PERIGO NA NOITE




Di Angelis aceitou acompanhar Ivy Mayakovich em suas atividades do fim de semana. Não podia se dar ao luxo de dispensar o trabalho. Segunda feira estaria de volta ao interior, para o trabalho no escritório e iniciar os trabalhos com o caso do "Esquadrão de Justiceiros".

Assistiu os exaustivos ensaios da troupe e depois a acompanhou até a ginástica e sauna.

___eu a inscrevi nas aulas de ginástica e musculação. Faremos juntas, assim estará sempre por perto. - avisou.

Um rapaz alto e moreno, apareceu quando as duas saiam da academia.
___estive pensando em assistir um filme - convidou.
___me ligue mais tarrrde e combinaremos. - assentiu Ivy.
Victória percebeu que o moço, um dos componentes da companhia de dança, tinha um aspecto de poucos amigos.

___Daniel é assim. Sisudo, mal encarado mas um bom sujeito. Estamos namorando há alguns meses. - desculpou-o a filha do diplomata.___foi ele quem me convenceu a me livrar dos guarda-costas e arranjar alguém mais discreto.

No caminho, a jovem resolveu parar no supermercado. Parecia uma menina contente por estar em lugares abertos à vontade. Na escolha do tomate, consultou Victória.
___qual seria melhor para a salada ?

___não entendo nada de cozinha, mas a mulher de meu sócio aprecia os tais tomates italianos. São pequenos, vermelhos e de formato longo.
___deve ser aquele ali. - apontou Ivy.
___é.
___mas tem os que parecem um caqui. Muito bonitos.
___estes são aguados, no entanto, dá pra fazer boa salada.
Saíram para o estacionamento, carregando pesados sacos de compras.

Victória colocou tudo dentro do carro e assumiu a direção do veículo.

No sobrado que Ivy alugava, o jovem mostrou onde seria seu quarto.

___não precisa ficar embaraçada. Meu pai insiste que tenho que manter os seguranças na casa.

___onde estão instalados os outros ?

___em apartamentos no prédio ao lado.

Ivy preparou a lasanha que comprara congelada e a serviu em dois pratos.

Daniel ligou. Havia mudado de idéia.

___ele vem, mas não vamos ao cinema.

Minutos mais tarde, Victória foi até seu quarto e ficou satisfeita em constatar que ali havia uma boa cama de solteiro, uma mesa de estudo e televisão. Queria poder ler o dossiê que Edgar lhe entregara, fazer algumas ligações e assistir o jornal antes de se deitar.

Ouviu quando o rapaz chegou e se fechou no quarto com Ivy.

Apanhou o número do celular de Romeu, o chefe dos guarda-costas que estava instalado em seu quarto no prédio vizinho e perguntou sobre Daniel. Ele assegurou que já investigara a vida pregressa e ficha do moço e que estava tudo bem. Era filho de boa família e um dançarino de carreira.

Voltando a se concentrar na leitura do dossiê, fez algumas anotações dos pontos que a intrigava. Havia indícios de pessoas da mais variadas idades que foram vistas próximo de onde foram encontrada as vítimas. A vítima de enforcamento com linha de pescar, foi visto minutos antes no barranco do rio, conversando com um homem velho que trazia um samburá de peixes na mão.
No caso de Douglas, uma empregada vira uma mulher de meia idade, vestida de arrumadeira, pelo corredor da pousada. No início não deu muita atenção, mas quando o rapaz foi encontrado morto, procuraram pela tal arrumadeira nova, mas nenhuma havia sido contratada, informou o gerente.

Um barulho sincronizado contra a parede, fez Victória sorrir.

___estão transando. - constatou, imaginando como deveria ser curioso o sexo entre dois dançarinos, fortes e flexíveis.

A dor de cabeça reapareceu. Sabia o que significava. Pingou algumas gotas de um remédio homeopático na língua e fechou os olhos. Aquela dor, reaparecia toda vez que algo lhe fazia lembrar de Louise.
Era um ciclo conhecido. Quando sofria alguma desilusão, decepção ou perda, Victória lançava a causa do sofrimento no seu "poço interior" e lá a deixava esquecida. Mas sabia que sua mente costumeiramente, fisgava vez ou outra, algo das profundezas, traduzindo-as em dor física.

