No caminho de volta, Victória viajou adormecida boa parte do
trajeto. Ao entrarem na cidade, acordou com os solavancos dos quebra-molas
e sorriu.
___é
bom estar em casa.
___será
que vai se acostumar com a rotina de ir e vir de São Paulo
?
___não
será problema. Quando estava no Distrito, muitas vezes tinha
que transitar na capital ou outras cidadezinhas satélites a
mando de Louise.
Chegaram
no condomínio de Victória.
___posso leva-la até sua casa. - ofereceu-se a detetive.
___pensei
que ia me convidar para entrar. Não conheço seu novo
apartamento.
___claro.
- concordou Vick.
O
relógio da parede indicava 23 horas.
___não pensei que iríamos chegar tão tarde. -
comentou Di Angelis.
___mas ainda há tempo de providenciar um jantar leve. - avisou
Liz, apanhando o telefone para encomendar a refeição.
___fique
à vontade. Vou tomar banho.
Dentro
da banheira deliciosa, Victória pensou em Louise. Sentia-se
solitária mesmo com tantas pessoas em sua volta. Rememorou
a Bittencourt tocando a "sonata ao luar" no piano. Depois,
ela ali na banheira, massageando-lhe a pele, enquanto a beijava com
ardor.
Interrompeu
os pensamentos ao ouvir Lizandra entrando no ambiente esfumaçado
pelo vapor da água quente.
Sem dizer palavra, ela despiu-se e mergulhou na imensa banheira acomodando
o corpo contra o de Victória.
___Liz...
Você sabe que não podemos...
___não
diga nada. Deixe fluir. - pediu ela, iniciando a beijar Vick.
Foram
para a cama e ali ficaram até que o interfone tocasse avisando
que a encomenda para o jantar havia chegado.
Depois
da refeição, tomaram outro banho e voltaram para a cama.
Horas depois, exaustas, adormeceram abraçadas.
Um
pequeno raio de luz fez Victória despertar. Havia sonhado com
Louise e ao acordar sorrindo, viu Lizandra aninhada nos seus braços.
Fechou
os olhos pensando em seu erro. Estava carente e cedera à sedução
de médica legista. Não poderia continuar enganando-a.
A relação que tiveram fora intensa e cheia de percalços
causados principalmente pelo ciúme e a indecisão.
A médica, tantas vezes estivera confusa entre assumir para
si mesma uma relação homossexual ou tentar mascarar
o quadro, mantendo sempre seus gentis apaixonados por perto sem desencoraja-los.
O primeiro deles, Henrique, quase meteu um projétil na cabeça
de Victória. Já o segundo, Ângelo, o maníaco
conhecido como "Devorador de Almas", entre outros apelidos,
este fez pior. E a conseqüência do embate contra ele, por
pouco não a matou , mas resultou em seqüelas emocionais
com as quais Victória ainda lutava.
Moveu-se
e ao voltar o rosto, viu o de Louise no reflexo do espelho. Levantou-se
bruscamente e por sorte não acordou Lizandra.
Enrolou-se
no roupão e saiu para a sala. O perfume da Bittencourt ainda
estava no ar.
___Ela
esteve aqui. - pensou.
Foi
até a porta da sala. Abriu e ouviu passos na escadaria. Correu
e em dois pisos abaixo, alcançou-a.
___por
que veio ? - perguntou.
Os olhos azuis escuros cristalinos, brilhavam malvados. Ela mantinha
seu rosto frio e distante, mas um pequeno ricto no canto dos lábios,
denunciavam-lhe a emoção represada.
Victória
estendeu a mão para toca-la e foi atacada inesperadamente.
Louise lhe atingiu o rosto com a mão aberta, chamando-a de
"meretriz".
Atarantada
com aquela situação, Vick afastou-se, tentando defender-se
das mãos de Louise, enquanto ela continuava a atacar-lhe, agora
com mais intensidade.
___porque
está fazendo isso ? Se alguém aqui foi traída,
esta pessoa sou eu. Eu devia odiá-la por ter deixado que eu
a amasse e depois ter se deitado com aquele rapaz, enquanto ainda
freqüentava minha cama.
Louise
parou de ataca-la e empurrou-a.
___porque
fala de amor se o que houve entre nós foi apenas sexo? Não
confunda o sublime com o profano.
