E DEPOIS DA LUZ, A ESCURIDÃO




Sem nada melhor para fazer no momento além de verificar as chamadas no display do seu aparelho, Victória sobressaltou-se ao avistar novamente o número de Ivy Mayakovich.
Curiosa, retornou a ligação.

___senhorita Angel ?

___sim. – riu Vick.___mais duas ligações suas e meu nome cai pela metade...

___é espirituosa.

___alguém já me disse isso uma vez.

___soube que seu escritório incendiou-se.

___é o assunto do momento.

___Para ser mais exata, o assunto do momento é o “Esquadrão de Justiceiros”.

___Está bem atualizada quanto aos assuntos do interior.

___Fiquei sabendo por intermédio de conhecidos, que a senhorita foi quem lançou luz sobre o caso dos suicídios forjados.

Victória gemeu. Não agüentava mais tratar daquele assunto. Não naquele dia. Estava saturada.

___e a senhorita Ivy, ligou para fazer um mero comentário sobre isso ?

___não. Liguei para propor trabalho.

___pretendo continuar com o escritório.

___vai precisar capitalizar.

___posso não dispor de muito tempo.

___quero que cuide de minha segurança em algumas ocasiões. Não tomará mais de dois dias seus por semana. Estou autorizada a propor 3 mil reais ao mês, mais outras ajudas de custos tal como transporte, alimentação e hospedagem.

Victória calculou rapidamente o que significaria no seu orçamento, 3 mil reais em pagamento para uma carga de oito dias por mês. Só conseguira guardar e com muito custo, cerca de 500 reais por mês. Isso dado ao fato de que manter o apartamento, a motocicleta e o carro, além de despesas com combustível, alimentação e vestimenta, praticamente consumiam a mesada de 5 mil que recebia ao mês. A chácara e o pagamento dos caseiros, eram encargos de seu pai.

Victória tinha consciência de que seu estilo de vida custava uma boa grana e não conseguira ainda encontrar um meio de prover com o trabalho, seu sustento, dependendo da mesada supostamente paga pelo pai, que na verdade sabia advir da fortuna de Louise.

Essa idéia a incomodava.

___se quer conversar sobre trabalho, não vejo empecilho. – falou, depois de uma longa pausa.

___então poderemos conversar no shopping perto de onde estou hospedada?

___não está em São Paulo ?

___ainda na sua cidade.

___onde é este shopping ?

Victória apressou-se em vestir-se de forma satisfatória. Olhou-se no espelho e concluiu que as roupas de grife, um armário completo que Louise providenciara, realmente lhe caíam muito bem e valorizava a silhueta.

Decidiu ir de motocicleta .
A tarde estava morna e a brisa lhe acariciava a face suavemente.

Do estacionamento para a praça de alimentação do shopping, atravessava-se poucos metros.

Avistou Ivy, que se destacava dos demais pela sua beleza eslava e estatura. Aproximando-se cautelosa, Victória julgou entender porque a dançarina filha do diplomata ucraniano apreciava girassóis. Ele se parecia com um deles.

Sorriu e ela de onde estava sentada lhe fez sinal para que se aproximasse.
Sentadas, Vick percebeu que os demais guarda-costas encontravam-se em outras mesas, tentando fazer-se passar por simples transeuntes, estacionados para um lanche.

___preciso de alguém que me acompanhe em dias de atividades corriqueiras na capital sem me sentir vigiada por um exército e talvez chamar a atenção de indivíduos oportunistas. O bando de seguranças inibe o ataque, entretanto chamam atenção e me incomodam. Preciso de alguém, de preferência uma mulher, com grande habilidade e boa aparência para me acompanhar.

___com o crime se organizando a cada dia, fica realmente difícil. – assentiu Victória, lembrando-se de Júlia e sua casa cercada por seguranças.

___minha oferta está boa para você ?

___devo dizer que é interessante. Entretanto, não pretendo ir me instalando nesta profissão por muito tempo. Quero reerguer o escritório.

___acompanhar-me em minhas atividades comuns, será um passeio. Verás. – afirmou Ivy.

___neste caso, vamos aos negócios. – ultimou Victória.

Conversaram cerca de uma hora e depois Ivy decidiu fazer algumas compras no shopping, pedindo à Vick que lhe fizesse companhia. Os seguranças seguiam à distância.