O celular chamou. Atendeu ansiosa.

___Victória, onde você está ?

___em São Paulo.

___Uma pena. Adriana e eu vamos levar Nicole no circo hoje e pensamos em convida-la para ir também.

___é. Uma pena mesmo, Liz. Estou trabalhando. Segunda-feira retorno.

A médica ficou em silêncio por breves instantes, mas voltou a falar.

___vai entrar com o pedido de reintegração na polícia junto à Justiça Estadual ?

___Sim. O advogado está terminando de juntar os papéis necessários. Mas preciso aguardar mais algumas semanas até que possa fazer novos exames e anexar o resultado na petição inicial.

___se tudo correr bem ?

___talvez em um ou dois anos, consigo voltar.

___muito tempo. Sinto saudades de você. Gostaria de poder tê-la próximo como antes. - desabafou Lizandra.

___vai passar rápido. É só não ficarmos pensando muito. - consolou-a.

___ está em que região de São Paulo ?

___Nos Jardins.

___amanhã cedo estarei aí para vê-la.

___não. Não pode vir.

___não quer me ver ?

Victória sentiu o coração apertado. Lizandra ainda lhe fazia o coração vibrar.

___está entendendo errado. A questão não é querer. É poder. Não podemos, você sabe.

___está preocupada com Adriana ?

___sim. Eu já magoei pessoas demais na vida. Estou tentando criar um pouco de juízo. É difícil, mas eu tento.

___eu e ela estamos "dando um tempo" no relacionamento.

___e porque ? Vocês parecem se dar tão bem ?

___e nos entendemos bem. Mas existem algumas pendências que precisam ser resolvidas e ela pediu o tempo.

___ah! - concluiu Victória, preocupada. A intuição lhe dizia que uma das pendências tinha um sobrenome: Di Angelis.
___então podemos nos ver amanhã ? Tem uma exposição de escultura imperdível no MASP.

___ainda estarei trabalhando, não sei se poderei ir.

___eu vou chegar e ligo. Penso que em algum momento, você poderá ter uma folga.

___é.

___então está combinado. - disse ela antes de desligar.
Victória respirou fundo.

___Conversa difícil. - pensou.

Voltando a folhear o dossiê, encontrou com uma série de retratos falados dos indivíduos misteriosos que foram vistos minutos antes dos "suicídios".

Mestre Takahishi elaborou um estranho relatório a respeito. Disse ter recebido a ligação de uma mulher que dizia conhecer boa parte daqueles rostos dos retratos falados publicados em um jornal. Ela trabalhava na Casa da Saúde Mental do Estado, um complexo enorme, dentro de uma espécie de sítio arborizado, com muros altos pintados de branco.

O Edgar que nunca deixa para trás qualquer indício, pediu que o doutor William Salomão, Takahishi e Ana Beatriz fizessem uma averiguação no local. Encontraram realmente, pessoas com as feições muito semelhantes às dos retratos falados, só que todo trabalho resultou em vão.
Curiosamente, todos eram portadores de Autismo e haviam sido abandonados na Casa de Saúde pelos familiares.

___e aí, mais uma evidência que deu na água.

Não havia outros relatórios depois do de Takahishi e Victória concluiu que aquela fôra a última diligência antes que Edgar e sua equipe fosse afastada das investigações.

As batidas na parede cessaram e Vick imaginou que o casal apaixonado já havia adormecido.

___uma mulher de parar o trânsito. - pensou ao rememorar os olhos cinza azulados da filha do diplomata e os olhares admirados das pessoas que a avistavam. Não era só uma jovem bonita. Tinha algo exótico e se parecia com uma imagem de ilustração retirada de contos sobre a vida dos Czares russos. Vê-la dançar era magnífico. Nos treinos, as coreografias eram repetidas exaustivamente até atingirem o máximo da capacidade dos dançarinos.