Voltou
as costas e continuou a descer as escadarias. Victória tornou
a alcança-la e a apertou contra a parede literalmente.
___não
vai embora sem dizer o que ainda quer de mim. Se para você,
o que aconteceu entre a gente é apenas carnal, profano, então
não deveria se importar que eu procure outro corpo para mitigar
meus desejos.
___o
que quer dizer ? - ela perguntou com ira.
___que
está com ciúmes e não aceita o fato. Você
me deseja tanto quanto eu a você.
___deixe-me
ir. - mandou Louise.
___não
até que diga olhando nos meus olhos que eu não significo
muito para você além de simples transa .
A
Bittencourt tornou a empurrar Victória e sacou um punhal reluzente,
aproximando-o perigosamente da jugular da detetive.
___não
teria coragem de me ferir. - sussurrou Vick, perdendo o fôlego
quando Louise apertou o corpo contra o seu.
___não
é prudente arriscar. - avisou ela com a voz rouca, enquanto
a lâmina descia devagar até a altura dos seios de Vick.
Lá ela rompeu o sutiã, descendo a mão livre para
lhe segurar um dos seios com força.
___está
me machucando. - gemeu Victória.
Em
vão, pois Louise lhe cortou o roupão em tiras com habilidade
fazendo-o cair aos seus pés.
___gosto
de machucar pessoas.
Livrou-se
do sutiã e a calcinha com a mesma destreza. Desceu os lábios
pelos seios, mordiscando-os com os dentes, enquanto a mão livre
apanhava uma das pernas de Victória e lhe forçava a
erguê-la. Desceu mais e instalou-se em seu delta, sugando-a
avidamente, enquanto ainda mantinha erguida com a mão a perna
de sua presa.
Além
de gemer e arfar de tesão, Victória só conseguia
acariciar-lhe os cabelos macios, incentivando-a com palavras obscenas.
Tremeu
ao alcançar o clímax e despencou.
___maluca!
Podíamos ser flagradas na escadaria.
___neste
horário? - disse Louise com um sorriso malicioso, antes de
continuar a descer as escadas deixando-a sozinha sentada sobre o que
restou de seu roupão de seda.
Lembrando-se
finalmente de Lizandra, Vick apanhou suas roupas dilaceradas e subiu
cuidadosamente as escadarias, temerosa de encontrar algum madrugador.
Entrou
na sala e espiou o quarto, sentindo-se aliviada em constatar que Lizandra
ainda estava profundamente adormecida.
4:
30.
As
roupas destruídas, jogou no lixo. Depois, arranjou calça
jeans e camiseta na gaveta do outro quarto e procurou fazer um café
da manhã simples.
6:
15.
Finalmente
Lizandra acordou e veio até ela, acariciando-lhe o rosto para
então beija-lo. Victória voltou a face para o lado e
não a deixou beijar-lhe nos lábios.
___precisamos
conversar sobre ontem. - disse com dificuldade.
O
CORETO, A PRAÇA E OS POMBOS.
O homem velho prestou atenção ao movimento dos carros
até conseguir a chance de atravessar a rua. Morava cerca de
seis quadras da praça , seu objetivo final das caminhadas matutinas.
No bolso do terno, vários comprimidos de tamanhos e cores variados.
Um para o coração, outro para a pressão. O maior
para melhorar o funcionamento hepático e a cápsula vermelha,
para o estômago sensível.
O
reumatismo tornava suas pernas endurecidas, entretanto naquela manhã,
principalmente deveria ir à praça. Sabia com quem se
avistaria. Uma jovem alta e bela, com um chiclete na botina.
9:30 horas, no Escritório.
Araújo
falava e gesticulava em frente à Victória e ela, sentada
atrás de sua mesa, o encarava com expressão de intensa
concentração, entretanto seus pensamentos iam longe
dali.
___...comprou
o carro...sumiu com o veículo...não pagou parcelas...
- ecoava o sócio.
___o
que Louise quer de mim ? porque me procurou e agiu agressiva quando
lhe falei de amor ? - refletia a detetive.
___...localizar...recuperar...indenizar...-
Araújo continuava sua ladainha.
___Quem
teria remetido para Antonio as fotografias Polaroid de Louise com
o misterioso rapaz? Qual a finalidade ? E o dossiê entregue
pelos correios para um redator de jornal ? Quem, porquê ?
