um feixe de cabelos negros atados por um fino
cordão e encaixado na face fixa da peça, a fotografia
colorida de Louise.
Contemplou-a
longos minutos.
Fechou a peça com o coração palpitante de alegria
por saber que ela existia, mesmo desprezando o amor que lhe oferecera.
O anel de pedra vermelha em forma de estrela representando Marte.
Este Victória encontrara dentro da caixa que Louise lhe dera.
O primeiro, par do que a Delegada mantinha no anular da mão
direita, perdera-se no desastre ou nas terras no interior de Minas.
Não se lembrava. Apanhou-o na mão e o colocou em seu
anular.
Havia
ainda a foto da equipe dos "Homens da Neblina".
Guardou
tudo novamente com cuidado, retirando apenas uma pequena peça
branca feita de rendas.
Deitou-se
novamente e apagou a luz, aspirando o odor feminino emanado da peça
íntima de Louise que levara consigo para rememorar o amor que
lhe fizera em quatro horas de intensa volúpia, naquela manhã
de sábado.
- 5: 20 da manhã. - Adormeceu.
NOVO CLIENTE
Cedo no escritório, Victória traduzia com dificuldade
a verborréia do malandro Curicaca sobre o furdunço que
fez ao encontrar o morto no matagal da rua Boleadores.
___aí chefia, o léro é o que rola (aí
chefia, a conversa é a seguinte): - Geou no barraco, a cabrocha
tava nos dia (recebi um gelo em casa da patroa que estava naqueles
dias) - Não fez marmita nem desfez meu algodão na banha
e soda ( Não fez o jantar, nem lavou minhas roupas) - Daí
saí no prumo, encruzilhando e deu hora, esquinei (saiu para
a rua, na reta, avançando quadras e em certa hora, parou na
esquina) - jardineira passou. Cosme e Damião filmando o malandro
(ônibus passou na via, depois dois PMs, observando o malandro)
- Mucréa buzinou e o malandro disse: Vixe olha os tracks (mulher
da vida gritou e eu pensei, agora vem tiro) Não dei dois passos
no quadriculado, a espoleta comeu e Dona Justa quinou. (Não
conseguiu mudar dois passos na calçada quando ouviu tiros e
o carro da polícia apareceu na esquina) - Enquadraram o primo
que caxinguelê apontô (Os policiais deram voz de prisão
e miraram no primeiro que o "macaco"- cagueta entregou)...
Araújo entrou e observou o texto por cima dos ombros da sócia.
___acha mesmo importante passar para os arquivos o que este malandro
ou qualquer outro alucinado das ruas têm a dizer ?
___com
certeza. Gosto de fazer um banco de dados para dispor consultar quando
precisar.
___na
verdade, você está fazendo um documentário. -
caçoou André Araújo.___entretanto, hoje trouxe
trabalho para nós, com um bom prêmio em dinheiro se o
elucidarmos.
Victória
fechou o arquivo do Curicaca no micro computador , guardou as fichas
e postou-se atenta à explanação preliminar do
sócio.
___vamos chamá-lo do caso do "Garrote inusitado".
O moço. Vinte e dois anos, filho de família rica, estudante
de engenharia. Amanheceu na semana passada, enforcado no quarto de
uma pousada, com a própria roupa de baixo.
A
Di Angelis sorriu para o amigo e sócio. Araújo tinha
dificuldades em descrever ou dizer cenas ou termos tidos como chulos
para ela. Usara agora, roupa de baixo para designar uma palavra curta:
cueca.
Apesar de um pouco exagerada, a atitude do amigo a agradava. No meio
policial era comum ter que ouvir conversas masculinas, com termos
exorbitantes, palavrões, gírias vulgares. Não
que entre as mulheres também não houvesse palavras de
baixo calão ou vulgaridade, entretanto o linguajar tosco de
alguns rapazes, feriam os ouvidos , além de aborrece-la profundamente.
Com Araújo sempre fora diferente. Além de respeita-la,
tratava-a como se ela tivesse seu tempo de serviço e experiência.
Isso desde o primeiro dia em que a novata apareceu no Distrito, recém
chegada da academia de Polícia.
___o
indivíduo deixou bilhete explicando o motivo de sua atitude
extrema ?
___não.
E o interessante é que se dependurou em um dossel de madeira
na guarda da cama.
___estava
sozinho ?
___sim. A polícia técnica constatou que ele realmente
cometeu suicido e não foi obrigado a isso. Na posição
em que foi encontrado, estava com as pernas dobradas, forçando
o torniquete a lhe causar asfixia. Poderia levantar-se em qualquer
momento, caso se arrependesse.
___o
que os pais do moço querem que nós investiguemos ?
___se
o filho realmente matou-se.
A crença religiosa deles abomina o suicídio, tanto que
o jovem não pôde ser sepultado no campo santo reservado
para a família.
___e
se constatarmos que ele realmente suicidou-se ?
___se
constatarmos, em um relatório circunstanciado que realmente
suicidou-se, recebemos uma quarta parte do prêmio. Por outro
lado, se provarmos que o rapaz foi obrigado a matar-se ou mesmo, foi
assassinado, o prêmio será pago no valor total e a família
poderá conduzir o corpo para o descanso no local consagrado.
___No interesse de receber o pagamento integral do prêmio, uma
equipe de detetives sem escrúpulos poderia forjar provas para
a tese de assassinato.
___nossos
clientes já procuraram escritórios de detetives, tradicionais
e conceituados na capital. Os relatórios, todos, defendiam
assassinato mas não os convenceram. Estavam eivados de falhas,
lacunas sem respostas e argumentos pífios. O casal são
os principais acionistas de uma das maiores Seguradoras do Brasil.
Victória depôs o lápis na mesa, impressionada.
Sabia que o peixe que lhes caíra na rede, provavelmente era
maior do que a barca, entretanto não estava disposta a abrir
mão da oportunidade.
___e então, vamos ao trabalho ?
___já estou nele, avisou Vick, conectando seu computador na
Internet.___diga o nome do rapaz. - pediu.
___Douglas Rusemberg.
Digitou
o nome no mecanismo de busca. Apareceu uma centena de link.
___acho melhor a gente comer alguma coisa. - convidou Victória.___o
caso do "garrote inusitado" abriu o apetite.
