ALFA E ÔMEGA




O local escolhido para almoçar era em um antigo moinho que pertencera antigamente a uma grande fazenda de café. Para chegar até lá, precisavam passar por uma estrada estreita, sinuosa que subia morros e acompanhava vales, entre chácaras, antigas fazendas e lugarejos antigos e hospitaleiros.

Isso tudo, há apenas quarenta quilômetros do centro da cidade.
Sentados na área coberta rústica, onde os enormes tijolos amassados pelos escravos apareciam em alguns pontos onde o reboco rudimentar caíra, o garçom, senhor atencioso e eficiente, apresentara as cestinhas de pão, azeitonas negras e patês.

Victória apreciava o antepasto e atacou sua parte com apetite.
No início assustara-se ao defrontar com o amigo, acompanhado pelos demais colegas do setor.

Pensou que deveria ter desconfiado do “plural” utilizado por Agnaldo, mas não se aborreceu em reencontrar o grupo risonho (com duas exceções, naturalmente).

Observou melhor as “meninas” novatas. Antes, não havia prestado muita atenção à aparência ou trejeitos das jovens policiais pois no entusiasmo e inexperiências delas, via a si, cinco anos atrás, quando ingressara na corporação.

Aquele dia, entretanto, talvez pela calmaria emocional, pós-choque causada pelo stress do dia anterior, firmou o olhar perscrutador em cada rosto, enquanto servia-se da salada.

Paola era extrovertida e conversava com os olhos e as mãos. Era loira, de olhos rasos cor de mel , dispostos em um rosto oval, quase infantil. Em uma olhada rápida, poderia se passar por um rapazinho de rosto delicado.
Marcela,a mais alta, possuía olhos negros amendoados, bem fornidos de cílios negros, nariz longo, um pouco destacado e cabelos negros encaracolados. Tinha um pé em Riad (capital da Arábia Saudita), na avaliação de Victória.
Carolina era morena, esguia e alta. Os cabelos encaracolados castanhos claros, atingiam a metade da costa. O maxilar orgulhoso e lábios afros, lhe emprestavam aparência soberana, uma Nzinga dos tempos modernos. Era a mais nova do grupo, pois mal completara vinte anos e tinha a característica de ser quieta, quase taciturna.
Por fim, Elisa era miúda, de pele muito branca e olhos castanhos míopes. Usava óculos e vestia-se de forma despojada. No entanto, disputava com Paola no quesito simpatia e extroversão.
Telêmaco, magro, invadido por discretas espinhas, participava do grupo sem subir na ribalta.

Terminado o almoço, Agnaldo avisa que teria que se retirar com a “côrte” pois tinham que atacar o expediente da tarde.

___eu vou ficando por aqui. O lugar é bom e o dia está radioso – informou Victória.

Minutos depois, deixou o carro estacionado próximo à trilha das Vertentes, decidida a caminhar um pouco para ajudar a digestão.

Em uma virada na orla da mata, um enorme cão pastor belga aparece do meio das folhagens, eriçando o pêlo e rosnando perigoso para Victória.
A detetive enfiou a mão no interior da jaqueta, buscando a pistola para se precaver do pior.

___quieto, Rapustin. – mandou Ivy Mayakovich que saía da mata para a trilha, acompanhada por uma mulher jovem de estrutura maciça. Nas mãos, trazia uma espécie de buquê formado por flores silvestres.

___Rapustin. Nome adequado para um canino tão simpático. - ironizou Victória.

___É apenas um filhote. – respondeu a moça, voltando a caminhar na trilha, acompanhada de perto pelo cão e pela mulher que a detetive percebeu ser guarda-costas.

Uma charrete puxada por um Bragança passou, conduzida por um velho simpático. O homem, ganhava algum dinheiro passeando com crianças e adultos na charrete pela trilha.

Victória acenou e montou na charrete. Queria distância de um cachorro a quem a dona chamava de “Rapustin – O monge maldito”.

Quilômetro adiante, Vick desceu da charrete e entrou em um dos inúmeros chalés onde havia peças de artesanato em madeira, barro e ferro.
Aquarelas e esculturas decoravam o ambiente.

Escolheu uma luminária em ferro soldado primorosamente.