___...pagamento...guincho...negociação...parcelamento
da dívida...
___Agora mais esta novidade.O reaparecimento de MIRAGEM. Já
corri risco de vida em outras ocasiões e ela não me
socorreu. Porque se manifestou agora ? Teria voltado da Escócia
? Onde será que anda o médico que a tratava ?- inquiriu-se,
Victória enquanto mantinha os olhos no sócio que conversava
frenético em seu gabinete.
___então
? Vamos aceitar o trabalho ?
___claro!
- respondeu Vick, distraída, fazendo desenhos geométricos
com a esferográfica no "risk-rabisk".
___então
está acertado. Amanhã começamos.
___amanhã começamos o quê ?
Araújo
a observou, sentada diante de uma mesa do tamanho de uma cama de solteiro,
riscando hieróglifos no papel. Quando foram adquirir o móvel,
Victória disse que precisava de uma mesa onde pudesse esticar
os mapas da cidade e região e manipula-los sem dificuldade.
Aquela, quase que não coubera no pequeno ambiente. Para completar,
ainda havia a mesa do computador na lateral, formando com ela um imenso
"L".
O
sócio desistiu de passar a pauta do trabalho para a Di Angelis.
Era melhor iniciar trabalhando sozinho até que ela resolvesse
as preocupações que ocupavam sua cabeça.
___depois
a gente conversa. - disse ele antes de sair e fechar a porta da saleta
particular da sócia.
Victória
voltou às suas indagações.
___Será que magoei Liz ? Pior seria se deixasse as coisas irem
se estreitando e depois rompesse. Melhor assim. Acho que depois de
nossa conversa, as pendências foram resolvidas.
10:
20 horas
Abriu
o dossiê do Justiceiro e consultou o nome do "próximo
executado". No papel estava listada a data do aniversário
das vítimas dos estupradores. Consultou a data mais próxima
e constatou que realmente recairia no próximo mês. Verificou
o nome do rapaz. Nazário. Riscou na folha o nome dos dez executados
e as datas das execuções. Apanhou um mapa do interior
do estado de São Paulo. Percebeu que as mortes ocorreram em
cidades próximas até 100 km do eixo principal: Campinas.
___ele,
o "Justiceiro" mora aqui. - concluiu.
Espalhou
alfinetes em cada município onde houve uma ocorrência.
Não encontrou nada que escapasse do aleatório ou que
oferecesse uma nova pista.
Ligou
o note book sobre a mesa e passou a fazer uma pesquisa.
___Maravilhosa
ferramenta esta internet! - exclamou.
O
interfone tocou e Araújo informou sobre uma visita.
___peça
para entrar. - concordou sem levantar o rosto da tela do computador.
Ela
entrou com seus passos suaves e seu perfume atingiu Victória
em cheio.
___vim
para terminarmos aquela conversa. - disse com a voz modulada e sensual.
Usava
um vestido em tom carmim com gola cinza. Victória raramente
a vira fora de seus longos de festa , blazer ou terninhos.
O
tom carmim do tecido, realçava ainda mais seus lábios
rubros, a cor alva da pele do rosto e as maçãs rosadas.
Parara
defronte a mesa de Victória, olhando-a desafiadoramente por
baixo de seus espessos cílios negros.
De
um salto, a detetive levantou-se e contornou a mesa, travando a porta
do gabinete. Depois enlaçou o pescoço de Louise, cautelosamente,
olhando-a nos olhos em busca de algum sinal de perigo.
___quer
conversar antes ou depois ? - falou-lhe ao ouvido maliciosamente.
___contenha-se
e sente-se, Victória Di Angelis ! - mandou ela, autoritária,
apontando a cadeira para a detetive.
___não
é mais minha chefe. - disse Vick, prendendo-lhe o rosto com
as mãos para beija-la.
Surpreendeu-se
novamente ao perceber que Louise lhe cheirava a pele da face, pescoço
e colo.
___ainda está com o cheiro dela no corpo! - balbuciou.
___não.
Eu e Liz conversamos e decidimos que não haveria como tentar
restaurar nossa antiga relação.
___o
que diz é verdade ?
___oui!
- respondeu Victória, fazendo biquinho com os lábios.
Louise
aproximou-se tanto que a fez recuar até ficar presa entre a
mesa e seu corpo.