Ligou a televisão em baixo volume. O celular tornou a tocar. Atendeu distraída e teve um sobressalto ao reconhecer a voz de Louise.

___Di Angelis, onde você está.

A pergunta, direta a deixou atordoada.

___em São Paulo. Trabalhando. - respondeu insegura.

___Quero que saiba que não vai perder o sítio.
___como ?

___Fiz um acordo com Antonio. Ele continua na diretoria da Sekhmet e mantém o custeio do sítio. As demais despesas, com os veículos, apartamento e outros gastos, será por sua conta.

Victória enrubesceu. Novamente a Bittencourt e Antonio Di Angelis decidindo sobre sua vida. Entretanto, o medo desesperado de perder o sítio que herdara da mãe, a fez engolir o orgulho. Estava ganhando o tempo que necessitava até para tentar estabilizar financeiramente na vida. Quando isso ocorresse, estaria livre de sua vergonhosa dependência.

___obrigada. Estou trabalhando para deixar de ser dependente.

___você vai conseguir. Tem potencial. - incentivou ela, com voz em um tom baixo.___quando estará de volta ?

___segunda.

___venha jantar conosco na segunda. Julia quer vê-la. A minha separação de seu pai, não a tornou "persona non grata" em minha casa. Poderá vir quando quiser.

Victória acovardou-se. Temia ir ao jantar e encontrar o rapaz forte de cabelo negro cacheado, sentado à mesa ao lado da "Jour". Sabia que agora nada mais impediria que ela assumisse seu romance secreto.
Uma raiva borbulhante galgou a garganta de Vick. Tinha ânsias de gritar, chamá-la de prostituta, vadia , mas conteve-se.

Louise ligara na paz e para demonstrar que se importava. O relacionamento das duas sempre fôra precário. Se o que tiveram, pudesse ser denominado de relacionamento.
Louise nunca a iludira e nem lhe prometera fidelidade.

___você virá ? - Louise perguntou com frieza, irritada com o silêncio da Di Angelis ao telefone.

Victória tentou esquivar-se.

___posso ligar na segunda de manhã ?

___Não. Eu contatarei amanhã para confirmar. - cortou ela, antes de encerrar a conversa.

___sempre senhora da situação. - pensou Victória.

Uma porta batendo com força, a assustou.
Levantou-se da cadeira e abriu a porta do seu quarto com cautela. Avistou Ivy na sala somente de roupas íntimas, com um sorriso embaraçado.

___Daniel tem um temperamento difícil. - informou.___aborreceu-se com um comentário tolo que fiz a respeito de seu piercing.

___ah sim. Concluiu Vick, voltando para seu quarto. Ivy seguiu-a e sentou-se à mesa. A Di Angelis apressou-se em fechar o dossiê e guarda-lo na pasta.

___sempre desconfiada e arredia, senhorita Angel. - riu a filha do diplomata ante seu gesto.
Seu corpo alvo, era finamente esculturado pela musculatura poderosa que, entretanto, não lhe diminuía a feminilidade.
Os cabelos loiros cor de trigo, estavam soltos e alcançavam o meio das costas.

___se não se importar, gostaria de continuar com meus apontamentos, a sós. - pediu Vick, aborrecida.
Ivy saiu do quarto e encostou a porta, com um meio sorriso nos lábios.

___O que mais poderia me tirar a paz hoje ? - perguntou-se, enquanto ligava seu note book e conectava a internet. A conexão estava rápida e Victória digitou a url de um site de buscas. Antes de inserir as palavras chaves, a tela escureceu.

___o que é isso ? - aborreceu-se. O equipamento era novo.

Segundos depois, reapareceu uma imagem. Nela, havia uma espécie de cidade virtual em três dimensões, como em alguns games. No centro, uma jovem alta de cabelos negros e outra loira. Sempre lado a lado.
Estavam em uma sala.