Ele
riu e apanhou o casaco para saírem. O apetite de Victória
nunca fora "fechado", entretanto, podia comer sem culpa
pois não adquiria milímetro de tecido adiposo. Ele acreditava
que tal peculiaridade era resultado de herança genética
aliada à atividade física espartana que a sócia
enfrentava nas academias.
Na
rua, ela lhe oferece a chave do Jeep, enquanto ajustava o blazer elegante
sobre a camisa. Gostava de trajar esporte fino.
___você
dirige. Ainda não terminei os testes para retirar novamente
minha carteira de motorista e não posso arriscar ter o carro
guindado.
IVY
A idéia partiu de Agnaldo - o sociável : formar uma
caravana e ir até a maior e mais sortida livraria de São
Paulo, desenterrar algumas "pérolas", depois, poderiam
emendar para algum espetáculo no Teatro Municipal.
Para
tédio de Victória, Ana Beatriz ofereceu-se para ir.
Já
no local, cinco andares de pura cultura e entretenimento personificada
em livros, revistas, CDs, DVDs , K7, rolos ou vinil, Victória
procurou logo o andar dos filmes chamados de "clássicos".
Ana
Beatriz a acompanhou entre as gôndolas.
___não me perguntou sobre o assunto da "sessão
Pipoca".
___está se referindo ao "Má-drasta" ?
___isso mesmo. Pelo que vejo, sua memória está ótima.
___e
eu também.
___entretanto não foi isso que foi alegado perante o Secretário
de Segurança Pública a seu respeito.
___como
assim ?
___meu pai tem amigos no alto escalão da polícia. Louise
não só se omitiu a respeito do seu caso. Ela interferiu
para que você fosse desligada definitivamente da corporação.
___está
dizendo que ela fez jogo duplo, alegando para mim e meu pai que iria
dar entrada nos papéis para que eu fosse readmitida ?
___não
mentiu. Ela fez, entretanto, parece que mudou de idéia no percurso
do procedimento administrativo.
___você
não precisa mentir para mim, Ana Beatriz. Não estou
mais no Distrito e eu não disputo mais o respeito e admiração
dos seus chefes.
___está
certa. Não preciso mais "blefar" para você.
Estou lhe contando na letra, o que meu pai relatou. Ele, como eu,
acha injusto que uma policial da sua competência, seja sucatada
pela corporação como você foi. Não aprecio
injustiças, Victória.
Ela afastou-se para verificar as outras gôndolas, mas deixara
atrás de si, o fel, se alastrando pelo corpo de Victória.
O que piorava era a verossimilhança das palavras de Beatriz.
Procurou
esvaziar a cabeça e tornar a procurar pelo filme desejado.
A mãe possuía uma cópia VHS e quando Victória
tinha seis anos, assistiram juntas à fita. A história
do filme ficou gravado na memória da menina e a fita, perdeu-se
sob o efeito do tempo e da umidade.
Chamou
uma atendente e pediu:
___tem o filme "Os Girassóis da Rússia" em
DVD ?
A moça consultou uma máquina e conseguiu a indicação
da ala e o número da gôndola.
___ainda temos duas unidades.- indicou o lugar.
Victória apressou-se em procurar a relíquia e ao encontra-la
suspirou emocionada.
A ilustração de capa, era uma das cenas do filme, onde
os girassóis, antes filmados em preto e branco, surgiam colorizados
digitalmente em todo o esplendor que se espera de um imenso campo
de girassóis.
Sua
distração foi interrompida pela voz branda de uma jovem
que possuía uma espécie de sotaque.
___não estou encontrando o filme dos Girassóis que a
senhorita disse estar nesta ala. - disse à atendente.
___lamento, mas se não estão aqui as últimas
duas unidades, é que foram vendidas à pouco.
Victória
levantou os olhos, no mesmo instante em que a desconhecida volta-se
em sua direção.
Era uma jovem alta, envolta em um sobretudo estilo europeu que lhe
cobria até o tornozelo. Os grandes olhos cinzas, adornados
por cílios cor de palha, tal qual os cabelos presos, estavam
instalados em um rosto rosado, de lábios nacarados pequenos
e cheios. A maçã do rosto proeminente dava a pista de
seu biótipo: Eslavo.
Os
olhos delas estavam fixos no DVD que Victória tinha nas mãos.
___não
precisa se preocuparrr, já encontrei o que queria. - dispensou
a atendente, aproximando-se de Victória.
___vai
ficarr com o filme ? - perguntou.
___estava procurando por ele há meses.
___Eu o procuro há anos. - respondeu a jovem.
Victória tornou a erguer os olhos do resumo que lia e os fixou
irritada no belo rosto da desconhecida.
___lamento
mas não vou cede-lo a você. Não posso desvestir
um santo para vestir outro.
___espirituosa.
- riu a eslava, fazendo sinal para dois homens altos vestidos com
ternos azul escuro impecáveis.___paguem a ela o 100 euros pelo
DVD. - mandou.
Os
marmanjos se aproximaram e Victória irritou-se.
___100
euros é uma boa quantia. Poderia vende-lo a você por
este valor. Acontece que a abordagem acintosa me aborreceu e o DVD
para mim tem valor sentimental, que é muito maior do que vocês
poderiam pagar. Guardem o dinheiro.
Saiu
contendo a raiva, ainda ouvindo um dos brutamontes argumentando que
a filha do Diplomata Ucraniano Dimitri Mayakovich estava disposta
a aumentar a oferta.
___interessante que entre um milhão de desinteressados por
este filme, me aparece aquela personagem saída dos contos de
Leão Tolstoi.
Encontrou-se com Agnaldo, Beatriz e Telêmaco e após cada
um pagar o que comprou, saíram para dar um passeio na Avenida
Paulista .
___"Os Girassóis da Rússia". O que tem de
tão interessante neste filme ? - inquiriu o amigo, curioso.
___a
história de um casal apaixonado que se separa com a guerra
e forçosamente suas vidas tomam destinos diferentes e quando
se reencontram, descobrem que o amor não é mais suficiente
para uni-los. - explicou Victória. ___as cenas em que ela o
procura em todos os campos onde se haviam travado batalhas na Rússia,
inclusive um vasto campo de Girassóis, são comoventes.