___gosto
quando usa blusa com botões. - disse, passando a desabotoar
doce e lentamente a blusa de Victória.
___está
me excitando, Loui ! - avisou Vick.
Ela
sorriu levemente.
___você
usou o apelido que minha professora de balé utilizava para
me chamar. Isso na minha adolescência, tempos atrás.
Claro.
___e
você gosta ?
___oui.
Louise sentou-se na mesa e enlaçou Victória com as pernas,
puxando-a para si.
12:
20 horas.
Estavam
deitadas lado a lado sobre a ampla mesa, com o corpo lasso de prazer.
Louise lhe acariciava os cabelos, tocando-lhe a pele, os lábios,
os ombros.
O interfone tocou e Victória estendeu o braço e atendeu.
___ainda
em reunião ? - quis saber Araújo.
___sim.
___estava
pensando em sair para comprar mais alguns equipamentos necessários.
___tudo
bem. O cheque dos cinqüenta mil reais já foi depositado
e logo será compensado. Temos algum lastro para utilizar.
__não
acho justo ocupar o dinheiro com despesas do escritório.
__eu
chamo isso de investimento. - disse Vick, antes de desligar.
___a
filha do diplomata lhe deu cinqüenta mil reais como prêmio?
- perguntou Louise, franzindo levemente a testa.
___uma
recompensa por ter evitado o seqüestro.
___é
correto. Os pais dela teriam que pagar uma pequena fortuna aos seqüestradores.
___mas
eu acredito que o vencimento de um diplomata ucraniano não
deve ser muito para justificar o padrão de vida que Ivy tem.
___É
simples. A mãe de Ivy é uma empresária alemã,
dona de construtoras na Europa e no Brasil. Daí a explicação
para a fortuna que sustenta a filha. - explicou a Delegada.
Louise
vestiu-se rapidamente e seus olhos pararam sobre o maço de
papel espesso no escaninho no canto da sala e pela expressão
séria, Victória concluiu que ela percebera do que se
tratava.
Apanhou
os papéis e os inseriu na valise com chave. Depois, meteu-se
dentro da calça jeans e vestiu a blusa.
___o
dossiê sobre "O Esquadrão de Justiceiros" ?
Onde conseguiu as cópias ?
___talvez
do mesmo elemento que copiou o meu relatório sobre Douglas
Rusemberg e os jogou nas mãos de um redator de jornal. - ironizou
Victória.
___não
estou entendendo.
___Pensei
que o Edgar havia lhe alertado sobre isso. - iniciou Victória,
revelando sobre o relatório que fora remetido pelo correio
para um redator e acabou nas mãos de José Rusemberg.
___não
estava sabendo de nada. - afirmou Louise com o rosto sério.___não
poderia imaginar que alguém dentro do Distrito Policial poderia
ter feito esta sabotagem. Agora que estou afastada, tenho que ser
paciente.
___e
eu perdi um cliente, no entanto estamos conseguindo tocar o escritório.
___estranha
coincidência. Observe. Alguém remeteu àquelas
fotografias para o Antonio. Depois, houve a entrega de cópias
do seu relatório para o redator. Qual seria o objetivo que
moveria os autores destes atos?
___As
fotografias, certamente para causar a ira do meu pai e possivelmente
dar cabo do seu casamento. O relatório, para fazer com que
José Rusemberg retirasse sua proposta e fizesse o meu escritório
que havia sido incendiado criminosamente, a pouco, ir para a bancarrota.
___faz
sentido. Neste caso, alguém que não apreciaria seu sucesso
profissional e meu casamento, poderia estar por trás destas
sabotagens. - concluiu Louise.
___alguém
que gostaria que eu acreditasse que você estava me prejudicando.
- emendou Victória.___e agora acabo de me lembrar de quem fez
questão que eu soubesse de primeira mão que você
vetara o meu reingresso na corporação. Isso seria forte
motivo para que nós brigássemos, afinal, todos sabem
o quanto prezo a carreira policial.
___quem
revelou ? - perguntou Louise.
___Ana
Beatriz. Você sabe o quanto ela não consegue controlar
a veneração fanática por você e a aversão
por mim, pois me vê como um obstáculo entre ela e você.
___no
entanto sei que ela a ajudou no caso do seqüestro.