___é assim que será. Nós duas aparentaremos ser grandes amigas fazendo compras e o par de seguranças, à distância, como um casal de namorados.

___ela é um pouco alta e quadrada demais.

___no entanto, estão apaixonados. – afirmou Ivy.___a beleza, para alguns não faz a menor diferença.

___Isso é bom. Nossa cultura privilegia o alto, esguio, belo e bem nascido.

___a cultura do meu país de nascimento também. Nesse caso, nós duas não teríamos problemas. Nos enquadramos no biótipo idealizado.

Victória pensou que aquele poderia ser um elogio sutil e sorriu.

___e na Ucrânia, temos a cultura de desafiar para duelos, senhoritas que nos privam do objeto de nossos desejos. – completou Ivy.

___se o duelo for perseguição pelas árvores igual aos orangotangos, devo dizer que já conseguiu vencer-me. Não estou na minha melhor forma.

___no entanto, deu trabalho alcança-la e só a apanhei porque se descuidou.

___aborreceu-se tanto porque dei alguns sopapos nos seus guarda-costas ?

___fiquei impressionada com sua habilidade e força, no entanto, estava disposta a castiga-la pelo seu atrevimento.

___meu atrevimento ? Eu estava fazendo uma pacífica caminhada pela trilha da mata quando sou atacada e minha reação indignada é tida como atrevida ?

___acalme-se, senhorita Angel. Espero que as diferenças entre nós estejam superadas. – disse Ivy, colocando o braço nos ombros de Victória enquanto andavam lado a lado, em claro gesto de conciliação.

No piso superior, Victoria ouviu alguém chamando-a. Olhou e avistou Julia acenando ao lado de Louise Bittencourt .

___entrarei em contato no fim de semana para combinar os detalhes e passar o endereço. – avisou Ivy, despedindo-se com um aperto de mão. Certamente percebera que Victória deparara-se com conhecidos.

Afastou-se, seguida pelo casal de seguranças. Julia e Louise desciam pela escada rolante. Esperou.

___que ótimo encontra-la aqui. – exclamou Julia.___estamos indo assistir a um filme. Pode vir com a gente se quiser.

A frieza no olhar de Louise incomodava Victória.

___podemos combinar para assistir outro filme, talvez no fim de semana. Hoje ainda preciso conversar com meu sócio, o André Araújo.

Abraçou Julia e despediu-se de Louise com um aceno.

Pilotando a moto a caminho do apartamento, inquiria-se.

___será que Louise pensou que eu estava flertando com a Ivy ?

A filha do diplomata Ucraniano era realmente uma mulher de chamar a atenção do quarteirão, no entanto, o coração de Victória batia forte de amor pela Bittencourt, portando não entendia o motivo para uma cena de ciúmes.

Entrou no apartamento e aguardou a chamada dela. Passaram-se mais de duas horas e nada.

Ligou a televisão e o jornal noticiava que um indivíduo de nome Geraldo Rocha, havia se enforcado com linha para vara de pescar.
Foi encontrado no barranco onde costumava passar as tardes pescando no sítio de parentes. O rapaz tinha vinte e quatro anos.
Desconfiou que talvez o indivíduo fosse o que a polícia estava tentando localizar a tempo de evitar o pior.

Comprovou-se, quando a própria Mariana Moraes aparece ao vivo, relatando que o “Esquadrão de Justiceiros” fizera naquela tarde sua décima vítima.

Victoria desligou o aparelho. Não queria se envolver com as investigações sobre o “Esquadrão de Justiceiros”.
Não era mais policial e tinha que tratar agora de seus interesses particulares.

O telefone tocou e a voz de Araújo apareceu animada.

___Sócia! Ganhamos a sorte grande. José Rusemberg acaba de informar que estará depositando amanhã o prêmio integral pelo Relatório, na nossa conta.

___maravilha. Amanhã mesmo vamos sair para alugar outro escritório.

___E não pára por aí. – continuou Araújo.___ele disse que gradativamente vai canalizar algumas das investigações da Seguradora para nós. Para tanto precisamos nos estruturar.

___quanto valia o prêmio total ?

___Cem mil.

___uma bagatela. – brincou Victória.

Desligaram.