___e a parte do reencontro dos dois é sublime! - emendou o
calado Telêmaco.
___é
filme antigo ? - quis saber Beatriz.
___é.
___então não é da minha época. - riu.
___só comprou o DVD ? - perguntou Agnaldo.
___só, e mesmo assim às duras penas. - riu, enquanto
relatava a disputa travada com a jovem eslava.
___E
você não aceitou 100 Euros pelo vídeo ? Incrível.
- resmungou Bia.
No
Teatro Municipal, Vick observou que os ingressos que Agnaldo comprara
eram de um espetáculo de Dança Moderna. Imaginava que
iriam assistir ao concerto de uma orquestra.
Acomodaram-se
e aguardaram que as cortinas se abrissem. O espetáculo iniciou-se
e Victória que não apreciava tanto a dança moderna,
empolgou-se rapidamente. Os dançarinos lançavam-se ao
ar como em um vôo curto. Todos jovens de corpos esculpidos pela
dança, encenavam o tema com dramaticidade. O jogo de luz, cores
e corpos em movimento, lembrava um espetáculo do Cirque Du
Soleil, tamanha a beleza e grandeza. O par de dançarinos principal,
bailava soberbo ao centro do palco. O rosto dela, apesar da distância,
maquiagem e cabelos firmemente presos, Vick reconheceu: a jovem filha
do diplomata Ucraniano com quem disputara o DVD naquela tarde.
Os olhos delas, fechados, em certo momento abriram-se e exibiram suas
íris cinzas invernais que se fixaram em um ponto no palco.
Victória teve a má impressão de que a jovem ucraniana
a avistara na platéia. Estavam muito próximos do palco.
Procurou no programa do espetáculo, o nome do elenco. Encontrou
o da dançarina solista: Ivy Mayakovich.
Quando
as cortinas se fecharam, saíram pelo corredor comentando sobre
a coreografia.
___fascinante o par de dançarinos solistas. - comentou Beatriz.
___uma menina nova, bonita e talentosa. - completou Telêmaco.
___Ivy Mayakovich. - ponteou Agnaldo. ___seria de origem russa ?
___Ucraniana. Filha do Diplomata Dimitri Mayakovich - revelou Vick.
___como
sabe ? -duvidou Beatriz.
___apenas um palpite. - completou Victória, rindo da expressão
aborrecida da ex- colega.
___um
palpite bem extenso este seu. Acaba de chegar da terra das alfafas
e pedra sabão e está a par da vida cultural, política
e social da região ?- amuou Ana Beatriz.
___gosto
de me manter informada. - encerrou a detetive.
Capítulo
07 - RETORNO DE JULY
Antonio havia ligado. Queria que a filha almoçasse domingo
no condomínio de Louise.
___Julia estará chegando da Europa. - avisou.
___veio
passar uma temporada ?
___Está
vindo definitivamente.
A
voz dele estava um pouco grave, o que denotava que de algum modo,
o retorno da filha de Louise o perturbara.
___pensei
que Julia não suportaria morar na mesma cidade que o seu agressor.
___aquele
degenerado não anda mais por estas terras. Aliás, não
anda mais no planeta. Matou-se enforcado no ano em que você
esteve ausente.
___ah.
Pelo jeito, a forca está bem popular por estas bandas.
___como assim ? - quis saber Antonio.
___nada importante. - desconversou Victória.___no domingo nos
veremos.
Desligou
o telefone e procurou o computador. Um palpite insólito lhe
ocorreu quando conversava com o pai.
Conectou na internet e digitou o nome do indivíduo que violentara
July cruelmente e que Louise odiava com todas as forças.
Descobriu artigos antigos a respeito do suicídio do indivíduo
pesquisado. Ao ler a data da morte, ficara intrigada. Algo ali, lhe
disparara o alarme da intuição.
Achou melhor não forçar a memória pois ainda
estava convalescendo de uma cirurgia delicada.
Para espairecer, resolveu fazer algo aleatório, tal como a
pesquisa dos índices de suicídios mediante enforcamento
ocorridos no Estado. Assustou-se com o número de registros.
Depurou para o número de enforcamentos para cada mil habitantes.
O resultado comprovou: naquela cidade do interior paulista, o número
de enforcamentos por mil habitantes, deu um salto a partir de uma
data no ano anterior.
Desligou
o computador. A atividade aleatória que escolhera, lhe confundira
e cansara mais a mente.
Melhor seria utilizar o método cognitivo costumeiro: dormir.
No
domingo, encontrou Antonio Di Angelis taciturno na sala de jogos,
jogando sinuca sozinho. Tereza a informara que Louise saíra
cedo com os seguranças para buscar Julia no aeroporto.
___preferiu
ficar ? - perguntou Vick para o pai e arrependeu-se. O rosto dele
contraiu-se enciumado.
___É.
___aconteceu
algo que não sei ?
Ele parou de jogar e falou baixo como em desabafo.
___nada que já não previa que aconteceria um dia. A
filha amada retorna e as migalhas de atenção que o esposo
recebia, restarão em nada.
Foi
um choque para Victória aquela revelação. Sabia
que o casamento do pai com a Bittencourt era algo diferente, com casas
e quartos separados. Relacionamento moderno, como diriam alguns. Só
não o imaginava naquela situação.
___Eu
pensei que vocês se amavam.
___Errou
pela metade. Eu a amo, mas pelo lado dela, não há amor
para ninguém além de Julia. Sei que se compadeceu do
meu sofrimento, quando depois que pensei ter perdido você, tive
um infarto. Naquela ocasião, quando encontraram um corpo feminino
no rio, eu a vi chorar. Um choro amargo, pungente. Eu fui culpado.
Aproveitei-me egoísta daquele raro momento em que a vi fraquejar
e a pedi em casamento.
___se
a indiferença dela o faz sofrer, então porque manter
esta relação ?
___porque
sofreria mais, distante dela.
Victória
calou-se e escolheu um taco para jogar com Antonio. Precisava controlar-se
e não deixar transparecer a raiva que esmurrava seu peito ante
a atitude egoísta e possessiva do pai.
___uma
vez, o senhor me disse que não amava mais Louise e apenas nutria
por ela uma "bela e antiga amizade" . - perguntou cautelosa.