___um vírus ? - pensou. Vick.

Na tela, as personagens começaram a mover-se, saindo da residência e na rua, ao passarem a porta que dava acesso à calçada, foram abordadas por dois homens encapuzados, armados de pistolas e metralhadora. Um carro parou em frente à residência, a jovem loira foi imobilizada com a ameaça das armas e puxada para dentro do veículo onde haviam o motorista e mais um homem.
Antes de embarcar no carro, um dos homens alvejou a jovem morena com a metralhadora.
Como uma boneca desenhada em três dimensões, caída na calçada, o sangue merejava de seu corpo e escorria para o bueiro.
O carro fugiu em disparada.
Era um Audi preto.

Victória gemeu de ansiedade.
Miragem desaparecera de sua vida por um bom tempo, mas voltara e se revelara porque previra o perigo de morte de sua avatar alfa.
Certamente interceptara os preparativos do seqüestro através dos celulares e aparelhos eletrônicos dos marginais. Nada impedia Miragem de se mover pelos fios e aparelhos eletro-eletrônicos.

Avaliou a situação. A imagem em três dimensões repetia-se.

Estendeu a mão ao celular. Pensara em pedir ajuda ao Edgar. Na pior das hipóteses, para Louise. Estacou. Viu no canto da tela, o horário aproximado do ataque que seria na manhã do dia seguinte.

___seria mesmo possível que planejavam seqüestrar Ivy no domingo? O que teria incentivado os indivíduos ?

Intuía a resposta. Ivy sempre se fazia acompanhar por homens altos e armados, mas desejosa de um pouco de privacidade, principalmente com o namorado, contratara Victória e deixara o resto da "tropa" instalada no prédio ao lado. Na abordagem na calçada, os criminosos teriam apenas que se livrar de uma mulher.

___mas uma das medidas de segurança adotada é nunca se hospedar no mesmo lugar. Romeu me explicou como funciona o sistema. Entretanto, Daniel esteve aqui e sabe onde a namorada vai estar hospedada até o dia seguinte. Só pode ser esta a explicação. Daniel está envolvido com a quadrilha. Não poderiam saber onde estaria hospedada a filha do diplomata na noite do sábado.

Pensou no que faria. O chefe dos seguranças já havia informado que houvera uma tentativa de seqüestro frustrada contra Ivy. Fora na porta do teatro onde ela se apresentava. Decerto seria a mesma quadrilha. - concluiu Victória.
Acionou a tecla enter e a cena na tela desapareceu, formando-se uma caixa de texto.
___porque voltou ? - digitou Victória.
___A avatar alfa em perigo.
Letras apareciam com rapidez
___não sou mais sua alfa. Este foi nosso acordo.

___sempre pertencerá a Miragem.

___o que quer de mim ?

___o que possui de valor. A Alma.
Respondeu antes de fazer o note book desligar-se.

___Miragem utilizando termos abstratos como alma? Ela não consegue entender quase nada dos valores que importam a uma personalidade dentro dos padrões normais.

Lembrou-se do pequeno Tomagochi, conhecido como Oppus. Um poderoso processador de dados que estaria ensinando Miragem e sua irmã, o caminho para saírem de seu mundo interior.

___talvez ela esteja evoluindo. - pensou.___mas ainda é perigosa.

Apanhou o celular. Precisava descobrir como se livrar de quatro homens fortemente armados em um Audi preto. Possivelmente não teria como retirar Ivy do prédio antes do amanhecer. Certamente ela não acreditaria na história mirabolante que teria para contar. Não acreditaria na culpa de Daniel e precipitaria tudo.
Quanto aos seguranças, não sabia se podia confiar na equipe. Poderia ser que algum deles estivesse envolvido. Se mantivesse Ivy presa no prédio, era bem provável que os criminosos armados entrassem na casa, e assim, estariam encurraladas como em uma ratoeira.
Era preciso fazer com que o confronto ocorresse em lugar aberto.
A polícia local não poderia ser acionada. Não acreditariam em tentativa de seqüestro baseada em argumentos abstratos. Neste raciocínio, teria que retirar Edgar e Louise da parada. Não poderia explicar para a Bittencourt a existência de um gênio autista que a auxiliava em situações extremas.