___porque a convenci que você a admiraria.
___se
Ana Beatriz me seguiu para fazer aquelas fotos e desviou o seu relatório
para prejudica-la, Ela foi longe demais. Vou procura-la para conversar
e esteja certa de que a farei confessar. Além do mais, quero
ter certeza de que não haverá cópias daquelas
fotografias circulando pela cidade. - disse Louise com voz alterada.
___tenha
calma. - pediu Victória, enlaçando-a nos braços.___não
precipite nada. Suspeitamos que um ou mais policiais estejam envolvidos
no "Esquadrão de Justiceiros". Não fale com
a Beatriz antes de elucidarmos alguns pontos. Nunca sabemos quem poderia
nos esfaquear pelas costas. Por enquanto ela a venera, mas sob pressão,
não se sabe o que será capaz, se estiver envolvida nos
crimes. Devemos ser prudentes.
Louise
respirou fundo e pareceu aceitar a sugestão de Victória.
Em se tratando de Ana Beatriz, poderia usar a sutileza e extrair dela
aos poucos o que desejasse. Tinha que manter a calma.
___porque
está com o dossiê? - perguntou a Bittencourt, insistindo
em saber como Victória o obtêra.
___Edgar me entregou cópias das principais peças. Aceitei
o caso.
___Edgar?
Mas como ele pôde agir desta forma? Está infringindo
normas pétreas do regulamento da corporação.
___mas
é seu amigo e quer que o caso seja elucidado antes que o pior
aconteça.
___está
querendo dizer, o pior para mim, a principal suspeita?
___sim.
Louise caminhou pela sala, nervosa.
___Edgar
não deveria ter agido sem me consultar.
___ele
sabia que você não aprovaria e eu não estou disposta
a abrir mão deste caso até descobrir quem está
querendo arruinar sua vida.
___e
homenagear você com um acróstico macabro.
___novamente
nós somos o alvo. Só que desta vez o ataque está
direcionado a você. - concluiu Vick.
Louise
a olhou intensamente nos olhos.
___você
não precisava aceitar investigar o caso. Eu a botei literalmente
para fora da polícia.
___e
eu não entendo suas razões, entretanto, não consigo
imaginar que alguém ou uma quadrilha inteira esteja conspirando
para destruí-la. Nos fizemos um pacto de proteção
mútua, lembra-se ?
Louise
abraçou Victória com força.
___eu
tenho que dizer que se conseguir elucidar este caso o mais rápido
possível, antes que o pior aconteça, - ponteou -___não
haverá quantia em dinheiro que poderá recompensa-la.
Contratei um verdadeiro exército de investigadores e detetives
particulares para trabalharem na coleta de provas e indícios
para minha defesa. Isso sem contar os melhores advogados. Entretanto,
eles não possuem o dossiê que você tem pois este
pertence aos arquivos policiais. Devo confessar ainda que desejei
que você também participasse das investigações,
mas temia que se pedisse, você me negaria.
___No
princípio, se me pedissem para trabalhar na investigação
particular do caso "Esquadrão de Justiceiros", eu
certamente ficaria furiosa. Mas agora tudo mudou. Estão tentando
incrimina-la e pretendo trabalhar com toda minha energia para impedir
que isso aconteça. - respondeu Vick.
A
Delegada apanhou sua bolsa e dirigiu-se à porta.
Sem voltar o rosto para Victória, disse antes de sair:
___as
pessoas esperam de mim no mínimo, força e proteção,
sem perceberem no entanto, que muitas vezes, eu também poderia
estar necessitando de um pouco de apoio, proteção ou
compreensão.
Abriu
a porta e olhou mais uma vez para Victória. Seus olhos expressivos
pareciam querer revelar algo que os lábios não ousavam
mencionar.
Saiu.
SINAPSES
Não sentia ira. Apenas um sentimento tênue como todos
os outros que lhe acometiam. Mas agiria até o fim. Método
e atenção nos detalhes sempre garantiam resultado. O
luminoso em néon defronte à janela lhe atraía
o olhar sedutoramente. O pulsar da luz lhe inebriava. Música
para si, matemática sonora.
Fez a composição de Beethoven tocar repetidamente, tentando
entender como poderia o soar em desigual, compasso truncado e movimentos
imprevisíveis, imperfeitos, suplantar o alinhamento e sincronia
que produzira com os dedos ? O pulsar fazia suas mãos vibrarem,
enquanto sob a serenidade imóvel de seu eu, descargas elétricas
lutavam, gerando incógnitas, verdades e finalmente ação.