___a
bela e antiga amizade é da parte dela. Quanto a não
amá-la, eu tentava me convencer disso.
___ou convencer a mim.
___está
enganada! - exaltou-se ele, lançando o taco que tinha às
mãos no chão.
O objeto ricocheteou e atingiu os outros que estavam alinhados, fazendo-as
cair ruidosamente.
Louise
apareceu, seguida de Teresa, Júlia, Leandro e uma moça
desconhecida.
___o que aconteceu ? - inquiriu preocupada.
Os
dois Di Angelis ainda se olhavam desafiadoramente, com os rostos avermelhados.
Victória
tentou compor-se.
___ele deixou o taco cair. Estávamos discutindo futebol.
___ou
religião. Talvez, política. - emendou Leandro, bem humorado.
Louise conhecia bem o temperamento explosivo de Antonio e Victória
percebendo claramente que eles acabaram de discutir.
Resolveu
desviar o assunto mas não precisou agir.
Júlia correra e se pendurara no pescoço de Victória,
beijando-a inúmeras vezes na face.
___sentiu
minha falta ?
___claro, pequena. - respondeu Victória carinhosamente.
Na
verdade, Júlia agora não poderia ser chamada de pequena
além do adjetivo carinhoso. Desenvolvera-se completamente,
adquirindo um corpo curvilíneo e flexível, exalando
feminilidade. O rosto, denunciava a beleza potencial que se desenvolvia.
Teresa
avisou que a mesa do almoço estava posta e todos se dirigiram
para a sala de refeições.
Na mesa de oito lugares, sentaram-se com Louise em uma cabeceira e
Antonio na outra.
Júlia
insistira em ter Victória à sua frente e nesta disposição,
sentaram-se à esquerda e direita de Louise.
Leandro
apresentou para Júlia, Victória e o pai, a colega que
convidara para o almoço de Domingo.
___Miranda Nogueira. Trabalha no 4o DP.
A
moça, aparentava ter uma personalidade tímida e introspecta.
Entretanto os olhos grandes e negros brilhavam, inteligentes.
A conversa na mesa desandou para as atividades cotidianas, até
que Júlia perguntou sobre o que Victória fizera de interessante
no dia anterior.
___passamos
por São Paulo comprar DVDs e livros. Tive sorte e encontrei
o filme que desejava para minha coleção.
___qual
?
___"Os Girassóis da Rússia".
___é
filme policial ?
___não. Apenas um clássico que fala sobre o amor de
dois jovens no tempo da guerra.
___pode
resumir ? - pediu Júlia.
Victória
passou a relatar o amor intenso entre dois jovens italianos, que rompeu-se
quando o rapaz foi mandando à força para a guerra e
desaparece em uma batalha na Rússia.
Ela, depois que a guerra acabou-se, procurou-o por todos os lugares,
atravessando imensos campos de girassóis floridos, em busca
do corpo ou de uma sepultura.
Como seu esforço foi em vão, ela voltou para a Itália
e se casou com outro homem. Ele, que havia sido ferido na batalha
e recolhido da morte certa na neve por uma jovem russa, casou-se com
a moça, mas manteve dentro de si o propósito de voltar
à Itália para rever seu grande amor.
Termina com ele ao lado de sua italiana, observando o filho dela no
berço e se despedindo para voltar para sua mulher e filhos
que deixara na Rússia.
___o
que prova que o amor é um sentimento volátil. - brincou
Leandro.
___ou
talvez comprove que o amor pode perdurar em estado latente, mesmo
quando a vida separa os amantes e os lança para o braço
de outros amores. - concluiu Victória, evitando esbarrar no
olhar de Louise e Antonio.
Leandro
e Júlia ainda fizeram uma ou outra observação
despreocupada sobre filmes e o assunto encerrou.
Terminada
a refeição, Antonio convidou Leandro para uma partida
de sinuca.
Miranda e Louise permaneceram conversando na sala.
Júlia
cooptou Victória para o quarto e passou a lhe mostrar tudo
que comprara no exterior, fotos de amigos, monumentos e lugares.
Victória
gostou das fotos, principalmente as que Louise aparecia ao lado da
filha.
___gostei
desta. - mostrou-a para Julia.
___Se quiser ficar com ela, tenho o negativo e mando fazer outra.
É também a minha preferida. Estamos na frente do Ópera
de Paris. Sabe aquele teatro do Fantasma da Ópera ?
___já li sobre ele.
___mamãe
veio para comemorar o meu aniversário. Neste Teatro, ela com
a minha idade já pertencia ao corpo de Balé.
___e porque abandonou a carreira ? - quis saber Victória.
Julia
observou ao redor para se certificar que estavam a sós.
___o joelho. Mamãe viera passar o natal com meus avós
que possuíam uma grande joalheria em São Paulo. Depois
voltaria para Paris, continuar os estudos e a carreira de bailarina.
Dois homens armados invadiram a joalheria depois que já haviam
fechado as portas e os empregados tinham ido embora. Pediram as jóias
da vitrine e minha avó apressou-se em entrega-las. Apanharam
todas as que conseguiram avistar e satisfeitos, agradeceram minha
avó ... atirando nela e em minha mãe.
Júlia
fez uma pausa para recuperar o fôlego.
___minha
avó morreu instantaneamente. Louise teve sorte. O tiro lhe
atingiu apenas o joelho esquerdo. Não se sabe porque aqueles
homens atiraram. Estavam encapuzados e não temiam ser reconhecidos.
Não houve reação por parte das vítimas.
___muitas
vezes, não existe motivo plausível para um gesto cruel.
- consolou-a Victória, acariciando-lhe os cabelos compridos.
Teresa
bateu na porta e entrou.
___vou preparar o seu banho. Viajou horas e deve estar estranhando
o fuso-horário. Sua mãe a quer na cama repousando.
___de
volta ao regime Bittencourt. - riu Júlia.___mas estou acostumada.
No internato temos regras e horário para tudo.
Descendo
a escadaria, Victória avistou Miranda ao piano, tocando uma
série de acordes complexos com habilidade impressionante. Louise,
em pé ao seu lado, ouvia silenciosa.