Seus colegas, Agnaldo e Leandro, ambos não fariam muitas perguntas, entretanto ela sabia que os dois possuíam pouca experiência em operações arriscadas. Não queria colocar a vida deles em risco.

Entretanto, uma pessoa possuía o perfil esperado e não faria perguntas além do necessário, se usasse o argumento certo para convence-la.
Ligou para Ana Beatriz.
Conversaram por longos minutos.

Quando desligou, sentia-se mais confiante. Ana era uma policial experiente e possuía o conhecimento e sangue-frio necessário. A palavra chave para convence-la fora: ___Louise ficará orgulhosa de você.

Deitou-se para dormir por algumas horas. Precisava estar descansada e atenta para a ação do dia seguinte.

Cinco horas da manhã, já arranjara a pistola no coldre da coxa. Vestira o fino e leve colete à prova de balas por baixo da roupa.
Na euforia de ter conseguido a conta da empresa Seguradora, Victória comprara o caro equipamento de segurança para si e o parceiro entre outros eletrônicos.
Depois que descobriram que não teriam mais a conta, não houvera como devolver parte do equipamento.
O dia amanhecera frio e nublado e as roupas de frio ajudariam a ocultar o aparato.
Saiu até a saleta e esperou que Ivy saísse de seu quarto.

___já acordada ? - perguntou a dançarina.

___sim e você, aonde vai ?

___ah, não se preocupe. Estava só esperando a padaria da esquina abrir para comprar pães e outras delícias feitos na hora. Quero preparar um bom café da manhã para Daniel.
___ele virá para saírem ?

___não. Vou sozinha. Não tem perigo, é bem perto.

___Eu a acompanho.

___Está bem. Vou pegar o casaco e a touca. Está bem frio lá fora. - avisou a filha do diplomata antes de entrar em seu quarto.
Se Victória tinha alguma dúvida a respeito do envolvimento de Daniel, esta se dissipou. Certamente ele havia sugerido à namorada o café da manhã romântico.

Ivy retornou à sala.

___um momento. - disse apanhando-a pelo braço.___ Tem algo que preciso lhe falar. Seqüestradores nos esperam na calçada e Daniel está envolvido.
Ivy a olhou preocupada.
___Se há algum perigo, então preciso avisar o Romeu.
___não. Não tenho certeza de que além de Daniel, não haja outros envolvidos.

___Então vamos chamar a polícia. - irritou-se Ivy.
___não virão enquanto não houver uma ocorrência real.

Ivy estendeu a mão para apanhar o telefone fixo. Victória arrancou o aparelho da parede.
___o que está fazendo ?
___você precisa confiar em mim.

___não. Eu confio mais nos meus seguranças e em Daniel. Vou chamar a polícia.
___não fará isso. - disse Victória, atacando-a com um aparelho de dar choques.
Precavera-se , imaginando a possível resistência de Ivy. Sabia que a dançaria tinha uma força muscular poderosa, além de habilidades acrobáticas. A única saída era fazer com que sua musculatura entrasse em curto e a travasse.

Lágrimas escorreram dos olhos da moça estupefata. Com o aparelho, sua musculatura travara e não conseguia se mover, sentindo fortes dores musculares.
___porque a traição ? Quanto lhe pagaram ? - balbuciou.

___cedo descobrirá quem a traiu. - disse Victória, apanhando uma tesoura e cortando o cabelo de Ivy na altura dos ombros. Depois, arrastou-a até o quarto e amarrando-a com tiras dos lençóis, a escondeu dentro do armário.