Sinapses e insights.
Invadir , deletar e desaparecer. Sete. Ainda sete para o final. Porque
Louise ? Ela possuía o motivo para a vingança. Com o
motivo, a suspeita. Para um crime, motivo, autor, meios.
Seria o quebra-luz adequado.
Victória significava a matriz de onde coletava tudo que precisava.
Ferir Louise representava atingir Victória. Ao atingir Victória,
desencadearia o movimento e o despertar.
Moveu as peças no tabuleiro de xadrez.
O NOME DO ENFORCADO
Novamente
Mariana Moraes a repórter sensacionalista fez publicar uma
matéria fantasiosa.
Afirmava ter provas de que o "Enforcador Justiceiro" era
na verdade o "Anjo Vingador", matador que fazia parte da
seita do "Devorador de Almas". Comparou os eventos de enforcamento
dos crimes, alegando que possuíam uma certa uniformidade.
___eu vi o corpo mutilado do "Anjo Vingador" e sei que está
morto. - lembrou Vick.
A
reportagem seguia falando sobre as prováveis datas dos próximos
ataques. Não citou as sete iniciais que faltavam.
___alguma
informação do 4o DP, vazou mas ela ainda não
sabe sobre a relação que há entre meu nome e
as iniciais dos nomes dos próximos executados. - concluiu Victoria.
___o todo poderoso do 4o DP deve estar furioso, afinal, o atual Seccional
Substituto de Louise vai cobrar a responsabilidade sobre o vazamento
de informações.
Fechou
o jornal e ficou pensando no rumo novo que sua vida se enveredou.
Sentia saudade da atividade policial, mas não podia queixar-se
das vantagens de trabalhar em negócio próprio. Além
do mais, tinha aquele outro fator importante que não atinara
nos cinco anos em que trabalhou como policial : não conseguiria
manter o padrão de vida atual somente com o que ganhava na
corporação.
Julia
ligou, convidando Victória para o jantar em sua casa.
___venha
preparada para pernoitar. - avisou.
Vick
sorriu antes de desligar o telefone. Naquela noite, tornaria a ver
Louise.
Ligou
para o salão de estética que costumava freqüentar,
marcando massagem, hidratação dos cabelos, corpo e outros
serviços.
Consultou
o relógio e percebeu que esquecera a hora do almoço,
tão concentrada que estava em seus apontamentos.
Na
calçada, aborreceu-se com um chiclete que lhe colara na sola
da bota. Atravessou a rua e sentou-se no banco da praça para
retirar a incomoda goma com um pequeno graveto.
Um
senhor velho sentou-se calmamente ao seu lado e abriu o jornal.
___tanta
bobagem a imprensa publica. - comentou.
___é
verdade. - concordou Victória.
___principalmente
neste caso de enforcados. Datas totalmente truncadas.
___como
?
___é.
A polícia nunca conseguiu descobrir a data certa das mortes
até que elas acontecessem. Tem muito molestador por aí...
Victória
raciocinou e concluiu que o homem poderia ter razão.
___a
data da próxima execução é nesta sexta-feira
e o nome do enforcado é Edson. - informou o homem idoso com
estranha barba de duas pontas.
___como
o senhor sabe ? - Victória inquiriu incrédula.
___li
neste jornal, o CLARA EVIDÊNCIA.
___não
estou vendo nada aqui.
___é
que eu li no jornal do sábado próximo.
A
Di Angelis relaxou. Apesar da aparência distinta, o homem tinha
alguns parafusos soltos na cabeça.
O
desconhecido levantou-se e abanou o pó de seus sapatos e barra
da calça. Vestia-se de terno e gravata impecáveis no
melhor do estilo "Anos Dourados".
___e
no jornal do fim desta tarde, vai sair que os números premiados
na sena são os deste bilhete aqui. Anota aí.
Mostrou
um bilhete que trazia no bolso com os números 25, 03, 41, 32,
11, 10.
___não
preciso anotar. Tenho boa memória. - desculpou-se Victória.
___Eu
sei. - riu ele. ___mesmo assim vou anotar aqui na madeira atrás
do banco que é para você conferir mais tarde.