Com
sua chegada, a moça sobressaltou-se e parou de tocar.
Victória
tentou disfarçar o ciúme efervescente que ameaçava
a fugir de seu controle.
Completara quase dois meses que não a avistava assim tão
próxima. Naquele tempo, evitara transitar na casa quando Louise
ali se encontrasse. Depois, ainda tinha a chácara na serra
e o apartamento da cidade para se refugiar.
___toque
"Sonata ao Luar" de Beethoven. - pediu.
Miranda
iniciou a tocar a peça e Victória e Louise surpreenderam-se.
Ela tocava cada nota, acorde com perfeição, no entanto
a interpretação era semelhante à de uma pianola.
Simétrica, rápida e vazia.
A
jovem terminou a sonata e levantou-se.
___vou voltar para a mesa de sinuca. - avisou com um sorriso curto.
Saiu
e deixou Victória e Louise a sós.
A
delegada sentou-se ao piano e começou a dedilhar alguns acordes
esparsos até que evoluiu lentamente para a "Sonata ao
Luar". Tocou com toda a dor e sentimento que o autor empregou
na peça. As notas diluíam-se cristalinas, como lágrimas
apaixonadas.
No
dedo anular dela, o anel com a pedra azul.
Quando
terminou, olharam-se em silêncio e não era preciso palavras
para descrever a energia borbulhante que fluía entre seus corpos.
Victória
temeu que seu pai reaparecesse e a flagrasse com toda sua paixão
estampada no rosto.
Livrou-se
daquele enleio e subiu rápida a escadaria. Queria fechar-se
em seu quarto. Esforço inútil. Louise a seguiu e entrou
no quarto antes que conseguisse detê-la, trancando a porta.
___todo
este tempo me evitando. - disse ela em sua voz que adquiria o timbre
sensualmente rouco quando se emocionava.
___não.
Apenas com bastante trabalho no escritório.
___não
acredito que o motivo seja o trabalho.
Victória
sabia que não adiantava tentar despista-la.
___você passou a me odiar, eu sei. Quero esquecer aquele dia
- completou Vick.
___o
que a faz pensar assim ? foi o que aconteceu naquela manhã
tórrida? Confesso que desejei vingar-me, mas odiar você
está além de minha capacidade.
___desejou
vingar-se apenas ? E que nome daríamos a um ato deliberado
de conseguir meu desligamento da força policial ? Que nome
você daria a esta atitude? Vingança? Traição
?
Louise
empalideceu e olhou-a atônita.
___como
descobriu ?
___Não
importa como descobri. O que preciso entender é porque ? porque
fez isso comigo?. Ser policial é a razão que me move.
___Não foi por vingança nem é traição.
- disse ela, apanhando os braços de Victória com força.___prometo
que um dia vou revelar o motivo. Por enquanto preciso que confie em
mim.
___confiar
em você ? Você mentiu para mim. Traiu.
___outras vezes, Victória, você também mentiu
para mim e depois que lhe descobri as razões, entendi seu gesto.
Se omiti, subverti os fatos ou agi ao largo da sua vontade, tenho
fortes motivos e o que me move é o desejo de protege-la.
___me
proteger ? De quem ou de quê ? Não sou mais uma criança,
Louise. Sou uma mulher.
Ela
nada respondeu. Apenas fixou o olhar nos de Victória e o que
a ex-policial viu neles, transcendia a necessidade de palavras.
Ainda em silêncio, Louise tocou o anel de pedra vermelha na
mão de Victória e entrelaçou os dedos nela.
Aproximou o rosto e ofereceu os lábios carnudos.
Beijaram-se
como se unissem dois pólos, gerando uma energia inebriante.
A língua de Louise percorria a boca, pele e queixo de Victória,
invadindo e explorando.
Os braços lhe enlaçaram a cintura, puxando-a contra
si enquanto deitava na cama.
Suspirou
excitada ao sentir o peso de Victória contra seu corpo.
Abriu os botões da blusa e soltou o fecho do sutiã,
livrando os dois seios redondos de auréolas rosadas.
___eu
sei que você os quer. - afirmou, conduzindo a face de Victória
próxima aos bicos tesos. ___Bebe-me, Dian. - disse um pouco
antes de gemer quando a sentiu colar-lhe os lábios no seio
e sorve-lo com sofreguidão.
INCÊNDIO
Na
semana que se seguiu, Victória e Araújo trabalharam
intensamente a campo em busca de dar solução ao Caso
do Garrote Inusitado. Foram até a pousada onde
foi encontrado o corpo e só então Victória percebeu
a dificuldade para um detetive em conseguir que as pessoas falassem
espontaneamente sem a obrigação imposta pelo poder de
polícia.
O que ajudava muito era o farto material que os pais de Douglas conseguiram.
Na pasta havia o Laudo da Polícia Técnica, o Necroscópico,
fotos do corpo na posição que fora encontrado, depoimentos
dos empregados da pousada e outras pessoas que ali estiveram hospedados
no dia.
Como
nada novo foi apurado, guardaram a Polaroid e os blocos de anotações
e voltaram à cidade.
___está
mais duro do que arrancar leite de pedra. comentou Araújo.___de
qualquer modo, para aparar todas as arestas, acho que é interessante
dar uma passada no apartamento onde o rapaz vivia. Não foi
vendido ou alugado e os pais o mantém intacto.
___a
polícia já esteve lá ?
___já,
mas quem sabe você não fareja algo diferente no local.
___ah!
Farejar é comigo mesmo. gabou-se a detetive, rindo.
___agora
sim, está com uma cara melhor. Todos estes dias andava tão
séria, compenetrada. É aquele assunto da corporação
que ainda a incomoda ?
___ah,
aquele assunto sempre incomoda. concluiu Victória, lembrando-se
da culpa que sentiu no domingo, após estar com Louise no quarto.
Não haviam extrapolado os limites dos beijos intensos e carícias
íntimas, porém, mesmo assim sentia-se traindo Antonio
Di Angelis. Por esse motivo, a culpa perdurava e a seguia como sombra,
por onde caminhasse.
A
necessidade de libertar-se do querer insensato que a fazia ceder aos
caprichos de Louise, crescia dia pós dia. Entendia as razões
das atitudes da delegada, como também tinha que aceitar que
seu pai, na condição de homem apaixonado resistiria
o quanto pudesse para manter-se ao lado da mulher amada.