Procurou o grande sobretudo da moça, sua touca, óculos escuros de lente sextavada e botas de cano alto.
Vestiu-se e prendeu o cabelo, ocultando-o sob a gola alta do sobretudo. Na testa, encaixou mechas dos cabelos loiros saindo por debaixo da touca. Distribuiu mechas pendendo pela lateral do rosto e um pouco na nuca.

Calçou luvas e consultou o relógio. Ante ligou para Beatriz.
___Estou saindo. Seja eficiente. Dependo de você.

Abriu a porta com o chaveiro de Ivy e ao sair, um homem jogou seu corpo contra o dela, encostando a arma em seu pescoço.
___se reagir, acontece o pior. - avisou.
O outro, armado com uma pequena metralhadora, aproximou-se e verificou a área com cuidado.
___a guarda-costas não veio. - concluiu.___uma otária sem experiência.

A ação da quadrilha, funcionou rápida. O Audi apareceu na quadra, parando defronte. Victória foi empurrada para dentro de veículo.

___droga, onde estará Ana Beatriz ?. - pensou Victória.

O veículo disparou cantando pneu, mas não conseguiu avançar duas quadras. Uma explosão fez com que a roda dianteira do carro soltasse e a velocidade fizesse o automóvel capotar várias vezes.

Atordoada, Vick encolheu-se em posição fetal e esperou que o veículo parasse de capotar. Minutos de pesadelo. Quando tudo cessou, arrastou-se para fora do veículo pelo vão do vidro lateral estilhaçado. Partículas dele a arranhavam mas não esmoreceu. Um dos homens também saíra do veículo e ao vê-la, percebeu o engodo. As mechas loiras haviam despencado.

Procurou sua arma, mas Victória foi mais rápida, sacando a pistola.

___Abaixe-se e deite na rua. - mandou.

Imobilizou-o prendendo-o com algemas.

O outro, saiu correndo, mas carros da polícia e o pessoal do Romeu já haviam se acercado do veículo.

___que bom que vocês chegaram! - falou Victória, aborrecida por ter participado da capotagem. Combinara com Beatriz que o veículo seria detonado, antes que fosse obrigada a entrar nele.

Beatriz apareceu, conduzindo uma pálida e assustada moça loira.
Ivy aproximou-se dos capturados. Não conhecia nenhum deles.

___Onde mora o Daniel ? - perguntou Victória.
___Romeu pode indicar o caminho. Ainda não acredito que ele está envolvido com esta quadrilha - respondeu a jovem.

Ana Beatriz ditava a ocorrência para o policial chefe da patrulha e Romeu explicava que não poderiam dar publicidade ao caso, pois se tratava da filha de um diplomata. A imprensa chegou e foi entrevistar Ana Beatriz.

___só diga o que combinamos. - avisou Victória antes de sair, auxiliada por Romeu. Pedaços miúdos de vidro, haviam rasgado o tecido da calça, lanhando-lhe a pele. Os cotovelos estavam ralados e o tornozelo torcido. Sentia dor muscular por todo o corpo.

Mais viaturas chegou no local, sendo que algumas, levando os quatro presos, saíram em disparada para a captura dos demais envolvidos.

Instalada em um quarto de um hotel cinco estrelas, Victória recebeu o médico que veio examina-la e cuidar de suas escoriações.

Quando ele saiu, Ivy entrou no quarto. Estava pálida. Romeu e a guarda-costas feminina, chamada Anita, a acompanhavam.

___sinto o que ocorreu, senhorita Angel. - desculpou-se ela.___haviam me informado sobre esta sua capacidade fenomenal em detectar o perigo, mas não queria acreditar que Daniel estivesse envolvido ou que eu não pudesse confiar em meus guarda-costas.

___errei quanto aos guarda-costas, mas naquele momento, estava insegura sobre em quem confiar. O que pretende fazer agora ?
___lavramos a ocorrência sobre a tentativa de seqüestro. Encontraram Daniel e mais duas pessoas no local onde seria meu cativeiro. A quadrilha foi desbaratada mas a ocorrência foi lavrada em seu nome. Não posso me expor. Além de chamar a atenção de outros criminosos, descobririam que a dançarina do Teatro Municipal também é filha de um diplomata. Por outro lado, meu pai me faria interromper os estudos e retornar para a Ucrânia.