Pagou e voltou à trilha. Não avistou o charreteiro e decidiu vencer o percurso de volta a pé.
Em certa parte da trilha, um movimento incomum na vegetação lhe chamou a atenção. Aproximou-se para observar melhor e o enorme cão lhe avança.
Protegeu o pescoço com o braço a tempo de conter os dentes do animal. A mulher que acompanhava Ivy e mais dois homens, apareceram e imobilizaram Victória, arrastando-a para dentro da mata, de onde seguindo um caminho estreito aberto na vegetação, a levaram onde, sentada em uma pedra, a filha do diplomata esperava.

Um dos brutamontes firmou Victória com o rosto no solo, com seu coturno apertando-lhe as costas, enquanto lhe prendia os braços fita adesiva.
Na revista, retiraram a pistola , o punhal e a carteira da Detetive.

___o que pensa que está fazendo ? – rosnou Victória.

___apenas uma averiguação. – respondeu um dos seguranças.

___porque ?

___coincidência demais nos encontrarmos três vezes em uma única semana.

___o que pensa que estou tentando fazer ?

___seqüestrar-me. Prática comum por estes lados. Afinal, sou a filha do diplomata ucraniano. E pelo que vejo, você tem uma pistola e não possui porte de armas. O que só comprova que trabalha à margem da lei.

___ah! – exclamou Vick, resignada.

Um dos brutamontes, apanhara os documentos pessoais de Victória e passara a fazer várias ligações no celular. Checava números, dados, registros.

Terminou com a testa franzida de preocupação.

___acho melhor libera-la, senhorita. Victória Di Angelis é ex-policial condecorada por bravura e enteada da Delegada Seccional. Uma espécie de lenda viva da região.

___quase morta de susto por um cão pulguento. – completou Victória, aliviada por estar sendo desamarrada e aborrecida por ter seu passeio trivial pela mata, interrompido daquela maneira.

O que parecia ser chefe dos brutamontes, estendeu-lhe a carteira , a arma e demais pertences.

Victória bateu a terra da camisa, jaqueta e calça, guardando o que lhe pertencia.

___gostaria que me dissesse como poderia compensa-la para esquecermos este mal entendido. – perguntou Ivy na sua voz calma e bem modulada.

A detetive, alinhou-se orgulhosa e em um gesto aparentemente trivial, aproximou-se de um dos capangas, atingindo-o. Em fração de segundos, deferiu vários golpes nos dois indivíduos, até que se prostrassem ao chão, surpresos com o ataque.

A guarda-costa sacou sua arma e firmou-a com a mão trêmula de tensão.

Victória deu-lhe as costas e em um salto ágil, galgou os galhos das árvores próximas, saltando acrobaticamente de uma para outra até alcançar um frondoso Jequitibá, acomodando-se em um galho alto, onde se acomodou para descansar.

Um barulho estranho nas folhagens das árvores menores a fez postar-se alerta. No princípio, imaginou que um enorme primata de pê-lo claro a seguia, no entanto avistou Ivy, saltando pelas copas das árvores, com fantástica habilidade.

___eu devia me lembrar que ela também pertence ao Ar. – concluiu Victória, preocupada, pois a raiva já lhe esfriara e não queria espichar a cizânia com a jovem Ucraniana.

Abandonou o refúgio do tronco do Jequitibá e lançou o corpo no ar, em busca dos galhos da árvore próxima. Dois giros e saltos depois, sente que algo a apanha em meio ao curso e a faz desequilibrar-se.

Rolam no ar, tendo a queda aparada pelos galhos e ramos inferiores e pelas mãos de Victória que agarrava tudo que podia.

Ao mergulhar em uma folhagem rasteira fofa, Victória bateu as costas e somando o peso de Ivy sobre si, perdeu o fôlego. Atordoada , a incapacidade de fazer o ar voltar e entrar nos pulmões a fez apavorar-se.
A jovem estrangeira, socorreu-a, colando seus lábios nos de Victória e forçando a entrada do ar.
Recuperada, levantou-se ajudada por Ivy e sem dizer palavra, buscou sair da mata.
Na trilha, deparou-se com os guarda-costas mas ninguém fez menção de detê-la.Victória conseguiu chegar em seu carro e no interior do veículo respirar profundamente de alívio.

Metera-se em encrencas demais, que excederam a cota do dia.

Ligou o motor e manobrou o carro para a rodovia.