Victória refletiu que se Araújo tivesse lhe dado àquela magnífica notícia antes, não aceitaria trabalhar para Ivy.
Levantou-se para encomendar algo para o jantar.

___por outro lado, eu já a havia alertado de que meu trabalho com ela poderia ser breve. – pensou, descontraindo-se.

___a minha sorte mudou! Sobrevivi ao ataque do “Legado de Nix”, recuperei a memória e agora conseguimos um filão de ouro: trabalhar na investigação dos sinistros para a maior seguradora do Estado. E tem Louise, que me oferece tudo que uma mulher poderia esperar da pessoa amada: cumplicidade, confiança, respeito, atenção e sexo sem pudor.

Lembrou-se do pai, e seu entusiasmo a respeito de Louise esmoreceu.

___preciso falar com ela. Não podemos iniciar uma relação com pendências tão graves como o casamento postiço que eles mantém.

Sentou-se e serviu a ração de Sir Lancelot.
Na mesa, arranjou o jantar que o motoboy trouxera. Abriu o champanhe e ajeitou o castiçal com velas.

____é preciso comemorar! Mas se ela estivesse aqui, seria perfeito.

Imaginou uma vida ao lado de Louise, com direito a manhãs deleitando-se do calor do corpo dela contra o seu e o perfume delicioso de seus cabelos e nuca, entranhado na pele, no travesseiro e nos lençóis.

Novamente a imagem de Antonio confessando o quanto amava Louise, fez a alegria vibrante de Victória, escurecer.

___como ele agiria se estivesse no meu lugar ?

A resposta estava fácil. Ele já estava agindo. Sabia que a filha também era prisioneira daqueles olhos azuis feiticeiros e que já arriscara a vida por Louise. Sabia que entre as duas, formara-se um elo especial, uma espécie de pacto.

A decisão de não se afastar de Louise, omitindo-se de agir contra a indiferença dela já era uma atitude que demonstrava claramente que Antonio estava disposto a disputar a Bittencourt com qualquer adversário que avistasse, mesmo que fosse a própria filha.

___não posso estar errada em aceitar a relação que ela me oferece. Afinal, está agindo conforme sua vontade e até quando ela permitir, a terei em meus braços – concluiu finalmente.

Terminou o jantar, preocupada.
A “Jour” não ligara. Titubeou ante a ânsia de contatá-la em seu celular. Conferiu o relógio: 22:10. Ligou e esperou quatro toques torcendo para que não desse “caixa postal”.
Ela atendeu.

___Estou comemorando a “Grande Virada”. – informou Victória, ansiosa para lhe contar as novidades.

Uma voz masculina próxima falou com Louise mas Victória só conseguiu pescar duas palavras: envolvimento e relação.
A Bittencourt pediu para Victória que desligasse e a esperasse fazer contato.

Os dentes afiados do ciúme e desconfiança, atacaram forte a detetive quando recordou porque a voz masculina ao lado de Louise lhe era familiar. Pertencia ao Enrico Campos, o jurista e criminalista famoso que já fora namorado da Bittencourt.

___o que será que estão tratando a essa hora e onde?

Lavou a louça pensando que não havia nada a temer da parte de Louise. Ela era uma mulher fiel aos seus sentimentos e leal com as pessoas. Um modelo de conduta , profissionalismo e eficiência que todos admiravam, mesmo os seus inimigos. Sim, porque pessoas como ela granjeiam amigos e inimigos ao longo de sua escala pelos degraus do poder.

Preparou-se para deitar. As emoções intensas do dia a deixaram exausta.

Louise ligou.

___conte-me sobre a “grande virada” – disse ela.

Victória relatou entusiasmada sobre a empresa de Seguros, incluindo a proposta de trabalho oferecida por Ivy Mayakovich.

___realmente. Uma boa notícia – confirmou Louise com voz neutra.

___Ainda está na cidade ?

___sim.

___Enrico está com você ?

Um breve silêncio do outro lado da linha.

___não. Apenas Julia. Ela quer ir à pizzaria.

___Está bem. Então, amanhã a gente se fala. – despediu-se Victória.

SOFISMA

Antonio escanhoara-se cuidadosamente, procurando com o tato por pontas da barba que a lâmina não alcançara.