___pode ser uma medida melhor, voltar para Brasília ou para a Ucrânia. - sugeriu Victória.

___eu não posso. Amo esta cidade e seus habitantes.Amo a dança e não quero interromper meus estudos.

___pode ser que um dia canse de ficar itinerando de hotel em hotel.

___estou acostumada e tudo tem um preço.

Ligou a televisão e o noticiário alardeava o acontecimento do dia. O repórter entrevistava Ana Beatriz, apontada pela mídia como a policial heroína que salvara a ex-colega de um seqüestro.

___acham que fui eu o motivo do seqüestro ? - perguntou Victória.
___pedimos à mídia que mudasse alguns pontos, por motivo de segurança.


O celular da detetive tocou.

___Victória, você está bem ?

___sim.

Lizandra passou a soluçar. Mal se preparara para ir até São Paulo e os noticiários a deixaram alarmada.

___estou indo até aí.

Sem ter como demover a intenção da ex-namorada, Victória forneceu o endereço.
Desligou com o rosto ruborizado.
___uma amiga. Ex parceira de equipe de investigações. É médica legista.

Ivy a olhou em silêncios por uns minutos. Depois fez sinal para que Romeu e sua companheira saíssem do quarto.

___vou até o salão de cabeleireiro do hotel acertar o corte de cabelo que você me fez.

___lamento. É um lindo cabelo, mas precisava me passar por você e tive que improvisar uma peruca.

___arriscou sua vida por mim.
___a idéia era que minha doce ex-colega detonasse a carga de explosivos no eixo da roda dianteira, antes que eu fosse obrigada a entrar no carro. Com a explosão, o carro viraria e deixaria dois deles atordoados, enquanto eu me encarregaria de correr para dentro da casa e chamar a polícia. Queria flagrar a quadrilha completa. No entanto,
na prática, as coisas saem diferente do que se idealiza na teoria. Sempre diferente.

Ivy riu, acariciando o rosto de Victória.
___Tudo aconteceu no seu primeiro dia de trabalho. Acredito que não vá mais querer trabalhar para mim.

___ou que você não vai me querer mais como guarda-costas. Tenho um talento sobrenatural para atrair encrencas.

___na verdade, tem um talento incomum para se antecipar ao ato criminoso. Consegui sua ficha policial antes de contrata-la. Conheço pessoas no alto escalão da polícia. O que li em seus assentamentos, dava para escrever o roteiro de um seriado de ação e aventura. Uma carreira fantástica.
___interrompida prematuramente. - emendou Victória com amargura.

___Agora, tenho motivos ainda maiores para querer mantê-la como guarda-costas. Descanse. Vou ajeitar o cabelo e mais tarde nos veremos.

Assinou um cheque no valor de cinqüenta mil reais e deixou sobre a mesa.

___antes que me esqueça, aqui está seu prêmio. Se eu tivesse sido seqüestrada, pediriam uma fortuna em dinheiro ao meu pai. Isso sem a garantia que me manteriam ilesa.
Saiu.

Victória estendeu a mão e apanhou o cheque. Depois guardou-o em sua valise. Com aquele dinheiro, ganhava fôlego para manter os trabalhos no escritório.
Na mesa do quarto, estavam dispostos todo o material e equipamento de Victória, inclusive o note book. Levantou-se para trabalhar um pouco com o dossiê dos Justiceiros. Tinha um mês para desvendar o enigma e provar a inocência de Louise. Isto a deixava ansiosa.

Ana Beatriz ligou.
___e então o que achou da carga de explosivos?

___quer saber o que achei quando meu mundo virou de pernas para o ar ?

___desculpe-me. Eles agiram rápido demais. Quando percebi o movimento, não tive certeza se você estava dentro do carro. A sorte é que por precaução, inseri explosivo de potencia suficiente apenas para fazer o eixo partir-se.