Tocou os lábios na lembrança deliciosa do beijo que furtara dos lábios nacarados de Ivy.
Um gesto impensado executado por uma jovem atordoada pela queda e que não resistira à sedução momentânea de ter os lábios delas contra os seus, prendendo-os maliciosa.
Por breves momentos, teve a impressão de que a filha do diplomata lhe correspondia a carícia. Apenas por breves momentos.
Resolveu esquecer o assunto e voltar a se concentrar no trabalho a respeito do “Garrote”.

De volta ao relatório, passou o restante do dia, noite e madrugada seguinte, fazendo e refazendo seus apontamentos.

5:00 – da manhã do dia seguinte. Dormiu.

10:00, o celular vibra, assustando o estressado gato, que pula contra o aparelho e com uma patada, lança-o para baixo da cama.

___mau sinal. – balbuciou Victória, tornando a adormecer.

12:30 – acorda e se enfia na banheira. Da banheira para o escritório, terminar o relatório.
Na verdade fizera dois. Uma versão Familiar, que pretendia apresentar para os Rusemberg e outro a versão que compilava todas as evidências que recolhera.

O telefone tocou e a voz de Araújo soa preocupada.

___Victória, nosso cliente, José Rusemberg ligou dizendo que soube pelos jornais da destruição do escritório.

___e quer romper o contrato ?

___é isso. Disse que achava lamentável o que acontecera e sabia que demoraríamos a nos reorganizar, sugerindo que não poderíamos atende-lo no momento.

___Ele está enganado.

___Ora parceira, você sabe que ele tem razão.

___insisto que ele está enganado. Tenho aqui, um relatório circunstanciado para entregar.

___como conseguiu ?

___trabalhei nele dias e noites seguidos.

___apurou algo consistente?

___sim. E acho que pelo menos pode nos garantir alguma coisa. Marque uma entrevista com José Rusemberg no restaurante Piazza, dentro de duas horas.

___não sei se posso conseguir.

___Insista. Diga que descobrimos algo que o surpreenderá.

___está certo. Mas não se demore, sim ? Vou chegar meia hora adiantado para passar os olhos neste relatório.

___até mais. – despediu-se Vick.

Da mesa de seu escritório, guardou cuidadosamente os papéis e outros documentos em uma caixa chaveada, escondendo-a.

O relatório do caso “Rusemberg”, coloca-o na valise de fechadura codificada. Talvez aquele trabalho lhes valesse algo que pudesse salvar o escritório.

Esforçava-se por si e pelo sócio. Afinal, como ele mesmo dissera, do escritório extraía seu sustento e da família.

INICIO E FIM

Enquanto Araújo passava os olhos no relatório, Victória verificava as inúmeras chamadas no celular que não atendera naquela manhã.
Encontrou ligação de Lizandra (ligaria mais tarde); de Julia (talvez quizesse companhia para ir ao cinema); Leandro (o de sempre. Saber como estou); Adriana (importante); Agnaldo (esse não me abandona) e Louise (o que a “Jour” pretende, me ligando todos os dias?). Apenas um número de celular com prefixo 11, não era reconhecido. Retornou a ligação e a voz de Ivy, com sotaque, perguntou: ___senhorita Di Angel ?

Victória desligou e abriu a carteira para verificar onde estavam seus cartões de visita. Não encontrou nenhum deles. Certamente perdera-os lá na mata, pegando-se com os brutamontes.

Araújo lia o relatório, mordendo as bordas do bigode, nervoso. Terminou e fincou seus olhos inquisidores na sócia.

___o que está descrito aqui, parece a visão do Apocalipse.

___uma tese.

___complexa. Não estou certo de que devemos apresenta-la como está para José Rusemberg. Ele pode nos taxar de lunáticos e arriscamos a perder tudo, até nossa reputação.

___Se não apresentarmos, aí certamente estará tudo perdido.

___está bem. Estamos nós dois nesta barca e não vamos deixar virar. O cliente acaba de chegar. – avisou Araújo, levantando-se.

José Rusemberg era homem pequeno e de olhos espertos, semelhantes aos de uma raposa. Sorriu para Victória e Araújo antes de sentar-se e acomodar-se.

Conversaram preliminarmente e Araújo estendeu para o homem o relatório com a etiqueta: confidencial.

Rusemberg tateou os papéis com os dedos, ajeitou o óculos no nariz e passou a ler o resumo atentamente.