Cortou-se em alguns pontos da pele.

As mãos ainda tremiam. Não entendia como alguém, em algum lugar na cidade, poderia interessar-se por sua infelicidade.
A rejeição de Louise, não lhe ferira tanto quanto aquele Dossiê que chegara pelos correios na manhã.

Os sentimentos desfilavam um a um dentro de si. Primeiro a surpresa, depois decepção, logo após, a dor lancinante causada pela traição.
Sua vontade era de gritar alto e queimar aqueles papéis odiosos.
No entanto precisava mantê-los consigo como o marco do desengano. Sim, desengano, raiva e amargura.

Pensamentos absurdos o acossaram. Livrou-se deles, pois não tinha coragem de levantar a mão contra a mulher que ainda amava.

Observou novamente cada fotografia. Nelas aparecia sua “jour” ao lado de um rapaz alto e de cabelos negros cacheados. Um belo exemplar de homem.
Barba feita e aspecto viril.

A maioria das imagens foram capturadas no portão de um pequeno sobrado de tijolo aparente, com a hera entranhando-se em suas ranhuras.

Sem sombra de dúvidas, havia outro homem na vida de Louise Bittencourt.

O que o intrigara é que o fotografo misterioso que flagrara aquelas cenas, poderia ter vendido suas chapas por uma boa quantia a um jornaleco sensacionalista qualquer.
Louise era uma figura pública e um escândalo em torno dela, daria uma bela manchete.
Mas o indivíduo agira de forma diversa, apenas remetendo as fotos para o esposo traído.

Ou teria remetido para mais alguém?

Duas vezes levou a mão ao telefone para ligar à Louise. Desistiu.
Vestiu-se e ganhou a rodovia, driblando o transito pesado. Não ia para o escritório. Precisava antes encontrar Victória.

DILEMA DE EDGAR

O titular do Oitavo Distrito, sentara-se em seu gabinete por longos minutos com os olhos fechados e as mãos entrelaçadas. As pressões aumentavam e não era difícil prever onde tudo iria desembocar, caso algo novo e de importância relevante não aparecesse.
Lera atentamente espessos dossiês lavrados pelas equipes policiais e a exegese subtraída do material indicava uma pessoa , provável líder do “Esquadrão de Justiceiros”.

Inicialmente avaliou a possibilidade de uma conspiração entre poderosos. Entretanto, de todos os lados surgiam indícios que não podia olvidar.

Todos aqueles anos trabalhando como um instrumento preciso na mão da justiça, entretanto naquele momento não conseguia agir com imparcialidade.

Levantou da mesa e ajeitou o terno nos ombros. Ainda podia contar com alguém para ajudar.

NECRÓFILO

O redator do jornal VERDADE INTERIOR, recebeu pelo correio um envelope pardo lacrado. Estava endereçado a si, mas não constava o remetente. Todos os dias recebia denúncias anônima, bilhetes para namorados e uma centena de papéis ordinários sem nenhuma valia. Pensou em joga-lo no lixo mas como lhe sentiu o farto volume, a curiosidade foi maior.

Dentro, cópias reprográficas de jornais, folhas impressas da internet, uma fotografia grande de uma jovem esguia, a de um rapaz e outras folhas impressas com a indicação CONFIDENCIAL no cabeçalho.

Passou os olhos no texto e minutos depois entendeu o que poderia significar aquela informação publicada em seu jornal. Correu para a máquina datilográfica escrever a matéria bombástica. No meio do parágrafo, interrompeu o movimento dos dedos.
Uma idéia atraente lhe ocorrera: ___quanto o velho Rusemberg estaria disposto a pagar para que aquela matéria não fosse publicada ? Qual pai, ou mãe, gostaria de que a reputação do filho fosse manchada com o estigma: necrófilo ? Mesmo depois de sua morte ? Estavam ali as provas. Depoimento de prostitutas às quais o jovem Douglas pagava para que fingisse ser um cadáver, pois de outra forma não conseguia excitar-se; acusação de um coveiro que relatara ter flagrado o jovem desenterrando cadáveres mas que temeu lavrar ocorrência pois saiba que a família do rapaz era poderosa. Indícios e mais indícios.