Riscou
e virou-se, apontando uma palmeira.
___vai cair. Tem cupim atacando a raiz e tombará no chão
amanhã cedo.
___como
sabe ?
___eu
tenho o hábito salutar de caminhar pelas manhãs. Então
compro o jornal todos os dias naquela banca ali e sento-me aqui para
ler. A palmeira, eu vi a no chão.
___na
manhã da quarta-feira ?
___é
isso. Agora deixa ir porque tenho que fazer uma doação
para a caridade.
Victória
sorriu e caminhou até o estacionamento onde deixara o carro.
Trabalhar em um escritório no miolo do centro velho, em frente
a uma praça com coreto, tinha suas peculiaridades. Cada dia
encontrava com um lunático ou um mensageiro do fim dos tempos.
NAQUELA
NOITE
Os
beijos ardentes de Louise, tiravam Victória dos eixos. O jantar
da noite de terça-feira fora esplendido.
Exceto, por um suave contratempo: a presença da convidada de
Leandro , Miranda Nogueira, por quem Victória sentia estranha
antipatia que intuía ser mútua.
Julia
conversava expansiva, contando detalhes da aula de esgrima e equitação.
Leandro
tentava sem muito sucesso, fazer Miranda rir de suas anedotas. Interessante
como a jovem policial considerada possuidora de um quociente de inteligência
acima da média, não conseguia entender o que havia de
hilário nas descrições feitas pelo rapaz.
___Ela
é sempre tão séria assim ? - perguntou Victória
em voz baixa para Louise.
___sempre.
___conhece
a família dela?
___até
onde sei, nasceu e morou até os dezoito anos no Espírito
Santo. Depois migrou para São Paulo onde passou a trabalhar
com eletrônicos e informática, sua principal habilidade.
Fez academia e agora trabalha no 4o Distrito Policial. Os pais moram
atualmente na Argentina.
___então
está sozinha na cidade ?.
___Sim. Vive em um kitnet alugado e mantém o comportamento
arredio e ostracista. Os colegas do Distrito a convidam para sair
ou excursionar, mas não aceita. Poucas coisas a interessam
além de praticar tiro no estande ou passar horas em frente
ao note book.
___mas
aceitou vir para o jantar, o que é um bom sinal de sociabilidade.
___acho que gosta de Leandro. - concluiu Louise.
___algo
na forma como ela age, me parece familiar.
Louise
sorriu encantadora.
___Vou
dizer o que pode estar lhe parecendo familiar. Observe como ela encaixa
o dedo indicador paralelo à face com o polegar apoiando o queixo,
além da forma de franzir o cenho e fechar levemente os olhos,
em atitude de grande concentração, enquanto ouve Leandro
?
___Sim.
Estou observando.
___é
exatamente o gesto que você costumeiramente faz quando está
concentrada, procurando entender algum assunto.
Victória
atinou que Louise tinha razão. Depois viu Miranda mexer nos
cabelos, observar as mãos e tamborilar suavemente os dedos
sobre a mesa, gestos estes tão semelhantes aos seus.
___talvez
sejamos parentes. - riu Victória, divertindo-se.
Os
bicos dos seios de Louise estavam túmidos de excitação
de forma que marcavam a blusa que usava.
Ao
percebe-la naquele estado, Victória ansiava pelo momento em
que a teria nos braços.
Todos
levantaram da mesa e procuraram ocupação diversa para
a noite.
Victória
foi jogar tênis com Louise e Julia. Leandro, convidou Miranda
para caminhar pela extensa propriedade.
Tarde,
retornaram para a casa principal e o grupo dispersou-se.
Leandro
acompanhou Miranda de volta para a cidade e as demais, foram se preparar
para deitar.
Di
Angelis demorou-se no banho e quando saiu para o quarto enrolada na
toalha, encontrou Louise que já a esperava impaciente.
___vista
seu roupão e me espere aqui. - sussurrou-lhe ao ouvido, mordiscando-lhe
levemente o lóbulo da orelha.
Saiu.
Victória
hidratou a pele, perfumou-se suavemente e deitou na espaçosa
cama de casal de seu quarto. A grande janela aberta, exibia o glorioso
luar que tingia de prata a silhueta das árvores e a noite cálida
transbordava com a fragrância da seiva dos pinheiros.