Em certo momento, tossiu e precisou tomar um gole dágua.
Depois, começou a avermelhar-se e o suor porejava em suas têmporas.
Acudiu-se com um lenço. Suas mãos tremiam.

Araújo, olhou para Victória com ar preocupado.

Rusemberg teve outra crise de tosse que não se aplacava. Enfim, levantou-se, guardou o espesso envelope na valise e saiu.

___acho que acabamos de receber um calote. – concluiu Victória, examinando atentamente as unhas das mãos.

___pois eu acho que algo ali, interessou o homem. Rusemberg é cidadão respeitável e honesto. Decerto foi para a casa ler melhor seu “relatório familiar”. Imagino que o tal “relatório propedêutico” que você guardou em seu apê podia acabar matando o homem.

___não era difícil. Afinal os pais sempre acreditam na inocência dos filhos.

Araújo levantou-se e abraçou-a enquanto saiam do restaurante.

___bendito o dia em que a convidei para ser minha sócia.

___não fique contente antes do tempo. Eu sou um pára-raios em matéria de atrair confusão.

___está sendo modesta.

___E não ia conseguir ocupação na cidade. Não sei fazer outra coisa além de sair por aí escarafunchando a vidas das pessoas.

___mas no seu caso, se quiser, pode abandonar tudo e ir criar galinhas e orgânicos no seu sítio.

___ta aí uma boa idéia. – concordou ela, olhando-o com ar zombeteiro.___aliás, já pensou em “podar” este bigodão ? Aproveita e apara as suíças. Sua mulher não sente cócegas ?

___tudo bem, madame engraçadinha. Vou lhe fazer um desafio. Se com seu relatório “molotov” conseguirmos apanhar o prêmio máximo, raspo o bigode. Se pegarmos o prêmio mínimo, aparo as suíças. Se não conseguirmos nada e ainda virarmos motivo de chacota na cidade, aí, vou ter que vender meu carrinho novo para tornar a alugar o muquifo onde estava instalado antes.

___Nada disso. Se o pior acontecer, eu pego o dinheiro que estou economizando e alugamos um muquifo um pouco maior. pelo menos o suficiente para duas mesinhas.
Riram.

No outro dia, o jornal matutino CLARA-EVIDÊNCIA exibia em letras garrafais, a matéria sobre o “JUSTICEIRO do ALFA E ÔMEGA”, assinada por Mariana Moraes.

Victória só descobriu quando Louise lhe ligou às sete da matina em seu apartamento.

___a matéria do jornal de hoje é obra sua ? – perguntou com voz alterada.

___matéria, jornal ? que jornal? – perguntou a detetive, ainda flutuando na sonolência.

___estou indo aí. – avisou Louise antes de desligar o telefone.

Vick saltou da cama, arrumando parcialmente o apartamento e recolhendo roupas, pratos, papéis espalhados.

Pensou em tomar o banho rapidamente mas um ruído na porta da sala lhe chamou a atenção. Estacou ao ver Louise à sua frente.

___você é extraordinariamente rápida.

___Estava por perto.

___costuma dormir às noites ou estava pela cidade dando uma voltinha? Como entrou aqui ?

___chave mestra. – respondeu ela, com o rosto impenetrável.

O rosto contrariado de Victória a fez adiantar-se e enlaça-la pela cintura, falando-lhe ao ouvido carinhosamente.

___você é sempre muito atraente com estes olhos escuros sonolentos.

Conduziu Victória até o sofá macio, fazendo-a se acomodar ali ao seu lado. Vestia roupa esportiva escura, que em nada lhe diminuía o talhe bem formado e a silhueta elegante. Os cabelos lisos exalavam um delicioso cheiro de banho recente.

A jovem Di Angelis estendeu o corpo lasso no sofá e fechou os olhos, apreciando o contato do corpo de Louise no seu e as carícias que ela lhe fazia nos cabelos.

Vestia apenas um roupão de seda sobre a pele nua, detalhe este que a Delegada logo percebeu, insinuando a mão no decote para estimular-lhe os seios.

___não, minha querida. Não devemos. – pediu-lhe Victória, brandamente, temendo que sua carência física a fizesse soçobrar novamente nos braços de Louise.

A delegada estacou a carícia e beijou-a suavemente nos lábios.