___até
quando suportaria o orgulho dele? perguntou-se no íntimo.
Por outro lado, Victória inquiria se teria a capacidade de
ser amante de Louise Bittencourt, caso algum dia ela se fizesse livre
novamente. Não conseguia obter resposta e sabia o motivo: a
índole fogosa da delegada, além de seu atual comportamento
bissexual.
É. Tinha que admitir que a palavra bissexual incutia
terror em uma mulher com comportamento homossexual, no caso de Victória.
Certa vez, discutira o assunto com o Agnaldo e o rapaz riu ao saber
de sua fobia ao bissexualismo.
___precisa
ter cautela para não incorrer em preconceito. avisou
o amigo.
___está certo, mas vamos passar a situação em
quadros. Imagine que você é uma mulher homo. Ato contínuo
você se apaixona por outra, que antes se comportava tranqüilamente
no universo hétero. Ela corresponde à sua sedução
e vocês iniciam um relacionamento.
___estou
acompanhando o quadro.
___então
um belo dia, nestas escorregadas da vida, vocês rompem o namoro
mas sua paixão continua.
___certo.
___e
a bela, cai nos braços de um rapaz que a consola.
___natural.
___natural
? pirou? esbravejou Victória, assustando o amigo.___então
vamos inaugurar o Oba-oba geral. Se antes você teria que se
preocupar com a metade da população do planeta, agora
tem que ficar de olho na outra metade também? Dá para
você, com seu biótipo feminino, concorrer com um homem
alto, barbado, com pelos no peito e outros acessórios mais
?
___espera. Você me confundiu. Onde é que mora este homem
alto, barbado, com pêlos no peito e outros acessórios
mais? Tem o telefone dele ?
Victória
estirou-se em seu sofá.
___desisto.
Não dá para ter um papo cabeça com você.
Se você fosse uma mulher, Lés como eu, talvez entendesse.
___ainda
acho que essa linha de raciocínio pode descambar para o preconceito.
Olhe aí. Se nós não gostamos que nos trate preconceituosamente,
deveríamos ser os primeiros a evitar este tipo de comportamento.
Conheci uma garota amiga de infância que é bi. Certa
vez ela me desabafou na mesa de bar que tem dificuldade em se relacionar
com garotas porque os bissexuais na cabeça de algumas, ou você
é o café, ou é o leite. Não aceitam café
com leite.
___Uma
comparação diferente. Neste caso, prometo pensar sobre
o assunto e reformular meus conceitos a respeito. Quem sabe um dia
eu ainda acabe lançando um Tratado do Comportamento,
Gay, Lés, Bi, Pan, Trans e etc.
___o
que seria este etc ?
___ainda
não sei. Vou pensar.
___se
fizer o tratado, vai virar Best-seller. concluiu Agnaldo.
Riram
e esqueceram o assunto.
Só
que o assunto delicado agora retornou à cabeça de Victória,
que não sabia o que fazer com o fenômeno Louise
Bittencourt.
No
apartamento de Douglas Rusemberg, tudo parecia condizer com a imagem
do estudante de engenharia tímido e muito religioso. Um recorte
de jornal amarelado guardado no fundo de uma pesada cômoda,
chamou a atenção da detetive. Ali, dizia que a polícia
não havia conseguido provas que comprovasse a culpa de Douglas
no crime do Campus de Engenharia.
___Pode
ser indício de alguma coisa. arriscou Vick, fotografando
todos os cantos, móveis e objetos da casa.
___ou
de nada. E no caso, aparentemente não tem ligação
com o evento que originou nossa investigação.
___mesmo
assim, quero puxar este fio para ver onde vai dar. Se de nada servir,
acaba virando forro da caixa de areia de Sir Lancelot.
Continuaram
a procurar pelas estantes e armários e dentro de um livro,
uma folha impressa exibia a arvore genealógica da família
Rusemberg. Dos bisavós que vieram da Europa fugindo do nazismo,
decaiu para avós, ramificou-se e onde constava o tronco: José
e Rosa Rusemberg, pais de Douglas, saíra três ramificações.
Na primeira, Jonas, na segunda, Ruth e na terceira, o vão onde
deveria estar impresso o nome e fotografia estava vazio.
___estranho.
constatou Araújo.
___muito
estranho. - Ponteou Vick.__e pelo tipo de impressão, saiu de
uma impressora jato de tinta doméstica.
Procuraram
um microcomputador na casa.
Victória acionou o botão e a tela do prompt desfilou
normalmente até esbarrar em uma senha de Setup.
___o
rapaz era precavido com os dados do computador.
___mas
já dou um jeito nisso. avisou Victória, abrindo
a caixa da máquina com uma chave. Depois, retirou a bateria
da placa-mãe e esperou alguns segundos para recoloca-la.
___pronto.
Esqueceu as configurações de senha e voltou ao padrão
da Setup. avisou.
No
computador, procurou por arquivos de imagem, tif, jpg, gif, e outras
variantes. Encontrou uma com o desenho da árvore genealógica.
Da pasta, Victória retirou um disquete e copiou o arquivo.
Terminada
a vistoria milimétrica, nome dado por Victória
às averiguações acuradas em locais, decidiram
recolher o equipamento.
___acho
que agora caía bem um lanche de encerramento da tarde.
___é,
cai bem. concordou Araújo.___mas antes temos que passar
no escritório para deixar digitado o relatório do dia.
___me
lembre de contratar uma digitadora, tão logo a gente consiga
um dinheiro em algum destes casos.
___é
preciso ter cautela, Victória. Eu tenho apenas esta fonte de
renda e registrar um funcionário é um malabarismo na
atual situação.
No caminho, avistaram fumaça saindo por entre os prédios
do centro da cidade.
___algum
muquifo pegou fogo. concluiu Victória.
___estes
tipos de sinistros são raros hoje em dia. Mesmo que o prédio
seja velho e mal conservado, os bombeiros agem rápido e se
for o caso, utilizam até a gigantesca escada magirus.
___no
entanto a fumaça está bem densa. comentou Vick,
resignada com o trânsito que não fluía.