___está certo. No fim, tudo se resolveu. Recebi um prêmio em dinheiro. Acho que posso lhe ceder dez mil.

___você sabe que eu, como policial não posso aceitar dinheiro de particular.

___é verdade. Ofereci porque achei justo.

___já estou sendo compensada. Acertei em confiar nas suas teorias conspiratórias. Possui talento especial para farejar encrencas, não é ?

___você já viu este talento de perto.

___sim, principalmente naquele ninho de serpentes perigoso que nos metemos por palpite seu.

___onde ?

___nos subterrâneos, procurando pelo "Devorador de Almas".

___ah. É claro que me lembro. Mas, mudando o assunto, como está sendo compensada?

___Louise ligou.

___eu disse que ela se interessaria.

___Ela me elogiou e perguntou detalhes sobre o incidente. Já meu pai, está irado. Quer saber como fui me meter em uma tentativa de seqüestro em São Paulo. Disse a ele que estava aqui a passeio e você me chamou no celular, pedindo ajuda.

___Estava a passeio e com um kit de montar bombas na bolsa?
___sempre ando com meu kit. - completou Beatriz.

Encerraram a ligação e Victória procurou dormir.
Meia hora depois, Lizandra apareceu. Os olhos avermelhados mas ainda assim, com um tímido sorriso no rosto atraente.

___pensei que com este acontecimento, você iria desistir do emprego.
___Não. Ainda preciso do dinheiro.

___se arriscou demais.

___Como nos tempos da polícia, onde a tarefa de entregar uma simples intimação podia ser bem arriscada. Além do mais, tenho confiança de que agora tudo vai amainar. Como diria o sábio ditado: depois da tempestade, a bonança.

___gostaria de ter a sua confiança. - concluiu Lizandra, sentando-se na cama, ao lado de Vick.___deixe-me olhar os ferimentos. - pediu.
___só arranhões e escoriações. - informou a detetive, preocupada com a aproximação de Liz.
A médica examinou as ataduras, os curativos e apalpou o tornozelo de Victória.

___aparenta ser uma pequena entorse. Em menos de uma semana andará sem claudicar.
Victória perguntou sobre Nicole e Lizandra descreveu todos os progressos da afilhada, desde os primeiros dentes, passos e palavras. Estava radiante e tinha fotos da menina na bolsa.

Ivy reapareceu. Victória apresentou Lizandra para a filha do diplomata.

As duas loiras possuíam beleza diferente.
___Estive pensando. Pensei em aproveitar o fim de semana e assistir a algumas mostras de artes e exposições e gostaria de tê-la em minha companhia. Depois, poderá voltar para o interior. Sua amiga pode nos acompanhar, se quiser.

___tudo bem. - concordou Victória.

Lizandra concordou a contragosto. Sabia que não ia conseguir convencer Vick a abandonar seu trabalho.

Almoçaram no hotel e fizeram um passeio agradável entre monumentos, exposições e mostra de artes. Terminaram assistindo a um concerto da orquestra Sinfônica do Estado.

A médica não se afastava de Victória e insistia em ampara-la em si, muitas vezes enlaçando-a com o braço.

___está se comportando como minha namorada. Seja discreta.

___é uma cidade enorme e ninguém nos conhece. - sussurrou-lhe , Liz.___além de que, estou apenas amparando-a e não há nada de mal em uma amiga ajudar a outra.

Victória percebeu que estava errada. Seu receio de ser mal interpretada, não fazia sentido. Se Lizandra não estivesse ali, tinha certeza que Ivy é quem estaria lhe oferecendo o braço.

Na despedida, a jovem Mayakovich ofereceu um motorista para levar o carro de Victória.

___não é preciso. Eu cuido disso. Vim de táxi do interior e poderei voltar dirigindo o carro dela. - adiantou-se Lizandra.

 

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