O Redator consultou a lista telefônica, fez algumas ligações e com uma desculpa precária ao seu superior imediato , saiu.

RECORDAÇÃO

Victória esperava sorridente pelo seu sanduíche. A alegria palpitante que sentia perdera o freio e ela só tinha olhos para Louise que viera um pouco antes da meia noite do dia anterior e ainda permanecia em sua companhia.

A recordação do momento em que ela ajoelhou-se ao lado de sua cama e chamou baixinho por Victória, despertando-a com seus beijos ardentes, toque senhoril, possessivo, estava vívida na mente da sonolenta detetive que teve seu sono interrompido pela amante sedenta.

___como entrou aqui ? – perguntara.

___a chave mestra, lembra ? – sorriu-lhe ela , deitando ao seu lado.
Os cabelos, úmidos, denunciavam que acabara de sair do banho.
___e Júlia ?
___eu a deixei na casa de um amigo. Temos filhos na mesma faixa etária.

Rolaram na cama como duas crianças , rindo, descobrindo-se. Nunca Victória a vira tão menina, de coração aberto.Guerreira que baixara o escudo para sorver a luz do sol.

Ela lhe sussurrara uma fábula inteira na língua de Voltaire.
Victória não lhe compreendia as palavras mas sorvia-lhe a doçura da voz, a forma sedutora como movia os lábios, o sentimento cristalino, represado nas íris dos seus olhos.

___cante para mim, minha querida! – pediu Victória.

Ela cantou baixinho enquanto lhe fazia amor. E quando atingiram o clímax, convulsas, de seus olhos desprenderam-se densas lágrimas.
Adormeceram abraçadas e agora estavam à mesa, servindo-se do café da manhã que Louise preparara.

Usavam roupão e depois de beberem o suco de laranja, leite e terminarem o sanduíche, Louise apanhou sua bolsa e de lá retirou um álbum de fotografia com capa de couro.

___você me disse certa vez que tinha curiosidade de saber como eu era na minha infância e juventude. Mandei reproduzir várias fotos do álbum que foi de meus pais e outras que estavam com parentes. É seu. Meu presente para comemorar a “grande virada”. Um presente um tanto egocêntrico, devo confessar.

Victória abriu o álbum e viu a foto de um bebê nu sobre uma mesa com uma toalha de renda. Os enormes olhos com pestanas espessas, eram encantadores. Outra foto, Louise com cinco anos, vestida de bailarina. Havia uma ao piano. Outra no carrossel, no parque e andando de bonde.

Di Angelis puxou-a para seu colo.

___existe algo que quero perguntar a você. Quero saber o que sentiu quando acreditou que eu havia perecido nas galerias subterrâneas.

Louise olhou-a, séria.

___não sei utilizar palavras para expressar sentimentos, Dian. Mas meu corpo, atos e gestos traduzem-me.

___eu a compreendo.

A Delegada levantou-se e acercou-se da Di Angelis.

___pelo álbum, quero uma retribuição. Algumas fotografias suas.
Vick sorriu e foi até o quarto separar as melhores que possuía. Voltou à copa com quatro fotografias e as entregou à Louise que após olhar uma a uma, guardou-as em sua bolsa.

Continuaram o langoroso namoro matutino, quando súbito o enleio entre as duas foi rompido por toques repetitivos na campainha.

___quem será a essa hora ? – inquiriu-se Victória.
Não se lembrava de ter combinado faxina com a diarista

Louise avisou que teria que se vestir para ir embora e dirigiu-se ao quarto enquanto Victória foi até a sala, verificar a porta.

Pelo olho mágico, avistou o pai no saguão com o rosto intensamente avermelhado.

Pensou em não abrir, deixando-o pensar que não havia ninguém no apartamento, porém, a expressão do rosto do pai a preocupou.

Abriu e o homem gigantesco entrou com suas passadas pesadas.

___o que aconteceu ?

___Louise. Ela traiu nossa confiança. Tem um amante muito mais jovem do que você. Veja.

Jogou as fotografias sobre a mesa de centro.

Victória adiantou-se para observar melhor e empalideceu. Em imagens nítidas, Louise e um homem desconhecido.

___deve haver uma explicação.

___não há explicação para esta sórdida traição. Fomos enganados. Eu e você. Não minta para mim. Eu sei que simultaneamente, ela está se deitando com este rapaz e com você. Veja as datas das fotografias. Quatro meses.