___pode
até ser um daqueles incêndios criminosos que andaram
ocorrendo em imóveis centenários, tempos atrás.
Os casarões declarados patrimônio pela Prefeitura, não
podem ser demolidos ou descaracterizados. Então a idéia
dos herdeiros é provocar um incêndio. Aí não
há outro jeito a não ser demolir a estrutura calcinada.
Daí criam-se estes amplos estacionamentos para automóveis,
com lucro garantido.
___uma
prática lastimável. avaliou Victória.
Araújo
conduziu o Fordão lentamente por duas quadras. Depois dobrou
a esquina e logo à frente avistaram carros do corpo de bombeiros
despejando água nos andares do prédio comercial onde
mantinham o escritório.
Assustaram-se.
___consegue
avistar nosso andar ? perguntou Araújo.
___não.
A fumaça atrapalha a visão.
Esperaram
até que as chamas fossem controladas. No lugar do andar onde
estava instalado o escritório Di Angelis e Araújo
Detetives Associados, havia apenas um vão escuro
calcinado.
___inacreditável
. exclamou Victória.
___e
assim perdemos os nossos móveis, os eletrônicos, aparelhos
telefônicos, computadores, fichas e equipamentos. Agora sim
que contratar uma digitadora está fora do orçamento.
Estamos na rua.
Minutos
depois, ainda observando os bombeiros fazerem o rescaldo, várias
viaturas da polícia enfileiram-se próximas. Delas, saltam,
um a um, os antigos colegas e amigos de Vick, além de Louise
Bittencourt em pessoa.
O
olhar da delegada cambiava de perplexo a furioso.
___eu
não meti fogo no prédio. desculpou-se Victória,
tentando manter o humor estável.
Ela
olhou Vick por alguns instantes, e afastou-se para conversar com o
chefe dos bombeiros.
___o
que a manda-chuva da força policial está
fazendo aqui, estragando a Czarina e manchando o tailler na fuligem
? perguntou em voz baixa, um bombeiro para outro.
___é
procedimento rotineiro da polícia chegar junto para fazer o
relatório.Só que desta vez, junto com a tropa, veio
a abelha-rainha e você deve tomar cuidado com estas
perguntas tolas. Aquela moça alta, encostada no carro é
a enteada da autoridade. Natural a preocupação. Sabe
lá se o incêndio tivesse iniciado com a moça dentro
do prédio ? O local é velho e mais parece uma ratoeira.
Além de quê, tudo indica que foi incêndio criminoso.
O fogo alastrou-se rápido demais como se estivesse se alimentando
de substância altamente comburente.
___deixe
que os peritos façam suas conclusões.
Victória
encarou Araújo. Não puderam evitar ouvir parte da conversa
dos homens passos adiante.
___o
que acha ?
___o
bombeiro preocupado tem razão.
___o
que teria causado ?
___pode
ter certeza que não foram os herdeiros de prédios centenários.
A construção tem cerca de trinta e cinco ou quarenta
anos, é singela, sem estilo arquitetônico de época
ou coisa que valha.
___então
devo concluir que é um prédio velho.
___Sim e aí reside a diferença crucial. O antigo,
valioso data de cerca de cem anos, um pouco menos, um pouco mais.
Naquela época, os materiais utilizados eram de altíssima
qualidade.Alguns forjados por mestres ferreiros, marceneiros e outros
profissionais de carreira. Já uma casa ou prédio como
este, se torna velho a partir de trinta e cinco anos, em média.
Com esta idade, um imóvel precisa ter a hidráulica e
elétrica substituída, além da estrutura do telhado
, telhas, rebocos e madeirame.
___e
nosso prédio de aspecto conservado, na verdade, velho, não
teria recebido qualquer reforma estrutural importante ?
___é
possível que não. O que pode justificar curto-circuito
na elétrica e o incêndio.
___nesse
caso, podemos conseguir alguma indenização junto ao
proprietário ?
___nesse
caso, é possível.
___e
se for comprovado que foi incêndio criminoso ?
___aí
estamos realmente na rua, sem eira nem beira e com uma batata quente
na mão: a quem interessaria destruir nosso escritório
?
DEPOIS DO SINISTRO
No dia seguinte, Victória lançou-se no trabalho furiosamente.
Araújo
decidira levar o Pedro em um pesqueiro próximo para aliviar
o stress, enquanto não saia o relatório do Corpo de
Bombeiros.
Na
biblioteca pública, a detetive pesquisou os jornais com a data
aproximada do recorte que obtêra no apartamento de Douglas e
após espirros causados pela poeira e ácaros, encontrou
o liame: Uma pequena reportagem divulgando a morte de uma jovem estudante
de engenharia no campus da Universidade. Foi violentada e morta por
estrangulamento. Douglas foi apontado como a última pessoa
vista ao lado da vítima. Não encontraram provas que
o incriminassem e o assassino não deixara sêmen. Possivelmente
utilizara preservativo.
Procurou
pelo nome da moça assassinada. Chamava-se Clara Alves.
No
campus de engenharia, ninguém quis comentar.
Saiu para a área da lanchonete e pediu um sanduíche.
Mulheres vestidas em uniformes de faxineiras, varriam caprichosamente
toda a área.
Uma delas parou à sombra de um fícus para fumar.
Victória abordou-a.
___trabalho
difícil este. comentou.
___se
é. concordou a mulher.
___Mas
aposto que daqui fica sabendo de tudo que acontece no campus.
___ah,
com certeza. concordou a faxineira, olhando-a desconfiada.
___ Mas o que uma moça bonita e embalada nos panos bacana como
você quer saber da minha vida ?
___na
verdade, não quero me meter com sua vida e sim com o que você
sabe a respeito de um certo assassinato de uma estudante de Engenharia
no ano passado.
Victória acenou com uma nota de cinqüenta reais. A faxineira,
cujo nome descobriu ser Mirtes, sorriu, exibindo as falhas entre os
dentes.
___olha
lá, moça. Você é tira ? Não quero
complicação com a polícia.
___eu
fui. Não sou mais. Agora trabalho por conta.
___Vê
lá heim? Mas se lhe contar o que sei, acho que dá para
firmar mais uma desta aí.
___ofereço
setenta reais. negociou Vick.