___espere aqui. Vou providenciar o café.

Victória fechou os olhos e envolveu-se novamente no sono até que sentiu o cheiro delicioso que escapava da pequena cozinha.

Levantou e foi até o portal espiar. Encontrou três sanduíches em um prato e dois copos de suco espumando.

___não coloquei as geléias porque não me lembrei de trazer pão feito na hora. – desculpou-se Louise.

Vick não acreditava na sua boa sorte. Acostumara-se a tomar o café pingado e o pão na chapa do boteco da esquina que encontrar sanduíche de bacon, queijo, alface e tomate feitos na hora e suco de maracujá, para si era um banquete matutino.

___como conseguiu arranjar tudo tão rápido ?

___quando estou só no apartamento da cidade, cuido das refeições pessoalmente. Tereza diz que tenho a mão boa para temperos.

___tem mão boa para tempero e outros predicados mais. – elogiou Victória.

___Dois sanduíches são seus. Vou me servir de um para lhe fazer companhia. Já havia tomado o desjejum. – continuou Louise.

Satisfeitas, Louise conduziu Victória para o quarto e deitou-se ao seu lado na cama. As cortinas fechadas com a luz apagada, produzia uma penumbra relaxante.

Vick deitou-se de bruços e Louise aninhou-se sobre ela.

___Louise... – iniciou a falar.

___não diga nada. Descanse. Depois conversamos – sussurrou-lhe ela.

A fadiga gerada por várias noites em claro, dedicadas ao trabalho, fez Victória conciliar no sono rapidamente. Quando despertou, regenerada e ativa, Louise ainda estava aninhada em si, como uma gatinha macia ressonando suavemente.

Concluiu que a “Jour” provavelmente passara a noite e madrugada anterior em vigília.

Moveu-se cuidadosamente, fazendo-a deslizar para o seu lado. O movimento a despertou e fez olha-la com os olhos azuis escuros bem abertos.

___o que uma mulher séria e casada esteve fazendo solta na madrugada desta Babilônia tupiniquim ? Não tente me enganar, Louise Bittencourt!

Vick estranhou aquela atitude de raiva e ciúme matutino em si mas não conseguiu controlar-se a tempo.

Louise esboçou seu meio-sorriso enigmático do tipo que “não confirma, porém não nega”.
Acariciou o rosto de Victória e cortou incisiva.

___não está interessada em saber sobre a matéria sensacionalista sobre um novo Serial Killer agindo na região ?

Victória levantou-se bruscamente ante a referência da palavra “serial killer”.

___outro assassino serial ? Inacreditável. Estes indivíduos peculiares são raríssimos.

___Não é o que diz a matéria que a Mariana Moraes - a repórter que conhecemos bem - publicou hoje. Fala sobre um matador serial denominado O JUSTICEIRO DO ALFA E ÔMEGA.

___e o que mais ?

___Diz que alguém está enforcando homens acusados de estupro ou atentado violento ao pudor.
A forma como é disposto o corpo, faz os peritos acreditarem que houve um suicídio e não um assassinato. Mas o fato de serem executados no dia do aniversário de suas vítimas, é o padrão que vincula as mortes. A forca era um suplício muito utilizado para ladrões, estupradores e outros criminosos que precisam encontrar a morte de forma vergonhosa, degradante.

___estou surpresa. Como Mariana Moraes botou as mãos nesta informação ?

___acredito que você tem a resposta para esta pergunta.

___posso ver a matéria do jornal ?

Louise alcançou sua bolsa com a mão e retirou uma imensa folha do CLARA-EVIDÊNCIA e estendeu-a .

Ali, estava um resumo acurado do relatório que a detetive fizera para José Rusemberg. Listava o nome dos homens enforcados em circunstâncias misteriosas: Rômulo Dias; Anderson Silva; Ítalo Barbosa; Vanderley Mendes; Thomas Passos; Carlos Oliveira; Ilmar Assunção; Osvaldo Saraiva e finalmente Douglas Rusemberg. Todos supostamente cometeram suicídio na data de aniversário de suas vítimas. Mariana Moraes, assinalava veementemente que o justiceiro cometera erros ao julgar a culpa de algumas de suas vítimas, em especial, o jovem Douglas Rusemberg, a quem as acusações nunca puderam ser comprovadas.

Victória depositou o recorte do jornal na mesa de cabeceira e ficou silenciosa por uns momentos.