A voz exaltada dele, aumentou a intensidade.

Victória sentiu o rubor aquecer sua pele. Então ele sabia de tudo, ou desconfiava e estava testando-a.

___Nesse caso, tem razão. Sou eu quem deveria sentir-me traída. – completou com voz baixa.

___Eu ainda sou o marido dela! – gritou ele.

___que não compartilha o mesmo leito. E por outro lado, o senhor já está se servindo de mulheres jovens e bonitas para aplacar a libido e a solidão. O que mais quer ?

As palavras escaparam dos lábios de Victória e ela arrependeu-se tardiamente.

___Então ela já lhe falou sobre nossa intimidade ? Eu mantenho uma amante porque Louise não cumpre com sua obrigação de esposa. Fui tolerante, mesmo quando percebi que seu envolvimento anterior com ela, voltou e foi se estreitando. Mas outro homem na vida dela. Não aceito.

Victória sentou-se no sofá, aturdida. Não conseguia tirar os olhos das fotografias e cada uma delas lhe enfiavam uma adaga incandescente no peito.

Louise apareceu na sala. Ao vê-la Antonio desabou e sentou-se como um menino medroso no sofá ao lado de Victória.

___Nosso casamento. Um erro que pretendo sanar. – disse a Bittencourt, retirando a aliança do dedo e lançando-a ao chão. ___Meu advogado o procurará e espero que coopere. Cumprir obrigação de esposa. Uma expressão medieval, machista. Você bem sabe que a finalidade principal da instituição do casamento é de natureza patrimonial.

___Se abandonar este rapaz, podemos esquecer tudo.– contra argumentou Antonio, com voz embargada.___eu sei que você já me amou um dia.

___Esse amor, há muito se extinguiu. Antes, tolerava suas atitudes mesquinhas, agora o cálice transbordou. Chegou ao ponto absurdo de contratar um investigador para seguir meus passos. Não posso perdoa-lo por isso.

___As fotos. Eu as recebi pelo correio. Algum anônimo mal intencionado as remeteu.

___Argumento sem valor, Antonio. Eu sabia que precisaria tomar uma decisão um dia e optar, mas estava indecisa quanto ao momento certo. Você precipitou tudo. Saia. Preciso conversar com Victória a sós.

Ele obedeceu e saiu silencioso.

Victória sentiu-se mortificada e travada ante a revelação da existência de outra pessoa na vida de Louise.

O celular da Delegada soou e ela o atendeu, conversando rapidamente com seu interlocutor.

___preciso ir. – avisou, guardando o aparelho e as fotografias que Antonio trouxera na bolsa.

___diga que estas fotos são falsas, talvez uma montagem, ou então este rapaz seja filho de seus amigos. – pediu Victória, com voz fraca.

___não posso enganá-la, Dian. As fotos são verdadeiras e este rapaz não é filho de amigos. Não me pergunte mais nada. Não quero ter que me valer de mentiras com você.

___e eu não posso dizer que a entendo, porém não consigo raciocinar e avaliar nada direito. Em tantas ocasiões você me disse adeus e eu não aceitei. Sempre insisti ou cedi, voltando para seus braços, sua cama.

Louise sentou-se ao lado de Victória e a detetive leu em seus olhos frieza e distanciamento. Sabia o que aquilo significava: A arredia pérola fechara-se na ostra.

___talvez esteja no momento de não ceder ou insistir mais nesta relação. – disse a Bittencourt, levantando-se e saindo do apartamento.

Victória levantou-se e trancou a porta. Lembrou-se de um poema que contava a amargura de um amante abandonado, que atrás da porta, chorava silencioso, pensando em seu amor perdido e desejando que ela voltasse.

Fechou-se no quarto escurecido pelas cortinas e chorou.


O CERCO AO LÍDER DO ESQUADRÃO DE JUSTICEIROS

Procurando um novo escritório, Araújo e Victória andaram por meia dúzia de edifícios comerciais naquela semana. Encontraram um satisfatório dividido por divisórias em três ambientes .