Fechou os olhos e esperou. Era doce imaginar acordar todas as manhãs
perdida nos lençóis frescos com Louise aninhada em seus
braços.
A Bittencourt expandira a fortuna que herdara dos pais e vivia metida
em reuniões demoradas com os diretores de suas lojas, fábrica
e indústria de cosméticos e perfumes.
Administrava
a tudo com mão de ferro e intuição. O período
em que ficara afastada da polícia, cuidando do frágil
estado emocional de July e das buscas incansáveis do corpo
da policial tida como morta, a fez dedicar-se mais aos negócios
da família.
Certamente
encontrara atividades irregulares, desvios de verbas e corrupções,
pois afastara vários diretores e gerentes de seus cargos.
Novamente
afastada da atividade policial, por conta das suspeitas de que liderasse
o "Esquadrão de Justiceiros", a Bittencourt mergulhara
fundo nas reuniões empresariais, viagens a negócios
e dedicação à filha única.
Aparentemente
não possuía tempo nem para o lazer, nem para o amor,
mas conseguia desembaraçar-se de suas responsabilidades diárias
com habilidade e ainda dedicar-se ao prazer com Victória.
Nem que para isso tivesse que lhe invadir o apartamento na madrugada,
gabinete de escritório ao meio-dia ou procura-la no quarto
naquele exato momento.
___Dian! - chamou, antes de deitar-se sedenta sobre o corpo macio
de Victória.
Nunca
se amavam da mesma maneira.
Encontravam sempre um detalhe novo, um ponto que ainda não
fora explorado pelas mãos febris ou reentrância ainda
virgem aos lábios vorazes e a língua invasora.
Victória
embriagou-se da alegria estonteante causada pelo prazer que as exauriu.
Acomodou-se langorosa no leito, guardando entre os braços,
o corpo adormecido da mulher que amava.
Naquela
noite em especial, tentara lhe falar sobre amor, mas ela a impedira,
bloqueando-lhe as palavras com seus beijos ardentes, possessivos.
Na
madrugada, Louise despertou Victória com carícias íntimas
e pequenas palavras sussurradas. Queria o prazer ainda uma vez mais
antes que amanhecesse.
Nuas,
sentadas no leito com as pernas enlaçadas, reiniciaram as carícias
e os beijos até serem interrompidas abruptamente.
A
porta que nunca era trancada, abriu-se e a figura esguia e pálida
de Julia entrou, sufocando o grito histérico na garganta quando
seus olhos divisaram na penumbra do quarto, o corpo de sua mãe,
entrelaçado no de Victória.
___Júlia
! - chamou Louise, antes que a filha batesse a porta com estrondo
atrás de si.
Louise
moveu-se felina em busca de seu roupão e ao vestir-se, voltou
o rosto lívido para Victória.
___o que Júlia veio fazer em seu quarto a esta hora da madrugada
?
Sua voz amante, esfriara-se.
___eu
não sei! - balbuciou Di Angelis, chocada.
Louise
saiu do quarto com passos rápidos e Victória levantou-se
para se vestir e arranjar suas coisas na mochila.
Não
ia conseguir ficar mais um minuto na casa . Sabia que aquele flagrante
poderia causar uma crise entre mãe e filha.
Uma cisão familiar e era responsável por isso, mesmo
que involuntariamente.
No
caminho para a cidade, avaliou a situação com mais cuidado.
Sabia que a educação de Julia era moderna e a jovem
certamente já havia se deparado em sua curta experiência
de vida, com pessoas de comportamento sexual diverso do padrão,
tanto no Brasil quanto na Europa.
Só havia um agravante.
Sabia que Julia tinha um apego e ciúme visceral a respeito
da mãe. A garota tinha conhecimento de que Louise tivera namorados,
mas não gostava de tocar no assunto.
Por
mais este motivo, Antonio Di Angelis não ficara satisfeito
com a volta da adolescente da Europa, pois sabia que sua intimidade
com Louise se extinguiria por completo.
Júlia também não se mostrou contente em encontrar
Antonio dentro de sua casa, mas tolerou-o pois já sabia do
distanciamento afetivo de sua mãe para com o padrasto.
Em seu apartamento, Vick deitou-se e tentou conciliar o sono. Dormira
apenas duas ou três horas na noite e madrugada anterior. Acordou
com o despertador marcando oito horas da manhã.