___e o que me diz sobre isso ? Como Mariana Moraes farejou novamente uma série de assassinatos que só a polícia conhecia e investigava em sigilo ?

___então vocês sabiam sobre os suicídios forjados?

___sim. Agora, preste atenção Victória. Preciso que você confie em mim como antes e me revele tudo que sabe, sem omitir detalhes sobre esta matéria.

Louise lhe falara com seriedade e firmeza, convencendo-a enfim a abrir o jogo. Se não pudesse confiar na mulher que amava, em quem mais confiaria ? – inquiriu-se.

___o que foi redigido no jornal, é parte do relatório da investigação que fiz a respeito da circunstância da morte de Douglas Rusemberg. O velho Rusemberg contratou os serviços do escritório. A expressão “ALFA e ÔMEGA”, que significam principio e fim, eu a utilizei no relatório para assinalar as datas de nascimento com as datas de morte.

Victória levantou-se e procurou a caixa chaveada, de onde retirou o “Relatório Propedêutico” do caso Rusemberg e entregou-o à Louise que o folheou e analisou rapidamente.

O rosto enrijeceu-se e a palidez lhe roubou a cor da face.

___você conseguiu todo este material em apenas duas semanas?

___exato.

___faz idéia do motivo que levou José Rusemberg fazer publicar esta matéria ?

Victória refletiu por alguns minutos e concluiu.

___ele estava ansioso em provar que seu filho Douglas não cometera suicídio. Para a crença deles, tal prática é abominável. Contratou detetives que lhes apresentaram a tese desejada, a de assassinato, de uma forma que, por mais que quisesse acreditar, José não via ali, verossimilhança.

___E sua tese, apresentando supostos suicídios, todos interligados entre si, ofereceram a aparência de verdade tão desejada pelos Rusemberg.

___Mas isso tudo, a polícia já tinha conhecimento, como você mesmo disse.

___E estávamos investigando em sigilo. As ocorrências iniciaram-se no ano passado. Estive fora por um período, entretanto Edgar e uma equipe de policiais iniciaram os trabalhos em campo. Quando retornei, recebi um relatório alarmante sobre a atividade do matador e tomei algumas providências. Uma delas foi continuar mantendo sigilo. Um serial killer (possibilidade que não podemos descartar) quando deseja publicidade, ele a solicita, mandando cartas para a polícia entre outros meios de se expressar. Nós bem sabemos Victória, o que significa direcionar a ira assassina de um indivíduo degenerado para algum membro das forças policiais.

Victória refletiu.

___Não acredito que estejam enfrentando outro matador serial. Um indivíduo do naipe do “Legado de Nix” não possui motivo coerente para matar. Faz por compulsão, desvairo de sua mente insana. O matador de estupradores, este executa suas vítimas por um motivo bem delineado e o faz utilizando-se da forca, um suplício que simboliza vergonha, degradação.

Louise aproximou-se e lhe sorriu.

___sua capacidade cognitiva continua excelente. – elogiou.

___no entanto, fui afastada da corporação.

___chegamos ao ponto que me fez vir aqui. Precisava saber até onde você havia progredido no caso do Justiceiro.

___agora sabe.

___e só assim, poderia revelar porque intercedi pelo seu afastamento da corporação.

___deve achar que teve um bom motivo.

___sim. E a resposta é: desviar você do caminho do Justiceiro. Sabemos que é um indivíduo perigoso e pelo modo que trabalha , deve ter uma legião de seguidores. Muitos. Não pratica suas execuções pessoalmente. Ele arquiteta, outros executam. Acredita-se que alem de agir em bando, ele tenha acesso aos arquivos confidenciais da polícia ou pode ser um policial. Já aconteceu de policiais, reunirem-se a outros que partilham do mesmo pensamento e formarem um “Esquadrão de Justiceiros”. – argumentou .

___mas que ligação tenho eu com o tal “Esquadrão de Justiceiros”? Porque acredita que a atenção do líder deste grupo ensandecido está focada em mim ? Há poucos meses atrás, eu ainda era tida como morta.

___é um enigma que estamos tentando decifrar, no entanto vou provar porque concluímos que a principal homenageada com as mortes é você. Observe as iniciais dos nomes das vítimas. Isto não lhe diz nada?

Vick releu os nomes listados com atenção e reorganizando as iniciais, testando várias possibilidades, conseguiu montar um nome: VICTÓRIA D.