A Di Angelis afundara-se nas atividades do trabalho pois ele ocupava seu tempo e mente. O pai ligara no celular, nos três dias após o “evento das fotografias”. Ela não o atendera. O impacto sofrido pela desilusão extrapolou sua resistência, gerando um torpor que lhe estancou a dor e a emoção.

Alugaram o espaço e cuidavam de instalar novos equipamentos eletrônicos. Pensou em ligar para Ivy, desculpando-se por não poder aceitar o trabalho de segurança.

Na sexta-feira, estavam instalados e atuantes. Edgar Meirelles ligou, dizendo que estava procurando-a para uma conversa particular e como soubera que ela estava muito ocupada, decidira esperar.

___podemos conversar nesta tarde no seu escritório? – perguntou.
___Claro Edgar.

Minutos depois, estavam instalados frente a frente na saleta de Vick.

___o que venho lhe revelar é confidencial e se descobrirem que tivemos esta conversa, vou estar encrencado.

___fique tranqüilo.

___Estivemos trabalhando meses a fio na investigação sobre o “Esquadrão de Justiceiros”. Conseguimos elaborar farto dossiê sobre a ação da quadrilha e o “modus operandi”. No entanto, a cada passo para capturar os membros e o líder, ele se adiantava como se soubesse de cada passo nosso.

___desconfiam de um policial ou vários deles. – ponteou Vick.

___sim, no entanto, outros indivíduos ligados ao Secretário da Segurança, começaram a instigar uma teoria perigosa, a ponto de retirarem o caso das minhas mãos e equipe. Formaram outra, sob o comando do Delegado Lourival Bastos.

___o titular do Quarto Distrito ?

___exato. Isso aconteceu na semana passada. Nesta semana, o rumo da investigação deles, agora sei, apontou indícios fortes de que Louise seria a chefe do “Esquadrão Justiceiro”. Sob suspeita, ela foi afastada da Seccional e terá que responder a processo administrativo.

___Um absurdo. – Indignou-se Victória.

___Sim, mas eles basearam-se em indícios misteriosos. O primeiro indivíduo a ser executado pelos Justiceiros e que deu início à série de execuções, foi o que molestou Julia Bittencourt. No período em você que esteve ausente, acompanhei de perto o sofrimento silencioso e o ódio corrosivo que se apoderou de nossa titular. Por duas vezes, pensei que ela cuidaria de executar sumariamente Vanderley Mendes.

___mas não o fez.

___A situação piorou quando um policial que dirigia a viatura para Louise, encontrou no porta luvas, três objetos. Uma caneta tinteiro, um relógio e um lenço. Em todos havia a inscrição de um nome. Verificando o nome, constataram que eram de três vítimas dos Justiceiros.

___o que Louise disse à respeito ?

___que desconhecia os objetos.

___Alguém poderia ter “plantado” as evidências na viatura.

___certo. No entanto, o Lourival em conversa informal, perguntou à Louise onde ela estivera no período em que aconteceram as três últimas execuções. Ela se negou a informar, alegando que era assunto de foro íntimo.

___não tem um álibi.

___é.

___E agora ?

___responderá Procedimento Administrativo, inicialmente.

O Telefone de Edgar tocou. Ele ouviu calmamente o que diziam do outro lado da linha e desligou.

___um policial da Seccional, avisando que receberam ordem de fazer uma busca no carro de Louise e encontraram mais objetos pertencentes às vítimas e a detiveram em seu gabinete.

___Isso é inconcebível. Louise acusada de assassinatos ?

___mas o advogado dela, Dr. Enrico Campos já foi acionado para impetrar Hábeas Corpus. Em menos de duas horas ela será liberada e responderá a inquérito policial em liberdade.

Victória agora entendia porque ouvira a voz de Enrico ao lado de Louise. Ela já devia saber que estava entrando em risco e contatou o profissional para defende-la.

___o que pode fazer para ajuda-la ? –perguntou Vick para Edgar Meirelles.

___nada, mas você pode.

___não sou policial.

___mas é detetive e eu a quero trabalhando no caso. Você quer ajudar a provar a inocência de Louise ?

___sim, é claro. Faria isso por ela mesmo que estivesse afastada de qualquer atividade.

___pois temos que agir rápido. Alguém está querendo incrimina-la e esta pessoas e seu bando, mostraram que possuem capacidade para tanto. A justiça em nosso país, ainda é precária e na pior das hipóteses, Louise vai ser indiciada no inquérito e vão leva-la ao júri popular com grande chances de ser condenada e trancafiada em uma penitenciária ou em um Manicômio.