___ta
certo. Vamo lá praquele banco de pedra ali pra que o encarregado
do serviço não me aviste.
RELATÓRIO
Os
dedos longos de Victória vibravam enquanto ela digitava rapidamente
seu relatório para o papel. Inserira no cabeçalho de
todas as páginas a palavra CONFIDENCIAL em letras maiúsculas.
Sabia
que o que estava desenvolvendo ali era uma tese e como tal, importante
que não viesse à tona, caindo nas mãos da mídia.
A
Mirtes, de tudo que dissera, a maioria era confabulações
de grupos de empregados, fatos que não podiam ser comprovados,
quer pelo tom fantasioso, quer pelo lapso de tempo decorrido. O certo
era que a mulher, pouco contribuíra, ou quase nada.
Contara
que o tal Douglas, rapaz rico, era muito tímido e não
levava jeito com as moças. Parecia assusta-las,
mesmo as que se aproximavam dele para passear com o seu carrão
ou desfrutar do bem-bom que o dinheiro dá.
Foi
passar um ano de curso, em Douglas pareceu entranhar um estigma (nas
palavras e conclusão de Victória), uma marca indelével
que o tornou abominável para as mulheres e evitado pelos rapazes,
colegas de curso. (A detetive não inseriu esta linha no relatório
final. Ainda estava traçando o perfil de Douglas).
Tal
estigma, poderia ser gerado por uma espécie de gosto de Douglas
por fazer aquilo com os mortos. Mas isso, tanto Mirtes
quanto os colegas faxineiros que lhe contaram, não podiam afirmar
com certeza e se fossem chamados para contar algo para a polícia
negariam.
A verdade é que um dia, o rapaz saiu para usar o mictório
e deixou aberta uma pagina da internet, na sala da informática
do bloco, os colegas espiaram e viram fotografias de mulheres mortas
e inscrição em inglês sobre a necrofilia. Quando
voltou e percebeu seu descuido, o rapaz teve uma crise de ira a ponto
de lançar três micros no chão e os danificar.
Os pais do moço pagaram novamente o prejuízo.
A
respeito de Clara Alves, Douglas tinha uma veneração
ardente pela moça mas nunca consegui aproximar-se mais do que
simples contato entre colegas.
As
suas necessidades de rapaz moço, ele acabava resolvendo levando
para o motel, algumas das mariposas, mulheres que ficavam
na estrada próximo do campus, comercializando o corpo para
os alunos do período noturno.
Victória
entrevistou algumas destas mulheres e ao mostrar a foto do moço,
obteve a pergunta:
___não
sabia que o papa-morta tinha fechado o paletó.
___como
assim ?
___ah.
É que este moço aí, magrinho, tinha cada idéia
quando queria fazer aquilo. Ele sempre queria que a gente
fingisse que estava morta para depois ficar daquele jeito.
As
mulheres escolhiam palavras para não soltar o linguajar chulo
das ruas. Reconheceram Victória e sabiam que a ex-policial
era gente boa, que nunca espancara ou molestara homem
ou mulher de rua, sem motivos.
Porém,
apesar de obter várias dicas a respeito da personalidade de
Douglas, foi uma observação despreocupada de Mirtes
que ela lhe indicou a chave. O fato ocorreu quando a detetive
perguntou sobre onde conseguiria uma fotografia de Clara. A faxineira
informou que havia uma de bom tamanho no saguão de homenageados
pelas turmas de Engenharia.
Vick
procurou pelo saguão e quando o encontrou, deparou-se com uma
fotografia ampliada de Clara, em homenagem de sua turma que se formara
naquele ano. A jovem pertencia a outra turma mais adiantada do que
a de Douglas. Abaixo da foto, inscrições saudosas e
a clássica data do nascimento e da morte.
___este
tipo de homenagem me irrita. pensou Victória naquela
ocasião, lembrando de seu retrato exposto no 8o Distrito. Só
que, algo na data, lhe acendeu o alarme interior. Douglas se enforcara
na data em que Clara, se estivesse viva, comemoraria seu aniversário.
Aquele
foi o estopim aceso que fez a policial se lançar em uma pesquisa
frenética junto à internet, jornais, Institutos Médicos
, hospitais. Em alguns momentos, ao conseguir comprovar algumas de
suas suspeitas, pensou em ligar para o Agnaldo ou mesmo a Doutora
Lizandra, pedindo informações mais precisas.
___impossível
que alguém da polícia não tenha visto isso.
pensou.
No
entanto, sabia ser antiético e irregular procurar informações
nos bancos da polícia e não gostaria de fazer os ex-parceiros
infringirem o regulamento do Serviço de Segurança.
Fazia uma investigação particular e não poderia
se valer da máquina do Estado.
___se
tenho que ir pelo caminho das pedras, é melhor me esforçar
mais. concluiu.
O
telefone tocou e Victória temeu atender e ouvir a voz de Louise.
A delegada lhe chamara no celular ou no telefone do apartamento, várias
vezes no dia e no anterior.
Perguntava onde estava, o que fizera ou se já havia se alimentado.
Por mais que Victória apreciasse ouvir a voz de Louise, aborreceu-se
em pensar que ela estaria monitorando-lhe os passos.
Diante disso, adotou a estratégia de sempre responder com palavras
curtas, ambíguas e vazias de significado.
O
telefone insistia em tocar. Victória atendeu e sentiu alívio
ao ouvir a voz animada do Agnaldo.
___bom
dia, senhorita Inexpugnável. Estava pensando se a majestade
não sairia por algumas horas da fortaleza para nos acompanhar
em um delicioso festival de massas no circuito gastronômico
?
___Não
posso sair agora. Sir Lancelot está em crise existencial e
andou atacando as pernas da empregada, o que gerou o caos. Tive que
dispensar a pobre moça, depois de leva-la até um ambulatório
para curativo e tomar remédio. Além de que, o Escritório
Di Angelis & Araújo Detetives Associados virou fumaça,
você sabe.
___ah,
eu sei. Estive por lá, lembra?
___você
e a tropa toda. Quase que promovi uma festinha de confraternização.
___mas
aquela batida você bem sabe quem promoveu. A nossa
amada Guilhotina da Revolução Francesa.
Riram.
___e
então, vamos sair ?
___como
dizer não a você ?