___ele está formando meu nome. – concluiu Victória, aturdida.

___e pelas letras que faltam, ainda podem ocorrer oitos “suicídios” . Agora sabe onde estive na noite e madrugada anterior. Esperando o próximo passo contra um indivíduo de nome iniciado pela letra “G”, cuja vítima aniversaria hoje. O Justiceiro não segue a ordem de iniciais. Ele matou na seqüência da oportunidade gerada pelos aniversários, tal como “R”; “A”; “I”; “V”; “T”; “C” ,“I”; “O’ e “D”.

___conseguiram progresso?

___não.

___Agnaldo e outros membros da equipe dos Neblinas estão trabalhando no caso?

___infelizmente, com exceção de Beatriz, Edgar, Dr. Salomão e Mestre Takahishi, os demais nada sabem. Possuem um alto grau de comprometimento emocional com você.

___e a tal Miranda Nogueira foi recrutada ?

___sim. – respondeu Louise, surpresa pela forma desdenhosa que Victória se referiu ao nome de Miranda.

___não há motivos para o ciúme. Ninguém conseguirá eclipsar você. – sussurrou-lhe, abraçando-a pelas costas.

Victória, não habituada a demonstrações de afeto explícito da parte de Louise, exceto em casos extremos.
Desconfiou da atitude da Delegada.
Antes, quando atendera a ligação dela, perguntando com voz alterada se a “matéria do jornal Clara-evidência era sua obra”, imaginou que a fosse encontrar com aquele brilho selvagem no olhar, ao qual, de certa forma tinha se acostumado.
Para sua surpresa, Louise não só aparecera com rapidez, como até cuidara de lhe fazer o café da manhã e deixa-la continuar repousando, antes de retomar ao assunto que aparentemente era o motivo de sua aparição.

Voltou-se para ela e a apanhou nos braços, como já fizera na vez que a encontrara ferida, depois de enfrentarem o “Anjo Vingador” e tornou a deita-la na ampla cama ao seu lado, acariciando-lhe o rosto e os cabelos.

___Aqui na alcova, confessionário dos amantes, onde a verdade impera e a mentira está banida, diga com sinceridade se há mais alguma uma coisa que deseja que eu lhe esclareça e que você não sabe como perguntar ? – inquiriu-a, de forma brincalhona.

Louise aproveitou a oportunidade.

___sim. Preciso saber como descobriu a relação entre as datas de nascimento das vítimas com o dia da morte dos acusados de estupro ? Edgar Meirelles e toda uma equipe demoraram meses em intenso debate e discussão para descobrir este liame. – perguntou ela sem rodeios. Os olhos líquidos como o mar do caribe, atentos ao mínimo movimento da musculatura do rosto de Victória.

___é só isso que deseja saber, rainha? – sorriu a detetive, ao ler a expectativa e tensão nos olhos dela.
Levantou-se e abriu uma gaveta de onde tirou a fotografia que Julia lhe dera.

___a data do aniversário de July, está aqui assinalado digitalmente pela máquina fotográfica. Na pesquisa, vi que o tal Vanderley, suicidara-se em determinada data que coincidia com a da foto.

O rosto de Louise, ao ouvir o nome da filha, contraíra-se, voltando à expressão fria e perigosa.

___então, ver o retrato da vítima de Douglas com a data de nascimento me fez tirar conclusões e estabelecer ligações. Estas comprovando-se na medida que avançava em minhas pesquisas.

___você sabia que Douglas Rusemberg possivelmente foi o verdadeiro autor do crime que vitimou Clara Alves ?

___é o que dizem os indícios colhidos. Mas indícios apenas, não possuem valor de provas.

___assim como sabe que os outros elementos vitimados, estavam esperando julgamento em liberdade pois eram primários e de bons antecedentes, entre outros requisitos, mas que foram executados porque o “Esquadrão de Justiceiros” tinham convicção de sua culpa ?

___encerrei meu relatório antes de avançar neste campo. Afinal não sou mais policial e meu trabalho tinha um objetivo específico. E não há de se falar mais em culpa em relação a indivíduos mortos.