___isso não pode acontecer. Só a repercussão na mídia já seria suficiente para marcar sua carreira, prestígio e reputação.

___temos que agir rapidamente. Aqui estão as cópias de tudo que conseguimos obter nas investigações. Juntei todos os racunhos dos relatórios preliminares da equipe e ainda acabei tendo que me servir de cópias irregulares dos que os policiais do 4o DP estão elaborando.

___Miranda o ajudou ?

___sim, e tanto ela quanto os antigos membros da Equipe dos Neblinas estão do nosso lado. No entanto estou mantendo em segredo a sua participação nisso. Se houver algum policial do Oitavo Distrito envolvido nos crimes, devemos ter prudência.

___Louise sabe sobre esta ação paralela dos policiais a seu favor ?

___não.

___e sobre me colocar investigando o caso?

___Se ela descobrir, é possível que nossa amizade acabe. Você a conhece o suficiente. Não toleraria que eu me posicionasse em atividades irregulares, nem que fosse para inocenta-la.

Victória apanhou o dossiê e folheou-o rapidamente.

O telefone tocou. Era o Araújo que havia saído para providenciar alguns equipamentos.

___O José Rusemberg voltou atrás quanto à promessa de nos encarregar das investigações para a Seguradora. Disse que as suas acusações infundadas a respeito do filho dele, se forem publicadas, ele moverá um processo contra nós e arruinará nossa vida e carreira.

___mas o que aconteceu ?

___Ele “comprou” o seu Relatório Propedêutico de um redator. Por sorte o indivíduo achou que lucraria mais vendendo o relatório do que fazendo-o ser publicado. Disse que recebeu o material pelo correio.

___Nesse caso, estamos na estaca zero novamente. Acho melhor não comprar todo o equipamento.

Desligaram.

___um absurdo. O relatório básico que fiz sobre Douglas Rusemberg e que emprestei para Louise providenciar cópias, acabou sendo remetido para o pai do rapaz. – desabafou Victória.

___eu vi este relatório. Inclusive tem a cópia dele neste dossiê. Um trabalho minucioso. Louise me mostrou, antes de passar para a equipe providenciar cópias.

___e se alguém da equipe fez outra cópia e a remeteu pelo correio, este policial não é de confiança.

___sim. Por isso estamos agindo na cautela e vigiando também nossos aliados. Ainda falta um mês para o próximo ataque dos Justiceiros. Até lá, penso que teremos algum tempo para trabalhar.

___vou ler o material com atenção. – avisou Victória, guardando o envelope com o dossiê em sua valise fechada no segredo.

Edgar levantou-se e despediu-se.

___mantenha-me informado.


Araújo reapareceu no escritório visivelmente nervoso.

___nossa mina de ouro secou antes mesmo de conseguirmos desfrutar dela . Com o dinheiro que temos em caixa, só agüentamos quatro ou seis meses.

___na pior das hipóteses, você pode pegar o “pro labore” integral. Ainda tenho minhas mesadas.

___ainda ? – questionou Araújo.___já leu a manchete do jornal de hoje ?

___não. O que diz?

___o fim do casamento da Bittencourt e seu pai. Outras matérias menos criteriosas, falam que com a separação, Antonio Di Angelis estará quebrado.

___ele está bem empregado. Trabalha como engenheiro químico responsável para a indústria que fabrica a linha de cosméticos e perfumes: Sekhmet. – retrucou Victória, despreocupada.

___e a Sekhmet pertence a quem ?

___não faço a mínima idéia.

___Ao Grupo “Soleil”.

___Trocou seis por meia dúzia. Continuo não entendendo onde quer chegar.

___Está bem. Serei direto. O Grupo “Soleil” pertence à Louise Souza Bittencourt.

___isso é a morte! – exclamou ela, deixando o corpo desabar na carreira. Na sua mente, encarava a dura verdade. Se o pai se arruinasse, ela perderia o sítio.

 

1 + 2 + 3 + 4 + 5 + 6 + 7 + 8 + 9 + 10 + 11