___com a publicação deste artigo no jornal, a polícia agora tem obrigação de investigar e esclarecer todos os pontos obscuros, e cada passo vai ser monitorado pela mídia. Posso imaginar o efeito que esta reportagem causará na população. Por um lado, a família das mulheres e meninos molestados sexualmente aclamarão os “Justiceiros”. Por outro lado, homens como José Rusemberg pressionarão o Estado para que os mesmos justiceiros sejam encontrados e trancafiados. Duas formas opostas de se clamar por justiça.

Victória refletia e franzindo levemente o cenho, perguntou:

___voltando ao motivo que a trouxe até aqui. Acreditou que eu de alguma forma estaria envolvida ou participando destas execuções ?

Louise adiantou-se e colocou-se atrás de Victória, prendendo-lhe o seio com uma das mãos, enquanto a outra a pressionou firmemente a sensível área onde as coxas se unem.

A detetive reclinou a cabeça para trás, fechando os olhos, deixando exalar um gemido pungente.

___eu sei o quanto seu corpo está sedento. – segredou-lhe Louise ao ouvido, intensificando as carícias.

Victória tornou a gemer mas o amargor da culpa tornou a assola-la.

___você bem sabe que não podemos... – balbuciou, sentindo uma cruel dor no peito quando a viu, postar-se diante de si e a olhar intensamente.

___acredita que estaríamos traindo seu...

Victória estendeu os dedos e colocou-os sobre os lábios de Louise.

___por favor. Seria pior se tocasse no nome dele agora ...

Foi a vez de Louise interromper-lhe.

___meu casamento com Antonio, tornou-se uma fachada. Eu não pensei que seria necessário revelar-lhe alguns pontos de nossa intimidade, entretanto preciso que compreenda que, eu e ele estamos conscientes de que foi um erro tentar recuperar a paixão juvenil de tempos atrás.

___não estão compartilhando a mesma cama ?

___não. Há seis meses que não nos “relacionamos intimamente”, utilizando um eufemismo.

___no entanto ele não resistiria tanto tempo. Eu o conheço bem.

___Certamente, e por não resistir, serve-se de uma amante.

Victória desvencilhou-se dos braços de Louise. No rosto, sua preocupação transparecia.

___e que medidas tomará a respeito ?

___acha que eu deveria tomar alguma? Pensa que me importo?– perguntou Louise, calmamente, enquanto se aproximava e desembaraçava-se do laço que prendia o roupão de Victória.

Sem força para resistir-lhe e com o corpo clamando pelo dela, Victória cedeu ao desejo ardente que lia nos olhos de Louise, entregando-se finalmente.

Passaram-se minutos, horas, naquele digladiar de corpos sedentos, febris e vibrantes de paixão e pela primeira vez depois do retorno de Victória, Louise permitiu que ela lhe explorasse o sexo com os lábios e língua, sinal claro de que voltara a se doar completamente.

Exaustas porém, não exauridas, caminharam para a banheira, onde Louise massageou todo o corpo de Victória, deixando-a relaxada e pronta para novo embate que se iniciou ali, evoluiu para o tapete do quarto, a mesa da sala, o sofá, e finalmente a cama.

O celular de ambas, vibraram, chamando-as em vão.

Finalmente exauridas, Louise estendeu o braço por sobre a amante e verificou a caixa de mensagens de seu aparelho.

___preciso ir. Eu e Júlia temos natação e hidroginástica às 14 horas. – sussurrou-lhe docemente.___mas preciso que prometa que me deixará a par de todos os seus passos; onde anda e com quem.

___porque ? – inquiriu Victória sonolenta, porém surpresa.

___o incêndio em seu escritório. Há fortes indícios de que tenha sido criminoso. Recebi o laudo Preliminar de Constatação dos peritos do Corpo de Bombeiros.

___e acredita que...

___Se for comprovado que o incêndio foi provocado, você pode estar incomodando alguém. Talvez casualmente tenha esbarrado em algo importante.

___o dia iniciou-se com ótimas notícias. – ironizou Vick.

___por este motivo, quero-a ao alcance de meus olhos e... por outro motivo de natureza confidencial, quero-a ao alcance de meus braços.

___”Quero-a” é a sua palavra de ordem. – riu Victória, pensando na intensidade louca do amor que sentia por Louise.

___Atenda o celular assim que eu ligar novamente. – disse a Delegada, beijando-a e levando consigo ao sair, a pasta com o relatório do Caso do “garrote Inusitado” para providenciar cópias.

 

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